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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe ecuménica

rabiscado pela Gaffe, em 05.05.17

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Por serem cada vez mais raras as ocasiões em que nos encontramos em simultâneo num sítio e numa mesma hora, a minha irmã decidiu que os três manos deviam jantar juntos. Eram eliminados três bichos com uma paulada só, tendo em consideração que se acrescentava à reunião a vantagem de conhecermos a nova namorada do meu irmão e que era possível descartar, partilhando, a maçada de ter de aturar um colega japonês que colabora no actual projecto da anfitriã.

 

O restaurante foi marcado com a antecedência da praxe e, como seria previsível, fui a primeira a chegar.

 

O senhor da recepção, atrás do seu púlpito, sorriu com todos os botões do seu casaco preto abotoado e foi informado que havia sido feita uma reserva. Empalideceu, o sorriso ficou roxo e os olhos tombaram em queda livre no livrinho das reservas, soltos das órbitas, quando anunciei o nome que devia figurar na sua lista.

Carlos Fabián Villa.jpgTranquilizei-o:

- Sou apenas a irmã mais nova.

As cores regressaram e os olhos também.

Fui conduzida à mesa assinalada e sonhei por instantes fugir para devorar um cachorro quente - do tipo Grand Danois - que tinha visto fabricar na barraquinha da esquina, antes de fazer de conta que me deliciava com os beliscões culinários do Grand Chef de revista.

 

O sonho durou pouco porque o meu irmão entrou logo a seguir.

 

É incompreensível a atracção - que se tem revelado fatal - que o maninho sente por nórdicas! Ao lado, um felino loiro e alto, uma espécie de Twiggy misturada com Kim Novak, arrastava, no trocar de pés de manequim, um gelo de fiordes que condizia com o azul frígido dos olhos de iceberg. Uma mulher lindíssima, logo estúpida - em relação a estes assuntos, gosto muito de respeitar os preconceitos e a sabedoria ancestral -, que se sentou depois de me mostrar uns dentes tão perfeitos que fazem com que nos apeteça bater-lhes com o cabo da faca e de sacudir o cabelo liso, brilhante e tão sedoso que por instantes me vi nele reflectida.

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Lykke Svenssonolofssonbengtsson - ou coisa que o valha. Não vale a pena fixar, pelas razões que se adivinham.

 

Antes de trabalhar a amabilidade, amaldiçoei a hora que penei à procura de um vestidinho em condições, porque deparo com os velhos jeans do meu irmão tão apertados que quando os tentar despir arranca a pele e - livre-nos Deus - também a pila que, salta à vista, não tem ar nenhum ali fechada.

 

Desatam a falar alemão - a lambisgóia vive em Berlim desde os dois meses, informa o mano que corre o risco de perfurar os olhos cravados nos mamilos que enfeitam as bolas rígidas de cidade onde a dona vive sem soutien.   

Que sim, que já tinha identificado a língua e que sim, que não entendo, mas que não me importo.

 

A minha irmã, mais uma vez sebastianista, com um atraso gigantesco que se justifica apenas com a possibilidade de ter estado a sacudir das cuecas a areia do deserto onde se perdeu com o Desejado, faz finalmente a sua entrada fulgurante.

Atrás de uma grande mulher está sempre um homem, diz o povo, que o povo diz coisas. Não vejo o mocetão, porque é japonês e portanto - é mais que certo - pequenino e porque quero provocar uma brisa de indiferença soberba e sofisticada, abrindo a clutch, a pochette, a carteirinha, a porcaria da maleta anã, fazendo de conta que estou distraída à procura do Camões. A porcaria da anã é da minha mãe e encontro dentro duas aspirinas, um Ben-u-ron e a subliminar prova que sou filha dela escrita num papelinho muito dobradinho:

 

Não perguntar B(…) pelo marido. Morreu - três anos.

A L(…) cunhada M(…). Não referir P(…) - amante duas.  

Comprar Ben-u-ron.   

 

O casal chega por fim à mesa e com o meu melhor Greta Garbo enfastiada ...

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...  ergo a cabeça esperando cruzar os olhos com os do japonês que segundo os meus cálculos devem estar ao mesmo nível que os meus, que estou sentada - o homem supostamente é pequenito - e apanho com a braguinha do sujeito a rir-se para mim.  

 

O homem é altíssimo!

 

Deve ser o único japonês à superfície do planeta que a minha irmã cumprimentou sem se ter de baixar primeiro.

 

Fico com os olhos cravados na pila nipónica até a minha irmã a fazer sentar à minha frente e depois de os ter, para disfarçar, espetado nos mamilos da sueca sem antes ter arrancado dali os do meu irmão.

 

E la Nave Va, fellinianamente.  

 

A girafa loira fala alemão para o namorado que lhe responde para as maminhas em inglês, para percebemos. A minha irmã fala francês para o gigante asiático que lhe responde numa língua estranha que não consigo identificar. Traduzem tudo para português, só para criar ambiente – manos amorosos!

 

Acabei por tomar as aspirinas e - pelo sim, pelo não -, engoli também o Ben-u-ron.

 

Isto de se ser ecuménico só lá vai com o Papa.    

