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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe psicopata

rabiscado pela Gaffe, em 22.09.17

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Sempre senti uma enorme atracção por sangue.

Folhas manchadas que cortaram dedos; lâminas sujas, maculadas, que rasgaram o rosto ao barbear; lenços brancos que serviram de tapume a pequenos golpes sofridos à toa.

 

Não chegava a tocar nas manchas vermelhas, mas despertavam-me a atenção de modo quase obsessivo. Ficava varada a observar o esbater da nódoa, as zonas onde a cor se atenuava, a esmaecida fronteira que iniciava o corromper do límpido. Deslumbrava-me com a magnitude do encarnado e assombrava-me se adivinhava a origem, o golpe, o lanho, a carne onde o fio frio da agressão se liquefazia externo.

 

Ultimamente esta atracção tem raiado o vampirismo. 

 

Se me corto, levo à boca o sangue e atento no sabor que dele chega. Não o defino, não o aproximo de nenhum outro que tenha experimentado. Roço a língua pelo golpe e sorvo e chupo e deixo que aquele sentir vagamente metálico me arrepie e é então que descubro a violência bruta das arenas e o apelo incontrolável do assassino, como se da memória mais profunda, mais secreta e obscura, me assaltasse o instinto do que sou.

 

Depois faço de conta que são rosas. 

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A Gaffe de cinzento

rabiscado pela Gaffe, em 15.09.17

Alexandre Trauner     Fleurs, Paris     c.1940.png

Tinha um vestido cinzento. Princesa. Partiam quatro pregas fundas do corte no peito. Um laço rígido e pequeno apertava a gola arredondada. Mangas ¾, dizia a minha avó.

Era demasiado criança para tanta severidade, mas aquele vestido de Inverno tinha-se tornado um dos meus favoritos. Usava-o com meias grossas e sapatos fechados, muito masculinos.

Quando o vestia deixava de ter corpo. Só havia aquele cinzento que apagava as cores das pessoas que deixavam também de existir dentro da roupa que traziam.

A minha mãe prendia-me o cabelo com uma fita larga, num tom pouco afastado da cor do vestido e ajudava-me a colocar os minúsculos brincos de pérolas que tinha guardados numa caixinha preta que fechava com um clique que ainda ouço, nítido, sempre que me chega à memória o almofadado dos gestos que me tocavam e afastavam o cabelo e me roçagavam o rosto.

 

Gostava do vestido cinzento e daquele gesto que me enfeitava as orelhas.

Tinham silêncio.

 

Foto - Alexandre Trauner - 1940

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A Gaffe num rebelo

rabiscado pela Gaffe, em 04.09.17

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É pelos caminhos estreitos e pasmados como frestas que doem como cortes de papel, que eles chegam a acarretar os seus corpos de videiras. Cheiram a suor e a velho, a cestos e a pão de trigo e trazem bagos de uvas nos olhares e mostram nus outros corpos que não vejo nos corpos sujos de terra e sumo de uva. Outros corpos nus enlameados que arrancados dos braços do chão e dos vinhedos, chegam com eles de camisas rasgadas porque suam.

 

É da torção da terra, do retorcer da vinha, do leito que o vinho cava como o rio, que os homens que chegam das frestas pasmadas dos caminhos me estendem os acenos desses corpos sujos, coloridos pela noite dos lagares, esfarrapados como rosas lapidadas, e deixam do fundo da ternura que o meu Douro bêbado de mosto marque devagar a rota dos rebelos nos meus seios.

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A Gaffe de patins

rabiscado pela Gaffe, em 30.08.17

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 Aos vinte, uma mulher desliza de patins em linha ao encontro da porta seguinte que se abre para que entre nos trinta depois das piruetas, rotações, círculos, diagonais, serpentes e rectas.

