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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe por um fio

rabiscado pela Gaffe, em 17.11.17

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Nas manhãs sem chuva, tenho medo.

Vou de pés atados pelo caminho estreito das mimosas de outrora.

A bruma regressa no retrocesso do tempo e na inversão dos pássaros que se debatem ainda nos fios da rede destes dias frios.

A sombra dos teixos a crescer nas pedras e nas tranças de água dos olhos dos peixes. Uma sombra a estilhaçar os vidros da memória.

Levo uma pedra cega de sono sobre a boca, uma clara mordida antiga de poeira branca ou luz de porcelana.

As manhãs frias parecem nomeáveis, presas pelo fio de água que tomba na cisterna, povoado de maçãs vermelhas e orvalhadas colhidas noutras manhãs cheias de frio.

 

As manhãs frias ficam só manhãs, até perder a conta, sem pele nem poros. Só com nome. Manhãs em que se veste a tristeza que na véspera havíamos dobrado e pousado nas costas da cadeira, arranjado o vinco, sacudido o pó e desfeito a prega, trocando as voltas à dor, à cor que fica bem, para que não se note muito que estamos a usar a mesma roupa de ontem.

 

Nas manhãs sem chuva, tenho medo e vou pelo peito da alvorada olhar o fio de água fria que tomba na cisterna. É dentro do frio fio da água da cisterna que há luz de linho branco, o vislumbre afogado do corpo de penas do estilhaçar das nuvens.   

Nas manhãs frias sem chuva, volto ao cerco dos braços da cisterna e o fio de água é pulseira no meu punho, arco em meu redor, enxames de abelhas no regaço do tempo, amor pousado na cintura da cama dos sossegos mútuos, medalha de marfim no pescoço de um cego, fenda do rochedo onde apascento o rebanho dos meus dedos.

 

Cedro ou madeira de cipreste ou um ramo de açucenas pousado no meu peito.

 

Frente aos meus olhos escorre a placidez da seiva descerrada, o entrançar das arrecadas da manhã nos pingentes de prata da luz de mandrágora e no frio das folhas que tombam nas deslumbradas manhãs das conchas de água dos fios das casas que eu habito.

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Gavetas:

A Gaffe deambulante

rabiscado pela Gaffe, em 10.10.17

Verlaine.jpgAs casas parecem maiores na ausência das gentes a que pertenceram. Crescem à medida que se esvaziam. Os corredores são mais longos, as escadas mais altas, há divisões que dobram de tamanho, há mais divisões, mais pisos, mais janelas para fechar, mais ruídos, mais chão, mais pedras, mais árvores, mais anoitecer.

As casas crescem na ausência das gentes que as amaram, ou adquirem as dimensões que sempre possuíram, mas que foram deformadas pelo amor. O amor diminui as casas. Aperta-as.

 

Lá fora, a copa das árvores grita de pardais. Floretes de luz chispam na terra. O pranto do lago treme quando a carpa morde os dedos do anjo de pedra eterno nesse aflorar da pele da água. O vento breve empurra as folhas de ferrugem contra as pedras. Rolam as folhas queimadas com um queixume enrouquecido. Redondo como o pátio. Um pássaro preto esvoaça e pousa no varandim de ferro. Olha oblíquo a tenacidade do tempo parado e depois para mim, que vagueio há dias por esta casa enorme. Inclina o pescoço, abre o bico, as garras apertam o meu medo súbito de ter por companhia o crocitar da memória e levanta voo embrulhado nos panos das asas.

 

Olho para dentro.

 

- Valha-me Deus! A menina parece uma alma penada!

 

A cadeira da minha avó. A jarra que o tempo marfinou, com as flores azuis no corpo a diluir fronteiras, esbatendo os limites como o fim de uma aguarela. A jarra onde se esqueciam braçadas de mimosas, onde as hortênsias secavam num silêncio anil enferrujado. A cigarreira em prata onde falta o monograma. O corta-papel de cabo trabalhado por Lalique. O minúsculo esboço de Amadeo fechado em vidro. O mocho talhado em pau-brasil, de órbitas vazias, onde o meu avô pousava agendas. A página dobrada do livro de Verlaine.

 

Os objectos deles. Dos que deixaram a casa crescer desmesuradamente. Todas as tardes deambulo por entre os objectos. Toco-os, bordo-lhes a pele, com a solenidade devida à majestade que provém da evidência de terem sido amados. À majestade do inútil. Não existe, em nenhum deles, a memória dos que lhes tocaram. Nenhum deles me traz presença alguma.

 

Os mortos estão em nós, no objecto que somos.

 

Os restos são coisa que cresce e que é inútil, como as folhas - cada vez  mais, cada vez mais -, que o vento empurra contra as pedras num queixume enrouquecido, e, no entanto, ao tocá-los, ao abrir-lhes a página que lhes foi marcada, os meus dedos ouvem o sussurrar de um poeta.

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Gavetas:

A Gaffe dos homens tristes

rabiscado pela Gaffe, em 04.10.17

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No Douro, os homens amadurecem a dor. Amadurecem a tristeza.