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A Gaffe irreconhecível

rabiscado pela Gaffe, em 03.05.17

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Deram-se por concluídas, depois de vários meses de penar, as obras no meu apartamento num dos mais interessantes arrondissements parisienses. Foi necessário esperar vistorias, inspecções e aprovações camarárias e de várias outras entidades que pesaram no tempo como chumbo, foi obrigatório obedecer a regras que determinavam a espessura das paredes, autorizavam o derrube de outras tantas, especificavam o traçado das condutas, proibiam adulterações na fachada, indicavam indispensáveis normas energéticas, isolamentos térmicos e acústicos e demasiadas outras coisas que arrastaram durante meses a finalização da obra.

 

As alterações - que foram profundas - estão assinadas pela minha irmã o que justificou o meu total alheamento ao desenrolar da metamorfose. O traço do génio não requer palpites dos que sem talento se apressam a duvidar do que se já se ergueu na perfeição. A mosca no topo do bolo.

 

Está pronto a habitar. Espera a locatária que decidiu utilizar estes dias para o percorrer.

 

O espaço está irreconhecível.

 

Há paredes que desapareceram, quartos que se uniram duplicando a luz doirada que jorra das janelas longas e largas protegidas apenas por portadas de madeira, soalhos afagados que contrastam com o branco pérola erguido num soberbo pé direito e tectos recuperados que tocam o barroco e nos deixam pasmados por os termos ignorado tanto tempo. Há novas e inúmeras entradas de luz, novas esquinas, novos recantos. Há uma parede inteira coberta por estantes destinadas a acolher parte do que me foi entregue. Há a geometria do rigor minimalista dos parcos móveis escolhidos com um critério agudizado pelo conhecer vastíssimo da seleccionadora, misturados com os que chegaram de casa dos meus avós e que adquirem aqui a majestade que era atenuada pelos companheiros de outrora.  

   

(E há duas telas de Denis Sarazhin, uma das minhas grandes e mais obsessivas paixões.)  

 

É sem dúvida um espaço extraordinário.

 

Há no entanto a marca indelével da autora que defende, desde o tempo do início, o conceito de arquitectura do inquieto.

Não a podemos ler de modo literal. Não é uma inquietação que se constrói na angústia ou no desconforto que magoa e que nos torna ansiosos. Não é uma inquietação proveniente da falha que urge colmatar ou um sentir desenraizado que nos impele à procura ou à fuga. É um desassossego subtil que nos invade, que extravasa do desenho das paredes; da forma como se encaixam umas nas outras em surpreendentes ângulos; do modo como a luz é dominada por planos que a interceptam; da posição e localização dos móveis; da geometria desconstruída que permanece incólume mesmo assim; do despojamento inicial do espaço que é ao mesmo tempo invadido por memórias complexas e ocupado por objectos pesados que paradoxalmente acentuam um minimalismo cuidado e inteligente; de uma espécie de harmonia disfuncional que nos provoca alguma perplexidade e nos faz permanecer no seu interior, impelindo-nos a sair ao mesmo tempo. Impede a passividade.         

 

Esta arquitectura do inquieto transforma o construído num organismo vivo, impulsionador de movimento, capaz de interagir com o ocupante, deixando-se dominar por ele, dominando-o. Não é nosso. Não somos dele. Coabitamos. Uma simbiose constantemente renovada.

 

Não é possível descrever com maior nitidez o conceito defendido. Fico sempre aquém da sua autora que se ilumina quando nele toca, mas sinto que este espaço que vi deslumbrada e que me entrega a condição de flâneuse, talvez seja aquele que a minha irmã desejou para ela. 

 

Esta sensação traduz o meu mais profundo agradecimento. Não é fácil ceder, mesmo por amor, o que em nós, cá dentro, nos inquieta a vida.   

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A Gaffe anelar

rabiscado pela Gaffe, em 28.04.17

avôs

Acredito que os usos e costumes ancestrais, os rituais sem memória dos começos, os cultos, as tradições, os ritos e as cerimónias, quando circunscritas a um grupo específico colocado no interior de um outro de largo espectro e de vasta abrangência, fornecem, ao grupo minoritário, uma coesão inusual, solidificam a sensação de pertença, colmatam ou atenuam de modo que me transcende a ausência de um dos seus membros, fomentam a solidariedade entre pares, atenuam a sensação de desenraizamento que assola os mais isolados e criam identificações essenciais ao crescimento de cada um dos indivíduos.

 

Por acreditar piamente nestes seus factores preventivos, curativos e catárticos, cumpro sem qualquer indecisão, todos os rituais, todos os ritos e cerimónias, obedeço a todos os usos e a todos os costumes que se foram solidificando através do tempo e que a mim chegam inalterados e sei, num saber sem experiência feito, que o equilíbrio do universo - do meu universo -, deles depende.     

 

Esta minha gente tem no acervo da memória gestos antigos que traduzem de forma ritualizada - muitas vezes sacralizada e tantas vezes demasiado orgulhosa - a importância vital de pertença e a noção de raiz, essencial quer à construção do presente, quer à do futuro. Por norma, esta memória é encarnada num objecto, ou num conjunto de procedimentos, atitudes, comportamentos ou inevitabilidades - porventura anacrónicos - construídos pelo tempo da ilógica, que se vão repetindo depois de aprendidos de modo inconsciente, ou por imitação.  