 

Aos trinta, os patins adquirem o domínio técnico do Lutz, do Toe Loop, do Axel e Duplo Axel, do Salchow e sobretudo do Avião Base. A mulher aprendeu que patinar é para ela tão fácil como guiar um Jaguar, de saltos altos.

 

Aos quarenta a mulher percebe que o ringue se vai transformando em pista de ski e de snowboard e troca os vaporosos patins pelo equipamento adequado que a fará chegar à casa dos cinquenta.

 

Aos cinquenta, passeia pelos bastidores da competição depois de exibir a mestria de quem ganhou medalhas, olhando da esquina do seu know-how as debutantes que experimentam olear as rodas.

 

Dos sessenta em diante, decide tirar carta de pesados.A estrada é curta daqui para a frente, mas convém que as rodas sejam resistentes, que a direcção já não é às curvas. A partir dos setenta vai em roda livre sem saber para onde, sem saber porquê, sem saber para quê e sem se lembrar para que serve o travão de mão. Se tem de se esbardalhar, que seja com o volante do Vin Diesel.

 

Todo este percurso atribulado mistura em cada lanço o masculino.

É fácil distingui-los. O homem percorre sempre o dele de triciclo.   

 

Ilustação - Fernando Vicente

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A Gaffe sem trono

rabiscado pela Gaffe, em 29.08.17

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Vejo-a agora de veludos pretos. De brocados pretos. A sobreposições de texturas pousadas na palidez doentia dos que estão sozinhos, que a palidez é mais densa nos que são deixados. A coifa geométrica a resguardar-lhe o pudor dos cabelos presos. A redonda gola de renda de Flandres, amarelecida pelo amido que a entretela. O crucifixo preso por correntes de ouro a baloiçar entre os mamilos esmagados pela tábua do espartilho. A cinta quebradiça, vislumbre de nada. A cinta que a asfixia. O raso triângulo rígido depois. Bordado. Em relevo. O galrear rouco do rasto do vestido sobre as pedras. As mãos sem anéis. Esguias de rezar. O rancor viúvo por três vezes. O suor nas axilas. O suor nos pêlos púbicos que a agoniam pela evidência de trazer no corpo sexo, pecado e morte.  O peso desmedido do que arrasta. Véus como teias. Véus de pedras.

 

Vejo-a de joelhos, trucidada pelo peso do sacrifício do Cristo, a desfiar contas de rezas latinas. A cravar o peito de veludos baços os socos mais contritos. À espera que a matem, à espera da coroa, que o reino tarda e a morte é ruiva.

 

Vejo-a velada pela ténue trama do erotismo preso no martírio do homem pregado. Do homem em cruz que a ajoelha, na cruz, de corpo nu, e sangue, e feridas.  

 

Maria da Escócia.

 

Então percebo. Foi sempre a solidão, que é uma outra morte. A que vem connosco, ajoelhada.

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A Gaffe na Editora do Porto

rabiscado pela Gaffe, em 25.08.17

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A Gaffe assassina

rabiscado pela Gaffe, em 10.07.17

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A arma mais eficaz contra o medo é um horário de trabalho que às quatro da manhã de um Sábado nos deixa de gatas à procura da saída e do carro que nos aconselham a deixar estacionado na garagem e nunca nas imediações, porque há imenso assaltos.

 

Saio a arrastar os pés, desgrenhada, pindérica, esgotada e a sentir os joelhos na nuca. Procuro não adormecer no elevador, fazendo de conta que ando à procura das chaves na carteira que parece pesar duas toneladas e evito tombar para o lado encostando-me à parede enquanto o maldito desce sem parar.

 

Saio muito devagarinho para não me desfazer e de chave em alerta máximo ouço o carro a dar sinal de si num PIIIIIIII que me arrasaria os nervos se ainda os sentisse.

 

Caminho já curva, com as mãos a arrastar no chão e de língua de fora.

