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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe pede desculpa

rabiscado pela Gaffe, em 14.11.17

 

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Pedir desculpa é, há muitíssimo tempo, considerado um acto nobre.

A ponte cai matando uma quantidade de gente absurda, o ministro demite-se pedindo desculpa. Um acto de grande nobreza. O país incendeia-se e queima gente, a ministra não se demite e o governo não pede desculpa. Uma falta de nobreza. O Presidente da República apresenta condolências e pede desculpa. Tão nobre. Uma bactéria mata nos hospitais, o ministro pede desculpa. Nobremente.

 

O acto de se pedir desculpa chega com gola de arminho e manto de veludo escarlate. Traz o ceptro da grandeza de carácter numa das mãos e os brasões da elevação de alma na outra. Exige-se o desfilar compassado e grandiloquente do corpo da desculpa pelos corredores das nossas vidinhas. Deslumbrados pela nobreza exibida, aclamamos e reverenciamos o brasonado como capaz deste acto que parece exclusivo do gentil-homem e que lhe revela o cume de um carácter de Evereste e uma alma fidalga.

 

Pedir desculpa é sempre a revelação de uma falha. O reconhecimento de um erro e a assunção da vergonha de ter sido cometido e de sermos responsáveis pelo facto. Nada há de aristocrata - nem de plebeu -, numa atitude que deve ser comum a todas as gentes - a todas as classes, mesmo as definidas pela Idade Média e que, digam o que disserem, perduram ainda.

A atribuição de um carácter nobre a um pedido de desculpa é tão imbecil como o apaziguar da indignação popular quando os grandes infractores assomam à varanda do palácio e confrangidos acenam com os lenços choramingas das desculpas. Se os grandes vigaristas deste mundo abanarem na frente dos olhos dos lesados a alegada nobreza de um pedido de perdão, serão por norma julgados com uma condescendência bem maior do que aquela que é concedida aos inocentes apanhados pelo ladrilhar da trafulhice.

 

Pedir desculpa não engrandece, nem diminui. É um acto inseparável da condição humana. Existe, porque existimos e porque existimos, pensamos - e porque pensamos logo somos, diria o velho sábio se pudesse.

 

Após a admissão do erro, logo se verá.

 

Posto isto, a Gaffe apresenta-vos o maravilhoso atleta checo Jan Kudlička e avisa-vos, meninas, que apesar de não ter grande talento para as línguas, a primeira desavergonhada que se meter à sua frente, apanha com um dicionário na nuca.

A Gaffe pede depois desculpa.

É uma aristocrata.

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A Gaffe nos anos sessenta

rabiscado pela Gaffe, em 26.10.17

Vic Seipke

Mais de duas décadas antes de eu nascer, a fotografia de Vic Seipke cumpriu o seu destino, provavelmente similar ao traçado para aquelas que hoje, cinquenta e alguns anos depois, povoam as fantasias menos exigentes de públicos que uma rapariga de boas famílias não está autorizada a referir sem se benzer.

 

O ginasticado rapagão terá sido um menino de sua mãe - tão jovem! que jovem era! - capaz de ostentar provas de insistente, consistente e reveladora actividade física que, acreditamos ao observar pormenores, não se confinava apenas às quatro paredes de um ginásio, estirando-se com certeza pelo chão, elevando ao tecto apensas manigâncias e  passando num ápice para o uso de toda a mobília.

 

É indefinida a idade do retratado. Embora sendo eu uma criatura incapaz de atribuir idades ainda que aproximadas a potentados destes e dos outros, provavelmente o rapagão não terá mais de trinta anos. Se usarmos o conselho do meu querido Guterres, Vic Seipke é agora um octogenário.

 

É evidente que não tenho intenções de me tornar tenebrosa, sinistra, ameaçadora, lúgubre e absolutamente parva, arabizando considerações acerca da crueldade do passar do tempo, da impotência da beleza perante a decadência, da fatalidade da queda, da vacuidade da vida, da irresponsabilidade do culto do efémero, ou da desagradável e maçadora homogeneização do destino do universo perante o fim. Gosto imenso do efémero, do irresponsável, do que é inutilmente belo, do vácuo existencial, da queda bem almofadada - também gosto de dinheiro, mas suponho que esta informação é despropositada neste contexto -, e faço tenções de gozar todas estas sumptuosidades sem as conspurcar com as piolhices que o mais tinhoso romântico literário se encarregou de glorificar.