 

No conjunto dos objectos cujo capital simbólico é incomensurável, existe um anel.  

Um grosso, pesado e grande aro de ouro limpo, boleado como uma aliança sem a ser, porque adelgaça e estreita no correr da curvatura para que não seja perdida a ergonomia.   

 

Não é, de modo algum, um símbolo de poder, embora seja doado a quem o tem por direito. É a união de várias uniões.

Pertence naturalmente à matriarca que o usa ao lado da aliança matrimonial.

Usa-o até à morte.

Findo o seu tempo, o anel e a aliança onde está gravado o nome do consorte, são retirados e entregues a um velho ourives de Gondomar - ou ao filho, ao neto, ao bisneto, ou ao neto do bisneto - que os fundem numa perplexidade sempre renovada, para produzir no mesmo molde uma peça em tudo igual à destruída, mas que tem dentro agora a aliança com um nome masculino no interior. O anel não atinge dimensões incomportáveis, porque é dele retirada a mesma proporção de ouro que lhe foi acrescentada, produzindo-se com ela uma gota de um colar.

 

Este proceder honra os homens que pertenceram à história da minha família, torna inolvidáveis as uniões havidas e representa, não o poder absoluto da matriarca, mas de certa forma as emoções contidas no passado, o amor que trespassou uma família inteira e o seu capital simbólico é desmesurado.     

 

Pertencia, como não podia deixar de ser, à minha irmã.

Ofereceu-mo no dia do meu aniversário com uma dedicatória manuscrita à pressa:

 

Porque tu és a guardiã das emoções.

 

No meu anelar direito trago agora o peso de vários corações.

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Gavetas:

A Gaffe depois da Páscoa

rabiscado pela Gaffe, em 18.04.17

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Ao fundo da alameda de mimosas fecharam-se os portões.

 

A manhã declina o encadear das sombras. Inclina-se devagar sobre a água do lago e num tocar escurecido trepa aos olhos do anjo de pedra. Venda-lhe os sussurros das árvores que oscilam pesando as horas ternas da indiferença do vento.

O azul da luz esgueira-se por entre as sebes como um lagarto que tem frio e um pássaro treme, como o peixe vermelho assustado pelo toque da minha mão na água.

Há sardinheiras a abrir. Novelos de hortênsias no anil de uma promessa e a relva cresce lenta como um gesto que se faz inútil por estar sozinho.

 

Se avançar, piso as pétalas que espalharam nas pedras para que o som das campainhas se misture com o perfume enjoativo que libertam esmagadas. Um corredor de pétalas com as geometrias traçadas por moldes de madeira. Um corredor de pétalas pisadas que não foi limpo, porque o Dia Santo é dia de descanso e há tempo nesta manhã em que se fecham os portões ao fundo da alameda de mimosas para cuidar dos restos da tarde da véspera.

 

Fecharam-se os portões.

 

O som das campainhas ecoa na copa das árvores. É esmagado pelo perfume da luz que se inclina para decifrar a cor das sardinheiras.

Ao longe, as tílias sacodem a poeira deixada pelo adejar das opas brancas e um teixo ergue-se para o céu como um crucifixo.

 

A manhã devolve-lhes o silêncio depois do Dia Santo.

 

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A Gaffe situada

rabiscado pela Gaffe, em 04.04.17

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Há lugares onde ficamos presos para sempre. Como se quiséssemos ou como se fosse esse o nosso fado. Como importasse muito ter um chão, um céu ou uma árvore.

Há lugares onde acordamos sempre por mais longe que seja a nossa terra agora.

Há lugares imutáveis dentro dos nossos olhos, cegos nos caminhos que não temos.

Há lugares onde a água corre e onde morrem árvores e nascem depois árvores que vão depois morrer por onde passa a água. 


São os lugares que nos estancaram o peito no instante em que soubemos que o nosso chão, as nuvens e as árvores que morrem por onde a água escorre, são apenas os braços dos abraços que perdemos. 


Vamos para dentro.

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A Gaffe coincidente

rabiscado pela Gaffe, em 21.03.17

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Foi exactamente numa tarde em que a minha avó se mantinha ocupada discutindo com todos a propósito da falta de limpeza do jardim, repleto de silvas capazes de estraçalhar os dedos mais calejados, que arrastei o quadro - que me parecia gigantesco - para o cubículo.

 

Não foi tarefa simples.

 

A casa andava nervosa com o alarido da minha avó e ninguém se preocupava comigo, ocupados que estavam em mastigar maldições e a mascar insultos. A minha mãe, no andar de cima, próxima das beladonas, ausente mais uma outra vez e a minha irmã, lá fora no jardim, tinha tido a bondade de começar a brincar com o único miúdo que aguentava a sua maldade. Os dois pareciam entender-se. O rapaz gesticulava mimando uma mudez idiota e ela sorria e pulava e corria junto das silvas que tinham despontado na fúria da avó, exactamente porque a neta, num dos raros momentos em que se divertia, corria o risco de ser arranhada.

