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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe tolerante

rabiscado pela Gaffe, em 06.09.17

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Foi-me ensinado que a melhor forma de ficarmos cientes dos movimentos que alteram o mundo - sobretudo aqueles que resultam na desumanizam -, é usar o bisturi esterilizado do raciocínio e nunca empapar as mãos abrindo à toa os órgãos que tornam material determinado acontecimento.

 

Nem sempre consigo.

 

Tento demasiadas vezes encontrar o lugar-comum, o ponto de contacto, a marca subtil, despercebida, que lateja em todas as ocorrências originárias de sismos sociais, de atrocidades, de inimagináveis barbáries ou de ilimitados terrores, de parafernálias societais ou de desvios globais e tenebrosos ao que sabemos ser humano.

 

Ouço cuspir discursos com uma facilidade que me assusta. Ouço palavras que jorram ininterruptas sobre fundamentalismo, integralismo, nazismo, fascismo, totalitarismo, homofobia, xenofobia, racismo e tantas outras sobre outras tantas que não dou conta, porque de tão estranhas a mim, distam abismos, embora em todas elas eu encontre o elo que as une, a marca que as irmana ou ata ou aproxima.

 

Acredito que a Intolerância é a chave-mestra. Aquela intolerância que é quase biológica, a que impele o bicho a demarcar território, a primordial, a pulsão, o instinto que nos faz negar ou repelir o que nos ameaça a tribo, o espaço de sobrevivência, a ancestralidade, a velhice eterna, os teoremas que regem determinada grupo, herdados de modo quase físico.

 

Nenhuma doutrina que sustenta o terrível sobrevive sem ser apoiada por esta pulsão.

 

Mein Kampf é derrubado facilmente por todos os argumentos lúcidos e racionais que desejarmos, e no entanto o anti-semitismo pseudo-científico nazi torna-se prática industrial do genocídio, porque existe antes, vindo de tempos imemoriais, um ódio, uma desconfiança, uma aversão, populares e entranhados, ao judaísmo.

 

A intolerância selvagem tem matriz e raiz obscuras e velhas como o tempo. Não é produto imediato - ou secundário - da doutrinação operada por nichos específicos, localizados ou definidos que se apropriam dos imemoriais sedimentos para cavar as trincheiras do terror. Talvez seja por este facto que a teorização da intolerância seja sempre operada pelas elites, sendo posta em prática pelos miseráveis, pelos menos favorecidos, pelos pobres que são, em breve análise, simultaneamente as suas vítimas. Os poderosos limitam-se a produzir as doutrinas da diferença. São os mais fracos que as põem em prática.

 

A intolerância selvagem, a Grande Intolerância, matriz de todos os holocaustos que ainda ardem, é a da iniciação, chega como característica do Homem. Deverá ser controlada desde o início, como se aprende a controlar os esfíncteres, a dar os primeiros passos, a balbuciar as primeiras palavras.

 

É tarde demais quando a debatemos ou quando a escrevemos. Nessas alturas já se tornou demasiado espessa, dura e impenetrável.

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A Gaffe para o fim-de-semana

rabiscado pela Gaffe, em 01.09.17

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Cruzamo-nos nos corredores, partilhamos horários, intervalos, pausas entre tarefas, pequenas banalidades e outras minudências distraídas, sem exigir mais do que uma amizade plana, simples e muito pouco exigente. Uma espécie de ligação de fim-de-semana, em dias úteis.

É uma mulher muito bonita. À elegância quase minimalista aliou o carisma proveniente de uma inteligência activa, muito prática e capaz - sem Mariazinhas -, responsável por uma carreira distinta e mesmo temerosamente respeitada.

Tem cinquenta e quatro anos e no cabelo uma madeixa alvíssima que teima em conservar e apurar, sem rodeios nem subterfúgios, como se fosse marca distintiva, como se fosse um aperto de mão, como se fosse um troféu de guerra, pois que surgiu aquando do fim do seu conturbado divórcio, já lá vão anos.

