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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de Monet

rabiscado pela Gaffe, em 23.11.17

F. Vicente

Li, há tempos que já lá vão, um Tratado do Riso.

 

Um livrinho que não me despertou especial interesse e que não deixou rasto do autor. Não era com certeza um dos clássicos que sobre o riso deixam tombar a negritude pesada das suas reflexões, porque recordo que o considerei passível de ser lido enquanto se espera pelo avião.

Apesar do facto, a obra não deixava de ser curiosa, enumerando com algum afinco, segundo o autor, as razões que originam o riso, apontando - entre tantas e muitas -, o engano, a desconformidade, a deformidade, a dissonância, a desarticulação do real, o equívoco, as ocorrências que se deslocam da norma a que obedecemos e as situações que embora dissemelhantes são assimiladas como idênticas e lidas como consequentes, ocasionando o mal-entendido.

 

Admito que nunca me aproximei das razões que originam o riso. Prefiro vivê-lo sem razão. No entanto, a fantástica rapariga aqui ao lado espicaçou-me a curiosidade, provocando o meu encontro com a maldade que é sempre susceptível de provocar o riso.

 

Rimo-nos sobretudo do mal. Invariavelmente. Do mal feito, do mal acabado, do mal compreendido, do mal formado, do mal comportado, do mal educado, do mal elaborado, do mal explicado, do mal controlado, do mal conduzido e de todos os males que a vida produz. Rimo-nos de nós, que estamos errados. Suponho que o riso funciona em todos estes casos como escudo protector e mesmo o reconhecimento - risível, ele também - do erro, seja ele qual for, é capaz de nos couraçar de gargalhadas, evitando um provável colapso.

Rimo-nos, porque procuramos incessantemente o equilíbrio, a estabilidade, a normalidade, a transversalidade e a certeza de que estamos integrados num sistema coeso que rege uma panóplia de roldanas que fazem mover o quotidiano seguro, perceptível e inteligível. É ameaçadora a eventualidade que abala, afronta ou desconexa a nossa leitura comum do real e, talvez por isso, uma gargalhada se transforme tantas vezes num murro.

Perante a desordem, que deixa o não racional abalar as conexões que temos com o real normalizado, atamos o riso às margens do lógico e esperamos estar seguros do outro lado do que sentimos errado.

 

Quando a minha prima, pela Avenida Brasil - numa das suas raríssimas incursões pelo pensamento, travava comigo uma pequeniníssima batalha no campo de guerra dos Impressionistas atacando com o pincel do rímel todo o sol levante -, tropeçou numa beata de cigarro - uma rapariga de boas famílias comporta-se como a princesa ervilha, de quem, aliás, é descendente directa - saiu disparada no meio de um das meus eloquentes argumentos a favor de Monet - que ficaram, Monet e argumento, parvos e suspensos, na ausência repentina de interlocutora -, projectando com uma velocidade estonteante um dos Manolo Blahnik que atingiu um olho do Homem do Leme; provando à plateia que tinha um gosto irrepreensível na escolha das cuecas; entregando ao espectador a certeza de que era merecedora da medalha de ouro em voo em comprimento e demonstrando, para além de tudo, ser possuidora de um talento imenso como imitadora de gaivotas esgrouviadas, confesso que só depois de a ver aterrar alguns metros depois e já com a carteira nos dentes e colar enrolado nas orelhas, consegui controlar o riso, travando a quase asfixia que me vinha assolando deste o exacto instante da descolagem da pobre esbardalhada.

 

Seja como for, e pese embora toda esta inútil teoria, depois de se erguer, a rapariga fez como o sol em Monet. Levantou-se e brilhou.

O riso uniu os opostos. 

 

Ilustração - Fernando Vicente

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A Gaffe de pisca-pisca

rabiscado pela Gaffe, em 21.11.17

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 A Gaffe, em viagem, não se importa de ser parada pela polícia.

 

É evidente que há pormenores que a preocupam nestas ocasiões.

