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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe, arsénico e rendas velhas

rabiscado pela Gaffe, em 26.02.17

Nem sempre as jóias são o costumado brilho encastoado em metais de fino trato.

 

Há jóias escondidas, presas em papel transparente, dobradas com o rigor e com o cuidado extremo das avós e perdidas nas gavetas maneiristas do móvel esquecido há tanto tempo.

 

Procurem-nas!

 

São preciosidades inigualáveis e com o temor que nos faz suster a respiração, com a vertigem de quem comete um crime, com o arfar de excitação de quem se vê a viver uma paixão que não lhe pertence, voltemos a usar o tempo perdido e que Proust nos perdoe e nos proteja.

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A Gaffe adornada

rabiscado pela Gaffe, em 07.11.16

As mulheres adornam-se desde tempos imemoriais. Os objectivos são inúmeros e as razões variadíssimas. Ciclos de fertilidade, etapas de crescimento e de maturidade, ritos iniciáticos ou ondas de sedução, religiosa ou pagã, tornaram o corpo, preferencialmente o feminino, num palco de excelência.

 

Neste metamorfosear de fascínios, a arrogância masculina chamou a si a possibilidade de o adorno ser a homenagem da mulher que se objectifica através do somatório de atavios, marcas, signos, enfeites ou adereços, submetendo-se à capacidade de domínio do macho, contrariando a mais habitual forma de seduzir das outras espécies em que é o macho que se enfeita.

 

Na esmagadora maioria das vezes, esta certeza é um dos masculinos momentos de ilusão, porque não tem em conta que se nós, raparigas, sobre o corpo colocamos os mais extraordinários signos de beleza, fazemo-lo sobretudo porque a nossa pele exige que nela sejam depostas todas as jóias que inventamos.

 

Adornamo-nos sobretudo para nós. O resto são despojos. 

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A Gaffe e uma jóia

rabiscado pela Gaffe, em 07.07.16

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Há alguns anos, vi e ouvi pasmada e rendida a gravação de um concerto de Carlos Paredes e de Luísa Amaro.

 

Sei que este cantinho não é o lugar para lamentar o facto de nos países pobres, e nos pobres países, o entorpecimento total em relação aos talentos que os povoaram se ter tornado uma constante só quebrada se causar proveito aos que os dominam.

Sendo este um cantinho de uma rapariga fútil, avesso a discussões incomodativas, pousemos os olhos, em consequência, num elemento cenográfico - creio que o único - do concerto.

Com uma iluminação perfeita e minimal, no pescoço vestido de negro de Luísa Amaro, chispava um belíssimo, largo e denso colar de diamantes. O resto era escuro. A guitarra de Paredes contracenava com o cintilar do adereço, sobrepondo-se ao seu fabuloso fulgor gelado.

 

Lembrei-me deste cenário, quando dei comigo avassalada por uma enormíssima quantidade de fotos do objecto da imagem que invadem a net e sobretudo os blogs da especialidade.

Não nego a possibilidade de o considerar um belíssimo adereço, mas recordo de imediato o colar de Luísa Amaro submetido e domado pelos sons das guitarras e da virtuosidade do mestre e percebo que, para transportar um objecto com o poder, a força, o peso e a carga que este - mas sobretudo o de Luísa Amaro - possui, não basta um cenário negro. É necessário que o saibamos fazer esquecer, diluído no pescoço de uma maior e mais impalpável autoridade.

 

Fiquemo-nos portanto pela tripla e discreta fiada de pérolas oferecida pela avó.

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A Gaffe acorrentada

rabiscado pela Gaffe, em 14.04.14

Rapazes! Desde que não tenham menos do que 1.80m, não pareçam que desataram a fazer dietas sinistras em que se come durante duas semanas apenas três bananas ao pequeno-almoço e se bebe o sumo de quatro limões ao jantar e que o ginásio serve também para tonificar e manter os vossos corpinhos já por si em excelente forma física, não hesitem! Usem e abusem de adereços susceptíveis de causar um delicioso receio nas mentes perversas das raparigas que sempre foram atraídas por arsenais com um sabor ligeiramente bélico, levemente punk e vagamente sado.

Um homem que não receia ostentar cadeados e correntes símbolos mais ou menos esotéricos é sempre aquele que não teme ser por nós atado pelos adereços que escolheu.

