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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sacerdotisa

rabiscado pela Gaffe, em 13.03.17
 
Os deuses devem ter um arquivo gigante onde guardam os ficheiros dos mortais. Um arquivo poeirento e carcomido, cheio de estantes a ruir de velhas, onde só entram quando querem acrescentar uma palavra à toa a um qualquer dossier tirado à sorte.
 

Os ficheiros de tão manuseados ficam sujos. Desordenados, frágeis, sem nenhum sentido. De tão riscados deixam de ter espaço para o traçado de linhas mais perfeitas. Serpenteiam todas no papel e não são rectas, porque já colidem com outras já desalinhadas e vincadas. Os deuses entram a tossir poeira, agarram um ficheiro e despachando aquilo vão rasgando as pontas, amarfanhando as margens, enxovalhando o resto.

 

Depois de esgravatar, é Cupido o único que deixa nas páginas cortadas um risco de estrelas.

 

Na foto - Matt Merrell 

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A Gaffe corrompida

rabiscado pela Gaffe, em 10.03.17

 

Rapazes, se não possuís estrutura óssea digna de registo nos anais do MET e massa muscular de nos fazes saltar barreiras e bater recordes olímpicos em salto em altura e comprimento; se não conseguis preencher o queixo com uma rasa camada de aço negro e não existe no vosso brilhar dos olhos esta indefinição mateira e este convite subliminado e de índole muito pouco reservada; se ocupais o tempo a imitar o Ken, depilando o corpo de forma exaustiva, fazendo com que pensemos que dormimos com a Barbie - afinal, no centro do universo os dois são muito iguais - omiti este allure de fazer esquecer depressões e recessões a qualquer rapariga esperta - sobretudo se for ruiva. As ruivas não resistem a bravos matulões desbravados, repletos de rasgões estrategicamente pensados e redesenhados para nos oferecer um ar de quem acaba de sofrer agruras.

 

Todas as raparigas - incluindo as pias catequistas de província e as bibliotecárias que calçam monk strap - fantasiam, de modo a fazer corar as avós, com rapagões que parecem ter passado pelas passas do Algarve - não sendo obrigatório cingirmo-nos apenas a esta província - com o sorriso maroto de quem lambeu um chupa-chupa à revelia de quem cuida da dentição desde petizes.

 

Apetece-nos sempre surripiar, ainda que por escassos minutos, o tal chupa-chupa e enfiar o dedinho em todos os buraquinhos.

 

Esperamos sempre que por entre as malhas fugidas os nossos dedos encontrem o fio que tece as redes dos Impérios que só nós conhecemos.  

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A Gaffe e um lugar escondido

rabiscado pela Gaffe, em 08.03.17

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 A imagem de um homem agreste e descuidado, com barba rasa de dois dias, e varonil pilosidade ao dispor da nossa intricada e maliciosa imaginação, é, por vezes, sinónimo de dureza, segurança, autoconfiança e daquele poder másculo que nós, raparigas tontas, tanto apreciamos se bem doseado e controlado.

 

Há sempre, no entanto, nesta energética representação, um lugar esconso e sombrio, de dimensões por vezes exíguas, capaz de fazer tombar toda esta rudeza apelativa.       

 

A fragilidade aloja-se muitas vezes nos lugares mais inesperados. Basta que a saibamos procurar.

 

Na foto -Tom Hardy

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A Gaffe e uma cabana

rabiscado pela Gaffe, em 06.03.17

 

No imaginário feminino há sempre um cão e uma cabana.

 

Ao contrário dos cenários que se tocam e se intersectam nesta ânsia mais secreta das urbanas raparigas, a ausência do conforto electrónico não é premissa excluída. O desejo inconfessado de uma longínqua, solitária, perdida e bucólica choupana, inclui agora uma eficaz ligação à net. A falta do restante, partindo do princípio que coabitamos com um moçoilo que preenche todos os nossos sonhos - incluindo os mais chuvosos ou intempestivos -, não consubstancia problema grave. O homem, incluído na cabana que fantasiamos, oferece uma panóplia de iguarias, manjares, guloseimas e serviços que nos dispensa qualquer outra minúcia citadina e mesmo o cão é por ele levado a passear, no amanhecer sumptuoso que se repete incansavelmente só para nós.