 

Ao longe, três carros depois do meu, atrás de um pilar, enfiado na penumbra, adivinho um vulto, parado, quieto, um bocadinho sinistro. Consigo perceber que é um homem, de mãos nos bolsos e careca. Nunca hei-de perceber como soube que o mafarrico era careca.

Tão segura a garagem!

Vou no mínimo, ser assaltada. No máximo apunhalada. Comigo não há estádios intermédios. Imagino o perito forense debruçado sobre o meu cadáver - coberto por um lençol imaculado, caracóis escapando rubros, misturados com o sangue que brilha à luz dos focos da ciência e sapato Manolo Blahnik abandonado perto do meu corpo - banhado em lágrimas:

- Quem foi o monstro capaz de fazer isto a um anjo tão lindo como este?! 

 

Naquele instante o que interessou foi enfrentar o demo que não sabia que o anjo lindo prestes a assassinar tinha saído de um inferno monumental onde se manteve de pé horas a fio, enfrentado multidões ensandecidas de criaturas traumatizadas; tratando da saúde a umas outras tantas; corrido corredores sem fim à procura de apoio de urgência – já que aqui toda a gente pertence à Disney! -; esbardalhando raspanetes a torto e a direito por dar conta que lhe faltava material – quase esmagando o que estava apenso a um belíssimo rapagão que inocente se meteu à sua frente -; enfrentando dois polícias que lhe vieram trazer um tarado teimando em deixá-lo ao seu cuidado - Nem pensar, meus caros. Se tiver de ficar com alguém, prefiro um de vós. Saudável, musculado, sóbrio, com um hálito dentro dos limites estipulados pela Lei e com o apito em condições -; espetando bisturis em tudo o que se movia sem autorização e apanhando dois esgrouviados nus a correr pelas salas de espera do piso onde tudo acontecia sem que ninguém - sublinha-se ninguém - se apercebesse que o que traziam ao léu, a dar-a-dar, não merecerá uma capa da Cristina.

 

Posto isto, será bom de ver o que esperava o careca maldoso, atrás do pilar com ar de assassino de ruivas cansadas.

 

Verifiquei a biqueira de um dos sapatos e o salto do outro. Tudo em ordem. Não me tinha esquecido de os calçar. Lamentei a sorte do meu substituto que, mal chegado, teria de acudir aos tintins de um rufia saído de um filme negro sem categoria, e já pronta e desperta, sem réstia de medo ou cansaço, desafiei a morte certa como uma ruiva o deve fazer: em frente, que já se faz tarde e isto não chega aos netos.

 

A sorte do imbecil careca foi a bocarra do elevador se ter abreto para expelir uma data de dois matulões - valiam por muitos - a quem tinha dado uma hora antes um raspanete digno de um império. Não me reconheceram por estar à paisana – dou graças, porque de contrário suspeito que os meus sapatos não davam conta de três pares de tintins -, mas afastaram por sugestão o careca mal-encarado.

 

Se me voltam a aconselhar o estacionamento na garagem, transformo-me em sniper.  

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A Gaffe anunciada

rabiscado pela Gaffe, em 07.07.17

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Passo todos os dias por um esconso e velho café encardido que me bate logo pela manhã com um cheiro de fritos mal a porta abre para deixar passar o dono, musculado e bazófia, com as cadeiras de plástico branco da esplanada curta. 

 

A porta do café encardido serve de montra de obituários. Aparecem vastas vezes colados ao vidro os anúncios de morte. Papéis A4 onde a fotografia de alguém encima a notícia, fornecendo ao mesmo tempo, entre parênteses, as datas do início e do fim do retratado, logo seguida da indicação da idade - para evitar fazer contas -, e os agradecimentos da família que informa o local das exéquias e a data da missa do sétimo dia.

 

Já vi, colados ali ao mesmo tempo, quatro avisos, uns ao lado dos outros. Lembrei-me de eleições. Não sei porquê.