No Douro, a tristeza dos homens - daqueles que conheço -, vai envelhecendo com eles. Pacifica-os. Entrega-lhes uma benevolência calma e uma tranquilidade benévola, que são metamorfoses da indiferença.

 

Ao contrário dos homens, as mulheres do Douro param na tristeza. Urdem casulos pretos onde escolhem esconder a vida que estancou. Fechadas dentro da alma, espiam de negro amargo o voltear das estações, assistem enlutadas ao inexorável oxidar do tempo, detêm-se hirtas na demora da morte da memória.

Ficam só elas.

 

A tristeza dos homens, aqui no Douro, é um corpo a envelhecer ao lado deles, com o sossego do inevitável, com a delicadeza do silêncio que acompanha o paradoxo que é ter, ao mesmo tempo, uma espécie de cortesia oriental, dócil, delicada, emudecida, translúcida, submissa, e a combatividade dos retorcidos troncos das videiras.

A tristeza dos homens do Douro, usa mantos tatuados com dragões coloridos, sobreposições de sedas e de cores. Faixas pacientes. Tem cabelos lisos, pretos, presos por travessas de jade trabalhado, olhos de pálpebras fechadas, pés impalpáveis com passos delgados e mãos de chá puro de ritual antigo.

 

O rosto de alabastro.

 

A tristeza dos homens tristes, aqui no Douro, vem e vai, sempre atrás deles.

Acorda-os com o som do Shamisen. Vê-os brutais comer, despedaçando a carne ensanguentada, e toca os alimentos com a brandura dócil da deferência. Canta-lhes como cantavam as Goze, enquanto suam curvos pelas vinhas.

A tristeza dorme sempre aos pés dos homens tristes ou fica acordada a guiar o vento para lhes amainar os corpos destroçados.

 

Ao contrário das mulheres, aqui no Douro, os homens tristes nunca ficam sós.       

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A Gaffe de corpo inteiro

rabiscado pela Gaffe, em 29.09.17

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A minha irmã vive num apartamento amplo e luminoso que os mais ilustres podem, num vislumbre, considerar minimalista. No entanto, a ausência quase total de objectos não se relaciona com qualquer opção estética. A minha irmã compra, porque o escolhido se lhe afigura de importância capital para o seu conceito de conforto que inclui o inquieto, o que impede o desarmar da vontade ou o impulso criativo.

As paredes derrubadas deram primazia à luz branca, asséptica, metálica, que gela os corpos e entrega aos móveis, cuja existência se deve ao facto de nenhum poder ser movido, a geometria da perenidade. Há tarefas definidas para cada um dos objectos e porque a única preocupação na compra é a função que cada um tem de exercer, todos são limpos e puros como as obras-de-arte.

 

Parece frio, incomplacente e demasiado branco. Um espaço de racional inflexibilidade. Mais pragmático do que minimal. A minha irmã suporta mal a cor à sua volta. Admite breves tons de cinza, muitas vezes chumbo, muitas vezes quase nada, o preto, o metal, mas recusa frequentemente outras paletas.

 

Sempre me pareceu um apartamento vazio - provavelmente pelas ausências longas e frequentes da dona -, como se estivesse eternamente à espera do habitante, até ter encontrado ontem, numa moldura lisa e perfeita, uma fotografia minha, a chispar de cores e riso aberto, grande e de corpo inteiro.

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A Gaffe tatuada

rabiscado pela Gaffe, em 28.09.17

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O nome dos outros em mim como tatuadas gentilezas.

No meu corpo nu a morrer de frio consigo ler o nome dos outros a pena escritos na pele ou desenhados ténues, indeléveis, corrompendo a macia superfície. Como se a cada nome fosse entregue um espaço meu, do meu corpo nu que treme precipitado pelo frio. Como se a minha memória fosse este lugar despido e nada mais houvesse a não ser o risco que em cada nome no meu corpo nu se misturou na pele.

 

O do meu irmão, perto do lugar de onde respiro. O da minha irmã, junto dos olhos com que vejo sem ver, cega de tudo. Os nomes dos meus avós, nas minhas mãos que fazem e desfazem. Os dos meus pais, no centro dos meus braços.

 

De todos os nomes no meu corpo aquele que eu consumo, gasto, esbato, adoço e esvaeço, tem a cor do afago no lado esquerdo de todos os sentidos. O do meu Amigo.

 

Deixo que pousem devagar no coração.

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A Gaffe sacrificada

rabiscado pela Gaffe, em 26.09.17

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De forma a aproveitarmos a presença breve da minha prima por terras lusas, fomos as três muito unidas rumo à confeitaria/leitaria Quinta do Paço onde uma pequena esplanadita nos faculta umas mantas vermelhas bastante ranhosas, mas muito quentes - que, digam lá o que disserem, o fim de tarde já arrefece - e uns éclairs recheados - chantilly ou chocolate - de morrer ali todos diabéticos.