 

A única cautela a ter relaciona-se com a facilidade com alguns homens se confundem com caniches. 

 

Se devaneamos agora desta forma - ao contrário do sonho no passado - com esta peculiar servidão do Pai Thomas, é talvez porque nos tenham feito crer que o amor não interessa e o que realmente importa são os arredores.

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A Gaffe e os quarentões

rabiscado pela Gaffe, em 23.02.17

 

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O que destrói irremediavelmente a imagem de um quarentão - ou cinquentão -, é a condenada frase iniciada pelo no meu tempo eu era, seguida da descrição pormenorizada da apelativa excelente forma física e dos encantos saudosos perdidos para sempre.

Nada melhor para nos fazer acreditar que a memória do cavalheiro é um facto e que, no momento em que o ouvimos, existe apenas a carcaça do passado glorioso. Nada melhor para nos fazer crer que o presente é uma múmia daquilo que se foi no passado.

 

Não é necessariamente verdade e irrita.

 

Um quarentão - ou um cinquentão -, devia ser obrigado por Decreto-Lei a manter silenciada a patética saudade do passado jovial e juvenil.

 

É medíocre o lamento daquele que se proclama envelhecido e podre, sem qualquer hipótese encantatória, incapaz de sedução e isento de charme.

 

Meus caros quarentões - e cinquentões -, o charme é também a inteligência amadurecida que trespassa e flui pelos poros - mais abertos, é certo -, e capaz de fazer pasmar e render a mais renitente das resistências femininas.

A partir deste momento esbofeteio o primeiro rapagão com mais de quarenta anos que choramingue os idos tempos em que era capaz de saltar à vara, sem a vara ou sem se preocupar com a altura em que a dita é colocada.

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A Gaffe grisalha

rabiscado pela Gaffe, em 17.02.17

 

Ao deparar com meninas telegénicas e as suas constantes preocupações em publicitar a cor do cabelo patrocinado por uma marca de tinta, trepam-me à memória, espalhando-se e contaminando o meu dia, as cabeças de Fernando Ruas e de Victor Constâncio e permito-me concluir que se às mulheres é reconhecido o direito de mudar a cor da juba, já aos homens o caso adquire tons mais complicados.

 

As cabeças de Fernando Ruas e de Victor Constâncio, por exemplo, parecem ter sido dominadas por uma aranha negra, velha e outrora peluda ou, em alternativa, terem um rato morto a servir de cabeleira.

 

Admitamos que aquilo é deprimente.

 

Desenhar o penteado com um marcador preto produziria o mesmo efeito. A tinta tinge o couro cabeludo e, no caso do primeiro, apeçonhenta o bigode. Ficamos perante dois casos de toucas de banho incorporados, negras, funestas e retintas e nitidamente falsificadas, como se os chineses tivessem plagiado a estrutura capilar e a pilosidade de um jovem latino e tivessem colocado o produto à venda nos mercados e nos átrios dos municípios.

 

É um erro crasso confiar num homem que pinta o cabelo daquela forma e acredita, patético, que consegue convencer os pares e os parceiros com o negro daquilo que outrora foi cabeça. É tão idiota como acreditar nos que arrastam de forma confrangedoramente dolorosa - uma dor de alma - os fios da nuca para a frente da testa, criando uma estranha e assustadora arquitectura pilosa que lembra um ovo de extraterrestre num filme qualquer de ficção científica de terceira categoria ou pornográfico, onde não há categoria nenhuma.

 

As meninas podem tingir-se com a cor cereja, porque há sempre a possibilidade de nos distrairmos com os decotes e com os vestidos dois números abaixo do que seria necessário para não ficarem comprimidas, mas um homem não podem usar a porcaria que as raparigas publicitam sem correr o risco de passar por idiota, desonesto, inseguro e incompetente.

 

Há incomparavelmente mais probabilidades do cabelo grisalho, ou mesmo totalmente branco, poder ser o mais deslumbrante e fascinante convite à aventura e ao embarque naquilo que é o transatlântico mais poderoso do universo: a maturidade consciente e assumida do homem por quem perdemos bússolas e astrolábios - não convém contudo generalizar, porque nos lembramos de repente do engenheiro Sócrates.

