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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe oferecida

rabiscado pela Gaffe, em 09.01.18

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Estes primeiros e intermináveis dias do ano foram sábios.

 

Vivi-os a confirmar a facilidade com que damos tudo por quem faz parte da nossa vida, por quem amamos, a quem habita a nossa alma. Sabia que por amor se torna instintiva a dádiva. Não é necessário desenrolar papiros, digitar teses académicas ou fazer rimar amor com qualquer outra dor, para nos apercebermos que a entrega de tudo o que temos se faz no instante em que nos reconhecemos no outro.

 

Não sabia ser possível que por amor se consegue dar o que não se tem.

 

Vivi estes primeiros e intermináveis dias do ano junto de um Amigo.

Um imenso Amigo que, por circunstâncias que são reservadas, viu pretensamente em perigo a vida de quem constitui uma das suas escassas ligações ao mundo e uma das suas raras ligações com os sentidos.

 

Urge dizer, para que se entenda, que este magnífico homem foi tocado pelo prenúncio do autismo que, por circunstâncias aleatórias, insondáveis, inesperadas, o aproximou da genialidade, aproximando-o ao mesmo tempo de Asperger.

O facto amputou-lhe as previsíveis apetências sociais, dificultando ou mesmo impedindo a descodificação de signos sociais, a leitura de emoções alheias, a capacidade de interagir fora de um círculo de um rigor próximo do científico, isento de metáforas - embora seja capaz de nos paralisar quando revela as ligações que produz dentro da alma -, restringindo-lhe os universos de emoções que em nós tropeçam a cada instante e diminuindo-lhe significativamente a capacidade de resistir a agitações, sensações, perturbações e desordens que, nele labirintos, o deixam preso a um solidão vinda de dentro e que não tem lugar no mundo habituado a solidões presas em redes sociais.

 

O que consegue depois, e fora disto, é ilimitado.

 

Por circunstâncias aqui irrelevantes, este genial gigante viu ameaçada a vida de quem sente que ama - sentir que se ama e amar, não são aqui a mesma coisa, sendo que o sentir é a consciência do facto e por inerência, um acto racional que mistura a raiz com o paradoxo, a verdade que se conhece, o real passível de ser experimentado, a razão sobreposta à emoção sem a aniquilar ou secundarizar.

 

A brutalidade, a rispidez, a antipatia quase ofensiva, a distância inquebrável e intransponível que o separa dos outros, a indiferença ou a severidade com que olha o que o rodeia, a impossível admissão do toque físico ainda que social e inócuo e a aspereza com que interage com o desconhecido, abriram-lhe na alma um poderoso buraco negro onde nada existe que não seja defensivo.

 

Estive ao lado do meu Amigo estes primeiros e intermináveis dias do ano e aprendi que é possível que por amor se dê o que não se tem.

Aprendi com ele, ao vê-lo - mesmo sendo ele a antítese do visto - que por amor se amortece o som da voz; se agarra, se amacia, se protege e se afaga  a mão de quem se ama durante o tenebroso período de tempo que dura uma ressonância magnética; se é capaz de seguir com uma doçura infinda a agulha que vai recolher pedaços de pavor; se consegue ouvir com dedicação extrema as definições clínicas, os relatos de casos idênticos e os relatórios que se não entende; que se encontra a leveza de uma conversa banal, inadmissível outrora; que se é capaz de beijar com um sorriso transparente o médico que afasta o terror adivinhado e que se está de súbito apto a apertar num abraço os que nos devolvem a alma.

 

Nestes primeiros e intermináveis dias do ano, aprendi que se é esperado e certo que por amor se dê tudo o que se tem, é por amor que entregamos de mãos todas abertas o inalcançável deslumbre do que em nós está ausente.  

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A Gaffe para 2018

rabiscado pela Gaffe, em 29.12.17

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Foi o desprendimento de David, de Miguel Ângelo, que me avassalou.

Foi a tranquilidade subtil do segurar lasso da funda desarmada, a ausência de fúria no movimento sem sonoridade, os flancos num desequilíbrio de sensualidade quase provocadora, o peso pousado numa perna que obriga o corpo - peso pluma - inteiro a desenhar um arco delicado de serenidade inesperada e a quietude pacífica, imprevista, dos músculos perfeitos, que me fizeram crer que o guerreiro se centrava apenas no olhar.

Em David, apenas o olhar contém violência. Tudo o resto é a escultura de uma batalha que findou, a impassibilidade do vencedor, a certeza da inutilidade do combate.

 

Talvez David retenha por isso uma estranha espécie de feminilidade discreta, quase imperceptível, que atrai porque o satura de impenetrabilidade, como se fosse um segredo, ou um mistério.

 

Creio que é num labirinto de hesitações, de dúvidas e de incertezas que acabamos por desejar desesperadamente tombar. Necessitamos dos vórtices, dos vendavais, da voragem das angústias e dos medos, do talento para derrubar espectros e erguer quimeras, da velocidade doida com que cobiçamos os mais ínfimos mecanismos, as minúsculas roldanas, os mais escusados apetrechos que permitem a trepidação que nos entrega a aparência de estarmos realmente vivos.