 

A minha preocupação não se ligava ao perigo de ser descoberta no meio do meu crime. Tinha mais a ver com o modo de arrastar o quadro pesado que se revelava muito mais custoso do que eu julgava. A resistência que me oferecia acicatava-me o ódio e enfurecia-me a vontade de o massacrar. Representava uma mulher oitocentista, mas longe de Watteau, tal os tons escuros, sombrios, obscuros, poderosos e quase sinistros. Os braços nada maleáveis pareciam um incómodo e o vestido rígido não permitia imaginar um movimento que o vestisse. A tela, descoberta por acaso, permanecia encosta à parede da sala grande à espera de ser avaliada.  

 

A maneira mais fácil foi arrastar o quadro pelo soalho. Para o retirar e fazer com que chegasse ao cubículo, tinha de atravessar a sala grande que funciona como centro da casa por ser nela que se abrem as outras divisões e todas as escadas. O soalho é de tábuas grossas e grandes, velhas e irregulares, enceradas quinzenalmente sob a vigilância da mulher mais velha. A tela, no exacto ponto em que as pintadas fitas de cetim trepavam pelo vestido, ficou subitamente presa algures. A criatura resistia e não havia tempo a perder. Num puxão violento as fitas foram arrancadas, separadas do vestido por um rasgão medonho.

 

A tremer tentei salvar-lhe o tecido, mas o cetim tinha ficado irremediavelmente estraçalhado. Um golpe pingava fios e havia um arrepanhar da tela parecido com uma ferida mal cicatrizada. Já aflita, continuei a arrastar a minha vítima.

 

Quando consegui enfiar o quadro no cubículo senti uma sorrateira vontade de chorar a espreitar-me a garganta e a fugir-me pelos olhos. Sabia que o crime que tinha cometido dificilmente teria perdão e começava a temer as consequências. Um friso de luz coada atravessava a cara da mulher pintada, tocando-lhe na orelha, caminhando por uma das maças do rosto, seguindo tangente a uma das asas do nariz, esboroando-se na parede logo depois de lhe roçar o início do lábio superior. Foi então que retirei do bolso o lápis grosso das contas da cozinha que me haviam dado por pequeno, e segui com a grafite romba o caminho da luz. A senhora olhava-me, dentro da penumbra, impotente e humilhada. As pestanas quase buliram enquanto o traço se ia desenhando unido à fronteira que agora era marcada nítida entre a luminosidade e a sombra, mas mais nada interferiu no meu crime. Seria perfeito se, depois de ter recuperado a respiração e tomado consciência de que era obrigada a fazer o trajecto de volta, a portinhola do cubículo não se escancarasse e não tivesse sido agarrada de forma violenta pela minha avó.

 

Pousou-me no chão sem qualquer palavra, encostou-me a um canto e retirou o quadro do buraco. Os seus olhos aguçados cravaram-se no risco e eu já sentia as paredes abanadas pelo medo e alfinetes por toda a minha pele, a minha avó rodopiou com a tela presa no braço, afastando com o braço livre as mulheres esbaforidas que a seguiam, atravessou a sala e desapareceu.

 

Fiquei quieta. Já não sabia se o que corria pela minha cara era a vontade de chorar que havia sentido durante toda a cena. Sentia que se me movesse as paredes viriam contra mim, apertando-me até sufocar e no entanto via a sala crescer desmesuradamente, encher-se de espaço e de ar que, de tanto, me asfixiava.

 

Nada estava acabado. A atitude da minha avó estava incompleta. Esperava o final. Vê-la surgir já sem o fardo e fazer da minha vida um trapo sujo. O tempo de espera ajudou-me a preparar a morte. Controlei o ar e as paredes e estava heróica quando a porta da frente, a que dava para o exterior, se abriu com um barulho de inferno. Por ali dentro entrou a minha mãe e percebi que o mundo tinha acabado naquele exacto instante. Pela mão trazia a minha irmã. Senti vibrar o ar em redor delas. Havia picos a rodar as silhuetas e perigo no queixo erguido e nas narinas dilatadas da minha mãe. Entraram como duas bruxas. Uma maior, outra a voltear arrastada. Foi quando ultrapassaram a soleira, deixando a contraluz, que me apercebi que havia outro erro. Não era eu o destino da fúria. Os olhos da minha mãe atravessaram-me, mas continuaram a busca. Foi a minha irmã, que se debatia a tentar partir a tenaz dos dedos da mãe, que me fez compreender a razão da minha aparente impunidade. Tinha na cara um largo, negro, sujo risco traçado a carvão. Mais grosso que as minhas estradas feitas na terra do quintal para ligar formigueiros, o risco nascia na orelha, caminhava por uma das maçãs do rosto, seguia tangente a uma das asas do nariz e esboroava-se no início do lábio superior manchado de sangue.

 

O miúdo que com ela brincava no quintal, e que havia sido o responsável pelo desenho e pela ferida, esgotada a paciência com que devia ser tratada a companheira, foi banido para todo o sempre.

 

Encontrei-o largos riscos depois, numa mostra de arte naïf.

