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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe perfumada

rabiscado pela Gaffe, em 23.11.16

La mort.jpg

Ela usa agora Le Baiser du Dragon porque soube que contém uma toxina eventualmente perigosa.

- Uma diva tem de ser envenenada por aquilo que ama.

 

Vive-se dentro de uma colecção de clichés, de lugares-comuns, de slogans publicitários, de frases feitas, de fragmentos estropiados de confetis.

 

É assim que quero.

 

O dia banal que se baba pelas ruas, quotidianamente repetido, repetidamente adivinhado, cansa-me de tão previsível. Escolho recortar dos dias a surpresa rara ou a mais ínfima promessa de risco ou desafio. O resto esgota-me de tão igual ao resto e mesmo a arquitectura dos dias que desenho é uma arquitectura obediente por preguiça, por desprezo, por incapacidade de reagir ao logicamente óbvio, ao previsivelmente enunciado. Está longe de ser a arquitectura do desconforto, defendida com alma pela minha irmã.

 

Querem um minarete no jardim da casa no reino dos morcegos de uma aldeia velha em Trás-os-Montes? Que saia um minarete.

 

Adapto a ideia, reduzo-a a ninharia, contorno e atraiçoo, mas não escapo ou luto, ou entro em guerra num campo de batalha já exaurido. É cansativo. Inútil. Não me excita.

 

Depois a existência dos outros é previsível. Adivinho gestos, pensamentos, reacções alérgicas, toxinas, brilhos de pedras falsas nos colares, horas nos relógios de platina, valium e imunodepressores, cantigas entre dentes e palavras nos sentidos, danças macabras e concertinas doidas, eróticas pantominas e fantasmas, equilibrismos e redes de cabelo, odores e tintas pretas mascaradas, correrias de gare ou aeroporto, encontros desastrados, corredores, mãos e profetas, notas, sinfonias, dinheiro e miseráveis dentes cariados e a vida inteira nua e choca, podre, fácil, nojenta e asquerosa em todas as esquinas.

 

Sento-me na esplanada como um cliché com charme. Sei o que fazer para acicatar o lugar-comum que sou e quero ser.

Se olhar duas vezes para o homem da outra mesa, num perfil que ainda não me viu, vou tê-lo num instante a recompor lugares. Arranco-lhe os olhos num momento. Uma vez. Uma outra vez e vai mudar a cadeira de lugar. Uma outra vez e basta. Levantou-se? È previsível. Muda de sítio e fica frente a mim, para banhar os olhos na minha indiferença agora já desperta. Não passa de um pateta. Fácil, como um objecto que se atira e parte só por tédio.

O outro, na mesa ao lado, aquele ainda menino que palra sem parar, sem tino ou viço ou calma, atrapalhando as frases e os ouvintes. Tem um corpo que me agrada e olhos desatentos. É fácil arrancar-lhe o tempo de atenção que quero ter. Basta que no olhar que o prende haja um sorriso breve preso ao anzol dos olhos e aqui o tenho já calado e mudo, a suar de súbito, a sorrir e a olhar, a olhar e a sorrir, sem o pudor dos peixes moribundos que no estertor final apenas movem o leque asfixiado das guelras impotentes.

O homem já maduro a beber sumo de laranja com limão? Aquele de camisa de seda e boca de cetim? Um aceno meu, um subtil aceno com a cabeça, a rede dos olhos presa nos rochedos e ei-lo já de pé, à espera.

 

O amor?

Eu sinto apenas cheiros. Cheiros espalhados, esmagados, pelas ruas. Agradam-me os cheiros dos corpos que passam distraídos. Aproximo-me das nucas e abro as narinas e sorvo o quente odor dos corpos acabados de banhar.

Farejo.

O meu amor é olfactivo. Não tenho outro a dar.

O resto é náusea ou tédio, desprezo ou indiferença.

O Resto é morte, a entediante morte ou a solidão, que é uma espécie de morte distraída que nos deixa o corpo a apodrecer ainda vivo e foge desgraçada com o coração e a alma a sangrar nos dentes.

 

La Mort...

Je la chante et, dès lors, miracle des voyelles

Il semble que la Mort est la soeur de l'amour

La Mort qui nous attend, l'amour que l'on appelle

Et si lui ne vient pas, elle viendra toujours

La Mort.

 

Odeio a sujidade dos dias espalhados pelas ruas. A vida sem-abrigo. A inércia torpe dos que acreditam que no mais ínfimo pormenor está a diferença. Não existe pormenor que não seja um estilhaço perdido na ruína, que lhe pertence, que é parte integrante do desastre, inútil como um facto. Recuso o lamento na vida dos outros com o nojo de me sentir igual às pedras das esquinas, aos lugares descritos medíocres, mas com a pretensão da alma de Zola.

 

Escolho a inclusão no lugar-comum, no cliché que monto, no fotograma que construo sem pudor, troco o meu cavalo por um reino até que a minha vida inteira se reduza a pontos que cintilam.

 

Le Baiser du Dragon. Efémero e fatal.

 

Na foto -  Eleanor Parker, 1952

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Gavetas:


15 rabiscos

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De Pequeno caso sério a 23.11.2016 às 18:04

(Às vezes assustas - me com o que escreves de tão minhas que conseguem ser as tuas palavras.)

Compreendo como ninguém esse amor olfativo. Todos os que me são queridos , guardo - lhes o cheiro.
Aproximo - me ou afasto - me de pessoas novas - instintivamente - pelo odor.
Curiosamente (ou talvez não ) uma das pessoas que mais me marcou não tinha cheiro algum.


