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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe livresca

rabiscado pela Gaffe, em 05.12.16
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Sinto sempre uma certa tristeza quando olho para aquilo que outrora foi acarinhado por mim como relíquia a conservar pela vida fora e que agora, embalado e atado, é apenas importante porque o foi no passado.
 
Vou levar comigo livros velhos de histórias menores, com capa de couro, lombadas com letras douradas e rebuscadas, folhas carcomidas e cheiro a mofo.

Pertenciam à minha gente. Gente que nunca poderia conhecer. Pessoas que morreram antes do meu avô ter nascido.

Há uma imensidão deles, colocados nos pesados armários do sótão, exactamente como os tinha guardado quando os descobri, já lá vão dez anos. Na altura, pensei que tinha encontrado, não um acervo valioso, mas belíssimos pedaços de memórias que se inscreviam nas margens das folhas pelos donos destes livros. Lembro-me das anotações a tinta, numa letra tombada e toda floreada, num livro de receitas de alguém que me parece ter dominado a cozinha em tempos idos.

Esse não vai.

Vão os que trazem pequenas anotações acerca de Voltaire, de Diderot, de Balzac e um ou outro de autores menores, mas que mereceram apontamentos extraordinários, mais outro que sublinha e comenta os soneto de Camões - tão mal amado e tão mal interpretado por Voltaire.

 

Isto de ter de escolher pedaços de memória é doloroso.

 

Sei que os livros que ficarem se vão deteriorar irreversivelmente. Custa-me deixar para trás os volumes que foram importantes e acarinhados por alguém, um dia, no passado. Parece-me que os desrespeito, aos livros e aos antigos donos, mas há memórias que devemos embalar e levar connosco e outras que, por muito que lamentemos, devemos deixar ficar ao abandono.

 

Até nestas decisões derradeiras as bibliotecas são parecidas com a vida.

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15 rabiscos

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De Rapunzel a 05.12.2016 às 14:22

Lamento informar mas mais um texto maravilhosamente escrito. Sinto o mesmo relativamente aos livros, mas acho que no meu caso, é só com os livros. Porque sempre os amo e amei.
Sinto sempre uma tristeza imensa quando vejo livros em alfarrabistas que já pertenceram a alguém, e agora, se encontram ali ao abandono. À espera que surja, talvez, outra vez alguém que os ame de novo. Mas compreendo que essa selecção tem que ser feita. É mesmo como na vida, uma sucessão de escolhas... Ganha-se sempre algo, mas também, há algo que sempre se perde. Por isso é que é uma escolha. E por isso é que é sempre tão difícil escolher tudo o que envolva apego e sentimento. Pelo menos para mim, é terrivelmente difícil...
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De Gaffe a 05.12.2016 às 14:53

É o despertar daquela melancolia que antecede a tristeza imensa do abandono.

Mas é uma escolha que temos de fazer.
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De Rapunzel a 05.12.2016 às 15:19

Outro livro magnífico, só me lembrei porque olhei para ele agora:
Em movimento - Uma vida.
A biografia de Oliver Sacks.
Interessantíssimo. E que ser humano maravilhoso!
Desde muito pequena que gosto imenso de biografias. Aprendo sempre alguma coisa com a vida dos outros. E então quando têm esta vertente humana arrebatadora.
Há seres humanos excepcionais!!!

P.S.-Tenho algum receio de estar a ser demasiado e elaboradamente interventiva. Se for o caso, por favor, não hesite em mo dizer. Voltarei a ser uma leitora silenciosa.
:))
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De Gaffe a 05.12.2016 às 15:36

Mal conheço O. Sacks.
Tenho de o procurar também.

Não esqueça que a interacção com os bons leitores é uma das mais interessantes e importantes contribuições de um blog. É o caso.
:)

(Interagir com os maus leitores é um erro)
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De vilipêndio a 06.12.2016 às 06:54

Também sou fascinado por biografias e não pude deixar de comentar, visto que li a biografia do Dr. Sacks há uns meses atrás. É, de facto, brilhante. Uma vida bem vivida e sempre orientada por um objectivo, o de decifrar o que é isto de estar vivo.

O livro mais marcante da carreira literária deste neurologista é o Despertares (que deu origem ao filme com o de Niro e Robbin Williams),e é absolutamente fascinante. Recomendo! (deixo-vos aqui um post que fiz acerca do mesmo - vilipendio.blogs.sapo.pt/a-licao-do-dr-sacks-14889).

Parabéns pelo excelente post e pelo blog. Passei a ser seguidor!
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De Gaffe a 06.12.2016 às 07:37

Infelizmente não li. Mal conheço o autor, embora reconheça o profissional. Tenho de colmatar esta lacuna.

Seja bem-vindo.
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De anacb a 05.12.2016 às 22:20

A minha ligação com os meus livros é absolutamente visceral, mesmo com os acabados de comprar, com os que peço "emprestados" à minha mãe, e até com aqueles de que não gostei nada. Não tenho uma ligação tão grande com outros objectos como a que tenho com os livros (excepção feita a alguns objectos com grande, grande valor sentimental). Acho que deve ser qualquer coisa de patológico.
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De Gaffe a 05.12.2016 às 23:29

Os livros são aditivos. Não deixam de ser objectos, mas absorvem emoções.
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De Maria Araújo a 05.12.2016 às 22:33


Um final de blog triste, Gaffe.
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De Gaffe a 05.12.2016 às 23:28

Um final do post.
O blog ainda não tem fim à vista.
;)
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De Maria Araújo a 06.12.2016 às 00:38

Desculpe, ahahahah!
Post, claro!
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De Pequeno caso sério a 05.12.2016 às 23:30

..."há memórias que devemos embalar e levar connosco e outras que, por muito que lamentemos, devemos deixar ficar ao abandono."

Tão verdade, minha querida!

O problema é quando a bagagem que transportamos se torna demasiado pesada.
Não são escolhas. São tatuagens que vão ficando. Impossíveis de remover. Às vezes basta um cheiro, um vulto , um som e eis que a memória- que não é uma faculdade lá muito obediente - trata de nos... desarrumar .
Não são escolhas. É a vida.

:)*



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De Gaffe a 05.12.2016 às 23:32

Eu sei.

Mas a vida é também uma sucessão de escolhas. Escolho escolher em vez de tatuar.
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De Patrícia a 06.12.2016 às 14:17

Gosto de livros usados, escrevinhados, dobrados, amados. Gosto muito. Faz-me confusão que haja quem não pode deixar uma marca num livro, que acha que os livros são objectos preciosos e intocáveis. Sim, são preciosos precisamente por serem tocados.
Gosto muito de livros com notas de outras pessoas 
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De Gaffe a 06.12.2016 às 14:25

Não tenho o hábito de apontar o que quer que seja nos meus livros - raramente o faço, - mas é maravilhoso encontrar apontamentos que chegam de tão longe e tão cuidados e tão inteligentes, com tanta distância temporal, nos que escolhi e recolhi agora.

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