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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe assassina

rabiscado pela Gaffe, em 10.07.17

assassina

 

A arma mais eficaz contra o medo é um horário de trabalho que às quatro da manhã de um Sábado nos deixa de gatas à procura da saída e do carro que nos aconselham a deixar estacionado na garagem e nunca nas imediações, porque há imenso assaltos.

 

Saio a arrastar os pés, desgrenhada, pindérica, esgotada e a sentir os joelhos na nuca. Procuro não adormecer no elevador, fazendo de conta que ando à procura das chaves na carteira que parece pesar duas toneladas e evito tombar para o lado encostando-me à parede enquanto o maldito desce sem parar.

 

Saio muito devagarinho para não me desfazer e de chave em alerta máximo ouço o carro a dar sinal de si num PIIIIIIII que me arrasaria os nervos se ainda os sentisse.

 

Caminho já curva, com as mãos a arrastar no chão e de língua de fora.

 

Ao longe, três carros depois do meu, atrás de um pilar, enfiado na penumbra, adivinho um vulto, parado, quieto, um bocadinho sinistro. Consigo perceber que é um homem, de mãos nos bolsos e careca. Nunca hei-de perceber como soube que o mafarrico era careca.

Tão segura a garagem!

Vou no mínimo, ser assaltada. No máximo apunhalada. Comigo não há estádios intermédios. Imagino o perito forense debruçado sobre o meu cadáver - coberto por um lençol imaculado, caracóis escapando rubros, misturados com o sangue que brilha à luz dos focos da ciência e sapato Manolo Blahnik abandonado perto do meu corpo - banhado em lágrimas:

- Quem foi o monstro capaz de fazer isto a um anjo tão lindo como este?! 

 

Naquele instante o que interessou foi enfrentar o demo que não sabia que o anjo lindo prestes a assassinar tinha saído de um inferno monumental onde se manteve de pé horas a fio, enfrentado multidões ensandecidas de criaturas traumatizadas; tratando da saúde a umas outras tantas; corrido corredores sem fim à procura de apoio de urgência – já que aqui toda a gente pertence à Disney! -; esbardalhando raspanetes a torto e a direito por dar conta que lhe faltava material – quase esmagando o que estava apenso a um belíssimo rapagão que inocente se meteu à sua frente -; enfrentando dois polícias que lhe vieram trazer um tarado teimando em deixá-lo ao seu cuidado - Nem pensar, meus caros. Se tiver de ficar com alguém, prefiro um de vós. Saudável, musculado, sóbrio, com um hálito dentro dos limites estipulados pela Lei e com o apito em condições -; espetando bisturis em tudo o que se movia sem autorização e apanhando dois esgrouviados nus a correr pelas salas de espera do piso onde tudo acontecia sem que ninguém - sublinha-se ninguém - se apercebesse que o que traziam ao léu, a dar-a-dar, não merecerá uma capa da Cristina.

 

Posto isto, será bom de ver o que esperava o careca maldoso, atrás do pilar com ar de assassino de ruivas cansadas.

 

Verifiquei a biqueira de um dos sapatos e o salto do outro. Tudo em ordem. Não me tinha esquecido de os calçar. Lamentei a sorte do meu substituto que, mal chegado, teria de acudir aos tintins de um rufia saído de um filme negro sem categoria, e já pronta e desperta, sem réstia de medo ou cansaço, desafiei a morte certa como uma ruiva o deve fazer: em frente, que já se faz tarde e isto não chega aos netos.

 

A sorte do imbecil careca foi a bocarra do elevador se ter abreto para expelir uma data de dois matulões - valiam por muitos - a quem tinha dado uma hora antes um raspanete digno de um império. Não me reconheceram por estar à paisana – dou graças, porque de contrário suspeito que os meus sapatos não davam conta de três pares de tintins -, mas afastaram por sugestão o careca mal-encarado.

 

Se me voltam a aconselhar o estacionamento na garagem, transformo-me em sniper.  

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A Gaffe anunciada

rabiscado pela Gaffe, em 07.07.17

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Passo todos os dias por um esconso e velho café encardido que me bate logo pela manhã com um cheiro de fritos mal a porta abre para deixar passar o dono, musculado e bazófia, com as cadeiras de plástico branco da esplanada curta. 

