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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe cro-magnon

rabiscado pela Gaffe, em 17.05.17

Marlon-Brando-Shaving.jpg

 

 

Não é segredo eu gostar de barbas.

 

Os homens deviam usar barba por obrigação e deviam ser encarcerados no vagão do cacilheiro de Joana Vasconcelos, algemados a Joana Vasconcelos e a ouvir Margarida Rebelo Pinto a ler um dos seus cumances, se não cumprissem o estipulado por Lei.

 

Provavelmente esta minha predisposição pilosa está ligada ao facto de todos os homens importantes da minha vida terem usado, ou usarem, barba e daí também haver à minha disposição e apreciação imensos tamanhos de barba que vão desde a lixa número três, até a uma intimidadora barba branca de cavaleiro medieval - embora não tenha memória de ter a presença do exemplar ostentado por Salvador Sobral.

 

É claro como água que usar barba não significa trocar os minutos matinais usados para um escanhoar em condições, por uma escapadela ao Facebook enquanto o pão torra e o café se faz - por norma os homens barbudos não são fãs de pequenos-almoços repletos daquilo a que chamam mariconices.

 

Usar barba é muito mais trabalhoso do que arrastar, todas as manhãs - em tronco nu, de toalha felpuda traçada na cinta, pés descalços sobre o ladrilho frio, axilas por depilar, peitorais retesados, pernas dignas da estatuária grega se o mármore fosse peludo, cabelo desalinhado e ainda a pingar nas costas, umbigo a interromper uma espinha de pelinho penteado e duas covinhas mesmo logo acima do rabiosque - e vamos lá tentar retomar a lucidez e voltar ao assunto -, uma lâmina pelo queixo.

 

Usar barba é assumir que é necessário obter um tempo realmente longo para despender no desenho, na lavagem, na hidratação, no condicionamento, no amaciar, no perfumar, no escovar, no pentear e sobretudo no aparar da dita.

 

Usar barba não é sinónimo de ter apensa ao queixo uma homenagem à Amazónia com bichos raros lá dentro. Nestes casos miseráveis, uma rapariga sente sempre muito a falta de um Centro Comercial bem desbastado onde o único animal visível é a pantera da Cartier e, lembrem-se rapazes, que acordar ao lado de um gigantesco pirilampo mágico electrocutado não povoa as nossas fantasias.   

 

Estas considerações devem-se apenas ao facto do rapagão ter tombado no jantar - depois de um exílio de quase três semanas no meio do Minho -, com uma barba descomunal.

Atrasado, ainda por cima! Se já lá estivesse, sentadinho à mesa, ninguém notava que estava vestido como se tivesse chegado de uma visita aos pobrezinhos, ao lado de Assunção Cristas, e evitava ser picado pela minha irmã:

- Tiveste dificuldade em estacionar a vaca.

Vai hoje directo - que não se atreva a tomar primeiro o pequeno-almoço -, ao António, jovem e competentíssimo barbeiro, que de armas em punho cuidará de encontrar os olhos deste brutamontes por entre o matagal cerrado e negro e decepará pelo menos metade do seu allure cro-magnon.

 

Rapazes, entreguem os queixos barbudos pelo menos duas vezes por mês a um profissional capaz de vos transformar em valentes príncipes de outras eras, sem pêlos nas orelhas e de nuca rapada. Acreditem, meus queridos, que o self-made man neste caso específico é um fracasso. Um orangotango que ao depilar-se se esqueceu que também deve atacar os pêlos que não vê.

 

Na foto - Marlon Brando

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A Gaffe de quatro

rabiscado pela Gaffe, em 15.02.17

1.102.jpgÉ cansativo a Gaffe ter de repetir o quanto gosta de rapagões com barba.

No entanto, já é novo fazer notar que para ostentar uma pilosidade facial que comove de tão atraente e nos deixa de joelhos e a agradecer aos deuses a possibilidade de enlouquecermos sem qualquer réstia de pudor, urge obedecer a determinadas condições que, contrariadas, nos plantam na frente um troglodita macabro ou, na melhor das hipóteses, o Professor Pinto da Costa.

