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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sem trono

rabiscado pela Gaffe, em 29.08.17

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Vejo-a agora de veludos pretos. De brocados pretos. A sobreposições de texturas pousadas na palidez doentia dos que estão sozinhos, que a palidez é mais densa nos que são deixados. A coifa geométrica a resguardar-lhe o pudor dos cabelos presos. A redonda gola de renda de Flandres, amarelecida pelo amido que a entretela. O crucifixo preso por correntes de ouro a baloiçar entre os mamilos esmagados pela tábua do espartilho. A cinta quebradiça, vislumbre de nada. A cinta que a asfixia. O raso triângulo rígido depois. Bordado. Em relevo. O galrear rouco do rasto do vestido sobre as pedras. As mãos sem anéis. Esguias de rezar. O rancor viúvo por três vezes. O suor nas axilas. O suor nos pêlos púbicos que a agoniam pela evidência de trazer no corpo sexo, pecado e morte.  O peso desmedido do que arrasta. Véus como teias. Véus de pedras.

 

Vejo-a de joelhos, trucidada pelo peso do sacrifício do Cristo, a desfiar contas de rezas latinas. A cravar o peito de veludos baços os socos mais contritos. À espera que a matem, à espera da coroa, que o reino tarda e a morte é ruiva.

 

Vejo-a velada pela ténue trama do erotismo preso no martírio do homem pregado. Do homem em cruz que a ajoelha, na cruz, de corpo nu, e sangue, e feridas.  

 

Maria da Escócia.

 

Então percebo. Foi sempre a solidão, que é uma outra morte. A que vem connosco, ajoelhada.

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A Gaffe dos guerreiros

rabiscado pela Gaffe, em 24.08.17

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Salvaguardando o meu direito de escrever tolices, suponho que o latim se preservou mais facilmente e sem grandes solavancos nas regiões limítrofes do Império. Roma, a capital do gigante, promoveu, aceitou e modelou as alterações à língua de modo natural, dinâmico e acelerado, enquanto os seus longínquos destacamentos se mantinham fiéis à velha guarda.

A distância possibilitou a preservação.

 

O facto de Edimburgo, ou outro qualquer centro urbano, ficar muito distante dos recônditos lugares das Terras Altas, permitiu, por exemplo, que as tradições, os costumes, os conceitos, as lendas e os rituais, permanecessem sem alterações significativas e que se reproduzam hoje bastante próximos da origem.  

 

Admito que de lendas, rituais, costumes e tradições tinha eu estantes preenchidas antes de partir. Admito que, pecaminosa e fútil, desdenhei um conhecimento mais profundo dos meus anfitriões. Reconheço que me estava a borrifar - ou nas tintas, como vos aprouver -, para a carga simbólica de uma determinada narrativa mais rochosa ou de um enunciado mais esotérico eivado de pepitas de paisagens místicas e míticas.

 

Dediquei todo o meu inútil tempo à mais profunda superficialidade, à mais descarada das preguiças - a que nos faz apenas mexer os olhos -, e à mais vergonhosa das actividades lúdicas - fazer de conta que não se existe enquanto se espreita a existência dos outros.    

 

Em consequência, sentava-me num banquinho deselegante e assistia a um torneio.

 

É realmente impossível de o descrever.

As cores - mesmo as que não existem e que se inventam ali, porque hoje é festa -, os gritos fabulosos de incentivos galhofeiros, as malditas gaitas, os tambores a rufar até ficarmos todas a com as maminhas a vibrar, a extraordinária felicidade a estourar por todo o lado, a radiante vontade de viver, um entusiasmo contagiante, as bebedeiras monumentais, o rodopio das gargalhadas, as bandeiras, os estandartes, os porta-estandartes, os postes dos porta-estandartes, os abraços a torto e a direito e até canhoto, as cantigas soltas em sotaques velhos e tudo mais que não se diz, que não sabemos, faz-nos sentir esbardalhadas num tufão de alegria que empurra para ombros vencedores os que caíram depois de lutar com todo o corpo.

 

Maravilhoso!      

 

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Voam estafetas; saltam medas de feno; agarram em medas de feno; agarram em barris de madeira, um em cada mão; agarram em lenhos brutos que serram; agarram em bolas de ferro que arremessam depois, em paus, em picaretas, em pás, em tudo o que servir por ser pesado; penduram-se em ferros; baloiçam em cordas; puxam cordas com blocos de pedra amarrados; atiram pedregulhos; lutam uns com outros; correm, correm desalmadamente, correm como se disse dependesse o extinguir do Brexit e fazem tudo isto e mais que se me escapa por ser tão muito, revelando a cada passo e cada salto, a cada pincho, a cada sopro, a cada arremesso, a cada queda e a cada descanso do guerreiro espalhado na relva, os segredos dos Kilts!   

