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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe capilar

rabiscado pela Gaffe, em 24.02.17

Claro que há alternativas interessantes às jubas estudadamente desgrenhadas, ao fabuloso emaranhado de caracóis em desleixo premeditado, ao risco do volume ondeado que faz dos homens promessas de aventura.

 

Claro que estas alternativas, que não incluem os esquadrados penteados dos senhores do mundo, devem ser pensadas com rigor acrescido.

 

Se não cuidadas e coadjuvadas por uma imagem requintada, vagamente extravagante, inteligente e apurada, o cabelo masculino por onde deslizou uma camada substancial de gel fixante - brilhantina para os rapazes vintage -, parecerá que foi lambido por uma manada de gnus dispostos a ser triturados pelos crocodilos - imagem tenebrosa, mas inevitável nos documentários televisivos, logo após o canto das baleias.

 

Neste caso, o ideal, meus caros, é a adopção de uma solução drástica e muito eficaz: gel e nudez.

Fica sempre apetitoso.

 

 

Claro que existem alternativas menos convencionais.

Reservo-as para os mais aborrecidos.

 

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Gavetas:

A Gaffe grisalha

rabiscado pela Gaffe, em 17.02.17

 

Ao deparar com meninas telegénicas e as suas constantes preocupações em publicitar a cor do cabelo patrocinado por uma marca de tinta, trepam-me à memória, espalhando-se e contaminando o meu dia, as cabeças de Fernando Ruas e de Victor Constâncio e permito-me concluir que se às mulheres é reconhecido o direito de mudar a cor da juba, já aos homens o caso adquire tons mais complicados.

 

As cabeças de Fernando Ruas e de Victor Constâncio, por exemplo, parecem ter sido dominadas por uma aranha negra, velha e outrora peluda ou, em alternativa, terem um rato morto a servir de cabeleira.

 

Admitamos que aquilo é deprimente.

 

Desenhar o penteado com um marcador preto produziria o mesmo efeito. A tinta tinge o couro cabeludo e, no caso do primeiro, apeçonhenta o bigode. Ficamos perante dois casos de toucas de banho incorporados, negras, funestas e retintas e nitidamente falsificadas, como se os chineses tivessem plagiado a estrutura capilar e a pilosidade de um jovem latino e tivessem colocado o produto à venda nos mercados e nos átrios dos municípios.

 

É um erro crasso confiar num homem que pinta o cabelo daquela forma e acredita, patético, que consegue convencer os pares e os parceiros com o negro daquilo que outrora foi cabeça. É tão idiota como acreditar nos que arrastam de forma confrangedoramente dolorosa - uma dor de alma - os fios da nuca para a frente da testa, criando uma estranha e assustadora arquitectura pilosa que lembra um ovo de extraterrestre num filme qualquer de ficção científica de terceira categoria ou pornográfico, onde não há categoria nenhuma.

 

As meninas podem tingir-se com a cor cereja, porque há sempre a possibilidade de nos distrairmos com os decotes e com os vestidos dois números abaixo do que seria necessário para não ficarem comprimidas, mas um homem não podem usar a porcaria que as raparigas publicitam sem correr o risco de passar por idiota, desonesto, inseguro e incompetente.

 

Há incomparavelmente mais probabilidades do cabelo grisalho, ou mesmo totalmente branco, poder ser o mais deslumbrante e fascinante convite à aventura e ao embarque naquilo que é o transatlântico mais poderoso do universo: a maturidade consciente e assumida do homem por quem perdemos bússolas e astrolábios - não convém contudo generalizar, porque nos lembramos de repente do engenheiro Sócrates.

 

Os exemplos que ficam ilustram de forma inequívoca a tese defendida. Embora, diga-se, o primeiro faça parte do elenco de uma série ligeiramente maçadora, situada no passado e o segundo tenha um passado conturbado e controverso, são os dois espantosas criaturas susceptíveis de povoar os sonhos menos brancos de uma rapariga com a cabeleira cor de cenoura.