 

A porta do café encardido serve de montra de obituários. Aparecem vastas vezes colados ao vidro os anúncios de morte. Papéis A4 onde a fotografia de alguém encima a notícia, fornecendo ao mesmo tempo, entre parênteses, as datas do início e do fim do retratado, logo seguida da indicação da idade - para evitar fazer contas -, e os agradecimentos da família que informa o local das exéquias e a data da missa do sétimo dia.

 

Já vi, colados ali ao mesmo tempo, quatro avisos, uns ao lado dos outros. Lembrei-me de eleições. Não sei porquê.

 

Sempre me surpreendeu que um café encardido e vadio tenha esta vocação, mas disseram-me que era hábito nas terras pequenas colar nos estabelecimentos anúncios de gente que passou para o outro lado de modo a que mesmo os vagos conhecidos fiquem a saber desse desfecho.

Sempre me atraíram estes anúncios tétricos que mostram gente que sorri numa fotografia tipo passe ou naquela mais bonita, que favorece, tirada por um profissional, ou a outra, que foi captada quando havia tempo para se estudar a pose.

 

Paro e leio.

 

Preocupa-me com a idade dos que morreram - as fotografias nem sempre revelam a contabilidade da vida que acabou -, como se a velhice me concedesse uma surpresa menor, de menor qualidade, de menor hipocrisia.   

Era já velho – perdoo à morte.

E era tão novo quando me deparo com o extremo oposto.

 

Nunca reconheci ninguém, mas sinto que me cruzei algures com todos. Perscruto a ruga na união das sobrancelhas, o trejeito no lábio, o desenho dos olhos, o sinal na bochecha, a verruga na testa, a mais ínfima pista que me indique o lugar onde aquela fotografia passou por mim ainda viva. Nunca os vi. Não me lembro de os ter visto. Nunca me viram. Não me lembro de os ter visto a ver-me. A vida deles passou-se longe da minha e é apenas o anúncio colado na porta do café encardido que me faz chegar ao sítio onde pararam.

 

Fico a pensar que muitas vezes, demasiadas vezes, ficamos de repente a olhar alguém que caminha ao nosso lado - vivo e ao nosso lado, regulando os passos pelos nossos, interrompendo o movimento dos braços com abraços -, e a descobrir que olhamos para um anúncio de morte colado na porta do café da nossa alma encardida e que nunca conhecemos o rosto de quem naquele instante é percebido findo.

 

Às vezes, penso que a vida é aquele velho café encardido a cheirar a fritos logo pela manhã, onde Caronte vai montando a esplanada curta com cadeiras de plástico, e que não somos mais do que anúncios que vai colando depois no vidro da porta.       

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A Gaffe portuense

rabiscado pela Gaffe, em 05.07.17

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FAZER PELOS DOIS

Quem é o outro?

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A Gaffe a latejar

rabiscado pela Gaffe, em 30.06.17

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A Gaffe, de quando em vez, e lê os jornais e e vê os bonecos. A Gaffe, de vez em quando, está atenta ao latejar do seu país

 

É uma atitude que a maça imenso, mas que considera essencial para seu crescimento intelectual - coisa que, como é sabido, eleva qualquer um, apesar de ser mais interessante ver a chuva a cair e gatinhos a miar na rede.

 

Num destes batimentos auscultados, a Gaffe ouviu Passos Coelho a exigir sentido de Estado aos governantes, pouco tempo depois de ter anunciado suicídios em Pedrogão. É evidente, meus caros, que Passos Coelho se referia a ameaças de suicídio e não aqueles que só aconteceram porque um malandreco exagerado se lembrou de os inventar. Não se pode olvidar – a Gaffe estava ansiosa por usar um termo parlamentar! – que Passos Coelho sempre foi um visionário, um profeta disfarçado de estadista. Tendo em consideração a cinza que caiu nos móveis, que dá vastíssimo trabalho a limpar, uma paisagem toda cinzenta pela frente sem uma única piscina a funcionar no verde de uma espreguiçadeira, será bom de ver que depressa deprimimos. É evidente que o sentido de Estado pode e deve anunciar o que prevê após os factos ocorridos e que pode mesmo lembrar, caso ainda não seja projecto das vítimas, que o suicídio de uma criatura já calcinada por dentro pode ser mais uma belíssima oportunidade para arrasar a Constança. Se os suicídios não ocorreram e não existe previsão de tal, podemos sempre recorrer a um paspalho que nos mentiu e cravar no lombo do diabo um belíssimo e tão jeitoso foi ele que me disse, que pode ser usado também quando Passos Coelho de sorriso careca acarinha mimosamente o eucaliptal desgarrado, ilibando o pobre de incendiárias responsabilidades. Toda a gente sabe que o eucalipto é uma plantinha fofa, com características que não assustam nada e que só arde se a Mariana Mortágua a irritar muito. Passo Coelho sublinha o facto com veemência, ateando a botânica que lhe dizem.