 

Os exemplos que ficam ilustram de forma inequívoca a tese defendida. Embora, diga-se, o primeiro faça parte do elenco de uma série ligeiramente maçadora, situada no passado e o segundo tenha um passado conturbado e controverso, são os dois espantosas criaturas susceptíveis de povoar os sonhos menos brancos de uma rapariga com a cabeleira cor de cenoura.

 

Nas fotos - John SlatteryAiden Shaw

 

 

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A Gaffe desiludida

rabiscado pela Gaffe, em 17.01.17

 

Seria mais razoável cingir o âmbito deste cantinho esquecido a comentários relacionados com os farrapos.

Comentar trapos deveria ser o meu destino, nada complicado tendo em conta a panóplia de blogs dedicados a este assunto que me serviriam de exemplo.

Enfrento-os corajosa, à procura de linha orientadora que seja capaz de me tornar numa especialista com ânsias de Chanel e tomba-me arrasada e cadavérica esta ambição tão elevada.

 

Sou como uma gata em telhado de zinco quente, ou como uma ratazana morta na mesa do jantar, quando comparada com as maravilhosas conselheiras de moda que pululam por aqui. Não me consigo aproximar do look da semana. Não tenho a audácia que me permitira aconselhar o champô que a Catarina Furtado não usa, embora sorria dizendo que sim, asfixiada num vestido Nuno Baltazar. Não sei ser convicta ao indicar a máscara amaciadora, para cabelos secos, que sabemos ser prima direita da tinta que reluz na cabeleira farta de Fernando Ruas e que o intoxica através do bigode. Não entendo nada de tendências e sempre achei que instigar o uso de ankle boots pode ser considerado assassínio premeditado.

 

Não sou capaz.

 

Para meu desgosto infindo, jamais serei uma fashion adviser ou, no mínimo, uma blogger cintilante de sugestões, opiniões, dicas, inspirações, estímulos e propostas relacionadas com os trapos.

 

Sei, no entanto, que tenho dentro, pronta a saltar de tacões agulha e a gritar sem abrir muito os lábios, a amplíssima tontice de uma rapariga que dizem ser vã, fútil, vazia, capaz de comentar trapos, rodilhas, farrapos, frangalhos e demais trapalhada que lhes está apensa.

Se não desejo com fervor a carteira Chanel que diz com tudo, não deixo de cobiçar com ardor um garboso atleta -, mesmo usando hastes brancas, mesmo quando tem as bolas Chanel.

 

Podem embrulhar e enviar exactamente como está. Depois completo o laço, retiro os excessos, refiro-lhe os atributos e menciono as vantagens do uso descontrolado do rapaz.

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A Gaffe repreendida

rabiscado pela Gaffe, em 06.01.17

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A Gaffe recebeu um comentário indignadíssimo assinado por uma senhora que se sente, nessa qualidade, ofendida e lesada, apenas porque esta rapariga descuidada não cuida da postura que o feminino deve assumir perante o mundo e se atreve a exibir fotografias de homens quase nus que só contribuem para a humilhação, a frustração e a baixa autoestima da maioria das mulheres, reconhecidamente incapazes de encontrar e - numa alusão clara a Saint-Exupéry -, cativar exemplares como os que vão aparecendo nestas avenidas.

 

Seguidamente declara a Gaffe instigadora do sexo pelo sexo, quando, como mulher formada e culta, deveria saber que um homem nu em cada esquina é rua aberta para a decadência feminina - isto, claro, se a esquina não for a de um beco sem saída, ou a que faz ângulo com um clube gay, intui a Gaffe.

 

Termina a senhora chamando a atenção para a atitude de ofensa ao feminismo e à luta das mulheres pela igualdade liberta dos grilhões - tendo em conta a condenação do teor das fotos, provavelmente a senhora quereria grafar outro vocábulo – do machismo a que esta rapariga tem vindo a dar cobertura.