 

Nas fotos - John SlatteryAiden Shaw

 

 

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A Gaffe careca

rabiscado pela Gaffe, em 16.09.16

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A tolice é dos carecas que elas gostam mais que se ouve esporadicamente, para além de ser uma das mais deselegantes frases que se conseguem rapar, revela uma ignorância confrangedora do gosto feminino e um implícito, embora camuflado, desprezo da capacidade de discernimento da mulher aliada a uma espécie de vanglória do macho dominador.

 

A careca surge tratada como um símbolo da masculinidade incontornável, contrastando com a juba leonina dos que hesitam. Transformada em sublimado falo, o bazófia careca mostra a sua virilidade subjugadora.

 

Normalmente, a frase vem apensa a homens cuja maior ambição consiste em deixar crescer as sobrancelhas para depois pentearem até que tapem a nuca. Se em simultâneo as pintam de preto asa de corvo, há orgasmos pela certa.

 

A careca é apenas mais um penteado, meus queridos. Claramente o mais prático, mas tão exigente como qualquer outro. Se for voluntária, não desresponsabiliza o portador permitindo-lhe frases imbecis como a que se reproduz. Se vier com os genes, será sempre apreciada de acordo como o resto da encomenda.

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Gavetas:

A Gaffe de mau pêlo

rabiscado pela Gaffe, em 22.07.16

A Gaffe é invadida pela melosa melodia de Francisco José, cavernoso e romântico, morno e enrouquecido.

 

Olhos azuis são ciúme
E nada valem para mim,
Olhos negros são queixume
De uma tristeza sem fim,
Olhos verdes são traição
São cruéis como punhais,
Olhos bons com coração
Os teus, castanhos leais.

 

Embalada pelo cantado, a Gaffe descobre que para além de uma parafernália de defeitos que lhe são atribuídos, é também uma ciumenta, com chispas de traidora, sem qualquer valor para o rapaz que continua a amornar a atmosfera que respira.

Não que sofra atrocidades com esta revelação melodiosa, até porque o artista não lhe preenche a pauta, mas começa a irritar ligeiramente perceber que as ruivas, geralmente com olhos claros, são sempre um caso digno de figurar no rol das figuras pérfidas que assombraram - pelo menos desde o início da Idade Média até ao falecimento da Santa Inquisição - e que assombram - não é à toa que se continua o ouvir a pindérica expressão ruiva de mau pêlo - a plácida vida dos vizinhos.

 

À Gaffe já é suficiente não bronzear, pensando com as suas sardas que talvez a facilidade com que apanha escaldões provenha das fogueiras inquisitoriais.

À Gaffe já bastam as suspeitas de infantilidade suspensas nos seus caracóis, como enfeites de Natal ranhosos, que os néscios e aparvalhados misturam com piadolas raquíticas.

À Gaffe já bastam as alusões à libido que nas ruivas se descontrola facilmente, tornando-a uma devoradora de homens, uma predadora sexual - vulgo tarada.

 

A Gaffe decide sem apelo nem agravo que se voltar a ser brindada com o clássico olhos azuis são ciúme e nada valem para mim ou com o tradicional mimo com sabor paternalista és uma ruiva de mau pêlo, vai referir, mesmo ignorando os factos, o tamanho exíguo, mesquinho, irrisório e caricato da pilinha do rapaz.

 

Mesmo que o rapaz seja uma rapariga.

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A Gaffe despentada

rabiscado pela Gaffe, em 03.09.15

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Descobri ontem o primeiro cabelo branco na juba do rapagão.

 

No meio do negrume, um fio prateado que me fez parar, olhos abertos de pasmo e boca por fechar. Faiscou no lado esquerdo, porque envelhece mais depressa nessa margem, já que é canhoto.

Fez-me estancar, roída pela consciência do envelhecimento.