 

Convém no entanto reter que este acreditar duro e puro naquilo que se ouve pode, não raras vezes, produzir benefícios.

A menina finalista que sabia de antemão, por fuga de informação de uma comuna sindicalista, que o seu exame contemplaria Alberto Caaaaaaaeiro, acabou possivelmente muito orgulhosa com a classificação que obteve, embora a Gaffe acredite que quem pronuncia Caaaaaaaeiro ao nomear um heterónimo do poeta, dificilmente lerá com rigor a pauta – ou a pôta? - onde se esbardalha a sua vigarice recompensada. Como será bom de ver, tornou ao mesmo tempo dificílima a localização da responsável pelo crime, tendo em conta que, para quem diz Caaaaaaeiro, todos os sindicalistas são comunas.

 

A Gaffe - para finalizar, que tudo isto é uma maçada -, sublinha que, contrabalançando estes extremos ocupados por um dito descompensado e um feito recompensado, podemos encontrar no meio Salvador Sobral. Foi lamentável o rapaz não ter dito e feito, colocando o microfone no rabo, gaseando as suas dúvidas, mas a verdade é que até esta pobre rapariga se debruçou estúpida, parva, imbecil, a cheirar uma mentirinha musical.

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A Gaffe encharcada

rabiscado pela Gaffe, em 29.06.17

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O vento encharca o perfume das tílias. Transforma-o em baloiços largos, soltos, como uma dança de mulheres entristecidas.

Ontem choveu. Ainda existem pequenos charcos nas fendas largas das pedras.

O anjo do lago assustou as carpas que se esconderam da sua eternidade a escorregar para o dorso da água picada pelas bátegas.

Nada mais existe a não ser a mobilidade de nuvens desfeitas que se enrolam no vento.

Ontem a chuva bateu nos vidros das janelas. Pareciam dedos, a chuva, e cinzentos a azular quando era longe.

A alameda tombou de pena ou de ternura. O silêncio tem a voz da chuva a desabar na terra.

 

Se nos sentarmos direitos - a chuva exige a verticalidade dos corpos, mesmo daqueles que se sentam -, de mãos fechadas, uma sobre a outra, na cadeira que colocamos perto da janela e olharmos com muita atenção o caminho por onde se define o azul longínquo, logo atrás da chuva, vemos florir as gotas de água a esbater os contornos da tristeza.

 

Isto, claro, se não chover também nos nossos olhos.

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A Gaffe golfista

rabiscado pela Gaffe, em 28.06.17

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O desvio que se fiz no regresso a casa, depois de ter deixado o carro na oficina, foi já feito no popó do meu irmão.

- Levas o meu que eu fico por aqui. Vou depois com o pai.

                 

Há um passadiço de madeira cinzenta ao longo do areal. Faz ruídos quando o pisamos e a madeira parece estalar debaixo dos nossos passos.
Passaram por mim rapazes embrulhados em blusões de Verão e moçoilas de lenço na cabeça. Olharam e sorriram e convidaram.


Encontrei perdida uma bola de golf, branca com o símbolo da Nike sujo de verde.
Guardei-a na carteira depois de inutilmente a esfregar para lhe retirar a mancha.


Andei demasiado.

 

Havia muito vento e o mar espirrava. O meu vestido parecia uma vela de barco enlouquecido.
Passaram outra vez por mim os rapazes e as raparigas com todos os convites que eu quisesse no corpo a estremecer. Fazem sentir que estancamos o mundo inteiro quando queremos, que o nosso umbigo é centro do Universo, quando afinal não somos mais que uma bola de golf  manchada e perdida num bolso qualquer.