 

A nuca peluda

Nenhuma barba resiste ao nosso escrutínio quando parece dar a volta ao pescoço. A barba tem se impor, solitária e nobre, anulando a adversidade. Não pode parecer que tem um armazém de pêlos logo atrás da montra.

 

Pêlos nas orelhas

Permitidos aos senhores que ficam muito irritados nas noites de lua cheia e interditos aos restantes que nas noites da dita nos levam a ver o mar ou a jantar em Paris com vista para o Sena. A barba não começa nos pavilhões auriculares. Nada começa aí, a não ser a vontade de nos obedecer.

 

Pêlos no nariz

Uma barba que traz apenso um bigode que se introduz nas asas do nariz, apenas nos lembra a brisa dos Verões mais amenos porque nos faz ficar sempre à espera de ver por ali sair os grilos que ali se escondem.

 

Sobrancelhas Álvaro Cunhal.

Não é de todo aconselhável usar umas idênticas às do Cristiano Ronaldo ou a do travesti do quinto esquerdo, mas é simpático que não as consigam pentear até ao infeliz encontro com os pêlos que enfeitam a nuca.

 

São algumas das mais básicas premissas que um qualquer barbeiro que se preze se encarregará de cumprir.

Ignorá-las é facilitar o coreografo dos desfiles de Carnaval de uma mimosa aldeia portuguesa e inundar de luar o tal homenzinho que se irrita.  

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A Gaffe por escanhoar

rabiscado pela Gaffe, em 05.02.16
(Paul Newman)

A Gaffe tem de confessar: caras barbudas provocam-lhe arrepios muito pouco próprios de uma rapariga recatada, embora seja necessário mais do que o desgrenhado Gandalf ou o ternurento Zach Galifinakis para que esta destravada suspeite que 10 dias bastam para transformar um idiota num possante e irresistível lenhador barbudo.

 

A Gaffe lamenta que, de acordo com o The Scotsman, 98% da lista dos homens mais ricos da Forbes estejam bem barbeados, porque talvez seja por isso que ainda se continue a aliar a barba a uma classe trabalhadora, rude, suada, demasiado exausta e empobrecida ou então a vadios e românticos flaneurs sem poiso ou ninho, mas fica mais tranquila quando os amáveis investigadores Barnaby J. Dixon e Paul L. Vasey declaram que os homens com barba não estão associados, neste momento, a qualquer marginalidade ou franja social menos dignificada ou mais desfavorecida, afirmando que são os homens de barba a possuir neste momento maior status social do que os homens bem barbeados.

(Christian Göran)

A verdade é que a barba, em tempos idos sinónimo de prestígio ou de poder, de honra, de sabedoria, de maturidade, de nobreza, e de virilidade, tem um longo caminho a percorrer para recuperar sua antiga glória. Não houve um presidente dos EUA com uma barba digna de menção desde 1893 e o tonto, enfraquecido e alquebrado Al Gore de 2001, imitando um lenhador de colarinho branco, deu apenas razão aos políticos que identificam pêlos faciais com fracasso e vergonha, embora o consultor da campanha Jeff Jacobs sugira que se John Kerry tivesse barba, talvez não fosse tão fácil para a campanha de Bush ter conseguido pintar o adversário como um pusilânime vagamente aristocrático vira-casacas.

(Ricardo Baldin)

O psiquiatra Allan Peterkin, um querido que desatou a escreveu livros sobre barbas - já lá vão três -, sugere que a partir de um ponto de vista evolutivo, os macacos machos projectam as mandíbulas porque parecem desta forma mais poderosos quando encontram inimigos. A barba amplia a mandíbula e o homem com mais folículos é geralmente lido como mais masculino.

A Gaffe acha um mimo esta razão! Mas acredita haver outras bem mais prosaicas e menos primata ancestral.

(Fabian Schweizer)

É provável que uma rapariga mal intencionada suspeite que há algo a esconder sob aquela pilosidade impecável, mas, ao contrário do que imagina, sob a densidade atraente destes bosques bem tratados existe uma pele suave, perfeita e livre de defeitos. Acne e foliculite - uma inflamação absolutamente maçadora do folículo de cabelo - são muitas vezes o resultado do uso de navalhas que podem irritar a pele. As bactérias são criaturas horripilantes também nestes casos. A barba conserva o óleo de hidratação natural do rosto e protege-o de ventos amargos. Não há vermelhidão ou secura numa face peluda.