Não sabemos parar. Não conseguimos parar.

 

Talvez por isso David nos deslumbre. Não espera nada.

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A Gaffe por iluminar

rabiscado pela Gaffe, em 19.12.17

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George Steiner é indiscutivelmente um dos maiores pensadores do planeta e é também, e não menos importante, um dos meus ídolos.

Numa palestra longínqua, contou uma lenda, porque gosta de lendas e porque desejava clarear o seu raciocínio - já tão claro! -, com uma analogia simples que procurasse ilustrar o seu labirinto aberto com palavras.

 

Num palácio com duzentas janelas, todas as noites o príncipe ordenava que uma vela se acendesse em cada uma. Dessa forma, a sua princesa deixaria de ter medo da noite no jardim por onde deambulava à procura da lua coberta por véus de névoa escura. Bastaria à sua princesa a certeza das duzentas janelas que velavam o seu vaguear. Pelas noites dos tempos, nas janelas do palácio uma vela ardia.

Em todas, menos numa.

Das duzentas janelas do palácio, uma ficava por iluminar. A primeira vela a ser acesa extinguia-se enquanto o camareiro se ocupava da última. Era essa precisa janela o medo da princesa.

 

Não sei - pecado meu e má fortuna -, a razão exacta que levou Steiner a referir a lenda, mas a grandeza do sábio permite que humildemente arraste para o meu minúsculo nada o que com certeza tem dimensões não mensuráveis.

 

De todas as janelas nocturnas que avistamos - ainda que brandamente clareadas -, que seguram e afastam os nossos medos, a única que conta é a que se apaga e por muito que tentemos iluminar duzentas, haverá sempre aquela que se extingue no momento em que acreditamos ter brilhante a última que fará a noite dos que adoramos, se transformar em dia.

 

Ilustração - D. Merriman

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A Gaffe branquela

rabiscado pela Gaffe, em 04.12.17

Fernando Vicente

Com o intuito de me insultar, e tendo sido esgotado o stock de pilhérias mais ou menos graciosas, chamaram-me branquela.

Reportavam-se, como parece evidente, ao meu tom de pele, embora seja plausível que se tenham referido à minha capacidade de ser imaculada. É sempre aceitável hesitar perante os ditos de uma criatura cujas oscilações mentais fazem sombra a Faucault.

 

Confesso que me surpreendi. Não porque me tenha sido revelada como inevitável a coloração da pele das ruivas, não porque me tenha alguma vez provocado desgosto não poder encarnar a escaldante personagem de Bizet -  nem sequer é uma das minhas óperas favoritas -, mas por ter dado conta do extraordinário equívoco que é a imagem que acreditamos ser a nossa e que tentamos a todo o custo transmitir aos que nos olham.

 

O virote que foi disparado, supostamente para me diminuir, partiu da besta - arma, e não qualidade do seu possuidor -, de uma criatura acérrima defensora da diversidade planetária, da harmonia racial, da comunhão de cores, da dos pretos, dos amarelos, dos vermelhos - com algumas reservas de índole política -, da multiplicidade e da publicidade da Benetton, mas que foi capaz, num pequenino acesso de raiva, de recuperar a herança medieva, permitir que o ar cheire a chamusco e transformar numa acendalha o tom de pele de alguém que está a ano-luz de conhecer.

 

É extraordinário como este retrocesso revelador é detectável também quando a mesma criatura se ouve e se deixa ouvir aos gritos, levantando as bandeiras da defesa dos direitos dos homossexuais e, em segundos, se torna capaz de cuspir a palavra gay com a velocidade do insulto que procura a cara de alguém, mesmo que a orientação sexual da suposta vítima lhe seja desconhecida, ou, unindo-se à multidão de mulheres espoliadas, sacando do peito palavras de ordem irritantemente feministas, desliza no charco do estavam a pedi-las perante as sucessivas revelações de assédio que vitimiza um grupo de mulheres até ali incensado, ou ainda aplaudindo, galhofeira e cúmplice, o misógino macho que comenta os larilas e ridiculariza a indignação - sentida como exagerada - que coadjuva a condenação do estupro.

 

A camada de cimento que se deseja visível - e coberta de luzinhas de Natal, de maviosas intenções, de brilhos de conceitos sem preconceitos, de humanas qualidades, de impolutos desígnios, maravilhosos anelos de concórdia e de bondosas e tão justas motivações -, pesa sobre uma bolha de mediocridade inacreditável que é capaz, não raras vezes, de perfurar as paredes que a pretendem esconder e fazer com que um nódulo seja visível. É quando sobrevém esta pontual contaminação da superfície pelo que se esconde, que nos é permitida a visão total destas criaturas e é nesse instante que nos apercebemos que a mistura entre as duas náuseas, não é detectável pela criatura onde a reacção ocorre que, numa espécie de duplicidade patológica, a ignora por completo.