Receia que lhe perguntem pela caixa negra, porque sabe que o modelo que guia é de bom gosto, não possuindo apetrechos que violam a privacidade de pessoas de berço. Para além disso, garantiram-lhe que o paralelepípedo colocado ao lado de imenso fios, era a bateria, o que muito a desiludiu. Supera este embaraço, assumindo uma pose de quem está quase a desmaiar de nojo por ter sido incomodada. Resulta, se fixarmos um ponto na nossa frente - convém que seja imóvel, pois de contrário andamos de cá para lá com as órbitas tornando tudo bastante suspeito -, baixarmos os cantos da boca, como D. Clemente a avisar que não quer forrobodó nos seminários, e entregarmos a papelada com a ponta dos dedos, tendo o cuidado de não fornecermos as cópias que usamos para apanhar o cocó do caniche dos comentários anónimos nos blogs.

 

Tomadas estas precauções, a Gaffe fica deliciada quando um matulão alto e espadaúdo, com um rabo apertado numas calças que devem ser milagre, ou que o fazem pela certa, a aborda e lhe pede a papelada.

 

Apesar disso, da última vez que tal ocorreu, não correu bem.

 

A Gaffe viajava com a prima, uma sósia de Rita Hayworth e a quem se exige a compostura que não teve. A Gaffe de soslaio, para não se afastar muito do ponto que fixava, ficou mesmo assim quase cega pelo brilho dos olhos esbugalhados da mulher que chispavam de cobiça e suspeitou que a baba que começava a escorrer doa boca aberta da prima, não era consequência de AVC, porque a mulher continuava sem nada torto - a maldita!

 

Compreendeu quando seguiu - uma vez não conta -, a direcção do olhar da petrificada cintilante e quase espetou os Valentino que protegiam o seu mavioso olhar, na piloca do polícia - que se tinha erguido - o polícia, não a piloca, embora connosco haja razões de sobra para elevações diversas -, para separar o que lhe interessava do resto dos tickets das compras -, ali na frente, toda desenhadinha no tecido das calças.

Um milagre, uma aparição, nunca é exagero repetir. A Gaffe não entende como D. Clemente não ergue uns santuários pela estrada fora. Uma falta de empreendedorismo muito pouco católica.      

 

Este enorme percalço - sublinha-se enorme, para encorpar o tecido do texto -, não invalida o gosto que a Gaffe tem quando é mandada parar por agentes muito pouco informados que cometem deslizes engraçadíssimos que resultam, como é evidente, do desconhecimento da mecânica de uma mulher, e que apenas encontra equivalente na ignorância dos homens das garagens.

 

- A menina precisa de mudar os calços.

Como se os nossos sapatos tivessem mais de duas semanas.

- A menina qualquer dia fica sem travões!

Como se alguma vez os tivéssemos.

- A menina tem de mudar o óleo.

Como se não usássemos o da Cartier. Que tontos! Tão cómicos!

 

- A menina tem de ir à revisão.

Enfim. Há também casos de assédio.

 

O que a Gaffe não entende são os sinais de luzes que avisam os condutores da presença esconsa da polícia nas esquinas da multa.

 

Vai uma pessoa apressada a enviar SMS ao senhor que segue no carro ao lado e que tem a amabilidade de lhe oferecer umas amostras irrisórias do imenso que traz na mala da viatura, e é encadeada pelo pisca-pisca dos faróis do irresponsável que surge na frente e que não entende que pode provocar um acidente quando o cavalheiro das amostras guina de súbito para inverter direcções.

 

Vai uma pessoa interessadíssima por suspeitar que, no camião que segue, segue um psicopata assassino com a arma disfarçada de tubo de escape e meia dúzia de porcos a estrumar as bermas espargindo cocó, e surge um pisca-pisca de luzes a obrigar o condutor a manobras doidas que podem perfeitamente fazer disparar os porcos, atingindo-nos com presuntos - toda a gente sabe que os danos que estas situações causam nos nervos dos bichos equivalem aos que ocorrem nos fumeiros.  

 

Vai uma criatura de Moët & Chandon à tiracolo e com uns binóculos invertidos cravados nos olhos, à espera de encontrar D. Sebastião por entre o nevoeiro e os vapores que entretanto se ergueram das garrafas e do hálito, e aparece um pisca-pisca pela frente a destroçar esta valorosa demanda histórica.

 

Vai uma pessoa de berço a catrapiscar a novíssima obra da Bobone, presa no volante - o livro, a Bobone só emperra na embraiagem -, e apanha com os mínimos do carro da frente a dar-a-dar. Uma afronta, pois que com a Bobone apenas os máximos são justificados.