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A Gaffe com o longe à espera

rabiscado pela Gaffe, em 17.03.17

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A sanha reformadora da minha irmã atrasa a minha partida planeada há tempos.

Reforma, reestrutura, reorganiza, redecora, arrasa e refaz o meu antigo apartamento, vazio desde que eu quebrei, já lá vão anos.

 

Não é conveniente arrastar uma fragilidade para o lugar exacto onde outra foi atingida, estilhaçada e assolada.  


Aguardo com a placidez dos mansos, dos que ruminam a paciência nos prados do sossego.  


A minha espera é como um gato gordo e indiferente. Dorme entre os afagos que despreza e sorrateiramente destrói as almofadas.  

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A Gaffe tem visitas

rabiscado pela Gaffe, em 17.02.17

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Chegou ontem ao fim do dia a melhor amiga da minha irmã.

 

Deparo-me a observar com minúcia as duas mulheres e percebo que o abrandamento dos gestos da anfitriã é propositado. Mistura-os com o silêncio cúmplice que se imiscuiu entre as duas e fá-los pesar sobre os outros.

São dois animais atentos. Vigiam-nos através desta espécie de mutismo claramente controlado pela minha irmã que domina a relação. Basta a lentidão do movimento com que enrola nos dedos as fiadas de pérolas que contrastam como um insulto com o azul-cobalto do vestido, ou o modo como aceita que a visita lhe abrase o cigarro como se aceitasse uma oferta pagã, para que se perceba o jugo.  

 

Há uma decadência subtil imersa em luxo que me fascina e me neutraliza, como se na minha frente um inviolável mistério me confrontasse com a nudez quase agressiva mas impossível de decifrar das duas mulheres.

 

Uma nudez coberta de gestos lentos e de cigarros iluminados. Uma nudez esguia e loira que se move nas torções de um colar de pérolas com que estrangula a mutabilidade das cumplicidades.        

 

Uma outra nudez que traz toda a Renascença nos cabelos. Andamos de gôndola branca sob colchas escarlate das varandas sempre que nos olha agudizando a densidade da beleza com a eterna suspeita de incesto a pairar sobre ela.

 

Chegou ontem ao fim do dia a melhor amiga da minha irmã.

 

Exilada em Florença, branca, gelo branco, recolhe as mais dolorosas rosas das mãos dos homens morenos que despreza enquanto na cama antiga de lençóis com rendas o esguio e pálido irmão, nu, longe adormece.

 

Há segredos pousados no pescoço dos deuses que fazem da vida um perfeito romance.

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A Gaffe à portuguesa

rabiscado pela Gaffe, em 17.01.17

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Nos primeiros Domingos de Inverno, amontoa sobre a mesa as carnes e os enchidos.

As batatas, as couves e as cenouras num cesto de verga pousado no balcão.

Torna-se soberana no confuso domínio. Critica o modo como foram curados os nacos de porco e leva ao nariz as chouriças de sangue e de colorau à procura da origem do fumeiro. Desaba com cutelos sobre o frango caseiro, que o matou ela sozinha e sabe que o criou para este fim e trucida as postas de vitela, a carne entremeada, com faca de assassino, cabo de madeira e lâmina que primeiro afiou, e arrepiou, contra uma outra. Quebra costelas, chamusca a orelheira, golpeia com a força de titã, focinho e chispe e de mãos sangrentas e ar de psicopata dá destino cru à carnificina misturando tudo na panela enorme com água a ferver medonha de bruxedos.


Depois suspira.

 

Enquanto espera descasca as batatas gordas e as cenouras.

- Só começa a cheirar bem, menina, quando lhe enfiar os enchidos.

 

Pica com um tridente as carnes a ferver. Toma-lhes o gosto. Nada de sal. Perturba a natureza do cozido e os enchidos bastam para disfarçar a vaga.

Na outra panela cozem-se batatas. As cenouras adocicam a luxúria e as couves moribundam verde-escuro.

Num arremesso, empurra com os dedos mergulhados no caldo que borbulha todos os enchidos que critica.

- Olhe que bem que cheira!

Eu olho e pasmo. A cozinha parece engravidar de odores. Barriga de luxúria que a dona acaricia com mãos de pedra e olhos de matrona benevolente e farta.   

 

- Agora é só vazar para as travessas. A menina vá chamar as suas gentes, que está pronto.

 

Rega com a água em que ferveram carnes, as batatas, as couves e as cenouras que dispostas em redor fumegam estafadas e ergue em triunfo a travessa enorme, pesada de aromas.

 

Eu como sem alma, sem dó nem piedade, sem pudor ou termo, sem pejo ou clemência. Como até morrer ou pensar que morro de tanto comer.

- Guarde um lugarzinho para o leite-creme. Está como gosta, torrado com açúcar, mas do mascavado. É um gosto vê-la! Só de a ver comer, ficamos sastisfeitos. Bem se vê, menina, que é mais portuguesa que o resto dos outros. Só comem cenoura e debicam umas niquices de passarinho-pombo. Um desperdício, Deus lhes valha!

 

De braços cruzados sobre o avental, de sorriso aberto e olhos com luzes que piscam e tremem e tremem e piscam, sabe que cozinhou para mim e apenas para mim, que os outros que restam debicam pieguices e são passarinhos.