                    

Tenho medo de envelhecer. Não o sórdido pavor que nos leva a procurar a guerra com o tempo, mas um receio em surdina que nos abafa o desejo com almofadas mornas e nos amordaça os gestos com fitas de veludo. Tenho medo de envelhecer e não crescer por dentro da velhice. Uma Dorian Gray no feminino interior, ainda mais maléfica.

 

Reconheço os dias pelo bater da luz contra as vidraças, sei que há vidros entre mim e a vida a latejar lá fora, apercebo-me das tessituras dos filtros entre mim e as ruas, sei do estilhaçar dos voos contra os muros e tenho medo de só envelhecer como o retrato.

 

Por isso cortei hoje o meu cabelo. Curto, bastante curto. Como se nesse golpe, esquecesse o dele.

Disparate.

Tenho agora na cabeça o aroma de pêssegos macios, acabados de colher ainda cobertos de orvalho.

Vou envelhecer de caracóis largos e soltos como breves petizes por domar.

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A Gaffe de Mariana Monteiro

rabiscado pela Gaffe, em 16.06.15

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 Protejam-se!

Anda à solta uma fashion adviser com um ar de madrasta da Branca de Neve, nariz adunco e conselhos assassinos, paga por uma marca de tintas para o cabelo - de composição duvidosa tendo em conta os resultados.

A senhora surge de fugida, amorosa e dedicada, a impingir uma mistela que transforma em arame farpado as nossas sedosas cabeleiras, ao lado das vítimas que de súbito ficam com uma peça de LEGO encaixada na cabeça.

A primeira vítima foi a delicada Sara Matos que se tingiu com borra de vinho tinto. A segunda é Mariana Monteiro.

Se Sara Matos, apesar de tudo, tem uma graciosidade capaz de nos distrair e desculpar as ameixas que esmagou na cabeça, Mariana Monteiro não tem ponta por onde se lhe pegue.

A moçoila não é boa actriz, embora provavelmente seja boa atrás. É uma petiza desengraçada que quando sai de um táxi não paga a bandeirada, porque o motorista jura que não transportou vivalma.

Mariana Monteiro esbarra-se loira, com um acessório que parece um cocó ressequido de um Grand Danois com cirrose. Um loiro baço, deslocado, vulgar, quase oxidado, oxigenado, queimado e duro que mantém todas as características do erro capilar de Sara Matos.

Ver a pobre moça a tentar baloiçar a carapaça que se lhe colou à cabeça, é causa de vergonha alheia. Ver surgir a moreníssima rapariga rematada com aquela peça de cimento com corantes tem o mesmo impacto que ver a idosa que depois de fazer xixi fica com a bainha da saia presa no cinto. Apetece remediar o acidente, mas falta-nos a coragem para lhe tocar.

 

A dúvida que sobrevém no caso de Sara Matos que nos surgia com um ar felicíssimo depois de esbardalhar o cabelo, aparece agora neste último desastre muito mais atenuada.

Sara Matos fornecia-nos duas hipóteses muito simples:                 

Seria naturalmente loira ou então uma artista excelente.

 

Sabemos que Mariana Monteiro não é boa actriz.

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A Gaffe encaracolada

rabiscado pela Gaffe, em 03.06.15

Jon Whitcomb.jpgA Gaffe tem uma amiga com um cabelo estupendo.

 

O mais moderno, o mais famoso, o mais competente e mais badaldo dos cabelereiros deste país seria capaz de cortar um dedo ou empenhar aquilo que os rapazes costumam apostar para adquirir a capacidade técnica de fazer acordar uma cliente com os caracóis absolutamente vintage, divinamente anos 50, com que a sua querida amiga natural e naturalmente se levanta todas as manhãs.

A Gaffe acredita mesmo que os magníficos e hollywoodescos cuidadores das cabeleiras das divinas vamps de outrora desatariam aos gritos e aos saltos mal percebessem que o que lhes levava horas a conseguir, a esta rapariga leva o tempo de mergulhar os dedos na sua sedosa e brilhante e ondulada e encarocolada e magnífica juba.