 

Suspeito que mais corruptores do que os grandes monstros do grande preconceito que nos ensinaram a reconhecer, são estas minúsculos seres pintados de arco-íris, mas que acreditam, no escurinho das luras e das covas e buracos que vão foçando na vida, que a cor de pele de uma ruiva é um insulto.                  

 

Ilustração - Fernando Vicente

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A Gaffe errada

rabiscado pela Gaffe, em 29.11.17

Erro

 

A propósito do deslize cantante referido no post anterior, em que se anota a flexibilidade oportuna do acto de se ser solidário quando aliada ao jogo onde a carta do politicamente correcto vale mais que o Ás, recebi um comentário anónimo - que me apraz não permitir que se deposite nestas avenidas, tendo em conta que de cocós por apanhar já anda o mundo exausto -, exercendo sobre as minhas débeis e diáfanas vestes, uma violência digna de carrasco de Revolução Francesa - ou bolchevique, que não sou esquisita.

 

O douto conjunto de parágrafos recebidos informa-me que os erros são humanos.

Nada a opor.

Errar é humano. Às vezes até é divertido. Volta Tony, que estás perdoado.

 

No entanto, a versada anónima - refere-se no feminino - reporta-se aos erros semânticos, morfológicos e sintácticos que, como declara sapiente, são comuns aos grandes génios da literatura universal, apanágio do cânone literário, acervo da Grande Biblioteca e comuns, banais, vulgares em cada página que folheamos, não raros em Camilo, Eça, Nobre ou Pessoa, passando por Saramago ou Agustina e lobrigando os outros com o tamanho do que avistam.

 

Aqui - e sem qualquer remoque à condição da comentadora - é que a porca torce o rabo.

 

É evidente que toda a gente sabe que os manuscritos de Pessoa estão pejados de erros ortográficos, que existem incongruências na obra de Agustina, que Saramago desobedece a normas gramaticais, ou que Lindley Cintra tem uma apoplexia na frente dos erros de Lobo Antunes e de outros tantos génios literários.

O que os distingue é exactamente esta última palavrita. A genialidade. Os autores referidos - e outros que se omitem por preguiça -, usam as palavras usadas, gastas, velhas, carcomidas, quotidianas, banais e corriqueiras, na construção de frases nunca ouvidas, nunca lidas, maravilhando-nos com a força descomunal com que conseguem mudar-nos a vida. Operam milagres com a palavra. A arrogância, a teimosia, a inflexibilidade do ne varietur, a displicência com que o erro é acolhido, a insolência com que brindam a falha cometida, o desprezo com que embebem toda a correcção, são diluídos pelo demonstrado e comprovado conhecimento profundo da língua, das suas potencialidades semânticas, do seu acervo vocabular, das suas produções passadas e sobretudo da consciência da grandeza da obra que nos entregam. Não deixam de ser erros, não deixam de ser desvios ou transgressões à norma gramatical em vigor, mas, nestes casos, para lá da língua, existem constelações, galáxias, universos inteiros de personagens, de espaços, de tempos e de acções que de tão densos e incontáveis e perfeitos lhes entregam a possibilidade de ruptura com a regra e que nos exigem a humildade de nos calarmos perante o que não sabemos.

As opções linguísticas, as voluntárias escolhas de fonemas e de grafemas, as infracções às regras, ou as transgressões metalinguísticas ou paralinguísticas destes génios, não nos permitem a ousadia e a falta de vergonha de nos ilibarmos dos erros que vamos grafando, não nos justificam as calinadas, não nos autorizam a espalhar cocós naquilo que tentamos rabiscar. Não nos ilibam. Não nos abrigam.

 

Sei que provavelmente vou causar um desgosto imenso a todo o planeta, mas sinto-me na obrigação de dizer que não sou perfeita.

Dou erros.

Comprovo-o, para acalmar os que duvidam:

Uma mulher qualquer, há tempos que já lá vão, num blog entretanto falecido, transcreveu na integra um rabisco meu assinalando a vermelho - como mandam as regras do bom mestre-escola -, os erros que tinha cometido.

Apesar de não consubstanciarem descalabros, pois que se relacionavam com concordâncias mal efectuadas – do rapariga, ou do estações -, não deixavam de ser erros. Humildemente, pacatamente, envergonhadamente, corrigi. Não tive a coragem e a hombridade do meu querido amigo que ao se dar conta, semanas passadas, que tinha escrito iminência no título de um post, apagou irreversivelmente o blog, mas temi pela minha sanidade intelectual e corei de embaraço. Não me justifiquei com a sombra da ilusão patética de ser livre de amarras como Saramago, ou de ter o privilégio de adaptar grafias como Lobo Antunes. Tenho consciência da minha irrisória pequenez e sei, com a certeza da morte, que é vil e mesquinho o que vou debitando, unindo palavras. Não tive a desvergonha imbecil de me aproximar dos pés dos génios, clamando e reivindicando a liberdade criativa, a disrrupção linguística, a transgressão ortográfica, que os seus desmesurados talentos ousam permitir.