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A Gaffe anciã

rabiscado pela Gaffe, em 11.01.17

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Escondia-me no minúsculo compartimento, mandado construir por ordem da minha avó, no vão das escadas. Ouvia as mulheres de lá para cá, à minha procura sem muita vontade, cada vez mais lentas, até desistirem e se sentarem a um canto onde mastigavam o silêncio.

Era ali, apertada e abafada, que sentia poder viver naquele sítio para sempre. Subdividia o chão e destinava espaços para os meus brinquedos mais importantes. A luz que escorria das frinchas da madeira traçava no chão do cubículo compartimentos onde seria possível construir histórias independentes. Quase imóvel, movia-me. Os meus olhos corriam desenfreados procurando não perder nada do que se passava no chão. Durante horas brincava sem me mover, sentada no chão, de cabeça pousada nos joelhos.

 

Por vezes espreito o despovoado que ficou depois do abandono. As tardes da memória voltam outra vez. Aproximam-se voando como minúsculas folhas de papel desenhado que vou colando à toa, sem qualquer critério. Nunca fui uma boa coleccionadora. As estampas da minha infância foram todas amealhadas em parceria com outros que acabavam por ficar com as colecções completas e com a minha anuência. Não sei catalogar tudo o que encontro cá dentro, mas apuro todos os sentidos quando procuro aquela em que o meu avô me encontrou.

 

Era franzina. Magricela. Tinha olhos transparentes de espanto e timidez e labaredas corajosas no cabelo. Segurou-me no colo e prometeu que me daria um lugar melhor para eu ficar e que seria meu para todo o sempre.

 

Deu-me a biblioteca.

 

Sem que eu percebesse, o meu avô iniciava naquele instante a minha aprendizagem literária.  

 - Lê primeiro os velhos. Não conseguirás crescer se não souberes por onde começar. Ao contrário do que te dizem, os velhos são sempre o lugar de onde partimos. São sempre o início de qualquer coisa tua.  

 

Depois, já mais crescida, envelhecíamos juntos nas alamedas do jardim.

Encostava a cabeça ao braço dele, depois - primeiro o pé esquerdo, depois o outro, depois os olhos, depois os dedos, depois cada palavra pisada no caminho -, íamos envelhecendo o coração.

 

Mostrou-me Fernão Lopes que mais não disse por ser a verdade, fez-me ouvir os sons das batalhas nos Lusíadas, ouvi o Padre e fui também um peixe, ri-me com Eça dentro do riso que me ia guiando, atravessei países, conheci Cervantes e corri ao lado das irmãs Brontë.  

 

Dante. Shakespeare. Balzac. Proust. Mann. Elliot. Joyce. Auden. Musil. O maldito Celine. Mallarmé. Baudelaire. Shelley. Withman. Keats. Byron. Os Gregos. Os russos.

Os outros velhos todos por onde me perco por não saber dizê-los.   

Assim. Misturados. Como se surgissem à toa e sem critério nos lanhos de luz do esconderijo para que os ouvisse a contar histórias.

 

Era frágil e franzina. Tinha olhos transparentes de espanto e pequenez e labaredas tontas no cabelo. Ele segurou-me no colo e deu-me o melhor lugar para eu ficar.

Agora é meu e sei envelhecer.

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A Gaffe no início

rabiscado pela Gaffe, em 02.01.17

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Levanto-me cedo. À alameda deste silêncio, chegam as primeiras sombras das tílias rendilhadas.

A luz é uma torre de marfim erguida nos socalcos do início da manhã.

 

Embrulho-me na samarra do Domingos. A samarra que visto como se fosse o sobretudo de Bogart. Encosto o corpo à pedra. A casa é fria, a cal é branca. Há portas dormentes farejando o gelo. Há espelhos descobertos erguidos pela sala com reflexos de socalcos cinzentos e esfumados pela névoa.

 
Erguem-se as vagas brancas deste início plano e o brilho leitoso dos começos sobrevoa a mão do anjo de pedra que toca a superfície do lago.

O silêncio tem cor. Este azul de palidez de mortos que trepa as escadas como um cão ferido.

 Não quero que a manhã suba aos meus dedos e abra crisântemos no meu corpo.

Gostava que tudo fosse azul-escuro e que pelo silêncio ainda calado, viessem falar-me da neve.

 

Ainda é tão cedo.


Senta-te aqui, na pedra, junto a mim. Vieste para me ver, não foi mulher? Conta-me então histórias, como sempre fazes. Habituei-me a ti e já não tremo quando sinto no cabelo as facas dos teus dedos.

Conta-me histórias.

Vamos, velha doida!

Primeiro aquela em que eu sonhava ser menina grande e ter um Norte. Depois a do vadio que apanhava conchas no areal para fazer delas barcos no chafariz da Praça ou mesmo aquela em que um bêbado por desejar a lua se afogou no mar na noite em que ela veio flutuar na água.