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A barba é uma das fontes da juventude. De acordo com uma pesquisa recente da Universidade de Southern, Queensland, a barba absorve até 95% dos raios UV minimizando o risco de melanoma e atenuando o envelhecimento provocado pela oxidação da pele. Manter a barba é criar um filtro solar natural e atrasar o aparecimento das famigeradas rugas.   

Uma pesquisa realizada no Verão passado constatou que caras sombreadas por uma barba parecem oito anos mais maduras, mas não mais envelhecidas, do que aquelas que são escanhoadas. Quando a um grupo de mulheres se mostrou uma foto do príncipe William, de 31 anos, com barba, todas as raparigas lhe atribuíram uns belíssimos 36. Sua Alteza parecia mais madura, mas sem o ar cansado ou prematuramente envelhecido de quem já viveu mais do que conta.

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A Gaffe corre o risco de apelar a um cliché, mas um estudo publicado na Evolution and Human Behavior prova que a barba torna os homens reconhecidamente mais masculinos do que realmente são, sobretudo se a barba tiver 10 dias, tempo necessário para que atinja o comprimento que a torna mais atraente para as mulheres.

 

Talvez seja por causa dos espessos e barbudos rostos de homens como Ben Affleck, Sean Connery ou George Clooney; talvez seja por causa da crescente popularidade do desalinhado, mas o certo é que os barbudos continuam em ascensão e cada vez mais homens procuram complexos vitamínicos e até mesmo medicação que estimula a produção de diidrotestosterona, provocando um extraordinário aumento de vendas  - 47% este ano - de aparadores de barba na Amazon.co.uk.

(Gary Cooper)

Seja como for, a Gaffe pode andar na rua segura pela mão de um barbudo, numa tenebrosa noite escura, sinistra e aterradora. Um estudo publicado em 2011 na Ecologia Comportamental revela que os homens com barba são mais intimidantes e afastam com maior facilidade as ameaças do que um escanhoado rigoroso. Nenhum desbarbado ousará transtornar uma rapariga esperta que usa a tiracolo um matulão repleto de picos na cara.

 

Há que rentabilizar todos os espinhos que a rosa da vida contém.  

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A Gaffe no barbeiro

rabiscado pela Gaffe, em 13.10.15

barbas.jpgOs homens da vida da Gaffe - os mais sexy do planeta - usam todos barbas.

O avô, um freudiano e respeitável queixo branco que arranhava quando lhe tocávamos. O pai, uma conservadora e grisalha, ligeiramente intimidante, barba cuidadosa. O irmão uma atraente e loira versão de três dias. O Amigo mais querido, uma gigantesca e negra barreira de arame farpado e o rapagão um perfeitíssima arquitectura rasa e escura que faz escurecer os olhos pestanudos.

 

Embora esta rapariga tenha conhecido algumas senhoras que ostentavam bigode e cavalhaque com orgulho, a Gaffe acaba por se tornar uma especialista nesta área que considera essencialmente masculina.

Viveu sempre rodeada de unguentos para a barba, amaciadores para a barba, pentes para a barba, tesouras para a barba, cremes para a barba, loções para a barba e pêlos da dita no lavatório. Os homens barbudos, os homens bem barbudos, aqueles que nos fazem desmaiar de deslumbre quando aparecem a fazer sombra, tapando-nos o sol com o queixo hirsuto, são normalmente descuidados e acreditam que a testosterona que lhe rompe a cara é passaporte para o descuido e deixam sempre danos colaterais no mármore das suas pilosas ablações.

 

Há no entanto que referir que ser-se barbudo não é tarefa fácil de cumprir.

Os suportes exigem modelos diferentes.

Apesar de não contemplar toda a gama existente, um resumo ilustrado vai ajudar a escolher o formato certo. Ora atentemos:

 

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 É também interessante vasculhar no baú das tontices as denominações de origem. Uma barba não é exactamente um vinho a catalogar ou memorizar, mas embriaga da mesma forma se tiver o travo e os taninos certos.

barbas.jpgA Gaffe, como é bom de ver, gosta de barbas.