Recusou, de modo racional, quase obcecadamente científico, qualquer outra aproximação do amor. Um deslize mais comprometedor que indiciasse uma emoção mais envolvente, tinha sempre como resposta um afastamento definitivo, um corte imediato ou um arrefecimento global do planeta onde até o sol era contido.

Os amantes foram escolhidos com parcimónia e nunca lhes foi dada a importância dos grandes gestos amorosos, ou primazia, ou a decência que subjaz ao reconhecimento da partilha, ou ainda a possibilidade de algum, de entre os poucos, se aventurar a mais do que uma dulcíssima, pacífica e superficial ronda por aquela alma que nunca se deitou ao lado dele.

 

O actual é cerca de duas décadas mais jovem. Conheceu-o algures, não precisou.

 

É um homem muitíssimo bonito, moreno, com olhos grandes, negros, pestanudos, sorriso luminoso e sempre aberto, boca carnuda, de lábios desenhados a cinzel. Um homem meigo, tranquilo, quase pachorrento, com uma bonomia da mesma dimensão do corpanzil cuidado.

Apresentou-mo há já algum tempo. Não é inteligente. Nada existe em comum com a mulher que o fascinou. Nada. Nenhum motivo, nenhum projecto, nenhum livro - partindo do princípio que sabe ler -, nenhum som, cor, ou dimensão, nenhuma gente, nenhuma solidão, nenhum deserto ou urbe carregada, nenhum parágrafo, frase ou travessão, nenhum país dentro ou fora dela e - o que é mais trágico - nenhum amigo. 

 

Apesar de me aperceber da cumplicidade mesclada de ternura, quase amorosa, respeito e reconhecimento, visível entre os dois, não compreendi a escolha. Entendi-a absolutamente inesperada, não se coadunando com critérios e exigências antes definidos e honrados com rigor, mas não me atrevi a mover o que quer que seja, incluindo as inconvenientes sobrancelhas.

A relação, confidenciou-me, era muito discreta, muito reservada, sem grandes narrativas, sem poemas e sem qualquer espécie de vulcânicas ocorrências emocionais. Havia uma imensidão de gestos inefáveis e pouco mais e o mais, pouco valia. Não era um homem de fim-de-semana - como a leitura destes rabiscos -, mas tinha os dias contados.

 

O idílio terminou.

 

O homem mentiu.

Provavelmente não com os belíssimos dentes todos. Provavelmente nem sequer mentiu. A justificação que entregou para a falha cometida foi de tamanha simplicidade, de tão grande despojamento e imbecilidade, que é plausível que seja a verdade.

Encontravam-se sempre que existia disponibilidade. Bastava uma mensagem inócua e o encontro era marcado de modo natural, se houvesse resposta condigna.

A réplica foi dada.

A mulher foi ao encontro do amante no lugar habitual. Informaram-na que o homem se encontrava a trabalhar há alguns dias na filial mais próxima. No novo posto, o atrapalhado e espantado mocetão disse-lhe que se tinha esquecido de completar a mensagem com o novo endereço. Pensava que o tinha feito. Pensava mesmo. Que o desculpe.

A mulher não desculpou.

 

Intrigou-me.

Quis muito compreender aquele mecanismo.

O que fazia uma mulher inteligente, lindíssima, sofisticada e perfeitamente capaz de seduzir os maduros potentados que por aqui deslizam, com um bronco, vinte anos mais novo, que por muito atraente que fosse, jamais a complementaria?

 

- A velhice - disse-me ela.

 

Aquele homem era o seu último fôlego. Comprovava a sua ainda intacta capacidade de conquistar efebos, antes da derrocada das rugas. Assegurava-lhe a permanência do talento que lhe permitia atrair os deuses gregos no antigamente das estrelas.  Precisou dele para acreditar que as rugas que a vão macerando, não causam qualquer dano na sua segurança ou na sua autoestima - denunciando desta forma a sua imprevista obediência estranha ao paupérrimo conceito de beleza feminina que sempre contrariou, que sempre a indignou e contra o qual lutou a vida toda.    

