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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe psicopata

rabiscado pela Gaffe, em 22.09.17

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Sempre senti uma enorme atracção por sangue.

Folhas manchadas que cortaram dedos; lâminas sujas, maculadas, que rasgaram o rosto ao barbear; lenços brancos que serviram de tapume a pequenos golpes sofridos à toa.

 

Não chegava a tocar nas manchas vermelhas, mas despertavam-me a atenção de modo quase obsessivo. Ficava varada a observar o esbater da nódoa, as zonas onde a cor se atenuava, a esmaecida fronteira que iniciava o corromper do límpido. Deslumbrava-me com a magnitude do encarnado e assombrava-me se adivinhava a origem, o golpe, o lanho, a carne onde o fio frio da agressão se liquefazia externo.

 

Ultimamente esta atracção tem raiado o vampirismo. 

 

Se me corto, levo à boca o sangue e atento no sabor que dele chega. Não o defino, não o aproximo de nenhum outro que tenha experimentado. Roço a língua pelo golpe e sorvo e chupo e deixo que aquele sentir vagamente metálico me arrepie e é então que descubro a violência bruta das arenas e o apelo incontrolável do assassino, como se da memória mais profunda, mais secreta e obscura, me assaltasse o instinto do que sou.

 

Depois faço de conta que são rosas. 

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Gavetas:


10 rabiscos

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De Quarentona a 22.09.2017 às 14:57

Perante isto, só tenho uma coisa a dizer... não quero nunca ser tua rival :P
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De Gaffe a 22.09.2017 às 16:02

:)
Sou uma rival tão doce e tão benévola!!!
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De Pequeno caso sério a 22.09.2017 às 19:16

Todos nós temos um "je ne sais quoi" de gladiador/besta...mas só alguns de nós têm coragem de o admitir. Sou como tu. Admito o meu lado primitivo mas sem qualquer espécie de orgulho nisso pois, quando acontece, nunca é bonito. Transformo-me numa pessoa que não reconheço e isso, assusta-me.
Dou-te um exemplo:

Hoje de manhã, ia descansada da minha vida, a curtir a minha música a caminho do trabalho enquanto pensava "hoje o dia tem tudo para correr bem...está Sol, é sexta-feira, vou com tempo...", quando um filho de uma real puta*, se mete na minha faixa "à cão" . Chamei-o à atenção com um pequeno toque de buzina (raramente uso buzina e por isso nunca sei a força que tenho de aplicar...peco sempre por defeito e sai sempre um som que quase parece um peido mal dado) pois tive receio que o homem quisesse conhecer muito de perto o meu rico carrinho que me custou tanto a comprar.
Ora o filho de uma real puta*, não contente com a merda* que fez, chamou-me os nomes todos ( sou boa na leitura de lábios) e levou uns bons segundos o dedo de fora do vidro em forma de "caralhinho" para que eu percebesse bem o seu estado de espírito.
Quis o destino que o nosso caminho fosse o mesmo durante uns bons quilómetros e pude testemunhar que a ira do filho da real puta* passou a desconfiança e depois a medo quando começou a pensar que o estava a seguir tal era a proximidade que o meu carro tinha da sua carrinha.
Quase que senti o alívio do homem quando me viu fazer pisca.

Moral da história:
Eram 7:50 DA MANHÃ .
Um homem com os níveis de agressividade no máximo fez despertar a psicopata que há em mim. E sem sangue. Imagina se houvesse.



p.s- tirando isso, o dia correu bem.


*pardon my french
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De Gaffe a 23.09.2017 às 21:50

Devias ter usado uma faca presa à boca e um olhar sepulcral!
Resulta imenso.
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De Corvo a 22.09.2017 às 20:32

Pânico!
Vai ver que afinal não tem nada a ver com a boazinha Bess, e tem tudo a ver com a outra Isabel, a Báthory sugadora de sangue dos Cárpatos.
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De Gaffe a 23.09.2017 às 21:46

Mas eu já me queixei!
A doce Bess nada tinha de açucarado!
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De Fleuma a 23.09.2017 às 12:22

Tão bom.

Isto poderiam ser palavras escritas por mim; se calhar de um modo mais obsessivo, mas tanto que isto me diz!

Quase seria obsceno descrever e por isso fico por aqui.

Brilhante.
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De Gaffe a 23.09.2017 às 21:48

Não devia, meu querido Fleuma. Seria desafiante não ter ficado tão longe.
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De Maria Araújo a 26.09.2017 às 17:02

Faço exactamente o mesmo quando me corto, porque é o meu sangue.
Mas sinto horror e vertigens quando o sangue é de mais, quer seja o meu, quer seja o das tristes imagens que se vêem nas arenas, nas ruas, nas estradas.


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De Gaffe a 26.09.2017 às 19:07

O sangue não me impressiona. Rigorosamente nada. Como poderia?!

As arenas são crimes consentidos. O sangue é o menor dano.

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