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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de última hora

rabiscado pela Gaffe, em 24.05.17

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Madonna andou a cavalo numa praia em Portugal!

O cavalo estará na próxima semana no "Alta Definição".

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Gavetas:

A Gaffe a apanhar pedra

rabiscado pela Gaffe, em 09.05.17

Os rapazes possuem uma aptidão muito peculiar que me deixa perplexa e me faz repensar as razões da nossa permanência neste mundo pobre e pouco digno de respeito.

Acaba por se tornar uma característica e, em maior ou menor grau, é detectável em todos.

 

Resume-se à extraordinária capacidade de mostrarem ao mundo - e sobretudo à parte ocupada por mulheres -, como são maravilhosos a tentar fazer o que não sabem.

 

Esta tendência é proporcional à sua ineficiência. Quanto mais totós, mais capazes se sentem de realizar o que se transforma num palácio para os bois mirarem. Quando os factos os contradizem, escapam à realidade crua e nua, convencidos que apenas apanharam pedra.

 

O meu irmão, por exemplo, digníssimo representante da espécie, afiança que é capaz de pregar um prego com uma facilidade descontraída e humilhante.

As paredes estão cravadas de buracos que representam todas as tentativas de martelar um inocente ferrito que como por encanto costuma saltar disparado ao primeiro embate. No segundo o prego entorta, no terceiro o prego desaparece no ar, como um OVNI depois de ter avistado o Terço de Joana Vasconcelos.

 

- Apanhei pedra.

 

O homem apanha pedra sempre que tenta espetar a porcaria de um prego na manteiga! Suponho que esta evidência seria de vital utilidade se o pobre um dia se enfiasse em areias movediças. Caso tivesse à cinta um martelo e no bolso um prego, apanhava pedra. Salvava-se.

 

Em decoração não resulta.  

 

Os rapazes permanecem, conscientes ou não, convencidos que a genética lhes forneceu as aptidões dos grandes machos e que nós, recolectoras de corpinho frágil, estamos aptas apenas a realizar tarefas a que elas atribuem um ficheiro feminino.   

O resultado pode ser catastrófico, não só para a decoração, mas também para a imagem que deles temos e que benevolamente vamos mantendo com algum esforço.

 

Seria muito mais proveitoso assumir que são uma perfeita nulidade a trocar um pneu, a dominar uma prancha de surf, a arrastar móveis sem colapsar imóveis, a instalar um circuito eléctrico, a reparar o portão da garagem, ou, no mínimo, a provocar-nos um orgasmo, admitindo em contrapartida que são exímios a tricotar pegas de cozinha, ou a construir arranjos florais mirabolantes.

 

Não!

 

Preferem que assistamos ao descalabro que é ver a sua masculinidade, pura e dura, a exibir-se lampeira e toda competente rumo a um ocaso pousado nas ondas das nazarés desta vida para logo depois sermos obrigadas a cristãmente caminhar sobre as águas para os repescar e ouvir dizer logo a seguir, a abanar a negra madeixa ao vento, que apanharam pedra.

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Uma proposta de discussão feminista a não deixar escapar.

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A Gaffe solitária

rabiscado pela Gaffe, em 08.05.17

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A Gaffe hoje conversa com o Sr. Solitário que teve a gentileza de se lembrar desta rapariga que usou durante todo o tempo óculos escuros, não se desse o caso dos seus olhos desatarem a falar em demasia.

 

Convém bisbilhotar.

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A Gaffe ecuménica

rabiscado pela Gaffe, em 05.05.17

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Por serem cada vez mais raras as ocasiões em que nos encontramos em simultâneo num sítio e numa mesma hora, a minha irmã decidiu que os três manos deviam jantar juntos. Eram eliminados três bichos com uma paulada só, tendo em consideração que se acrescentava à reunião a vantagem de conhecermos a nova namorada do meu irmão e que era possível descartar, partilhando, a maçada de ter de aturar um colega japonês que colabora no actual projecto da anfitriã.

