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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe nos anos sessenta

rabiscado pela Gaffe, em 26.10.17

Vic Seipke

Mais de duas décadas antes de eu nascer, a fotografia de Vic Seipke cumpriu o seu destino, provavelmente similar ao traçado para aquelas que hoje, cinquenta e alguns anos depois, povoam as fantasias menos exigentes de públicos que uma rapariga de boas famílias não está autorizada a referir sem se benzer.

 

O ginasticado rapagão terá sido um menino de sua mãe - tão jovem! que jovem era! - capaz de ostentar provas de insistente, consistente e reveladora actividade física que, acreditamos ao observar pormenores, não se confinava apenas às quatro paredes de um ginásio, estirando-se com certeza pelo chão, elevando ao tecto apensas manigâncias e  passando num ápice para o uso de toda a mobília.

 

É indefinida a idade do retratado. Embora sendo eu uma criatura incapaz de atribuir idades ainda que aproximadas a potentados destes e dos outros, provavelmente o rapagão não terá mais de trinta anos. Se usarmos o conselho do meu querido Guterres, Vic Seipke é agora um octogenário.

 

É evidente que não tenho intenções de me tornar tenebrosa, sinistra, ameaçadora, lúgubre e absolutamente parva, arabizando considerações acerca da crueldade do passar do tempo, da impotência da beleza perante a decadência, da fatalidade da queda, da vacuidade da vida, da irresponsabilidade do culto do efémero, ou da desagradável e maçadora homogeneização do destino do universo perante o fim. Gosto imenso do efémero, do irresponsável, do que é inutilmente belo, do vácuo existencial, da queda bem almofadada - também gosto de dinheiro, mas suponho que esta informação é despropositada neste contexto -, e faço tenções de gozar todas estas sumptuosidades sem as conspurcar com as piolhices que o mais tinhoso romântico literário se encarregou de glorificar.

 

É claro que se neste momento Vic Seipke fosse convidado a posar nos preparos do seu passado, o resultado não seria o melhor, por muitos pesos que o rapaz continue a levantar, e suponho que mesmo num calendário solidário, despido de bombeiro, não acenderia um fósforo. Seria apenas um fofo muito querido com imensa coragem e genica que foi capaz de se despir de preconceitos em nome de uma causa e ó que linda que a velhice pode ser!

Este magnífico exemplar de testosterona solidificada, mesmo que não a tivesse direccionado como nos apraz, é agora um velho, muito velho, muito velho, muito podre - se tivermos em consideração que o que aos trinta fazemos, aos oitenta o pagamos. No entanto, no auge da sua envergadura, o rapagão depilava-se como se o amanhã fosse ali já – nunca de Alijó, onde os homens ainda fazem questão de manter todos os pêlos -, usava sem constrangimentos ou receios uns calções que certamente se fartava de despir, muito apertados e bastante interessantes na óptica da observadora e sabia moldar o seu bronzeado para que o seu perfil proeminente fosse passível de ser bem avaliado e apreciado.

 

Os anos sessenta de Vic Seipke fazem mais sentido que uma vida inteira a carpir a implacabilidade do tempo que passa, passado no culto da morte que está com certeza em cada esquina e nos torna iguais, despidos de tudo. O pó, a cinza e o nada chegam antes do tempo neste carpir doente, neste choro mórbido, que entope o nariz, que impede até mesmo uma fotografia parva, mas que glorifica os instantes solares em que somos agora.

 

Na foto - Vic Seipke - 1960

 photo man_zps989a72a6.png

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22 rabiscos

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De Gaffe a 26.10.2017 às 23:23

Não! Não directamente a mim. Atiram a toda a gente que lhes parece feliz o tradicional "pois! Mas acaba tudo em pó e todos iguais no fim."
É absolutamente macabro! Não conseguem viver e nem querem deixar viver ninguém, porque fazem pairar a morte ou a ideia dela em tudo o que é solar.
É gente tão maçadora!

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