 

É possível - continua - que o homem não lhe tenha mentido, mas a hipótese de o ter feito, transformou-se em agulha cravada no orgulho. Bastou uma leve brisa que passou ténue e que lhe entregou a dúvida, a insidiosa suposição, o possível facto do homem ter mentido por não querer ser visto ao lado dela no seu novo cargo, para que a falência da ilusão viesse em tornado. Não lhe perdoou ter de admitir que se vai transformando numa velha e que esta condição lhe entrega em simultâneo a consciência de ter ultrapassado um prazo de validade.

 

Obedece nesta última revelação ao estipulado, ao normalizado, ao normatizado, ao preconceito, ou ao estereotipado - tudo o que se queira, que somos capazes disso tudo. Rende-se ao peso do olhar feminino e jovem - desejado -, que tomba dos cartazes colados pela vida fora e descobre que as rugas não contam histórias, não são frases, nem crónicas, nem riscos, nem narrativas épicas dos trechos que vivemos. As rugas são apenas sulcos na pele. Terríveis sulcos. Feios sulcos indeléveis que apenas asseguram a incapacidade de regeneração celular. As rugas são apenas velhice. Ninguém as lê. São cartas de cartomante. Não dizem nada.

Vai agora entreter-se e divertir-se com as paliativas lengalengas que inventaram para iludir a velhice.  

 

- É mentira o que nos dizem. Envelhecer é medonho, digam tudo o que quiserem. Tomamos consciência das cordas que nos atam à morte. Envelhecer é terrível e precisava de alguém que me mostrasse que estou velha. Desde novinha que sei que tinha de ser eu a encarregar-me disso.

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A Gaffe sem partida

rabiscado pela Gaffe, em 21.08.17

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Viajar é sempre olhar o Outro e esse olhar que lhe entregamos comporta sempre uma leitura subjectiva. Contaminamos o visto com a nossa muito própria e desavergonhada semiótica, com a nossa semântica, com o nosso alfabeto, com o nosso vocabulário, com o nosso passado - com os nossos julgamentos - e com todas as histórias, com todos os sedimentos das histórias de que somos feitos. Estar consciente dessa ocorrência que permite uma leitura, uma descodificação, uma decifração do Outro, eivadas de anomalias causadas mesmo involuntariamente, através pela projecção do que somos naquilo que olhamos, é muitas vezes termos a possibilidade de nos olharmos. Vemo-nos no modo como interpretamos o que nos é desconhecido.

Viajar é portanto, e também, um não sair de nós.

 

Talvez por isso me recuse a fotografar. É sempre constrangedor captar um instante em que nos revelamos, em que somos, em que ficamos passíveis de ser reconhecidos nos mais ínfimos pormenores que escolhemos fixar através de uma câmara.   

 

Reconheço a fotografia como uma espécie de duplo emocional. Captamos as nossas particularidades, as nossas emoções, os nossos recantos mais claros e aqueles mais escuros, na escolha que fazemos dos alvos a reter e simultaneamente fixamos o que acreditamos ter sido interpretado, aquilo que pensamos ou sentimos que o Outro pensa, sente, ou vivencia. Não saímos de nós.

 

Uma fotografia é, sob esta perspectiva, apenas um testemunho do que somos naquilo que escolhemos fixar. Uma leitura do Outro que é desapossado dos seus variadíssimos vocabulários, da sua intrínseca e única forma de se expressar. Aplicamos o nosso muito particular sistema de descodificação do real à realidade alheia, acreditando que o que testemunhamos é a reprodução sem dano, impoluta, límpida e certa, da realidade do Outro. É este processo que explica o reconhecimento e aclamação de determinada fotografia pelos que usam os mesmos códigos de resolução, de interpretação e de descodificação - por projecção do que se poderá chamar emoções comungadas por colectividades específicas - e a completa indiferença pelos que possuem semióticas díspares e que, não raras vezes, são os que na fotografia figuram.   

Temos a certeza que conseguimos fixar o instante alheio, não contaminado pelo que a ele é alheio, esquecendo que quando temos a certeza de uma coisa, é porque pensamos nela apenas uma vez.

