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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe quase de férias

rabiscado pela Gaffe, em 26.07.17

M.S.

 

Aproximam-se as minhas férias. Três dias mais e parto.

É assombrosa a quantidade de trabalho que tenho de deixar em ordem. Planear a minha ausência deixa-me nervosa, porque não sei entregar tudo o que é da minha responsabilidade à pobre criatura que me vai substituir.

 

Não sei para onde vou e suspeito que não sei se não vou por aí.  

Os planos de férias foram entregues à minha irmã que sempre cuidou dos pormenores com a minúcia dos obcecados. Saberei o destino apenas no instante de partida.

 

Não tem a mínima importância. É-me indiferente o local para onde me levam. Estou demasiado cansada para implicar com destinos e revoltar-me contra o destino. Aceito pacificamente os traçados de viagem e as inevitáveis exigências da mulher que é capaz de alterar o dispositivo de funcionamento do serviço de quartos de um hotel apenas porque não lhe agradou a forma como lhe foi servido o pequeno-almoço.

Enfurecia-me, há alguns anos, a prepotência quase infantil com que esta criatura se movia e fazia com que os outros se movessem. Irritava-me a sua forma de se sentir em casa, fosse onde fosse, e o modo como agia em consonância, alfinetando ordens, apontando direcções ou aguilhoando críticas com ácido. Invejava a capacidade de se manter ilesa a todas as variações do tempo, como se fosse transportada numa redoma invisível capaz de tornar constante uma determinada temperatura. Temia as suas reacções soberbas, as farpas subtis e as queimaduras infligidas aos incautos que se atreviam a tocar a superfície das escolhas desta mulher, contrariando, levemente, os seus desígnios ou as suas mais incipientes decisões.

 

Agora não.

 

Adapto-me. Talvez tenha aprendido a ser indiferente. Já não me agoniza de vergonha a forma quase desumana com que esta mulher vislumbra o mundo. Já não me choca o facto de parecer que os outros - todos - são para ela elos de um colar que vai crescendo e que é relaxante enrolar nos dedos.   

O meu cansaço atenua a minha culpa. Acomodo-me e entorpeço. Narcotizo a necessidade que sentia de voltar para trás e abraçar as vítimas. Compensar de qualquer modo os danos que foram causados. Anular as distâncias.

Já não quero saber e sinto-me calma. Destrutivamente calma, como se tivesse perdido um órgão e percebesse que não há dor, que não era vital, que sem ele sobrevivo embora mutilada.  

Desisti. Creio que desisti. Sei que por indução, por errada conclusão de similitude, não me vão tocar estranhos e que os mais próximos vão descobrindo que pode ser letal sobrevoar rasando as garras que se estendem ao sopro mais subtil.

A sugestão funciona.

 

Não sei por onde vou e não sei sequer se não vou por aí.

Sei apenas que seja onde for, é mais fácil viver quando ao nosso lado está deitado um tigre.

 

Foto - Melvin Sokolsky (1933)

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A Gaffe vigiada

rabiscado pela Gaffe, em 20.07.17

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Após um processo complexo de negociações - e ligeiramente ronaldesco -, a minha sobrinha foi afastada do frio nórdico onde se aquecia ao colo da mãe e entregue à atmosfera gelada da minha irmã que se tornou sua tutora, reservando ao meu irmão, pai da criança, o papel de vigilante, supervisor e garante do cumprimento das normas estabelecidas pela tutela que durante as suas prolongadas ausências não confia nem nos peluches que a criança escolhe.

 

A adaptação da menina à sua nova forma de viver foi rápida. Depressa se moldou à figura que a domina, adquirindo, por mimetismo, a capacidade de vergar, de manipular e de, tantas vezes, chantagear aqueles que a mimam sem autorização, como se o seu afastamento da origem e a aproximação ao poder lhe tenham dado a prerrogativa de desobedecer soberanamente.

 

É de uma beleza encantatória, mas talvez demasiado silenciosa e excessivamente controlada, como se bastasse surgir, tocando com os dedos no tampo dos móveis, arrastando a luz que vem com ela de um exterior menos soturno, para que todos os olhares tombem na teia com que vai urdindo os dias sem brincar.

 

Admito que a ligação que tenho com esta criança é de quase receio, de quase arrepio. Não que a pense sinistra ou saída de um sonho mais ínvio ou mais funesto – tão longe disso! -, mas porque acabo sempre cativa dos seus divagares mudos, dos seus gestos lentos e da sua aparente fragilidade, contrariada pelo modo quase áspero com que lida com os poucos amigos que a idolatram.

 

Há dias, ao jantar, a menina ficou muito quieta, a sorrir, de olhos fixos no espaldar de uma cadeira longe da mesa.

Perguntaram a razão do pasmo e do sorriso pateta.

- Está ali o Zé Luís, sentado. Estou a olhar para ele.

Ninguém se alterou. Ninguém se virou para conhecer o Zé Luís. Os talheres moveram-se com a lentidão e a indiferença habituais. Apenas eu fiquei atónita.

- E o que está a fazer o Zé Luis, sentado ali na cadeira? – arrisquei, mesmo sabendo que podia ser trucidada ao cometer o erro de me imiscuir e perturbar a serenidade do jantar atribuindo atenção a um devaneio de uma criança demasiado imaginativa.

- Está a vigiar-vos.

 

Confesso que me perturbou.

A resposta saiu convicta e eivada da tranquilidade que provém do hábito e foi essa insinuação de certeza, que é consequência daquilo que se tornou rotineiro e mais banal, que fez vibrar o que devia permanecer gelado nos olhos da minha irmã.