As duas mulheres desprevenidas enroscaram-se nas mantas transformando-se em índias Cheroqueques, muito felizes. A perfeição da minha irmã recusou o allure, porque tinha trazido casaco e um objectivo. Já que ali estava - e suspeito que estávamos ali por isso - tinha marcado encontro com o arquitecto italiano que a substituirá durante uns dias. Queria que o homem visse in loco uns detalhes nos edifícios em frente. Os pormenores estudados seriam reproduzidos aquando da recuperação de um mamarracho qualquer, algures de onde o homem veio.

 

Vimos o rapaz chegar de sorriso aberto.

 

Muito agradável à vista desarmada, em excelente forma física, moreno e luminoso, de olhos pretos e negra madeixa ao vento, o descontraído rapaz trazia vestida uma t-shirt arrepiada, um casaco desleixado e umas calças de malha fina que são um cruzamento entre um fato de treino e umas ceroulas, mas que parecem ser consideradas um must pelos musculados concorrentes do Big Brother mais guna – ouvi na Ribeira e não sei o que significa, mas acho que fica bem aqui -  e pelos artistas mais boémios que citam Sartre e entendem Miró até ao âmago - o que une extremos consideráveis.  

 

Apercebemo-nos, talvez devido à luz de Outono que tombava devagar, que havia qualquer coisa estranha no andar do moço, mas, como se diz no velho Douro, nem fun nem fanforreira partilhamos, guardando cada uma a estranheza no mais íntimo da alma. 

 

A minha irmã levanta-se, o homem sorri-nos – ciao! - e desatam os dois a apontar as pedras e as varandas, com a anfitriã a rabiscar explicativos riscos no bloco que tinha tirado da carteira.

 

As duas índias Cheroqueques, sentadas, quietas, caladas como ratas, de éclair parado e perplexo, tinham avistado a razão da anomalia no andar do homem.

As calças largas de malha fina tinham-se colado, tinham-se grudado, à pila do moço!

Aquilo ou era electricidade estática ou então tinha chovido na véspera e encharcado uma anaconda da Amazónia. Contornos, desenhos, protuberâncias, trilhos, volumes, escavações, bossas, saliências e arredores, tudo ali mesmo à mão de semear tempestades e colher a ventania que deve aquilo fazer ao abanar.  

                                                                                                                                                    

Se tivesse aparecido nu da cinta para baixo, seria mais discreto, valha-nos Deus!

 

O homem pousava o peso na perna esquerda e a piloca acompanhava toda elegante o movimento, o homem pousava o peso na perna direita e o monstro lá estava, pronto para se aninhar noutras paragens.

 

Olhei de soslaio para a minha prima.

A rapariga estava com o nariz franzido, com os cantos da boca repuxados e os olhos transformados em frestas orvalhadas por onde se escapava um riso destravado. O queixo termia um bocadinho, mas nada que indicasse epilepsia. 

Bastava que o meu joelho tocasse o dela, avisando que também testemunhava os movimentos de Loch Ness, para termos foguetório.

A minha irmã pousou o bloco na mesa e desembainhou as armas brancas dos olhos. Percebemos que bastava um nosso inocente e simples risinho parvo e totó para sermos atingidas na jugular pela lapiseira encharcada em cicuta. 

 

Quietinhas. Caladinhas. A tentar não nos esbardalharmos, nem fazer ruir os edifícios. 

 

A minha prima olhava para os transeuntes, evitando cruzar manigâncias comigo e com o que oscilava ali na frente. Ouviam-se uns ruídos surdos que soltava pelo nariz, acompanhados por esquivos solavancos nos ombros e no peito. Eu, muitíssimo mais controlada nestas ocasiões - é nestas e nos terramotos. Foi ver-me no de 1755! -, procurava encontrar forma de lhe causar a perdição completa.

Peguei no bloco e escrevi:

 

O homem não traz cuecas!!!

 

 Estendi o bloco e a lapiseira. A minha prima leu e com os queixos a tremer, com as maminhas a saltar e os ombros a abanar, conseguiu os riscos:

 

Ou traz o fio dental ao contrário.    

 

Voltei à carga:

 

Não é italiano. Está a mentir.

 

A minha prima ficou curiosa. Beberricou o sumo de laranja para acalmar, franziu as sobrancelhas e já muito séria inquiriu - com os olhos, porque qualquer palavra dita, por imbecil que fosse e a ano-luz de ter piada, provocaria o descalabro.

 

É de Mirandela. Traz o fumeiro dentro das calças.

 

Desastre absoluto.

A mulher esbardalha-se sem dó nem piedade e até pelo nariz. O sumo de laranja disparado num borrifo imenso atinge a prima Cheroqueque que fica com o cabelo como se tivesse atravessado o furacão Maria e sofrido em seguida uma tempestade tropical, pois que até das pestanas o sumo pingava. 

Já nada nos trava. Depois de chorar desalmadamente, ensopando as gargalhadas, e depois de sentir o ar a fugir, o riso abrandou.

Olhamos as duas para a morte que se perfilava.

A minha irmã tinha na mão o bloco e tentava salvar e limpar os gatafunhos. Tinha lido as nossas angelicais considerações.

Havia explicações a dar.

Vira-se devagar para o homem atónito e sussurra com um perfeito sotaque spaghettiano.

