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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe a cavalo

rabiscado pela Gaffe, em 18.07.17

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Despedi-me hoje de manhã muito cedo do rapagão.

Partiu para Manaus numa visita que demorará três semanas que lhe proporcionarão um mais aprofundado conhecimento não sei exactamente do quê, mas que me pareceu entusiasmante, pelo nervosinho demonstrado pelo homenzarrão.  

 

Tendo em conta que chegar a Manaus, partir depois para o Parque Nacional de Jau e passado algum tempo seguir para o Parque Nacional da Neblina, lhe arranca mais do que oito dias de viagens, o homem não vai ter grande tempo para andar atrás do gado, embora - pelo sim, pelo não -, o tenha ameaçado com todas as sevícias que encontrei - mais as desviantes e anómalas que Gentil Martins referiu - caso o rapagão ceda ao fascínio das vacas que por lá mugem e se ponha a cavalgar em lombo alheio.

 

Insistiu muito na minha companhia, mas só a perspectiva de me ver a evaporar ou coberta de lume tropical; no meio de caminhos repletos de bichos estranhos e rastejantes que nos picam imenso e têm dentes maiores que a cabeça; envenenada por uma serpente ou ali morta por um jacaré – que nem sequer é Lacoste; aos solavancos por trilhos estreitos, cheios de ervas do tamanho de embondeiros; com as mamocas a desintegrar-se com o calor e sem poder voltar para casa no primeiro avião que aterrar na selva, foi desmotivadora. Não quis ir.

 

Suspeito que foi apenas para se vingar do meu abandono que, pronto para subir para a sela do avião e rumar ao pôr-do-sol Amazónico, me disse com um ar muito descontraído, como quem não liga à coisa, que quer visitar a região onde os homens tratam das manadas de gado - bichos de grande porte, quase mamutes -, completamente nus ou apenas com uma tira de tecido a embrulhar - mal - as zonas mais expostas às crinas dos cavalos.

 

Fiquei perplexa.

Espero sinceramente que o homem não tente a façanha, porque com o galope do cavalo e a piloca a dar-a-dar ainda volta para casa com o nariz partido.

 

O certo é que o rapagão é de uma lisura, de um rigor e de uma correcção exasperantes quando se trata da verdade, mas a nudez daqueles cowboys deixou-me confundida.

Então há um recanto neste planeta onde os tipos andam todos suados, todos musculados, todos morenos, todos tisnados, todos másculos, todo, todos, todos, todos a abarrotar de adrenalina e de testosterona, atrás das vacas, de pila ao léu, a dar-a-dar no cavalo?! Nunca tinha ouvido, lido ou sido informada acerca o assunto!

 

Não acredito.

Mentiroso!

 

A verdade é que me arrependi, logo ali, mal o maldito levantou voo, de não ter ido com ele.

 

Alguém sabe onde fica esta porcaria?

É que uma rapariga como deve ser tem o dever de acompanhar o seu homem, dê por onde der e seja para onde for, e sobretudo tem a obrigação moral de impor alguns princípios civilizacionais à barbárie e de vistoriar a fardamenta dos profissionais em nome da segurança e da alegria no trabalho.

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A Gaffe com um cheirinho

rabiscado pela Gaffe, em 06.07.17

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É mais do que evidente que vou enviar o prémio a quem participou nesta marotice brejeira e dedicar-me ao blog da minha querida amiga que trocou David Gandy por uma bagatela.

 

Surge no entanto um prurido que me deixa ligeiramente embaraçada.

 

Publicar ao Deus dará uma quantidade ensandecida de rapagões, desconhecendo-se as casas de chegada, não é matéria susceptível de causar a uma rapariga simpática qualquer rubor. Uma pila com destino incerto, vai parar sempre a um pôr-do-sol distante, mas acolhedor, sem ricochete de grande monta.