- Os teus amigos imaginários podem sentar-se onde quiserem, mas não podes trazer esse para dentro de casa. Estás proibida de brincar com gente mal-educada.

Saiu depois. Interrompeu o jantar.

 

A criança ficou quieta.

Tentei sorrir. Pousei a mão na cabeça da menina e comovi-me.

A infelicidade daquela criança era chocante, e porque a infelicidade em demasia quando infligida a uma criança, impede-a de conhecer a fronteira entre o amor e o desamor, avistei-lhe dentro dos olhos o glaciar que se formava lentamente.

Percebi então que aquela menina vai sem dúvida cumprir o estipulado. Crescer em demasia. Desmesuradamente só. Sem ter quem a vigie.

 

- Podes brincar comigo e com o teu amigo no meu quarto. Fica um segredo nosso.   

 

Foto - Vivian Maier

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A Gaffe a cavalo

rabiscado pela Gaffe, em 18.07.17

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Despedi-me hoje de manhã muito cedo do rapagão.

Partiu para Manaus numa visita que demorará três semanas que lhe proporcionarão um mais aprofundado conhecimento não sei exactamente do quê, mas que me pareceu entusiasmante, pelo nervosinho demonstrado pelo homenzarrão.  

 

Tendo em conta que chegar a Manaus, partir depois para o Parque Nacional de Jau e passado algum tempo seguir para o Parque Nacional da Neblina, lhe arranca mais do que oito dias de viagens, o homem não vai ter grande tempo para andar atrás do gado, embora - pelo sim, pelo não -, o tenha ameaçado com todas as sevícias que encontrei - mais as desviantes e anómalas que Gentil Martins referiu - caso o rapagão ceda ao fascínio das vacas que por lá mugem e se ponha a cavalgar em lombo alheio.

 

Insistiu muito na minha companhia, mas só a perspectiva de me ver a evaporar ou coberta de lume tropical; no meio de caminhos repletos de bichos estranhos e rastejantes que nos picam imenso e têm dentes maiores que a cabeça; envenenada por uma serpente ou ali morta por um jacaré – que nem sequer é Lacoste; aos solavancos por trilhos estreitos, cheios de ervas do tamanho de embondeiros; com as mamocas a desintegrar-se com o calor e sem poder voltar para casa no primeiro avião que aterrar na selva, foi desmotivadora. Não quis ir.

 

Suspeito que foi apenas para se vingar do meu abandono que, pronto para subir para a sela do avião e rumar ao pôr-do-sol Amazónico, me disse com um ar muito descontraído, como quem não liga à coisa, que quer visitar a região onde os homens tratam das manadas de gado - bichos de grande porte, quase mamutes -, completamente nus ou apenas com uma tira de tecido a embrulhar - mal - as zonas mais expostas às crinas dos cavalos.

 

Fiquei perplexa.

Espero sinceramente que o homem não tente a façanha, porque com o galope do cavalo e a piloca a dar-a-dar ainda volta para casa com o nariz partido.

 

O certo é que o rapagão é de uma lisura, de um rigor e de uma correcção exasperantes quando se trata da verdade, mas a nudez daqueles cowboys deixou-me confundida.

Então há um recanto neste planeta onde os tipos andam todos suados, todos musculados, todos morenos, todos tisnados, todos másculos, todo, todos, todos, todos a abarrotar de adrenalina e de testosterona, atrás das vacas, de pila ao léu, a dar-a-dar no cavalo?! Nunca tinha ouvido, lido ou sido informada acerca o assunto!

 

Não acredito.

Mentiroso!

 

A verdade é que me arrependi, logo ali, mal o maldito levantou voo, de não ter ido com ele.

 

Alguém sabe onde fica esta porcaria?

É que uma rapariga como deve ser tem o dever de acompanhar o seu homem, dê por onde der e seja para onde for, e sobretudo tem a obrigação moral de impor alguns princípios civilizacionais à barbárie e de vistoriar a fardamenta dos profissionais em nome da segurança e da alegria no trabalho.

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A Gaffe nevada

rabiscado pela Gaffe, em 12.07.17

Ava Gardner by John Engstead.jpgÉ uma das amigas da minha irmã. Alguns meses mais velha do que ela, casou aos vinte e sete anos permanecendo grávida durante os cinco primeiros de felicidade partilhada. Sucessivamente grávida. Ano após ano.

Colegas de curso, as duas percorreram estradas diferentes. A minha irmã ignorando por completo a prazenteira perspectiva de constituir família, trocando esta bagatela por uma carreira de diamante, a amiga desistindo da profissão a favor de cinco crianças e de um marido escandalosamente rico.  

 

Comprou um velho e abandonado palacete no Norte. Veio de Lisboa, da Estrela, entregar o projecto de recuperação à única arquitecta em que confia. Não o agarra, porque já nem sabe ler a planta de um cubículo - confessa, com a curta farpa de um orgulho estranho espetada no sorriso.

 

É uma mulher bonita, sem ser deslumbrante, ou então o fascínio e o brilho que poderá reter, são asfixiados pela figura da minha irmã que não esconde o desprezo que sente por uma criatura capaz de abdicar de um projecto de vida próprio em nome dos projectos de vida seja de quem for. É quase embaraçosa – e muito cruel - a forma como a minha irmã a olha, com uma ameaça latente no azul metálico e cínico do olhar, e exibe uma pretensa superioridade intelectual invadindo a amiga com questões que a pobre devia dominar, mas que a tornam imbecil, serigaitando num nervosismo tolo ao admitir que já se esqueceu das respostas, fazendo saltitar risadinhas que esbarram com a indiferença que sorri eivada de maldade da interlocutora.  

 

O óptimo seria que se desse como finda a recuperação depois do Inverno.