 

Talvez exista esta espécie de desrespeito pelo Outro em Henri-Cartier Bresson, Capa, Doisneau, Imogen Cunningham, Vivian Maier, Walter Evans,  Annie Leibovitz, Dorothea Lange, Steve McCurry, Jan Saudek ou Sebastião Salgado, entre tantos outros magníficos - um desrespeito parecido com o patente nas nossas medíocres películas de férias que não vão deixar história. Uma talentosa ou mesmo genial desconsideração pelo Outro, salva, aplaudida e ilibada por se conseguir, nos casos dos fotógrafos nomeados, por exemplo, projecções, não apenas do autor, mas também de todos os que com ele partilham, identificam e reconhecem determinadas emoções, as comuns, as autenticadas por determinada colectividade. A genialidade de cada um destes prodígios reside exactamente na capacidade de tornar emocionalmente comum um reflexo da sua própria emoção ao capturar uma realidade que por ser do Outro apesar de tudo desconhecem.   

 

Viajar é sempre o reflexo do nosso olhar no Outro. Provavelmente nunca partimos, embora encontremos sempre lugares de chegada.

A fotografia é apenas uma viagem parada.  

 

Na foto - o fotógrafo Charles Ebbets fotografado por desconhecido -1932

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A Gaffe com um génio acabado

rabiscado pela Gaffe, em 16.06.17

Jogo

 

É um homem pequenino, mesquinho, com um ego monumental, ultrapassado e tão confuso que chega a ser olhado com alguma indulgência e ternura pelos pares e pelos supervisionados, o que não deixa de ser humilhante para alguém tão empinado.

 

Detentor destes miseráveis dotes, o homenzinho acciona todos os alarmes, buzinas e sirenes sempre que é cometido um erro minúsculo e desinteressante. Os grandes erros, agora não os consegue, nem prever, nem corrigir, porque os não detecta. Ninguém avalia o certo e o errado do que não conhece.

Fica-se pela rama.

Foi genial outrora e ainda sobram réstias do talento, mas comete aquelas pequenas falhas que não tendo importância digna de nota, acabam por inflacionar os julgamentos maldosos que dali surgem, sendo corrigidas pelos inferiores que jamais tocarão a bainha daquilo que ele foi, há muito tempo.

 Contrariam-no nos detalhes, nos pormenores, nas minudências dos métodos, na ausência de actualização profissional, embora lhe invejem o passado monumental.

 

Esta espécie de decadência que se vai arrastando e aumentando a olhos vistos e sátira desatada, podia facilmente ser travada com a beatitude dos velhos sábios que se permitem errar e com a complacência e a placidez dos génios que sorriem quando se apercebem que os universos que dominaram, ou criaram, foram tomados já pelos discípulos.

O estatuto de mito é também entregue aos que sabem desistir usando a sabedoria dos que se lhes seguem.

     

O irritante é que a luta desesperada pela manutenção da autoridade, do reconhecimento, do respeito e pela confiança profissional, levam-no, mesmo quando vagamente contrariado, a agir como um garnizé tresloucado. Grita e espuma e cospe esganiçado uma espécie de tirania patética fácil de ridicularizar.

 

Quando alguém brada o desespero apelando apenas a um estatuto perdido, invocando as medalhas merecidas outrora, clamando por uma autoridade que reside apenas num reflexo esbatido do atleta que se deixou de ser, saímos do anfiteatro ordenadamente. O jogo acabou. Fecham-se as portas. 

Já não há ninguém.

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A Gaffe de Tennessee Williams

rabiscado pela Gaffe, em 08.06.17

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Ouço dizer algures que a vida traçada a regra e esquadro, a sucessão de dias programados, o quotidiano previsível, ou a coerência das horas seguidas, apesar de produzirem a sensação de segurança, desfazem o deslumbre e o espanto, como se nos voos fossem as tesouras que se fecham em lâminas de óbvio.

 

Não sei. É provável que sim.