 

A Gaffe morria de inveja.

 

Acontece que um desses facínoras detentores de um poder mal estudado e demasiado subvalrizado, convenceu a pobre amiga a experientar aquilo a que chama, se o espanto não a atraiçoa, um alisamento japonês.

 

A Gaffe não faz ideia se o nome desta operação está ligado ao facto do nosso cabelo ficar com a textura das cabeleiras orientais, lisas, pesadas, sedosas e luminosas, ou se tem a ver com o facto de a nossa carteira ficar tão lisa e plana como a nuca dos queridos japoneses.

O facto é que a tragédia aconteceu e vai durar. O alisamento japonês é coisa para semestres de duração e só o corte radical daquela lisura impessoal poderá fazer com que renasça das cinzas o ondulado fantástico agora cilindrado.

 

A pobre amiga perdeu o que a tornava única em nome de uma imagem lisa e luzidía, capaz de atravessar toda uma humidade mexicana sem ameçar sequer uma sombra de caracol mais traquina.

Perdeu-se personalidade, garra e marca. Ganhou-se um brilho liso, quase diamantino, bastante agradável para quem se contenta com zircões.

O drama, diz a Gaffe, é que normalmente nós, mulheres, esquecemos que somos um todo planeado ao milímetro e nada nosso é exagero ou erro de casting. Esquecemos demasiado depressa que aquilo que tantas vezes consideramos falhas ou defeitos, são apenas as pequenas memórias que deixamos nos homens que valem a pena ser vividos.

Os homens que não interessam, aqueles que podemos ignorar, esquecer ou tornar invisíveis, acabam normalmente casados com umas mamas de silicone e ignoram completamente que estão casados com a mulher toda.

 

Ilustração - Jon Whitcomb

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A Gaffe de carrapito

rabiscado pela Gaffe, em 15.01.15

carrapito.pngO que se passa convosco, rapazes?

O que vem a ser aquela coisa minúscula, aquela caganita, aquele pechisbeque, aquele carrapito patético com que agora ornamentais a cabeça?!

Há dias em que uma rapariga consegue ignorar o botão de cabelo que amorosamente criais, mas há momentos que só apetece bater-vos com um taco de baseball nos vossos mais protegidos recantos até que aquilo se desfaça de vez!

Pode eventualmente ser admitido em gigantes musculados e barbudos. O corpanzil disfarça e é provável que uma rapariga se distraia com o conjunto ou que não consiga ver o bebé no topo da cabeça, mas os mais franzinos deviam abster-se de usar uma desfaçatez daquelas, embora nos pequeninos o cornicho pareça proporcionado.

 O problema agrava-se quando não há cabelo que enrole e é exposto uma vassourinha minúscula, espetadinha e ouriçada, o pincel laçado do nosso verniz. Não há nenhuma criatura que vos ache inteligentes. É o chamado preconceito piaçábico.

Para além disso, dá-vos um ar ansioso. Fica a pairar a vossa impaciência. Dir-se-ia que não aguentais esperar que o cabelo cresça para o poder prender com dignidade e o que desejo leonino que vos invade arrisca sem vergonha fazer-vos passar por idiotas capilarmente ambiciosos.

Não há nenhuma conversa séria que resista ao vosso pirolito. Ninguém consegue discutir a Teoria do Caos ou os reflexos do naturalismo na Literatura portuguesa dos fins do século XIX com um homem que tem uma coisa espetada no cérebro a olhar para nós e não adianta nada declararem que só admitem discussões de carácter artístico, porque nos apetece de imediato mandar-vos colorir de pernas no ar um livrinho com figuras geométricas.

A única razão para o uso de tão peculiar penteado é aquela que nos informa que talvez seja possível pendurar-vos pelo pequerrucho puxo.