 

- nêv - informa, acrescentando que poderia ser agradável depois do frio passar uma primavera mais bucólica.

 

Olho as duas mulheres, sentada no sofá da minha atenção mais picuinhas.

Podiam ser, de modo brutal e sanguinário como apenas as grandes amizades o sabem ser, inimigas mortais, porque pertencem ao nicho onde só habitam predadores.

São ambas detentoras de um capital simbólico elevadíssimo. As duas pertencem ao que, muitas vezes como insulto, se chama elite dominadora. São igualmente sofisticadas, igualmente loiras, igualmente elegantes, igualmente ricas. Não há grande matéria que as separe.

São portanto amigas.

 

o único estilhaço que as separa, encontro-o eu num destino de Inverno.

- Vô pá nêv.

A outra não.  

 

Foto - Ava Gardner por John Engstead

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A Gaffe violinista

rabiscado pela Gaffe, em 27.06.17

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Amanhece cinza friorento.

 

Ele afasta-me a cabeça do peito e pousa-a na almofada com o cuidado de quem não quer perturbar o meu dormir, sem saber que há momentos acordei e fiquei a olhar-lhe o sono.
Desliza pelos lençóis devagarinho e nu, perfeito, não vislumbra as minhas pestanas entreabertas.

 

Ouço o chuveiro.
Ouço a água a correr para a chaleira.
Sei-o de braços cruzados e toalha à cinta, encostado ao balcão metálico à espera de calar de imediato o assobio da água em desespero.

Depois os dedos tamborilam no balcão.

Ouço-o a abrir o armário e a retirar da caixa o pequeno pacote do chá que toma todas as manhãs cinzentas e ensonadas.
Ouço a torradeira a disparar o sol que já é de ontem.
A cadeira nos ladrilhos do soalho.
Ouço o ruído áspero da escova dos dentes e de novo a água a correr e de novo a escova e outra vez a água.
Ouço o tilintar do cinto e o barulho manso de roupa a ser vestida.
Depois pousa um joelho na minha cama, inclina-se e beija-me o canto da boca, levemente.
Ouço a porta a fechar devagarinho.

                                                                       
Todos os seus ruídos são banais, prosaicos, corriqueiros, mas parecem todos eles declarações de Amor.


Ao fundo, aos pés da minha cama, perfilam-se os violinos.

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A Gaffe a sussurrar

rabiscado pela Gaffe, em 21.06.17

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Nas minhas memórias arrasto o passado sem olhares de ânsia inútil ou sem qualquer amarfanhar de alma que vem do desejo de recuo. Olho para mim e acredito que tudo o que vivi não agarra e não contém o germe capaz de fazer rebentar flores carnívoras.

Lembro, por exemplo, da primeira vez que vi a Luzia, mas tal recordação não me leva a nenhum sentir doloroso. Sei que a vi à entrada da casa, junto ao portão de ferro forjado. Havia ainda a alameda de vinhas despidas e um caminho de terra calcada que teria de percorrer até me chegar. Ao longe, a Luzia parecia ainda mais pequena do que realmente era. De vestido cinzento, comprido e tubular, de avental gigantesco, imaculado, e um lenço enrolado no pescoço. Um lenço amarelo tostado, liso e limpo, emergindo do antracite do conjunto. Permaneceu quieta por momentos e depois arrancou com passinhos decididos. Através da janela, via-a aproximar-se. Primeiro foram os olhos. Negros, minúsculos e aguçados, pareciam andar mais depressa do que a dona. Chegaram de repente e apanharam-me desprevenida. O seu olhar cheirava a perigo. Era predador e eu julguei ser a caça. Antes da mulher ter chegado completa, já me tinha escondido dentro do colo da minha avó.

O seu amor absoluto foi-me entregue todo e exactamente por isso acabei presa inevitável. A sua ternura sempre contida, sempre doseada nas relações com os outros, tornava-se comigo uma vigilância doce e protectora.

Amava-me, mas nunca o deu a perceber de forma clara. Como se o seu sentir fosse dado adquirido ou facto a ignorar porque revelador de falhas. Sentava-se a uns metros de mim e ficava ali, quieta e em silêncio, de mãos pousadas no avental, a provar que era amor aquilo que eu via. Com o tempo percebi que nesses momentos a Luzia vigiava. De olhos aguçados, cheirando o ar, atenta ao mais irrisório movimento, afastava-me da vida sem perceber que essa protecção tornava predador o amor que me entregava.

 

No início das tardes, depois do almoço, a Luzia alisava com as mãos o tecido branco da toalha. Preparava o jogo, perante a impaciência da minha avó, que adiava, de braços cruzados e murmúrios entre dentes, a ordem de se limpar a mesa. Fazia depois minúsculas bolas com o miolo do pão. Colocava-as alinhadas e marcava a meta, largos palmos longe delas, com um traço de unha sobre o pano.

Tínhamos, eu e o meu irmão, de soprar as bolas de pão ao mesmo tempo, com força e de forma contínua, até que uma tocasse no risco da meta. A vitória era levada por uma colher ao boião de mel, embebida nele e oferecida como guloseima. O jogo foi adquirindo algumas variantes e, com o tempo, para além do sopro, deveríamos ser capazes de ciciar, de fazer escapar as sibilantes, encontrando o sinónimo da palavra que a minha avó, que se rendia sempre, tinha escolhido e que inevitavelmente seria solta com sons de assobio.

