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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe num pombal

rabiscado pela Gaffe, em 29.11.16

Há pombos por todo o lado. Há bandos deles nos centros das cidades que se transformam em manadas quando comem.

 

Não gosto de pombos. De olhos redondos e sinistros, com as cabeças que se inclinam num perfil quase ameaçador quando nos miram e com aquele arrulhar asmático medonho.

 

Vi uma vez um pombo a ser estraçalhado por uma gaivota. Cheguei a pensar que aquele massacre e o debater silencioso com que o animal era apunhalado sucessivamente, me faria solidária com a vítima, mas não. Fiquei a detestar também gaivotas.

 

Hoje vi, a caminho daqui, um homem numa praça rodeado de pombos. Tinha-os nos braços, nas mãos, nos ombros e um a debicar-lhe a cabeça. Não sei que idade tinha. Não sou boa a atribuir velhices. Estava na casa dos sessenta. Dizer-se que se está na casa de qualquer idade, é razoável e minimiza o erro de avaliação das rugas.

O homem trazia nos bolsos pedaços de pão que esfarelava e oferecia. Os pombos cobriam-no e esvoaçavam largando um cheiro húmido e morno, nauseabundo.

O que me impressionou foi a seriedade com que tudo aquilo decorria. O homem olhava as pessoas que passavam com uma solenidade deslocada. Havia uma espécie de orgulho naquela exibição patética de poder. Um quase exibicionismo circense de domador de feras. Uma poética miserável colada à atitude demasiado séria e compenetrada do acto de dar migalhas a pombos numa praça repleta de gente indiferente.

 

Lembrei-me da gaivota que tinha visto a matar o pombo e percebi que naquele homem havia uma crueldade parecida. Ambos, homem e gaivota, exerciam o mais ínfimo dos poderes, a mais enviesada das tiranias. Tinham, nas mãos e no bico, a capacidade que os tornava sérios, de reter, controlar ou aniquilar o voo dos outros. Um alimentando-o, outra dele a alimentar-se.

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20 rabiscos

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De Rapunzel a 29.11.2016 às 10:30

Odeio pombos!!! Mesmo. Visceralmente. Aprendi com aquele, que um dia foi meu marido, que os pombos são os ratos das cidades...
E escusam de lhe chamar "pombinhas"... Também não me convencem.
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De Gaffe a 29.11.2016 às 10:34

:)
A minha irmã entra em pânico. É uma delícia ver aquela mulher completamente descontrolada perante a visão, mesmo longínqua, de um pombo.
Odeia o Espírito Santo. O divino, não o banqueiro (embora estas entidades se confundam demasiadas vezes).
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De Rapunzel a 29.11.2016 às 13:13

Demais!!! A minha irmã tem terror! Fobia mesmo! Aliás, se for sincera, tem fobia a tudo o que tem bico, mas a probabilidade de encontrar "pombinhas" é francamente maior. Não me esqueço de uma tarde em Coimbra, onde nascemos, vivemos e crescemos, o desafio que foi atravessar a fachada da Igreja de Sta. Cruz, povoada por esses encantadores animais... Depois de 15 minutos de eu não consigo, eu não sou capaz, lá se aventurou a seguir caminho, coberta, na alçada do meu casaco... Confesso que me ria, bastante até, não só pela figura mas por vê-la a tentar completar o percurso em cima de umas elegantes botas de saltos altos...
Essa é a grande diferença entre mim e a minha irmã, por muito que me custe eu faço sozinha o que tenho que fazer, mesmo que me custe horrores, costumo também sarar as mágoas numa excruciante mas auto imposta solidão... A dor é minha, não vou incomodar mais ninguém, além disso, depende exclusivamente de mim o momento em que decido ultrapassá-la. A maninha não... partilha, com facilidade, o que a incomoda. Depende demasiado de opiniões alheias, principalmente maternas. Já conversei com a minha mãe que essa dependência é patológica. Uma coisa é a mamã orientar, outra é seguir religiosamente as coordenadas maternas.
Condeno qualquer tipo de dependência, para evitar o inevitável sofrimento sentido quando este laço, mais tarde ou mais cedo é quebrado. Nada nem ninguém é eterno. Tento sempre absorver o melhor do que me rodeia e de quem me rodeia, mas evito que sejam o meu chão.
Por isso digo, eu quero um namorado europeu, que eu visite e que seja visitada de 15 em 15 dias, mais concretamente, nos fins de semana em que o meu filho está com o pai e em que eu não me encontre de serviço. Aproveitar o melhor que a vida tem, capitais europeias, hotéis de charme, maravilhosos museus, livrarias de perdição, lanchar em cafés em que só de olhar para a porcelana ficamos logo sem fome... Ou ficar por casa, com a lareira acesa, um ou dois pontos de luz, uma tábua de queijos acompanhada por umas Carr's e um maravilhoso vinho... E uma conversa tranquila, serena, reconfortante, em que se aprende e que somos obrigados a interromper para ir dormir. Acho que é "só" isto o que procuro. Não percebo a dificuldade no recrutamento de candidatos...
Peço desculpa, hoje estou particularmente participativa por estar de folga, trabalhei no fim de semana...
É sempre um prazer conversar consigo :)))
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De Gaffe a 29.11.2016 às 13:29

