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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sentencia

rabiscado pela Gaffe, em 25.10.17

Julio Ruelas - 1907.jpg

 

O preconceito, sendo a mais básica forma de raciocínio, tem, não raro, como afluentes foleiros, aforismos, tantas vezes ditados populares, frases feitas e expressões várias que trazem dentro a maleita mais ou menos disfarçada.

 

Embora do preconceito sofrido pelo feminino reze a história - sobretudo a bíblica - não é agradável, nem muito esperto, desfraldar revoltas, rasgar vestes ou criar plataformas digitais - onde no primeiro intervalo da indignação se vendem cosméticos e se apela ao consumo de valor acrescentado. É francamente tonto reagir queimando em praça pública - ou seja, no facebook - o infractor que revela ao mundo a sua imbecilidade. Há preconceitos que são uns queridos e apoiam a mulher como nunca a falta deles o fez. Basta que os saibamos manipular e usar conforme as nossas conveniências.

 

A Gaffe, por exemplo, está habituadíssima a ser, como ruiva que é, classificada como predadora sexual, exigente e insaciável. Um mimo que se reporta ao conluio com Satanás, pacto assinado durante os picos da Idade Média e que actualmente tem uma variante - a assanhada.

É evidente que não é simpático ter a maçada de sabermos que a nossa cabeleira ruiva tem conotações sexuais, mas, por outro lado, o preconceito que a despenteia é ao mesmo tempo um repelente de pilas pindéricas. Nenhum homenzinho se atreve a assediar uma ruiva. Sabe que sai da liça completamente esfarrapado, humilhado, com o enxoval em pantanas e a chamar pela mãe. Neste caso, o preconceito é útil e acaba mesmo por nos assegurar uns valentes machos alpha que, desde que se mantenham calados, passam incólumes.

 

Convém não esquecer que o preconceito é na esmagadora maioria das vezes manipulável.

 

Uma rapariga esperta sabe que sendo o preconceito um raciocínio esmagado, espalmado e plano, tem sempre um vértice, uma pontinha, um biquinho, uma arestazinha, capaz de nos entregar a possibilidade de infringir ao detentor do dito uns cortes parecidos com os do papel. Raras são as situações que cortam tanto um menino como aquelas em que o ouvimos declarar, por exemplo, que a cozinha é o lugar das mulheres, ou que a mulher quer-se como a sardinha – este é francamente uma porcaria! Imaginamo-lo de imediato - com alguma comiseração, é certo -, a cuspir os dentes num prato vazio e a tentar mastigar os que vão caindo, com uma espinha enfiada no rabo, só para mostrar que é capaz de grande ousadias e de brutas aventuras todas masculinas. Apetece imenso pedir ao petiz que vá num instantinho à pesca. Sabemos que só assim surgirão hipóteses do pobre ter um encontro amoroso, com promessa de envolvimento sexual. Terá de se apressar - pois que é dito que se vai proibir em breve a apanha das suas eventuais namoradas -, e nessa pressa, uma rapariga vai andando livre de aromas são-joaninos.

 

É evidente que nem todos os preconceitos são fáceis de manobrar. Existem os que se disfarçam de Velhos Testamentos, de sentenças bíblicas ou mesmo de leis anquilosadas que se aproximam imenso da vida dos que as proclamam hoje. São preconceitos que simulam o raciocínio, mas que se transformam em crime.

 

Os preconceitos dos pequenos homens dão imensa vontade de citar as mulheres do Douro e com elas murmurar à moda antiga que homem pequenino - ou velhaco, ou assassino.

 

Imagem - Julio Ruelas -1907

 photo man_zps989a72a6.png

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19 rabiscos

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De Maria a 25.10.2017 às 16:34

Brilhante...
Gostava de saber o que o Gui teria a dizer sobre o código penal de 1886...
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De Gaffe a 25.10.2017 às 16:39

:)
O Gui cedo ou tarde acaba por ter de escrever uma das suas "redassões".
;)
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De Anónimo a 25.10.2017 às 16:35

Eu conheço a expressão como «homem pequenino ou velhaco ou bailarino». Menos violenta, mas muito mais mazinha. :)
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De Gaffe a 25.10.2017 às 16:38

Também conheço. É duplamente preconceituosa, porque o "bailarino" esconde uma conotação insidiosa. A que citei é uma adaptação da agora referida.
Não é necessário ser tão má!!! Não merecem.