 

Vai alguém em paz e sossego com um carrito emprestado a prazo indefinido que coadjuvou um levantamento um bocadinho explosivo no multibanco da aldeia, e é encadeado pelo pisca-pisca alheio que não tem consciência que vai perturbar os sonhos dourados do que agora é obrigado a retroceder, encetando a rota por trilhos menos nobres.    

 

Este vício português - trafulha e patifezinho - de accionar o prevenido pisca-pisca dos faróis quando a polícia está na curva a seguir, sugerindo aos anormais que surgem pela frente a fuga discreta, caso estejam a exercer os seus talentos psicopatas conduzindo anomalias - a Gaffe suspeita que não faz sentido sugerir a fuga a carros dentro das normas estipuladas e a condutores sérios -, leva esta rapariga a congratular-se com a desgraça da amiga que, depois de se ter esbardalhado numa canseira imensa a fazer sinais de luzes ao condutor do camião das mudanças que com ela se cruzou, avisando-o que tinha a polícia logo ali à frente, chegou a casa e percebeu que os seus electrodomésticos tinham deixado de existir. Os arredores inquiridos declararam que não tinham estranhado coisa alguma e que não desconfiaram de nada quando viram uns simpáticos senhores a enfiar uma televisão e um frigorífico num camião de mudanças. Só ficaram chorosos ao perceber que iriam perder uma tão amorosa e tão prestável vizinha.   

    

A Gaffe - pelo sim, pelo não -, mal vê piscar uma luz passa a usar óculos escuros. Disfarçam imenso e impedem que as pessoas maliciosas se apercebam que esta rapariga fica sempre muito atenta ao que a autoridade lhe revela.

O único problema é a baba que teima em tombar, embaraçando-lhe a pose, embora se possa sempre justificar o percalço deslizante com a ocorrência de um AVC provocado pela visão apocalíptica de um ameaçador casse-tête.  

 

Na foto - a prima da Gaffe apanhada na situação referida

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Gavetas:

A Gaffe sorridente

rabiscado pela Gaffe, em 20.11.17

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Às vezes, um sorriso é um terminal de frases que não se dizem porque começam e acabam dentro dele.

 

A minha irmã sorri, dissolvendo o incómodo de não se ouvir um som no cumprimento. Depois tudo se torna mais fácil. Como parece atenta, ninguém consegue perceber de imediato que ela não está a ouvir. Confunde-se então mudez com silenciosa disponibilidade, com compreensiva cumplicidade, com atenção fraterna, e desdobram-se mapas de conversas, extensas pradarias de palavras, desérticas confidências e chuvosas lamúrias, até que o sorriso se torne suspeito ou até que o enfado chegue num sussurro e a minha irmã desvende o segredo de tamanha atenção. A indiferença.

A surpresa é evidente e tem a função de a libertar no momento certo dos que a incomodam. Diverte-a este jogo.

 

O meu modo de sorrir é diferente. Alastra pela casa fora até tocar o espaço das suspensas beladonas encerradas que continuam a verter o aroma sobre mim. Nada é tão frágil, tão mortal. O desaparecer do meu sorrir, a sua morte, é para os outros um leve pousar de névoa, um ténue entardecer de tule, como se o retirassem em braços, ou em penas, de dentro de casa e o levassem para longe dos jardins suspensos. Volta para olhar para as beladonas.

 

No intervalo de tempo sem sorrisos nunca há um texto.

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A Gaffe lunar

rabiscado pela Gaffe, em 08.11.17

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Não falo dela. O que disser vai roçagar a banalidade.

No entanto, há outras noites entrou nua no meu quarto, como de pés descalços. Não me afagou o cabelo, não me contou histórias de ninar, não me sussurrou cantilenas, não me embalou em murmúrios. Sentou-se à minha cabeceira a ignorar-me.

 

A única luz que se deixa olhar sem confidências, a não ser a da geometria dos objectos. A luz maior do que as feridas das janelas. A luz que permite os gritos do estilhaçar de um vidro, se ousarmos a ilusão de lhe poder tocar a pele opalina com os dedos. A luz límpida que jorra e escorre nos dedos do anjo do lago e que torna nítidos os círculos na água quando a boca da carpa tenta morder a superfície onde a prata se dilui, se liquefaz. A luz que amansa a copa das árvores como o vento sul nas velas que se fecham, que adelgaça e guarda o corpo dos teixos como bainha de espadas. A luz que vem medonha da lua grande, cheia, à minha frente, e que no encantatório soar do seu silêncio me entrega a lucidez, tornando o encanto a minha mais lúcida consciência da paisagem.

