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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe vitrinista

rabiscado pela Gaffe, em 21.12.16

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O meu casaco é azul-escuro, um marinheiro genuíno, de trespasse, com botões dourados envelhecidos com âncoras gravadas. Visto-o e empurro os rebuços de modo a que me protejam a nuca das navalhas do frio e desço para vaguear pela Avenida deserta. Do lado do mar, que do outro as montras titilam e tilintam com luzinhas frouxas de Natal e neve em spray a desenhar felicitações aos passageiros.

  
Do lado do mar faz frio. Gela-nos o nariz. Faz-nos parecer eternos constipados.  
Uma mulher de cabelo solto e grisalho apanha pedras na praia e guarda-as num saco. Pedras ou conchas, que daqui não vejo.  
Um homem novo corre pelo trilho das bicicletas de calções de Lycra pretos e t-shirt molhada, medindo o tempo no cronómetro.


A praça em frente ao Porto Doce é pequena, quase nua e circular, cinzenta e bege, com bancos pintados de vermelho. Gosto da Praça, mas não gosto do café que fica em frente com aquele nome adocicado. Gosto de ficar ali, parada e sem pensar em nada, a ver os trolhas velhos que descarregam vidros e os seguram com as palmas das mãos abertas e gritos de aviso. Gosto da rapariga que passa por mim e me sorri, aconchegando os rebuços do casaco que não é marinheiro genuíno, mas que vem do mar e é azul também. Tem dois livros na mão e luvas de malha cor-de-rosa. Gosto dos cães que o senhor de bombazina traz pela trela e que urinam nos pneus dos carros depois de os seleccionar criteriosamente. Gosto do meu casaco com rebuços que me recolhem os olhos.  

 

No ano anterior, no oculista caro, o cenário era atroz. Na montra tinham recriado um sem-abrigo usando um boneco deteriorado, com uma barba miserável, pintada a marcador e um gorro na cabeça. Deitado num banco, coberto com uma manta escura com riscas vermelhas, a olhar, morto, para nada, com cascatas de luzinhas e estrelas em redor. No chão os espampanantes Just Cavalli e mais neve em spray.

 

 No ano anterior, na época alta da solidariedade, a olhar esta montra, reconheci a existência de criaturas que amesquinham a própria infelicidade e o desmesurado rancor despeitado com que atacam o sorriso dos outros. Como pietás de pechisbeque, agarram com metáforas e elegias piedosas os sem-abrigo, os míseros, os abandonados à demência, os velhos em farrapos, os mendigos, os exilados, os párias e todos os que encontram nas esquinas mais sombrias da tragédia e como viúvas beatas de Ebenezer Scrooge transformam-nos em macacos, em bonecos atrozes, expostos nas montras das vidas de quem passa, como esconsa vingança infectada por um doentio ciúme das luzes nos olhos dos outros, como se a miséria que macaqueiam desta forma tivesse uma época alta onde a obrigatoriedade de tomarmos consciência da morte e da desumanidade fosse sazonal e, como na época dos saldos, fosse imperiosa a correria desenfreada, de terço ao pescoço e cilício na alma, às catacumbas da infelicidade empática. Só porque é Natal.

 

 Fazem da miséria humana um macaco de montra de oculista.


Visto o meu casaco, um marinheiro genuíno, azul-escuro, de trespasse, com botões dourado envelhecido e volto à minha Praça, nua e quase circular.  
Já não existe a mulher de cabelo solto e grisalho. Já apanhou todas as pedras. Pedras ou conchas, que daqui não vejo bem.

Sinto um orgulho desavergonhado em ser feliz.  

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2 rabiscos

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De Pequeno caso sério a 21.12.2016 às 18:44

A rapariga que se cruzou contigo e de quem tu gostaste quase que podia ser eu.
Quase .
Porque não costumo usar luvas e muito menos cor de rosa .
Quase.
Porque nunca cubro as mãos na esperança de que o frio que as gela me relembre que ainda estou viva mesmo depois de assistir às merdas mais surreais.
Quase.
Porque ,mesmo em piloto automático, no meu coração é sempre época alta da solidariedade 365 dias do ano .
Quase.
Porque se nos cruzassemos tenho a certeza que me sorrias de volta.
: )
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De Gaffe a 21.12.2016 às 19:03

Suspeitei que fosses tu.
:)
Só hesitei por causa da cor das luvas, mas sorri mesmo assim.

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