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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe empobrecida

rabiscado pela Gaffe, em 20.02.15

A Gaffe empobrecida.jpgA Gaffe acreditava ter arrumado o assunto de uma quantidade de Sombras de Grey no quarto do esquecimento, lugar que aparenta estar vazio, embora permaneça sempre cheio – o inverso também se valida.

Encontra no entanto com uma insistência desagradável a referência ao contributo do filme e do livro para a libertação sexual da mulher. A bandeira é normalmente erguida com o paternalismo do macho satisfeito que vê as garinas atrás das grades que recalcaram Mariana Alcoforado ou então com a euforia das garinas libertas e sem teias de aranha nas suas mentes a condizer com o resto.

O tau-tau na heroína de E. L. James é portanto o arrombar do armário onde se acumulam as fantasias eróticas de muitas mulheres. Está desvendado um dos segredos do sucesso do livro. Uma palmada no rabo filmada com a luz correcta, um morder dos lábios no instante em que as algemas grifadas se fecham ou a presença de um yuppie com uma espécie de perversão de trazer por casa em pantufinhas, são os detonadores da explosão das grades da sexualidade feminina, o derrube da porta que impede que toquemos a cama de oceano do erotismo.  

 

Pobres de nós, mulheres, se assim fosse! Que medonho desespero que habitávamos!

Pobres de vós, rapazes, se acreditais que podeis ser substituídos por tamanha pequenez no corpo das mulheres!

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A Gaffe de Mr. Grey

rabiscado pela Gaffe, em 16.02.15

J. Allen St. John.jpgNestas últimas semanas a Gaffe tem-se sentido regressada dos confins da Amazónia onde apenas conviveu com coisas rastejantes e pouco recomendáveis. Fica quase catatónica a ouvir discussões e debates inflamados acerca das peripécias dos reality shows, do milionésimo episódio de uma telenovela portuguesa e d’As Cinquenta Sombras de Grey.

Para recuperar a capacidade de se ver incluída nas conversas à volta da fogueira, a Gaffe decidiu ir ao cinema. É muito mais eficaz do que se ver transformada em troglodita por osmose, do que ter os nervos esfacelados por nunca mais matarem a personagem do Pedro Granger e por não estar disposta a perder mais do uma hora e picos a adquirir capacidade de estabelecer vias de comunicação com as multidões.

Os sacrifícios que uma rapariga faz em nome do diálogo e do convívio social são muito subvalorizados.

De óculos pretos, porque não é conveniente ser-se reconhecida sentada em cadeira ainda quente, trench-coat impermeável para evitar que salpicos de baba alheia lhe conspurquem a postura e de lenço Hermès a tapar-lhe o nariz para fintar o nauseabundo cheiro das pipocas, a Gaffe entra no átrio onde uma multidão de mulheres estrelejantes espera confirmar que o Mr.Grey da tela é similar ao que se lhes soltou das páginas. Curioso é perceber que o olhar masculino não adquire aqui o sarcasmo complacente, a paternal ironia ou a malandreca piscadela de que falou aqui. A união de tanta fogueirinha, pode anunciar um incêndio e a possibilidade de um homem se ver incenerado limita imenso o ambíguo sorriso masculino.

A Gaffe esteve atenta e concluiu que, nunca tendo encontrado Mr. Grey nas páginas do livro, o da tela era bastante satisfatório, mas perfeitamente inócuo.

Depois surpreendeu-se.

Considerar o uso de umas algemas de boa qualidade e muito design, giríssimas e luzidias, uns atilhos e umas vendas de seda e de cetim, umas sapataditas nas nádegas, uns encontrões mais arrojados contra as paredes ou uns gritinhos soltos enquanto nos esbardalham num sofá assinado por Philippe Starck, sessões de BDSM protagonizadas pelos problemas existências daquele homem e por uma moçoila que usa blusas floridas e saias de missionária no Camboja, é a mesma coisa que no pino do Verão nos espapaçarmos na sala, de biquini, baldinho de areia ao canto, CD de Rui Massena a pianar, cocktail com duas sombrinhas espetadas na rodela de limão, em frente a um poster do Hawaii que colamos na parede. Por muito que queiramos, não bronzeia.

A posição de missionário é bem mais aventureira do que a maior parte daquilo que se passa na tela, embora claro tudo dependa bastante da cruz que carregamos.