 

É claro que se neste momento Vic Seipke fosse convidado a posar nos preparos do seu passado, o resultado não seria o melhor, por muitos pesos que o rapaz continue a levantar, e suponho que mesmo num calendário solidário, despido de bombeiro, não acenderia um fósforo. Seria apenas um fofo muito querido com imensa coragem e genica que foi capaz de se despir de preconceitos em nome de uma causa e ó que linda que a velhice pode ser!

Este magnífico exemplar de testosterona solidificada, mesmo que não a tivesse direccionado como nos apraz, é agora um velho, muito velho, muito velho, muito podre - se tivermos em consideração que o que aos trinta fazemos, aos oitenta o pagamos. No entanto, no auge da sua envergadura, o rapagão depilava-se como se o amanhã fosse ali já – nunca de Alijó, onde os homens ainda fazem questão de manter todos os pêlos -, usava sem constrangimentos ou receios uns calções que certamente se fartava de despir, muito apertados e bastante interessantes na óptica da observadora e sabia moldar o seu bronzeado para que o seu perfil proeminente fosse passível de ser bem avaliado e apreciado.

 

Os anos sessenta de Vic Seipke fazem mais sentido que uma vida inteira a carpir a implacabilidade do tempo que passa, passado no culto da morte que está com certeza em cada esquina e nos torna iguais, despidos de tudo. O pó, a cinza e o nada chegam antes do tempo neste carpir doente, neste choro mórbido, que entope o nariz, que impede até mesmo uma fotografia parva, mas que glorifica os instantes solares em que somos agora.

 

Na foto - Vic Seipke - 1960

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A Gaffe muito incapaz

rabiscado pela Gaffe, em 18.09.17

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Dizem-me os entendidos cor-de-rosa que existem dez factores masculinos que tornam irresistíveis os seus donos aos olhos das moçoilas. Enumeram-nos. Verifico a existência de barba, pilosidade maravilhosamente distribuída, queixo quadrado, abdominais proeminentes, olhos de lince, lábios de mosto, quem faz um filho fá-lo por gosto, entre outras condições exigidas para que nos verguemos, dominadas e seduzidas.

Dizem-nos também que a nossa atracção pelo macho é directamente proporcional à sua aparente capacidade de procriar, de proteger, de dominar, de ser gregário, mesmo tribal, e de produzir rebentos do mesmo calibre dos deuses. Referem, à laia de exemplo e por exemplo muito street style, que uma mulher acompanhada por um barbudo tem menos hipóteses de ser assaltada pela calada daquela noite em que escolheu um imberbe. É-nos sugerido que um Cro-Magnon é sempre o bicho que escolheríamos, ignorando descaradamente um hipster vestido por Valentino, para connosco partilhar a observação das estrelas que explodem quando a cama é comum.

 

Pese embora o rasgar de vestes, o arranhar das paredes até se escacarem nails, o sangrar do Facebook lancetado por pretensos feminismos capazes de desentranhar a revolta enojada a muitas Marias, estou tentada a concordar.

 

Gostamos de Cro-Magnons. C’est mignon.

 

Não é de todo desagradável termos Daniel Craig, todo nu, carnal, bruto, besta insensível, insaciável, macho alpha malcriado, de pistola em riste, machista e misógino, a empurrar-nos contra uma parede, ou a desabar sobre o nosso corpinho de ninfa dos bosques frágeis, todas dominadas, à mercê dos seus desejos concupiscentes e prontas a ser tratadas como objectos. Desde que Daniel Craig tenha consciência do valor do objecto - capaz de humilhar a parva da Mona Lisa, único e incomparável, obra-de-arte indizível e suprema criação de Deus Nosso Senhor - não nos conspurca decidir ser tratadas, de quando em vez, como objectos.

 

Apesar de parecer contraditório, esta escolha consubstancia uma atitude deveras feminista.

 

É um fastio, um tédio, um enfado, uma frustração, um desespero e uma dieta forçada, uma rapariga ter de negar o prazer imenso que é ser controlada, manobrada, usada e transformada em objecto nu, deitado na cama, só com uma gota de Chanel a proteger-lhe a feminilidade, quando o frasco do seu desejo assim se desenrosca.

