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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe na alta-costura

rabiscado pela Gaffe, em 03.06.14

A Casa Chanel informou que iria dispensar cerca de 10% do seu pessoal. O número é oficial e está evidentemente falseado, porque é maior. Os despedimentos atingem, como é lógico, o pessoal menor, ou seja, as meninas e os meninos das diferentes lojas espalhadas por aí. 
Tenho de admitir que apesar de não serem dos piores (as pretensiosas da Casa Cartier só nos atendem depois de nos avaliarem por uma janelinha), não lamento estas criaturas. 
São todas pedantes e acham-se todas encarnações da fundadora da Casa. Olham para nós, mortais, como se estivessem com luvas cirúrgicas enfiadas nos olhos e há algumas que se atrevem a recusar mostrar aquela tralha toda chic porque consideram (e dizem-nos descaradamente) que o preço nos transcende.
Quando comprei o presente de aniversário para a C. tive de me enfiar na Hermès. Esperei uma data de tempo que um rapazinho todo aperaltado e maneirinho se dignasse olhar para mim. Depois de me ter avaliado pelo canto do olho, decidiu que me devia ignorar durante cerca de dez minutos. Andou de lado para lado a arranjar coisinhas nos escaparates e a dobrar uns lencinhos minúsculos que juntos valem mais do que aquilo que ele ganha numa década e só quando comecei a mexer e a desarrumar tudo o que estava alinhadinho é que se dispôs a perguntar-me se podia ajudar. 
- Podias, seu patego, há dez minutos atrás, mas agora quero que enfies as tampas dos perfumes onde te doer menos. Vai dobrar paninhos, seu maricas afectado. 
Isto fui eu a pensar, porque me limitei a dizer o que queria com uma cara de quem tem dinheiro, ou seja, com cara de moreia presunçosa.  
O rapaz convidou-me a sentar numa poltrona e começou a abrir uma data de lenços na minha frente como se fosse uma odalisca ensandecida. Disse-lhe o que estava disposta a gastar e o imbecil mandou-me levantar e dirigir-me à menina ao lado. A mulher atendia os pobres.  
Vi-me doida para a fazer entender o que queria porque a sofisticada parola insistia em me mostrar apenas o que era equivalente a uma parte substancial do meu ordenado. Acabei por largar um terço do dito. A C.merece (e lembro que eu também faço anos...).
Por estas, e por outras, é que me me estou nas tintas para estes despedimentos e para dizer a verdade, gostava imenso de apanhar o rapazinho que me fez levantar o rabo da poltrona Hermès para o convidar a pousar o dele nos banquinhos dos jardins onde se sentam os outros desgraçados, esses muito mais trágicos, que estão desempregados e não arranjam coragem para voltar para casa, nem meia dúzia de euros para comprar lenços de papel.

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