É mais do que evidente que esta rapariga é criteriosíssima no que a elas diz respeito, mas confessa a sua desavergonhada falta de exigência quando se esbardalha na frente de um barbudo – mesmo em demasia - que lhe traz o fumo de uma história de um final de Guerra, mesclado com grafismos bem patifes.

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A Gaffe florista

rabiscado pela Gaffe, em 01.09.15

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A Gaffe raramente se cansa das tolices dos meninos, mas a mimosa ideia masculina de cravar florinhas nas barbas respeitáveis, para além de ultrapassada, nunca foi de ganhar Óscares.

Umas barbas longas, se querem convencer que estão bem tratadas, não podem sugerir que têm estrume a permitir a floração primaveril dos pêlos.

Depois, não é de todo prático. É difícil um arranjo fazer pendant com a gravata e subsiste a dúvida se o miosótis condiz com a orquídea ou se a cor da margarida é complacente com a púrpura do Cairo.

A Gaffe sugere que os rapazes se deixem de florinhas ou então que lavrem os pêlos de modo a que os possam dedicar a uma agricultura biológica. Tomates cherry, por exemplo, perto da boca, podem constituir uma alternativa muito ecológica.

Uma outra das opções, a preferida da Gaffe, é a que desloca a floreira e - a Gaffe acredita -, é, sem dúvida, a que mais se identifica com estes meninos tão floristas.

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A Gaffe escanhoada

rabiscado pela Gaffe, em 02.07.15

escanhoado.jpgA Gaffe sujeitou dez dos cavalheiros que a rodeiam - número exíguo que contrasta com a multidão que de admiradores que a sufocam - a um teste matinal.

Embora tenham os dez olhado de soslaio perante o início do enunciado, libidinosos e mal intencionados, concordaram em participar no desafio tendo em conta que seria a Gaffe a avaliar os resultados.

 

Durante uma semana cinco deles teriam de se escanhoar diariamente com uma espuma de barbear escolhida por esta rapariga exigente enquanto os restantes usariam a costumeira. No final, seriam analisados presencialmente os desfechos.

 

As conclusões são as esperadas.

 

Os que se barbearam usando a espuma a que estavam habituados revelam uma claríssima diferença de qualidade na textura da pele, na sua maciez, na sua doçura, e na perfeição do cinza metálico e suave que ornamenta o queixo mais viril. Os barbeados com a espuma escolhida pela Gaffe exibem um escanhoado perfeito, macio, sedoso, uniforme e absolutamente atraente e perfumado.

 

É evidente que a Gaffe não foi patrocinada pela marca que seleccionou e esteve tentada a omiti-la. No entanto, e em nome das raparigas com pele sensível que ficam todas esbardalhadas com beijos masculinos mal barbeados, decidiu anunciá-la.

 

Rapazes, por pouquíssimo mais que três euros – na loja da fábrica os preços são irreais – conseguem adquirir o milagre aveludado e, se forem ligeiramente mais gastadores, podem obter a gama completa dos produtos dedicados às vossas matinais e higiénicas tarefas diárias.

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 Um trunfo português.

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A Gaffe de barbas

rabiscado pela Gaffe, em 05.06.15

Aiden Shaw by Stéphane Gallois for Le Figaro..jpeHoje é sedutora a mancha branca deste pequeno espaço.

Sou uma rapariga corajosa e com um espírito aventureiro de fazer inveja aos mais tempestuosos guerreiros, exploradores musculados, poços de testosterona desembaraçada e barbuda. Em consequência, é exactamente pela barba que começo.

 

Meus queridos, usem e abusem desta maravilhosa característica com que os deuses vos brindaram.

Esqueçam o escanhoado perfeito dos barbeiros vintage e deixem endurecer o rosto com uma cerrada e densa e forte pilosidade.

