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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe vestida de noiva

rabiscado pela Gaffe, em 15.10.15

Todas as mulheres elegantes, intrinsecamente elegantes, são inteligentes. Não há qualquer vestígio de sofisticação, de charme, de urbanidade, de cosmopolitismo, de universalismo - há subtis diferenças - nas mulheres que terminam no conteúdo do soutien ou na quantidade de likes que conseguem quando esbardalham as férias parolas de biquíni exíguo e língua de fora nas redes sociais.

 

A elegância absoluta é incompatível com a empobrecedora tirada, puxada do autoclismo da imbecilidade, ou se ama ou se detesta. Nada deve oscilar desta forma. Uma redução simplista e maniqueísta do que é naturalmente múltiplo é sempre uma manifestação clara da existência de limites intransponíveis à capacidade de detectar e abarcar todas as variantes que se oferecem. A inteligência, neste caso particular, impede a constrição, racionalizando a emoção, substituindo a emotividade pelo pensamento crítico ou travando o instinto mais básico dando primazia a uma análise quase matemática.

 

A elegância é matemática.

 

Nada impede, contudo, que uma mulher elegante troque a razão pelo instinto em casos pontuais. O pensamento crítico é tão viciante como a cocaína. Mesmo sem vestígio de droga, fica-nos sempre o nariz alterado.

 

Uma mulher elegante sabe que se torna divertido operar através do seu instinto, sobretudo quando lhe é exigido uma complicada arquitectura da razão, do pensamento, desde que perceba que é a razão que, instintivamente, lhe comanda a escolha. 

Talvez seja por isto que a Gaffe fica tão perplexa perante a quantidade de Look do dia ou look da semana que se esbarra contra os muros dos blogs mais fashionistas, onde nada tem origem, quer no instinto, quer na razão. É talvez o único caso em que o ou se ama ou se detesta encontre o poiso que lhe justifica a existência. O único Look possível deveria ser o Novo de Dior.

                                                            

Há, no entanto, um caso em que a emoção, a emotividade, a comoção, o envolvimento da intimidade e da partilha de raiz no coração, devem ser comandados e dominados quase em exclusivo pela razão.   

 

A escolha do vestido de noiva.

 

A Gaffe acredita que não terá, nunca, de enfrentar uma situação tão embaraçosa e exactamente por isso é capaz de se debruçar com o frio de um Inverno rigoroso sobre o assunto.  

 

A escolha do vestido de noiva não pode ser instintiva. Deve ser domínio do pensamento crítico, da análise mais dura e crua e da razão mais cristalina. Deve provocar emoções, mas ser contido na emoção que provoca em quem o usa. Não deve ser o centro do que envolve a noiva, mas deve transformar-se no centro do que envolve os outros.

 

Tem de contar histórias! Tem de evocar cenários! A narrativa de uma noiva começa no instante em que o primeiro convidado a vê. É no primeiro parágrafo, dizia García Márquez, que o romance se faz.

 

A Gaffe elegeria subtis evocações de Paris de Antoinette, Versailles antes do Medo. As caudas de vestidos que partem dos ombros - os Watteau, de origem na tela de um pintor -, o abaular das sedas, grávidas de vento, o delicado, quase imperceptível, trompe-d’oiel, o paradoxo amável entre frente e costas e a exuberância dos frisos trabalhados.

Aliava o século onde o Sol se pôs com a luminosidade das luas de Dior. O New Look que adelgaça a cor do que é sonhado, os lanhos que se fecham através de pérolas e o deslumbre das assimetrias claras que escondem a mulher ao revelar a esfinge.

Depois, a esguia, a tubular luxúria do brilho acinzentado. As jóias que se esquecem na sombra de uma seda e a intimidade esplêndida que se adivinha apenas na promessa.

 

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Gavetas:

A Gaffe casamenteira

rabiscado pela Gaffe, em 23.09.15

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Raparigas!

Não abdiquem. Sejam noivas tradicionalmente perfeitas.

Nunca se esqueçam que um pecado, um erro e uma mentira, se toleram mais depressa se chegarem com laços, tules, sedas e perfumes.

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A Gaffe no casamento

rabiscado pela Gaffe, em 29.01.15

Dior-Wedding DressA Gaffe não é de todo perita na área, mas acredita nos relatos e testemunhos dos seus mais queridos amigos que no altar viram redobrada a paixão que sentiam pela mulher que deslizava envolta em nuvens. Juraram nunca mais ter sentido o aroma daquele dia em que a noiva se tornou sua mulher.

Alguns estão divorciados, mas isso não contamina o que se quer dizer.

Um dos pormenores essenciais a que uma noiva tem de dedicar especial atenção é o perfume que vai usar no dia do enlace.

Importantíssimo.

