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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe quádrupla

rabiscado pela Gaffe, em 28.12.15

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Primeira neta


Quando os netos atingiram os dezoito anos, a avó ofereceu-lhes a mesma coisa:
Às raparigas uns brincos.

Ao rapaz uns botões de punho.

Os brincos variam no formato. Os da minha irmã, por exemplo,são um rectângulo de brilhantes que suportam uma belíssima pérola.

A minha irmã perdeu um.
Gemeu, ginchou, berrou, ganiu, chorou... e finalmente, para aplacar a consciência, declarou que tinha sido roubada. Quando quer, consegue ser uma psicopata obcecada, maníaca e compulsiva. É mais simples assim e nada de inusual nesta família.
O brinco, um e não o par, só podia ter sido furtado evidentemente por Van Gogh.

A avó, dias depois, encontrou-o abandonado e declarou que o iria colocar num dos lugares mais inacessíveis deste Universo, à prova de toda a tentativa de roubo, perda ou desvio.


A Bórgia pertencia à minha avó e era a mais medonha doberman do planeta.
Assassina em série, feroz, voraz e aterrorizante, babava ódio por tudo o que se mexia dentro do seu larguíssimo território. Premiada, Miss, Campeã e com mais pedigree do que toda a minha família junta, Bórgia apenas obedecia à voz da minha avó e dilacerava tudo e todos que por incauto lhe roçavam levemente o corpo.
Era inevitavelmente presa quando havia visitas, mesmo aquelas que a cadela devia considerar habituais. Ninguém se atrevia a arriscar.
Bórgia era uma assassina nata.
Tínhamos o vício de a irritar, mal chegávamos. Sabíamos que as grades nos separavam dela e que a fúria aterrorizadora da cadela mordia apenas o ferro.
Na nossa última visita, a surpresa emudeceu-nos.
Nada nos fez provocar a cadela que nos desprezou com olhos papais.
O nosso espanto, a nossa mais desmesurada surpresa, a nossa mais paralisante estupefacção, foi ver numa das orelhas demoníacas de Bórgia, cintilar um dos mais belos brincos de Cartier, um rectângulo de brilhantes a guardar a pérola. Bórgia pavoneava-se indiferente e sobranceira.

 

A minha avó tinha pedido ao veterinário que colocasse com segurança acrescida o brinco na orelha do demo.

- Como vês, minha querida - murmura a avó ao ouvido da minha irmã paralisada -, mesmo sabendo que lhe falta um brinco, a cadela porta-se como uma senhora.

 

 

Segundo neto

 

Convenceu o meu irmão, manipulando os meandros do mundo e do submundo desta família, a passar aquele Natal connosco.

- É evidente que sair nesta altura não faz sentido nenhum, meu querido. Gosto sempre do seu presente e é sempre um prazer ver que não gosta do meu. – Informa a minha avó, ratando bolachinhas minúsculas de chocolate e noz que vai abandonando quase inteiras no pires de porcelana branca.

- Mas eu gosto sempre do que me ofereces, avó! – Embaraça-se ao recordar o álbum pesado com fotos ternurentas da meninice onde houve a preocupação de recolher aquelas em que aparece SEMPRE nu. A mais trágica é a que o foca no jardim ao lado da minha avó de tesoura de jardinagem em punho, pronto a destruir todas as ramagens, e onde, minúsculo, tenta ocultar as mais íntimas promessas de futuro com uma camélia branca.

- Ah! meu querido, esse álbum! Não imagina o prazer que me deu a recolha que fiz. Pena é que tenha deixado de ter material a partir dos seus dez anos.

É chegada a altura de se fazer silêncio.

- Embora, é claro, a minha provecta idade me dê acesso a várias gavetas que outros pensam fechadas para sempre.

- Avó!

- Sim, meu querido?

- Avó!

- Confesso-lhe: nunca deixei de o seguir com toda a atenção e mesmo desalmado orgulho.

Começa a afligir-se.

- E já que mencionou a foto da camélia oportuna, devo dizer-lhe, meu rapaz, que, pelo que me foi dado ver, vai precisar agora da japoneira toda para reproduzir a pose.

Nesse ano o meu irmão decidiu orientar as limpezas de Natal. Começou pelas gavetas e acabou no telemóvel.

- Avó – sussurro-lhe ao ouvido – não acredito que haja fotografias… dessas.

- Há sempre, minha querida. Os rapazes não resistem a fotografar porcarias e é sempre agradável ver o seu irmão preocupado a arrumar o quarto.

 

Terceira neta

 

Era já velho quando, ainda adolescentes, passávamos o Natal em casa da minha avó e o desafiávamos com uma crueldade sem perdão.