A Gaffe e o Divino Marquês saíram defraudados. Mr. Grey não é um sádico torturado pela consciência da dor que provoca. Quando muito, tem birras de rapazinho mimado. A rapariga não é o elemento passivo de um duo perverso. Não sofre sevícias sexuais. Leva tau-tau. Um tau-tau que não faz dó-dói. Não é mais do que a representação de todas as moçoilas que ambicionam ter na cama um homem que desperto pelo seu poder de sedução, tomba ainda que superficialmente no poço dos seus atributos de bichano mauzão.   

Mr. Grey é mauzinho, mas caseirinho. Não se comporta como manda a sapatilha – all star, no máximo Nike, porque mais não calça o filme – de um sádico nu e cru e a menina não é mais do que mais uma mulher que sente que os homens estão cada vez mais amorfos, indiferentes, apáticos, rotineiros, apagados e desinteressantes e que de repente encontra um mais desperto.

Nestas circunstâncias, qualquer encontrão contra a parede dá uma trilogia de sucesso.   

 

Ilustração - J. Allen St. John

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A Gaffe sombreada

rabiscado pela Gaffe, em 10.02.15

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A rapariga sentada num dos sofás da FNAC não parecia ter história. Roliça, quase tosca, encravada num blusão polar, jeans desbotados, botas militares e mochila grávida.

Parecia tensa, rígida, com os movimentos limitados ao folhear de um livro e ao pêndulo dos olhos. Tinha a boca aberta, os olhos sobre as páginas e uma guedelha escura a cobrir parte do rosto. Se se eliminasse estes únicos sinais de vida, suspeitaríamos que tinha falecido esbardalhada a um canto.

O livro que a fazia catatónica era o badalado As Cinquenta sombras de Grey.

 

Como será evidente não vou tecer considerações literárias acerca da obra. Não a li e não tenho competências para dissertar acerca do que quer que seja.  

O que penso ser curioso é o facto de ser uma obra muitíssimo mais comentada por mulheres do que por homens, independentemente do facto de a apreciarem ou não. A esmagadora maioria das opiniões que leio são femininas.

No início esta rapariga tonta pensou que a obra era uma versão em papel da série televisiva Anatomia de Grey onde as meninas cortam os pacientes com unhas envernizadas e pestanas postiças, mas muito rapidamente se apercebeu que, apesar de se falar em cortar uma pequerrucha e de se poder acabar no hospital, as várias Sombras de Grey não usam máscara cirúrgica.

Curioso é também descobrirmos que apesar de claramente mais lido por um público feminino, ou o único que assume que o faz, a obra desperta o sacana tratante que ouviu algures falar deste assunto e que se cruza com a leitora nos transportes públicos. O seu olhar malandro e um sorriso torcido deixa-nos a pensar que foi o protagonista do livrinho, a sua personagem principal e que não se importa nada de a reencarnar no aconchego do nosso lar.

Suspeito que não é muito apropriada a leitura do livro em locais muito frequentados. Não é simpático ouvir a amiga perguntar toda arrepiada em frente de uma manada de búfalos transpirados que viajam connosco:

- Então?! Em que página vais?

Para ter de responder serena:

- Estou na página em que o homem dá umas valentes vergastadas nas maminhas da moça.

- Ah! Então estás quase a chegar à página em que ele lhe arranca o soutien e lhe ata com as alças as pernas aos cotovelos, depois de lhe espetar com uma colher de sopa duas galhetas no rabo.   

Não é bonito e chama a atenção dos búfalos. 

Freud explicaria de modo convincente o sucesso que a obra alcançou junto do público feminino e talvez nos falasse da atracção e do desejo inconsciente de submissão a uma autoridade, simbólica ou não, de que padece a alma da mulher e se esqueceria convenientemente de referir que este sinistro anseio, embora sublimado, não é um exclusivo feminino, encontrando-se à espreita até mesmo nas civilizações, nas religiões, nas rebeliões, nas multidões e em vários outros locais com a mesma terminação. Mas a verdade é que o mundo seria muito mais divertido sem Freud e sem Woody Allen.

Confesso que não me sinto atraída por uma história mais ou menos erótica que narra as aventuras de uma moçoila que gosta de levar duas valentes lambadas nas maminhas todas as vezes que encontra nu o homem dos seus sonhos que a previne sempre antes de lhas espetar – creio que é a sinopse mais elucidativa que li -, mas admito que seria mais atraída pelo inverso e nem sequer precisava de um envolvimento emocional com um rapagão lindo de morrer.

Há tantos homens a quem apetece ter o prazer de partir os dentes!

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