Numa linguagem sempre cuidada, mas sempre unida ao grande raspanete, a senhora revoltada refere a lavagem do masculino que é apanágio do que por aqui desanda e acusa esta pobre rapariga indefesa de estar a sabotar a seriedade, o decoro, a nobreza e a integridade moral que nos deve inspirar e merecer o corpo humano, seja ele de que formato for.

 

Uma chapada.

 

A Gaffe chorou imenso arrependida de ter publicado fotografias de homens bons de se cair para o lado que eles quiserem, em vez das do marido da queixosa.

A Gaffe concorda. Nem tudo são rosas nestas avenidas. Às vezes passam pilas. Cobertas e acauteladas, mas sim, há pilas que se adivinham e de que sabemos que gostamos porque estão apensas a homens lindíssimos que mesmo fora das fotografias o continuam a ser.  

 

Evidentemente que a Gaffe não mantém a postura que uma mulher deve assumir. Esta rapariga, como diz Marco Paulo, é uma lady na mesa, mas só sabe Belzebu do que é capaz de fazer com o restante mobiliário e assume que pertence à maldita minoria de mulheres que não respeitam o sentir das outras, porque é perfeitamente capaz de fisgar  um matulão igual aos que se publicam, sem ponta de solidariedade para com as que ficam sem ele, embora pense que não é assim tão difícil tendo em consideração que não há homens irresistíveis, mas apenas mulheres que não sabem resistir.  

 

A Gaffe não tem uma postura – tem várias, porque já leu o KamaSutra -, e acredita que a autoestima de uma mulher não é influenciada - nem inflacionada -, pelo facto de ter conquistado um matulão divinal, porque suspeita que é exactamente uma bela e enraizada autoestima feminina que o atrai. Elevar os padrões da nossa autoestima através da aquisição e exposição de um potentado masculino, equivale a ler Gustavo Santos e consubstancia uma das mais medíocres atitudes machistas que uma mulher consegue encarnar.

 

Para além da ausência de uma postura, a Gaffe não tem compostura, porque suspeita que é muito desvalorizado o sexo pelo sexo ou, como já foi dito, o sexo mágico, aquele que se faz e se desaparece. Provavelmente a senhora indignada escreve cuesia erótica onde o dicionário de rimas ajuda a encontrar palavras que terminam em ar - e no ar - e textos cuéticos encimados pela fotografia - onde o amor está indubitavelmente presente - de um casal nu, engalfinhado de tal modo que é difícil perceber onde começa um e termina a outra; onde um simulacro de sexo, feito com muitíssimo amor, se deixa iluminar, fotografar, expor e visualizar apenas com o intuito de nos atingir o coração. O sexo pelo sexo é apenas um arredor do amor e muitas vezes são os arredores que interessam. A Gaffe não se importa que a considerem uma ninfa, mas não é maníaca e o crivo, ou o filtro, que usa para seleccionar os homens é tão apertado como a caixa craniana da senhora indisposta - o que, será bom de ver, o torna quase compacto e de dificílimo escoamento.

 

Há no entanto um ponto que gera na Gaffe a mais veemente discordância com a senhora agravada.  

A Gaffe não faz lavagem do masculino e embora não entenda com a profundura exigida o significado da acusação, quer deixar claro que aos homens que por aqui se publicam não lhes é exigido um banho prévio. A prova consta da foto que ilustra este longo rabisco. O rapagão da imagem, como se vê, não está convencido da eficácia do desodorizante que usa.  

 

A Gaffe resolve por fim, num claro sinal de reconhecimento, oferecer à senhora apoquentada uma pequena mostra de homens muitíssimo interessantes retirados de um quotidiano mais cultural que por certo agradará à comentadora. Aconselha a senhora a sentar-se, a cravar as unhas nos braços da cadeira, a amordaçar-se e a evitar uma exposição prolongada a esta pequena amostra que pode, pela repetição, provocar-lhe epilepsia.

 

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São rapagões oriundos do universo do bailado. Muita postura, portanto. Devem ser olhados apenas como profissionais da companhia belga Thierry Smits e não tentar adivinhar-lhes as pilas - que a Gaffe já teve o prazer de ver, porque dançam muitas vezes todos nus.