À espera de um rumor, as duas cravavam os olhos na minha boca e na do meu irmão à espera que um de nós articulasse os sons desejados. Mas as bolas de pão que o rapaz soprava eram sempre mais rápidas e chegavam à meta antes de se soltar qualquer soído de serpente. Dia após dia, mês após mês, colheres mergulhadas em mel passaram inúteis pela minha esperança que teimava em jogar e que eu sabia, tão bem como minha avó, ser absurda.

Nunca ganhei.  


A minha absoluta fragilidade de alma, a minha indomada e dolorosa insegurança nasceram ali e cresceram soltas, perto dos olhos vigilantes da Luzia, uma das mais fenomenais mulheres da minha casa.

 

Morreu ontem, pela noitinha.

 

Um dia perguntei-lhe qual era o seu maior sonho. Disse que me iria rir se o soubesse.

Jurei que não.

Queria muito ver os macacos no Jardim Zoológico.  

Nunca chegou a ver os macacos enjaulados e eu nunca ganhei o jogo das toalhas brancas.

 

Só agora sei o que significa sussurar.

 

Imagem - Denis Sarazhin

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A Gaffe com a mãe

rabiscado pela Gaffe, em 20.06.17

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A fragilidade da minha mãe, a sua quase imaterialidade, foi transformada numa elegância reservada, quase tímida, discreta e tranquila.

É uma elegância que não surpreende. É esperada, visível no primeiro assomo, inevitável como um facto. Uma evidência construída pelos gestos leves, brandos, de uma serenidade possivelmente submissa, mas que nos faz sentir num abrigo com sombras de lilases.

O labor da minha avó teve neste caso um parco sucesso. A minha mãe não é impositiva, não tem nas mãos as capacidades de um líder e o seu modo de se mover, pacífico e quase demasiado silencioso, impedem que domine e controle a alcateia imensa que à sua volta ronda.

Às vezes, no jardim, sentada a ler - Hemingway que não condiz com ela -, num sossego brando e quieto, o ar fica envolvido de espuma e de perfume e dir-se-ia ao vê-la assim etérea, transparente, que a imponderabilidade a tomou por sua. Mesmo quando vira a página do livro nenhuma flor estremece.

 

Dizem à toa que a beleza salta uma geração. Se a avó é formosa, a filha não o será, herdando a neta as características perdidas entretanto.

 

Aqui a beleza estabilizou. Tornava-se fácil, enquanto havia a possibilidade de as ver juntas, perceber que possuíam, as três, perfis aristocratas que lhes forneciam um lance quase enigmático, essencial à elaboração de uma imagem que invade a memória dos outros. Todas de olhos claros, de uma transparência que se foi perdendo à medida que o tempo carregava o verde azeitona e atenuava os lanhos de cinza. Todas brancas e loiras, embora a minha irmã tenha abrandado a alvura por ter dado primazia ao tom de pele do meu pai. Altas e magras, como hastes, caules de uma qualquer flor estranha que oscila sem quebras, não por força do vento, mas por desejo de terra e céu ao mesmo tempo.

 

É curioso perceber que se tão unidas pelos traços físicos, apenas os extremos se tocaram no modo como lidam com a vida. A minha mãe, no meio, é o esvoaçar do silêncio de um pássaro por entre as margens da vertigem deste rio.     

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A Gaffe azul salmão

rabiscado pela Gaffe, em 19.06.17

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O meu vestido era de linho, de meia manga, trapézio, cor de salmão com pequenas pintas brancas e um folho grande na bainha. Apertava atrás com minúsculos botões de madrepérola.  

 

Nunca mais tive um vestido tão bonito.

 

Tinha deixado que me prendessem os cabelos no interior da copa do chapéu de palhinha de abas largas, porque dessa forma podia deambular no orgulho de ter pela primeira vez nas orelhas as pérolas miúdas que substituíam definitivamente as bolinhas de ouro disparadas há um mês.

 

A maré mansa e o vento dócil permitiam que brincássemos perto do mar.

 

A minha avó de vestido de linho, largo azul-marinho, de chapéu de abas largas e brincos de pérolas, ficava a olhar-nos. Tinha um lenço de seda no pescoço. Um lenço que parecia uma onda, tocado pelo vento. Uma onda a esvoaçar.

A minha irmã quis trepar às rochas.

- Brincar na areia é uma ideia que deves considerar – aconselhou a vigilante.

Levou o meu irmão. Galgar as rochas era muito mais aventureiro.

Fiquei ao lado da minha avó. Queria muito ser igual a ela. De vestido de linho, chapéu de abas largas e brincos de pérolas.

O meu irmão caiu e arrastou a companheira. A minha avó viu-os chegar, choramingando, da desfeita e magoada façanha montanhista. Levou-nos para casa.

 

As escoriações não eram graves. Arranhões na perna e numa das mãos do rapaz e um pequeno corte no joelho e no orgulho da rapariga a não carecer de sutura. A minha mãe tratou do jovem, ao mesmo tempo que o mimava com o sorriso do embalo.  

A minha avó trouxe de dentro o conjunto que a acompanhou a vida toda. Um frasco de água oxigenada, outro de soro fisiológico, um pacotinho de gaze e Betadine. Entregou-o à minha irmã.

 

- Eu sento-me aqui enquanto tu limpas e desinfectas esse golpezinho.

- Tu não me tratas?!

- A decisão de escalar às rochas foi tua. Foi a melhor decisão, admito. Construir castelos parvos de areia é bem menos interessante que trepar a um barco de piratas. Mas tu caíste. A tua decisão fez-te cair. Tens de parar de choramingar e tratar esse lanho. É tão teu como a tua decisão.

- Tu deixaste!