 

Limitemo-nos a cuidar com desvelo e atenção, o melhor que soubermos, do quintalzito que nos coube em sorte, porque declarar - do alto de um post muito baixinho - que os nossos erros ortográficos se abrigam debaixo do mesmo telhado daquela liberdade que é apanágio da genialidade literária, é o mesmo que ter um burrito a zurrar até ensurdecer, apenas porque ouviu nas torres do palácio, no meio das orquestras, um Dó menor a mais.

 

Meu caro anónimo, o Memorial do Convento não é um post.*

 

Pode não se validar o contrário.

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A Gaffe de M&M

rabiscado pela Gaffe, em 24.11.17

 

Uma mulher pode parecer escandalosamente ingénua e sensual ao mesmo tempo, basta que também pareça que acabou de sair de uma batalha. Então, como diria Mae West - uma rapariga esperta e experiente -, será excessivamente boa e ser-se boa em demasia é maravilhoso.

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A Gaffe de Monet

rabiscado pela Gaffe, em 23.11.17

F. Vicente

Li, há tempos que já lá vão, um Tratado do Riso.

 

Um livrinho que não me despertou especial interesse e que não deixou rasto do autor. Não era com certeza um dos clássicos que sobre o riso deixam tombar a negritude pesada das suas reflexões, porque recordo que o considerei passível de ser lido enquanto se espera pelo avião.

Apesar do facto, a obra não deixava de ser curiosa, enumerando com algum afinco, segundo o autor, as razões que originam o riso, apontando - entre tantas e muitas -, o engano, a desconformidade, a deformidade, a dissonância, a desarticulação do real, o equívoco, as ocorrências que se deslocam da norma a que obedecemos e as situações que embora dissemelhantes são assimiladas como idênticas e lidas como consequentes, ocasionando o mal-entendido.

 

Admito que nunca me aproximei das razões que originam o riso. Prefiro vivê-lo sem razão. No entanto, a fantástica rapariga aqui ao lado espicaçou-me a curiosidade, provocando o meu encontro com a maldade que é sempre susceptível de provocar o riso.

 

Rimo-nos sobretudo do mal. Invariavelmente. Do mal feito, do mal acabado, do mal compreendido, do mal formado, do mal comportado, do mal educado, do mal elaborado, do mal explicado, do mal controlado, do mal conduzido e de todos os males que a vida produz. Rimo-nos de nós, que estamos errados. Suponho que o riso funciona em todos estes casos como escudo protector e mesmo o reconhecimento - risível, ele também - do erro, seja ele qual for, é capaz de nos couraçar de gargalhadas, evitando um provável colapso.

Rimo-nos, porque procuramos incessantemente o equilíbrio, a estabilidade, a normalidade, a transversalidade e a certeza de que estamos integrados num sistema coeso que rege uma panóplia de roldanas que fazem mover o quotidiano seguro, perceptível e inteligível. É ameaçadora a eventualidade que abala, afronta ou desconexa a nossa leitura comum do real e, talvez por isso, uma gargalhada se transforme tantas vezes num murro.

Perante a desordem, que deixa o não racional abalar as conexões que temos com o real normalizado, atamos o riso às margens do lógico e esperamos estar seguros do outro lado do que sentimos errado.

 

Quando a minha prima, pela Avenida Brasil - numa das suas raríssimas incursões pelo pensamento, travava comigo uma pequeniníssima batalha no campo de guerra dos Impressionistas atacando com o pincel do rímel todo o sol levante -, tropeçou numa beata de cigarro - uma rapariga de boas famílias comporta-se como a princesa ervilha, de quem, aliás, é descendente directa - saiu disparada no meio de um das meus eloquentes argumentos a favor de Monet - que ficaram, Monet e argumento, parvos e suspensos, na ausência repentina de interlocutora -, projectando com uma velocidade estonteante um dos Manolo Blahnik que atingiu um olho do Homem do Leme; provando à plateia que tinha um gosto irrepreensível na escolha das cuecas; entregando ao espectador a certeza de que era merecedora da medalha de ouro em voo em comprimento e demonstrando, para além de tudo, ser possuidora de um talento imenso como imitadora de gaivotas esgrouviadas, confesso que só depois de a ver aterrar alguns metros depois e já com a carteira nos dentes e colar enrolado nas orelhas, consegui controlar o riso, travando a quase asfixia que me vinha assolando deste o exacto instante da descolagem da pobre esbardalhada.

 

Seja como for, e pese embora toda esta inútil teoria, depois de se erguer, a rapariga fez como o sol em Monet. Levantou-se e brilhou.

O riso uniu os opostos. 

 

Ilustração - Fernando Vicente

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A Gaffe pede desculpa

rabiscado pela Gaffe, em 14.11.17

 

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Pedir desculpa é, há muitíssimo tempo, considerado um acto nobre.

A ponte cai matando uma quantidade de gente absurda, o ministro demite-se pedindo desculpa. Um acto de grande nobreza. O país incendeia-se e queima gente, a ministra não se demite e o governo não pede desculpa. Uma falta de nobreza. O Presidente da República apresenta condolências e pede desculpa. Tão nobre. Uma bactéria mata nos hospitais, o ministro pede desculpa. Nobremente.