 

O restaurante foi marcado com a antecedência da praxe e, como seria previsível, fui a primeira a chegar.

 

O senhor da recepção, atrás do seu púlpito, sorriu com todos os botões do seu casaco preto abotoado e foi informado que havia sido feita uma reserva. Empalideceu, o sorriso ficou roxo e os olhos tombaram em queda livre no livrinho das reservas, soltos das órbitas, quando anunciei o nome que devia figurar na sua lista.

Carlos Fabián Villa.jpgTranquilizei-o:

- Sou apenas a irmã mais nova.

As cores regressaram e os olhos também.

Fui conduzida à mesa assinalada e sonhei por instantes fugir para devorar um cachorro quente - do tipo Grand Danois - que tinha visto fabricar na barraquinha da esquina, antes de fazer de conta que me deliciava com os beliscões culinários do Grand Chef de revista.

 

O sonho durou pouco porque o meu irmão entrou logo a seguir.

 

É incompreensível a atracção - que se tem revelado fatal - que o maninho sente por nórdicas! Ao lado, um felino loiro e alto, uma espécie de Twiggy misturada com Kim Novak, arrastava, no trocar de pés de manequim, um gelo de fiordes que condizia com o azul frígido dos olhos de iceberg. Uma mulher lindíssima, logo estúpida - em relação a estes assuntos, gosto muito de respeitar os preconceitos e a sabedoria ancestral -, que se sentou depois de me mostrar uns dentes tão perfeitos que fazem com que nos apeteça bater-lhes com o cabo da faca e de sacudir o cabelo liso, brilhante e tão sedoso que por instantes me vi nele reflectida.

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Lykke Svenssonolofssonbengtsson - ou coisa que o valha. Não vale a pena fixar, pelas razões que se adivinham.

 

Antes de trabalhar a amabilidade, amaldiçoei a hora que penei à procura de um vestidinho em condições, porque deparo com os velhos jeans do meu irmão tão apertados que quando os tentar despir arranca a pele e - livre-nos Deus - também a pila que, salta à vista, não tem ar nenhum ali fechada.

 

Desatam a falar alemão - a lambisgóia vive em Berlim desde os dois meses, informa o mano que corre o risco de perfurar os olhos cravados nos mamilos que enfeitam as bolas rígidas de cidade onde a dona vive sem soutien.   

Que sim, que já tinha identificado a língua e que sim, que não entendo, mas que não me importo.

 

A minha irmã, mais uma vez sebastianista, com um atraso gigantesco que se justifica apenas com a possibilidade de ter estado a sacudir das cuecas a areia do deserto onde se perdeu com o Desejado, faz finalmente a sua entrada fulgurante.

Atrás de uma grande mulher está sempre um homem, diz o povo, que o povo diz coisas. Não vejo o mocetão, porque é japonês e portanto - é mais que certo - pequenino e porque quero provocar uma brisa de indiferença soberba e sofisticada, abrindo a clutch, a pochette, a carteirinha, a porcaria da maleta anã, fazendo de conta que estou distraída à procura do Camões. A porcaria da anã é da minha mãe e encontro dentro duas aspirinas, um Ben-u-ron e a subliminar prova que sou filha dela escrita num papelinho muito dobradinho:

 

Não perguntar B(…) pelo marido. Morreu - três anos.

A L(…) cunhada M(…). Não referir P(…) - amante duas.  

Comprar Ben-u-ron.   

 

O casal chega por fim à mesa e com o meu melhor Greta Garbo enfastiada ...

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...  ergo a cabeça esperando cruzar os olhos com os do japonês que segundo os meus cálculos devem estar ao mesmo nível que os meus, que estou sentada - o homem supostamente é pequenito - e apanho com a braguinha do sujeito a rir-se para mim.  

 

O homem é altíssimo!

 

Deve ser o único japonês à superfície do planeta que a minha irmã cumprimentou sem se ter de baixar primeiro.

 

Fico com os olhos cravados na pila nipónica até a minha irmã a fazer sentar à minha frente e depois de os ter, para disfarçar, espetado nos mamilos da sueca sem antes ter arrancado dali os do meu irmão.