Não tem mal nenhum e o sexo é sempre tão primitivo que dir-se-á datar do Paraíso.

 

Depois, minhas caras, nos sabemos que se gostamos de ter, de vez em quando, Daniel Craig a disparar canhões de testosterona bruta e grosseira - e para lá das escolhas que dizem que fazemos -, existe sempre o deslumbrante Tom Hiddleston, o meu preferido e preterido 007, capaz de se transformar em Halibut.

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A Gaffe na cabine

rabiscado pela Gaffe, em 05.09.17

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Não vale a pena!

É ingénua ilusão pensar possível um amor feito num minúsculo cubículo do avião onde o odor a desinfectante poderoso, próximo do perfume da assistente de bordo gorducha e loira, nos entope a libido. Não é viável pensar sequer cumprir uma das fantasias sexuais mais comuns ao mais comum dos mortais, passageiros espevitados e marotos de um voo que faz escala no centro da mais destravada e esconsa manobra da nossa excitação já confessada. Não é possível encaixar um matulão num espaço exíguo, habitado por apetrechos destinados apenas a destruir resíduos pouco motivadores, que, imaginamos, outros como nós, mas com intenções organicamente menos controláveis e mais solitárias, deixaram fluir com o alívio de evadidos condenados. Não é agradável fechar um gigantesco animal num cubículo e esperar que consiga travar uma luta que de grego tem apenas a nudez olímpica e de romano a lança gladiadora. Não é relaxante tentar a despercebida entrada na gaiola e a esperada saída desse espaço sem apanhar com o espavorido e esbugalhado olhar dos que nunca esperam ver dali sair suado o pecado ainda a arfar de transgressão.

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Estava convicta desta frustração movida a jacto, até que, em voos menos reservados, mas de longo alcance, a Gaffe deu consigo a salivar as selfies do piloto que decidiu provar que um trem de aterragem é bem mais adaptável aos espaços exíguos do que aquilo que prevíamos, e que se arranja sempre lugar para a mecânica.

 

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A Gaffe com dois bichinhos

rabiscado pela Gaffe, em 28.08.17

 

Quando dois dos mais belos animais do planeta se unem, fica demonstrado:

 

- Que uma rapariga esperta reconhece o par de bichinhos que enfiava na sua arca do dilúvio.

 

Obrigada, meu querido, por ter provado que tenho razão.

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A Gaffe convertida

rabiscado pela Gaffe, em 23.08.17

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Vi, passaram já alguns anos, no auge dos U2, uma imagem de Bono Vox  que me surpreendeu.

Bono, ajustado ao pescoço, ostentava um colar de pérolas pequenas.

 

É provável que tenha sido a mãe do rapagão que não tendo tempo para as usar e sabendo que as pérolas têm de estar em contacto assíduo com a pele para evitar a deterioração, lhe tenha suplicado aquela fineza, mas a imagem, por inusual, causou alguma estranheza até perceber que aquele adereço quase exclusivamente feminino, acentuava significativamente a masculinidade do portador que indiferente mostrava o que valia, suado e rouco. A fragilidade das pérolas, a brandura subtil, a fiada de discrição, a elegância e a insinuação feminina contida no branco, marcava e destacava a virilidade onde tinha pousado.

 

Bono nunca foi tão macho.

 

Se um discreto colar de pérolas, que se destina na origem a pescoços femininos, pode e é capaz, quando usado por um homem, da proeza de lhe acentuar as características de género, é bom de ver que um Kilt, mantendo eventuais e muito discutíveis pontos de contacto com um universo feminino -mas desde sempre pensado e talhado para uso de um macho -, pode operar milagres na única área que nos interessa - que se danem os castelos em ruínas e as inscrições gaélicas nos pedregulhos escorregadios.

 

É curioso verificar que esta peça - tantas vezes arremessada por dichotes e piadolas de petizes, imberbes, homens de outros lados, homens que se se disfarçassem de Batman iriam parecer freiras carmelitas e meninas com uma nail com bolinhas e outras de cores diferentes, que insinuam uma oscilação de cariz sexual ou ridicularizam as pregas que nunca vincarão com a unha do polegar, pois que não o têm oponente -, coadjuva de tal modo o homem como a tão celebrada gravata regimental, os botões de punho reservados, ou as peúgas pretas dentro dos monk strap.