 

- Questionaram a tua nacionalidade. Uma tolice, já que trazes a Torre de Pisa enfiada na porcaria das calças.

 

Apesar de, pela primeira vez, a minha irmã ter conseguido ser brejeira - há inesperados que abanam pesados no meio das mais sólidas convicções -, estas duas primas Cheroqueques vão morrer em breve; quiçá abrasadas pelo rubor incandescente que assolou o pobre do rapaz; quiçá vítimas de facas embebidas em curare, atiradas pela grande sacerdotisa - cuja mira é falacciosa -; quiçá sacrificadas em rituais tribais onde são trespassadas por alheiras do tamanho de anacondas.

 

A minha prima admite que a última hipótese é a que prefere.

 

Ilustração - Sérgio Martinez

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A Gaffe sem facebook

rabiscado pela Gaffe, em 25.09.17

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A revista concentrada que folheava impedia a chamada cumplicidade de mulherio. Só o barulhinho do virar da página indicava que talvez fosse possível introduzir uma palavra dita nos domínios do papel lustroso.

Cruzou as pernas e deixou que no meio da imobilidade posterior ao instante lhe analisasse em detalhe os J’Adior que se exibiam agudos e aveludados nos pés pequenos para tamanha altura.

 

- A fita podia ser menos apelativa  - começo descontraída crítica.

- Hummm - e vira a página.

- Não sei se gosto da ostentação patega da marca - continuo muito inteligente.

- Hummm - e vira a página.

- Mas o laço é tão bonito! - sorrio com a mimosa descoberta.

- Hummm - e vira a página.

- Os calços são feios - desaprovo.

- Hummm - e vira a página.

- Parece que os partiste - aponto eu.

- Hummm - e vira a página.

- A fita branca talvez seja um bocadinho exibicionista - acrescento.

- Hummm - e vira a página.

- Talvez se fossem os de couro não parecessem tão miquinhas - juro que não sei onde fui encontrar esta expressão.

 

A minha irmã levanta-se. Fecha a revista e antes de sair recomenda:

- Controla-te. Não estás no facebook.

 

E viro a página.

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A Gaffe quase de férias

rabiscado pela Gaffe, em 26.07.17

M.S.

 

Aproximam-se as minhas férias. Três dias mais e parto.

É assombrosa a quantidade de trabalho que tenho de deixar em ordem. Planear a minha ausência deixa-me nervosa, porque não sei entregar tudo o que é da minha responsabilidade à pobre criatura que me vai substituir.

 

Não sei para onde vou e suspeito que não sei se não vou por aí.  

Os planos de férias foram entregues à minha irmã que sempre cuidou dos pormenores com a minúcia dos obcecados. Saberei o destino apenas no instante de partida.

 

Não tem a mínima importância. É-me indiferente o local para onde me levam. Estou demasiado cansada para implicar com destinos e revoltar-me contra o destino. Aceito pacificamente os traçados de viagem e as inevitáveis exigências da mulher que é capaz de alterar o dispositivo de funcionamento do serviço de quartos de um hotel apenas porque não lhe agradou a forma como lhe foi servido o pequeno-almoço.

Enfurecia-me, há alguns anos, a prepotência quase infantil com que esta criatura se movia e fazia com que os outros se movessem. Irritava-me a sua forma de se sentir em casa, fosse onde fosse, e o modo como agia em consonância, alfinetando ordens, apontando direcções ou aguilhoando críticas com ácido. Invejava a capacidade de se manter ilesa a todas as variações do tempo, como se fosse transportada numa redoma invisível capaz de tornar constante uma determinada temperatura. Temia as suas reacções soberbas, as farpas subtis e as queimaduras infligidas aos incautos que se atreviam a tocar a superfície das escolhas desta mulher, contrariando, levemente, os seus desígnios ou as suas mais incipientes decisões.

 

Agora não.

 

Adapto-me. Talvez tenha aprendido a ser indiferente. Já não me agoniza de vergonha a forma quase desumana com que esta mulher vislumbra o mundo. Já não me choca o facto de parecer que os outros - todos - são para ela elos de um colar que vai crescendo e que é relaxante enrolar nos dedos.   

O meu cansaço atenua a minha culpa. Acomodo-me e entorpeço. Narcotizo a necessidade que sentia de voltar para trás e abraçar as vítimas. Compensar de qualquer modo os danos que foram causados. Anular as distâncias.

Já não quero saber e sinto-me calma. Destrutivamente calma, como se tivesse perdido um órgão e percebesse que não há dor, que não era vital, que sem ele sobrevivo embora mutilada.  

Desisti. Creio que desisti. Sei que por indução, por errada conclusão de similitude, não me vão tocar estranhos e que os mais próximos vão descobrindo que pode ser letal sobrevoar rasando as garras que se estendem ao sopro mais subtil.

A sugestão funciona.

 

Não sei por onde vou e não sei sequer se não vou por aí.

Sei apenas que seja onde for, é mais fácil viver quando ao nosso lado está deitado um tigre.