 

Miramar é a minha saudade mais pequena. Uma das outras, maiores, encontrei-a parada no areal a quebra o tempo vivido longe.

É colorista. Vive e trabalha em Londres desde há muito tempo. Regiamente respeitada e escravizada pela nostalgia do mar do seu país.

Há quanto tempo a não via e que saudades, meu Deus!

 

As nossas memórias, as nossas memórias comuns, misturaram-se com o vento e percebemos que as temos de modo diferente, que olhamos o acontecido outrora através de pequenas grades transparentes que alteram significativamente o que se recorda. As nossas infâncias foram vizinhas, rodeadas pelas mesmas circunstâncias, partilharam momentos, experimentaram situações idênticas, vivenciaram condições iguais, mas a memória de cada uma das duas triturou o ocorrido de maneira diversa, como se nos tivéssemos banhado no mesmos mar, pela mesma onda, esquecendo que os nossos braços tocaram a água com agilidades desiguais.  

 

Horas perdidas a colar memórias. Arrancando pequenas farpas da saudade. Tentando embeber o que era de uma no que à outra pertencia, espantando-nos ao perceber que a luz que vinha do que era recordado tinha laivos distintos e iluminava o que era agora visto pertença do passado com as cores dissemelhantes, porque mais íntimas, privadas, com que se recorta cada coração.

                                         

Duas horas infindas até ao fim da tarde. Horas doidas, divertidas e desfraldadas pela alegria.

 

- Se vais para o Porto, dou-te boleia. Continuamos este massacre das saudades!

 

Estava sem carro. Sim. Claro que sim!

Deu-me boleia.

Ao chegar, depois das despedidas, percebi tragicamente que o carro do mano tinha ficado parado perto do mar, lá longe.

 

Quando matamos as saudades convém não esquecer que as armas usadas devem pesar sempre mais que uma bola de golf guardada na carteira.  

 

Foto - Jacques-Henri Lartigue

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A Gaffe mórbida

rabiscado pela Gaffe, em 22.06.17

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Posso esperar os séculos que quiser.
O tempo vai pairar, não vai passar, não se vai escoar por entre as frestas e as frinchas do meu peito.

Hei-de entender a morte. Hei-de entender aquilo que ela quer. Hei-de sentir o rosto que escolheu para arrancar as vidas. Hei-de tocar a máscara que escolhe e que mostra uma vez só na vida.


- Mascaras-te de quê?
- De Morte, mas da minha. Daquela que me virá buscar um dia.

 

Foto - Calvin Coolidge, 1924

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A Gaffe monumental

rabiscado pela Gaffe, em 07.06.17

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A Gaffe não compreende a ira que suscita a utilização de monumentos para finalidades que não são as apensas aqueles mamarrachos.

 

O objectivo daquilo é ser monumento, o que se torna maçudo, monótono e nada proactivo. Umas coisas grandes, paradas, velhíssimas, com imensos corredores e correntes de ar, que não conhecem o conceito de minimalismo, preenchendo todos os buracos com arrebiques que não lembram a D. Manuel - e cuja única vantagem é terem o pé-direito altíssimo -, facilmente fazem com que os seus funcionários se percam! Não admira que sejam encontrados depois aflitos e em pânico nas obras privadas dos directores daquilo, ou que se esqueçam que os dois ou três mil euros que levam para casa em dias em que chove que Deus a dá obrigando o povo a fugir para debaixo dos arcos - que não os das Capelas Imperfeitas de outro paspalho a ter em conta -, pertençam à bilheteira do mastodonte e não necessitam de protecção acrescida contra as intempéries.

 

A Gaffe não entende a preocupação verificada com 20 botijas de gás incendiado nos claustros do Convento de Cristo. O Convento está mais do que habituado a fogareiros e a fogueiras, tendo em consideração os churrascos de carne de Templário a que com certeza assistiu da janela da História.