Há dois modos de se transportar a dor. Ou por dentro, ou por fora.

A minha família sempre foi liderada por mulheres. A matriarca ordena e obedecemos sem grandes conflitos. sempre foi assim e não me é estranha a dependência que refere. Embora às vezes limitadora, este domínio feminino atinge sobretudo os homens que apesar de o reconhecerem, não o aceitam de ânimo leve.

Em relação à paisagem tranquila que descreve, admito que sou bastante mais "urbana".

O prazer é todo meu.
:)
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De Maria Araújo a 29.11.2016 às 14:46

Um comentário que me tocou, Rapunzel, talvez porque tenha passado por umas quantas dificuldades, desgostos e mágoas durante uma vida que tive a coragem e a força suficientes para lutar e viver tanto quanto possível bem e minimamente feliz.
Não vou alongar as minhas palavras, o comentário é seu, o espaço é da Gaffe, mas gostaria de realçar o que deixou registado, por ser o que eu desejaria viver para completar o que ainda tenho para viver:

"Aproveitar o melhor que a vida tem, capitais europeias, hotéis de charme, maravilhosos museus, livrarias de perdição, lanchar em cafés em que só de olhar para a porcelana ficamos logo sem fome... Ou ficar por casa, com a lareira acesa, um ou dois pontos de luz, uma tábua de queijos acompanhada por umas Carr's e um maravilhoso vinho... E uma conversa tranquila, serena, reconfortante, em que se aprende e que somos obrigados a interromper para ir dormir. Acho que é "só" isto o que procuro. Não percebo a dificuldade no recrutamento de candidatos...".

Gaffe, desculpe a invasão.

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De Gaffe a 29.11.2016 às 15:08

Não é invasão!
Pelo contrário.
É interessantíssima esta interacção.
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De Rapunzel a 29.11.2016 às 16:28

Oh!!! Fiquei comovida... Muito obrigada pela intervenção! Julgava que éramos uma espécie em extinção... É uma ternura!
Tenho boas notícias para si, se eu escolhi o nome Rapunzel é porque, ainda, acredito no amor. Ele vai aparecer, tenho a certeza, para mim e para sim. Só está a demorar um bocadinho mais, porque vem com bónus... Desta vez não traz roupa suja ou peúgas para lavar. O rapaz é tão perfeito que tem tudo combinado com a lavandaria, lá da rua, para ter a sua roupa sempre imaculadamente bem tratada... Para nós só fica o melhor. Saborear uma fatia de Torta Sacher enquanto contemplamos, deliciadas, a arquitetura da Ópera de Viena.
:)))
Um beijinho para si Maria Araújo.
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De Maria Araújo a 29.11.2016 às 18:51

Acredito no amor, logo eu que sou uma romântica, mas é muito tarde.
Tenho todo o tempo do mundo para viver como me apetece, viajar, rir, zangar, andar por aí de mão dada, ao lado de alguém. Não sei, não.
Mas quero que fique claro que não sou uma pessoa desesperada, sei ser feliz do meu jeito.
Não gosto do dinheiro, amo a vida e as coisas simples. E para as viver melhor, um companheiro sacana, com humor, com charme (e a Gaffe sabe do que gosto ) alto, com um toque de timidez e simpático seria o desejável.
Conheço, mas...
Sabe que um dia alguém me disse que uma mulher deve mostrar-se disponível para que um homem se interesse por ela.
Pergunto muitas vezes o que é isso de mostrar-se disponível, mas nunca me respondem.
Sei o que é, mas não arrisco.


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De Gaffe a 29.11.2016 às 19:44

Dizem-lhe tolices.
:)
Uma mulher que não consegue estar só, é uma mulher que sozinha não está em boa companhia.
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De Rapunzel a 30.11.2016 às 09:07

Maria Araújo:
Um companheiro "sacana" nunca augura bom futuro... O dinheiro é importante para nos dar acesso aos pequenos prazeres da vida (tudo o que é bom é caro). Principalmente, se for ganho honestamente e com o nosso trabalho. Confere uma sensação de realização e a satisfação de um descanso merecido.
Esqueça o "sacana"... Invista num homem que a leve a Paris e reserve uma romântica mansarda com vista para "Les deux magot". Isso sim vale a pena...