 

Sempre me surpreendeu que um café encardido e vadio tenha esta vocação, mas disseram-me que era hábito nas terras pequenas colar nos estabelecimentos anúncios de gente que passou para o outro lado de modo a que mesmo os vagos conhecidos fiquem a saber desse desfecho.

Sempre me atraíram estes anúncios tétricos que mostram gente que sorri numa fotografia tipo passe ou naquela mais bonita, que favorece, tirada por um profissional, ou a outra, que foi captada quando havia tempo para se estudar a pose.

 

Paro e leio.

 

Preocupa-me com a idade dos que morreram - as fotografias nem sempre revelam a contabilidade da vida que acabou -, como se a velhice me concedesse uma surpresa menor, de menor qualidade, de menor hipocrisia.   

Era já velho – perdoo à morte.

E era tão novo quando me deparo com o extremo oposto.

 

Nunca reconheci ninguém, mas sinto que me cruzei algures com todos. Perscruto a ruga na união das sobrancelhas, o trejeito no lábio, o desenho dos olhos, o sinal na bochecha, a verruga na testa, a mais ínfima pista que me indique o lugar onde aquela fotografia passou por mim ainda viva. Nunca os vi. Não me lembro de os ter visto. Nunca me viram. Não me lembro de os ter visto a ver-me. A vida deles passou-se longe da minha e é apenas o anúncio colado na porta do café encardido que me faz chegar ao sítio onde pararam.

 

Fico a pensar que muitas vezes, demasiadas vezes, ficamos de repente a olhar alguém que caminha ao nosso lado - vivo e ao nosso lado, regulando os passos pelos nossos, interrompendo o movimento dos braços com abraços -, e a descobrir que olhamos para um anúncio de morte colado na porta do café da nossa alma encardida e que nunca conhecemos o rosto de quem naquele instante é percebido findo.

 

Às vezes, penso que a vida é aquele velho café encardido a cheirar a fritos logo pela manhã, onde Caronte vai montando a esplanada curta com cadeiras de plástico, e que não somos mais do que anúncios que vai colando depois no vidro da porta.       

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A Gaffe portuense

rabiscado pela Gaffe, em 05.07.17

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FAZER PELOS DOIS

Quem é o outro?

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A Gaffe a latejar

rabiscado pela Gaffe, em 30.06.17

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A Gaffe, de quando em vez, e lê os jornais e e vê os bonecos. A Gaffe, de vez em quando, está atenta ao latejar do seu país

 

É uma atitude que a maça imenso, mas que considera essencial para seu crescimento intelectual - coisa que, como é sabido, eleva qualquer um, apesar de ser mais interessante ver a chuva a cair e gatinhos a miar na rede.

 

Num destes batimentos auscultados, a Gaffe ouviu Passos Coelho a exigir sentido de Estado aos governantes, pouco tempo depois de ter anunciado suicídios em Pedrogão. É evidente, meus caros, que Passos Coelho se referia a ameaças de suicídio e não aqueles que só aconteceram porque um malandreco exagerado se lembrou de os inventar. Não se pode olvidar – a Gaffe estava ansiosa por usar um termo parlamentar! – que Passos Coelho sempre foi um visionário, um profeta disfarçado de estadista. Tendo em consideração a cinza que caiu nos móveis, que dá vastíssimo trabalho a limpar, uma paisagem toda cinzenta pela frente sem uma única piscina a funcionar no verde de uma espreguiçadeira, será bom de ver que depressa deprimimos. É evidente que o sentido de Estado pode e deve anunciar o que prevê após os factos ocorridos e que pode mesmo lembrar, caso ainda não seja projecto das vítimas, que o suicídio de uma criatura já calcinada por dentro pode ser mais uma belíssima oportunidade para arrasar a Constança. Se os suicídios não ocorreram e não existe previsão de tal, podemos sempre recorrer a um paspalho que nos mentiu e cravar no lombo do diabo um belíssimo e tão jeitoso foi ele que me disse, que pode ser usado também quando Passos Coelho de sorriso careca acarinha mimosamente o eucaliptal desgarrado, ilibando o pobre de incendiárias responsabilidades. Toda a gente sabe que o eucalipto é uma plantinha fofa, com características que não assustam nada e que só arde se a Mariana Mortágua a irritar muito. Passo Coelho sublinha o facto com veemência, ateando a botânica que lhe dizem.