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A Gaffe invisível

rabiscado pela Gaffe, em 05.08.13

Tenho uma amiga a quem foi oferecido um inacreditável anel de noivado composto por uma aliança de platina, larga, lisa e por bolear, onde os sete diamantes, com um número de quilates que me arrepiam só de pensar que tenho de os somar, estão incrustados no interior.

De acordo com o apaixonado, os olhos não conseguem ver o que de mais importante tem a vida.

Embora reconheça o sofisticado romantismo, confesso que não poder cegar as adversárias com o brilho ofuscante dos nossos melhores amigos, é uma desvantagem que toda a rapariga esperta deve considerar, mas admite que um rapaz que escolhe a direcção de Lia di Gregorio para se ajoelhar aos nosso pés oferecendo-nos aquele sedutor invisível para os outros, mas que sabemos nosso e palpável, acaba por nos entregar também a mais incontornável prova de que é um romântico ligeiramente pateta, mas um daqueles que nos faz merecer a condenação à morte se o perdermos.     

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A Gaffe no bolso

rabiscado pela Gaffe, em 02.08.13

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A Gaffe e um molusco

rabiscado pela Gaffe, em 14.06.13

 

(Turquoise Tentacle por KTOctopus)

Há imensidão de fotografias, algumas bem marotas, em que um polvo retirado ao mar minutos antes (congelado não surtiria o mesmo efeito), se esparrama em corpos divinais que posam como se tivessem graves problemas ortopédicos.

Confesso que não acredito que os modelos escapem a estas sessões fotográficas sem nos fazer lembrar, pelo perfume, Lázaro depois de ter abandonado o túmulo.

No entanto, perante estes exemplares incríveis a Gaffe, embora dispensando os brincos, não pode deixar de pensar que um molusco destes ao pescoço vale bem o sacrifício de um nariz.  

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A Gaffe e o melhor amigo

rabiscado pela Gaffe, em 13.05.13

Por vezes, as raparigas espertas, devem admitir que um homem que lhes oferece um colorido e gigantesco ramo de flores, em vez de um colar de diamantes com um poderosíssimo apelo aristocrático, o faz ignorando que preferimos Marilyn quando nos diz platinada que os homens passam, os diamantes ficam e que trauteamos muito mais depressa Diamonds are a girl's best friend do que You Don't Bring Me Flowers mesmo debaixo do nariz da Straisand.

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A Gaffe já sente a Primavera

rabiscado pela Gaffe, em 27.03.13

O Inverno passou tão depressa!

A Gaffe quase não teve tempo de sentir e de saborear os dias repletos de chuva e de vento que fazem voar memórias e guarda-chuvas, nem de se deliciar com livros lidos à lareira, guardada por almofadas e mantas de lã da Serra da Estrela.

Entra com passinhos meigos e suaves a subtil Primavera, tímida e insegura, mas com os dedos repletos de brisas diferentes e de sol mais preguiçoso no deitar.

É tempo de metamorfoses. Tempo de fazer sorrir, ainda que seja breve este sorriso, esboços de projectos e de asas. Tempo de borboletas no cabelo e de pequenos sonhos que vão abrindo os braços, prontos a abraçar tudo o que cresce.

É tempo de raparigas em flor.

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A Gaffe e as abelhas

rabiscado pela Gaffe, em 21.03.13

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Admito a loucura, tendo em conta que as peças atingem facilmente os 800€, mas a primorosa ornamentação da colecção Primavera/Verão 2013 de Sarah Burton para Alexander McQueen é uma fabulosa demonstração de feminilidade oriunda de um certo erotismo e de doirada sensualidade, sobre a pele e não sobre a nudez.

Sobre os tecidos que pairam sobre o corpo, pousam abelhas e favos de mel. Um esvoaçar de brilho em oiro e preto.

São objectos de desejo criados em  plexi, material fascinante para elaboração de acessórios delicados, reconstruindo carapaças de tartaruga que projectam a luminosidade, o requinte e a sumptuosidade do mel. É de referir que o plexi solidifica em três minutos, tendo de ser tratado de forma rápida e precisa, num esforço intenso, que requer o trabalho manual de muitos especialistas de uma só vez. Neste caso, a peça é ajustada à forma do modelo, tornando-se única, e, polida, nela são aparafusadas as extraordinárias abelhas artesanais.

