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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e o mistério do Ano Novo

rabiscado pela Gaffe, em 03.01.17

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Misteriosos são os desígnios do senhor.

 

Do senhor que no primeiro dia do ano vai banhar-se nas águas gélidas do oceano mais perto de si - dele, do senhor, não de si, que apenas observa a quantidade de compinchas que o seguem nestas aventuras mais ou menos náuticas.

 

A ausência de banhistas dignos de figurar no rol de escolhas da Gaffe é escandalosa. Não existe nesta multidão de alegres e encharcados foliões e folionas por esfoliar, um único matulão capaz de ter hipóteses de a levar em braços para os seus projectos de cruzeiro onírico.

 

A Gaffe lamenta que apenas os seniores – a Gaffe decidiu ser cuidadosa -, os mais barrigudos e os mais desdentados; os carecas com patilhas gigantes que atravessam a cabeça como um polvo apanhado por incúria no mergulho; os de ceroulas sem elásticos e coturnos coloridos; os mascarados de matrona carnavalesca - há que ter atenção e não os confundir com as matronas carnavalescas que também se atiram às ondas nesta altura -, os que usam cuecas descaídas que deixam escapar um dos tentáculos do polvo já falado e o senhor Presidente da República, se atrevam a tamanha aventura que acaba sempre com a pila transformada em azeitona, mas heróica a declarar convicta que está mais frio cá fora que lá dentro.   

 

A Gaffe não entende os mistérios desta tradição ancestral que só na Caparica já perfaz dez anos e propõe uma renovação, uma revigorante inovação, uma adaptação aos tempos modernos que também não são de escaldar:

No primeiro dia de 2018 banhar-se-ão nas águas do oceano apenas rapagões seleccionados por esta rapariga friorenta e promete que a menina que chegar primeiro ao primeiro que emergir pode esfregar-lhe a toalhinha onde quiser.

 

A Gaffe sempre apreciou uma bela e esbardalhada correria pela praia fora.

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A Gaffe resoluta

rabiscado pela Gaffe, em 03.01.17

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A Gaffe decidiu colar isto na testa.

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A Gaffe em 2017

rabiscado pela Gaffe, em 31.12.16

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Aproxima-se 2017. Aproxima-se o futuro!

Deixemo-nos voar!

O início é sempre uma promessa, um sonho para cumprir, asas de esperança, matinal planície a soerguer-se e colibri que toca o despontar da flor.

 

Temos só de cuidar não nos esbardalharmos depois pelos meses fora.

 

Feliz 2017

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Gavetas:

A Gaffe e os sete instrumentos

rabiscado pela Gaffe, em 29.12.16

A Gaffe recusa-se a iniciar 2017 sem prestar homenagem ao homem que partilhou com ela o último trimestre de um ano já passado há muito tempo.


Nós, raparigas inconscientes, ignoramos demasiadas vezes a importância de ter por perto um exemplar dos chamados homens de sete instrumentos. São no entanto estes miraculosos espécimes que nos deixam livre, indiferentes aos destinos que lhe damos, o compartimento onde se acumula o nosso arsenal de produtos de beleza.
No manancial dos nossos cremes diurnos e cremes nocturnos; máscaras de variadas dimensões, consistências, formatos, objectivos e aromas, rejuvenescedores de massa capilar e das outras massas que, cedo ou tarde, ameaçarão ceder à gravidade; retardadores de pés-de-galinha e de outras tantas pegadas de bichos mais pesados; unguentos vários que reafirmam a firmeza - que juram duradoira -, do que por enquanto ainda não relaxa e de demasiado mais que agora nos escapa, encontramos, os mínimo, ínfimos, tímidos, quase humilhantes, culpabilizantes, sete instrumentos desta espécie de delicioso troglodita:


1 - A lâmina de barbear;
2 - A espuma de barbear;
3 - A loção para depois da barba,
4 - A pasta dentífrica - invariavelmente sem tampa;
5 - A escova dos dentes;
6 - O sabonete;
7 - O desodorizante.


Sete. Tão mágico! Tão simbólico! Tão cabalístico ou maçónico!