 

Na foto - Quincy Currie por Tatchatrin Choeychom

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A Gaffe baudelairiana

rabiscado pela Gaffe, em 04.01.17

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Ao lado de Baudelaire, a Gaffe não entende a necessidade de vestir capitães deste calibre para cavalgar as ondas.

 

Os homens que não se iludam. Não é dos casacões oficiais que nós gostamos.

Todas as mulheres sonham em segredo ser arrebatadas por um marinheiro musculado, bruto, moreno de olhos cintilantes, tisnado pelo sol, de preferência perdido num episódio de Lost, com a libido alterada por uma abstinência forçada e todo nu.

 

A única condição que lhe impomos é que - depois de termos saboreado vezes sem conta todos os pecados da carne e dos vegetais apensos -, não pergunte se gostamos tanto como ele. Acabamos, quase sempre muito pudicas, a mentir.

 

Nós gostamos sempre muito mais.

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A Gaffe e o mistério do Ano Novo

rabiscado pela Gaffe, em 03.01.17

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Misteriosos são os desígnios do senhor.

 

Do senhor que no primeiro dia do ano vai banhar-se nas águas gélidas do oceano mais perto de si - dele, do senhor, não de si, que apenas observa a quantidade de compinchas que o seguem nestas aventuras mais ou menos náuticas.

 

A ausência de banhistas dignos de figurar no rol de escolhas da Gaffe é escandalosa. Não existe nesta multidão de alegres e encharcados foliões e folionas por esfoliar, um único matulão capaz de ter hipóteses de a levar em braços para os seus projectos de cruzeiro onírico.

 

A Gaffe lamenta que apenas os seniores – a Gaffe decidiu ser cuidadosa -, os mais barrigudos e os mais desdentados; os carecas com patilhas gigantes que atravessam a cabeça como um polvo apanhado por incúria no mergulho; os de ceroulas sem elásticos e coturnos coloridos; os mascarados de matrona carnavalesca - há que ter atenção e não os confundir com as matronas carnavalescas que também se atiram às ondas nesta altura -, os que usam cuecas descaídas que deixam escapar um dos tentáculos do polvo já falado e o senhor Presidente da República, se atrevam a tamanha aventura que acaba sempre com a pila transformada em azeitona, mas heróica a declarar convicta que está mais frio cá fora que lá dentro.   

 

A Gaffe não entende os mistérios desta tradição ancestral que só na Caparica já perfaz dez anos e propõe uma renovação, uma revigorante inovação, uma adaptação aos tempos modernos que também não são de escaldar:

No primeiro dia de 2018 banhar-se-ão nas águas do oceano apenas rapagões seleccionados por esta rapariga friorenta e promete que a menina que chegar primeiro ao primeiro que emergir pode esfregar-lhe a toalhinha onde quiser.

 

A Gaffe sempre apreciou uma bela e esbardalhada correria pela praia fora.

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A Gaffe nos mercados

rabiscado pela Gaffe, em 30.12.16
 

Nos mercados - mesmo naqueles que não são financeiros e onde é fácil retornarmos -, há que estar com imensa atenção aos legumes expostos e às frutas que se oferecem luzidias ao nosso desejo de provar, de mordiscar ou beliscar cada cor e sabor.

 

Há sempre o risco de conterem bicha.  

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A Gaffe com Fawas

rabiscado pela Gaffe, em 28.12.16

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Dando razão aos seus anónimos que a consideram uma criatura fria, distante, vil, má, cruel, cínica e sempre pronta a esmagar os pobrezinhos, a Gaffe vai parecer uma cabra insensível, mas considera que um bocadinho de pragmatismo não vai acrescentar muitos mais adjectivos ao rol de vitupérios com que é brindada de quando em vez.

 

Admite que o talentoso George Michael nunca a fez choramingar. Nunca o rapagão foi banda sonora dos seus desgostos e tristezas, das suas melancólicas prostrações amorosas, nem a fez pinchar nos momentos mais histéricos salpicados pelo brilho dos espelhos, embora tenha de confessar que, já maduro e com uma imagem de carismático navio couraçado, tenha tido sobre esta rapariga tonta um apelo que não dista muito do sexual.