 

A encantatória lucidez da lua no meu quarto, como dois pés descalços.

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Gavetas:

A Gaffe apoquentada

rabiscado pela Gaffe, em 07.11.17

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 A Gaffe acordou preocupada. Não costuma. Tenta sempre evitar as duas coisas.

 

Beberrica o seu chá matinal e mordisca uma pepita de croissant num spleen estudado que condiz com o seu roupão azul petróleo com laivos melancólicos de opalinas flores campestres, discretos e elegantes, pois que escolheu a peça em nipónicas paragens onde a elegância e a discrição são regra de viver e de morrer.

Sacode a cabeleira ruiva e aflora à janela em pose de diva aborrecida. Faz pairar o perfume sobre a terra e regressa a poltrona de veludo carmim onde o Proust da véspera folheada à toa, adormecera.

 

A Gaffe preocupa-se.

 

Tem tido recentes indisposições, pequenos achaques, brevíssimos incómodos e até mesmo opiniões!

Na manhã do dia anterior encontrou suspenso na página setenta e quatro, pousado na almofada que outrora fora destino do colar de pérolas despido com pressa, O Conceito de Ironia constantemente Referido a Sócrates, de Kierkegaard. À tarde, vislumbrou Sobre o Assunto Pensamento, de Heidegger, a espreitar-lhe os movimentos e após frugal jantar, onde debicou uma sopa fria de tomate sous vide com óleo de manjericão, deu conta do padre António Vieira a boiar na refeição.

 

A Gaffe preocupa-se, como será de prever.

 

Pensa para espairecer, participar numa caminhada, numa corrida, numa semi-maratona, numa coisa assim suada, onde as pessoas colam umas fitas na testa e uns lacinhos nas lapelas todas solidárias e calçam uns objectos inenarráveis de coloridos, mas assumiu que não corria nem atrás de um autocarro, mesmo se soubesse o que é e para que serve exactamente um autocarro.

Pensou manter-se inabalável e hirta na recusa, que sempre foi seu apanágio, do capitalismo selvagem, mas não lhe apetece muito parecer a Joana Amaral Dias que já só consegue mexer os coágulos de rímel durante as suas intervenções na TVI.

Equacionou a prática de um desporto. Salto à vara, salto em comprimento, corrida de barreiras, estafetas, ou até mesmo boxe ou ping-pong, mas irrita-se sempre nestes eventos porque ao seu lado está invariavelmente sentado um hooligan e a Gaffe não está disponível para suportar a mancha que é ter de trocar agora assobios com Manuel Maria Carrilho. Depois, e para além disso, não entende porque se permite a Nélson Évora usar, quando salta para a areia, um varão no meio das pernas, quando a modalidade que o rapaz pratica não o exige.

Pensou apoiar um dos candidatos à liderança do PSD, porque sempre a fascinaram os fenómenos de ressurreição dos mortos, muito em voga no tempo de Lázaro - que como se sabe, nunca mais se livrou do cheiro -, e pese embora apoiar a criogenia como procedimento estético para evitar as rugas, entende que neste caso se trata infelizmente de taxidermia e a Gaffe passou a ter imenso medo de animais empalhados desde que se cruzou com Betty Grafstein.

 

Esgotadas as hipóteses mais óbvias, a Gaffe começa a ficar extenuada de tanto exercício mental.

 

Não quer de modo algum passear pelas suas Avenidas sem o allure de menina parva, fútil, ligeiramente depravada e perversa - embora nestes casos considere haver lugar para imensa flexibilidade -, tonta, superficial, oca, pateta, egoísta, estúpida, irresponsável e sem uma gota de solidário compromisso cívico e social.

 

A Gaffe sempre soube que os diamantes parecem brilhar mais pousados sobre um pobre pano preto, do que encastrados num aro de platina, assim como é bem mais fácil a uma mulher roubar o que deseja se for vestida por um luminoso Dior durante o assalto, fazendo acreditar que é uma imbecil que traz o cérebro tapado por um frágil pano preto.