 

O brevíssimo e enganoso vislumbre de um imaginário feminino povoado por saias de colegiais inglesas que um kilt provoca nos mais débeis que se riem imenso, é esmagado pela imposição de uma virilidade indiscutível, de uma masculinidade entranhada e de um vigor másculo de tal forma evidente, de tal modo acentuado que nos faz perceber que os papalvos críticos e engraçadinhos que se orgulham das calças que usam sem saber porquê, desconhecem até os outros processos de tapar a pila.

 

O hábito pode não fazer o monge, mas um Kilt - valha-nos Deus! - converte uma infiel e convence a rapariga a ir à missa.  

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A Gaffe copiona

rabiscado pela Gaffe, em 22.08.17

A Gaffe também coloca pilaretes nas suas avenidas. 

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A Gaffe a cavalo

rabiscado pela Gaffe, em 18.07.17

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Despedi-me hoje de manhã muito cedo do rapagão.

Partiu para Manaus numa visita que demorará três semanas que lhe proporcionarão um mais aprofundado conhecimento não sei exactamente do quê, mas que me pareceu entusiasmante, pelo nervosinho demonstrado pelo homenzarrão.  

 

Tendo em conta que chegar a Manaus, partir depois para o Parque Nacional de Jau e passado algum tempo seguir para o Parque Nacional da Neblina, lhe arranca mais do que oito dias de viagens, o homem não vai ter grande tempo para andar atrás do gado, embora - pelo sim, pelo não -, o tenha ameaçado com todas as sevícias que encontrei - mais as desviantes e anómalas que Gentil Martins referiu - caso o rapagão ceda ao fascínio das vacas que por lá mugem e se ponha a cavalgar em lombo alheio.

 

Insistiu muito na minha companhia, mas só a perspectiva de me ver a evaporar ou coberta de lume tropical; no meio de caminhos repletos de bichos estranhos e rastejantes que nos picam imenso e têm dentes maiores que a cabeça; envenenada por uma serpente ou ali morta por um jacaré – que nem sequer é Lacoste; aos solavancos por trilhos estreitos, cheios de ervas do tamanho de embondeiros; com as mamocas a desintegrar-se com o calor e sem poder voltar para casa no primeiro avião que aterrar na selva, foi desmotivadora. Não quis ir.

 

Suspeito que foi apenas para se vingar do meu abandono que, pronto para subir para a sela do avião e rumar ao pôr-do-sol Amazónico, me disse com um ar muito descontraído, como quem não liga à coisa, que quer visitar a região onde os homens tratam das manadas de gado - bichos de grande porte, quase mamutes -, completamente nus ou apenas com uma tira de tecido a embrulhar - mal - as zonas mais expostas às crinas dos cavalos.

 

Fiquei perplexa.

Espero sinceramente que o homem não tente a façanha, porque com o galope do cavalo e a piloca a dar-a-dar ainda volta para casa com o nariz partido.

 

O certo é que o rapagão é de uma lisura, de um rigor e de uma correcção exasperantes quando se trata da verdade, mas a nudez daqueles cowboys deixou-me confundida.

Então há um recanto neste planeta onde os tipos andam todos suados, todos musculados, todos morenos, todos tisnados, todos másculos, todo, todos, todos, todos a abarrotar de adrenalina e de testosterona, atrás das vacas, de pila ao léu, a dar-a-dar no cavalo?! Nunca tinha ouvido, lido ou sido informada acerca o assunto!

 

Não acredito.

Mentiroso!

 

A verdade é que me arrependi, logo ali, mal o maldito levantou voo, de não ter ido com ele.

 

Alguém sabe onde fica esta porcaria?

É que uma rapariga como deve ser tem o dever de acompanhar o seu homem, dê por onde der e seja para onde for, e sobretudo tem a obrigação moral de impor alguns princípios civilizacionais à barbárie e de vistoriar a fardamenta dos profissionais em nome da segurança e da alegria no trabalho.

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A Gaffe com um cheirinho

rabiscado pela Gaffe, em 06.07.17

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É mais do que evidente que vou enviar o prémio a quem participou nesta marotice brejeira e dedicar-me ao blog da minha querida amiga que trocou David Gandy por uma bagatela.

 

Surge no entanto um prurido que me deixa ligeiramente embaraçada.