Na altura o jardim gradeado ainda não tinha as sebes adultas que depois protegeram o interior e o Volante parava sempre, esfarrapado e sujo, quase nauseabundo, para espreitar as raparigas ou para receber às escondidas os pequenos cabazes de fruta, pão, carne e enchidos que lhe entregavam com o cúmplice desconhecimento da minha avó.

Enfurecia-se aquele homem, desbravado, eriçado e tresloucado quando, por distracção ou propósito, lhe chamavam Volante.

- Oh! Volante! Chega aqui, homem! – e o velho sacava de uma faca romba e esgadanhava-se transformado em insultos, guinchos e gritos e pinchos de estarrecer o demo. Capaz era ele de arrancar e espezinhar a alma a uma qualquer criatura que lhe ouvisse aos brados.

Tínhamos sido proibidas de lhe acicatar o ódio. Obedecíamos. O Volante passava pacífico recolhendo os cabazes escondidos, até a minha prima ter engendrado um modo mais cruel ainda de lhe morder a miséria. Mal o via ao longe, a rapariga corria à maior janela que dava para o jardim, abria as portadas e de dentro imitava o ruído de um carro, guiando-o de braços estendidos e mãos presas e fincadas num volante inventado.

- brrrrrummmm, brrrrrrrummmmm ….hummmmmm… – roncava o motor que não havia.

O homem estarrecia. Olhava e via-lhe as mãos rodando um aro de nada e percebia. Desmanchava-se na fúria habitual. Cuspia insultos. Parava a estraçalhar palavras e impropérios. A minha prima parava, agarrada a um travão de mão do carro na janela.

- hiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!...

O homem aquietava-se e sem cabaz lá ia. E recomeçava o roncar do carro:

- brrrruuuuummmmmmmmm….

De novo mais insultos, mais gritos e peçonha.

- hiiiiiiiiiiii….

Até perder de vista.

A crueldade parou quando a minha avó encontrou a terceira neta, à janela, empoleirada numa cadeira a gesticular e a roncar já como um calhambeque.

Foi a primeira e a única vez que vi a minha avó esbofetear alguém.

Nunca mais o vi. Das poucas vezes que perguntei por ele, recebia parco troco. Que estava bem, que tinha conseguido comprar uma casita com um terreno fértil, talvez herança que veio sem contar, que passava por vezes por ali a cumprimentar. Mais nada e eu esquecia.

Volante morreu.

Dei a notícia à minha prima por telefone, logo de manhã, poucas horas depois do acontecido. Manteve-se em silêncio durante um curto tempo e depois confessou o mais inesperado:

- O Sr. Jorge escrevia-me todas as semanas. Eu sabia que estava a morrer. Diz à avó que cumpri durante todos estes anos o que lhe prometi naquele dia.

Desatou a chorar e desligou.

 

Soube depois, pela minha avó, que todos os meses o Banco transferia de forma automática da conta da minha prima uma soma considerável para uma outra conta titulada por um Jorge Ferreira, o Volante que morreu. 

 

Quarta neta

 

As sardinheiras de Espanha no jardim e o colar de pérolas pousado sobre o livro, no banco de madeira e de almofadas.

- Não lês, avó?

Não lê. Sente a saudade a confundir palavras e as sardinheiras soltas a morrer de velhas.

- Eu vou tratar das flores, avó. Eu vou cortar os canos que não servem.

Mas ela sabe. Sorri e pousa as mãos no livro, enrola os dedos no colar de pérolas.

- Primeiro dá-me um beijo, minha querida.

Beijo-lhe as mãos.

- Sempre foste a minha neta preferida. Sempre foste. Que Deus me perdoe, sempre foste.

Estou de joelhos e tenho um punhal cravado na garganta.

- Vou ler para ti, avó.

- Não, minha menina. Tu és a única palavra que eu quero ouvir agora.

 

As sardinheiras de Espanha no jardim e um colar de pérolas na alma.

 

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7 rabiscos

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De Violinista a 28.12.2015 às 16:59

Bonitas memórias. E deliciosamente bem escritas.
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De Gaffe a 28.12.2015 às 17:04

Obrigada.
A criatura magnífica que as provocou, merece todo o meu empenho.
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De Maria Araújo a 28.12.2015 às 21:42




Um abraço.
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De Gaffe a 29.12.2015 às 09:39

Já o tenho aqui.
Obrigada.
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De Anónimo a 05.01.2016 às 20:16

Muito bom!
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De Gaffe a 05.01.2016 às 20:52

Obrigada.

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