 

A Gaffe gosta dos duetos com Aretha Franklin e com Elton John, da vibrante e emotiva homenagem a Freddy Mercury e de alguns trechos de Faith e de muitos de Listen Without Prejudice, mas nada que não a deixe dormir em silêncio.

 

Tal como o Senhor Marquês, a Gaffe – também de muito boas famílias -, adopta a célebre parangona enterrar os mortos e tratar dos vivos.

 

É sobre um vivo muito específico que a Gaffe gostaria muito de se debruçar.

Fadi Fawas.

 Indiscutivelmente, e mesmo ao longe, o melhor dueto de George Michaeal.

 

Não adianta, raparigas, desatarem a carpir o escândalo que é esta referência indecente a um viúvo tão recente, porque todas, mas TODAS, perante um portento destes, no aconchego dos lacinhos da lingerie mais ténue, muito reservada, muito escondidinha nos escombros do desgosto, pensaram que este belíssimo animal é capaz de provocar paragens de toda a espécie - incluindo as de autocarros -, acelerar desastres e provocar todas as pequenas mortes que quiser, que nos deixamos.

 

Para grande tristeza nossa - seria caso para dizer, se fossemos grosseiras, que temos Fawas sem chouriço -, este vivo prova-nos apenas que George Michael foi, para além de tudo o que de bom dele dizem - e provavelmente com razão -, um brutamontes com um cabelo muitíssimo bem tratado.           

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A Gaffe de farda

rabiscado pela Gaffe, em 14.12.16

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Temos de assumir, raparigas. Nós babamo-nos.

 

Babamo-nos quando vislumbramos desprevenidas uma farda ou uniforme capaz de nos fazer crer que o rabinho do dono saiu de um expositor do MET; quando adivinhamos dois peitorais de aço a rebentar a camisa; quando deparamos com duas colunas musculadas enfiadas em botas de couro polido; quando sofremos por não poder fazer deslizar os dedos pelo cabelo rente de quem nos faz parar o carro ou de quem nos mostra a arma inacessível e quando imaginamos cenários de guerra e de guerrilha, internas e aconchegadas, protagonizados por um destes rabinhos fardados, que fazem ruborizar Belzebu, já que os outros e celestiais arcanjos tremem de pavor perante estas quedas iminentes.  

Babamo-nos e só não esbugalhamos os olhos porque, em tempo de crise e não sendo o rímel YSL, receamos que as pestanas se nos colem à testa.

 

Dizem as más-línguas que o apelo erótico que nos abrasa quando vislumbramos um uniforme bem vestido, equivale ao que a visão de Irina Shaik em lingerie provoca no masculino olhar.

Não subscrevo.

Uma farda bem vestida inflaciona a reserva erótica do portador e, no caso dos soutiens, é geralmente o seu conteúdo que favorece o rendilhado.

 

O facto de salivarmos perante estas visões enfarpeladas, não pode implicar descuidos no terreno.

O episódio estrelado pela Gaffe ilustra cabalmente o que foi dito.

Perante o deslumbrante polícia de trânsito, a Gaffe decide sair do carro para solicitar a informação, pormenorizada em papel couché, que traz na carteira ao lado do bâton - há estratégias de abordagem que se tornaram clássicas.

Vai babada e não segura.

O fabuloso animal fardado de quem se aproxima sorve-lhe toda a atenção e povoa-lhe os mais esconsos pensamentos, toldando-lhe o raciocínio com imagens pouco dignas de uma menina de boas famílias. A Gaffe usa todas as artimanhas que possui - e possui várias -, retiradas do arquivo Seduzir Fardamentos, lamentando, mais uma vez a porcaria da chuva que a impede de ter uma brutal cabeleira estonteante, repleta de caracóis possíveis de espargir pelo espaço e capazes de enredar a resistência.

Vai de sorriso armado e ondulante, pestana a saltitar e pezinho leve.

 

Tropeça.

 

Tropeça miseravelmente.