 

Publicar ao Deus dará uma quantidade ensandecida de rapagões, desconhecendo-se as casas de chegada, não é matéria susceptível de causar a uma rapariga simpática qualquer rubor. Uma pila com destino incerto, vai parar sempre a um pôr-do-sol distante, mas acolhedor, sem ricochete de grande monta.

No entanto, saber que pela calada de um e-mail enviamos a esplendorosa nudez de alguém, partilhando assim com um grupo restrito a masculinidade seja de quem for, não é tarefa tão simples como promete. Diz-nos o juízo que facilmente poderemos passar por impositivas sabujas a atirar à cara de quem mal conhecemos - mas que identificamos, mas que particularizamos -, a pila de um estranho que nos encheu os olhos - suspeito que esta frase terá de ser revista. Como é de prever, não é de todo educado e de bom-tom esbardalhar miudezas destas contra a incauta face de uma inocente criatura que conta pelo menos com um paninho esvoaçante na frente da agressora.

 

É estranho o facto de nos tornarmos capazes das maiores barbaridades quando os espectadores são anónimos, inócuos, distantes, amorfos e com uma opinião que não nos afecta ou nos deixa indiferentes, mas somos comedidos e cautelosos quando esses mesmo espectadores se tornam mais próximos e ganham uma importância capaz de refrear os nosso desmandos.

 

Creio que esta é uma das desvantagens da amizade, mesmo aquela que se constrói aqui nestas Avenidas: a nossa mais jocosa irresponsabilidade, a nossa mais tonta infantilidade, dá lugar a uma espécie de respeitoso pudor, de civilizada empatia, que nos fica bem, mas que nos coíbe de mostrar a pila.    

 

Na foto - um cheirinho a David Gandy por Mario Testino

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A Gaffe lavadinha

rabiscado pela Gaffe, em 17.06.17

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Raparigas!

Se a vossa ambição for só encontrar um homem com uma vida sexual marcada apenas pelo espírito de missão, procurem-no numa qualquer lavandaria comunitária.


Aí, pelo menos, tereis duas certezas: a de que, o que encontrais, é um trabalhador esforçado e a de que esporadicamente se lava.

NotaNão! Jamais fornecerei o endereço da lavandaria da imagem e, caso a encontrem sem eu ter dito nada, fiquem a saber que o menino do meio já está reservado.

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A Gaffe tapada

rabiscado pela Gaffe, em 14.06.17

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Estirei-me no sofá.

Absolutamente inútil, com um copo de limonada gelada na mão e uma revista atirada a um canto. O meu spleen queirosiano atingia a comédia idiota que se arrastava sem interesse na televisão muda.

Lanço breves os olhos a um artigo onde uma senhora – anafada, com certeza, baixinha, com certeza, com cimento armado na cabeleira, com certeza -, alfinetava a opinião de uma qualquer desconhecida, sem perceber que o alfinete estava a ser cravado com o seu punho fechado e que o bico voltado para cima ameaçava atingir-lhe o osso.

O calor expulso estalava a noite e a comédia marchava muda até a cena surgir deliciosa.

 

Um actor em excelente forma física atravessava uma sala, completamente NU!

 

Durante todo o trajecto – e não foi de desprezar -  a pilita do senhor ficou tapada por uma data de objectos que o realizador teve a destreza de colocar estrategicamente. Uma operação que exigiu uma colecção razoável de jarras, livros, estatuetas, ramos de flores um espaldar de cadeira, uma esquina de mesa, protuberâncias de móveis e um gato repolhudo. Todos os elementos partilhavam uma característica: eram todos bastante volumosos.

 

Uma rapariga fica a pensar que de bom grado estilhaçaria os vidros opacos e esbardalharia as tolas bugigangas que impedem a visão de outros universos que não os que lhe provocam um tédio acalorado. No entanto, admite que às vezes é de extrema utilidade ter à mão de semear uma qualquer coisinha - uma concha, um berlinde, um fósforo, um papelito, uma florinha terna e simples - que impeça a visão de alheias e ridículas tolices confundidas com mordidas de alfinete.

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A Gaffe sacana

rabiscado pela Gaffe, em 09.06.17

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O bom sacana.

 

Suspira-se quando se atravessa - mordendo o lábio com que nos mente -, na vida que trazemos engolida pela multidão dos bons rapazes.

