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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe incorrecta

rabiscado pela Gaffe, em 24.04.17

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- Tu não tens absolutamente nenhuma consciência social, nem vestígios da política!

 

A bala foi disparada pela boca armada em idiota de uma versão masculina da Ana Drago, mais volumosa, mais carnal e bem mais alta.

Discutia-se com resoluto calor a decisão de se erguer de novo uma outra guerra para parar uma guerra em trânsito e insurgia-se o povo, nas reunidas mesas do pequeno-almoço, contra o domínio pardo dos Senhores da Morte, matilha de Richelieu nos reposteiros do poder.

 

Embora tenha soado a mofo, muito portas-que-Abril-abriu, muito CGTP Intersindical, muito período azul de Picasso, o chavão disparado contra a Gaffe encontrou eco nos meandros e nos corredores da sua alma.

 

A Gaffe não tem Consciência Social.

 

Trinta segundos depois do início do debate tinha já deixado de ouvir e desviado a sua atenção para os peitorais do garboso interlocutor que, na sua frente, se adivinhavam na alvura da camisa e tinha dado início a especulações de carácter muito pouco político.

 

Concede. A indiferença da Gaffe é escandalosa.    

       

Norte e Sul, Israel e Palestina, Cristão e Muçulmano, África e América Latina, Putin e Trump, Le Pen e Macron, Ghandi e os Impérios, hemisférios tortos, subvertidos climas, extinções previstas, catástrofes erguidas no terror da cinza, furacões e ondas de miséria abjecta, canhões e cogumelos venenosos, sarampo e malária, Amazónia em ferida, favelas e cabanas transalpinas e mesmo as mais perigosas das antenas de telemóveis ou de senhores de fato, são coisas de somenos para ela. Não pensa nelas. Não lhe dilaceram o dormir.

 

Culpada! Refugo da humanidade em chaga! Pária! Escória!

 

Humilde e indiferente insecto renegado, oriental bichinho, apanha o lixo breve que à sua entrada tomba, limpa o umbral da sua dócil porta e vagarosamente cuida das roseiras.

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A Gaffe bimba

rabiscado pela Gaffe, em 19.04.17

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Admito que não sou uma fada do lar. Não tenho mãos da dita e jamais serei capaz de organizar uma despensa ou elaborar mapas Excel de contas poupança, ou com listas de compras em supermercados apinhados onde se atropelam carrinhos guiados por senhoras irritadas, cansadas de beliscar a fruta.

 

Entrego parte do meu reino por uma chegada a casa imaculada, com mesa posta e roupa lavada, mesmo correndo o risco – agradável e muito conveniente – de não ser considerada um bom partido pelos cavalheiros que pensam que a imagem idílica do doce lar contém uma doida esgrouviada capaz de se multiplicar obedecendo à tradicional aliança mãe-esposa-amante-dona-de-casa-empregada e mais que não se diz por ser verdade.

 

Nunca compreendi as mulheres que dedicam uma parte substancial do seu tempo à cozinha, não nutrindo por ela uma paixão arrasadora. Gostava, mas não consigo entender as criaturas que não ligando uma pevide à culinária - e mesmo depois da brutalidade do quotidiano -, se misturam com a cozinha que sabem que as vai esturricando, envelhecendo e desolando, apenas porque é assim a vida, apenas porque não admitem que, apesar do amor que dedicam à confecção do frango na púcara, chegam exaustas à mesa onde servem a iguaria ao senhor do feudo que entretanto foi comprar cigarros, ou aos meninos que passaram a tarde a jogar Playstation. Provavelmente têm a alegria de fotografar as diversas fases do cozinhado e pespegar com os fascículos no Instagram, elogiando no twitter o marido que descascou as batatitas.

 

Não compreendo as mulheres que trazem apenso um fogão, nem fogões que trazem mulheres apensas.

 

Talvez seja porque detesto cozinhar.

Erros meus, má fortuna, amor ardente por outras coisas que me rasgam o avental. 

 

Por isso comprei uma Bimby.

O rapagão merece...

 

A maquineta é um fenómeno!