 

Foto - Melvin Sokolsky (1933)

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A Gaffe vigiada

rabiscado pela Gaffe, em 20.07.17

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Após um processo complexo de negociações - e ligeiramente ronaldesco -, a minha sobrinha foi afastada do frio nórdico onde se aquecia ao colo da mãe e entregue à atmosfera gelada da minha irmã que se tornou sua tutora, reservando ao meu irmão, pai da criança, o papel de vigilante, supervisor e garante do cumprimento das normas estabelecidas pela tutela que durante as suas prolongadas ausências não confia nem nos peluches que a criança escolhe.

 

A adaptação da menina à sua nova forma de viver foi rápida. Depressa se moldou à figura que a domina, adquirindo, por mimetismo, a capacidade de vergar, de manipular e de, tantas vezes, chantagear aqueles que a mimam sem autorização, como se o seu afastamento da origem e a aproximação ao poder lhe tenham dado a prerrogativa de desobedecer soberanamente.

 

É de uma beleza encantatória, mas talvez demasiado silenciosa e excessivamente controlada, como se bastasse surgir, tocando com os dedos no tampo dos móveis, arrastando a luz que vem com ela de um exterior menos soturno, para que todos os olhares tombem na teia com que vai urdindo os dias sem brincar.

 

Admito que a ligação que tenho com esta criança é de quase receio, de quase arrepio. Não que a pense sinistra ou saída de um sonho mais ínvio ou mais funesto – tão longe disso! -, mas porque acabo sempre cativa dos seus divagares mudos, dos seus gestos lentos e da sua aparente fragilidade, contrariada pelo modo quase áspero com que lida com os poucos amigos que a idolatram.

 

Há dias, ao jantar, a menina ficou muito quieta, a sorrir, de olhos fixos no espaldar de uma cadeira longe da mesa.

Perguntaram a razão do pasmo e do sorriso pateta.

- Está ali o Zé Luís, sentado. Estou a olhar para ele.

Ninguém se alterou. Ninguém se virou para conhecer o Zé Luís. Os talheres moveram-se com a lentidão e a indiferença habituais. Apenas eu fiquei atónita.

- E o que está a fazer o Zé Luis, sentado ali na cadeira? – arrisquei, mesmo sabendo que podia ser trucidada ao cometer o erro de me imiscuir e perturbar a serenidade do jantar atribuindo atenção a um devaneio de uma criança demasiado imaginativa.

- Está a vigiar-vos.

 

Confesso que me perturbou.

A resposta saiu convicta e eivada da tranquilidade que provém do hábito e foi essa insinuação de certeza, que é consequência daquilo que se tornou rotineiro e mais banal, que fez vibrar o que devia permanecer gelado nos olhos da minha irmã.

- Os teus amigos imaginários podem sentar-se onde quiserem, mas não podes trazer esse para dentro de casa. Estás proibida de brincar com gente mal-educada.

Saiu depois. Interrompeu o jantar.

 

A criança ficou quieta.

Tentei sorrir. Pousei a mão na cabeça da menina e comovi-me.

A infelicidade daquela criança era chocante, e porque a infelicidade em demasia quando infligida a uma criança, impede-a de conhecer a fronteira entre o amor e o desamor, avistei-lhe dentro dos olhos o glaciar que se formava lentamente.

Percebi então que aquela menina vai sem dúvida cumprir o estipulado. Crescer em demasia. Desmesuradamente só. Sem ter quem a vigie.

 

- Podes brincar comigo e com o teu amigo no meu quarto. Fica um segredo nosso.   

 

Foto - Vivian Maier

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A Gaffe a cavalo

rabiscado pela Gaffe, em 18.07.17

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Despedi-me hoje de manhã muito cedo do rapagão.

Partiu para Manaus numa visita que demorará três semanas que lhe proporcionarão um mais aprofundado conhecimento não sei exactamente do quê, mas que me pareceu entusiasmante, pelo nervosinho demonstrado pelo homenzarrão.  

 

Tendo em conta que chegar a Manaus, partir depois para o Parque Nacional de Jau e passado algum tempo seguir para o Parque Nacional da Neblina, lhe arranca mais do que oito dias de viagens, o homem não vai ter grande tempo para andar atrás do gado, embora - pelo sim, pelo não -, o tenha ameaçado com todas as sevícias que encontrei - mais as desviantes e anómalas que Gentil Martins referiu - caso o rapagão ceda ao fascínio das vacas que por lá mugem e se ponha a cavalgar em lombo alheio.

 

Insistiu muito na minha companhia, mas só a perspectiva de me ver a evaporar ou coberta de lume tropical; no meio de caminhos repletos de bichos estranhos e rastejantes que nos picam imenso e têm dentes maiores que a cabeça; envenenada por uma serpente ou ali morta por um jacaré – que nem sequer é Lacoste; aos solavancos por trilhos estreitos, cheios de ervas do tamanho de embondeiros; com as mamocas a desintegrar-se com o calor e sem poder voltar para casa no primeiro avião que aterrar na selva, foi desmotivadora. Não quis ir.

