Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe passada

rabiscado pela Gaffe, em 27.05.15

foto1.JPGChegaram ontem protegidas por películas translúcidas e separadas por almofadas de espuma.

São fotografias velhíssimas que mandei restaurar e copiar. Ao lado tenho o CD onde permanecerão por mais algumas décadas.

Encontrei-as carcomidas. Expulsas dos livros de ouro das memórias mais acarinhadas por razões que desconheço.

Numa delas, a minha trisavó, ao colo do pai, é uma criança que casará adolescente e que será mãe de mulheres, prolongando o matriarcado que ali se adivinha.

É fácil ainda identificar cada elemento do grupo. A s suas posições na hierarquia, o grau do seu poder, o parentesco, o espaço que ocupam na arquitectura da família. Percebem-se os elos afectivos distintos que unem esta gente longínqua. As interacções são reveladas por braços que protegem, por inclinações da cabeça ou por colos que se dão numa indiferença masculina.

 

O desamor também.

 

Ainda hoje é fascinante o modo como reagem e interagem os descendentes deste clã quando se agrupam.

 

Existe uma cidadela onde se fortificam aqueles que já nasceram dentro. Os elementos anexos, aqueles que chegam, provenientes de ligações, uniões ou acordos, são tidos e vistos como inevitáveis apêndices. Os homens e as mulheres, sobretudo eles, devem passar por longos períodos probatórios até adquirirem estatuto que lhes permita opinar, ser ouvidos e tidos como elementos de pleno direito e sobretudo penetrar nas defesas fechadas das matriarcas. Entretanto, é necessário que se reproduzam para que se espalhe a sombra deste voo.

É tão fácil reconhecer os mais frágeis! Os que chegam embaraçados e constrangidos, ao covil atento daquelas que dominam.

 

Dos mais frágeis, o meu mais amado, a minha saudade, a minha dor mais funda, tinha olhos que lembravam terra arrancada ao mar e a fragilidade insuspeita da tulipa. Tinha as mãos longas de peregrinação e a corrente de um relógio eterno que enrolava nos dedos. Tinha a benevolente paciência dos ouvintes ternos e a doçura das palavras certas ditas baixinho para não doer. Tinha cabelos de seda penteada. Usava camisolas de gola alta que o alongavam e o transformavam em cisne ou em espiga de trigo. Tinha a voz dos meigos, aquela voz que é bom ouvir quando troveja e um sorriso de lua a crescer numa noite de Verão.

Penteava-me o cabelo com os dedos e murmurava a ladainha docemente e depois de me beijar, arranjar as almofadas, saía a sorrir fechando as asas.

 

Anjo da Guarda 
De olhos cinzentos 
Protege minh’alma 
Da fúria dos ventos 

 

Anjo da Guarda 
Doce companhia 
Não deixes morrer 
A luz do meu dia 

Num alto rochedo 
Pousa a minha mágoa 
E faz com que o medo 
Se transforme em água

 

E quando eu partir 
Ó doce bonina 
Dá-me as tuas asas 
Qu’eu sou pequenina
 

(Oração francesa do século XIX na tradução livre do meu avô)

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:


16 rabiscos

Imagem de perfil

De Vanessa a 27.05.2015 às 11:32

Se soubesses o quanto adoro este tipo de fotografias
Podem parecer tristes, mas grande parte delas consumiam tanto tempo para serem tiradas que as pessoas acabavam por ficar meio estáticas, mas mesmo assim nunca se perdia a essência do tempo, das roupas, das famílias numerosas.
É mesmo muito bom teres uma foto destas, é um grande pedaço de história, principalmente da tua família.
Imagem de perfil

De Gaffe a 27.05.2015 às 11:50

Eu sei.
Tenho um amigo obcecado por estas fotos e compreendo o fascínio.