 Justifica-o, mas não funciona. Uma rapariga prefere sempre pendurar um homem por outros enfeites.  

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Gavetas:

A Gaffe entrançada

rabiscado pela Gaffe, em 19.11.14

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Dolce & Gabbana 2014.pngDolce & Gabbana.png

Uma benesse que podemos fazer ao nosso cabelo, para além de o lavarmos condignamente e frequentarmos um cabeleireiro em condições, é torná-lo digno de um conto de fadas.

Em 2014 Dolce & Gabanna entrançaram de forma sublime fábulas exóticas com a magia das memórias de Primaveras perdidas e coroaram-nos Princesas de uma história sonhada onde dragões e cavaleiros esmorecem rendidos e presos aos nossos toucados.

No entanto, uma rapariga esperta não precisa de perder tanto tempo no cabeleireiro para se parecer com uma fada. Basta que sacuda as asas. É mais barato, poupa imenso tempo e os rapazes não esperam mais do que isso.

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A Gaffe por agendar

rabiscado pela Gaffe, em 15.09.14

Quando está tudo em reboliço, atolado em trabalho, a rebolar por tudo quanto é lado e eu sentada na poltrona a olhar as unhas, arranjam-me sempre qualquer coisa desagradável para fazer.

Ontem a minha irmã, completamente tresloucada, de papéis na boca e olhar de sociopata assassina, encarregou-me de ligar para o telemóvel pessoal do seu cabeleireiro com o objectivo de marcar um corte de cabelo a um cliente. Não é política da casa agendar bricolage, e muito menos agendá-la aos Domingos, mas a minha irmã é uma predadora e sabe perfeitamente como lançar armadilhas às presas. O corte de cabelo não passava, portanto, de um golpe certeiro. Alguém ia ser abatido através do fascínio exercido indirectamente pela minha irmã usando o prestígio de um cabeleireiro premiado pela CARAS. Telefonei cerca de quatro vezes e, nessas quatro vezes, ninguém atendeu. Depois, esqueci-me.

 

Quando hoje o senhor chegou percebi que bastaria o barbeiro da esquina para o deixar compostinho, desde que no referido barbeiro não houvesse ventoinha. O senhor, redondo e baixinho, recusava a ser careca e que por isso penteava-se como se trouxesse uma aranha gigante, preta, agarrada ao ovo da cabeça. Declarou-se muito agradecido e explicou:

– A menina sabe, lá em cima - não faço a mínima ideia do que se passa lá em cima. Uma rapariga esperta é perita no que se passa em baixo - não há coisa que preste e o meu filho é um jovem sofisticado.

Percebi então:

1 - Que o cabelo era o do filho sofisticado daquele senhor e não o bicho que o senhor trazia na cabeça;

2 - Que ninguém se tinha lembrado que o cabeleireiro da minha irmã encerra às Segundas-feiras;

3 – Que, mesmo que não encerrasse, não havia marcação nenhuma em lado nenhum, porque EU me tinha esquecido por completo do caso.

 

A minha irmã só não mandou que me torcessem os mamilos até jorrar sangue pelo nariz, porque suspeitou que o rapazola poderia querer trocar de lugar comigo. Mas tudo se resolve quando está em jogo um jovem sofisticado como aquele. Juntamos esforços e, com o guedelhudo ao colo, suplicamos e conseguimos agendar excepcionalmente um corte de cabelo para amanhã às 18 horas. A Rita apanhou o cliente que sorria alarve enquanto, durante quase uma hora, o filho, jovem e sofisticado, desancava nos cabeleireiros bichas, e insultava, aviltava, massacrava, arrasava, destruía, abatia e espezinhava a homossexualidade em geral. O rapaz babou-se, riu, esgadanhou-se, fez de mimo - muito bem por sinal -, cantou, recitou, contou anedotas, aplaudiu-se e enojou-se. Tudo para se mostrar de costas viradas a essa doença. A minha irmã plantou na cara o seu mais perfeito sorriso e eu ia imaginando o pai do jovem sofisticado, todo nu, a dançar o fandango, com um cacho de bananas na cabeça e o retrato de rapaz pendurado nas miudezas.