 

Suspeito que foi apenas para se vingar do meu abandono que, pronto para subir para a sela do avião e rumar ao pôr-do-sol Amazónico, me disse com um ar muito descontraído, como quem não liga à coisa, que quer visitar a região onde os homens tratam das manadas de gado - bichos de grande porte, quase mamutes -, completamente nus ou apenas com uma tira de tecido a embrulhar - mal - as zonas mais expostas às crinas dos cavalos.

 

Fiquei perplexa.

Espero sinceramente que o homem não tente a façanha, porque com o galope do cavalo e a piloca a dar-a-dar ainda volta para casa com o nariz partido.

 

O certo é que o rapagão é de uma lisura, de um rigor e de uma correcção exasperantes quando se trata da verdade, mas a nudez daqueles cowboys deixou-me confundida.

Então há um recanto neste planeta onde os tipos andam todos suados, todos musculados, todos morenos, todos tisnados, todos másculos, todo, todos, todos, todos a abarrotar de adrenalina e de testosterona, atrás das vacas, de pila ao léu, a dar-a-dar no cavalo?! Nunca tinha ouvido, lido ou sido informada acerca o assunto!

 

Não acredito.

Mentiroso!

 

A verdade é que me arrependi, logo ali, mal o maldito levantou voo, de não ter ido com ele.

 

Alguém sabe onde fica esta porcaria?

É que uma rapariga como deve ser tem o dever de acompanhar o seu homem, dê por onde der e seja para onde for, e sobretudo tem a obrigação moral de impor alguns princípios civilizacionais à barbárie e de vistoriar a fardamenta dos profissionais em nome da segurança e da alegria no trabalho.

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A Gaffe nevada

rabiscado pela Gaffe, em 12.07.17

Ava Gardner by John Engstead.jpgÉ uma das amigas da minha irmã. Alguns meses mais velha do que ela, casou aos vinte e sete anos permanecendo grávida durante os cinco primeiros de felicidade partilhada. Sucessivamente grávida. Ano após ano.

Colegas de curso, as duas percorreram estradas diferentes. A minha irmã ignorando por completo a prazenteira perspectiva de constituir família, trocando esta bagatela por uma carreira de diamante, a amiga desistindo da profissão a favor de cinco crianças e de um marido escandalosamente rico.  

 

Comprou um velho e abandonado palacete no Norte. Veio de Lisboa, da Estrela, entregar o projecto de recuperação à única arquitecta em que confia. Não o agarra, porque já nem sabe ler a planta de um cubículo - confessa, com a curta farpa de um orgulho estranho espetada no sorriso.

 

É uma mulher bonita, sem ser deslumbrante, ou então o fascínio e o brilho que poderá reter, são asfixiados pela figura da minha irmã que não esconde o desprezo que sente por uma criatura capaz de abdicar de um projecto de vida próprio em nome dos projectos de vida seja de quem for. É quase embaraçosa – e muito cruel - a forma como a minha irmã a olha, com uma ameaça latente no azul metálico e cínico do olhar, e exibe uma pretensa superioridade intelectual invadindo a amiga com questões que a pobre devia dominar, mas que a tornam imbecil, serigaitando num nervosismo tolo ao admitir que já se esqueceu das respostas, fazendo saltitar risadinhas que esbarram com a indiferença que sorri eivada de maldade da interlocutora.  

 

O óptimo seria que se desse como finda a recuperação depois do Inverno.

 

- nêv - informa, acrescentando que poderia ser agradável depois do frio passar uma primavera mais bucólica.

 

Olho as duas mulheres, sentada no sofá da minha atenção mais picuinhas.

Podiam ser, de modo brutal e sanguinário como apenas as grandes amizades o sabem ser, inimigas mortais, porque pertencem ao nicho onde só habitam predadores.

São ambas detentoras de um capital simbólico elevadíssimo. As duas pertencem ao que, muitas vezes como insulto, se chama elite dominadora. São igualmente sofisticadas, igualmente loiras, igualmente elegantes, igualmente ricas. Não há grande matéria que as separe.

São portanto amigas.

 

o único estilhaço que as separa, encontro-o eu num destino de Inverno.

- Vô pá nêv.

A outra não.  

 

Foto - Ava Gardner por John Engstead

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A Gaffe violinista

rabiscado pela Gaffe, em 27.06.17

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Amanhece cinza friorento.

 

Ele afasta-me a cabeça do peito e pousa-a na almofada com o cuidado de quem não quer perturbar o meu dormir, sem saber que há momentos acordei e fiquei a olhar-lhe o sono.
Desliza pelos lençóis devagarinho e nu, perfeito, não vislumbra as minhas pestanas entreabertas.

 

Ouço o chuveiro.
Ouço a água a correr para a chaleira.
Sei-o de braços cruzados e toalha à cinta, encostado ao balcão metálico à espera de calar de imediato o assobio da água em desespero.

Depois os dedos tamborilam no balcão.

Ouço-o a abrir o armário e a retirar da caixa o pequeno pacote do chá que toma todas as manhãs cinzentas e ensonadas.
Ouço a torradeira a disparar o sol que já é de ontem.
A cadeira nos ladrilhos do soalho.
Ouço o ruído áspero da escova dos dentes e de novo a água a correr e de novo a escova e outra vez a água.
Ouço o tilintar do cinto e o barulho manso de roupa a ser vestida.
Depois pousa um joelho na minha cama, inclina-se e beija-me o canto da boca, levemente.
Ouço a porta a fechar devagarinho.