Existem vários álbuns em casa que recuam muitíssimo. São inacreditáveis de lindos.
Imagem de perfil

De bloga-mos a 27.05.2015 às 12:10

Quão difícil seria para um dragãozito socializar em tal habitat não lhe restando somente a tarefa de timidamente acender velas em dia de festejos aniversariantes...
Imagem de perfil

De Gaffe a 27.05.2015 às 12:20

Não!
O meu dragão entra comigo e que ninguém se atreva a apagar-lhe a chama.
Imagem de perfil

De bloga-mos a 27.05.2015 às 12:44

Nesse caso abriria o meu repertório de piadas de salão e desenferrujava o meu francês com citações de Proust Flaubert Rimbaud Baudelaire...
Imagem de perfil

De Gaffe a 27.05.2015 às 13:08

E era apanhado e sorvido e triturado e amassado e abafado pelas velhotas!
Imagem de perfil

De bloga-mos a 27.05.2015 às 14:18

Não desejaria outra coisa para acalentar o meu gosto por desportos radicais, Princesa...
Imagem de perfil

De Gaffe a 27.05.2015 às 15:07

Pois, meu dragão. Acredito.
Não faz ideia do quanto treinam as suas "adversárias".
Imagem de perfil

De M.J. a 27.05.2015 às 14:14

"Tinha cabelos de seda penteada. Usava camisolas de gola alta que o alongavam e o transformavam em cisne ou em espiga de trigo. Tinha a voz dos meigos, aquela voz que é bom ouvir quando troveja e um sorriso de lua a crescer numa noite de Verão."

um dia meu amor, um dia vou escrever um bocadinho assim, tentando que as minhas palavras não sejam imitações baratas do que vives.

isto é tão lindo!
Imagem de perfil

De Gaffe a 27.05.2015 às 15:10

As tuas palavras reproduzem a vida.
Imagem de perfil

De Corvo a 27.05.2015 às 17:15

O que me espanta pela singularidade, atendendo ao tempo e à tecnologia da época, é que são todas mulheres lindíssimas. Até as bebés.
Imagem de perfil

De Gaffe a 27.05.2015 às 17:25

Há excepções e um bons folharecos ajudam imenso.
As crianças realmente são lindíssimas!
Imagem de perfil

De Corvo a 27.05.2015 às 20:24

Olhe Gaffe. Se há alguma coisa que eu sei ver, entre muitas, e´saber distinguir a classe e a beleza. Nem sequer reparei nos folharecos, acredite.
Essa família tem classe, respira classe e a pose não é a de quem procura ângulo de visão. Estão completamente à vontade e são mulheres belíssimas em qualquer época. Sê-lo-iam hoje, portanto é de se admirar que sem recurso a nada se mostrem verdadeiramente belas.
E as crianças são espantosamente lindas. E o cavalheiro espalha classe.
Se há alguma coisa que sei ver, é a beleza onde quer que ela se encontre.
Imagem de perfil

De Gaffe a 27.05.2015 às 20:28

Faz-me sentir uma tonta.

É verdade. São mulheres incríveis. Ainda hoje o são.
Creio que lhe devo agradecer o reparo.

:)
Obrigada, meu caro. Em meu nome e em nome delas.
Imagem de perfil

De Maria Araújo a 28.05.2015 às 10:28

Se há fotografias que gosto de ver, são esta dos nossos antepassados.
Adoro retratos de família.
E esta mostra muito bem que é uma família com estilo, com valores, com muito respeitos.
Uma família muito bonita.
O que me chamou a atenção foi único homem, um grande senhor, com certeza, pelo modo como se senta, com uma criança sentada na sua perna cruzada, um pormenor que, penso eu, é raro nos homens daquela época.
Quanto ao seu post, tem aqui uma lindíssima imagem do que foi o seu avô e o poema é uma doce ternura.
O pormenor da camisola de gola alta e a comparação com um cisne...fez-me recordar o meu pai.
Um dos melhores posts que li nestas avenidas.
Imagem de perfil

De Gaffe a 28.05.2015 às 10:52

Obrigada.
Não consigo dizer muito mais.
:)*

Comentar post



foto do autor








Copyrighted.com Registered & Protected 
JIFR-J5MR-Y1XR-YACD