 

Daqui, ouço o mar a preencher a noite da iguana. Há uma lua pousada na pele da água. Uma lua límpida, que recusa o arrasto da maré. Na orla da Avenida, um homem corre em tronco nu. Tatuado. Musculado. Bonito. Corre compassado de calções azuis. Suponho que feliz. Quando o coração bate controlado, a felicidade ainda que banal pulsa com ele. Há uma mulher ao longe à espera do autocarro. Veste uma saia escarlate e parece nesta distância nocturna uma bandeira de uma qualquer revolução que não explodiu. Uma saia contida, apesar do grito. Passa por mim o cão pequeno, branco, com manchas ocre a pintalgar-lhe o pêlo. Presa pela trela tem a dona, senhora dos seus cinquenta de arrepiada cabeleira que encima uma blusinha fresca. Vejo-a a comprar fruta nas manhãs. Compra a fruta da manhã que chega presa à trela da noite anterior, depois de espetar a unha envernizada na casca da laranja matinal. Um rapaz, pendurado na mão de uma mulher embevecida, atravessa a rua. Ela tem os olhos pretos e cabelos tingidos de uma cor indefinida. Sorri. Tem dentes brancos, luminosos. Certos. Dentes da idade dele. Tão certos como o vestido justo, cor de açafrão. Ele tem especiarias no corpo. Pimenta e noz-moscada, cravo-da-Índia e canela. Beija-a, já deste lado da rua. Ela deixa-se beijar, no outro lado do mundo. Um velho perfura o paredão que o separa das ondas parcas e breves. Senta-se depois num banco de madeira e fica parado, parco e longo como um dia que morre sem se ter visto uma saia vermelha, ou um vestido cor de açafrão, ou calções azuis a correr sobre ele.

 

Quando chegar a casa, descalço-me e pouso os pés nus nas tábuas do soalho. O meu soalho é a minha noite no princípio. É nele que começa o meu espanto, o meu deslumbramento com as cores das noites certas das Iguanas.

 

na foto - Joan Miró   

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A Gaffe carteirista

rabiscado pela Gaffe, em 31.05.17

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Há um jogo qualquer que nos pede que enumeremos o conteúdo da nossa carteira.

 

Não seriam brilhantes as minhas respostas. Não transporto muita coisa. A minha carteira não ilustra o estereótipo.  

Trago um bloco pequeno de capa esgotada que deixei de usar há muito tempo, mas que no medo de perder o passado riscado que contém, se tornou imprescindível; uma esferográfica que pertenceu ao meu avô, preta, polida, quente; a tradicional, mas frugal, parafernália feminina, composta por instrumentos de beleza que se misturam com outros mais técnicos, mais profissionais; um protector solar quase blindado e alguns documentos fechados, muito ordenados, numa pasta pequena de couro antigo.

 

Ao lado, mesmo ao lado do batom, trago sempre um adeus.

Nunca sabemos quando o devemos usar, não sabemos sequer a frequência com que o gastaremos, mas, seja como for, quando o adeus é usado convém-nos estar sempre com os lábios retocados. 

 

Foto - Jason Langer

 

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A Gaffe em equipa

rabiscado pela Gaffe, em 18.05.17

USA Soldiers

 Se não podes ajudar, estorva.

O que importa é participar. 

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A Gaffe a apanhar pedra

rabiscado pela Gaffe, em 09.05.17

Os rapazes possuem uma aptidão muito peculiar que me deixa perplexa e me faz repensar as razões da nossa permanência neste mundo pobre e pouco digno de respeito.

Acaba por se tornar uma característica e, em maior ou menor grau, é detectável em todos.

 

Resume-se à extraordinária capacidade de mostrarem ao mundo - e sobretudo à parte ocupada por mulheres -, como são maravilhosos a tentar fazer o que não sabem.

 

Esta tendência é proporcional à sua ineficiência. Quanto mais totós, mais capazes se sentem de realizar o que se transforma num palácio para os bois mirarem. Quando os factos os contradizem, escapam à realidade crua e nua, convencidos que apenas apanharam pedra.

 

O meu irmão, por exemplo, digníssimo representante da espécie, afiança que é capaz de pregar um prego com uma facilidade descontraída e humilhante.

As paredes estão cravadas de buracos que representam todas as tentativas de martelar um inocente ferrito que como por encanto costuma saltar disparado ao primeiro embate. No segundo o prego entorta, no terceiro o prego desaparece no ar, como um OVNI depois de ter avistado o Terço de Joana Vasconcelos.