  

Como não represento a empresa alemã e como evito aprender o que quer que seja relacionado com tachos e panelas, não sei exactamente o que a máquina não faz, mas fixei um pormenor que me deixou siderada. O monstro divinal tem ligação à internet, capta as receitas que escolhermos no site, envia uma lista com os ingredientes para o telemóvel e permite uma programação semanal das refeições, indicando em cada dia que passa os ingredientes que temos de ter à nossa disposição para os catapultar para dentro do milagre.

 

Só lamento que o rapagão tenha ficado um bocadito desiludido por não ter de voltar a passar horas a fio a elaborar pratos extraordinários que fazem corar de vergonha as avozinhas - dele e do Capuchinho - e esta rapariga desleixada.

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A Gaffe depois da Páscoa

rabiscado pela Gaffe, em 18.04.17

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Ao fundo da alameda de mimosas fecharam-se os portões.

 

A manhã declina o encadear das sombras. Inclina-se devagar sobre a água do lago e num tocar escurecido trepa aos olhos do anjo de pedra. Venda-lhe os sussurros das árvores que oscilam pesando as horas ternas da indiferença do vento.

O azul da luz esgueira-se por entre as sebes como um lagarto que tem frio e um pássaro treme, como o peixe vermelho assustado pelo toque da minha mão na água.

Há sardinheiras a abrir. Novelos de hortênsias no anil de uma promessa e a relva cresce lenta como um gesto que se faz inútil por estar sozinho.

 

Se avançar, piso as pétalas que espalharam nas pedras para que o som das campainhas se misture com o perfume enjoativo que libertam esmagadas. Um corredor de pétalas com as geometrias traçadas por moldes de madeira. Um corredor de pétalas pisadas que não foi limpo, porque o Dia Santo é dia de descanso e há tempo nesta manhã em que se fecham os portões ao fundo da alameda de mimosas para cuidar dos restos da tarde da véspera.

 

Fecharam-se os portões.

 

O som das campainhas ecoa na copa das árvores. É esmagado pelo perfume da luz que se inclina para decifrar a cor das sardinheiras.

Ao longe, as tílias sacodem a poeira deixada pelo adejar das opas brancas e um teixo ergue-se para o céu como um crucifixo.

 

A manhã devolve-lhes o silêncio depois do Dia Santo.

 

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A Gaffe não se esquece

rabiscado pela Gaffe, em 15.04.17

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A Gaffe num affaire

rabiscado pela Gaffe, em 13.04.17

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De joelho no chão, na minha frente, o rapagão tenta apertar o cordão do seu sapatinho de camurça castanha, enquanto, de cabeça erguida, me relata os pequeninos bibelots do dia de ontem.

 

Subitamente, o rapaz da manutenção abre a porta onde me tentava apoiar e entra distraído a cumprimentar as pernas à nova estagiária.

 

Para evitar maior confronto, maior choque ou grave atropelamento, vai de peito aberto de encontro às minhas costas. Com o impacto dou um passo em frente e sinto a cara do rapaz, já de cordão enlaçado, enfiada nas minhas pernas a balbuciar desculpas.

 

Embora prefira a expressão affaire à trois, tenho que admitir que para a surpresa de um ménage, o acaso é sempre o quarto convidado.  

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A Gaffe intérprete

rabiscado pela Gaffe, em 12.04.17

A Gaffe descobriu há um tempo - tem andado sem ele - que existem cavalheiros pagos regiamente que afirmam dominar a leitura da linguagem corporal das gentes que vão observando, sendo capazes em consequência de interpretar o que realmente as vítimas incautas querem dizer ou fazer. São peritos na ciência dos maneirismos e tiques de todos os que tentam esquivar-se do escrutínio das massas, manipulando o que declaram, esquecendo que são atraiçoados pelo cotovelo mal colocado, pelo erguer da sobrancelha esquerda, pelo cruzar dos braços, ou pelo espreitar o parceiro através do erguer da pupila acima das lentes.

Uns mágicos capazes de afirmar que o sisudo gestor do potentado está a fugir ao fisco, porque olha com placidez as unhas quando nega o facto e - porque arranha os pecadilhos com muita subtileza -, tem escondida uma fortuna nas Caimão.

 

A Gaffe decidiu experimentar este tão interessante universo e concluiu que a verdade é como Deus. Está nos detalhes.