 

O acto de se pedir desculpa chega com gola de arminho e manto de veludo escarlate. Traz o ceptro da grandeza de carácter numa das mãos e os brasões da elevação de alma na outra. Exige-se o desfilar compassado e grandiloquente do corpo da desculpa pelos corredores das nossas vidinhas. Deslumbrados pela nobreza exibida, aclamamos e reverenciamos o brasonado como capaz deste acto que parece exclusivo do gentil-homem e que lhe revela o cume de um carácter de Evereste e uma alma fidalga.

 

Pedir desculpa é sempre a revelação de uma falha. O reconhecimento de um erro e a assunção da vergonha de ter sido cometido e de sermos responsáveis pelo facto. Nada há de aristocrata - nem de plebeu -, numa atitude que deve ser comum a todas as gentes - a todas as classes, mesmo as definidas pela Idade Média e que, digam o que disserem, perduram ainda.

A atribuição de um carácter nobre a um pedido de desculpa é tão imbecil como o apaziguar da indignação popular quando os grandes infractores assomam à varanda do palácio e confrangidos acenam com os lenços choramingas das desculpas. Se os grandes vigaristas deste mundo abanarem na frente dos olhos dos lesados a alegada nobreza de um pedido de perdão, serão por norma julgados com uma condescendência bem maior do que aquela que é concedida aos inocentes apanhados pelo ladrilhar da trafulhice.

 

Pedir desculpa não engrandece, nem diminui. É um acto inseparável da condição humana. Existe, porque existimos e porque existimos, pensamos - e porque pensamos logo somos, diria o velho sábio se pudesse.

 

Após a admissão do erro, logo se verá.

 

Posto isto, a Gaffe apresenta-vos o maravilhoso atleta checo Jan Kudlička e avisa-vos, meninas, que apesar de não ter grande talento para as línguas, a primeira desavergonhada que se meter à sua frente, apanha com um dicionário na nuca.

A Gaffe pede depois desculpa.

É uma aristocrata.

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A Gaffe digitalizada

rabiscado pela Gaffe, em 06.11.17

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Quando dei por finda a minha página no facebook  - uma belíssima página, devo acrescentar, com um maravilhoso tratamento de imagem e inúmeros macaquinhos -, disseram-me de olhos esbugalhados pelo espanto, que se não alimentasse aquele cantinho, assassinando desta forma uma quantidade de likes e de amigos, não existia.

Naquele momento, confesso que atribui a desfaçatez do dito à instabilidade hormonal da autora que à data tentava enfurecida dominar a oleosidade da pele. No entanto, fui posta há dias perante as imagens de uma agressão bárbara às portas de uma coisa nocturna, o Urban Beach, e soltou-se no cérebro o eco borbulhento do que me haviam dito.

Aliei esta experiência de cariz paranormal, à visão de duas crianças de pouco mais de quatro anos que almoçavam com a família no mesmo restaurante que esta rapariga aparentemente inexistente e à de uma adolescente na mesa do canto sorvendo a sopa ao lado dos pais.

As crianças, que revelavam um comportamento irrepreensível, mimoso, fofinho e adorável, foram colocadas na frente de um monitor onde de imediato colaram os olhos e calaram todos os movimentos e sinais vitais, dando oportunidade à mãe de lhes ir enfiando o garfo nas bocas sem perder pitada da alegre, embora discreta, discussão erguida pelo tão saudável convívio familiar. A adolescente levava a colher à boca curvada sobre o telemóvel onde se adivinhavam a cor e o grafismo das páginas facebookianas, enquanto os pais miravam em silêncio a paisagem urbana e as minhas pernas quando entrei. O resto da refeição foi constantemente intervalado com uma consulta exaustiva às novidades dos murais.

 

Esta aliança da visão de uma passividade inumana das testemunhas da agressão numa coisa nocturna e três criaturinhas suspensas num monitor, foi perniciosa.

Percebi que aquilo que ecoava no meu cérebro, vindo dos confins do esquecido, consubstanciava uma verdade incontornável. Sentimos no Facebook, estamos no Instagram, indignamo-nos no Twitter, passeamos no Pinterest e trocamos de insanindades no youtube.

Somos o que para nós olha através de um vidro, somos o objecto inanimado que vai produzindo digitalmente uma individualidade, um indivíduo com um código binário em vez do outro, um algoritmo que absorve todas as nossas emoções, revoltas, indignações, frustrações, empatias, conquistas, alegrias, erros, quedas, vitórias e tudo o que mais há capaz de nos tornar donos daquilo que nos enforma a alma que vai deixando desta forma de mensurar o mundo pelo pulsar do coração, medindo-o pela quantidade de cliques que visualiza.