 

 

Os kilts são usados sem cuecas!

 

Do meu banquinho inocente nunca vi tanta pila aos saltos!

 

 Eis que se destrói a dúvida que parece nunca ter pertencido às robustas escocesas que ao meu lado aplaudiam muitíssimo entusiasmadas sempre que uma piloca se esbardalhava à frente dos seus incentivos. Fizeram-me compreender que, ao contrário do que seria de esperar, não interessava um pirolito quem ganhava ou quem perdia - nem sempre o vendedor era o aclamado! -, mas o modo como a pila do guerreiro esvoaçava, o ângulo em que a dita se pespegava nas nossas vidas tão competitivas, na quantidade de rabo mostrado, nas proporções e equilíbrio - ou ausência dele - das que me fizeram divertir ainda mais do que as mocetonas escocesas já causticadas e no tempo que levavam a ser cobertas pelo tartan traiçoeiro.

 

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De todos os jogos, o mais popular, o meu favorito, e o que mais alarido provocou, era o que obrigava os homens de um clã a puxar uma corda grossíssima onde na outra extremidade o clã rival dava tudo o que podia para os derrubar. Não era de todo o mais espectacular, mas era ali, com as botas fincados na terra, rabo assente no chão, pernas abertas e braços estendidos de músculos retesados, que os rivais deixavam que o público visse todo o poder, toda a valentia, toda a força e todo o material de que eram feitos.

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Até eu, que sou tão avessa a este tipo de competição, escolhi, bem no meio de todos, o meu maravilhoso perdedor.

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A Gaffe convertida

rabiscado pela Gaffe, em 23.08.17

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Vi, passaram já alguns anos, no auge dos U2, uma imagem de Bono Vox  que me surpreendeu.

Bono, ajustado ao pescoço, ostentava um colar de pérolas pequenas.

 

É provável que tenha sido a mãe do rapagão que não tendo tempo para as usar e sabendo que as pérolas têm de estar em contacto assíduo com a pele para evitar a deterioração, lhe tenha suplicado aquela fineza, mas a imagem, por inusual, causou alguma estranheza até perceber que aquele adereço quase exclusivamente feminino, acentuava significativamente a masculinidade do portador que indiferente mostrava o que valia, suado e rouco. A fragilidade das pérolas, a brandura subtil, a fiada de discrição, a elegância e a insinuação feminina contida no branco, marcava e destacava a virilidade onde tinha pousado.

 

Bono nunca foi tão macho.

 

Se um discreto colar de pérolas, que se destina na origem a pescoços femininos, pode e é capaz, quando usado por um homem, da proeza de lhe acentuar as características de género, é bom de ver que um Kilt, mantendo eventuais e muito discutíveis pontos de contacto com um universo feminino -mas desde sempre pensado e talhado para uso de um macho -, pode operar milagres na única área que nos interessa - que se danem os castelos em ruínas e as inscrições gaélicas nos pedregulhos escorregadios.

 

É curioso verificar que esta peça - tantas vezes arremessada por dichotes e piadolas de petizes, imberbes, homens de outros lados, homens que se se disfarçassem de Batman iriam parecer freiras carmelitas e meninas com uma nail com bolinhas e outras de cores diferentes, que insinuam uma oscilação de cariz sexual ou ridicularizam as pregas que nunca vincarão com a unha do polegar, pois que não o têm oponente -, coadjuva de tal modo o homem como a tão celebrada gravata regimental, os botões de punho reservados, ou as peúgas pretas dentro dos monk strap.

 

O brevíssimo e enganoso vislumbre de um imaginário feminino povoado por saias de colegiais inglesas que um kilt provoca nos mais débeis que se riem imenso, é esmagado pela imposição de uma virilidade indiscutível, de uma masculinidade entranhada e de um vigor másculo de tal forma evidente, de tal modo acentuado que nos faz perceber que os papalvos críticos e engraçadinhos que se orgulham das calças que usam sem saber porquê, desconhecem até os outros processos de tapar a pila.

 

O hábito pode não fazer o monge, mas um Kilt - valha-nos Deus! - converte uma infiel e convence a rapariga a ir à missa.  