 

Após registos vários em Excel e cálculo estatístico demoníaco, a Gaffe encontra-se apta a fornecer, através da leitura de duas expressões faciais dos rapagões, o modo como desvendar as masculinas asneiras que pretendem ocultar da nossa linha de acção correctiva.

 

I

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Partiu a jarra da dinastia Ming que nos ofereceram no aniversário e tentou colá-la com UHU, ou Super Cola 3; escondeu-nos o comando da televisão, porque vai ser transmitido o jogo Benfica-Sporting e sabe que escolhemos sempre a Paula Moura Pinheiro e as séries escandinavas do canal 2; usou todo o nosso creme depilatório nas axilas e deixou-o sem tampinha, tombado ao fundo do armário com o bocadinho que sobrou a manchar a superfície, e espera que acreditemos que foi lapso nosso colocá-lo ali sem estar fechado, ou esbardalhou a cerveja no sofá e sentou ali o gato para que pensemos que a culpa é nossa por não abrimos a porta ao bicho - eu bem dizia que um gato não era boa ideia - para o bicho fazer xixi.  

 

II

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Foi descoberto.

E temos sempre razão.

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A Gaffe enigmática

rabiscado pela Gaffe, em 07.04.17

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Duas mulheres a dormir numa valeta.

 

Que horas são?

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A Gaffe vencedora

rabiscado pela Gaffe, em 31.03.17

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Às vezes o nosso melhor argumento de defesa, é precisamente a forma como somos atacados.  

 

Greta Garbo - The Mysterious Lady - 1928

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A Gaffe emocional

rabiscado pela Gaffe, em 30.03.17

Peter Lippmann

 

O dia atira-se contra as paredes e faz do tempo que passa um trapo que se esquece no côncavo das horas mortas.

 

Estou cansada e penso que hoje todas as minhas emoções foram dispostas como naturezas-mortas. Alguém, externo ao meu sentir, assim as quis e assim foram entregues.

 

São emoções sem a minha alma dentro.

 

Fotografia - Peter Lippmann

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A Gaffe por entre os vidros

rabiscado pela Gaffe, em 23.03.17

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Os sons da chuva entram pelo impossível laqueado das janelas.

Atravessam os vidros, as minhas pálpebras e entram no interior dos meus olhos. Sons visíveis.

Lembram flores. Flores que se abrem num espaço que dura apenas o tempo de assomo do meu espanto à janela.

 

Daqui vejo o mar. Parece um mimo. Mudo. A gesticular em modos de afogado.

Descubro que por entre as minhas janelas intransponíveis há intercepções de águas de línguas diferentes e é neste maravilhar que me emudece que pouso as minhas mãos e lavo os olhos.  

 

Fotografia - Sara Facio

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A Gaffe voadora

rabiscado pela Gaffe, em 16.03.17

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Em tempo que já lá vão, era eu menina e moça, levada de casa de meus pais, introduziu-se-me na cabeça a ideia peregrina de abandonar tudo o que tinha iniciado e planeado levar a cabo e a bom porto e me transformar em comissária de bordo.

 

Com altura suficiente para esmagar rivais prováveis, magríssima, porque o choque alimentar e o jat lag gastronómico, me tinham arrancado o apetite voraz que sempre me caracterizou, e ruiva até à mais ínfima sarda, acreditei ter hipóteses de ser seleccionada pela Emirates Airlines num processo que decorria num dos hotéis mais famosos do Porto.

 

Do alto dos meus vinte e poucos anos, entrei sozinha e segura, de calças e de caracóis soltos na sensação de futilidade do acto, que se vinha tornando a cada passo que dava na alcatifa fofa uma tolice monumental a que não era indiferente um piquinho de desafio em relação à opinião – desfavorável, como se esperava - que não se tinham cansado de me ceder sem gastos.

 

Fui seleccionada.

Não foi grande vitória. Num rio de Barbies bastava nadar até à margem e não chocar com os Kens.

 

Deveria estar presente dois dias depois, manhã cedo, no mesmo hotel, mas desta vez com o cabelo apanhado, saia travada e tacões dispostos a humilhar o Evereste.  Esta pose estereotipada que assumi com prazer, prova que muitas vezes a submissão ao imaginário provavelmente machista não significa um abdicar da dignidade feminina, desde que cumpra os objectivos a que uma mulher se propõe.