- Não. Não interferi. Lembrei apenas que tinhas outra forma de brincar. Tu escolheste a que melhor te pareceu. Decidiste subir às rochas. Foi uma bela determinação, mas caíste. Agora deves tratar das feridas que a tua decisão provocou. Não te magoaste muito, não vai custar. Convém que não choramingues. É desagradável ouvir alguém lamentar a dor causada por uma decisão que tomou.

- Ele também foi e a mãe está a ajudar – sofria a minha irmã.

- Tu convenceste-o. Aqui está uma coisa que não precisas que te ensinem: convencer os outros. Depois, minha querida, é um rapaz. Os rapazes quando se magoam, não se sabem comportar. Têm de ser socorridos.

 

Foi neste dia de maré mansa e de vestido salmão com pintas brancas que descobri que quando crescesse queria ajudar a cuidar dos outros e que comecei a ter medo de tomar decisões.  

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A Gaffe ordenada

rabiscado pela Gaffe, em 12.06.17

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No pátio aberto ao sol um pássaro preto traz no bico uma cereja. Salta no granito a arder com uma cereja no bico e faz estalar as penas no ar quente quando vê brilhar a superfície do lago que treme com o movimento da carpa.

No meio do lago a carpa agora parada abre a boca. Fecha a boca. Asfixiada. Abre e fecha a boca. Abre e fecha a boca. Sem interromper a quietude aquática, a transparência das guelras move-se como um fino lanho em prata. Tem olhos vítreos, avermelhados. Como cerejas imóveis nos bicos dos pássaros.

 

A casa resguarda-se do sol, cerrando as portadas. A luz azul plana e paira dentro. Dedos finos de luz azul por entre as frinchas das portadas, pousam na toalha branca sobre a mesa, arranjam um desalinho invisível das hortênsias cortadas pela manhã, abrem uma vereda esguia na madeira do soalho e tocam os arabescos quase florais dos tapetes rasos.

 

A casa sossegada, arrefece.

 

No pátio escalda a cereja no bico de um pássaro, como a minha indiferença no frio da casa. Uma carpa move a boca inútil como a mulher com frutos vermelhos no regaço que sentada me asfixia com a sua tristeza daninha.  

 

Tudo é exacto. A ordem do universo é apenas isto.

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A Gaffe ecuménica

rabiscado pela Gaffe, em 05.05.17

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Por serem cada vez mais raras as ocasiões em que nos encontramos em simultâneo num sítio e numa mesma hora, a minha irmã decidiu que os três manos deviam jantar juntos. Eram eliminados três bichos com uma paulada só, tendo em consideração que se acrescentava à reunião a vantagem de conhecermos a nova namorada do meu irmão e que era possível descartar, partilhando, a maçada de ter de aturar um colega japonês que colabora no actual projecto da anfitriã.

 

O restaurante foi marcado com a antecedência da praxe e, como seria previsível, fui a primeira a chegar.

 

O senhor da recepção, atrás do seu púlpito, sorriu com todos os botões do seu casaco preto abotoado e foi informado que havia sido feita uma reserva. Empalideceu, o sorriso ficou roxo e os olhos tombaram em queda livre no livrinho das reservas, soltos das órbitas, quando anunciei o nome que devia figurar na sua lista.

Carlos Fabián Villa.jpgTranquilizei-o:

- Sou apenas a irmã mais nova.

As cores regressaram e os olhos também.

Fui conduzida à mesa assinalada e sonhei por instantes fugir para devorar um cachorro quente - do tipo Grand Danois - que tinha visto fabricar na barraquinha da esquina, antes de fazer de conta que me deliciava com os beliscões culinários do Grand Chef de revista.

 

O sonho durou pouco porque o meu irmão entrou logo a seguir.

 

É incompreensível a atracção - que se tem revelado fatal - que o maninho sente por nórdicas! Ao lado, um felino loiro e alto, uma espécie de Twiggy misturada com Kim Novak, arrastava, no trocar de pés de manequim, um gelo de fiordes que condizia com o azul frígido dos olhos de iceberg. Uma mulher lindíssima, logo estúpida - em relação a estes assuntos, gosto muito de respeitar os preconceitos e a sabedoria ancestral -, que se sentou depois de me mostrar uns dentes tão perfeitos que fazem com que nos apeteça bater-lhes com o cabo da faca e de sacudir o cabelo liso, brilhante e tão sedoso que por instantes me vi nele reflectida.

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Lykke Svenssonolofssonbengtsson - ou coisa que o valha. Não vale a pena fixar, pelas razões que se adivinham.

 

Antes de trabalhar a amabilidade, amaldiçoei a hora que penei à procura de um vestidinho em condições, porque deparo com os velhos jeans do meu irmão tão apertados que quando os tentar despir arranca a pele e - livre-nos Deus - também a pila que, salta à vista, não tem ar nenhum ali fechada.

 

Desatam a falar alemão - a lambisgóia vive em Berlim desde os dois meses, informa o mano que corre o risco de perfurar os olhos cravados nos mamilos que enfeitam as bolas rígidas de cidade onde a dona vive sem soutien.   

Que sim, que já tinha identificado a língua e que sim, que não entendo, mas que não me importo.

 

A minha irmã, mais uma vez sebastianista, com um atraso gigantesco que se justifica apenas com a possibilidade de ter estado a sacudir das cuecas a areia do deserto onde se perdeu com o Desejado, faz finalmente a sua entrada fulgurante.

Atrás de uma grande mulher está sempre um homem, diz o povo, que o povo diz coisas. Não vejo o mocetão, porque é japonês e portanto - é mais que certo - pequenino e porque quero provocar uma brisa de indiferença soberba e sofisticada, abrindo a clutch, a pochette, a carteirinha, a porcaria da maleta anã, fazendo de conta que estou distraída à procura do Camões. A porcaria da anã é da minha mãe e encontro dentro duas aspirinas, um Ben-u-ron e a subliminar prova que sou filha dela escrita num papelinho muito dobradinho:

 

Não perguntar B(…) pelo marido. Morreu - três anos.