 

E la Nave Va, fellinianamente.  

 

A girafa loira fala alemão para o namorado que lhe responde para as maminhas em inglês, para percebemos. A minha irmã fala francês para o gigante asiático que lhe responde numa língua estranha que não consigo identificar. Traduzem tudo para português, só para criar ambiente – manos amorosos!

 

Acabei por tomar as aspirinas e - pelo sim, pelo não -, engoli também o Ben-u-ron.

 

Isto de se ser ecuménico só lá vai com o Papa.    

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A Gaffe incorrecta

rabiscado pela Gaffe, em 24.04.17

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- Tu não tens absolutamente nenhuma consciência social, nem vestígios da política!

 

A bala foi disparada pela boca armada em idiota de uma versão masculina da Ana Drago, mais volumosa, mais carnal e bem mais alta.

Discutia-se com resoluto calor a decisão de se erguer de novo uma outra guerra para parar uma guerra em trânsito e insurgia-se o povo, nas reunidas mesas do pequeno-almoço, contra o domínio pardo dos Senhores da Morte, matilha de Richelieu nos reposteiros do poder.

 

Embora tenha soado a mofo, muito portas-que-Abril-abriu, muito CGTP Intersindical, muito período azul de Picasso, o chavão disparado contra a Gaffe encontrou eco nos meandros e nos corredores da sua alma.

 

A Gaffe não tem Consciência Social.

 

Trinta segundos depois do início do debate tinha já deixado de ouvir e desviado a sua atenção para os peitorais do garboso interlocutor que, na sua frente, se adivinhavam na alvura da camisa e tinha dado início a especulações de carácter muito pouco político.

 

Concede. A indiferença da Gaffe é escandalosa.    

       

Norte e Sul, Israel e Palestina, Cristão e Muçulmano, África e América Latina, Putin e Trump, Le Pen e Macron, Ghandi e os Impérios, hemisférios tortos, subvertidos climas, extinções previstas, catástrofes erguidas no terror da cinza, furacões e ondas de miséria abjecta, canhões e cogumelos venenosos, sarampo e malária, Amazónia em ferida, favelas e cabanas transalpinas e mesmo as mais perigosas das antenas de telemóveis ou de senhores de fato, são coisas de somenos para ela. Não pensa nelas. Não lhe dilaceram o dormir.

 

Culpada! Refugo da humanidade em chaga! Pária! Escória!

 

Humilde e indiferente insecto renegado, oriental bichinho, apanha o lixo breve que à sua entrada tomba, limpa o umbral da sua dócil porta e vagarosamente cuida das roseiras.

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Gavetas:

A Gaffe bimba

rabiscado pela Gaffe, em 19.04.17

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Admito que não sou uma fada do lar. Não tenho mãos da dita e jamais serei capaz de organizar uma despensa ou elaborar mapas Excel de contas poupança, ou com listas de compras em supermercados apinhados onde se atropelam carrinhos guiados por senhoras irritadas, cansadas de beliscar a fruta.

 

Entrego parte do meu reino por uma chegada a casa imaculada, com mesa posta e roupa lavada, mesmo correndo o risco – agradável e muito conveniente – de não ser considerada um bom partido pelos cavalheiros que pensam que a imagem idílica do doce lar contém uma doida esgrouviada capaz de se multiplicar obedecendo à tradicional aliança mãe-esposa-amante-dona-de-casa-empregada e mais que não se diz por ser verdade.

 

Nunca compreendi as mulheres que dedicam uma parte substancial do seu tempo à cozinha, não nutrindo por ela uma paixão arrasadora. Gostava, mas não consigo entender as criaturas que não ligando uma pevide à culinária - e mesmo depois da brutalidade do quotidiano -, se misturam com a cozinha que sabem que as vai esturricando, envelhecendo e desolando, apenas porque é assim a vida, apenas porque não admitem que, apesar do amor que dedicam à confecção do frango na púcara, chegam exaustas à mesa onde servem a iguaria ao senhor do feudo que entretanto foi comprar cigarros, ou aos meninos que passaram a tarde a jogar Playstation. Provavelmente têm a alegria de fotografar as diversas fases do cozinhado e pespegar com os fascículos no Instagram, elogiando no twitter o marido que descascou as batatitas.