 

A Gaffe decide por fim usar uma capeline

Foto de Erwin Blumenfield, 1949

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Gavetas:

A Gaffe das nails

rabiscado pela Gaffe, em 02.11.17

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A Gaffe observa com pasmo dantesco a menina da recepção que toca as teclas do seu PC com a polpa dos dedinhos encimados por uma espécie de floretes esmaltados.


A Gaffe fica fascinada com a perícia com que os dedos erguidos apontando o céu conseguem tocar as vítimas, enquanto as unhas, as nails, o gel, vão riscando o monitor em arrepio de giz.

Ao lado, uma loira ripada e explosiva, atira os dedos e faz deslizar outros punhais de gel no telemóvel, arriscando lancetar a jugular da companheira com um mover das armas mais violento.

A Gaffe fica encantada, enquanto se introduz nas suas envergonhadas e tímidas unhas por prolongar até à curvatura do espaço, a suspeita da maldição que as donas das nails carregam pelas suas vidas íntimas envernizadas em todas as suas extensões e prolongamentos.

 

É evidente que estas duas mulheres não sentem, por exemplo, a fricção que é, postas perante um rapagão perito em física atómica - e demasiado atraente para que o ouçamos narrar as aventuras dos electrões, dos iões, dos protões e dos positrões, despido pela nosso imaginário mais maroto que deseja apenas que lhe acelerem as partículas -, pousar o nosso dedinho indicador nos lábios carnudos do potentado intelectual e fazer com que os nosso olhos deslizem pelo deslize que vamos desenhando, impedindo-o de continuar a perder tempo.

Com certeza que, no caso em que o gesto é protagonizado pelas duas portadoras de nails, o pobre rapaz acaba com um olho vazado, ou pronto a ser embalsamado à boa maneira egípcia que arrancava o cérebro pelas narinas.

Por razões similares, as coleccionadoras de nails arriscam ser excisadas durante os seus devaneios e solilóquios, transformando ocasiões propícias a alegrias várias - relembremos que saber estar só revela saúde mental - em trágicas subtracções de capacidades autonómicas. Torna-se também evidente que quando a alegria é partilhada, o lamentável parceiro de folguedos tem grandes hipóteses de ficar sem as bolinhas, mesmo que sejam de Berlim e fáceis de azedar, reconhecendo-se também que a piloca corre grandes riscos de ser aberta a todo o comprimento como uma sardinha sanjoanina ou como uma salsicha de feira popular - de preferência alemã.

 

A Gaffe não vai por decência - atributo que muito a caracteriza - reportar-se às idas ao WC destas portadoras de armas brancas, sobretudo porque acredita que as criaturas não usam as sanitas. São provavelmente como Beth II, que a Gaffe em criança acreditava piamente não ter intestinos - por razões que excedem o âmbito deste pequeno rabisco. Em consequência, os resíduos alojam-se no cérebro.

 

Posto assim, há que admitir que existem algumas das mais importantes intimidades gravemente abaladas pelo uso de nails cuja única vantagem é apenas a possibilidade de se usarem como chaves de fendas, pese embora o problema referido atrás.

 

Antes de colar nos dedos os parolos punhais da mais rafeira das escolhas estéticas, pensem, minhas queridas, que cravar as unhas naquele físico atómico lindo de se morrer repleta de descargas - sendo bem-vindo tudo o for que se dispare - não implica um entendimento literal da acção enunciada. Basta, meus, amores, um dedinho nosso, de garras recolhidas, a contornar os lábios com silêncios.    

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A Gaffe sem medo

rabiscado pela Gaffe, em 31.10.17

Halloween

 

A Gaffe admite que não tem medo de zombies, espectros, possessos e quejandos.

São criaturas sem berço nem campa. Aparecem sem prevenir, a horas a que uma rapariga de boas famílias já não recebe e sempre de mãos a abanar.