 

A desumanização do real e o galopante apagar do real fora de um visor, não se confinam a estes factos, mas estes factos originam indubitavelmente a ausência de resposta à barbárie. Não vemos a maior das abjecções e não reagimos aos mais escabrosos atentados à dignidade humana e não impedimos o opróbio e a infâmia, porque vai deixando de existir o tempo real, o tempo da empatia do instante e do instante de empatia, o tempo do acontecimento testemunhado pelo nosso corpo presente e pela nossa capacidade de condenação imediata do erro imundo cometido perante os nossos olhos sem artefactos digitais.

Sentimos depois através do teclado, ou libertamo-nos através do indivíduo que somos digitalmente e é da mesma forma que arriscamos todas as outras emoções de natureza e verdade mais solares, porque permitimos que surjam no monitor vividas pelo indivíduo que ali somos e morremos digitalmente se negarmos a entrega do que resta a um login e a uma password. Morremos duplamente, pois que já não somos sem as redes sociais.

 

As duas crianças continuam sem ver e sem ouvir o barulho da vida fora dos seus bonecos animados e a adolescente fotografou a sobremesa. Possivelmente aplicou um filtro ao doce da casa antes de o comer no facebook. Não existe o que tem à frente.

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A Gaffe assediada

rabiscado pela Gaffe, em 03.11.17

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Sempre considerei que uma mulher que luta pela igualdade entre géneros, é uma mulher sem ambição.

 

Nunca foi minha intenção ser igual aos homens. Jamais foi meu plano equiparar-me ao senhor que na minha frente bate com os joelhos na barriga quando cruza as pernas, de rabo alapado na poltrona dos poderes. Não quero a igualdade apregoada pelas caricaturas do feminismo que grassam nas redes sociais, que se cruzam comigo nas ruas e me conspurcam o sossego límpido da minha pacatez segura pelos ferros do que quero e pela certeza de que o machismo - e mesmo a misoginia - é apenas mais uma ferramenta de trabalho que nos é entregue e que pode servir os intentos das mulheres bem melhor que um panfleto feminista de pacotilha.

 

Sou indiscutivelmente uma mulher. Quero ser mimada, apaparicada, protegida da chuva, levada ao colo para atravessar a lama, receber gigantescos ramos de flores no amanhecer de um pequeno-almoço de lençóis de linho, ser considerada frágil demais para mudar um pneu que suja imenso as minhas mãos angelicais, ter asas que despertam a Poesia e - entre o mais que me cansa descrever - ser defendida das bestas por um musculado gigante bem barbudo. Não quero que se descartem estas obrigações masculinas em nome de uma igualdade de pantomima. Não quero sentir as obrigações, os deveres e as regras instituídas que fazem a tradição do macho/cavalheiro, esbatidas ou diluídas, porque sou mulher e logo igual e imediatamente tratada como se tivesse uma pila no cérebro antoniodamasiano.

Não quero.

Quero, isso sim, que os meus direitos solidifiquem. Poderão eventualmente distar daqueles que a mulher do quinto esquerdo decidiu que seriam os dela, mas convém que os dela recebam igual deferência e reverência.

Quero - à laia de exemplo -, ter o direito de usar o véu islâmico no centro dos que sabem em Paris, apenas porque me fica bem ou porque me converti; quero que a senhora do andar de cima use saias terríveis e apertadas sem que lhe digam que sabia para onde ia quando foi atingida pelo escarro das palavras do troglodita da esquina; quero levar para a cama todos os amantes que desejar sem me sentir, através dos outros, maldita, mal dita e culpabilizada; quero ser virgem o tempo que quiser, quando e enquanto assim o decidir; quero mover-me sem peias nas decisões que deslocam montanhas, sem que os ratos paridos o sejam por mim; quero ser livre sem que me aborreçam com a treta da minha liberdade acaba quando começa a dos outros.

Não quero ser igual aos homens. Não quero ter os mesmos direitos. É um tédio. É limitado. É circunscrito. A falta de ambição levada ao extremo.

Quero ter os meus direitos. Se os adquirir e preservar, com certeza que contribuo para a preservação e solidificação dos alheios.

 

É evidente que encontro abrolhos.

 

A beleza de uma mulher e o poder que adquire - sobretudo o simbólico -, são demasiadas vezes engulhos que contradizem e negam de modo ínvio os direitos que reivindica - e estes direitos são sempre subjectivos, metamorfoseando-se e amadurecendo de modo diferente em cada uma de nós -, e é quase circense, de uma mediocridade quase trágica, apercebermo-nos que são demasiadas vezes outras mulheres que negam e boicotam a Mulher e lhe arrimam a primeira pedra, embora seja polido e eivado de moral e bons costumes esconder a mão - e não refiro Donna Karan, porque sinto pena.

 

Os casos que vão surgindo e que nos informam da miríade de atentados, assédios, violações e estupros cometidos por machos hollywoodescos sobre mulheres belíssimas e detentoras de um capital simbólico significativo, são subvalorizados, porque - li eu, escrito por mulheres - uma grande parte das ofendidas sabia para onde ia. As vítimas destes crimes são assim prostitutas - e a prostituição é sempre uma violação consentida -, pois que apenas as prostitutas sabem para onde vão quando permitem uma violação em troca oportunista seja do que for. A beleza, o talento e o poder feminino são desta forma usados para incriminar e produzir sentenças que rastejam disfarçadas de bem senso, lógica e evidência, aos pés do acórdão coadjuvado pela juíza da Relação do Porto.