 

Não compreendo as mulheres que trazem apenso um fogão, nem fogões que trazem mulheres apensas.

 

Talvez seja porque detesto cozinhar.

Erros meus, má fortuna, amor ardente por outras coisas que me rasgam o avental. 

 

Por isso comprei uma Bimby.

O rapagão merece...

 

A maquineta é um fenómeno!

  

Como não represento a empresa alemã e como evito aprender o que quer que seja relacionado com tachos e panelas, não sei exactamente o que a máquina não faz, mas fixei um pormenor que me deixou siderada. O monstro divinal tem ligação à internet, capta as receitas que escolhermos no site, envia uma lista com os ingredientes para o telemóvel e permite uma programação semanal das refeições, indicando em cada dia que passa os ingredientes que temos de ter à nossa disposição para os catapultar para dentro do milagre.

 

Só lamento que o rapagão tenha ficado um bocadito desiludido por não ter de voltar a passar horas a fio a elaborar pratos extraordinários que fazem corar de vergonha as avozinhas - dele e do Capuchinho - e esta rapariga desleixada.

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Gavetas:

A Gaffe depois da Páscoa

rabiscado pela Gaffe, em 18.04.17

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Ao fundo da alameda de mimosas fecharam-se os portões.

 

A manhã declina o encadear das sombras. Inclina-se devagar sobre a água do lago e num tocar escurecido trepa aos olhos do anjo de pedra. Venda-lhe os sussurros das árvores que oscilam pesando as horas ternas da indiferença do vento.

O azul da luz esgueira-se por entre as sebes como um lagarto que tem frio e um pássaro treme, como o peixe vermelho assustado pelo toque da minha mão na água.

Há sardinheiras a abrir. Novelos de hortênsias no anil de uma promessa e a relva cresce lenta como um gesto que se faz inútil por estar sozinho.

 

Se avançar, piso as pétalas que espalharam nas pedras para que o som das campainhas se misture com o perfume enjoativo que libertam esmagadas. Um corredor de pétalas com as geometrias traçadas por moldes de madeira. Um corredor de pétalas pisadas que não foi limpo, porque o Dia Santo é dia de descanso e há tempo nesta manhã em que se fecham os portões ao fundo da alameda de mimosas para cuidar dos restos da tarde da véspera.

 

Fecharam-se os portões.

 

O som das campainhas ecoa na copa das árvores. É esmagado pelo perfume da luz que se inclina para decifrar a cor das sardinheiras.

Ao longe, as tílias sacodem a poeira deixada pelo adejar das opas brancas e um teixo ergue-se para o céu como um crucifixo.

 

A manhã devolve-lhes o silêncio depois do Dia Santo.

 

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A Gaffe não se esquece

rabiscado pela Gaffe, em 15.04.17

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Gavetas:

A Gaffe num affaire

rabiscado pela Gaffe, em 13.04.17

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De joelho no chão, na minha frente, o rapagão tenta apertar o cordão do seu sapatinho de camurça castanha, enquanto, de cabeça erguida, me relata os pequeninos bibelots do dia de ontem.

 

Subitamente, o rapaz da manutenção abre a porta onde me tentava apoiar e entra distraído a cumprimentar as pernas à nova estagiária.

 

Para evitar maior confronto, maior choque ou grave atropelamento, vai de peito aberto de encontro às minhas costas. Com o impacto dou um passo em frente e sinto a cara do rapaz, já de cordão enlaçado, enfiada nas minhas pernas a balbuciar desculpas.

 

Embora prefira a expressão affaire à trois, tenho que admitir que para a surpresa de um ménage, o acaso é sempre o quarto convidado.  