A L(…) cunhada M(…). Não referir P(…) - amante duas.  

Comprar Ben-u-ron.   

 

O casal chega por fim à mesa e com o meu melhor Greta Garbo enfastiada ...

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...  ergo a cabeça esperando cruzar os olhos com os do japonês que segundo os meus cálculos devem estar ao mesmo nível que os meus, que estou sentada - o homem supostamente é pequenito - e apanho com a braguinha do sujeito a rir-se para mim.  

 

O homem é altíssimo!

 

Deve ser o único japonês à superfície do planeta que a minha irmã cumprimentou sem se ter de baixar primeiro.

 

Fico com os olhos cravados na pila nipónica até a minha irmã a fazer sentar à minha frente e depois de os ter, para disfarçar, espetado nos mamilos da sueca sem antes ter arrancado dali os do meu irmão.

 

E la Nave Va, fellinianamente.  

 

A girafa loira fala alemão para o namorado que lhe responde para as maminhas em inglês, para percebemos. A minha irmã fala francês para o gigante asiático que lhe responde numa língua estranha que não consigo identificar. Traduzem tudo para português, só para criar ambiente – manos amorosos!

 

Acabei por tomar as aspirinas e - pelo sim, pelo não -, engoli também o Ben-u-ron.

 

Isto de se ser ecuménico só lá vai com o Papa.    

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A Gaffe irreconhecível

rabiscado pela Gaffe, em 03.05.17

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Deram-se por concluídas, depois de vários meses de penar, as obras no meu apartamento num dos mais interessantes arrondissements parisienses. Foi necessário esperar vistorias, inspecções e aprovações camarárias e de várias outras entidades que pesaram no tempo como chumbo, foi obrigatório obedecer a regras que determinavam a espessura das paredes, autorizavam o derrube de outras tantas, especificavam o traçado das condutas, proibiam adulterações na fachada, indicavam indispensáveis normas energéticas, isolamentos térmicos e acústicos e demasiadas outras coisas que arrastaram durante meses a finalização da obra.

 

As alterações - que foram profundas - estão assinadas pela minha irmã o que justificou o meu total alheamento ao desenrolar da metamorfose. O traço do génio não requer palpites dos que sem talento se apressam a duvidar do que se já se ergueu na perfeição. A mosca no topo do bolo.

 

Está pronto a habitar. Espera a locatária que decidiu utilizar estes dias para o percorrer.

 

O espaço está irreconhecível.

 

Há paredes que desapareceram, quartos que se uniram duplicando a luz doirada que jorra das janelas longas e largas protegidas apenas por portadas de madeira, soalhos afagados que contrastam com o branco pérola erguido num soberbo pé direito e tectos recuperados que tocam o barroco e nos deixam pasmados por os termos ignorado tanto tempo. Há novas e inúmeras entradas de luz, novas esquinas, novos recantos. Há uma parede inteira coberta por estantes destinadas a acolher parte do que me foi entregue. Há a geometria do rigor minimalista dos parcos móveis escolhidos com um critério agudizado pelo conhecer vastíssimo da seleccionadora, misturados com os que chegaram de casa dos meus avós e que adquirem aqui a majestade que era atenuada pelos companheiros de outrora.  

   

(E há duas telas de Denis Sarazhin, uma das minhas grandes e mais obsessivas paixões.)  

 

É sem dúvida um espaço extraordinário.

 

Há no entanto a marca indelével da autora que defende, desde o tempo do início, o conceito de arquitectura do inquieto.

Não a podemos ler de modo literal. Não é uma inquietação que se constrói na angústia ou no desconforto que magoa e que nos torna ansiosos. Não é uma inquietação proveniente da falha que urge colmatar ou um sentir desenraizado que nos impele à procura ou à fuga. É um desassossego subtil que nos invade, que extravasa do desenho das paredes; da forma como se encaixam umas nas outras em surpreendentes ângulos; do modo como a luz é dominada por planos que a interceptam; da posição e localização dos móveis; da geometria desconstruída que permanece incólume mesmo assim; do despojamento inicial do espaço que é ao mesmo tempo invadido por memórias complexas e ocupado por objectos pesados que paradoxalmente acentuam um minimalismo cuidado e inteligente; de uma espécie de harmonia disfuncional que nos provoca alguma perplexidade e nos faz permanecer no seu interior, impelindo-nos a sair ao mesmo tempo. Impede a passividade.         

 

Esta arquitectura do inquieto transforma o construído num organismo vivo, impulsionador de movimento, capaz de interagir com o ocupante, deixando-se dominar por ele, dominando-o. Não é nosso. Não somos dele. Coabitamos. Uma simbiose constantemente renovada.

 

Não é possível descrever com maior nitidez o conceito defendido. Fico sempre aquém da sua autora que se ilumina quando nele toca, mas sinto que este espaço que vi deslumbrada e que me entrega a condição de flâneuse, talvez seja aquele que a minha irmã desejou para ela. 

 

Esta sensação traduz o meu mais profundo agradecimento. Não é fácil ceder, mesmo por amor, o que em nós, cá dentro, nos inquieta a vida.   