No entanto, saber que pela calada de um e-mail enviamos a esplendorosa nudez de alguém, partilhando assim com um grupo restrito a masculinidade seja de quem for, não é tarefa tão simples como promete. Diz-nos o juízo que facilmente poderemos passar por impositivas sabujas a atirar à cara de quem mal conhecemos - mas que identificamos, mas que particularizamos -, a pila de um estranho que nos encheu os olhos - suspeito que esta frase terá de ser revista. Como é de prever, não é de todo educado e de bom-tom esbardalhar miudezas destas contra a incauta face de uma inocente criatura que conta pelo menos com um paninho esvoaçante na frente da agressora.

 

É estranho o facto de nos tornarmos capazes das maiores barbaridades quando os espectadores são anónimos, inócuos, distantes, amorfos e com uma opinião que não nos afecta ou nos deixa indiferentes, mas somos comedidos e cautelosos quando esses mesmo espectadores se tornam mais próximos e ganham uma importância capaz de refrear os nosso desmandos.

 

Creio que esta é uma das desvantagens da amizade, mesmo aquela que se constrói aqui nestas Avenidas: a nossa mais jocosa irresponsabilidade, a nossa mais tonta infantilidade, dá lugar a uma espécie de respeitoso pudor, de civilizada empatia, que nos fica bem, mas que nos coíbe de mostrar a pila.    

 

Na foto - um cheirinho a David Gandy por Mario Testino

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A Gaffe lavadinha

rabiscado pela Gaffe, em 17.06.17

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Raparigas!

Se a vossa ambição for só encontrar um homem com uma vida sexual marcada apenas pelo espírito de missão, procurem-no numa qualquer lavandaria comunitária.


Aí, pelo menos, tereis duas certezas: a de que, o que encontrais, é um trabalhador esforçado e a de que esporadicamente se lava.

NotaNão! Jamais fornecerei o endereço da lavandaria da imagem e, caso a encontrem sem eu ter dito nada, fiquem a saber que o menino do meio já está reservado.

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A Gaffe tapada

rabiscado pela Gaffe, em 14.06.17

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Estirei-me no sofá.

Absolutamente inútil, com um copo de limonada gelada na mão e uma revista atirada a um canto. O meu spleen queirosiano atingia a comédia idiota que se arrastava sem interesse na televisão muda.

Lanço breves os olhos a um artigo onde uma senhora – anafada, com certeza, baixinha, com certeza, com cimento armado na cabeleira, com certeza -, alfinetava a opinião de uma qualquer desconhecida, sem perceber que o alfinete estava a ser cravado com o seu punho fechado e que o bico voltado para cima ameaçava atingir-lhe o osso.

O calor expulso estalava a noite e a comédia marchava muda até a cena surgir deliciosa.

 

Um actor em excelente forma física atravessava uma sala, completamente NU!

 

Durante todo o trajecto – e não foi de desprezar -  a pilita do senhor ficou tapada por uma data de objectos que o realizador teve a destreza de colocar estrategicamente. Uma operação que exigiu uma colecção razoável de jarras, livros, estatuetas, ramos de flores um espaldar de cadeira, uma esquina de mesa, protuberâncias de móveis e um gato repolhudo. Todos os elementos partilhavam uma característica: eram todos bastante volumosos.

 

Uma rapariga fica a pensar que de bom grado estilhaçaria os vidros opacos e esbardalharia as tolas bugigangas que impedem a visão de outros universos que não os que lhe provocam um tédio acalorado. No entanto, admite que às vezes é de extrema utilidade ter à mão de semear uma qualquer coisinha - uma concha, um berlinde, um fósforo, um papelito, uma florinha terna e simples - que impeça a visão de alheias e ridículas tolices confundidas com mordidas de alfinete.

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A Gaffe sacana

rabiscado pela Gaffe, em 09.06.17

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O bom sacana.

 

Suspira-se quando se atravessa - mordendo o lábio com que nos mente -, na vida que trazemos engolida pela multidão dos bons rapazes.

A inconsciência dos estragos que provoca é encantadora e o sorriso quase infantil que espalha nos corações destroçados, acreditando que a culpa dos estilhaços nos pertence por inteiro, é cativante.