:)
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De Corvo a 25.10.2017 às 17:14

Nunca irei compreender, decerto e por escasso tempo restante morrerei sem compreender, o que leva ao preconceito de um homem sobre uma mulher. Não consigo, não entra na minha racionalidade.
Enfim; pequeno, pequenino, ignorante e bailarino.
E do alto da sua arrogância machista, julgando-se a brilhar no salão, alvo de admiração, dança o tango da humilhação.
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De Gaffe a 25.10.2017 às 19:39

São rosas, Senhor. São rosas.
:)
Uma rapariga esperta sabe sempre como "virar o bico ao prego".
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De Corvo a 25.10.2017 às 20:26

Eu sei que sabe. Não só as espertas como as que olhando para si, sabem ver a feminilidade.
Imbecis cretinos.Passam pela vida sem aprenderem nada.
Faz tanta falta a uma mulher um homem, como uma bicicleta a um peixe.
Depois lamentam-se que são muito infelizes.
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De Gaffe a 25.10.2017 às 21:32

Mas repare, meu querido Corvo, que gosto imenso de homens!
Mesmo dos machistas ligeiros e bonitos. São mais fáceis de seduzir e despacha-se o assunto poupando muito tempo.
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De Pequeno caso sério a 25.10.2017 às 17:48

Nem imaginas o que toda a vida tenho sido "massacrada" com piadolas (?) referentes à minha altura que , desde que comecei a fazer madeixas, acumulam com as graçolas sobre loiras. Um tédio que chega a dar dó. Às vezes pergunto - me se essas 'ssoas acham que aos 44 anos ainda não reparei no pormenor de ter 1,50m...

A vontade que tenho é mandar essas
'ssoas bardamerda. Como nem sempre isso é possível tive de me socorrer do Caeiro :

"Sou do tamanho do que vejo, e não do tamanho da minha altura !"

Não raras vezes ficam com cara de poia 💩 dado que não atingem.
Fica então provado que a burrice e o preconceito servem a todos. Já o humor, só a alguns.
; )
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De Gaffe a 25.10.2017 às 18:51

Repara no entanto que com a tua altura podes perfeitamente dar uma valente cabeçada loira onde mais eles merecem, sem sequer teres de te mover muito.
Há que relativizar.
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De Carlos Berkeley Cotter a 25.10.2017 às 20:13

Brilhante. Sempre no alvo, em cheio.
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De Gaffe a 25.10.2017 às 21:29

Obrigada.
Fico muito contente por o voltar a ver por aqui. Pensava que tinha sido apenas um cruzar ocasional e único.
:)
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De Carlos Berkeley Cotter a 26.10.2017 às 10:15

Não, de todo. Não perco um post.
Obrigado eu.
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De Gaffe a 26.10.2017 às 13:34

Fico orgulhosa, mas com um certo receio de, mais cedo ou mais tarde, o desiludir por completo. Acontece-me muito.
:)
Obrigada.
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De Edite a 26.10.2017 às 10:09

Os preconceitos são reflexo da nossa sociedade, que pouco evolui, infelizmente. Aliás, a cultura do machismo implica ter medo de uma série de coisas, como: mulheres, gays, certos tipos de trabalho ou de peças/cores de vestuário. Tudo assusta um homem pequeno, como dizes, e é o medo é tal que parece que representa um vírus que pode ser transmitido ou disseminado pelo ar que respiram.
No caso das mulheres, ainda não consegui apurar a necessidade de as tratar como micróbios. No fundo, no fundo, eles, o Homem, é que são a doença da humanidade, drasticamente falando, pelo complexo de inferioridade e necessidade de afirmação.
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De Gaffe a 26.10.2017 às 13:36

Não sejamos tão duras. Os homens são uns bichinhos muito interessantes. Não entendem é nada do que se passa com as mulheres e ficam assustaditos. É só fazer de conta que lhes explicamos e parecer que que acreditamos que eles entenderam.
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De Carlos Berkeley Cotter a 26.10.2017 às 16:16

Desilusão? Ainda não foi desta.
Obrigado.
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De Maria Araújo a 26.10.2017 às 18:21

Adoro estas avenidas quando o tema do desfile é os homens.
E este pequenos, ui!
E a Gaffe encontras as palavras certas para os caracterizar.



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De Gaffe a 26.10.2017 às 19:32

Oh!
Há homens que de tão pequenos são indescritíveis.

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