Já me tinha perguntado a que cheirarias tu. Não conheço o aroma mas amanhã vou tratar disso. Quero de alguma forma guardar um bocadinho de ti.
Tenho um ótimo nariz. Não te surpreendas se te conseguir "encontrar".

;)*
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De Gaffe a 23.11.2016 às 18:19

Não procures "Le Baiser du Dragon". É o perfume pontual da minha irmã. Não é o meu.

Procura Narciso Rodriguez (o frasco rosa). Eu cheiro sempre assim.
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De Pequeno caso sério a 23.11.2016 às 18:29

:)

Esse não preciso de procurar. Conheço - o bem pois já usei.
Agora não me escapas!
;))
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De Gaffe a 23.11.2016 às 18:45

:)))
É o meu perfume!
Só o troco - esporadicamente - pelo do rapagão.
Sim! Às vezes uso um perfume de homem.
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De Pequeno caso sério a 23.11.2016 às 18:48

Não vais acreditar nisto mas...eu também! !!!
Gosto de ser eu a escolher o perfume do meu marido pois de vez em quando vou lá borrifar .
(Adoro tudo o que seja Dior para homem e a última perdição é o "Sauvage")

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De Gaffe a 23.11.2016 às 19:42

Desde quando é que os homens sabem escolher o perfume que usam?!?!?!

Para homem, perfiro a gama Cartier.

Gosto muitíssimo do "Must" da Cartier, para mulher. Lembra-me sempre a minha mãe e a minha avó. Tenho delas recordações maravilhosas com este aroma.
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De Pequeno caso sério a 23.11.2016 às 19:50

Sou fiel ao "Zen" da Sisheido há anos. Cheira a mim.
Há algum tempo veio parar - me ao nariz outro aroma que me fidelizou - "Skin" de Balenciaga.
Na minha coleção moram SEMPRE os perfumes do Thierry Mugler de quem sou absolutamente fã (mas das versões menos"comerciais" que vou descobrindo).

Como vês, descobrir - me não ia ser tarefa fácil.
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De Gaffe a 23.11.2016 às 20:24

Sou muito preguiçosa.
Desde que desconri NR deixei de procurar outros perfumes. Já me identificam através do aroma. Às vezes - raras vezes - uso "Rush" da Cartier, o frasco vermelho, mas volto sempre ao meu.
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De Gaffe a 23.11.2016 às 20:26

* descobri
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De Maria Araújo a 24.11.2016 às 13:16

Ai, Gaffe, que eu sou apaixonada por quase tudo que é para o homem.
As cores da roupa, os perfumes, alguns acessórios.
Não tenho um olfacto muito apurado, mas quando beijo ou abraço, se o sai-me sempre isto " hummm, que cheiroso que estás!"

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De Gaffe a 24.11.2016 às 13:35

Eu gosto de roubar o que é para eles.
;)
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De Rapunzel a 23.11.2016 às 21:26

Muito bem escrito.
Pensava ser difícil encontrar alguém com um pensar e um sentir tão peculiar como o meu. Já não me incluía no patamar da "normalidade". Sentir tanto, ver tanto, cheirar tanto, pensar tanto, morrer e viver tanto... Tudo ao mesmo tempo e de uma vez só. Uma hipersensibilidade e imaturidade sensoriais enormes. A sensação avassaladora de estar presa numa rotina que me asfixia quando eu acho que tenho algo invulgar para dar.
Depois, leio um texto assim, e percebo, é o meu momento do dia. Sou uma nulidade em criatividade, por isso mesmo, aprecio e sou muito sensível a todas as formas de beleza. Da arquitectura à escrita, da pintura à música, até chegar à única coisa, realmente, capaz de me tranquilizar, uma lareira acesa. É belo! E nada me dá mais paz.
Quanto a cheiros, odeio o "Chanel 5" mas amo senti-lo por ser o perfume da minha mãe. Aquele cheiro intenso e adocicado que me enjoa mas que é maravilhoso de sentir por estar perto da minha mãe. É um perfume como ela, um perfume que se impõe. A minha querida mamã... Que dá sempre aos outros a liberdade de pensarem como ela... Foi uma batalha dura conseguir descobrir a minha essência e resgatar da infância a minha autonomia.
E eu. Eu, desde os 17 anos sempre usei "Paris" de YSL. Há dois anos, estranhamente, mudei para o "Love" da Chloé. É um perfume estranho. Parece o cheiro de um lugar, como a biblioteca de casa dos meus pais, e não o cheiro de alguém. Mas é um cheiro que me identifica e é tão diferente, volátil e inconstante como eu.
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De Gaffe a 23.11.2016 às 21:43

É um comentário muito bonito o seu. Estranho e com um aroma muito específico e contudo impossível de definir.

Creio que há indubitavelmente lugares nos perfumes. É curioso como nos esquecermos disso, dando primazia às pessoas que eles nos trazem.

(Não consigo identificar a minha cidade com um perfume e no entanto é Paris, a de todos os perfumes que quisermos.)
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De Rapunzel a 24.11.2016 às 00:40

Obrigada. Gosto muito de vir passear nestas avenidas. Já vinha há anos, nunca comentei. Agora isso mudou, não sei o porquê mas acho, sinceramente, que é um renascimento após um divórcio doloroso. É um óptimo sinal. Conseguir e gostar de comunicar de novo, sociabilizar, nem que seja por um blog. A verdade é que sou muito elitista e irredutível. Exijo sempre a quem gosto uma coisa... Cérebro. Não é fácil de encontrar...
Um beijinho e obrigada mais uma vez. :)))
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De Gaffe a 24.11.2016 às 08:19

Será sempre bem acolhida.
(Os divórcios nunca são o fim. Normalmente acabam no instante em que o decidimos escolher.)

:)

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