Implica este silogismo torpe que apenas as mulheres feias, miseráveis, pobrezinhas, órfãs da sorte e marcadas pela fatalidade e fado maldito, são vítimas reais - as que vivem nos antípodas são oportunistas que sabiam para onde iam -  e dignas de se fazer ouvir, mesmo que a queixa seja apresentada séculos depois do crime cometido, como se o tempo, o espaço, a circunstância, o medo, a culpa, a vergonha, a sobrevivência - a multidão de razões dramáticas que induzem o silêncio quase eternizado -, não fossem as mordaças de todas as mulheres sofridas e violentadas.

 

Talvez seja por isto que, não querendo ser igual aos homens, também não queira ser igual a um demasiado vasto grupo de mulheres.

Escolho ser um sedutor ramo de flores nos braços de um homem, garantindo que no meio delas há sempre uma carnívora. 

 

Ilustração - Qistina Khalidah

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A Gaffe incendiária

rabiscado pela Gaffe, em 16.10.17

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A Gaffe não entende os pobrezinhos.

Durante carradérrimos de tempo assistiu comovida à sucessão de posts onde se exultava o Outono, as florinhas, a chuva, as maravilhas naturais, os mais belos sentimentos, a solidariedade entre os povos, a cumplicidade coroada pela mais profunda das amizades, e depare-se-lhe uma execução pública, uma chacina inexplicável, um arrasar dos mais sinceros princípios que devem reger a comunhão entre as almas e fica atónica perante a condenação de alguém que deu a mão a um amigo, emprestando-lhe umas bagatelas para as suas mais básicas necessidades.

 

Um horror.

A casa nem se situava no 6ème Arrondissement! *

 

A Gaffe está absolutamente ao lado de Carlos Santos Silva. Um querido. Um rapaz que não deve nada à beleza, é certo, mas toda a gente diz que só tem importância a interior e Santos Silva já demonstrou que por dentro é uma Miss.

Esta miserável e torpe actuação do Ministério Público - que castiga a total abnegação, espírito de sacrifício, pudor cívico, inteligência financeira, severidade moral, lisura intelectual e postura de estado, sempre evidenciados pelos acusados -,  demonstra apenas que a Justiça portuguesa está inquinada pela inveja, pela sede de vingança, pelo fel  partidário, pela ignorância e que provavelmente é um blog que nunca teve um destaque.

 

Não se entende, meus caros, que ainda não tenham percebido, depois de tantos posts mimosos e tanta pomba assassinada, que uma alma generosa não exige nada em troca. Entrega o que tem e o que não tem - usando o motorista, como é evidente! - apenas para gáudio do alheio e, como seria de esperar, o que faz é sempre a coberto do anonimato, da total confiança e de tanto ouvir o multibanco a sublinhar:

- Retire o dinheiro. Retire o dinheiro. Retire o dinheiro.

 

A culpa, claro, é depois retirada de um post-it, reforçando a ideia da justiça-blog que a Gaffe entende estar instalada neste imbróglio onde é de destacar advogados de prestígio e detentores de bastão, governadores de bancos, presidentes de republicazinhas, parlamentares de esquerda e de direita, e o quarto poder, repleto de comentadores, escrevinhadores, cronistas e jornalistas económicos, que em anos de socrático reinado escreveram laudes, livros e odes ao protagonista do regime que é agora julgado e imensas coisas más e feias sobre Manuela Moura Guedes que se esbardalhou toda a tentar atirar lama à cara destes inocentes e a fazer disparar os botões de alertas vermelhos. 

Seria interessante expurgar os focos de eventuais incêndios em que se tornaram, pois que sozinhos começaram já a diagnosticar cegueira antiga nos companheiros de estradas de outrora que arde em metáfora que usa o real.

 

Para os mui chocados, a Gaffe pede emprestado o pirete apenso. 

*Afinal, é!

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A Gaffe de Sexta-feira, 13

rabiscado pela Gaffe, em 13.10.17

Adam Seder & Martin Gerlach -Viena, 1887.jpg

 

Nunca tive medo de bruxas. O que receio são os espectros, os fantasmas e os esqueletos que toda a gente esconde nos armários.

 

Imagem - Adam Seder & Martin Gerlach -Viena, 1887

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A Gaffe em pormenor

rabiscado pela Gaffe, em 12.10.17

Henri Cartier-Bresson, Coney Island, New York, 194

 

Os olhos as mulheres são amiúde presos apenas por pormenores.

As grandes sedutoras sabem que muitas vezes não importa a paisagem inteira, mas que é fulcral o barquinho que lhe entrega a cor. 

 

Foto - Henri Cartier-Bresson, Coney Island - NY, 1946

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A Gaffe dos homens tristes

rabiscado pela Gaffe, em 04.10.17

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No Douro, os homens amadurecem a dor. Amadurecem a tristeza.