Se me contares histórias, velha Tristeza, prometo que adormeço nos teus braços. Prometo que abrando a frequência com que pouso a vida nas tábuas do meu quarto. Prometo deixar que o teu cabelo se misture com os veios da madeira. Prometo parar de ferir os lanhos das manhãs de poalha adormecida da memória. Prometo não tropeçar mais no teu corpo quando avanço pela sala distraída. Prometo deixar-te partir. Deixar-te numa esquina da morte, num sítio qualquer.

Os dias passarão a ser dias de soalho encerado, de madeira impoluta. Dias a passar. Dias inúteis que colarei a estes dias que vivo no lugar daqui e ficarei à espera, sem tempo para mecânicas de qualquer fluído, de olhos sem lágrimas ou palavras que enferrujem as grades que me apetece derrubar.

 

Diz o Domingos que nesta casa chora-se pouco, mas há apenas duas maneiras de transportar a dor. Por dentro ou por fora.

 

Ensinaram-me que a dor não é um derrame de rimas choramingas. Não uiva. Não se arremessa em lamentos de míngua. Não pincha em cemitérios floreados. Não ergue as caravanas de circos saudosos em  enxurrada de lágrimas contadas.

Ensinaram-me que a dor é cuidar sozinha das sardinheiras de Espanha e das hortênsias, dos príncipes de pedra com asas que afloram a superfície das águas, do fio da cisterna e deste rio, relâmpago deitado.

 

A manhã começa. É o início.

Fechar os olhos é olhar depois.

Sinto-me cansada.

Sinto-me tão cansada e este silêncio pesa como chaga.

 

 (1 de Janeiro de 2017, 06.30h)

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A Gaffe com duas avós

rabiscado pela Gaffe, em 26.12.16

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Tinha olhos que lembravam um País arrancado ao mar e a fragilidade insuspeita da tulipa. Tinha esguios dedos sem anéis e um colar de pérolas eterno que enrolava nos dedos. Tinha a benevolente paciência dos ouvintes ternos e a doçura das palavras certas ditas baixinho para não doer. Tinha cabelos de seda apanhados na nuca por travessões de tartaruga e usava calças cigarette, blusas de gola alta que a alongavam e a transformavam em cisne ou em espiga de trigo. Tinha a voz dos meigos, aquela voz que é bom ouvir quando troveja, e um sorriso de lua a crescer numa noite de Verão. 

A minha avó materna.

 

Tinha olhos avelã e espertos, ladinos, marotos. Usava Chanel à toa, misturando tudo por não ter paciência para combinar. Usava adereços gigantes e tinha um anel com um rubi espalhafatoso como o planeta Marte. Tinha o cabelo branco, com ondas e quebras, sempre em desalinho e blusas com folhos para não contrastar. Era bem mais pequena, mas era mais arisca. Tinha perdido a paciência pelo mundo fora e cortava as conversas sem dó nem piedade, fazendo ficar discursos a meio. Enganava-se em tudo, disfarçava depois espetando farpas em palavras soltas que surgiam incautas na boca dos outros. Tinha um sorriso aberto de lua a pairar nas noites de Verão.

A minha avó paterna.

 

As duas amigas. Cúmplices perfeitas. Chegavam, braços dados, à Ceia de Natal da família toda.

Devagar, as duas disfarçando o tédio, sentavam-me no meio dos perfumes díspares que teimavam usar.

 

- Viemos ter consigo. Aqui a menina é a única coisinha a funcionar.

 

As minhas Avós.

 

Neste Natal, não estiveram comigo. Não me sentaram nos aromas que espalhavam, e no entanto nunca esta casa teve um Natal tão perfumado pela maravilha da memória delas. 

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A Gaffe angélica

rabiscado pela Gaffe, em 23.12.16

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No pátio principal da casa existe um lago onde as manhãs de Inverno deixam películas de gelo enganadoras.

No centro desse lago existe um anjo de pedra.

Um dos joelhos mergulha na água enquanto o outro apoia o braço que leva a mão ao lugar onde devia haver um coração. Curvado, a asa esquerda está quase submersa enquanto a outra fechada o envolve em penas de pedra. A mão sem coração toca estendida a pele da água onde as carpas em dias de nevoeiro parecem faíscas vermelhas ou serpentes anfíbias como os deuses.

 

As árvores desgrenhadas desfazem, como em pecado, a ordem do jardim, a meticulosa descrição da dor da seiva, a geometria vegetal, reflectidas no espelho onde o anjo as inverte tocando-lhes as copas.

Cúmplice de todos os murmúrios. Senhor do petrificar da nódoa no silêncio que é encharcado com o perfume imenso da asfixia.

 

Enreda-se o frio nas asas do anjo e no corpo da água.


Sempre senti que a mão que lhe toca o peito encontra um ninho abandonado pelo coração que aprendeu o voo. Talvez ainda sinta o calor do corpo e do dormir do que perdeu, mas tem de procurar o bater de asas nas faíscas vermelhas das carpas que deslizam.  

 

O divino delapida. Anjos e humanos são vítimas dos deuses.

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A Gaffe no balneário

rabiscado pela Gaffe, em 12.12.16

ginásio.gifA Gaffe foi convidada para um jantar de negócios com o mano.

