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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe nevada

rabiscado pela Gaffe, em 12.07.17

Ava Gardner by John Engstead.jpgÉ uma das amigas da minha irmã. Alguns meses mais velha do que ela, casou aos vinte e sete anos permanecendo grávida durante os cinco primeiros de felicidade partilhada. Sucessivamente grávida. Ano após ano.

Colegas de curso, as duas percorreram estradas diferentes. A minha irmã ignorando por completo a prazenteira perspectiva de constituir família, trocando esta bagatela por uma carreira de diamante, a amiga desistindo da profissão a favor de cinco crianças e de um marido escandalosamente rico.  

 

Comprou um velho e abandonado palacete no Norte. Veio de Lisboa, da Estrela, entregar o projecto de recuperação à única arquitecta em que confia. Não o agarra, porque já nem sabe ler a planta de um cubículo - confessa, com a curta farpa de um orgulho estranho espetada no sorriso.

 

É uma mulher bonita, sem ser deslumbrante, ou então o fascínio e o brilho que poderá reter, são asfixiados pela figura da minha irmã que não esconde o desprezo que sente por uma criatura capaz de abdicar de um projecto de vida próprio em nome dos projectos de vida seja de quem for. É quase embaraçosa – e muito cruel - a forma como a minha irmã a olha, com uma ameaça latente no azul metálico e cínico do olhar, e exibe uma pretensa superioridade intelectual invadindo a amiga com questões que a pobre devia dominar, mas que a tornam imbecil, serigaitando num nervosismo tolo ao admitir que já se esqueceu das respostas, fazendo saltitar risadinhas que esbarram com a indiferença que sorri eivada de maldade da interlocutora.  

 

O óptimo seria que se desse como finda a recuperação depois do Inverno.

 

- nêv - informa, acrescentando que poderia ser agradável depois do frio passar uma primavera mais bucólica.

 

Olho as duas mulheres, sentada no sofá da minha atenção mais picuinhas.

Podiam ser, de modo brutal e sanguinário como apenas as grandes amizades o sabem ser, inimigas mortais, porque pertencem ao nicho onde só habitam predadores.

São ambas detentoras de um capital simbólico elevadíssimo. As duas pertencem ao que, muitas vezes como insulto, se chama elite dominadora. São igualmente sofisticadas, igualmente loiras, igualmente elegantes, igualmente ricas. Não há grande matéria que as separe.

São portanto amigas.

 

o único estilhaço que as separa, encontro-o eu num destino de Inverno.

- Vô pá nêv.

A outra não.  

 

Foto - Ava Gardner por John Engstead

 photo man_zps989a72a6.png

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Gavetas:


8 rabiscos

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De Pequeno caso sério a 12.07.2017 às 14:18

Vai pá nev ... mas não sem antes usar o tefone e avisar a criadage para não se esquecer de pagar a conta da létcidade.
Uma canseira.
Não admira que tenha de ir pá nev descansar.

; )

(Tenho para mim que essa estirpe de ' ssoas que vai pá nev , passa a vida a "ir" e a "estar" numa fuga constante de si mesmas. NUNCA se tem tudo. Mesmo que de tudo se povoem os dias.
É por estas e por outras que uma das minhas missões nesta vida é ensinar a minha filha a NUNCA abdicar de ser o que QUISER em prol de quem quer que seja. O valor da independência -financeira mas acima de tudo de espírito - é uma das coisas que mais prezo na vida. Pelo que vou observando, tenho feito um bom trabalho.)
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De Gaffe a 12.07.2017 às 14:50

Apesar de tudo, esta "'ssoa" não é tão totó como referes.
:)
acaba por encantar. É extraordinária a inocência com que vive os dias.

... É distraída.
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De Kalila a 12.07.2017 às 20:21

Tenho uma ilustre familiar, moradora na casa dos pais com piscina e jardim enormes, formada em arquitetura, estudiosa frenética de neos-classicismos e outros que tais que nem sei nomear e que, farta de nunca mais conseguir ser independente, eis que resolveu canditar-se a caixa de um supermercado. Pois que conseguiu! Foi só questão de tirar o curso do curriculum e apresentar-se como uma vulgar pessoa que fez a escolaridade obrigatória.
Lá está feliz da vida, no meio dos pipis da máquina e a pensar tirar outro curso que não tenha que ser extraído do curriculum. Já viu quão diversa realidade, rodando pela mesma formação?
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De Gaffe a 12.07.2017 às 20:46

Reconheço que sim.
A minha irmã nunca exerceu arquitectura neste país. Por privilégio, admito, colabora e assina obras realmente notáveis, mas não aqui.
Nunca foi reconhecida "dentro de portas" e, no entanto, a assinatura dela parece valer ouro, por exemplo, no Japão, onde é tratada como uma reverência espantosa.

Este país não é para arquitectos.
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De Pedro Wasari a 13.07.2017 às 11:23

Cara Gaffe

A verdade é que este país não é para ninguém

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De Gaffe a 13.07.2017 às 13:40

Ah! É para alguns. É um país muito selectivo.
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De Maria Araújo a 13.07.2017 às 16:44


Gosto de ler estas histórias, Gaffe.
Sem mais palavras.
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De Gaffe a 13.07.2017 às 18:08

E eu gosto que as leia.
;)*

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