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Gavetas:

A Gaffe intérprete

rabiscado pela Gaffe, em 12.04.17

A Gaffe descobriu há um tempo - tem andado sem ele - que existem cavalheiros pagos regiamente que afirmam dominar a leitura da linguagem corporal das gentes que vão observando, sendo capazes em consequência de interpretar o que realmente as vítimas incautas querem dizer ou fazer. São peritos na ciência dos maneirismos e tiques de todos os que tentam esquivar-se do escrutínio das massas, manipulando o que declaram, esquecendo que são atraiçoados pelo cotovelo mal colocado, pelo erguer da sobrancelha esquerda, pelo cruzar dos braços, ou pelo espreitar o parceiro através do erguer da pupila acima das lentes.

Uns mágicos capazes de afirmar que o sisudo gestor do potentado está a fugir ao fisco, porque olha com placidez as unhas quando nega o facto e - porque arranha os pecadilhos com muita subtileza -, tem escondida uma fortuna nas Caimão.

 

A Gaffe decidiu experimentar este tão interessante universo e concluiu que a verdade é como Deus. Está nos detalhes.

 

Após registos vários em Excel e cálculo estatístico demoníaco, a Gaffe encontra-se apta a fornecer, através da leitura de duas expressões faciais dos rapagões, o modo como desvendar as masculinas asneiras que pretendem ocultar da nossa linha de acção correctiva.

 

I

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Partiu a jarra da dinastia Ming que nos ofereceram no aniversário e tentou colá-la com UHU, ou Super Cola 3; escondeu-nos o comando da televisão, porque vai ser transmitido o jogo Benfica-Sporting e sabe que escolhemos sempre a Paula Moura Pinheiro e as séries escandinavas do canal 2; usou todo o nosso creme depilatório nas axilas e deixou-o sem tampinha, tombado ao fundo do armário com o bocadinho que sobrou a manchar a superfície, e espera que acreditemos que foi lapso nosso colocá-lo ali sem estar fechado, ou esbardalhou a cerveja no sofá e sentou ali o gato para que pensemos que a culpa é nossa por não abrimos a porta ao bicho - eu bem dizia que um gato não era boa ideia - para o bicho fazer xixi.  

 

II

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Foi descoberto.

E temos sempre razão.

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A Gaffe enigmática

rabiscado pela Gaffe, em 07.04.17

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Duas mulheres a dormir numa valeta.

 

Que horas são?

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Gavetas:

A Gaffe vencedora

rabiscado pela Gaffe, em 31.03.17

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Às vezes o nosso melhor argumento de defesa, é precisamente a forma como somos atacados.  

 

Greta Garbo - The Mysterious Lady - 1928

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A Gaffe emocional

rabiscado pela Gaffe, em 30.03.17

Peter Lippmann

 

O dia atira-se contra as paredes e faz do tempo que passa um trapo que se esquece no côncavo das horas mortas.

 

Estou cansada e penso que hoje todas as minhas emoções foram dispostas como naturezas-mortas. Alguém, externo ao meu sentir, assim as quis e assim foram entregues.

 

São emoções sem a minha alma dentro.

 

Fotografia - Peter Lippmann

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Gavetas:

A Gaffe por entre os vidros

rabiscado pela Gaffe, em 23.03.17

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Os sons da chuva entram pelo impossível laqueado das janelas.

Atravessam os vidros, as minhas pálpebras e entram no interior dos meus olhos. Sons visíveis.

Lembram flores. Flores que se abrem num espaço que dura apenas o tempo de assomo do meu espanto à janela.

 

Daqui vejo o mar. Parece um mimo. Mudo. A gesticular em modos de afogado.

Descubro que por entre as minhas janelas intransponíveis há intercepções de águas de línguas diferentes e é neste maravilhar que me emudece que pouso as minhas mãos e lavo os olhos.  

 

Fotografia - Sara Facio

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A Gaffe voadora

rabiscado pela Gaffe, em 16.03.17

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Em tempo que já lá vão, era eu menina e moça, levada de casa de meus pais, introduziu-se-me na cabeça a ideia peregrina de abandonar tudo o que tinha iniciado e planeado levar a cabo e a bom porto e me transformar em comissária de bordo.