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Gavetas:

A Gaffe anelar

rabiscado pela Gaffe, em 28.04.17

avôs

Acredito que os usos e costumes ancestrais, os rituais sem memória dos começos, os cultos, as tradições, os ritos e as cerimónias, quando circunscritas a um grupo específico colocado no interior de um outro de largo espectro e de vasta abrangência, fornecem, ao grupo minoritário, uma coesão inusual, solidificam a sensação de pertença, colmatam ou atenuam de modo que me transcende a ausência de um dos seus membros, fomentam a solidariedade entre pares, atenuam a sensação de desenraizamento que assola os mais isolados e criam identificações essenciais ao crescimento de cada um dos indivíduos.

 

Por acreditar piamente nestes seus factores preventivos, curativos e catárticos, cumpro sem qualquer indecisão, todos os rituais, todos os ritos e cerimónias, obedeço a todos os usos e a todos os costumes que se foram solidificando através do tempo e que a mim chegam inalterados e sei, num saber sem experiência feito, que o equilíbrio do universo - do meu universo -, deles depende.     

 

Esta minha gente tem no acervo da memória gestos antigos que traduzem de forma ritualizada - muitas vezes sacralizada e tantas vezes demasiado orgulhosa - a importância vital de pertença e a noção de raiz, essencial quer à construção do presente, quer à do futuro. Por norma, esta memória é encarnada num objecto, ou num conjunto de procedimentos, atitudes, comportamentos ou inevitabilidades - porventura anacrónicos - construídos pelo tempo da ilógica, que se vão repetindo depois de aprendidos de modo inconsciente, ou por imitação.  

 

No conjunto dos objectos cujo capital simbólico é incomensurável, existe um anel.  

Um grosso, pesado e grande aro de ouro limpo, boleado como uma aliança sem a ser, porque adelgaça e estreita no correr da curvatura para que não seja perdida a ergonomia.   

 

Não é, de modo algum, um símbolo de poder, embora seja doado a quem o tem por direito. É a união de várias uniões.

Pertence naturalmente à matriarca que o usa ao lado da aliança matrimonial.

Usa-o até à morte.

Findo o seu tempo, o anel e a aliança onde está gravado o nome do consorte, são retirados e entregues a um velho ourives de Gondomar - ou ao filho, ao neto, ao bisneto, ou ao neto do bisneto - que os fundem numa perplexidade sempre renovada, para produzir no mesmo molde uma peça em tudo igual à destruída, mas que tem dentro agora a aliança com um nome masculino no interior. O anel não atinge dimensões incomportáveis, porque é dele retirada a mesma proporção de ouro que lhe foi acrescentada, produzindo-se com ela uma gota de um colar.

 

Este proceder honra os homens que pertenceram à história da minha família, torna inolvidáveis as uniões havidas e representa, não o poder absoluto da matriarca, mas de certa forma as emoções contidas no passado, o amor que trespassou uma família inteira e o seu capital simbólico é desmesurado.     

 

Pertencia, como não podia deixar de ser, à minha irmã.

Ofereceu-mo no dia do meu aniversário com uma dedicatória manuscrita à pressa:

 

Porque tu és a guardiã das emoções.

 

No meu anelar direito trago agora o peso de vários corações.

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Gavetas:

A Gaffe depois da Páscoa

rabiscado pela Gaffe, em 18.04.17

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Ao fundo da alameda de mimosas fecharam-se os portões.

 

A manhã declina o encadear das sombras. Inclina-se devagar sobre a água do lago e num tocar escurecido trepa aos olhos do anjo de pedra. Venda-lhe os sussurros das árvores que oscilam pesando as horas ternas da indiferença do vento.

O azul da luz esgueira-se por entre as sebes como um lagarto que tem frio e um pássaro treme, como o peixe vermelho assustado pelo toque da minha mão na água.

Há sardinheiras a abrir. Novelos de hortênsias no anil de uma promessa e a relva cresce lenta como um gesto que se faz inútil por estar sozinho.

 

Se avançar, piso as pétalas que espalharam nas pedras para que o som das campainhas se misture com o perfume enjoativo que libertam esmagadas. Um corredor de pétalas com as geometrias traçadas por moldes de madeira. Um corredor de pétalas pisadas que não foi limpo, porque o Dia Santo é dia de descanso e há tempo nesta manhã em que se fecham os portões ao fundo da alameda de mimosas para cuidar dos restos da tarde da véspera.

 

Fecharam-se os portões.

 

O som das campainhas ecoa na copa das árvores. É esmagado pelo perfume da luz que se inclina para decifrar a cor das sardinheiras.

Ao longe, as tílias sacodem a poeira deixada pelo adejar das opas brancas e um teixo ergue-se para o céu como um crucifixo.

 

A manhã devolve-lhes o silêncio depois do Dia Santo.

 

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A Gaffe situada

rabiscado pela Gaffe, em 04.04.17

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Há lugares onde ficamos presos para sempre. Como se quiséssemos ou como se fosse esse o nosso fado. Como importasse muito ter um chão, um céu ou uma árvore.

Há lugares onde acordamos sempre por mais longe que seja a nossa terra agora.

Há lugares imutáveis dentro dos nossos olhos, cegos nos caminhos que não temos.

Há lugares onde a água corre e onde morrem árvores e nascem depois árvores que vão depois morrer por onde passa a água. 


São os lugares que nos estancaram o peito no instante em que soubemos que o nosso chão, as nuvens e as árvores que morrem por onde a água escorre, são apenas os braços dos abraços que perdemos. 


Vamos para dentro.

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A Gaffe coincidente

rabiscado pela Gaffe, em 21.03.17

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Foi exactamente numa tarde em que a minha avó se mantinha ocupada discutindo com todos a propósito da falta de limpeza do jardim, repleto de silvas capazes de estraçalhar os dedos mais calejados, que arrastei o quadro - que me parecia gigantesco - para o cubículo.

 

Não foi tarefa simples.