As telhas partidas e as pedras quebradas, são de pouca monta e abrem mais uma outra janela, desta vez de oportunidade. Que se aproveite o percalço e se erga um miradouro nos telhados, abençoado com um restaurante chefiado por Ljubomir Stanisic - o homem é tão atraente! - com o alto patrocínio da TVI, ou que se inaugure um SPA na sala do Capítulo, entregando a responsabilidade de o inaugurar a Rita Ferro Rodrigues. Capaz é ela e é sempre de valor acrescentado tendo em conta que até aos mortos a rapariga pede a ligação.    

 

A Gaffe sugere que se aproveite, entre tantos outros espantalhos, Conímbriga - para encontros motard com strip masculino -, o Mosteiro da Batalha, os Jerónimos e Alcobaça - e neste é de transformar os túmulos de Inês e Pedro em dois excelentes balcões de bar aberto, um em frente ao outro, para aguentar assim as oscilações ébrias dos convivas -, a Igreja de S. Francisco e a Torre dos Clérigos que facilmente albergariam raves, festivais de Verão e festas de finalistas do Secundário, porque são todos frescos, têm boa acústica e já se acostumaram ao tráfico de estupefacientes nas imediações.

                                                                                                            

É verdade que os lugares para estacionar não pululam nestes recantos. É verdade que o Museu dos Coches fica longe e não é prático retirar dali o nosso Fiat híbrido, mas o Automóvel Clube de Portugal com certeza - se bem conduzido -, repetiria a ajuda e o povo poderia outra vez esbardalhar o veículo nos pátios de qualquer um dos monos referidos.  

 

 O importante, como diria o meu querido Mexia, é haver rendas para a luz.  

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A Gaffe proletária

rabiscado pela Gaffe, em 05.06.17

 

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É mais do que certo que o povo é mal pago. A tradição vem de longe, neste país à beira-mar plantado e bem regado, e a evidência do facto tem história comprovada, sempre acompanhada por uma espécie de subvalorização do trabalho - quer por parte do que o executa, quer por parte de quem o quantifica para o recompensar.

 

Transcrição da factura que um mestre-de-obras apresentou em 1853 pela reparação que fez na Capela do Bom Jesus de Braga*

(Arquivo da Torre do Tombo)

 

Por corrigir os 10 Mandamentos, embelezar o Sumo-sacerdote e mudar-lhe as fitas

170 reis

1 galo novo para S. Pedro e pintar-lhe a crista

95 reis

Dourar e pôr penas novas na asa esquerda do Anjo da Guarda

90 reis

Lavar o criado do Sumo-sacerdote e pintar-lhe as suissas

160 reis

Tirar as nódoas ao filho de Tobias

95 reis

Uns brincos novos para a filha de Abraão

245 reis

Avivar as chamas do Inferno, pôr um rabo ao Diabo e fazer vários concertos aos condenados

245 reis

Fazer um Menino ao colo de Nossa Senhora

210 reis

Renovar o Céu, arranjar as estrelas e lavar a lua

130 reis

Retocar o Purgatório e pôr-lhe almas novas

355 reis

Compor o fato e cabeleira de Herodes

55 reis

Meter uma pedra na funda de David, engrossar a cabeleira no Saúl e alargar as pernas ao Tobias

95 reis

Adornar a Arca de Noé, compor a barriga ao Filho Pródigo e limpar a orelha esquerda de S. Tinoco

135 reis

Pregar uma estrela que caiu ao pé do coro

25 reis

Umas botas novas para S. Miguel e limpar-lhe a espada

255 reis

Limpar as unhas e pôr uns cornos ao Diabo

 185 reis

TOTAL

2.545 reis

 

Para tão largas e santas tarefas, tão curta a recompensa!

 

*ortografia da origem

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A Gaffe carteirista

rabiscado pela Gaffe, em 31.05.17

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Há um jogo qualquer que nos pede que enumeremos o conteúdo da nossa carteira.

 

Não seriam brilhantes as minhas respostas. Não transporto muita coisa. A minha carteira não ilustra o estereótipo.  

Trago um bloco pequeno de capa esgotada que deixei de usar há muito tempo, mas que no medo de perder o passado riscado que contém, se tornou imprescindível; uma esferográfica que pertenceu ao meu avô, preta, polida, quente; a tradicional, mas frugal, parafernália feminina, composta por instrumentos de beleza que se misturam com outros mais técnicos, mais profissionais; um protector solar quase blindado e alguns documentos fechados, muito ordenados, numa pasta pequena de couro antigo.