                                                                                                         

A noção de vanidade e de vacuidade da minha candidatura foi crescendo ao lado da minha vontade de vencer o que se tinha tornado apenas um desafio sem consequências práticas.

 

Na manhã aprazada, a minha irmã aceitou adereçar-me. Condescendente, elaborou o uniforme, cumprindo as exigências descritas, e prendeu no meu pescoço o colar que me permitiria comprar o avião.   

 

- Usa-o - refilou, quando protestei. - Tens de os convencer que ser … aquilo é a tua verdadeira vocação e não um emprego mal pago que te permite andar de cabeça no ar.

 

Muito Grace Kelly, anui à vontade da minha irmã.

Seria transportada por ela que não queria perder uma pitada da minha provável humilhação.

 

Lembro-me que o trânsito - naquela manhã como em todas as outras -, nos obrigou a sair com uma antecedência significativa, que foi perdendo vantagem à medida que nos aproximávamos do destino que nos fez parar à porta do hotel sem qualquer respeito pelo fado.

Foi nesse instantinho que acordaram em mim a pirosa, a ranhosa, a pateta e a totó, sem que fossem travadas pela sobranceria da mana que olhava de soslaio pelo retrovisor o condutor que se tinha atrevido a buzinar e a barafustar contra o impedimento loiro e altivo que se tinha assestado no caminho e que agora empunhava o rímel pronto a perfurar os olhos ao condutor irritado.

 

O casaquinho?! Levo ou não levo? Ai, que levo. Ai, deixa-mo vestir. Ai, que me fica mal. Ai, que tenho de o tirar. Ai, que não me parece bem. Ai, que levo? Ai, que não levo? Ai, que dizes? Ai, que pareço uma catequista! Ai, e se não o levasse? Ai, que pareço uma ninfomaníaca sem ele! Ai, que vou mesmo assim. Ai, tu não achas que o devia levar vestido? Ai, levá-lo no braço é suburbano!

 

- Não vás. Estás com um atraso de um minuto. Manda o casaco.

 

Mas fui.

Desatei a correr esgaivotada, de tacões a tentar escapar dos interstícios das pedras e a tropeçar depois no pelinho do soalho, de saia a apertar-me a correria, de colar a dar-a-dar e com o soutien a saltar-me pela boca.

 

Cheguei três miseráveis minutos depois da hora estabelecida e a minha fulgurante carreira de comissária de bordo terminou ali, porque - disseram eles - tinha atrasado a partida do avião.

 

Passados anos sobre esta minha leviandade aeronáutica, se não continuo a atrasar os aviões, é porque vou de barco.

 

Imagem - McClelland Barclay

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A Gaffe pequeno-burguesa

rabiscado pela Gaffe, em 14.03.17

Ferrari

 O sonho de um empreiteiro:

Uma loira e um Ferrari.

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A Gaffe e um homem banal

rabiscado pela Gaffe, em 13.03.17

 

Da janela do meu gabinete, consigo ver, todas as manhãs demasiado cedo, um homem que vem à rua fumar um cigarro.

É novo e parece arrepiado. Bate com os pés no chão e esfrega os braços com as mãos bonitas. Não usa resguardo ou casaco, talvez para que dentro não se apercebam que se ausentou do serviço.

 

É banal.

 

As hastes dos óculos não são as recomendadas pelos peritos - e sobretudo pelas especialistas, que decidem que hastes devem os homens transportar em determinada época - e não controla o uso de pequenos adereços. Usa-os em excesso.

Vejo-o todas as manhãs e começo a sentir que o quero esperar àquela hora e que lhe sentiria a falta se um dia o cigarro acabasse definitivamente.

 

Às vezes penso que a banalidade é um vício.

 

Às vezes penso que é a banalidade que nos faz falta. Aquela espécie de diário corriqueiro que muitas vezes lamentamos e que nos transforma a consciência da realidade num enorme dissabor ou numa desilusão difícil de carregar.

