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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no vosso reino

rabiscado pela Gaffe, em 01.02.17

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Toquem os sinos a rebate! Anunciem a boa nova! Rejubilem!

 

A Gaffe emergiu resplandecente depois de se ter retirado para acrescentar valores à sua biblioteca - versão Portugal dos pequeninos.

Durante este retiro espiritual, a Gaffe foi adicionando cromos à sua colecção de citações, saltaricando de Citador em Citador até considerar que o reunido continha a aura de intelecto capaz de impressionar o mais valente literato.

 

A Gaffe acredita de forma pia que acumular frases assinadas por consideráveis vultos de valoroso estatuto intelectual - mesmo que os pobres não as tenham escrito, ou que o tenham feito apenas para as desconstruir nas páginas seguintes -, equivale a conhecer de modo profundo o pensamento do suposto autor. Um processo de equivalências muito em uso em algumas faculdades privadas do país.

Citar, por exemplo, Sartre - O inferno são os outros - é suficiente para atestar a nossa intimidade com O Ser e o Nada e traz implícito o nosso convívio com Camus, Kierkegaard e até, com algum esforço, com T.S. Eliot.

 

A Gaffe considera de utilidade pública o processo que nos leva a resumir milhares de páginas a uma frase gira, colhida algures no meio delas, que em certas circunstâncias nos ajuda a levar a água ao nosso moinho - esta rapariga passou uma temporada muito bucólica, como se depreende - e é sempre agradável para o leitor ficar arrepiado com a grandeza que escorre dali - embora descontextualizada, raquítica, enfadonha, decepada e isolada -, porque supostamente alicerça, justifica, iliba e glorifica as mais miseráveis fraquezas e impotências, para além de se ficar com imenso tempo para a atirar às chamas do inferno que são os outros.  

 

Este maravilhoso processo de pechisbequice literária tornou-se banal e está acessível a todo o género de criaturas cultas. Basta abrir um site de quotes e cotizar as que nos são úteis, publicá-las e esperar que nos coloquem na cabeça o esplendor dos avisados que sabem, por interposta pessoa, castigar os infernais.

 

Não é de todo obrigatório ler a obra onde é pescada a cintilante citação. Basta que se veja o que se quer no meio do que se não vê.

 

A Gaffe é apologista - podologista, como diria a Mélinha – da pechisbequice literária, porque para tratar de uma cortada unha do pé da literatura universal não é necessário estudar o Harrison e congratula-se ao perceber que os senhores responsáveis pela selecção do obras a incluir no Plano Nacional de Leitura e os papás que o seguem pensam o mesmo. 

 

É cansativo perder tempo com valter hugo mãe - e a Gaffe não morre de amores pela sua escrita nem se deleitou com a obra causadora de tanto disparate - sabendo-se que o rapaz já ganhou o prémio Saramago. Um vislumbre pela sinopse de um livrito é suficiente para o encaixar algures.

É inútil ler a obra inteira, embutida desta forma num Plano atrapalhado com tanto cavalo à solta - minha alegria, minha amargura minha coragem de correr contra a ternura - se conseguimos fazer pairar, desamarrada, a piscar sexo, uma frase arrancada a uma personagem que sem ela ficaria de certa forma incompleta e por caracterizar como o autor requer. 

 

A pechisbequice literária - companheira de tantas outras que pululam por todos os cantos, facilitadas e facilitadoras -, é a única causa desta espécie de polémica que assolou outrora - salvaguardando-se contextos e distâncias - a Ilha dos Amores nos Lusíadas e o Evangelho segundo Saramago e Jesus Cristo.

 

 A Gaffe leu o pedacinho mísero que consubstancia o móbil da condenação e que obriga a obra a desviar-se de leitores com menos de quinze anos - impresso até nos fazer desejar enviar os citadores para o lado da senhora que a frase menciona -, e como por encantamento - o tão glorificado e sobrevalorizado poder de um livro não é de menosprezar até mesmo aqui! - foi levada em viagem até ao quarto das donzelas vitorianas cujo dormir era vigiado por amas acordadas que travavam, com solavancos de pudor traduzidos em beliscões bem dados, os gemidos suspeitos dos sonhos das meninas; aos conventos oitocentistas onde se esmagavam as maminhas às monjas com tiras de pano de modo a que não sofressem as sevícias dos desejos carnais, tocando nos mamilos umas das outras, e à sala dos encarregados de educação do petiz que ficou sem a Playboy de Janeiro, porque é bem mais favorável a um parental relaxamento que o puto continue a guardar vídeos pornográficos no telemóvel que lhe foi dado pelo Natal.

 

Num adaptar muito original de uma citação já muito picotada, estas deslocações sem se sair do sítio encetadas pela Gaffe trazem apenso a certeza de um facto. A pechisbequice -seja em que área for - faz apenas com que fiquemos a olhar para o rato que foi encontrado nos sopés do Evereste.

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4 rabiscos

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De Quarentona a 01.02.2017 às 13:45

Que belo regresso! Eu sabia que este é um tema que te daria urticária na ponta dos dedos :P
Contexto, Senhores, o contexto é essencial! E esta mania de tratar os adolescentes como débeis mentais em pleno século 21, transcende-me de sobremaneira...
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De Gaffe a 01.02.2017 às 13:48

Seja em que século for os adolescentes são todos mentalmente débeis, só não é necessário tratá-los como tal.
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De Quarentona a 01.02.2017 às 15:48

Concordo. Contudo, as ordem das palavras é fulcral... débil mental, para mim, não é o mesmo que mentalmente débil. Mas entendi-te ;)
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De Gaffe a 01.02.2017 às 15:51

:)
Claro.
Embora confesse que estive "vai-não-vai" e usar a ordem que usaste...

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