 

Ao lado, mesmo ao lado do batom, trago sempre um adeus.

Nunca sabemos quando o devemos usar, não sabemos sequer a frequência com que o gastaremos, mas, seja como for, quando o adeus é usado convém-nos estar sempre com os lábios retocados. 

 

Foto - Jason Langer

 

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A Gaffe KATRAPUMBA

rabiscado pela Gaffe, em 30.05.17

shits.jpgConvenceram-me e eu fui.

Não devia.

 

Empurram as minhas razões para dentro de uma t-shirt com um passarito estampado e enfiaram as minhas desculpas numas calças largas de algodão fresco desmazelado.  

 

Arrastaram-me.

 

Devia ter fugido no momento em que se distraíram a escolher o KATRAPUMBA. Havia algumas variantes e o tempo dispensado à atenta selecção permitia escapar pelas frinchas da concentração alheia, se conseguisse desatar a correr. Infelizmente não corro, nem atrás do autocarro.

 

A aula provavelmente era de Zumba, mas podia ser de Kizomba, Bumba, Rumba, Tumba, ou mesmo um ritual primitivo de celebração das divindades pagãs, todas juntas, melífluas e trovejantes.

 

À minha volta apenas mamas desarvoradas, a balançar mesmo apertadas; uma senhora que se espancava com as dela; um homem que segurava as dele enquanto deixava o resto oscilar; pernas e pés pelo ar, a ameaçar disparar as sapatilhas; gente a abanar, a pinchar, aos pulos; pilas todas contentes aos saltos prontas a atingir os olhos dos parceiros; rabos ensandecidos mascarados de Zorro; fios dentais nos dentes de trás e TUMBA-KATRAPUMBA-KATRPUMBA-TUMBA-TUMBA-TUMBA-KATRAPUM-PUM-PUM-PUMBA-PUMBA-KATRAPUMBA, a música que só de ouvir já emagrece.

 

No estrado, uma jovem, tão jovem, que jovem era, vestida de wonder-woman, com um micro encastrado e mamilos de fora do fato protector, tentava sobrepor-se àquela sublevação de incendiados, incentivando as filas tresloucadas.

 

- ‘BORA LÁ, PESSOAL! UM-DOIS-TRÊS PARA FRENTE! TRÊS-DOIS-UM, LATERAL!!!

 

Estarrecida, enfiada cá atrás, entre uma senhora desfeita em banha, quase frita, quase a asfixiar e prontinha a sofrer uma apoplexia, e um balde de suor que tinha sido um cavalheiro, tentava manter a sanidade, abanando o rabiosque e protegendo as maminhas, no espaço que me cabia em sorte.

                                                    

TUMBA-KATRAPUMBA-KATRPUMBA-TUMBA-TUMBA-TUMBA-KATRAPUM-PUM-PUM-PUMBA-PUMBA-KATRAPUMBA-TUMBA-TUMBA...

 

- ‘BORA LÁ, PÊSSUAU! TUDO JÓIA? NUM DÁ MOLEEEEZA, NÂUUU!

 

A mulher é brasileira.

 

Não! Ela explica.

 

- NÃO QUERO OFENDER OS BRAZUCAS DA MINHA AULA! SOU ASSIM. DE VEZ EM QUANDO É ISTO! PRONÚNCIA BRASILEIRA PARA DAR FORÇA. TAMBÉM FAÇO A DE VIJEU E A DO PUARTUUUU!!!!

 

TUMBA-KATRAPUMBA-KATRPUMBA-TUMBA-TUMBA-TUMBA-KATRAPUM-PUM-PUM-PUMBA-PUMBA-KATRAPUMBA…

 

E finaliza:

 

- EU SOU COMO O EÇA E OS SEUS HOMÓNIMOS. ‘BORA LÁ, PESSOAL!

 

KATRAPUMBA.

 

O que me salvou foi o Salvador Sobral que terminou a aula. Para descontrair que o moço é pacato.

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A Gaffe de última hora

rabiscado pela Gaffe, em 24.05.17

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Madonna andou a cavalo numa praia em Portugal!

O cavalo estará na próxima semana no "Alta Definição".