 

- Apanhei pedra.

 

O homem apanha pedra sempre que tenta espetar a porcaria de um prego na manteiga! Suponho que esta evidência seria de vital utilidade se o pobre um dia se enfiasse em areias movediças. Caso tivesse à cinta um martelo e no bolso um prego, apanhava pedra. Salvava-se.

 

Em decoração não resulta.  

 

Os rapazes permanecem, conscientes ou não, convencidos que a genética lhes forneceu as aptidões dos grandes machos e que nós, recolectoras de corpinho frágil, estamos aptas apenas a realizar tarefas a que elas atribuem um ficheiro feminino.   

O resultado pode ser catastrófico, não só para a decoração, mas também para a imagem que deles temos e que benevolamente vamos mantendo com algum esforço.

 

Seria muito mais proveitoso assumir que são uma perfeita nulidade a trocar um pneu, a dominar uma prancha de surf, a arrastar móveis sem colapsar imóveis, a instalar um circuito eléctrico, a reparar o portão da garagem, ou, no mínimo, a provocar-nos um orgasmo, admitindo em contrapartida que são exímios a tricotar pegas de cozinha, ou a construir arranjos florais mirabolantes.

 

Não!

 

Preferem que assistamos ao descalabro que é ver a sua masculinidade, pura e dura, a exibir-se lampeira e toda competente rumo a um ocaso pousado nas ondas das nazarés desta vida para logo depois sermos obrigadas a cristãmente caminhar sobre as águas para os repescar e ouvir dizer logo a seguir, a abanar a negra madeixa ao vento, que apanharam pedra.

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Uma proposta de discussão feminista a não deixar escapar.

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A Gaffe de Abril

rabiscado pela Gaffe, em 25.04.17

 

Às vezes, de tão cegos com o pó que se levanta pelo caminho, ficamos presos ao lugar de onde pensamos ter saído há muito tempo.

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A Gaffe esvoaçante

rabiscado pela Gaffe, em 06.04.17

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No Amor é imprescindível atar com um fio de aço a claridade à sombra. A força com que surge a Primavera é a mesma que acompanha o voar das borboletas.

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A Gaffe "turistificada"

rabiscado pela Gaffe, em 06.04.17
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Num tempo que já lá vai, descíamos os Clérigos para visitar, no Largo dos Lóis, a velhíssima livraria onde misturado com bolor encontrávamos o antipático e bafiento empregado que quase nos expulsava à força de perdigotos; procurávamos botões antiquíssimos na retrosaria em frente, as rendas desbotadas, os entremeios, as linhas coloridas que comprávamos apenas por capricho; visitávamos o velho ferro-velho que tinha, pintado à mão, no vidro da montra, o presunçoso título de Antiquário e que vendia alfinetes de peito e chávenas de chá inglesas como se fossem relíquias arrancadas a memórias com séculos e tomávamos chá na leitaria ao lado, levadas ao céu pela fatia de bolo de mármore que não dispensávamos.

 

Não convém afastarmo-nos durante muito tempo dos lugares que nos foram queridos. As metamorfoses por eles sofridas devem ser por nós acompanhadas para não nos abocanharem de repente.

 

Levaram-me a visitar o requalificado e reabilitado quarteirão das Cardosas. Há tanto tempo a não via e que saudades, Deus meu!

 

Entro na Disneylândia!

 

Das ruas repletas de casario com um traçado arquitectónico único e plural, ficaram apenas as cascas agora uniformizadas das casas antigas. O facto de não ter existido a preocupação em reabilitar lenta, penosa e pensadamente, caso a caso, prédio a prédio, casa a casa, deu origem a um aglomerado de edifícios turistificados.

 

Esta Baixa do Porto reabilitada anuncia através de um patético slogan imobiliário o público a que se destina: Jovens casais, criativos, jovens intelectuais e novos pensadores. O preço do mais exíguo apartamento deste complexo Disney é dez vezes maior do que aquilo que o público-alvo ganharia em duas ou três décadas, se, com uma esperança do tamanho destes preços, os jovens filósofos, os novos artistas saídos das Belas-Artes e dos Conservatórios ou os novatos letrados, conseguissem hoje arranjar um emprego, mesmo um que lhes dificultasse ou impedisse o exercício das suas qualificações.