 

Não adianta irritarmo-nos. O bom sacana desarma qualquer indignação com intenções mais bélicas e acaba a mendigar perdão apenas porque acredita mesmo que é nesse aparente arrebatamento, nesse fingido remorso, nessa contrição encenada, que se emendam os males do mundo.  Neste malandro um pedido de desculpa é sempre um acto de altruísmo e a alegria com que o realiza torna-se comovente aos nossos olhos.

 

É irresistível!

 

Irresistível, porque nenhuma mulher consegue por tempo indefinido asfixiar o instinto maternal que este sacana desperta. Salta-nos a enfermeira cá para fora, para fazer companhia a babysitter que entretanto já tinha chegado.  

 

O que fazer então quando no recreio o nosso colinho é implorado por este bom malandro?

 

O mais aconselhado é apalpar-lhe o rabinho, verificar no corpinho todo, com muita vontade e afincadamente, se não tem dói-dói e depois mandá-lo para casa da mãe, já muito habituada a mudar-lhe a fralda.

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A Gaffe a escaldar

rabiscado pela Gaffe, em 01.06.17

 O Verão que se aproxima é, meus caros, de esturricar o Acordo de Paris. Por isso, rapazes, não nos queimem o desejo de vos admirar, tritões ou trintões, a sair das águas cálidas, a escorrer sensualidade pelos calções colados à pila.

 

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Não sejam parolos. Evitem os estágios em microondas. É cansativo esperar que a melanina cumpra o que promete, mas imitar os índios Tupi, barrados de vermelho, com argila enfiada até no rabo, não convence uma macaca tropical, para além de vos transformar num placard escarlate de perigo iminente.

 

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É imperdoável que só ao fim-de-semana nos brindem com a visão dos vossos troncos nus.

Nos dias úteis o sol também trabalha e se existem almas que consideram sexy as marcas de um biquíni, uma singlet incorporada, encastrada, tatuada a Norte do paraíso, desencoraja e aniquila o desejo de morder maçãs e restante fruta da época.  

 

São duas regras básicas que deveis seguir e que impedem que nos tornemos lésbicas no Estio do nosso descontentamento. Convém guardar dentro dos speedos. Salvam-vos do deserto - embora não impeçam os camelos - e disfarçam, porque volumosas, a falta de consistência da Lycra.

 

Nota avulsa - Quando saírem da água, não olhem para os calções colados à pila, nem tentem afastar o tecido da pobre encharcada. A tendência é olharmos também e, por muito estranho que pareça, evitarmos o mergulho, porque a água nos parece sempre estar gelada.

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A Gaffe tetra

rabiscado pela Gaffe, em 29.05.17

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A Gaffe não sabe muito bem o que se está a festejar, mas com adeptos destes justificam-se todos os folguedos, sobretudo quando se nos depara uma trilogia de cuecas com apontamentos vintage, de cortes muito interessantes e aberturas estratégicas - características que a colocam num patamar bastante elevado daquilo a que costumamos classificar como sexy.

 

E se, minhas queridas, os três nos parecem muito iguais, há sempre a possibilidade de os classificar pelo comprimento … da barba, por exemplo.

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A Gaffe sacerdotisa

rabiscado pela Gaffe, em 13.03.17
 
Os deuses devem ter um arquivo gigante onde guardam os ficheiros dos mortais. Um arquivo poeirento e carcomido, cheio de estantes a ruir de velhas, onde só entram quando querem acrescentar uma palavra à toa a um qualquer dossier tirado à sorte.
 

Os ficheiros de tão manuseados ficam sujos. Desordenados, frágeis, sem nenhum sentido. De tão riscados deixam de ter espaço para o traçado de linhas mais perfeitas. Serpenteiam todas no papel e não são rectas, porque já colidem com outras já desalinhadas e vincadas. Os deuses entram a tossir poeira, agarram um ficheiro e despachando aquilo vão rasgando as pontas, amarfanhando as margens, enxovalhando o resto.

