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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sem medo

rabiscado pela Gaffe, em 31.10.17

Halloween

 

A Gaffe admite que não tem medo de zombies, espectros, possessos e quejandos.

São criaturas sem berço nem campa. Aparecem sem prevenir, a horas a que uma rapariga de boas famílias já não recebe e sempre de mãos a abanar.

Surgem do nada, esquálidos e sem corrector de olheiras, como se tivessem estado pasmadas a ver o telejornal na RTP1, liderado pelo melhor escritor português que, com a objectividade que o caracteriza, vai enfatizando palavras através de entoações manhosas e de manobras manuais, manipulando de olhos esbugalhados pequenas coisitas que adquirem assim a importância que nunca tiveram. Usam unhas de gel, mas esquecem que esse tipo de erro só pode ser cometido por Iphones com raparigas apensas, por psicopatas assassinas, pelo Freddy Krueger, por senhoras que gostam de se excisar - várias vezes -, durante as suas mais reservadas actividades lúdicas, por moçoilas cuja higiene diária é robotizada e o papel higiénico é autónomo como a Catalunha e jamais por gente morta que anda na lavoura, pois que a terra fica presa ao verniz e provoca muitos espigões.

Vestem-se com Viviene Westwood dos anos setenta, depois de um desfile que correu mal e com uma taxa de alcoolemia que as faz passar por anémicas.

São criaturas sem princípios, maçadoras, que leram pouco - convém levar para a cama apenas gente que acabou um livro e que inicia outro -, sem dom de palavra e mal sintonizada, porque urram e rosnam imenso - como a Rádio Renascença.

 

O melhor que podemos fazer é ignorar ou fazer de conta que não estamos.

 

A Gaffe confessa que tinha medo, isso sim, de criaturas que lhe tentavam agarrar os pés de porcelana e lamber as unhas imaculadas, procurando arrastar esta angelical rapariga para o submundo da cuesia e prosa puética, com manigâncias que causavam algum desconforto e com récitas murmuradas entre dentes. Eram coisas balofas e brancas, pequenas, redondinhas, gelatinosas, anafaditas, papudas e celulíticas. Rastejavam sorrisos e amabilidades verdes e ranhosas; cantavam em surdina lengalengas amorosas; despejavam água de rosas nas línguas - tinham várias - para disfarçar enjoativamente os odores do que cuspiam de repente; levantavam bandeiras de bondade, de solidariedade, de comunhão com o planeta e de transcendente despojar daquilo que é vil, abjecto e sem florinhas, mas que salivavam, se contrariadas, o nojo e abjecção do mais mesquinho dos preconceitos, culpabilizavando - vítimas dos céus e dos infernos que conspiravam sempre contra elas -, miríades de estrelas impossíveis de tocar.

 

Eram criaturas que assustavam a Gaffe, até que esta rapariga se apercebeu que bastava colocar um dos seus diáfanos lenços Hermès sobre os mimosos pés. Por muito que tentem, não lhe conseguem chegar.

 photo man_zps989a72a6.png

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15 rabiscos

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De Corvo a 31.10.2017 às 15:09

" A Gaffe confessa que tinha medo, isso sim, de criaturas que lhe tentavam agarrar os pés "... e todo o restante desenvolvimento terrificante que o espantoso descritivo esclarece quem quiser, ou esteja interessado/a a ser esclarecido/a...o que me parece mais viável
Os outros, os mortos disfarçados de vivos, nem com as nails de gel a atemorizam.
Vou do espanto para a estupefacção! E não é que lhe dou razão?!
Desconheço, nunca soube e duvido de alguma vez ter acontecido, que todos os mortos desde que o mundo é mundo, todos juntos, tenham feito tanto mal durante todo esse longo tempo, como um/a só dos segundo/as tenham feito numa hora.