Minha querida Gaffe:
O segundo ponto de discórdia é, apenas, ainda não ter aprendido a amar Paris... Não sei porquê. Possivelmente ainda não encontrei o "patife" certo que me revele os encantos dessa cidade. A última vez que a visitei foi em 2013, confesso que foi com o homem da minha vida, mas os interesses dele eram bastante restritos e centraram-se, sobretudo, na Eurodisney...
Não fique com a ideia errada de mim, sou extremamente urbana, só que nunca me tinham avisado, que um filho, é um verdadeiro sugador de energia física e sanidade mental. Daí a necessidade, por vezes, dum ambiente sereno para recompor as energias.
:)
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De Gaffe a 30.11.2016 às 09:29

Ah!
Mas Paris é um verdadeiro pomo de discórdia entre as duas!!!
Sou fanática por Paris. Amo desalmadamente esta cidade, pelo que nela vivi, pelo que nela não vivi.
Paris é a única cidade no planeta que me tem incondicionalmente.

Apresentaram-lhe os locais errados!

Não tenho filhos. Não vou ter. Não aprecio grandemente pronunciar-me acerca do assunto. É inútil.
:)
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De Rapunzel a 30.11.2016 às 11:20

:)*

Eu bem disse que ia aprender imenso consigo. Vou, certamente, acabar a amar Paris.
Eu amo muitas cidades, um bocadinho de cada. No entanto, acho que o momento em que me sinto sob o meridiano certo é quando vou a Cambridge. King's College e não Trinity College. Não é a minha cidade favorita mas é onde me sinto em casa. E é escusado gabar a beleza da pedra dourada de Oxford.
Fui para Inglaterra com 15 dias de vida, o meu pai fez o seu doutoramento lá, tenho uma cultura muito anglo-saxónica. No universo masculino, para mim, Inglaterra é muito Ralph Fiennes, Hugh Laurie, Eddie Redmayne, enfim... Imbatível.
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De Gaffe a 30.11.2016 às 11:22

E Kristin Scott Thomas. Nunca esquecer.
:)
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De Rapunzel a 30.11.2016 às 12:31

Perfeição!
O Paciente Inglês...
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De Gaffe a 30.11.2016 às 13:25

O que eu chorei!!!
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De Maria Araújo a 30.11.2016 às 19:06

Rapunzel, fui duas vezes a Paris, mas não in love.
Óbvio que gostaria de investir nisto, " Invista num homem que a leve a Paris e reserve uma romântica mansarda com vista para "Les deux magot". Isso sim vale a pena..."

mas não ia tão longe na mansarda, porque o nem todos têm dinheiro e já me chega passear nas ruas de Paris ou qualquer outra cidade, nem que seja no hotel Ibis, ahahahaha!
Mas antes de Paris, gostaria de andar por fora cá dentro.
Quando e se acontecer, informo-vos.
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De Gaffe a 30.11.2016 às 19:20

Apalavra "investir" é um tesouro neste contexto.
:)))
Paris já não é a das mansardas boémias cantadas por Aznavour. Agora são alugadas ou vendidas ao preço dos diamantes.
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De Maria Araújo a 30.11.2016 às 19:01

Gosto de estar só, gosto de viver as amizades, adoro uma boa companhia, não me sinto uma mulher sozinha, e nesta altura do campeonato uma companhia masculina dava jeito para aquecer os pés, e muito mais.
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De Gaffe a 30.11.2016 às 19:05

Um mito.
Normalmente são eles que trazem os pés gelados.
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De Pequeno caso sério a 29.11.2016 às 23:41

Odeio pombos!
Tenho pavor/nojo de tudo o que tem penas mas por esses sacaninhas tenho uma repulsa particular.
Podia explicar-te de onde veio esta fobia e o que penso sobre o assunto mas depois lembrei-me que já falei disso . Lê e goza comigo. Sou tão parva.

http://pequenocasoserio.blogs.sapo.pt/a-gaja-e-os-pombos-29460
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De Gaffe a 29.11.2016 às 23:53

:)))
O filme é terrível!
O teu e o do grande H.

Também fiquei "balhada" um vez em Santa Catarina, mas foi uma gaivota a responsável. Até no soutien ficou aquela porcaria!!!

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