Esqueçam os imberbes rapazolas com pedaços espaçados de pêlo na venta e assumam toda a pujança magnífica da barba rigorosamente tratada, esplendorosamente cuidada, fechada e impenetrável que vos entrega a imagem capaz de despertar os ousados românticos, os temerários e aguerridos homens que dentro de vós se escondem e que através do enigmático sinal do rosto velado por este soberbo adereço, cativam as hostes.

 

Barba ao poder!

 

Jovens e maduros, loiros, ruivos ou morenos, saibam que 2016 é o ano dos barbudos.

Tratem-na, cuidem-na e dediquem-lhe parte substancial da vossa atenção diária. Queremos barbudos repletos de charme e não cavalgaduras com pedaços do que deveria ser digerido, nos pêlos faciais.

É evidente que poderia recomendar uma parafernália de produtos que vos deixariam deslumbrantes, mas não sou patrocinada para tal, logo deixo convosco a tarefa de vasculharem as lojas da especialidade.

 

Foto - Aiden Shaw por Stéphane Gallois para Le Figaro

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A Gaffe florista

rabiscado pela Gaffe, em 16.07.14

Todas as correntes estéticas quando duram mais do que três ou quatro Primaveras, geralmente aproximam-se do fim de modo apoteótico. Os eventuais exageros são visíveis e anunciam de forma inequívoca o estrebuchar final daquilo que invadiu e dominou e caracterizou um determinado lifestyle.

A linha que guiou o hipster pelas nossas avenidas e que perdura, resistindo muitíssimo mais do que seria de esperar, é agora contaminada por uma espécie de redesenho que tenta anular o cansaço da reprodução de imagens.

O hipster aproxima o seu allure inesperadamente andrógino da fragilidade dos pormenores que surpreendem. A barba, cuidada e aparada com a perícia de um escultor experiente, imprescindível porque é suporte da sua imagem de marca, é agora sublinhada e tornada vedeta incontestável. Presas na sua densidade, seguras no seu corpo espesso, surgem pequenas flores que Victoria Vrublevska ou Peter Yankowsky fotografam.

É evidente que as nossas avenidas não se vão transformar em canteiros ambulantes. A imagem do hipster florido não é susceptível de se espalhar por estes ângulos, mas tudo se tornaria bem mais divertido se presas nas duras pilosidades destes machos enganadores cintilassem as cores das florações.

Há no entanto que separar os jardineiros. O hipster é o exemplar de uma corrente estética, logo um aglomerado de similitudes, um grupo, uma tribo, uma colecção de semelhanças que divergem pouco dentro de um mesmo espaço circular, e não propriamente a definição de uma personalidade única, indiscutivelmente original e sem contaminação daquilo que se convenciona chamar in.

Se olhar, por exemplo, para o meu querido amigo vejo-o neste instante a brincar com as folhas do livro pousado nos joelhos e descubro-lhe o perfil estranho:

Nariz demasiado recto, quase inimigo, quase agressivo, como se a testa larga, grande, belíssima, não fosse nada mais do que o anúncio e o sustentáculo daquele declive acentuado.

A barba rasa de ónix, carrega-lhe a rudeza e a cerrada cisma.

Subitamente sei: Florentino!

Imagino-o na cidade mais masculina da Europa.
Florença, construída por homens para homens, onde David branco e nu, com a lendária pedra por lapidar na cabeça pesada, demasiado jovem, desengonçado colosso a crescer, à procura do equilíbrio anatómico distorcido ainda pelo contraste da volumetria do tórax e da curvatura do abdómen e o tamanho desmesurado dos seus pés e mãos, espera contra a pedra escura a dor que terá de sentir pelo tempo fora e que lhe foi causada pelo demente que lhe partiu o segundo dedo do seu pé esquerdo.

 

Por muitas flores que se cravem nos espaços, nenhum hipster me faz suspeitar que já o vi outrora, numa vida anterior a esta, onde num Quarto com Vista sobre a Cidade eu tinha um nome Toscano e ele era Príncipe.

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A Gaffe arrepiada

rabiscado pela Gaffe, em 25.05.14

Assumo!

A única maneira de me fazerem desistir de rapagões barbudos é apelar aos criativos que engendraram esta convincente campanha publicitária.

Assusta-me imenso beijar alguém que traz um animal peludo e ameaçador nos queixos.

