Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sacrificada

rabiscado pela Gaffe, em 26.09.17

Sergio Martinez.jpg

 

De forma a aproveitarmos a presença breve da minha prima por terras lusas, fomos as três muito unidas rumo à confeitaria/leitaria Quinta do Paço onde uma pequena esplanadita nos faculta umas mantas vermelhas bastante ranhosas, mas muito quentes - que, digam lá o que disserem, o fim de tarde já arrefece - e uns éclairs recheados - chantilly ou chocolate - de morrer ali todos diabéticos.

As duas mulheres desprevenidas enroscaram-se nas mantas transformando-se em índias Cheroqueques, muito felizes. A perfeição da minha irmã recusou o allure, porque tinha trazido casaco e um objectivo. Já que ali estava - e suspeito que estávamos ali por isso - tinha marcado encontro com o arquitecto italiano que a substituirá durante uns dias. Queria que o homem visse in loco uns detalhes nos edifícios em frente. Os pormenores estudados seriam reproduzidos aquando da recuperação de um mamarracho qualquer, algures de onde o homem veio.

 

Vimos o rapaz chegar de sorriso aberto.

 

Muito agradável à vista desarmada, em excelente forma física, moreno e luminoso, de olhos pretos e negra madeixa ao vento, o descontraído rapaz trazia vestida uma t-shirt arrepiada, um casaco desleixado e umas calças de malha fina que são um cruzamento entre um fato de treino e umas ceroulas, mas que parecem ser consideradas um must pelos musculados concorrentes do Big Brother mais guna – ouvi na Ribeira e não sei o que significa, mas acho que fica bem aqui -  e pelos artistas mais boémios que citam Sartre e entendem Miró até ao âmago - o que une extremos consideráveis.  

 

Apercebemo-nos, talvez devido à luz de Outono que tombava devagar, que havia qualquer coisa estranha no andar do moço, mas, como se diz no velho Douro, nem fun nem fanforreira partilhamos, guardando cada uma a estranheza no mais íntimo da alma. 

 

A minha irmã levanta-se, o homem sorri-nos – ciao! - e desatam os dois a apontar as pedras e as varandas, com a anfitriã a rabiscar explicativos riscos no bloco que tinha tirado da carteira.

 

As duas índias Cheroqueques, sentadas, quietas, caladas como ratas, de éclair parado e perplexo, tinham avistado a razão da anomalia no andar do homem.

As calças largas de malha fina tinham-se colado, tinham-se grudado, à pila do moço!

Aquilo ou era electricidade estática ou então tinha chovido na véspera e encharcado uma anaconda da Amazónia. Contornos, desenhos, protuberâncias, trilhos, volumes, escavações, bossas, saliências e arredores, tudo ali mesmo à mão de semear tempestades e colher a ventania que deve aquilo fazer ao abanar.  

                                                                                                                                                    

Se tivesse aparecido nu da cinta para baixo, seria mais discreto, valha-nos Deus!

 

O homem pousava o peso na perna esquerda e a piloca acompanhava toda elegante o movimento, o homem pousava o peso na perna direita e o monstro lá estava, pronto para se aninhar noutras paragens.

 

Olhei de soslaio para a minha prima.

A rapariga estava com o nariz franzido, com os cantos da boca repuxados e os olhos transformados em frestas orvalhadas por onde se escapava um riso destravado. O queixo termia um bocadinho, mas nada que indicasse epilepsia. 

Bastava que o meu joelho tocasse o dela, avisando que também testemunhava os movimentos de Loch Ness, para termos foguetório.

A minha irmã pousou o bloco na mesa e desembainhou as armas brancas dos olhos. Percebemos que bastava um nosso inocente e simples risinho parvo e totó para sermos atingidas na jugular pela lapiseira encharcada em cicuta. 

 

Quietinhas. Caladinhas. A tentar não nos esbardalharmos, nem fazer ruir os edifícios. 

 

A minha prima olhava para os transeuntes, evitando cruzar manigâncias comigo e com o que oscilava ali na frente. Ouviam-se uns ruídos surdos que soltava pelo nariz, acompanhados por esquivos solavancos nos ombros e no peito. Eu, muitíssimo mais controlada nestas ocasiões - é nestas e nos terramotos. Foi ver-me no de 1755! -, procurava encontrar forma de lhe causar a perdição completa.

Peguei no bloco e escrevi:

 

O homem não traz cuecas!!!

 

 Estendi o bloco e a lapiseira. A minha prima leu e com os queixos a tremer, com as maminhas a saltar e os ombros a abanar, conseguiu os riscos:

 

Ou traz o fio dental ao contrário.    

 

Voltei à carga:

 

Não é italiano. Está a mentir.

 

A minha prima ficou curiosa. Beberricou o sumo de laranja para acalmar, franziu as sobrancelhas e já muito séria inquiriu - com os olhos, porque qualquer palavra dita, por imbecil que fosse e a ano-luz de ter piada, provocaria o descalabro.

 

É de Mirandela. Traz o fumeiro dentro das calças.

 

Desastre absoluto.