Há pelo menos cinco considerações que se devem anotar:

1 - Nunca o ter usado. O perfume deve ser uma estreia. Como se depreende, não será de todo conveniente enfiar o frasco dois dias antes nas narinas do rapaz e perguntar se a criatura gosta.

2 - Enfrascarmo-nos, despejando sem qualquer receio o perfume pelo corpo. As flores da igreja vão tentar abafá-lo e é preciso que sejamos nós a calar a porcaria dos arranjos.

3 - Não nos preocuparmos se o noivo revelar sintomas de falta de ar quando nos aproximarmos. Vai pensar que é apenas porque chegamos e a comoção se torna asfixiante. Os convidados que tragam uma botija de oxigénio.

4 - Nunca mais o usar. É imprescindível que abdiquemos do perfume escolhido. O noivo deve acreditar que apenas no dia do casamento sentiu no ar o mais perfeito dos aromas. Se o usarmos quando cozinhamos arroz de polvo ou bacalhau à lagareio, quando nos esbardalhamos no sofá a ver as noivas de Stº António ou a ouvir César das Neves, podemos dizer adeus à cebolada.  

5 - Não beijocar as amigas e as convidadas depois de termos despejado o frasco em cima de nós. Os perfumes misturados causam náuseas e não é bonito termos o padre a vomitar-nos o véu.  

A memória olfactiva dos rapazes, maior do que a visual, é um trunfo que devemos usar e abusar em dias especiais, marcando-a irremediavelmente, para que no dia em que vamos assinar o divórcio e voltarmos a usar pela segunda e derradeira vez o perfume fatal, o homem perceba que jamais encontrará no bocado miserável da vida que lhe sobra uma mulher que o consiga asfixiar de forma tão perfeita como nós.  

Foto - Dior Wedding Dress

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A Gaffe solitária

rabiscado pela Gaffe, em 19.12.14

anel de noivado.gifNa tradição judaica o véu significa a honra, a virgindade e a dignidade das mulheres e em simultâneo um sinal da subordinação ao marido.

Há quatro tipos clássicos desta simbólica subjugação:

  • Véu catedral - Véu formal, medindo 12 centímetros mais do que o comprimento da cauda do vestido.
  • Véu ponta do dedo - O comprimento vai até a ponta do dedo da noiva.
  • Véu cotovelo - O comprimento vai até o cotovelo da noiva.
  • Véu ombro - Véu curto que, como já se esperava tendo em conta a originalidade da escolha do nome dos anteriores, vai até os ombros.

Já o anel de noivado chega-nos da Grécia e de Roma antigas que por sua vez o foram buscar à tradição Hindu.  Acreditava-se que pelo quarto dedo da mão esquerda passava uma veia (vena amoris) directamente ligada ao coração.

No início o anel de noivado (e posteriormente a aliança) era tida como um certificado de propriedade ou de compra da mulher, indicando que a mesma não estava mais disponível para outros pretendentes e só a partir do século IX foi transformado pela  igreja cristã no símbolo de união e fidelidade entre casais cristãos.

É curioso perceber que estes românticos símbolos são originários de crenças muito pouco abonatórias, mas, de posse desta informação, saibam rapazes que não nos subordinamos nem nos vendemos por um pechisbeque qualquer!

Se os diamantes são os melhores amigo da mulher, o ouro e a platina dão óptimos confidentes e não há tradição que vos valha nem véu que vos cubra se não cintilar no nosso dedo um solitário tão estupendo como aquele que brilha na foto.

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A Gaffe nupcial

rabiscado pela Gaffe, em 17.06.12

Inexplicavelmente fui censurada pelo photobucket e a inócua imagem que existia foi considerada ofensiva, violando o pudor que se exige. Decidi substituir a perdida, pelas absurdas razões invocadas, por duas ainda mais suaves que continuam a representar o que é dito.

 

Um dos mais importantes trilhos que uma noiva tem de percorrer sozinha, depois da escolha, minuciosa, ponderada e absolutamente criteriosa, do perfume a usar, é, como é de esperar, a lingerie.

Acredito que o vestido pode recolher as impressões, e uma ou outra lágrima, da mãe e os devaneios irritantes da futura sogra, as opiniões dos criadores distintos e a implicante atordoada do cabeleireiro - nestes casos, é sempre bom que seja um gay desconcertante e louco. Como não pode casar com colorido ardor, como deseja, vai projectar o ideal imaginário nas hipóteses que vamos naturalmente recusar, mas que ajudam a seleccionar o mais conveniente, por exclusão de partes.

Acredito que a organização do evento pode ser entregue a uma senhora que nos pesa primeiro para saber quanto temos de lhe entregar em ouro, que normalmente tem um sotaque francês e que começa todas as frases por oh! querida, a menina não pense que… e as termina invariavelmente com então vá, desconhecendo nós para onde ela nos manda e mesmo não pensando muita coisa.

