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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe por agendar

rabiscado pela Gaffe, em 15.09.14

Quando está tudo em reboliço, atolado em trabalho, a rebolar por tudo quanto é lado e eu sentada na poltrona a olhar as unhas, arranjam-me sempre qualquer coisa desagradável para fazer.

Ontem a minha irmã, completamente tresloucada, de papéis na boca e olhar de sociopata assassina, encarregou-me de ligar para o telemóvel pessoal do seu cabeleireiro com o objectivo de marcar um corte de cabelo a um cliente. Não é política da casa agendar bricolage, e muito menos agendá-la aos Domingos, mas a minha irmã é uma predadora e sabe perfeitamente como lançar armadilhas às presas. O corte de cabelo não passava, portanto, de um golpe certeiro. Alguém ia ser abatido através do fascínio exercido indirectamente pela minha irmã usando o prestígio de um cabeleireiro premiado pela CARAS. Telefonei cerca de quatro vezes e, nessas quatro vezes, ninguém atendeu. Depois, esqueci-me.

 

Quando hoje o senhor chegou percebi que bastaria o barbeiro da esquina para o deixar compostinho, desde que no referido barbeiro não houvesse ventoinha. O senhor, redondo e baixinho, recusava a ser careca e que por isso penteava-se como se trouxesse uma aranha gigante, preta, agarrada ao ovo da cabeça. Declarou-se muito agradecido e explicou:

– A menina sabe, lá em cima - não faço a mínima ideia do que se passa lá em cima. Uma rapariga esperta é perita no que se passa em baixo - não há coisa que preste e o meu filho é um jovem sofisticado.

Percebi então:

1 - Que o cabelo era o do filho sofisticado daquele senhor e não o bicho que o senhor trazia na cabeça;

2 - Que ninguém se tinha lembrado que o cabeleireiro da minha irmã encerra às Segundas-feiras;

3 – Que, mesmo que não encerrasse, não havia marcação nenhuma em lado nenhum, porque EU me tinha esquecido por completo do caso.

 

A minha irmã só não mandou que me torcessem os mamilos até jorrar sangue pelo nariz, porque suspeitou que o rapazola poderia querer trocar de lugar comigo. Mas tudo se resolve quando está em jogo um jovem sofisticado como aquele. Juntamos esforços e, com o guedelhudo ao colo, suplicamos e conseguimos agendar excepcionalmente um corte de cabelo para amanhã às 18 horas. A Rita apanhou o cliente que sorria alarve enquanto, durante quase uma hora, o filho, jovem e sofisticado, desancava nos cabeleireiros bichas, e insultava, aviltava, massacrava, arrasava, destruía, abatia e espezinhava a homossexualidade em geral. O rapaz babou-se, riu, esgadanhou-se, fez de mimo - muito bem por sinal -, cantou, recitou, contou anedotas, aplaudiu-se e enojou-se. Tudo para se mostrar de costas viradas a essa doença. A minha irmã plantou na cara o seu mais perfeito sorriso e eu ia imaginando o pai do jovem sofisticado, todo nu, a dançar o fandango, com um cacho de bananas na cabeça e o retrato de rapaz pendurado nas miudezas.

 

Amanhã às 18 horas há corte de melenas e já fui surpreendida com uma data de SMS irritados do meu querido M. que se mostra espantado e indignado com o jovem sofisticado a quem vai cortar o cabelo e que deseja muito, muito, muito, muito, jantar com ele.

Ah, que ele quer tanto, tanto, tanto!

 

Só espero que o M. lhe faça umas tranças ou então uns totós. Apesar de demasiado frequente, é sempre uma experiência groumet jantar um macho empedernido mascarado de liceal sofisticada.

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