Surgem do nada, esquálidos e sem corrector de olheiras, como se tivessem estado pasmadas a ver o telejornal na RTP1, liderado pelo melhor escritor português que, com a objectividade que o caracteriza, vai enfatizando palavras através de entoações manhosas e de manobras manuais, manipulando de olhos esbugalhados pequenas coisitas que adquirem assim a importância que nunca tiveram. Usam unhas de gel, mas esquecem que esse tipo de erro só pode ser cometido por Iphones com raparigas apensas, por psicopatas assassinas, pelo Freddy Krueger, por senhoras que gostam de se excisar - várias vezes -, durante as suas mais reservadas actividades lúdicas, por moçoilas cuja higiene diária é robotizada e o papel higiénico é autónomo como a Catalunha e jamais por gente morta que anda na lavoura, pois que a terra fica presa ao verniz e provoca muitos espigões.

Vestem-se com Viviene Westwood dos anos setenta, depois de um desfile que correu mal e com uma taxa de alcoolemia que as faz passar por anémicas.

São criaturas sem princípios, maçadoras, que leram pouco - convém levar para a cama apenas gente que acabou um livro e que inicia outro -, sem dom de palavra e mal sintonizada, porque urram e rosnam imenso - como a Rádio Renascença.

 

O melhor que podemos fazer é ignorar ou fazer de conta que não estamos.

 

A Gaffe confessa que tinha medo, isso sim, de criaturas que lhe tentavam agarrar os pés de porcelana e lamber as unhas imaculadas, procurando arrastar esta angelical rapariga para o submundo da cuesia e prosa puética, com manigâncias que causavam algum desconforto e com récitas murmuradas entre dentes. Eram coisas balofas e brancas, pequenas, redondinhas, gelatinosas, anafaditas, papudas e celulíticas. Rastejavam sorrisos e amabilidades verdes e ranhosas; cantavam em surdina lengalengas amorosas; despejavam água de rosas nas línguas - tinham várias - para disfarçar enjoativamente os odores do que cuspiam de repente; levantavam bandeiras de bondade, de solidariedade, de comunhão com o planeta e de transcendente despojar daquilo que é vil, abjecto e sem florinhas, mas que salivavam, se contrariadas, o nojo e abjecção do mais mesquinho dos preconceitos, culpabilizavando - vítimas dos céus e dos infernos que conspiravam sempre contra elas -, miríades de estrelas impossíveis de tocar.

 

Eram criaturas que assustavam a Gaffe, até que esta rapariga se apercebeu que bastava colocar um dos seus diáfanos lenços Hermès sobre os mimosos pés. Por muito que tentem, não lhe conseguem chegar.

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A Gaffe sentencia

rabiscado pela Gaffe, em 25.10.17

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O preconceito, sendo a mais básica forma de raciocínio, tem, não raro, como afluentes foleiros, aforismos, tantas vezes ditados populares, frases feitas e expressões várias que trazem dentro a maleita mais ou menos disfarçada.

 

Embora do preconceito sofrido pelo feminino reze a história - sobretudo a bíblica - não é agradável, nem muito esperto, desfraldar revoltas, rasgar vestes ou criar plataformas digitais - onde no primeiro intervalo da indignação se vendem cosméticos e se apela ao consumo de valor acrescentado. É francamente tonto reagir queimando em praça pública - ou seja, no facebook - o infractor que revela ao mundo a sua imbecilidade. Há preconceitos que são uns queridos e apoiam a mulher como nunca a falta deles o fez. Basta que os saibamos manipular e usar conforme as nossas conveniências.

 

A Gaffe, por exemplo, está habituadíssima a ser, como ruiva que é, classificada como predadora sexual, exigente e insaciável. Um mimo que se reporta ao conluio com Satanás, pacto assinado durante os picos da Idade Média e que actualmente tem uma variante - a assanhada.

É evidente que não é simpático ter a maçada de sabermos que a nossa cabeleira ruiva tem conotações sexuais, mas, por outro lado, o preconceito que a despenteia é ao mesmo tempo um repelente de pilas pindéricas. Nenhum homenzinho se atreve a assediar uma ruiva. Sabe que sai da liça completamente esfarrapado, humilhado, com o enxoval em pantanas e a chamar pela mãe. Neste caso, o preconceito é útil e acaba mesmo por nos assegurar uns valentes machos alpha que, desde que se mantenham calados, passam incólumes.

 

Convém não esquecer que o preconceito é na esmagadora maioria das vezes manipulável.