 

Depois de esgravatar, é Cupido o único que deixa nas páginas cortadas um risco de estrelas.

 

Na foto - Matt Merrell 

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A Gaffe corrompida

rabiscado pela Gaffe, em 10.03.17

 

Rapazes, se não possuís estrutura óssea digna de registo nos anais do MET e massa muscular de nos fazes saltar barreiras e bater recordes olímpicos em salto em altura e comprimento; se não conseguis preencher o queixo com uma rasa camada de aço negro e não existe no vosso brilhar dos olhos esta indefinição mateira e este convite subliminado e de índole muito pouco reservada; se ocupais o tempo a imitar o Ken, depilando o corpo de forma exaustiva, fazendo com que pensemos que dormimos com a Barbie - afinal, no centro do universo os dois são muito iguais - omiti este allure de fazer esquecer depressões e recessões a qualquer rapariga esperta - sobretudo se for ruiva. As ruivas não resistem a bravos matulões desbravados, repletos de rasgões estrategicamente pensados e redesenhados para nos oferecer um ar de quem acaba de sofrer agruras.

 

Todas as raparigas - incluindo as pias catequistas de província e as bibliotecárias que calçam monk strap - fantasiam, de modo a fazer corar as avós, com rapagões que parecem ter passado pelas passas do Algarve - não sendo obrigatório cingirmo-nos apenas a esta província - com o sorriso maroto de quem lambeu um chupa-chupa à revelia de quem cuida da dentição desde petizes.

 

Apetece-nos sempre surripiar, ainda que por escassos minutos, o tal chupa-chupa e enfiar o dedinho em todos os buraquinhos.

 

Esperamos sempre que por entre as malhas fugidas os nossos dedos encontrem o fio que tece as redes dos Impérios que só nós conhecemos.  

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A Gaffe e um lugar escondido

rabiscado pela Gaffe, em 08.03.17

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 A imagem de um homem agreste e descuidado, com barba rasa de dois dias, e varonil pilosidade ao dispor da nossa intricada e maliciosa imaginação, é, por vezes, sinónimo de dureza, segurança, autoconfiança e daquele poder másculo que nós, raparigas tontas, tanto apreciamos se bem doseado e controlado.

 

Há sempre, no entanto, nesta energética representação, um lugar esconso e sombrio, de dimensões por vezes exíguas, capaz de fazer tombar toda esta rudeza apelativa.       

 

A fragilidade aloja-se muitas vezes nos lugares mais inesperados. Basta que a saibamos procurar.

 

Na foto -Tom Hardy

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A Gaffe e uma cabana

rabiscado pela Gaffe, em 06.03.17

 

No imaginário feminino há sempre um cão e uma cabana.

 

Ao contrário dos cenários que se tocam e se intersectam nesta ânsia mais secreta das urbanas raparigas, a ausência do conforto electrónico não é premissa excluída. O desejo inconfessado de uma longínqua, solitária, perdida e bucólica choupana, inclui agora uma eficaz ligação à net. A falta do restante, partindo do princípio que coabitamos com um moçoilo que preenche todos os nossos sonhos - incluindo os mais chuvosos ou intempestivos -, não consubstancia problema grave. O homem, incluído na cabana que fantasiamos, oferece uma panóplia de iguarias, manjares, guloseimas e serviços que nos dispensa qualquer outra minúcia citadina e mesmo o cão é por ele levado a passear, no amanhecer sumptuoso que se repete incansavelmente só para nós.

 

A única cautela a ter relaciona-se com a facilidade com alguns homens se confundem com caniches. 

 

Se devaneamos agora desta forma - ao contrário do sonho no passado - com esta peculiar servidão do Pai Thomas, é talvez porque nos tenham feito crer que o amor não interessa e o que realmente importa são os arredores.