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A Gaffe a apanhar pedra

rabiscado pela Gaffe, em 09.05.17

Os rapazes possuem uma aptidão muito peculiar que me deixa perplexa e me faz repensar as razões da nossa permanência neste mundo pobre e pouco digno de respeito.

Acaba por se tornar uma característica e, em maior ou menor grau, é detectável em todos.

 

Resume-se à extraordinária capacidade de mostrarem ao mundo - e sobretudo à parte ocupada por mulheres -, como são maravilhosos a tentar fazer o que não sabem.

 

Esta tendência é proporcional à sua ineficiência. Quanto mais totós, mais capazes se sentem de realizar o que se transforma num palácio para os bois mirarem. Quando os factos os contradizem, escapam à realidade crua e nua, convencidos que apenas apanharam pedra.

 

O meu irmão, por exemplo, digníssimo representante da espécie, afiança que é capaz de pregar um prego com uma facilidade descontraída e humilhante.

As paredes estão cravadas de buracos que representam todas as tentativas de martelar um inocente ferrito que como por encanto costuma saltar disparado ao primeiro embate. No segundo o prego entorta, no terceiro o prego desaparece no ar, como um OVNI depois de ter avistado o Terço de Joana Vasconcelos.

 

- Apanhei pedra.

 

O homem apanha pedra sempre que tenta espetar a porcaria de um prego na manteiga! Suponho que esta evidência seria de vital utilidade se o pobre um dia se enfiasse em areias movediças. Caso tivesse à cinta um martelo e no bolso um prego, apanhava pedra. Salvava-se.

 

Em decoração não resulta.  

 

Os rapazes permanecem, conscientes ou não, convencidos que a genética lhes forneceu as aptidões dos grandes machos e que nós, recolectoras de corpinho frágil, estamos aptas apenas a realizar tarefas a que elas atribuem um ficheiro feminino.   

O resultado pode ser catastrófico, não só para a decoração, mas também para a imagem que deles temos e que benevolamente vamos mantendo com algum esforço.

 

Seria muito mais proveitoso assumir que são uma perfeita nulidade a trocar um pneu, a dominar uma prancha de surf, a arrastar móveis sem colapsar imóveis, a instalar um circuito eléctrico, a reparar o portão da garagem, ou, no mínimo, a provocar-nos um orgasmo, admitindo em contrapartida que são exímios a tricotar pegas de cozinha, ou a construir arranjos florais mirabolantes.

 

Não!

 

Preferem que assistamos ao descalabro que é ver a sua masculinidade, pura e dura, a exibir-se lampeira e toda competente rumo a um ocaso pousado nas ondas das nazarés desta vida para logo depois sermos obrigadas a cristãmente caminhar sobre as águas para os repescar e ouvir dizer logo a seguir, a abanar a negra madeixa ao vento, que apanharam pedra.

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Uma proposta de discussão feminista a não deixar escapar.

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A Gaffe solitária

rabiscado pela Gaffe, em 08.05.17

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A Gaffe hoje conversa com o Sr. Solitário que teve a gentileza de se lembrar desta rapariga que usou durante todo o tempo óculos escuros, não se desse o caso dos seus olhos desatarem a falar em demasia.

 

Convém bisbilhotar.

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A Gaffe ecuménica

rabiscado pela Gaffe, em 05.05.17

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Por serem cada vez mais raras as ocasiões em que nos encontramos em simultâneo num sítio e numa mesma hora, a minha irmã decidiu que os três manos deviam jantar juntos. Eram eliminados três bichos com uma paulada só, tendo em consideração que se acrescentava à reunião a vantagem de conhecermos a nova namorada do meu irmão e que era possível descartar, partilhando, a maçada de ter de aturar um colega japonês que colabora no actual projecto da anfitriã.

 

O restaurante foi marcado com a antecedência da praxe e, como seria previsível, fui a primeira a chegar.

 

O senhor da recepção, atrás do seu púlpito, sorriu com todos os botões do seu casaco preto abotoado e foi informado que havia sido feita uma reserva. Empalideceu, o sorriso ficou roxo e os olhos tombaram em queda livre no livrinho das reservas, soltos das órbitas, quando anunciei o nome que devia figurar na sua lista.