 

Não sei se alguma vez vou conhecer o homem do cigarro. É provável que não. Sempre suspeitei que andamos constantemente a fugir das pessoas certas e o homem do cigarro matinal não preenche os requisitos que lhe permitiriam pertencer ao meu círculo de amigos. É um círculo que passa o tempo a tentar escapar às pessoas certas, acreditando que as escolhas que faz são as menos comuns.

Não sabem que as pessoas certas, são banais. Que fumam todas as manhãs, à mesma hora, fora dos intervalos do serviço; que sentem frio, porque não querem que se descubra a sua pequenina ilusão de fuga; que usam aquilo que já é fora de moda; que cantarolam para dentro qualquer coisa que ouviram algures pelo caminho e que falam da tijoleira que levantou com a chuva no mesmo tom com que referem o discurso do Trump.

 

São como o homem do cigarro friorento que é a certeza de todas as minhas manhãs, à mesma hora, demasiado cedo, e que me faz tanta falta como a banalidade que mo faz esperar.

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A Gaffe acordou assim

rabiscado pela Gaffe, em 01.03.17

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Creio que adquiri o direito de fazer o mesmo que as meninas com o cérebro feito de papa cor-de-rosa e declarar com a maior desvergonha:

 

 - Hoje acordei assim!

 

Acordei com um desejo imenso de me abrirem a porta da sumptuosidade, entrar a rastejar um Valentino, rumo ao jacto privado, logo ali na esquina, e pedir algo a um garboso, e sobretudo jovem, motorista, esperando de olhar assassino que o rapagão não me ofereça - apenas - as bolinhas rugosas e encarquilhadas, embrulhadas em papel risonho e enrugado.

 

Há diferenças substanciais em relação ao anúncio, como se percebe.

 

Na foto - Pierce-Arrow Convertible Sedan com carroçaria de LeBaron - 1931

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A Gaffe não chora em português

rabiscado pela Gaffe, em 20.02.17

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Por amor chora-se demais.

 

Pertence à mulher a maior parte das lágrimas. O homem transcende o mito, manifestando, ao contrário do dito, a sua virilidade quando se afasta da censura que o mantém longe das lágrimas e causa o espanto cantado por Piaf - ... Mais vous pleurez, Milord?! ça je l'aurais jamais cru!

 

É abertamente permitido ao feminino o choro de amor e chora-se sempre pela partida e pela ausência - a traição, o ciúme, a não reciprocidade ou outras razões que quisermos aliar ao choro desta natureza, são sempre metamorfoses do abandono. A mulher, sobretudo a portuguesa, foi sempre a sedentária que ouviu dizer às velhas da praia que ele não voltava. O mar, a guerra e a emigração - que é, em última análise e forçando a metáfora, uma mistura dos dois - sempre forneceu versos ao Fado, que é maioritariamente uma história de abandono de uma mulher que chora a partida ou a ausência do homem que ama - tornando-se por isso o reverso do Tango, em que é sempre o homem a lamentar a perda da mulher amada.

 

Choramos copiosamente, desfazemo-nos em lágrimas, rompemos em lágrimas, chegam-nos a lágrimas aos olhos, choramos todas as lágrimas do corpo, soltamos um fio de lágrimas, ficamos de olhos marejados. Choramos de formas diferentes para públicos diferentes. O choro é também um enviesamento que vai submeter o outro à sua própria sensibilidade, solidariedade ou indiferença. Todas as lágrimas são mais do que palavras, mas acabam por salgar uma exposição quase chantagista impressa no vê o que me fizeram! Vê o que fizeram de mim! Chorar exige destinatário.

 

O choro solitário, o chorar para nós, por amor, torna-nos de forma subtil espectadores do nosso sofrimento. Choramos então porque acreditamos – ou para acreditar - que as dores que sentimos não são ilusórias. Oferecemo-nos um interlocutor de excelência e provamos através do corpo que ultrapassamos a palavra que traduz a possível fantasia. Cumprimos as ordens do corpo apaixonado e permitimo-nos chorar. Em nenhuma língua somos capazes de exprimir o que uma lágrima traduz. Se não somos capazes de o dizer, entregamos a voz ao que está para além da linguagem.      

 

Se uma imagem vale mais que mil palavras, a lágrima é a imagem de todas as palavras que quisermos.  

É só fazer as contas.

 

Foto - Henri Cartier-Bresson

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