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A Gaffe e os quarentões

rabiscado pela Gaffe, em 23.02.17

 

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O que destrói irremediavelmente a imagem de um quarentão - ou cinquentão -, é a condenada frase iniciada pelo no meu tempo eu era, seguida da descrição pormenorizada da apelativa excelente forma física e dos encantos saudosos perdidos para sempre.

Nada melhor para nos fazer acreditar que a memória do cavalheiro é um facto e que, no momento em que o ouvimos, existe apenas a carcaça do passado glorioso. Nada melhor para nos fazer crer que o presente é uma múmia daquilo que se foi no passado.

 

Não é necessariamente verdade e irrita.

 

Um quarentão - ou um cinquentão -, devia ser obrigado por Decreto-Lei a manter silenciada a patética saudade do passado jovial e juvenil.

 

É medíocre o lamento daquele que se proclama envelhecido e podre, sem qualquer hipótese encantatória, incapaz de sedução e isento de charme.

 

Meus caros quarentões - e cinquentões -, o charme é também a inteligência amadurecida que trespassa e flui pelos poros - mais abertos, é certo -, e capaz de fazer pasmar e render a mais renitente das resistências femininas.

A partir deste momento esbofeteio o primeiro rapagão com mais de quarenta anos que choramingue os idos tempos em que era capaz de saltar à vara, sem a vara ou sem se preocupar com a altura em que a dita é colocada.

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A Gaffe grisalha

rabiscado pela Gaffe, em 17.02.17

 

Ao deparar com meninas telegénicas e as suas constantes preocupações em publicitar a cor do cabelo patrocinado por uma marca de tinta, trepam-me à memória, espalhando-se e contaminando o meu dia, as cabeças de Fernando Ruas e de Victor Constâncio e permito-me concluir que se às mulheres é reconhecido o direito de mudar a cor da juba, já aos homens o caso adquire tons mais complicados.

 

As cabeças de Fernando Ruas e de Victor Constâncio, por exemplo, parecem ter sido dominadas por uma aranha negra, velha e outrora peluda ou, em alternativa, terem um rato morto a servir de cabeleira.

 

Admitamos que aquilo é deprimente.

 

Desenhar o penteado com um marcador preto produziria o mesmo efeito. A tinta tinge o couro cabeludo e, no caso do primeiro, apeçonhenta o bigode. Ficamos perante dois casos de toucas de banho incorporados, negras, funestas e retintas e nitidamente falsificadas, como se os chineses tivessem plagiado a estrutura capilar e a pilosidade de um jovem latino e tivessem colocado o produto à venda nos mercados e nos átrios dos municípios.

 

É um erro crasso confiar num homem que pinta o cabelo daquela forma e acredita, patético, que consegue convencer os pares e os parceiros com o negro daquilo que outrora foi cabeça. É tão idiota como acreditar nos que arrastam de forma confrangedoramente dolorosa - uma dor de alma - os fios da nuca para a frente da testa, criando uma estranha e assustadora arquitectura pilosa que lembra um ovo de extraterrestre num filme qualquer de ficção científica de terceira categoria ou pornográfico, onde não há categoria nenhuma.

 

As meninas podem tingir-se com a cor cereja, porque há sempre a possibilidade de nos distrairmos com os decotes e com os vestidos dois números abaixo do que seria necessário para não ficarem comprimidas, mas um homem não podem usar a porcaria que as raparigas publicitam sem correr o risco de passar por idiota, desonesto, inseguro e incompetente.

 

Há incomparavelmente mais probabilidades do cabelo grisalho, ou mesmo totalmente branco, poder ser o mais deslumbrante e fascinante convite à aventura e ao embarque naquilo que é o transatlântico mais poderoso do universo: a maturidade consciente e assumida do homem por quem perdemos bússolas e astrolábios - não convém contudo generalizar, porque nos lembramos de repente do engenheiro Sócrates.

 

Os exemplos que ficam ilustram de forma inequívoca a tese defendida. Embora, diga-se, o primeiro faça parte do elenco de uma série ligeiramente maçadora, situada no passado e o segundo tenha um passado conturbado e controverso, são os dois espantosas criaturas susceptíveis de povoar os sonhos menos brancos de uma rapariga com a cabeleira cor de cenoura.