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A Gaffe - "The Comeback"

rabiscado pela Gaffe, em 18.08.17

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A Gaffe tinha planeado uma rentrée repleta de paisagens enevoadas, misteriosas, místicas, cheias de árvores tocadas por farrapos de névoa, de abismos rochosos, de ruínas cinza de castelos funestos, de pedras milenares rasgadas por inscrições rúnicas – ou coisa assim parecida, a atirar para o celta, com um travo gaélico e uma pitada de gaita-de-foles das Terras Altas -, mas cansou-se de ouvir bocas abertas a exclamar por tudo e por nada:

 

-  Pas de mots!

- No words!

- Keine Worte!

- No comments!

- Indescriptible!

- Unspeakable!

- isto a gente até fica sem dizer nada!

 

Ficou exaurida de tanta ausência de narrativa cuética e acabou por considerar um achado juntar-se ao grupo dos emudecidos. Não dá trabalho de gabinete de escrita criativa e poupa o imenso esforço que seria tentar não ser uma imbecil a juntar palavras como quem faz uma legenda floreada para uma fotografia medíocre.  

Em resumo:

- Le paysage écossais? Pas de mots.

Ficamos assim, abrindo caminho para o que realmente é de considerar descritível.

 

O mistério dos Kilts.

 

A Gaffe assistiu, num lugarejo muito típico - o que por vezes significa que guarda as botas do Demo e que ninguém lá que morar, mas que é maravilhoso pasmar de quando em vez com os seus costumes e com as suas tradições, a sua arquitectura, as suas ovelhas, as suas cabras, as suas particularidades, a sua falta de chuveiro e de net em condições -, a um torneio escocês.

 

Absolutamente colorido! Uma espécie de Benetton para adultos, muito adultos, muito adultos, quase bêbados, enfiados num estádio circular improvisado e repleto de bandeirinhas, brasões a esvoaçar, mastros garridos com cordas que sustentam as tendas de lona com formatos circenses, gaitas-de-foles por todo o lado a azucrinar os ouvidos de gente inocente - ninguém imagina a inferneira medonha que uma colecção de porcarias daquelas debaixo dos braços e sopradas, todas, ao mesmo tempo consegue fazer! Semelhante, apenas no encontro anual das corporações de bombos europeus em Pasmaceiras de Baixo. Deus meu! A Gaffe até ficou com o cabelo frisado e sentiu nela despontar a vontade pérfida de enfiar as gaitas nos olhos - em todos - dos donos e obrigá-los depois a bufar até aquele gaitedo gritar e zoar nos confins do Inferno.    

 

Os banquinhos, muito baixinhos e articulados, disponíveis para alapar rabos e olhos sem cansar os pés assemelhavam-se aos que as senhoras levam para Fátima para regalo traseiro, enquanto esperam de modo mais confortável a procissão das velas ou o adeus à Virgem – e nunca a comparação foi mais certeira, pois que trataremos de uma certas velas e de eventuais despedidas ao estado que desaparece num pestanejar de lenços. Uns minúsculos quadradinhos de pano seguros por quatro pernitas que se podem dobrar, permitindo um transporte fácil e muito leve.

A Gaffe escolheu o de lona azul, abriu-o e sentou-se. Ficou tareca, marreca e tão longe da elegância como um cão que se prepara para obrigar a dono a usar um saquinho de plástico, mas resistiu estoicamente quando ouviu a mana a prevenir:

- Se te sentares aí, vais ter de fazer muito esforço para conter o entusiasmo …

 

Entraram os clãs identificados pelas cores dos Kilts, ao som daquelas coisas sopradas e apertadas que, a Gaffe aposta, também afastam javalis e mataram pela certa os bichos com chifres que nos olham muito sérios com a cabeça colada nas paredes. Bandos de rapagões medonhos, brutais e brutos e bestiais. Manadas de músculos. Muralhas de pregas. Muros de pêlo ruivo por todo o lado e urros de ursos a fazer vibrar os banquinhos pequeninos e abismados onde trememos com o tremor de terra.

 

Os kilts a dardejar testosterona, trazem na frente, seguras por tiras de couro trabalhado, as pochetes - têm nome próprio, mas que se varreu logo ali no meio com o susto -, de trinco de metal, corpo de pele de corça ou potro e rabinhos de felpudos e fofinhos bichinhos mortos à paulada, prontas a impedir o mover do pano quando se erguem ventos mais ousados; os troncos vestidos por t-shirts que deformam de tão justas os brasões estampados e as botifarras duras e puras como toda a verdade, fazem com que a Gaffe se pense de repente esmagada pela rebelião de William Wallace.  

 

Separam-se os clãs.         

O segredo esconso dos kilts está em vias de ser revelado. Várias vezes ...  

 Os jogos vão começar!

 

A Gaffe vai num instantinho engolir um Whisky duplo para os descrever no próximo episódio.  

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