No Douro, a tristeza dos homens - daqueles que conheço -, vai envelhecendo com eles. Pacifica-os. Entrega-lhes uma benevolência calma e uma tranquilidade benévola, que são metamorfoses da indiferença.

 

Ao contrário dos homens, as mulheres do Douro param na tristeza. Urdem casulos pretos onde escolhem esconder a vida que estancou. Fechadas dentro da alma, espiam de negro amargo o voltear das estações, assistem enlutadas ao inexorável oxidar do tempo, detêm-se hirtas na demora da morte da memória.

Ficam só elas.

 

A tristeza dos homens, aqui no Douro, é um corpo a envelhecer ao lado deles, com o sossego do inevitável, com a delicadeza do silêncio que acompanha o paradoxo que é ter, ao mesmo tempo, uma espécie de cortesia oriental, dócil, delicada, emudecida, translúcida, submissa, e a combatividade dos retorcidos troncos das videiras.

A tristeza dos homens do Douro, usa mantos tatuados com dragões coloridos, sobreposições de sedas e de cores. Faixas pacientes. Tem cabelos lisos, pretos, presos por travessas de jade trabalhado, olhos de pálpebras fechadas, pés impalpáveis com passos delgados e mãos de chá puro de ritual antigo.

 

O rosto de alabastro.

 

A tristeza dos homens tristes, aqui no Douro, vem e vai, sempre atrás deles.

Acorda-os com o som do Shamisen. Vê-os brutais comer, despedaçando a carne ensanguentada, e toca os alimentos com a brandura dócil da deferência. Canta-lhes como cantavam as Goze, enquanto suam curvos pelas vinhas.

A tristeza dorme sempre aos pés dos homens tristes ou fica acordada a guiar o vento para lhes amainar os corpos destroçados.

 

Ao contrário das mulheres, aqui no Douro, os homens tristes nunca ficam sós.       

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A Gaffe tolerante

rabiscado pela Gaffe, em 06.09.17

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Foi-me ensinado que a melhor forma de ficarmos cientes dos movimentos que alteram o mundo - sobretudo aqueles que resultam na desumanizam -, é usar o bisturi esterilizado do raciocínio e nunca empapar as mãos abrindo à toa os órgãos que tornam material determinado acontecimento.

 

Nem sempre consigo.

 

Tento demasiadas vezes encontrar o lugar-comum, o ponto de contacto, a marca subtil, despercebida, que lateja em todas as ocorrências originárias de sismos sociais, de atrocidades, de inimagináveis barbáries ou de ilimitados terrores, de parafernálias societais ou de desvios globais e tenebrosos ao que sabemos ser humano.

 

Ouço cuspir discursos com uma facilidade que me assusta. Ouço palavras que jorram ininterruptas sobre fundamentalismo, integralismo, nazismo, fascismo, totalitarismo, homofobia, xenofobia, racismo e tantas outras sobre outras tantas que não dou conta, porque de tão estranhas a mim, distam abismos, embora em todas elas eu encontre o elo que as une, a marca que as irmana ou ata ou aproxima.

 

Acredito que a Intolerância é a chave-mestra. Aquela intolerância que é quase biológica, a que impele o bicho a demarcar território, a primordial, a pulsão, o instinto que nos faz negar ou repelir o que nos ameaça a tribo, o espaço de sobrevivência, a ancestralidade, a velhice eterna, os teoremas que regem determinada grupo, herdados de modo quase físico.

 

Nenhuma doutrina que sustenta o terrível sobrevive sem ser apoiada por esta pulsão.

 

Mein Kampf é derrubado facilmente por todos os argumentos lúcidos e racionais que desejarmos, e no entanto o anti-semitismo pseudo-científico nazi torna-se prática industrial do genocídio, porque existe antes, vindo de tempos imemoriais, um ódio, uma desconfiança, uma aversão, populares e entranhados, ao judaísmo.

 

A intolerância selvagem tem matriz e raiz obscuras e velhas como o tempo. Não é produto imediato - ou secundário - da doutrinação operada por nichos específicos, localizados ou definidos que se apropriam dos imemoriais sedimentos para cavar as trincheiras do terror. Talvez seja por este facto que a teorização da intolerância seja sempre operada pelas elites, sendo posta em prática pelos miseráveis, pelos menos favorecidos, pelos pobres que são, em breve análise, simultaneamente as suas vítimas. Os poderosos limitam-se a produzir as doutrinas da diferença. São os mais fracos que as põem em prática.

 

A intolerância selvagem, a Grande Intolerância, matriz de todos os holocaustos que ainda ardem, é a da iniciação, chega como característica do Homem. Deverá ser controlada desde o início, como se aprende a controlar os esfíncteres, a dar os primeiros passos, a balbuciar as primeiras palavras.

 

É tarde demais quando a debatemos ou quando a escrevemos. Nessas alturas já se tornou demasiado espessa, dura e impenetrável.

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