 

Não foi a sua primeira escolha, mas a enxaqueca da irmã – mais enxa do que outra coisa – impediu-a de se fazer presente e de endrominar um casal de idosos ingleses que decidiram recuperar um casarão no Douro e fazer de conta que são viticultores.

 

Estaciona o carro perto do ginásio onde o rapagão completava coisas que fazem suar imenso e espera.

Espera até lhe começar a doer o cashmere trench coat – estamos a falar de ingleses, convém treinar -, que usa depois de chantagear a dona. Sente-se enregelada, já que se recusa a ligar o aquecimento do carro, porque para além de ficar enjoada não sabe onde, nestes carros moderníssimos, o tubo do calor desemboca e receia respirar qualquer coisa desagradável … ou coisa que o valha.

Sai atordoada pela impaciência, já com o bâton misturado com a espuma da fúria e tenta empurrar a porta de entrada no ginásio com o glamour que sobreviveu à intempérie.   

 

 - Ah! ... Ainda está a fazer a aula.

 

Deve ser dito que fazer a aula é das expressões mais irritantes que a Gaffe conhece. Aliás, fazer o que quer que seja incomoda-a muito. Descalça a luva, toca no cabelo que para pentear em banana custou mais do que duas horas de desespero ao seu querido Miguel, traça o casaco com um ar de diva ofendidíssima e recomenda:

- Não se importa de ir lá dentro recolher os ingredientes. O homem já fez a aula, garanto-lhe.  

A mulher, de unhas de gel e fato de treino, com um carrapito oxigenado ligado directamente ao cérebro por onde emitia ondas electromagnéticas que se sentiram hostis, vociferou:

- Entre você se está com pressa.

Foi um erro pensar que a Gaffe desistia perante a ameaça de testosterona aos pinchos e a fazer alongamentos.

 

Entrou fazendo os possíveis por parecer Ava Gardner.

 

Uma doentia humidade quente atacou a leveza dos seus passos. O seu cabelo domado ganhou vida e num instante sentiu-o a encaracolar, a encarapinhar, como a juba da Barbie que a sua infância levou para o banho decidindo depois, para a secar, usar um secador na potência máxima; o seu casaco colou-se ao corpo com a pressão atmosférica e quem visse diria que pilotava um caça a uma velocidade hipersónica, porque sentia a cara toda distorcida. Escorregou no pavimento, mas esse pormenor ficou agarrado às paredes.        

Recompos-se. Uma rapariga experiente sabe que entrar em pânico faz suar e é fatal.

 

Abriu finalmente a porta que lhe daria acesso à sala onde a besta bufava.

Deu consigo no balneário.

 

O que viu não é aconselhável uma rapariga de boas famílias. Não é propriamente recomendável - mesmo não sendo desagradável de todo -, uma menina ter uma data de pilinhas espantadas a olhar para ela, que nem sequer tem à mão uns óculos escuros.

 

Uma situação absolutamente embaraçosa para os rapazes.

  

No meio do nevoeiro e depois de uma análise breve, mas muito profícua, do meio ambiente - enunciará em breve as conclusões a que chegou -, avista o maninho também com a pilinha a olhar para si e finalmente compreende o clube de fãs que este rapaz conseguiu povoar. 

Se Ava Gardner não hesita, esta rapariga também não. Avançou determinada, sorriu polidamente para os conhecidos e para as desconhecidas, agarrou no saco do mano com a desenvoltura das ginastas, voltou a sorrir e:

- Convém que te despaches. Eu já levo o saco para poupar tempo. 

Não foi brilhante, mas também não se pode exigir Shakespeare nas situação em que se contracena com pilinhas.

Saiu quase a desmaiar e a abanar-se toda com a luvinha e a suspeitar que desta vez o calor que sentia não era o do ginásio.

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A Gaffe lendária

rabiscado pela Gaffe, em 10.12.16

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Quando começa o Inverno, na hora parda que alastra a cor acidulada reflectida nos espelhos da água da cisterna mais pequena, na face Norte da casa, no lugar mais frio, há uma brisa que sentimos quase verde.

Desce as escadas de pedra e percorre todo o labirinto esguedelhado do jardim, entra pelas portas e janelas, corre corredores, afaga os móveis e as louças, sacode a poeira breve dos tapetes, confunde a ordem dos ponteiros dos relógios, despenteia jarras, inclina quadros na parede, desfaz a simetria das cortinas, obriga as mulheres a compor os lenços que usam traçados no peito, desarranja todos os recantos e canteiros, para depois voltar ao lugar onde nasceu, no lado Norte da casa, perto da cisterna mais pequena, e desaparecer por entre a imperceptível ondulação da água.

 

Dizem os homens que não é brisa sorrateira e branda a nascer ali, que não é o vento a estender um braço de sono e a recolhê-lo depois de o espreguiçar.

 

Dizem as mulheres que todos os Invernos vem do fim da água um anjo condenado por se atrever a amar aquela que guardava e que em brando desespero procura o que, por tanto desejar, deixou desamparada.

 

Ao fim da tarde, depois, volta a morrer, porque se perde constantemente a vida quando sabemos que o nosso amor, de tanto, desnuda e aniquila os que desmesuradamente nós amamos.

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