 

A actual reabilitação da Baixa portuense corre o risco de se tornar apenas uma turistificação de uma zona histórica, muito city users, muito cidade dos eventos, onde pulula o consumo gourmet com peças de artesanato de Carrazeda de Ansiães, compradas ao custo da chuva, expostas em vitrinas Philippe Starck a preços que permitem supor que compramos também a obra do designer e a cafés onde há estantes com livros com a lombada contra a parede, porque a paleta dos brancos, bejes, dos marfins e pérola das páginas fechadas que se mostram, condiz com a decoração acastanhada e não faz tanto ruído como se visíveis fossem os títulos das obras.

 

Business is business, mas tem de haver mais vidas.  

 

Turistificar não é o mesmo que reabilitar. A primeira cirurgia transforma uma cidade num imenso parque temático, a segunda, obriga a que cada caso, cada prédio, cada casa, cada esquina e cada recanto regenerado, seja capaz de continuar a produzir memórias, conservando aquelas que deles já temos e que dentro deles fomos construindo.

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A Gaffe com filtros

rabiscado pela Gaffe, em 05.04.17

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Ouvi dizer que a forma de percebermos que deixamos de ser amados é sentir que o nosso beijo deixou de ter qualquer significado para aquele ou aquela que beijamos, sobretudo quando já significou tudo.

 

É uma formulação bastante poética e os poetas raramente se enganam.

 

Há no entanto um dispositivo escondido dentro de nós que detecta o fim de um amor sem qualquer necessidade de ler desta forma osculatória os sentimentos do outro.

 

A erosão do amor faz-se de forma lenta, mas perceptível. 

 

Tem a ver com o nosso regresso à banalidade. O desamor é o confronto com a banalidade. Daí sentirmos que a solidão nos volta a preencher os dias. Nada é mais deserto do que nos descobrimos apenas mais um ponto acrescentado à multidão de pontos que nos são iguais.

 

Deixarmos de ser amados é voltar a saber que os rabiscos que fazemos nas páginas do caderno de apontamentos não rivalizam com os esboços de da Vinci; que os traços que deixamos arrastando palavras pelo papel não são cometas; que numa gare de partida – e raras são as gares onde chegamos – somos aquele casaco que se esqueceu no braço de uma cadeira e que ninguém guarda com receio da aproximação do dono; que não pisamos nuvens quando andamos, nem os nossos gestos fazem deslizar os rios com brandura, porque caminhamos para o emprego e temos nos braços os documentos que preenchemos na véspera; que não nos alimentamos do perfume das rosas, porque temos arroz de bacalhau para o jantar e o cadáver da loiça do almoço a apodrecer na banca; que não contemos universos mágicos no peito e que a único truque de ilusionista que conseguimos fazer consiste em arranjar tempo para retirar o verniz das unhas escaqueiradas ou aparar a barba antes do horário do autocarro; que não temos a eloquência de um senador romano e que os nossos discursos são como os sopros com que se enchem balões; que não somos Charlie todos os dias que passam, porque não nos pomos a jeito; que não espargimos luz quando aparecemos, porque a lâmpada da casa de banho está outra vez fundida e não nos apetece voltar a trocá-la; que não somos passarinhos que debicam grãos de orvalho, porque a alheira nos fez azia e não há anti-ácido em casa e que a porcaria do gato que não queríamos em casa nos rasgou as cortinas e não temos os véus dos olhos de quem quer que seja como abrigo.

 

Deixarmos de ser amados é regressarmos ao que somos sem qualquer filtro. Somos banais, quotidianos, comuns, vulgares, habituais e corriqueiros, mesmo sabendo que as palavras são sinónimos.

 

Deixarmos de ser amados - ou deixarmos de amar, que também serve -, mostra-nos uma realidade que nos é adversa, a única que descobrimos ser a nossa.