 

Convém no entanto reter que este acreditar duro e puro naquilo que se ouve pode, não raras vezes, produzir benefícios.

A menina finalista que sabia de antemão, por fuga de informação de uma comuna sindicalista, que o seu exame contemplaria Alberto Caaaaaaaeiro, acabou possivelmente muito orgulhosa com a classificação que obteve, embora a Gaffe acredite que quem pronuncia Caaaaaaaeiro ao nomear um heterónimo do poeta, dificilmente lerá com rigor a pauta – ou a pôta? - onde se esbardalha a sua vigarice recompensada. Como será bom de ver, tornou ao mesmo tempo dificílima a localização da responsável pelo crime, tendo em conta que, para quem diz Caaaaaaeiro, todos os sindicalistas são comunas.

 

A Gaffe - para finalizar, que tudo isto é uma maçada -, sublinha que, contrabalançando estes extremos ocupados por um dito descompensado e um feito recompensado, podemos encontrar no meio Salvador Sobral. Foi lamentável o rapaz não ter dito e feito, colocando o microfone no rabo, gaseando as suas dúvidas, mas a verdade é que até esta pobre rapariga se debruçou estúpida, parva, imbecil, a cheirar uma mentirinha musical.

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A Gaffe encharcada

rabiscado pela Gaffe, em 29.06.17

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O vento encharca o perfume das tílias. Transforma-o em baloiços largos, soltos, como uma dança de mulheres entristecidas.

Ontem choveu. Ainda existem pequenos charcos nas fendas largas das pedras.

O anjo do lago assustou as carpas que se esconderam da sua eternidade a escorregar para o dorso da água picada pelas bátegas.

Nada mais existe a não ser a mobilidade de nuvens desfeitas que se enrolam no vento.

Ontem a chuva bateu nos vidros das janelas. Pareciam dedos, a chuva, e cinzentos a azular quando era longe.

A alameda tombou de pena ou de ternura. O silêncio tem a voz da chuva a desabar na terra.

 

Se nos sentarmos direitos - a chuva exige a verticalidade dos corpos, mesmo daqueles que se sentam -, de mãos fechadas, uma sobre a outra, na cadeira que colocamos perto da janela e olharmos com muita atenção o caminho por onde se define o azul longínquo, logo atrás da chuva, vemos florir as gotas de água a esbater os contornos da tristeza.

 

Isto, claro, se não chover também nos nossos olhos.

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A Gaffe golfista

rabiscado pela Gaffe, em 28.06.17

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O desvio que se fiz no regresso a casa, depois de ter deixado o carro na oficina, foi já feito no popó do meu irmão.

- Levas o meu que eu fico por aqui. Vou depois com o pai.

                 

Há um passadiço de madeira cinzenta ao longo do areal. Faz ruídos quando o pisamos e a madeira parece estalar debaixo dos nossos passos.
Passaram por mim rapazes embrulhados em blusões de Verão e moçoilas de lenço na cabeça. Olharam e sorriram e convidaram.


Encontrei perdida uma bola de golf, branca com o símbolo da Nike sujo de verde.
Guardei-a na carteira depois de inutilmente a esfregar para lhe retirar a mancha.


Andei demasiado.

 

Havia muito vento e o mar espirrava. O meu vestido parecia uma vela de barco enlouquecido.
Passaram outra vez por mim os rapazes e as raparigas com todos os convites que eu quisesse no corpo a estremecer. Fazem sentir que estancamos o mundo inteiro quando queremos, que o nosso umbigo é centro do Universo, quando afinal não somos mais que uma bola de golf  manchada e perdida num bolso qualquer.