 

Amanhã às 18 horas há corte de melenas e já fui surpreendida com uma data de SMS irritados do meu querido M. que se mostra espantado e indignado com o jovem sofisticado a quem vai cortar o cabelo e que deseja muito, muito, muito, muito, jantar com ele.

Ah, que ele quer tanto, tanto, tanto!

 

Só espero que o M. lhe faça umas tranças ou então uns totós. Apesar de demasiado frequente, é sempre uma experiência groumet jantar um macho empedernido mascarado de liceal sofisticada.

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A Gaffe sem expectativas

rabiscado pela Gaffe, em 08.09.14


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A Gaffe de crista

rabiscado pela Gaffe, em 15.03.14

É impressionante a quantidade de cristas que desfilam entregando um allure militar, ainda que vago, às avenidas do nosso descontentamento.

A originalidade não é uma das características mais notáveis nesta espécie que se reproduz nas cadeiras dos barbeiros das esquinas, mas é sempre agradável quando deparamos com um exemplar que decide mostrar a toda a gente que passa que só traz na cabeça o único amor que provavelmente tem na vida.

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A Gaffe na barbearia

rabiscado pela Gaffe, em 05.09.13

O travo vintage dos produtos que encantaram mulheres espartilhadas que desmaiavam num sopro de erotismo enlevado e que ruborizavam tímidas e pudicas mal o atrito de uma barba lhes tocava a mão no aflorar de um beijo, redescoberto hoje e de novo irresistível.

Há lugares que jamais podemos deixar de revisitar. São lugares onde ficaram presas as cordas do tempo e onde baloiça agora a coloração queimada de um presente tocado por histórias antigas.

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Nota – Este post é teu, meu querido PR, meu inacreditável, fabuloso e antiquado amigo, e traz dentro toda a saudade do meu universo pequenino.       

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A Gaffe e um guerreiro

rabiscado pela Gaffe, em 10.04.13

 Desde tempos imemoriais que o cabelo feminino é tido como sinónimo de sensualidade, muitas vezes de luxúria, outras vezes de condenação, várias outras de encarnação de inocência e de representação simbólica de virginais predicados. A atracção irremediável deste elemento que origina as mais incontidas paixões, expressou-se nos mais consagrados romances e declamada poesia.

O cabelo é uma arma, impossível de refrear se Dalila for, de novo, uma traição inesperada.   

Uma rapariga esperta reconhece que não é só no interior da sua cabecinha que reside um dos maiores afrodisíacos de sempre. O cabelo é um dos principais e magníficos entrelaçados que enformam o ninho ou a armadilha que acolhe ou amarra a força viril dos guerreiros invencíveis.

Sansão é apenas a narrativa de um mito que convém ser alterado. A lâmina que lhe decepou toda a pujança, nada mais era do que um fio de cabelo de Dalila.

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A Gaffe já sente a Primavera

rabiscado pela Gaffe, em 27.03.13

O Inverno passou tão depressa!

A Gaffe quase não teve tempo de sentir e de saborear os dias repletos de chuva e de vento que fazem voar memórias e guarda-chuvas, nem de se deliciar com livros lidos à lareira, guardada por almofadas e mantas de lã da Serra da Estrela.

Entra com passinhos meigos e suaves a subtil Primavera, tímida e insegura, mas com os dedos repletos de brisas diferentes e de sol mais preguiçoso no deitar.

É tempo de metamorfoses. Tempo de fazer sorrir, ainda que seja breve este sorriso, esboços de projectos e de asas. Tempo de borboletas no cabelo e de pequenos sonhos que vão abrindo os braços, prontos a abraçar tudo o que cresce.

É tempo de raparigas em flor.

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