 

Uma rapariga esperta sabe que sendo o preconceito um raciocínio esmagado, espalmado e plano, tem sempre um vértice, uma pontinha, um biquinho, uma arestazinha, capaz de nos entregar a possibilidade de infringir ao detentor do dito uns cortes parecidos com os do papel. Raras são as situações que cortam tanto um menino como aquelas em que o ouvimos declarar, por exemplo, que a cozinha é o lugar das mulheres, ou que a mulher quer-se como a sardinha – este é francamente uma porcaria! Imaginamo-lo de imediato - com alguma comiseração, é certo -, a cuspir os dentes num prato vazio e a tentar mastigar os que vão caindo, com uma espinha enfiada no rabo, só para mostrar que é capaz de grande ousadias e de brutas aventuras todas masculinas. Apetece imenso pedir ao petiz que vá num instantinho à pesca. Sabemos que só assim surgirão hipóteses do pobre ter um encontro amoroso, com promessa de envolvimento sexual. Terá de se apressar - pois que é dito que se vai proibir em breve a apanha das suas eventuais namoradas -, e nessa pressa, uma rapariga vai andando livre de aromas são-joaninos.

 

É evidente que nem todos os preconceitos são fáceis de manobrar. Existem os que se disfarçam de Velhos Testamentos, de sentenças bíblicas ou mesmo de leis anquilosadas que se aproximam imenso da vida dos que as proclamam hoje. São preconceitos que simulam o raciocínio, mas que se transformam em crime.

 

Os preconceitos dos pequenos homens dão imensa vontade de citar as mulheres do Douro e com elas murmurar à moda antiga que homem pequenino - ou velhaco, ou assassino.

 

Imagem - Julio Ruelas -1907

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A Gaffe inevitável

rabiscado pela Gaffe, em 23.10.17

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A Gaffe lê imenso e sabe sabe que o mundo não está repleto de paspalhos imbecis.

O problema é que descobriu que eles estão estrategicamente colocados de modo a que dois ou três se cruzem com ela todos os dias.

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A Gaffe de noite

rabiscado pela Gaffe, em 19.10.17

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A noite é uma árvore lancetada.

É chegado o tempo em que as raízes petrificam de cansadas. A seiva em escultura.

É tempo de tentar ser outra coisa.

 

A noite é outra coisa que não eu?

 

Não há razão para não o ser, mas as razões são o acaso que invade o território sem qualquer pudor. Chegam como se tivessem uma história onde não entramos. Uma história que pode ser contada sem nós. Uma história exclusivamente delas, onde a nossa mudez está na garganta, definitivamente na garganta, e não no lugar onde nós somos.

Eu e noite temos secretos recantos onde a minha voz se ouve claramente. Os olhos da noite rastejam dentro da minha voz. Um pacto em que a noite deixa mortas as palavras corrompidas e eu aceito esse abandono como uma oferta inevitável.

 

É tão tarde e não amanhece.

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A Gaffe, ela própria

rabiscado pela Gaffe, em 18.10.17

A Gaffe fica perplexa perante a definição de moda apresentada pela maioria dos criadores portugueses que nunca leram Barthes, mas que vão seguindo a linha dos congéneres estrangeiros que, por sua vez, deviam enfiar um rolo de tecido na boca e outros nos orifícios similares.

 

Segundo a excelsa visão dos referidos, Moda é o que nos fica bem. Moda é sermos nós próprios - ou nós mesmos, se estivermos para nós virados.

 

Sermos nós próprios - ou nós mesmos - permite muito paspalho visual, mas, no entanto, o certo é que se cada um reconhecesse - e vestisse - as grandes verdades que somos, o mundo ficaria muitíssimo mais elegante, mais simples, mais claro, e sem dúvida muito mais pacífico.

 

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A Gaffe plana

rabiscado pela Gaffe, em 27.09.17

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Tédio despropositado.

Os lençóis agarram o meu perfume e a minha nudez espalhada é indiferente ao espelho.

A minha cama sempre pareceu um ninho de um bicho espalhafatoso e exuberante. Nunca consegui dormir de forma calma. Envolvo-me e rebolo no sono e no sonho e destruo a primorosa obra das manhãs tardias em que os lençóis se dobram, se alisam, se amaciam, se distendem, se prendem e engomados dispersam o perfume lavado dos amanheceres mais claros.