Gargantilhas, colares, cintos, arreios, fivelas, bustos e punho, são capturados com de modo brilhante, pelo fotógrafo Joss McKinley.

São colmeias povoadas pelo desejo.

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A Gaffe laçada

rabiscado pela Gaffe, em 19.03.13

Havendo-os para todos os gostos, inclinações e orientações, a Gaffe aconselha prudência na selecção daquilo que vos pode, rapazes, apertar em demasia o pescoço (quer o da discrição, quer o da sensatez).

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Gavetas:

A Gaffe e o Demónio

rabiscado pela Gaffe, em 14.03.13

Se Deus está nos detalhes, o Diabo está no modo como são descobertos.

Despir um homem é facílimo. Normalmente não nos demoramos nas pequenas delícias que vamos descartando. Talvez por isso a Santa Madre Igreja tenha condenado a nudez. Não são devidamente abençoadas as peças que tombam por terra.

Vestir um homem é louvado pelos anjos como acção benemérita, digna de tornar santo Martinho de Tours e, no entanto, Satanás, matreiro e provocador hipnótico, espreita cada lanço, cada passo, cada gesto, cada mover de dedos, cada balanço de olhares com que uma mulher esperta desconstrói a nudez de um homem, tornando-a pertença dos sonhos mais privados.

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A Gaffe prende os cabelos

rabiscado pela Gaffe, em 26.02.13

 

(Rodarte - ouro e prata)

De todos os adereços que uma mulher pode escolher, há uma exígua minoria que se torna polissémica adquirindo estatuto de símbolo ou de linguagem para além da linguagem.

A proposta de Rodarte para o Outono/Inverno de 2013-2014 é indubitavelmente um dos exemplos mais perfeitos da capacidade que um objecto possui de nos permitir narrativas diversas.

Usados com precaução, recriam um imaginário potencialmente sedutor, fornecendo-lhe fragmentos de histórias que cada um de nós vai construindo, usando os próprios espinhos e as mais subjectivas das defesas ou as mais invisíveis das fragilidades.

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A Gaffe e o esquecimento

rabiscado pela Gaffe, em 10.09.12

 

Segundo Chanel, uma mulher elegante é aquela que se esquece do colar de pérolas debaixo da camisola de gola alta e do anel de diamantes sob a luva.

Os adereços são fulcrais neste julgamento e classificação. Há uma nítida supremacia do indivíduo sobre o objecto e uma desqualificação da coisa usada, em prol de quem a usa. Supera-se a importância atribuída à matéria (consumível) e o olhar é desviado para outros círculos onde é mais sólida a permanência da individualidade.

Uma rapariga esperta jamais esquece que por muito glamour que exista nos adereços que usa, será sempre o modo de os esquecer que lhe fornece a elegância.

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A Gaffe na lapela

rabiscado pela Gaffe, em 10.08.12

(Luciano Barbera)

Perdeu-se há muito a delicadeza suave de uma flor numa lapela masculina.

A linguagem subliminar inscrita neste pormenor foi-se esbatendo e secando. Os homens decidiram tornar um detalhe de uma delicadeza significativa numa demonstração de desprotegida e inocente fragilidade, permitida apenas em casamento e baptizados.

A possibilidade de adornar as lapelas masculinas ficou restrita a pins minúsculos e banais onde se faz alarde do orgulho desportista ou do brio populista, mas governamental.

É lamentável o abandono votado aos discretos alfinetes com que os avós faziam brilhar lapelas rigorosamente entreteladas ou com que prendiam as sedosas gravatas com riscas regimentais.

O empobrecimento da panóplia de adereços masculinos não se reflectiu no aparentemente almejado evoluir de uma imagem de masculinidade a toda a prova, nem a tornou mais límpida, capaz de referenciar um despojamento másculo de quem se quer dinâmico e eficaz, com a sobriedade apensa à ilusão de não se perder tempo.

No entanto, o adornar florido da lapela masculina, inversamente ao tido como certo, é um dos mais encantadores detalhes a fazer prova da mais segura masculinidade e da mais assumida presença da sedução inteligente.

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