 

Nas fotos - John SlatteryAiden Shaw

 

 

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A Gaffe desiludida

rabiscado pela Gaffe, em 17.01.17

 

Seria mais razoável cingir o âmbito deste cantinho esquecido a comentários relacionados com os farrapos.

Comentar trapos deveria ser o meu destino, nada complicado tendo em conta a panóplia de blogs dedicados a este assunto que me serviriam de exemplo.

Enfrento-os corajosa, à procura de linha orientadora que seja capaz de me tornar numa especialista com ânsias de Chanel e tomba-me arrasada e cadavérica esta ambição tão elevada.

 

Sou como uma gata em telhado de zinco quente, ou como uma ratazana morta na mesa do jantar, quando comparada com as maravilhosas conselheiras de moda que pululam por aqui. Não me consigo aproximar do look da semana. Não tenho a audácia que me permitira aconselhar o champô que a Catarina Furtado não usa, embora sorria dizendo que sim, asfixiada num vestido Nuno Baltazar. Não sei ser convicta ao indicar a máscara amaciadora, para cabelos secos, que sabemos ser prima direita da tinta que reluz na cabeleira farta de Fernando Ruas e que o intoxica através do bigode. Não entendo nada de tendências e sempre achei que instigar o uso de ankle boots pode ser considerado assassínio premeditado.

 

Não sou capaz.

 

Para meu desgosto infindo, jamais serei uma fashion adviser ou, no mínimo, uma blogger cintilante de sugestões, opiniões, dicas, inspirações, estímulos e propostas relacionadas com os trapos.

 

Sei, no entanto, que tenho dentro, pronta a saltar de tacões agulha e a gritar sem abrir muito os lábios, a amplíssima tontice de uma rapariga que dizem ser vã, fútil, vazia, capaz de comentar trapos, rodilhas, farrapos, frangalhos e demais trapalhada que lhes está apensa.

Se não desejo com fervor a carteira Chanel que diz com tudo, não deixo de cobiçar com ardor um garboso atleta -, mesmo usando hastes brancas, mesmo quando tem as bolas Chanel.

 

Podem embrulhar e enviar exactamente como está. Depois completo o laço, retiro os excessos, refiro-lhe os atributos e menciono as vantagens do uso descontrolado do rapaz.

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A Gaffe repreendida

rabiscado pela Gaffe, em 06.01.17

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A Gaffe recebeu um comentário indignadíssimo assinado por uma senhora que se sente, nessa qualidade, ofendida e lesada, apenas porque esta rapariga descuidada não cuida da postura que o feminino deve assumir perante o mundo e se atreve a exibir fotografias de homens quase nus que só contribuem para a humilhação, a frustração e a baixa autoestima da maioria das mulheres, reconhecidamente incapazes de encontrar e - numa alusão clara a Saint-Exupéry -, cativar exemplares como os que vão aparecendo nestas avenidas.

 

Seguidamente declara a Gaffe instigadora do sexo pelo sexo, quando, como mulher formada e culta, deveria saber que um homem nu em cada esquina é rua aberta para a decadência feminina - isto, claro, se a esquina não for a de um beco sem saída, ou a que faz ângulo com um clube gay, intui a Gaffe.

 

Termina a senhora chamando a atenção para a atitude de ofensa ao feminismo e à luta das mulheres pela igualdade liberta dos grilhões - tendo em conta a condenação do teor das fotos, provavelmente a senhora quereria grafar outro vocábulo – do machismo a que esta rapariga tem vindo a dar cobertura.

Numa linguagem sempre cuidada, mas sempre unida ao grande raspanete, a senhora revoltada refere a lavagem do masculino que é apanágio do que por aqui desanda e acusa esta pobre rapariga indefesa de estar a sabotar a seriedade, o decoro, a nobreza e a integridade moral que nos deve inspirar e merecer o corpo humano, seja ele de que formato for.