 

Mas hoje acordei e tudo era perfeito. Como se ninguém tivesse dormido na véspera. Como se fosse dia de amante noutro lugar. Nenhum vestígio de ruga, nenhum cataclismo surdo e mudo e inconsciente. Nenhum tumulto, nenhuma multidão amorfa de panos misturados e confusos.

 

Em mim o tédio invade até as noites e faz aquietar as ondas do meu sono.

Durmo na planura da indiferença e na suspensão apática daqueles que desprezo.

 

Imagem - Denis Sarazhin

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Gavetas:

A Gaffe fantasmagórica

rabiscado pela Gaffe, em 25.09.17

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É patética a existência de uma espécie de indigentes cujo único objectivo na vida é alcançar um pedaço, mesmo irrisório, de atenção. Esmolam sem qualquer tipo de pudor e sem dignidade, desavergonhadamente, deploravelmente, arranjam formas ínvias de acreditar que são capazes de desviar um olhar alheio para os trapos encharcados que batem uns nos outros acossados pelo vento e que produzem o som das palavras que tentam juntar.

 

Insistem e são cansativos, aborrecidos, entediantes, previsíveis e de uma inutilidade confrangedora.

 

Dir-se-ia que possuem um dispositivo no cérebro que é accionado demasiadas vezes sugando toda e qualquer capacidade de raciocínio. Absorve a massa encefálica como se de um buraco negro se tratasse. Fica o vácuo, o inexistente, o espaço oco onde a miserável súplica, o deplorável rogo, a coitada crença na possibilidade de se tornarem visíveis, bate contra as paredes ósseas do lugar onde se escapou a vida, como uma bolita de um ping-pong jogado por ninguém.

 

Quando se acredita que o Além é logo ali ao lado, acaba-se por indução a evocar fantasmas.   

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A Gaffe psicopata

rabiscado pela Gaffe, em 22.09.17

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Sempre senti uma enorme atracção por sangue.

Folhas manchadas que cortaram dedos; lâminas sujas, maculadas, que rasgaram o rosto ao barbear; lenços brancos que serviram de tapume a pequenos golpes sofridos à toa.

 

Não chegava a tocar nas manchas vermelhas, mas despertavam-me a atenção de modo quase obsessivo. Ficava varada a observar o esbater da nódoa, as zonas onde a cor se atenuava, a esmaecida fronteira que iniciava o corromper do límpido. Deslumbrava-me com a magnitude do encarnado e assombrava-me se adivinhava a origem, o golpe, o lanho, a carne onde o fio frio da agressão se liquefazia externo.

 

Ultimamente esta atracção tem raiado o vampirismo. 

 

Se me corto, levo à boca o sangue e atento no sabor que dele chega. Não o defino, não o aproximo de nenhum outro que tenha experimentado. Roço a língua pelo golpe e sorvo e chupo e deixo que aquele sentir vagamente metálico me arrepie e é então que descubro a violência bruta das arenas e o apelo incontrolável do assassino, como se da memória mais profunda, mais secreta e obscura, me assaltasse o instinto do que sou.

 

Depois faço de conta que são rosas. 

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A Gaffe de cinzento

rabiscado pela Gaffe, em 15.09.17

Alexandre Trauner     Fleurs, Paris     c.1940.png

Tinha um vestido cinzento. Princesa. Partiam quatro pregas fundas do corte no peito. Um laço rígido e pequeno apertava a gola arredondada. Mangas ¾, dizia a minha avó.

Era demasiado criança para tanta severidade, mas aquele vestido de Inverno tinha-se tornado um dos meus favoritos. Usava-o com meias grossas e sapatos fechados, muito masculinos.

Quando o vestia deixava de ter corpo. Só havia aquele cinzento que apagava as cores das pessoas que deixavam também de existir dentro da roupa que traziam.

A minha mãe prendia-me o cabelo com uma fita larga, num tom pouco afastado da cor do vestido e ajudava-me a colocar os minúsculos brincos de pérolas que tinha guardados numa caixinha preta que fechava com um clique que ainda ouço, nítido, sempre que me chega à memória o almofadado dos gestos que me tocavam e afastavam o cabelo e me roçagavam o rosto.

 

Gostava do vestido cinzento e daquele gesto que me enfeitava as orelhas.

Tinham silêncio.

 

Foto - Alexandre Trauner - 1940

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