A mulher esbardalha-se sem dó nem piedade e até pelo nariz. O sumo de laranja disparado num borrifo imenso atinge a prima Cheroqueque que fica com o cabelo como se tivesse atravessado o furacão Maria e sofrido em seguida uma tempestade tropical, pois que até das pestanas o sumo pingava. 

Já nada nos trava. Depois de chorar desalmadamente, ensopando as gargalhadas, e depois de sentir o ar a fugir, o riso abrandou.

Olhamos as duas para a morte que se perfilava.

A minha irmã tinha na mão o bloco e tentava salvar e limpar os gatafunhos. Tinha lido as nossas angelicais considerações.

Havia explicações a dar.

Vira-se devagar para o homem atónito e sussurra com um perfeito sotaque spaghettiano.

 

- Questionaram a tua nacionalidade. Uma tolice, já que trazes a Torre de Pisa enfiada na porcaria das calças.

 

Apesar de, pela primeira vez, a minha irmã ter conseguido ser brejeira - há inesperados que abanam pesados no meio das mais sólidas convicções -, estas duas primas Cheroqueques vão morrer em breve; quiçá abrasadas pelo rubor incandescente que assolou o pobre do rapaz; quiçá vítimas de facas embebidas em curare, atiradas pela grande sacerdotisa - cuja mira é falacciosa -; quiçá sacrificadas em rituais tribais onde são trespassadas por alheiras do tamanho de anacondas.

 

A minha prima admite que a última hipótese é a que prefere.

 

Ilustração - Sérgio Martinez

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:


21 rabiscos

Imagem de perfil

De Genny a 26.09.2017 às 15:11

Eu acho que não conseguia aguentar tanto tempo sem rir como vocês estiveram. Maravilhosa descrição!
Imagem de perfil

De Gaffe a 26.09.2017 às 15:59

Mas nós tivemos de aguentar.
O problema é que quando não nos podemos rir, o riso ataca de modo furioso!
Imagem de perfil

De Maria a 26.09.2017 às 15:27

H I L A R I A N T E!!!
Pobre coitado
Imagem de perfil

De Gaffe a 26.09.2017 às 15:57

Pobres de nós que vamos sofrer tanto!
Imagem de perfil

De Maria a 26.09.2017 às 19:51

Acredito
Da minha parte, não posso fazer nada para ajudar, mas quero deixar aqui.o meu agradecimento pelo que me fizeste rir!!!
Imagem de perfil

De azulmar a 26.09.2017 às 15:30

Coincidentemente estive a ler este post na LQP enquanto almoçava. O meu sumo de laranja quase teve o mesmo destino que o vosso. O que ri à conta desta história!
Imagem de perfil

De Gaffe a 26.09.2017 às 15:58

Pois. Mas vamos amargar forte e feio. A fera não esquece...
Imagem de perfil

De Quarentona a 26.09.2017 às 16:03

Rir quando é totalmente proibido? É comigo :D
Imagem de perfil

De Gaffe a 26.09.2017 às 16:12

E com a minha prima também.
nem imaginas o que aconteceu no coro da igreja num funeral de "estalo" e de "estado"... só porque lhe disse que o morto não tinha boas cores e que não percebia porque tinha os óculos postos já que a terra não comia lentes.
Desata a rir-se com as tiradas mais imbecis, desde que seja proibido rir.
Imagem de perfil

De Maria Araújo a 26.09.2017 às 17:23


Ahahahahaha!
Soberbo!
Imagem de perfil

De Gaffe a 26.09.2017 às 19:02

:)
Apeteceu, na frente daquilo, gritar "vade retro Satana"!!!
Se conseguíssemos parar de rir a tempo.
:)))
Sem imagem de perfil

De Maria a 26.09.2017 às 17:18



Eu não me aguentava, ia rir à maluca!
Muito engraçado
Imagem de perfil

De Gaffe a 26.09.2017 às 19:04

Mas nós não aguentamos! Sobretudo porque era proibido rir.
Imagem de perfil

De Maria Araújo a 26.09.2017 às 17:22

Fantástico, Gaffe!
Nem imagina o quanto admiro a sua eloquente escrita em tudo o que conta: o sério, o ridículo, o humor.
Nem há palavras para mais.
Imagem de perfil

De Gaffe a 26.09.2017 às 19:03

São tolices.
Mas obrigada.
:)*
Imagem de perfil

De j.campião a 26.09.2017 às 22:05

Não. Não são tolices. Já li muitas tolices...
Imagem de perfil

De Gaffe a 27.09.2017 às 10:06

:)
Serão tolices novas.
Sem imagem de perfil

De Maria João Machado a 29.09.2017 às 12:57

Já há bastante tempo que não passava por estas avenidas e ainda bem que hoje passei. Ri-me tanto!! Obrigada pela descrição maravilhosa!
Imagem de perfil

De Gaffe a 29.09.2017 às 13:16

Olá Maria João!
Seja bem-vinda.
:)
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 04.10.2017 às 16:55

É bom passar por aqui, parabéns á autora deste blog.
WW.
Imagem de perfil

De Gaffe a 04.10.2017 às 18:58

Obrigada. É raro ter um anónimo amável a passear por aqui.

Comentar post



foto do autor




  Pesquisar no Blog






Copyrighted.com Registered & Protected 
JIFR-J5MR-Y1XR-YACD