                                                                       
Todos os seus ruídos são banais, prosaicos, corriqueiros, mas parecem todos eles declarações de Amor.


Ao fundo, aos pés da minha cama, perfilam-se os violinos.

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A Gaffe a sussurrar

rabiscado pela Gaffe, em 21.06.17

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Nas minhas memórias arrasto o passado sem olhares de ânsia inútil ou sem qualquer amarfanhar de alma que vem do desejo de recuo. Olho para mim e acredito que tudo o que vivi não agarra e não contém o germe capaz de fazer rebentar flores carnívoras.

Lembro, por exemplo, da primeira vez que vi a Luzia, mas tal recordação não me leva a nenhum sentir doloroso. Sei que a vi à entrada da casa, junto ao portão de ferro forjado. Havia ainda a alameda de vinhas despidas e um caminho de terra calcada que teria de percorrer até me chegar. Ao longe, a Luzia parecia ainda mais pequena do que realmente era. De vestido cinzento, comprido e tubular, de avental gigantesco, imaculado, e um lenço enrolado no pescoço. Um lenço amarelo tostado, liso e limpo, emergindo do antracite do conjunto. Permaneceu quieta por momentos e depois arrancou com passinhos decididos. Através da janela, via-a aproximar-se. Primeiro foram os olhos. Negros, minúsculos e aguçados, pareciam andar mais depressa do que a dona. Chegaram de repente e apanharam-me desprevenida. O seu olhar cheirava a perigo. Era predador e eu julguei ser a caça. Antes da mulher ter chegado completa, já me tinha escondido dentro do colo da minha avó.

O seu amor absoluto foi-me entregue todo e exactamente por isso acabei presa inevitável. A sua ternura sempre contida, sempre doseada nas relações com os outros, tornava-se comigo uma vigilância doce e protectora.

Amava-me, mas nunca o deu a perceber de forma clara. Como se o seu sentir fosse dado adquirido ou facto a ignorar porque revelador de falhas. Sentava-se a uns metros de mim e ficava ali, quieta e em silêncio, de mãos pousadas no avental, a provar que era amor aquilo que eu via. Com o tempo percebi que nesses momentos a Luzia vigiava. De olhos aguçados, cheirando o ar, atenta ao mais irrisório movimento, afastava-me da vida sem perceber que essa protecção tornava predador o amor que me entregava.

 

No início das tardes, depois do almoço, a Luzia alisava com as mãos o tecido branco da toalha. Preparava o jogo, perante a impaciência da minha avó, que adiava, de braços cruzados e murmúrios entre dentes, a ordem de se limpar a mesa. Fazia depois minúsculas bolas com o miolo do pão. Colocava-as alinhadas e marcava a meta, largos palmos longe delas, com um traço de unha sobre o pano.

Tínhamos, eu e o meu irmão, de soprar as bolas de pão ao mesmo tempo, com força e de forma contínua, até que uma tocasse no risco da meta. A vitória era levada por uma colher ao boião de mel, embebida nele e oferecida como guloseima. O jogo foi adquirindo algumas variantes e, com o tempo, para além do sopro, deveríamos ser capazes de ciciar, de fazer escapar as sibilantes, encontrando o sinónimo da palavra que a minha avó, que se rendia sempre, tinha escolhido e que inevitavelmente seria solta com sons de assobio.

À espera de um rumor, as duas cravavam os olhos na minha boca e na do meu irmão à espera que um de nós articulasse os sons desejados. Mas as bolas de pão que o rapaz soprava eram sempre mais rápidas e chegavam à meta antes de se soltar qualquer soído de serpente. Dia após dia, mês após mês, colheres mergulhadas em mel passaram inúteis pela minha esperança que teimava em jogar e que eu sabia, tão bem como minha avó, ser absurda.

Nunca ganhei.  


A minha absoluta fragilidade de alma, a minha indomada e dolorosa insegurança nasceram ali e cresceram soltas, perto dos olhos vigilantes da Luzia, uma das mais fenomenais mulheres da minha casa.

 

Morreu ontem, pela noitinha.

 

Um dia perguntei-lhe qual era o seu maior sonho. Disse que me iria rir se o soubesse.

Jurei que não.

Queria muito ver os macacos no Jardim Zoológico.  

Nunca chegou a ver os macacos enjaulados e eu nunca ganhei o jogo das toalhas brancas.

 

Só agora sei o que significa sussurar.

 

Imagem - Denis Sarazhin

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A Gaffe com a mãe

rabiscado pela Gaffe, em 20.06.17

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A fragilidade da minha mãe, a sua quase imaterialidade, foi transformada numa elegância reservada, quase tímida, discreta e tranquila.

É uma elegância que não surpreende. É esperada, visível no primeiro assomo, inevitável como um facto. Uma evidência construída pelos gestos leves, brandos, de uma serenidade possivelmente submissa, mas que nos faz sentir num abrigo com sombras de lilases.

