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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe por vingar

rabiscado pela Gaffe, em 09.06.17

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A história é tão pequena como a protagonista.

Há cerca de um mês encontrei na rua uma cadelinha abandonada. A morrer de fome, repleta de parasitas, tão debilitada que era improvável que sobrevivesse mais do que dois dias. Impressionou-me o medo e a súplica que a faziam, mesmo prostrada, abanar a cauda quando me aproximei.

Foi difícil recolher aquele pedacinho de ossos. Foi difícil convencer aquela miséria escorraçada a ficar ao alcance do meu colo.

Chocou-me e partir-se-me o coração, quando finalmente a recolhi nas mãos, ver a marca no pescoço que lhe tinha arrancado o pelito sujo. A cadelinha tinha estado amarrada por uma corda e exposta a todos os maus tratos antes de ser abandonada na rua para morrer.

 

O rapagão veio desarvorado quando lhe pedi socorro.

 

Era praticamente impossível acertar na idade da órfã. Era perigoso vaciná-la tendo em conta a brutal fragilidade em que se encontrava. Estava demasiado debilitada, estava esquelética. Pela dentição não tinha mais do que três, com alguma sorte, quatro meses.

 

Em que mês a amarraram a uma corda? Em que mês lhe começaram a bater? Em que mês arranjaram tempo para a torturar? Em que dia é que se aperceberam que chegara a altura de a matar? Não eram muitos os meses disponíveis.  

 

Foi desparasitada, alimentada, vitaminada, limpa com toalhetes e mimada. Adormeceu depois de se cansar de abanar a cauda e de nos beijar as mãos.

Não sabia brincar e escondia-se atrás de um móvel a chorar - nunca chorava por ficar sozinha - quando ao amanhecer a íamos visitar. Chorava de medo. Batiam-lhe quando acordavam?

 

O rapagão cuidou dela. Dez dias depois foi vacinada e encontrou uma casa nova e uma dona maravilhosa que desatou a amar de imediato.  

 

Já brinca e é tão feliz!

 

Tinham-me identificado o assassino. Ninguém estranhava o crime. Era o seu hobby. Torturava em lume brando os animais. Estava tudo normalizado. Por várias vezes tinha sido denunciado às autoridades. Por falta de evidências mantinha-se impune.

- Ele até é boa pessoa, mas...

 

Tenho-o hoje, agora, neste instante, sentado à minha espera. Li o processo. É grave.  

 

Pela primeira vez em toda a minha vida, vou detestar cumprir o meu dever.

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Gavetas:


12 rabiscos

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De Gaffe a 09.06.2017 às 16:07

Já passou. Não foi assim tão mau. limitei-me a dizer-lhe o que se passava sem a mais pálida réstia de humanidade. Fui gelada e cirurgicamente profissional. Não podia ser mais bisturi.
Nada como cumprir a nossa missão com um rigor absoluto. Sem complacências ou paninhos fofos.

Ficou covfefe.
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De Maria Araújo a 09.06.2017 às 16:26

Que bom.
Vai aprender a não martirizar os animais.

Adorei o covfefe.

Um bom fim-de-semana.
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De Gaffe a 09.06.2017 às 16:54

Vai.
Não viverá por muito tempo.
Não lamento dizer isto!
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De Cuca, a Pirata a 09.06.2017 às 18:05

Lido diariamente com a crueldade humana. E é um mistério que creio que jamais alguém conseguirá explicar-me.
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De Gaffe a 09.06.2017 às 22:06

Lido diariamente com a dor. Estou suficientemente preparada para lidar com a dor humana. Não consigo lidar com a crueldade. Sobretudo esta. Não a entendo e, talvez em consequência, não a perdoo. Tenho uma tendência gigante, uma apetência medonha, para humilhar e ser de uma crueldade similar para com os infractores. chego a ser desumana. Às vezes receio ser igual a eles. Provavelmente sou.
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De Pequeno caso sério a 09.06.2017 às 23:12

(desculpa a intromissão )
Tu não és cruel e muito menos desumana.
Qualquer ser humano com o mínimo de inteligência não perdoa quem comete uma atrocidade dessas a um ser tão indefeso.

Um dia vi uma entrevista com o Rodrigo Guedes de Carvalho. Entre muitas coisas interessantes que disse , retive uma que me ficou até hoje:
"Como é que uma pessoa é capaz de deixar na beira de uma estrada qualquer um animal que dela depende? Como é que essa pessoa entra no carro e é capaz de olhar pelo retrovisor e ver aquele ser a ficar cada vez mais longe ? Como é que se dorme depois disto?"

Um destes dias, na cidade onde moro, foi cometida uma atrocidade com uma cadelinha. Várias pessoas passaram por ela mas apenas um homem humilde foi capaz de lhe deitar a mão. Levou - a para o hospital veterinário e deu todo o dinheiro que tinha . Não chegou.
Parte da cidade mobilizou - se e os donativos lá têm chegado.
Soube da história pela minha filha dado que se juntaram e fizeram eles próprios um donativo com o dinheiro dos almoços /lanches.

Fui conhecê - la .
Um animal trocidado, abandonado, doente ...e ainda assim, abanou o rabinho a uma estranha. Deu - me muitos beijinhos...

Creio que se apanhasse o filho da puta que lhe causou tanto sofrimento também seria fria e cruel sem qualquer hesitação.

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De Gaffe a 09.06.2017 às 23:37

Sabes que penso que existe uma espécie de anestesia moral nesta gente?

Uma amoralidade, uma imoralidade, que lhes permite ficar ilesos perante as atrocidades que cometem. Acredito piamente que fariam o mesmo a uma pessoa indefesa. Matar é-lhes familiar, como comer um pedaço de pão sentados numa pedra, descansados, na margem do rio.

Trato-os como psicopatas assassinos, mas sem o olhar clínico que profissionalmente lhes devo.
Sinto medo. Medo deles e medo de mim que não me importo que morram e me sinto bem em dizer-lhes que vão morrer em breve, embora saiba que faço tudo o que está ao meu alcance para que a vida deles se prolongue com qualidade. Ajuda quando tento fazer deles objectos, mas depois eles falam e choram e só me apetece sair dali e desatar a odiá-los de longe.

Às vezes, tenho remorsos. Não sou muito mais do que eles, desta forma.
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De Pequeno caso sério a 10.06.2017 às 00:01

Serás sempre melhor que eles.
Só uma pessoa genuinamente boa consegue ficar "incomodada" pelo facto deles falarem e chorarem.
:)*
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De Gaffe a 10.06.2017 às 12:46

Vou tentar convencer-me disso.
:)*
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De Corvo a 11.06.2017 às 00:47

Remorsos?! Remorsos de quê?
Eu no seu lugar não tinha remorsos nenhuns e só tinha pena não lhes poder espetar com uma injecção de cianeto.
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De Gaffe a 11.06.2017 às 02:40

Não. Não valem a pena e os meus impulsos assassinos não chegam tão longe.
:)

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