Não são retrossexuais, porque preferem ler o blog do Cláudio Ramos a imaginar um pingo, doce que seja, de cera depilatória a tocar-lhes as axilas e a aflorar-lhes as virilhas - e porque acreditam que a palavra tem um prefixo que lhe dá um sentido dúbio.


Pensam que Kant é apenas uma regra de futebol na boca de Ronaldo - Nã é fôre de jôgue, é Kant! – e ignoram que, por muito que nos seja agradável durante uma ou duas semanas, buzinar-lhes os músculos logo após a chegada do ginásio - cedendo às suas súplicas exibicionistas -, os torna, a eles, previsíveis e a nós muito mais exigentes durante as mais íntimas investidas daquilo que já nos fartamos de apalpar.


São, no entanto, estes homens de sete instrumentos que nos fazem acreditar que somos esplendorosas, brilhantes, educadíssimas, bon chic, bon genre, repletas de glamour, cultas, inteligentes, a roçar o genial, e nos transformam na heroína da canção do Marco Paulo – Uma lady na mesa, uma louca na cama - e louca é a mais decente das palavras que descreve aquilo que nos fazem sentir no amarfanhado dos lençóis.

 

A Gaffe crê, mas não afirma, que o sangue, irrigando de forma exígua o cérebro, se vai concentra em zonas menos dadas ao raciocínio e muito mais vocacionadas para a acção.


Durante um último trimestre de um ano que já passou há séculos, a Gaffe partilhou parte dos seus dias, e as noites completas, com um destes exemplares, lindo de morrer de todas as formas de pequenas mortes. Adorou cada instante e surpreendeu-se - embora estranhasse a ausência daquele ruído bom do virar das páginas de um livro -, com as melodias tranquilas e relaxantes geradas, por vezes, pela privação do pensamento.


O seu primeiro acto de 2017 será este render de homenagem a um homem de sete instrumentos que repartiu consigo o tempo que gastou a montar um puzzle, celebrando ao mesmo tempo a euforia, o êxtase e a exaltação que o dominou por ter conseguido unir correctamente as peças em três meses - quando na tampa da caixa dizia de 3 a 5 anos!


(Um beijo, meu muito, muito querido Rodrigo!)

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Gavetas:

A Gaffe com roseiras

rabiscado pela Gaffe, em 07.12.16

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No Douro é uso plantar roseiras perto das vides.

São vermelhos sinais de perigo e de maleitas. A morte agarra primeiro o veludo indefeso das pétalas e entrega aos homens, alertados, o tempo de salvaguardar as vinhas.

Nada há para troca. 

 

Lembro-me que ia pelo condenado ardor destas roseiras bravas ao mais alto dos socalcos.
Queria ver as nuvens como bandeiras mortas desabarem.
Queria encharcada de frio, de corpo líquido e de coração de enxurrada, ouvir os queixumes das folhas e a inquietude parada dos pardais. Queria ser maior do que eu e não ser nada. Queria ir de nuvem a escorrer-me pela boca, a entrar-me nos olhos para me secar a sede. Queria ver a minha terra de encardida lama. Terra que se lateja no coração das casas. Terra de abismos a cheirar a púrpura. Terra de socalcos prestes a parir. Terra que nos vem lamber as mãos e morde de repente a latir roseiras bravas.

 

Princesa fugida do inquebrável reino, queria ver a minha terra e na enxurrada dos socalcos via rosas bravas vermelhas mortas no peito da terra. Bocados de espuma a tombar na ara de lama.

Tinha ciúmes dos retorcidos e negros troncos das videiras, dos nodosos ramos grossos de silêncio protegidos pela ardência do sacrifício das rosas vigilantes. Via a impoluta indiferença rude e tosca das videiras perante a queda, que anunciava o perigo, das rosas bravas vermelhas, moribundas.

 

Demorei todos estes anos a perceber que há rosas bravias mesmo ao nosso lado. Ignoradas rosas que morrem para evitar o pedaço da dor que nos é destinado. Rosas que se calam e que nos escudam. 

 

Gente que não vemos.

 

Em 2017 vou cuidar das rosas.         

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