Carlos Fabián Villa.jpgTranquilizei-o:

- Sou apenas a irmã mais nova.

As cores regressaram e os olhos também.

Fui conduzida à mesa assinalada e sonhei por instantes fugir para devorar um cachorro quente - do tipo Grand Danois - que tinha visto fabricar na barraquinha da esquina, antes de fazer de conta que me deliciava com os beliscões culinários do Grand Chef de revista.

 

O sonho durou pouco porque o meu irmão entrou logo a seguir.

 

É incompreensível a atracção - que se tem revelado fatal - que o maninho sente por nórdicas! Ao lado, um felino loiro e alto, uma espécie de Twiggy misturada com Kim Novak, arrastava, no trocar de pés de manequim, um gelo de fiordes que condizia com o azul frígido dos olhos de iceberg. Uma mulher lindíssima, logo estúpida - em relação a estes assuntos, gosto muito de respeitar os preconceitos e a sabedoria ancestral -, que se sentou depois de me mostrar uns dentes tão perfeitos que fazem com que nos apeteça bater-lhes com o cabo da faca e de sacudir o cabelo liso, brilhante e tão sedoso que por instantes me vi nele reflectida.

José Rodríguez Mota.jpg

Lykke Svenssonolofssonbengtsson - ou coisa que o valha. Não vale a pena fixar, pelas razões que se adivinham.

 

Antes de trabalhar a amabilidade, amaldiçoei a hora que penei à procura de um vestidinho em condições, porque deparo com os velhos jeans do meu irmão tão apertados que quando os tentar despir arranca a pele e - livre-nos Deus - também a pila que, salta à vista, não tem ar nenhum ali fechada.

 

Desatam a falar alemão - a lambisgóia vive em Berlim desde os dois meses, informa o mano que corre o risco de perfurar os olhos cravados nos mamilos que enfeitam as bolas rígidas de cidade onde a dona vive sem soutien.   

Que sim, que já tinha identificado a língua e que sim, que não entendo, mas que não me importo.

 

A minha irmã, mais uma vez sebastianista, com um atraso gigantesco que se justifica apenas com a possibilidade de ter estado a sacudir das cuecas a areia do deserto onde se perdeu com o Desejado, faz finalmente a sua entrada fulgurante.

Atrás de uma grande mulher está sempre um homem, diz o povo, que o povo diz coisas. Não vejo o mocetão, porque é japonês e portanto - é mais que certo - pequenino e porque quero provocar uma brisa de indiferença soberba e sofisticada, abrindo a clutch, a pochette, a carteirinha, a porcaria da maleta anã, fazendo de conta que estou distraída à procura do Camões. A porcaria da anã é da minha mãe e encontro dentro duas aspirinas, um Ben-u-ron e a subliminar prova que sou filha dela escrita num papelinho muito dobradinho:

 

Não perguntar B(…) pelo marido. Morreu - três anos.

A L(…) cunhada M(…). Não referir P(…) - amante duas.  

Comprar Ben-u-ron.   

 

O casal chega por fim à mesa e com o meu melhor Greta Garbo enfastiada ...

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...  ergo a cabeça esperando cruzar os olhos com os do japonês que segundo os meus cálculos devem estar ao mesmo nível que os meus, que estou sentada - o homem supostamente é pequenito - e apanho com a braguinha do sujeito a rir-se para mim.  

 

O homem é altíssimo!

 

Deve ser o único japonês à superfície do planeta que a minha irmã cumprimentou sem se ter de baixar primeiro.

 

Fico com os olhos cravados na pila nipónica até a minha irmã a fazer sentar à minha frente e depois de os ter, para disfarçar, espetado nos mamilos da sueca sem antes ter arrancado dali os do meu irmão.

 

E la Nave Va, fellinianamente.  

 

A girafa loira fala alemão para o namorado que lhe responde para as maminhas em inglês, para percebemos. A minha irmã fala francês para o gigante asiático que lhe responde numa língua estranha que não consigo identificar. Traduzem tudo para português, só para criar ambiente – manos amorosos!

 

Acabei por tomar as aspirinas e - pelo sim, pelo não -, engoli também o Ben-u-ron.

 

Isto de se ser ecuménico só lá vai com o Papa.    

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