Acredito que a lista dos convidados pode ser negociável e que é admissível excluir a prima em segundo grau que foi durante alguns séculos o primeiro amor do noivo embevecido e que, na nossa humilde opinião, foi um  desgraçado infeliz ao lado dela, mesmo sendo a prima a boa Santa Teresa d’Ávila, mas em sucessivos êxtases.

No casamento, acredito em quase tudo. Aliás, creio mesmo que, no casamento, acreditar em quase tudo é uma condição necessária à duração do mesmo.

Só não admito que a rapariga alva e pura, doce e terna, que voará envolta em véus rumo ao altar, permita que a lingerie que usa nesse voo tenha os perdigotos da opinião alheia.

A lingerie nupcial é o último reduto da timidez da noiva e por muita desvergonha havida no período que antecede o enlace, ou nos bancos do Rolls do avô, ou atrás das portas gigantes de uma sala do Louvre (esta última referência é pessoal), a noiva é uma criatura sempre estranhamente tímida, nervosa, mesmo insegura, uma noviça, uma conventual iguaria que só as abadessas viram nua.

A escolha da lingerie nupcial é proibida a estranhos. Só a mulher conhece o corpo noivo, só a mulher instintivamente sabe da renda e da rendada sedução que a liga vai tecer e nada, rigorosamente nada, se despirá de forma tão total e tão abrasadora do que a lingerie que uma noiva escolhe.

(Lingerie nupcial, 1929)

NotaNão! Não é a lingerie da imagem a que eu escolheria, mas a minha selecção fica comigo.  

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A Gaffe no casamento da melhor amiga

rabiscado pela Gaffe, em 14.05.12

Imagine que foi convidada para o casamento da sua melhor amiga.

Normalmente, antipatizamos categoricamente com o noivo, porque nos sobe pelas entranhas um ciúme rasteiro que é apanágio das raparigas que durante muito tempo foram cúmplices em todas as situações que a vida lhes propôs e que se vão passar a ter um poste entre as duas, supostamente para a vida inteira.

Podemos, como é evidente, arrasar o noivo, lançando subtis venenos ou insinuadas calamidades secretas acerca do pobre do rapaz que vai acabar, com tempo e paciência, por se tornar, invariavelmente, mais um amigo nosso agradável e compreensivo, tendo em consideração o facto de jamais lhe perdoarmos o ter casado com a nossa mais íntima confidente.

Podemos, também, abrir o curral (creio que é assim que se chama ao apartamento onde vive este animal) e soltar a cabra que nos consome por dentro.

Neste último caso, corremos alguns riscos. Segundo a regra instituída, obedecida, inteligível e de bom-tom, apenas a noiva usará o branco.

Pois, minhas caras, apareçam imaculadas!

Destruam o dia à pindérica que vos superou, abocanhando aquele nadador olímpico que vos sorria todas as vezes que se preparava para ouvir o disparo de partida. Arrasem a parola que não se coibiu de vos roubar o jogador de rugby que sempre que caía vos atirava um pedacinho de lama. Aniquilem a patega que teve a ousadia de desfolhar o vosso professor de Física Quântica que ficava com os óculos de tartaruga embaciados sempre que batia com as lentes nos vossos olhos cintilantes.

Surjam de branco!

Evidentemente que vai ser detectado o vosso péssimo gosto e revelado o vosso estatuto de animal de curral, mas usem o alvo deslumbre deste exemplo.

Há um inconveniente. Não se podem sentar sem amarfanhar desastrosamente o ramalhete. Levantam-se e as rosas de chantung, seda ou chantilly já derreteram, estão mortas, amarfanhadas pela amargura e pelo azedume da ocasião, e vão parecer que usam esfregonas, compradas nas promoções do Pingo-Doce, depois de assassinarem os rivais que já tinham chegado primeiro à secção dos detergentes, mas quem se quer sentar vestida desta forma?!

Aguentem estoicamente de pé a cerimónia. Confundam as hostes e belisquem as meninas das alianças, pisquem o olho ao padre quando o pobre sacerdote perguntar se há alguém contra aquele enlace, derramem pacotes de sal sobre os morangos, cuspam no Dom Pérignon, torçam-se com dor abdominal durante as entradas, rasguem e critiquem e destruam cada convidado, mas façam-no de pé. Um vestido destes não pode ter um rabo sentado.

Em alternativa, sejam a imperatriz.

Imitem Josefina e surjam prontas a napoleonicamente arrancar das mãos de um qualquer Pio VII a coroa do sucesso para a pousar na vossa cabeleira farta e enciumada.

Neste caso, basta ter cuidado para não pisar a bosta. Nestes casamentos, os noivos vão quase sempre de coche.

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A Gaffe de aliança

rabiscado pela Gaffe, em 07.06.11

O casamento é como a morte: poucos chegam a ele bem preparados.

Lembre-se que a cadeia do casamento pode ser tão pesada que são sempre precisas duas pessoas para a carregar. Às vezes três.

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