Para bichos peludos e sinistros agarrados à cara das pessoas, decididos a não descolarem da ideia de me arrepiarem, já bastam os que comigo trabalham.

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A Gaffe de bigode

rabiscado pela Gaffe, em 03.02.14

Como em todos os Invernos portugueses, as multidões invernosas de 2013/14 vestiram-se como habitualmente de escuro e as avenidas foram invadidas pelo cinzento, o preto, o castanho terra e o azul nocturno, brevemente salpicados de vermelho.

As promessas de mais cor começam a aparecer nas montras e a metamorfose procura o seu início.

É o germe da alteração que se adivinha e embora vos apeteça ainda, rapazes, os envolvimentos mais seguros que absorvem a luz e o calor exíguos, não podeis recusar a mudança obrigatória.

Este Inverno prolongou a tendência de fazer crescer a barba de forma generosa, enquanto desbravava outras pilosidades mais discretas ou mais íntimas. A aproximação de tempos mais abertos sugere um moderado ataque ao que se deixou crescer durante a permanência do frio de rachar.

Alterar o rosto da estação é uma proposta convincente que não deve ser abandonada sem primeiro experimentar a leveza eficaz da tesoura da frescura.

 

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A Gaffe barbuda

rabiscado pela Gaffe, em 17.10.13
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Quando Chanel responde a uma rapariga pouco esperta, que indaga onde deve aplicar o seu perfume, com a ardente frase onde quiser ser beijada, está notoriamente irritada.

Na composição de todos os perfumes existem elementos que são adversos a determinados locais onde queremos ser beijadas. Não é conveniente perfumar os nossos segredos e jamais se poderá aromatizar os nossos desejos mais marotos sem correr o risco de os sentir a arder.

Deparamo-nos com situação idêntica quando falamos da barba.

Onde a podemos aplicar?

Responderíamos, como Chanel, onde gostaríamos de ser beijadas?

A resposta depende imenso da envergadura da pilosidade.

Uma barba pouco densa e curta é sempre bem acolhida em todos os lugares que perfumamos. Apesar do atrito, não corremos o risco de a ver abrasar as nossas geografias dos aromas e, mesmo arranhando, há sempre panaceias apensas ao culpado. Basta que saibamos encontrar o antídoto nas margens que ficam isentas de pregos e estiletes.

A barba densa, poderosa e vasta, coloca alguns problemas de locomoção. Podendo ser crispada, não desliza suave nos perfumes e implica o uso de uma bússola, controlando o Norte e Sul das viagens encetadas onde queremos. Se aflora apenas o desejo, pode obrigar a um controlo mais firme do riso que provoca o seu tocar nas planuras mais dadas a divertidas cócegas.

Como um perfume, a barba pode não ser fácil de aplicar em todos os lugares que queremos sentir beijados, mas podemos sempre escolher o lugar onde um beijo nos chega com o atrito de um perfume.

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A Gaffe tipografa

rabiscado pela Gaffe, em 13.08.13

A vossa barba, rapazes, é sans serif? É o vosso bigode a Bodoni, a Times New Roman, ou a Comic Sans? Que alianças tipográficos tem a vossa barba? Qual a vossa fonte favorita?  

Estas são as perguntas feitas pelo Guia Beard, a famosa tipografia, que resulta num gráfico bem-humorado criado por  Christian Goldemann, em que 25 estilos de arranjos de pêlos faciais populares são atribuídos a uma fonte com base em seu layout e características de seus folículos.

Questionado por  Co.Design sobre o que permite concluir uma aliança entre uma fonte e uma  barba, o designer gráfico Stuttgart é o primeiro a admitir que realmente não o pode explicar em palavras.

- Para a maioria dos estilos de pêlos faciais, peguei nas fontes com base na forma da barba ou a pensar se uma determinada pessoa que usava esse tipo de barba teria favorecido uma determinada fonte – diz  Goldemann e continua -  mas é mais do que apenas ligar uma certa barba a uma determinada fonte. Não há nenhuma fórmula específica.