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De Gaffe a 31.10.2017 às 16:03

Mas, meu caro Corvo, os/as segundos/as não aguentam o mal que supostamente fazem. Mordem-se ao mesmo tempo e fica tudo resolvido.
:)
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De Fleuma a 31.10.2017 às 16:26

Seria vil da minha parte não admitir o rasgado sorriso que esta leitura me provocou.

Ou então, enquanto vai rangendo a minha cadeira de baloiço e em surdina, que é necessário salvar aparências, vou partindo o caco a rir.

Sempre me fascina e aqui encontro referências a certos mitos como a cuesia e os cuetas. Fascinante e delicioso.

Ah!!!... nada mais gracioso do que observar alguém que consegue escrever com a mesma sobriedade e eficácia do artista que maneja uma ponta-e-mola. Mesmo sabendo-a delicada, seria a minha escolha de parceira ideal para uma rixa!
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De Gaffe a 31.10.2017 às 17:50

Quem deseja uma rixa consigo, sabendo que a vai perder e que há milhares de outras coisas bem mais violentas para fazer com o meu querido Fleuma?!
:)*
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De Pequeno caso sério a 31.10.2017 às 21:38

E eu a pensar que era a única maluquinha que tinha esta coisa com o puxar de pés durante a noite...

ADOREI o texto minha amiga. Bravo!
E a imagem senhores...a imagem...cheira - me a "fantasminha brincalhão ".

:))))))
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De Gaffe a 01.11.2017 às 00:08

Já foi pior. Continuo no entanto a correr como uma doida corredores fora quando tenho de me levantar de noite e não há interruptor por perto. Quanto mais corro, mais medo tenho! Os corredores nunca mais acabam.

A imagem é inspiradora. Também achei...
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De Isa a 01.11.2017 às 11:29

Penso que sabes, Gaffe mai linda, que não deves expôr fotos de pessoas nem de pessoinhas, sem as suas respectivas autorizações...:P

Assustei-me tanto que quase me apeteceu comer uma empada.

(Ou um arroz doce).

(Ou bolo de não sei quê polvilhado de uma treta qualquer).

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De Gaffe a 01.11.2017 às 19:16

Sei, mas sei também que por muito que estas criaturas sejam expostas, não se reconhecem na fotografia. Olham e apenas conseguem ver o que lhes convém. Daí não correr o risco de ter de pagar direitos de imagem.
:)
Aproxima-se o Natal! Que tal umas receitinhas? Fotografamos a confecção das ditas, passo a passo, e publicamos. Vais ver que muito gente emagrece só por ver as imagens do processo.
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De Maria Araújo a 01.11.2017 às 19:17

"...liderado pelo melhor escritor português que, com a objectividade que o caracteriza, vai enfatizando palavras através de entoações manhosas e de manobras manuais, manipulando de olhos esbugalhados pequenas coisitas que adquirem assim a importância que nunca tiveram.

Detesto este homem precisamente pelos tiques, gestos, entoações que faz.
Odeio nails de gel, " odeio" todo este tipo de gente.
Os que restam, os da cuesia e prosa cuética não me dizem nada.
Mas eu sou uma qualquer mulher que usa as mãos para o que preciso for.

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De Gaffe a 02.11.2017 às 07:43

Às vezes tenho tanta, tanta, tanta razão no que digo que até me cansa o espanto com que fico!
:)))*
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De Maria Araújo a 02.11.2017 às 13:34

Admiro-a muito, Gaffe.
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De Gaffe a 02.11.2017 às 13:50

Obrigada.
:)
A admiração é recíproca.
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De M.J. a 02.11.2017 às 12:25

"Eram criaturas que assustavam a Gaffe, até que esta rapariga se apercebeu que bastava colocar um dos seus diáfanos lenços Hermès sobre os mimosos pés. Por muito que tentem, não lhe conseguem chegar."

só isto.
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De Gaffe a 02.11.2017 às 13:50

:)
Vale tudo só para te ter aqui.

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