Esbraceja estropiada de tacão partido, esvoaça deformada, estrebucha já estragada e esbardalha-se toda aos pés da cobiçada figura bem fardada. Nem sequer fica de joelhos, posição mais aceitável e compreensível, dado o contexto de uniforme. Estatela-se com as pestanas cravadas na biqueira da bota do portento, absolutamente humilhada por não ter sido premeditado o tombo - com destino aos braços do rapaz -, mas apenas produto do encontro deplorável com a porcaria de uma pedra solta no meio caminho.

 

É evidente que depois de uma catástrofe destas, uma rapariga deseja somente e com a ardência dos joelhos esfolados, a cela de um convento.

 

Há, como fica demonstrado, a urgência de aliar a baba a uma atenção acrescida às agruras de um pedaço de mau caminho.

 

Nota - O homenzarrão consumiu imenso tempo a apanhar o conteúdo da minha carteira espalhado por todo o lado e perdeu toda a carga erótica quando comparou a dispersão dos meus parcos haveres a um desastre de avião.

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A Gaffe Marlboro

rabiscado pela Gaffe, em 11.12.16

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 Não há nada como o homem Marlboro dos catálogos antigos.

Bem sei que o público-alvo era constituído por rapagões deste calibre ou que dele se tentavam aproximar, mas valha a verdade, os publicitários da Marlboro sabiam o que faziam. Os antigos catálogos estão cheios de homens que parecem a sério. Nada de frágeis andróginos e hermafroditas. Era só passar os olhos pelas páginas para que nos sentíssemos satisfeitas e prontas a correr para uma loja onde, quem sabe, talvez encontrássemos à porta um exemplar encostado ao carrito de calças amarrotadas, casaco de couro com um ar vintage e com uma alma de lenhador toda bonita que adivinhávamos com facilidade. Não era provável, as hipóteses eram quase nulas, mas havia uma esperança secreta e sempre alimentada por quem era bom a fazer publicidade.


Neste momento, os meninos que fazem as delícias das passerelles não são mais do que bonecos de plástico depenado, com olhinhos de cão ou de gatinho e corpo reluzente, sem um pêlo. Não alimentam. Não são capazes de povoar um sonho mais encorpado. Uma pobreza toda igual. Não adubam ninguém.


Sou uma rapariga muito sensível a estas nuances publicitárias.

 

A velha Marlboro, pelo menos, cheirava a macho. Podiam perfeitamente estar todos a usar - no interior oculto do nosso desejo -, lingerie de renda vermelha com ligueiros cor-de-rosa que uma rapariga perdoava e agradecia o exterior.

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A Gaffe bazófia

rabiscado pela Gaffe, em 29.11.16

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É habitual a Gaffe estampar fotos de rapazes que passam o tempo a humilhar o comum dos mortais, atirando-lhe à cara a esplendorosa forma física em que se encontram e despertando a esplendorosa inveja dos mostrengos mais desfavorecidos.

 

Apesar destes portentos não passarem por nós ao virar da esquina - são criaturas parecidas com os unicórnios, - a Gaffe apanha demasiadas vezes umas cornadas destes bichos, vindas das paredes e dos muros, das páginas das revistas e do armário do vizinho de gabinete que tem posters destes colados ao fundo - do armário.

 

A Gaffe não fica nem excitada, nem incomodada. Isto funciona como o acordo ortográfico. Embora não simpatizemos com ele, vamo-nos habituando à grafia até deixarmos de sentir que estamos perante um erro. Acabamos vacinados e, de certa forma, imunes. Aquilo marcha sem que lhe prestemos uma atenção especial.

Ora, se o que foi escrito agora não passasse exactamente disso, uma banalidade idiota, a coisa até nem pareceria muito mal. Acontece que hoje de manhã a Gaffe cruzou-se com um unicórnio destes e deve dizer, para acalmar, que o bicho que se avistou dentro de um fato  - e de facto - não se inscrevia no conto de fadas tradicional. Era um unicórnio de todo o tamanho!

 

Isto prova, sem lugar para dúvidas, que, por muito que o neguemos, não passamos de umas bazófias com uns trocadilhos todos marotos em relação às excelentes formas físicas chapadas nos cartazes das montras que nos impingem, mas que, perante os factos de fatos justos, perante todos aqueles músculos em carne e osso, até as bainhas das saias se nos eriçam.

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