Não precisamos de um beijo para nos apercebermos disto.

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A Gaffe situada

rabiscado pela Gaffe, em 04.04.17

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Há lugares onde ficamos presos para sempre. Como se quiséssemos ou como se fosse esse o nosso fado. Como importasse muito ter um chão, um céu ou uma árvore.

Há lugares onde acordamos sempre por mais longe que seja a nossa terra agora.

Há lugares imutáveis dentro dos nossos olhos, cegos nos caminhos que não temos.

Há lugares onde a água corre e onde morrem árvores e nascem depois árvores que vão depois morrer por onde passa a água. 


São os lugares que nos estancaram o peito no instante em que soubemos que o nosso chão, as nuvens e as árvores que morrem por onde a água escorre, são apenas os braços dos abraços que perdemos. 


Vamos para dentro.

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A Gaffe vencedora

rabiscado pela Gaffe, em 31.03.17

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Às vezes o nosso melhor argumento de defesa, é precisamente a forma como somos atacados.  

 

Greta Garbo - The Mysterious Lady - 1928

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A Gaffe mortal

rabiscado pela Gaffe, em 29.03.17

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A dor tem uma propensão democrática. Não é rapariga de distinções, ou moça preconceituosa e dada a selecção de classes.

Chega, instala-se e vai tricotando o tempo, indiferente ao modo como a tratamos. É de nula importância se lhe servimos um chá e biscoitos de fino trato, ou se a alimentamos a chouriço e broa com azeitonas. Cada um a trata como quer ou pode e a ela pouco importa. 

 

Sempre me foi ensinado a tratar a dor com silêncios. Alguns a durar muito. Aprendi, por exemplo, que o luto, essa habituação à ausência de alguém, exige uma solenidade que não se compadece com declarações a pingar lirismos que ilustram o quanto se finge que se acredita que aquele que morre, não morreu, que permanece no ar que se respira e que foi dele, ou nos crisântemos que crescem para adornar sepulturas, ou nas rabanadas do Natal.

 

Mesmo quando me diziam que ninguém morre, frisavam, ainda que de modo subtil, que as metáforas que eram usadas para mo dizerem, não passavam disso. Metáforas. Algumas eram magníficas, mas traziam na cauda dos pinchos das palavras a certeza da morte. Irreparável.

 

Morre-se. Morrem-nos.

 

Aprendi - muitas vezes com dureza - a não acreditar nas lamúrias, nas choradeiras líricas, nas evocações diaristas da dor pregadas nos monitores com florinhas orvalhadas de lágrimas ou nas colagens básicas da memória do morto às árvores que rolam os ramos no vento que passa com a voz do ausente.

 

Ai, flores do verde pino.

 

Admito que pode ser um exercício de catarse este produzir de treta poética e que a ele sucumbi algumas vezes. Há no entanto em mim uma certa consciência da morte como ocorrência lógica que não permite que a neguemos com prolongamentos metafóricos.

 

Nada continua após a morte de alguém. Nada permite declarar que o que nos morre continua vivo nas coisinhas que o recordam. É demasiado pobre. Demasiado pouco. Demasiado indigno. Morrer merece mais.

 

No pescoço da minha irmã pousa o colar que foi da minha avó. É agora o colar da minha irmã. Nada mais. As sardinheiras de Espanha que o meu avô cuidava, são agora minhas e da minha responsabilidade. A vida da minha avó não está prolongada no colar e a do meu avô não continua a crescer no jardim e a memória só precisa de incentivo quando se atenua. 

 

Às vezes descubro que existe um buraco negro e fundo no meu peito que a morte deles continua a cavar ininterruptamente, mas aprendi os silêncios que lhes devo e a dignidade de os saber mortos.

Fui a neta deles. Sinto-o em cada movimento que faço, em cada decisão que tomo e em cada passo que dou e mesmo assim a vida é minha e nela nenhum passarinho ou raminho de hortelã que ouço ou corto, faz soar o canto do Proust das tardes da minha avó ou me traz o sabor a limpo do colo do meu avô. 

 

Quando eu morrer, não batam em latas.

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