O labor da minha avó teve neste caso um parco sucesso. A minha mãe não é impositiva, não tem nas mãos as capacidades de um líder e o seu modo de se mover, pacífico e quase demasiado silencioso, impedem que domine e controle a alcateia imensa que à sua volta ronda.

Às vezes, no jardim, sentada a ler - Hemingway que não condiz com ela -, num sossego brando e quieto, o ar fica envolvido de espuma e de perfume e dir-se-ia ao vê-la assim etérea, transparente, que a imponderabilidade a tomou por sua. Mesmo quando vira a página do livro nenhuma flor estremece.

 

Dizem à toa que a beleza salta uma geração. Se a avó é formosa, a filha não o será, herdando a neta as características perdidas entretanto.

 

Aqui a beleza estabilizou. Tornava-se fácil, enquanto havia a possibilidade de as ver juntas, perceber que possuíam, as três, perfis aristocratas que lhes forneciam um lance quase enigmático, essencial à elaboração de uma imagem que invade a memória dos outros. Todas de olhos claros, de uma transparência que se foi perdendo à medida que o tempo carregava o verde azeitona e atenuava os lanhos de cinza. Todas brancas e loiras, embora a minha irmã tenha abrandado a alvura por ter dado primazia ao tom de pele do meu pai. Altas e magras, como hastes, caules de uma qualquer flor estranha que oscila sem quebras, não por força do vento, mas por desejo de terra e céu ao mesmo tempo.

 

É curioso perceber que se tão unidas pelos traços físicos, apenas os extremos se tocaram no modo como lidam com a vida. A minha mãe, no meio, é o esvoaçar do silêncio de um pássaro por entre as margens da vertigem deste rio.     

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A Gaffe azul salmão

rabiscado pela Gaffe, em 19.06.17

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O meu vestido era de linho, de meia manga, trapézio, cor de salmão com pequenas pintas brancas e um folho grande na bainha. Apertava atrás com minúsculos botões de madrepérola.  

 

Nunca mais tive um vestido tão bonito.

 

Tinha deixado que me prendessem os cabelos no interior da copa do chapéu de palhinha de abas largas, porque dessa forma podia deambular no orgulho de ter pela primeira vez nas orelhas as pérolas miúdas que substituíam definitivamente as bolinhas de ouro disparadas há um mês.

 

A maré mansa e o vento dócil permitiam que brincássemos perto do mar.

 

A minha avó de vestido de linho, largo azul-marinho, de chapéu de abas largas e brincos de pérolas, ficava a olhar-nos. Tinha um lenço de seda no pescoço. Um lenço que parecia uma onda, tocado pelo vento. Uma onda a esvoaçar.

A minha irmã quis trepar às rochas.

- Brincar na areia é uma ideia que deves considerar – aconselhou a vigilante.

Levou o meu irmão. Galgar as rochas era muito mais aventureiro.

Fiquei ao lado da minha avó. Queria muito ser igual a ela. De vestido de linho, chapéu de abas largas e brincos de pérolas.

O meu irmão caiu e arrastou a companheira. A minha avó viu-os chegar, choramingando, da desfeita e magoada façanha montanhista. Levou-nos para casa.

 

As escoriações não eram graves. Arranhões na perna e numa das mãos do rapaz e um pequeno corte no joelho e no orgulho da rapariga a não carecer de sutura. A minha mãe tratou do jovem, ao mesmo tempo que o mimava com o sorriso do embalo.  

A minha avó trouxe de dentro o conjunto que a acompanhou a vida toda. Um frasco de água oxigenada, outro de soro fisiológico, um pacotinho de gaze e Betadine. Entregou-o à minha irmã.

 

- Eu sento-me aqui enquanto tu limpas e desinfectas esse golpezinho.

- Tu não me tratas?!

- A decisão de escalar às rochas foi tua. Foi a melhor decisão, admito. Construir castelos parvos de areia é bem menos interessante que trepar a um barco de piratas. Mas tu caíste. A tua decisão fez-te cair. Tens de parar de choramingar e tratar esse lanho. É tão teu como a tua decisão.

- Tu deixaste!

- Não. Não interferi. Lembrei apenas que tinhas outra forma de brincar. Tu escolheste a que melhor te pareceu. Decidiste subir às rochas. Foi uma bela determinação, mas caíste. Agora deves tratar das feridas que a tua decisão provocou. Não te magoaste muito, não vai custar. Convém que não choramingues. É desagradável ouvir alguém lamentar a dor causada por uma decisão que tomou.

- Ele também foi e a mãe está a ajudar – sofria a minha irmã.

- Tu convenceste-o. Aqui está uma coisa que não precisas que te ensinem: convencer os outros. Depois, minha querida, é um rapaz. Os rapazes quando se magoam, não se sabem comportar. Têm de ser socorridos.

 

Foi neste dia de maré mansa e de vestido salmão com pintas brancas que descobri que quando crescesse queria ajudar a cuidar dos outros e que comecei a ter medo de tomar decisões.  

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