 

Uma chapada.

 

A Gaffe chorou imenso arrependida de ter publicado fotografias de homens bons de se cair para o lado que eles quiserem, em vez das do marido da queixosa.

A Gaffe concorda. Nem tudo são rosas nestas avenidas. Às vezes passam pilas. Cobertas e acauteladas, mas sim, há pilas que se adivinham e de que sabemos que gostamos porque estão apensas a homens lindíssimos que mesmo fora das fotografias o continuam a ser.  

 

Evidentemente que a Gaffe não mantém a postura que uma mulher deve assumir. Esta rapariga, como diz Marco Paulo, é uma lady na mesa, mas só sabe Belzebu do que é capaz de fazer com o restante mobiliário e assume que pertence à maldita minoria de mulheres que não respeitam o sentir das outras, porque é perfeitamente capaz de fisgar  um matulão igual aos que se publicam, sem ponta de solidariedade para com as que ficam sem ele, embora pense que não é assim tão difícil tendo em consideração que não há homens irresistíveis, mas apenas mulheres que não sabem resistir.  

 

A Gaffe não tem uma postura – tem várias, porque já leu o KamaSutra -, e acredita que a autoestima de uma mulher não é influenciada - nem inflacionada -, pelo facto de ter conquistado um matulão divinal, porque suspeita que é exactamente uma bela e enraizada autoestima feminina que o atrai. Elevar os padrões da nossa autoestima através da aquisição e exposição de um potentado masculino, equivale a ler Gustavo Santos e consubstancia uma das mais medíocres atitudes machistas que uma mulher consegue encarnar.

 

Para além da ausência de uma postura, a Gaffe não tem compostura, porque suspeita que é muito desvalorizado o sexo pelo sexo ou, como já foi dito, o sexo mágico, aquele que se faz e se desaparece. Provavelmente a senhora indignada escreve cuesia erótica onde o dicionário de rimas ajuda a encontrar palavras que terminam em ar - e no ar - e textos cuéticos encimados pela fotografia - onde o amor está indubitavelmente presente - de um casal nu, engalfinhado de tal modo que é difícil perceber onde começa um e termina a outra; onde um simulacro de sexo, feito com muitíssimo amor, se deixa iluminar, fotografar, expor e visualizar apenas com o intuito de nos atingir o coração. O sexo pelo sexo é apenas um arredor do amor e muitas vezes são os arredores que interessam. A Gaffe não se importa que a considerem uma ninfa, mas não é maníaca e o crivo, ou o filtro, que usa para seleccionar os homens é tão apertado como a caixa craniana da senhora indisposta - o que, será bom de ver, o torna quase compacto e de dificílimo escoamento.

 

Há no entanto um ponto que gera na Gaffe a mais veemente discordância com a senhora agravada.  

A Gaffe não faz lavagem do masculino e embora não entenda com a profundura exigida o significado da acusação, quer deixar claro que aos homens que por aqui se publicam não lhes é exigido um banho prévio. A prova consta da foto que ilustra este longo rabisco. O rapagão da imagem, como se vê, não está convencido da eficácia do desodorizante que usa.  

 

A Gaffe resolve por fim, num claro sinal de reconhecimento, oferecer à senhora apoquentada uma pequena mostra de homens muitíssimo interessantes retirados de um quotidiano mais cultural que por certo agradará à comentadora. Aconselha a senhora a sentar-se, a cravar as unhas nos braços da cadeira, a amordaçar-se e a evitar uma exposição prolongada a esta pequena amostra que pode, pela repetição, provocar-lhe epilepsia.

 

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São rapagões oriundos do universo do bailado. Muita postura, portanto. Devem ser olhados apenas como profissionais da companhia belga Thierry Smits e não tentar adivinhar-lhes as pilas - que a Gaffe já teve o prazer de ver, porque dançam muitas vezes todos nus.

 

Na foto - Quincy Currie por Tatchatrin Choeychom

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