 

A casa andava nervosa com o alarido da minha avó e ninguém se preocupava comigo, ocupados que estavam em mastigar maldições e a mascar insultos. A minha mãe, no andar de cima, próxima das beladonas, ausente mais uma outra vez e a minha irmã, lá fora no jardim, tinha tido a bondade de começar a brincar com o único miúdo que aguentava a sua maldade. Os dois pareciam entender-se. O rapaz gesticulava mimando uma mudez idiota e ela sorria e pulava e corria junto das silvas que tinham despontado na fúria da avó, exactamente porque a neta, num dos raros momentos em que se divertia, corria o risco de ser arranhada.

 

A minha preocupação não se ligava ao perigo de ser descoberta no meio do meu crime. Tinha mais a ver com o modo de arrastar o quadro pesado que se revelava muito mais custoso do que eu julgava. A resistência que me oferecia acicatava-me o ódio e enfurecia-me a vontade de o massacrar. Representava uma mulher oitocentista, mas longe de Watteau, tal os tons escuros, sombrios, obscuros, poderosos e quase sinistros. Os braços nada maleáveis pareciam um incómodo e o vestido rígido não permitia imaginar um movimento que o vestisse. A tela, descoberta por acaso, permanecia encosta à parede da sala grande à espera de ser avaliada.  

 

A maneira mais fácil foi arrastar o quadro pelo soalho. Para o retirar e fazer com que chegasse ao cubículo, tinha de atravessar a sala grande que funciona como centro da casa por ser nela que se abrem as outras divisões e todas as escadas. O soalho é de tábuas grossas e grandes, velhas e irregulares, enceradas quinzenalmente sob a vigilância da mulher mais velha. A tela, no exacto ponto em que as pintadas fitas de cetim trepavam pelo vestido, ficou subitamente presa algures. A criatura resistia e não havia tempo a perder. Num puxão violento as fitas foram arrancadas, separadas do vestido por um rasgão medonho.

 

A tremer tentei salvar-lhe o tecido, mas o cetim tinha ficado irremediavelmente estraçalhado. Um golpe pingava fios e havia um arrepanhar da tela parecido com uma ferida mal cicatrizada. Já aflita, continuei a arrastar a minha vítima.

 

Quando consegui enfiar o quadro no cubículo senti uma sorrateira vontade de chorar a espreitar-me a garganta e a fugir-me pelos olhos. Sabia que o crime que tinha cometido dificilmente teria perdão e começava a temer as consequências. Um friso de luz coada atravessava a cara da mulher pintada, tocando-lhe na orelha, caminhando por uma das maças do rosto, seguindo tangente a uma das asas do nariz, esboroando-se na parede logo depois de lhe roçar o início do lábio superior. Foi então que retirei do bolso o lápis grosso das contas da cozinha que me haviam dado por pequeno, e segui com a grafite romba o caminho da luz. A senhora olhava-me, dentro da penumbra, impotente e humilhada. As pestanas quase buliram enquanto o traço se ia desenhando unido à fronteira que agora era marcada nítida entre a luminosidade e a sombra, mas mais nada interferiu no meu crime. Seria perfeito se, depois de ter recuperado a respiração e tomado consciência de que era obrigada a fazer o trajecto de volta, a portinhola do cubículo não se escancarasse e não tivesse sido agarrada de forma violenta pela minha avó.

 

Pousou-me no chão sem qualquer palavra, encostou-me a um canto e retirou o quadro do buraco. Os seus olhos aguçados cravaram-se no risco e eu já sentia as paredes abanadas pelo medo e alfinetes por toda a minha pele, a minha avó rodopiou com a tela presa no braço, afastando com o braço livre as mulheres esbaforidas que a seguiam, atravessou a sala e desapareceu.

 

Fiquei quieta. Já não sabia se o que corria pela minha cara era a vontade de chorar que havia sentido durante toda a cena. Sentia que se me movesse as paredes viriam contra mim, apertando-me até sufocar e no entanto via a sala crescer desmesuradamente, encher-se de espaço e de ar que, de tanto, me asfixiava.

 

Nada estava acabado. A atitude da minha avó estava incompleta. Esperava o final. Vê-la surgir já sem o fardo e fazer da minha vida um trapo sujo. O tempo de espera ajudou-me a preparar a morte. Controlei o ar e as paredes e estava heróica quando a porta da frente, a que dava para o exterior, se abriu com um barulho de inferno. Por ali dentro entrou a minha mãe e percebi que o mundo tinha acabado naquele exacto instante. Pela mão trazia a minha irmã. Senti vibrar o ar em redor delas. Havia picos a rodar as silhuetas e perigo no queixo erguido e nas narinas dilatadas da minha mãe. Entraram como duas bruxas. Uma maior, outra a voltear arrastada. Foi quando ultrapassaram a soleira, deixando a contraluz, que me apercebi que havia outro erro. Não era eu o destino da fúria. Os olhos da minha mãe atravessaram-me, mas continuaram a busca. Foi a minha irmã, que se debatia a tentar partir a tenaz dos dedos da mãe, que me fez compreender a razão da minha aparente impunidade. Tinha na cara um largo, negro, sujo risco traçado a carvão. Mais grosso que as minhas estradas feitas na terra do quintal para ligar formigueiros, o risco nascia na orelha, caminhava por uma das maçãs do rosto, seguia tangente a uma das asas do nariz e esboroava-se no início do lábio superior manchado de sangue.

 

O miúdo que com ela brincava no quintal, e que havia sido o responsável pelo desenho e pela ferida, esgotada a paciência com que devia ser tratada a companheira, foi banido para todo o sempre.

 

Encontrei-o largos riscos depois, numa mostra de arte naïf.

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