 

Miramar é a minha saudade mais pequena. Uma das outras, maiores, encontrei-a parada no areal a quebra o tempo vivido longe.

É colorista. Vive e trabalha em Londres desde há muito tempo. Regiamente respeitada e escravizada pela nostalgia do mar do seu país.

Há quanto tempo a não via e que saudades, meu Deus!

 

As nossas memórias, as nossas memórias comuns, misturaram-se com o vento e percebemos que as temos de modo diferente, que olhamos o acontecido outrora através de pequenas grades transparentes que alteram significativamente o que se recorda. As nossas infâncias foram vizinhas, rodeadas pelas mesmas circunstâncias, partilharam momentos, experimentaram situações idênticas, vivenciaram condições iguais, mas a memória de cada uma das duas triturou o ocorrido de maneira diversa, como se nos tivéssemos banhado no mesmos mar, pela mesma onda, esquecendo que os nossos braços tocaram a água com agilidades desiguais.  

 

Horas perdidas a colar memórias. Arrancando pequenas farpas da saudade. Tentando embeber o que era de uma no que à outra pertencia, espantando-nos ao perceber que a luz que vinha do que era recordado tinha laivos distintos e iluminava o que era agora visto pertença do passado com as cores dissemelhantes, porque mais íntimas, privadas, com que se recorta cada coração.

                                         

Duas horas infindas até ao fim da tarde. Horas doidas, divertidas e desfraldadas pela alegria.

 

- Se vais para o Porto, dou-te boleia. Continuamos este massacre das saudades!

 

Estava sem carro. Sim. Claro que sim!

Deu-me boleia.

Ao chegar, depois das despedidas, percebi tragicamente que o carro do mano tinha ficado parado perto do mar, lá longe.

 

Quando matamos as saudades convém não esquecer que as armas usadas devem pesar sempre mais que uma bola de golf guardada na carteira.  

 

Foto - Jacques-Henri Lartigue

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A Gaffe mórbida

rabiscado pela Gaffe, em 22.06.17

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Posso esperar os séculos que quiser.
O tempo vai pairar, não vai passar, não se vai escoar por entre as frestas e as frinchas do meu peito.

Hei-de entender a morte. Hei-de entender aquilo que ela quer. Hei-de sentir o rosto que escolheu para arrancar as vidas. Hei-de tocar a máscara que escolhe e que mostra uma vez só na vida.


- Mascaras-te de quê?
- De Morte, mas da minha. Daquela que me virá buscar um dia.

 

Foto - Calvin Coolidge, 1924

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A Gaffe monumental

rabiscado pela Gaffe, em 07.06.17

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A Gaffe não compreende a ira que suscita a utilização de monumentos para finalidades que não são as apensas aqueles mamarrachos.

 

O objectivo daquilo é ser monumento, o que se torna maçudo, monótono e nada proactivo. Umas coisas grandes, paradas, velhíssimas, com imensos corredores e correntes de ar, que não conhecem o conceito de minimalismo, preenchendo todos os buracos com arrebiques que não lembram a D. Manuel - e cuja única vantagem é terem o pé-direito altíssimo -, facilmente fazem com que os seus funcionários se percam! Não admira que sejam encontrados depois aflitos e em pânico nas obras privadas dos directores daquilo, ou que se esqueçam que os dois ou três mil euros que levam para casa em dias em que chove que Deus a dá obrigando o povo a fugir para debaixo dos arcos - que não os das Capelas Imperfeitas de outro paspalho a ter em conta -, pertençam à bilheteira do mastodonte e não necessitam de protecção acrescida contra as intempéries.

 

A Gaffe não entende a preocupação verificada com 20 botijas de gás incendiado nos claustros do Convento de Cristo. O Convento está mais do que habituado a fogareiros e a fogueiras, tendo em consideração os churrascos de carne de Templário a que com certeza assistiu da janela da História.