No entanto, todos os rapazes barbudos podem facilmente intuir o método por trás da loucura do Guia Beard. Um bigode liso, como o John Watson gostava de usar, fica emparelhado com a fonte Baskerville, por causa da conexão de Sherlock Holmes. A barba estilo Darwin é o reflexo da fonte sensível e elevada Hoefler Text (o que parece ser uma fonte que apaixonaria Darwin). A Old Dutch torna-se o bigode e a barba menos justos. Franklin Gothic usa um prim, bigode húngaro exigente. Flamboyant e Zapfino, obviamente chamativas, reflectem no encerar da Dali antes de fazer uma aparição onde quer que seja. Helvetica Neue é o avatar tipográfico de Frank Zappa. A barba da escolha de Rasputin, será a Garibaldi. Quanto ao lendário pornstache? Que outra fonte transmite com precisão a sua oleosidade, a sua confiança equivocada, sua sensualidade desprezível melhor do que Fago?

Parece evidente que Verdana é a ausência de pilosidade facial.

Há outros pares que não são necessariamente tão óbvios. Por exemplo, um Cavanhaque egípcio está emparelhado com Clarendon, uma combinação de fonte-barba que só faz sentido se pensarmos que Clarendon é um serif laje, ou seja, uma fonte estilo egípcio. Balbo e Bembo parecem fazer par em consequência apenas das suas semelhanças tipográficas agradáveis dos seus nomes e algumas combinações são difíceis de descobrir (a Futura emparelhando com ZZ Top é surpreendente, na melhor das hipóteses).

Para a maior parte, porém, o Guia Beard tenta não fazer colidir as vossas expectativas internas do tipo de barba aliada que usam e as fontes que vivem dentro dos computadores e que são da vossa preferência.

Podem, rapazes, a partir daqui, tatuar a palavra bigode no vosso lábio superior na fonte exacta que o reflecte.

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A Gaffe com barbudos

rabiscado pela Gaffe, em 16.03.13
Como todas as raparigas espertas que se preocupam com o estado da pele e tendo em conta que parece ser inevitável a proliferação de barbudos, absolutamente divinais, indago, junto de um querido amigo que ostenta neste momento uma barba digna do século XIX, belíssima como asas de corvo, macia e sedosa, pronta a passear no nosso corpo sem deixar qualquer tipo de irritação, quais são os segredos que sustentam a perfeição de um prodígio piloso daquela envergadura.

Responde que é essencial o encontro de um velho e sábio barbeiro. Os que rondam os oitenta anos são os mais perfeitos e os mais aconselháveis. Os que trataram da barba do Czar Nicolau seriam os privilegiados, mas para além da Revolução os ter deixado sem cliente, são dificílimos de achar.

Depois, a qualidade dos produtos usados na manutenção desta exuberância são de importância capital.

Envia-me, gentil como sempre, a marca da gama que usa, acompanhada por um minúsculo panfleto donde retiro e dou o que recebo.

Não faço ideia onde se localizam os pontos de venda, mas uma rapariga não vos pode habituar a cómodos mimos preguiçosos.

Rapazes, se ambicionais viajar barbudos pelo corpo de uma mulher, sem que ela pense que há demasiados cactos no veículo, é de todo aconselhável que procureis aveludar os espinhos.

 

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A Gaffe e os barbudos

rabiscado pela Gaffe, em 14.09.12

(Fabian Nordstrom por Daniel Jaems)

Rapazes, não há fuga possível!

Todas somos bombardeadas (e adoramos) por imagens de homens com barba descomunal e impecável e cabelo que faz recordar as páginas de um romance onde o herói é digno de figurar como imagem paradigmática do aventureiro mais romântico.

A tendência não se vai atenuar. Será aconselhável, meninos, dar início ao plano B, ou seja, abandonarem por um tempo considerável as lâminas, as máquinas de barbear, a depilação a laser e as minuciosas pesquisas de pilosidades inconvenientes e assumirem a vossa testosterona, libertando o troglodita sofisticado que há em cada um de vós.

Embora avessa a qualquer tipo de imposição, ilógica ou repleta de razão, tenho de admitir que me agrada este allure vagamente bruto e com travo machista, encantador porque tão inútil como os similares.

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