A inconsciência dos estragos que provoca é encantadora e o sorriso quase infantil que espalha nos corações destroçados, acreditando que a culpa dos estilhaços nos pertence por inteiro, é cativante.

 

Não adianta irritarmo-nos. O bom sacana desarma qualquer indignação com intenções mais bélicas e acaba a mendigar perdão apenas porque acredita mesmo que é nesse aparente arrebatamento, nesse fingido remorso, nessa contrição encenada, que se emendam os males do mundo.  Neste malandro um pedido de desculpa é sempre um acto de altruísmo e a alegria com que o realiza torna-se comovente aos nossos olhos.

 

É irresistível!

 

Irresistível, porque nenhuma mulher consegue por tempo indefinido asfixiar o instinto maternal que este sacana desperta. Salta-nos a enfermeira cá para fora, para fazer companhia a babysitter que entretanto já tinha chegado.  

 

O que fazer então quando no recreio o nosso colinho é implorado por este bom malandro?

 

O mais aconselhado é apalpar-lhe o rabinho, verificar no corpinho todo, com muita vontade e afincadamente, se não tem dói-dói e depois mandá-lo para casa da mãe, já muito habituada a mudar-lhe a fralda.

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A Gaffe a escaldar

rabiscado pela Gaffe, em 01.06.17

 O Verão que se aproxima é, meus caros, de esturricar o Acordo de Paris. Por isso, rapazes, não nos queimem o desejo de vos admirar, tritões ou trintões, a sair das águas cálidas, a escorrer sensualidade pelos calções colados à pila.

 

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Não sejam parolos. Evitem os estágios em microondas. É cansativo esperar que a melanina cumpra o que promete, mas imitar os índios Tupi, barrados de vermelho, com argila enfiada até no rabo, não convence uma macaca tropical, para além de vos transformar num placard escarlate de perigo iminente.

 

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É imperdoável que só ao fim-de-semana nos brindem com a visão dos vossos troncos nus.

Nos dias úteis o sol também trabalha e se existem almas que consideram sexy as marcas de um biquíni, uma singlet incorporada, encastrada, tatuada a Norte do paraíso, desencoraja e aniquila o desejo de morder maçãs e restante fruta da época.  

 

São duas regras básicas que deveis seguir e que impedem que nos tornemos lésbicas no Estio do nosso descontentamento. Convém guardar dentro dos speedos. Salvam-vos do deserto - embora não impeçam os camelos - e disfarçam, porque volumosas, a falta de consistência da Lycra.

 

Nota avulsa - Quando saírem da água, não olhem para os calções colados à pila, nem tentem afastar o tecido da pobre encharcada. A tendência é olharmos também e, por muito estranho que pareça, evitarmos o mergulho, porque a água nos parece sempre estar gelada.

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A Gaffe tetra

rabiscado pela Gaffe, em 29.05.17

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A Gaffe não sabe muito bem o que se está a festejar, mas com adeptos destes justificam-se todos os folguedos, sobretudo quando se nos depara uma trilogia de cuecas com apontamentos vintage, de cortes muito interessantes e aberturas estratégicas - características que a colocam num patamar bastante elevado daquilo a que costumamos classificar como sexy.

 

E se, minhas queridas, os três nos parecem muito iguais, há sempre a possibilidade de os classificar pelo comprimento … da barba, por exemplo.

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A Gaffe sacerdotisa

rabiscado pela Gaffe, em 13.03.17
 
Os deuses devem ter um arquivo gigante onde guardam os ficheiros dos mortais. Um arquivo poeirento e carcomido, cheio de estantes a ruir de velhas, onde só entram quando querem acrescentar uma palavra à toa a um qualquer dossier tirado à sorte.
 

Os ficheiros de tão manuseados ficam sujos. Desordenados, frágeis, sem nenhum sentido. De tão riscados deixam de ter espaço para o traçado de linhas mais perfeitas. Serpenteiam todas no papel e não são rectas, porque já colidem com outras já desalinhadas e vincadas. Os deuses entram a tossir poeira, agarram um ficheiro e despachando aquilo vão rasgando as pontas, amarfanhando as margens, enxovalhando o resto.

 

Depois de esgravatar, é Cupido o único que deixa nas páginas cortadas um risco de estrelas.

 

Na foto - Matt Merrell 

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