As telhas partidas e as pedras quebradas, são de pouca monta e abrem mais uma outra janela, desta vez de oportunidade. Que se aproveite o percalço e se erga um miradouro nos telhados, abençoado com um restaurante chefiado por Ljubomir Stanisic - o homem é tão atraente! - com o alto patrocínio da TVI, ou que se inaugure um SPA na sala do Capítulo, entregando a responsabilidade de o inaugurar a Rita Ferro Rodrigues. Capaz é ela e é sempre de valor acrescentado tendo em conta que até aos mortos a rapariga pede a ligação.    

 

A Gaffe sugere que se aproveite, entre tantos outros espantalhos, Conímbriga - para encontros motard com strip masculino -, o Mosteiro da Batalha, os Jerónimos e Alcobaça - e neste é de transformar os túmulos de Inês e Pedro em dois excelentes balcões de bar aberto, um em frente ao outro, para aguentar assim as oscilações ébrias dos convivas -, a Igreja de S. Francisco e a Torre dos Clérigos que facilmente albergariam raves, festivais de Verão e festas de finalistas do Secundário, porque são todos frescos, têm boa acústica e já se acostumaram ao tráfico de estupefacientes nas imediações.

                                                                                                            

É verdade que os lugares para estacionar não pululam nestes recantos. É verdade que o Museu dos Coches fica longe e não é prático retirar dali o nosso Fiat híbrido, mas o Automóvel Clube de Portugal com certeza - se bem conduzido -, repetiria a ajuda e o povo poderia outra vez esbardalhar o veículo nos pátios de qualquer um dos monos referidos.  

 

 O importante, como diria o meu querido Mexia, é haver rendas para a luz.  

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A Gaffe proletária

rabiscado pela Gaffe, em 05.06.17

 

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É mais do que certo que o povo é mal pago. A tradição vem de longe, neste país à beira-mar plantado e bem regado, e a evidência do facto tem história comprovada, sempre acompanhada por uma espécie de subvalorização do trabalho - quer por parte do que o executa, quer por parte de quem o quantifica para o recompensar.

 

Transcrição da factura que um mestre-de-obras apresentou em 1853 pela reparação que fez na Capela do Bom Jesus de Braga*

(Arquivo da Torre do Tombo)

 

Por corrigir os 10 Mandamentos, embelezar o Sumo-sacerdote e mudar-lhe as fitas

170 reis

1 galo novo para S. Pedro e pintar-lhe a crista

95 reis

Dourar e pôr penas novas na asa esquerda do Anjo da Guarda

90 reis

Lavar o criado do Sumo-sacerdote e pintar-lhe as suissas

160 reis

Tirar as nódoas ao filho de Tobias

95 reis

Uns brincos novos para a filha de Abraão

245 reis

Avivar as chamas do Inferno, pôr um rabo ao Diabo e fazer vários concertos aos condenados

245 reis

Fazer um Menino ao colo de Nossa Senhora

210 reis

Renovar o Céu, arranjar as estrelas e lavar a lua

130 reis

Retocar o Purgatório e pôr-lhe almas novas

355 reis

Compor o fato e cabeleira de Herodes

55 reis

Meter uma pedra na funda de David, engrossar a cabeleira no Saúl e alargar as pernas ao Tobias

95 reis

Adornar a Arca de Noé, compor a barriga ao Filho Pródigo e limpar a orelha esquerda de S. Tinoco

135 reis

Pregar uma estrela que caiu ao pé do coro

25 reis

Umas botas novas para S. Miguel e limpar-lhe a espada

255 reis

Limpar as unhas e pôr uns cornos ao Diabo

 185 reis

TOTAL

2.545 reis

 

Para tão largas e santas tarefas, tão curta a recompensa!

 

*ortografia da origem

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