 

Com altura suficiente para esmagar rivais prováveis, magríssima, porque o choque alimentar e o jat lag gastronómico, me tinham arrancado o apetite voraz que sempre me caracterizou, e ruiva até à mais ínfima sarda, acreditei ter hipóteses de ser seleccionada pela Emirates Airlines num processo que decorria num dos hotéis mais famosos do Porto.

 

Do alto dos meus vinte e poucos anos, entrei sozinha e segura, de calças e de caracóis soltos na sensação de futilidade do acto, que se vinha tornando a cada passo que dava na alcatifa fofa uma tolice monumental a que não era indiferente um piquinho de desafio em relação à opinião – desfavorável, como se esperava - que não se tinham cansado de me ceder sem gastos.

 

Fui seleccionada.

Não foi grande vitória. Num rio de Barbies bastava nadar até à margem e não chocar com os Kens.

 

Deveria estar presente dois dias depois, manhã cedo, no mesmo hotel, mas desta vez com o cabelo apanhado, saia travada e tacões dispostos a humilhar o Evereste.  Esta pose estereotipada que assumi com prazer, prova que muitas vezes a submissão ao imaginário provavelmente machista não significa um abdicar da dignidade feminina, desde que cumpra os objectivos a que uma mulher se propõe.

                                                                                                         

A noção de vanidade e de vacuidade da minha candidatura foi crescendo ao lado da minha vontade de vencer o que se tinha tornado apenas um desafio sem consequências práticas.

 

Na manhã aprazada, a minha irmã aceitou adereçar-me. Condescendente, elaborou o uniforme, cumprindo as exigências descritas, e prendeu no meu pescoço o colar que me permitiria comprar o avião.   

 

- Usa-o - refilou, quando protestei. - Tens de os convencer que ser … aquilo é a tua verdadeira vocação e não um emprego mal pago que te permite andar de cabeça no ar.

 

Muito Grace Kelly, anui à vontade da minha irmã.

Seria transportada por ela que não queria perder uma pitada da minha provável humilhação.

 

Lembro-me que o trânsito - naquela manhã como em todas as outras -, nos obrigou a sair com uma antecedência significativa, que foi perdendo vantagem à medida que nos aproximávamos do destino que nos fez parar à porta do hotel sem qualquer respeito pelo fado.

Foi nesse instantinho que acordaram em mim a pirosa, a ranhosa, a pateta e a totó, sem que fossem travadas pela sobranceria da mana que olhava de soslaio pelo retrovisor o condutor que se tinha atrevido a buzinar e a barafustar contra o impedimento loiro e altivo que se tinha assestado no caminho e que agora empunhava o rímel pronto a perfurar os olhos ao condutor irritado.

 

O casaquinho?! Levo ou não levo? Ai, que levo. Ai, deixa-mo vestir. Ai, que me fica mal. Ai, que tenho de o tirar. Ai, que não me parece bem. Ai, que levo? Ai, que não levo? Ai, que dizes? Ai, que pareço uma catequista! Ai, e se não o levasse? Ai, que pareço uma ninfomaníaca sem ele! Ai, que vou mesmo assim. Ai, tu não achas que o devia levar vestido? Ai, levá-lo no braço é suburbano!

 

- Não vás. Estás com um atraso de um minuto. Manda o casaco.

 

Mas fui.

Desatei a correr esgaivotada, de tacões a tentar escapar dos interstícios das pedras e a tropeçar depois no pelinho do soalho, de saia a apertar-me a correria, de colar a dar-a-dar e com o soutien a saltar-me pela boca.

 

Cheguei três miseráveis minutos depois da hora estabelecida e a minha fulgurante carreira de comissária de bordo terminou ali, porque - disseram eles - tinha atrasado a partida do avião.

 

Passados anos sobre esta minha leviandade aeronáutica, se não continuo a atrasar os aviões, é porque vou de barco.

 

Imagem - McClelland Barclay

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