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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe arqueóloga

rabiscado pela Gaffe, em 27.08.16

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A hora do entardecer é a minha preferida.

As portas das varandas da sala principal do hotel estão abertas e aquele homem, voltado para a luz laranja que morre no exterior, deixa que se espalhe pela casa o aroma asfixiante dos desertos que de tarde se tinha tornado abelhas atraídas pelo odor futuro do chá.  

 

Partículas de luz ruiva, roxa, arroxeada, volteiam pela sala.

 

As mulheres rodopiam, decotando sorrisos e sacudindo as saias de linho ou seda fresca e os homens usam camisas com botões que brilham devagar no aprumo devido aos templos que visitam.  
Tilintam perto campainhas e é desfraldado o barulho dos bules e dos copos de vidros lapidados.

Há gritinhos e saltinhos das senhoras e os cavalheiros procuram a formatura que lhe permite cumprir com honra e tino o ritual já velho.

 

O cheiro esbatido do corpo do homem começa a sentir-se enrolado no ar, escondendo-se nas fendas dos móveis. É o aroma de um corpo cansado que já aniquilou o contido no frasco com travo de sândalo. É um perfume com sabor, como se tivéssemos uma chave na boca.  

 

Há um rasgo no braço da camisa e sangue seco, castanho. As pedras de Petra vingam-se, rasgando com punhais os braços daqueles que as tentam entender.

Há um anel de ouro no dedo do homem. Um anel que é a fusão de outras alianças, mortas ou prontas a esquecer, a ser perdidas, mas com o tempo suspenso e sentença adiada.

Há nódoas de terra seca nas calças do homem e o couro do cinto, velho, já manchado, tem uma fivela de metal escurecida e gasta.

Há os pés pousados no chão como se às pedras faltasse o contacto do dono para arrefecer.

Há as rugas que a fúria do sol escavou.
Há sulcos cavados no espaço que existe entre as sobrancelhas, no instante exacto do nascer da cana do nariz recto e perfeito e há riscos sem suavidade na testa larga e ampla. O tempo cravou os dedos de pedra com a crueldade dos dementes na esfacelada pele como se de barro indefeso fosse a carne.  
Há a platina da barba e há o irreparável erro de ficar.  

Há depois o olhar que já pertence todo a esta terra. O olhar que aprendeu a dar as ordens certas durante três décadas e que passou a amar definitivamente as pedras só por saber que vai morrer primeiro.  


É notório o encerrar definitivo das emoções naquela criatura reservada. A mais banal das questões é tida como lança disparada e a mais clara ou pateta das perguntas é olhada com escárnio. A nada se responde e a nada se atenta. No entanto, esta aparente indiferença parece vir mesclada com a argúcia dos adivinhos. Nada surpreende, porque tudo já foi visto.  
O tempo, que abre fendas nos rochedos, simultaneamente fechou templos e permite apenas que se vislumbre uma luz pálida do interior desta alma através das frestas que cavou no corpo deste velho arqueólogo.  
Desses vislumbres, solta-se a impaciência que o tempo de que falo exacerbou. Magoa com as botas o soalho, de lado para lado, mãos cruzadas nas costas, punhos fechados e mudez absurda, alterando o requinte vagamente absurdo das tardes de chá amargo amaciado por pequenos biscoitos de gengibre e canela. Espera que tudo esteja pronto e arrepende-se de ter permitido a invasão da ruiva esbaforida com o calor. Morde as pequenas rodelas adocicadas, mistura-as com travos de chá amargo e quente.

- Incendeia-nos de frescura esta mistela - e morde mais. 

É este o homem que prefiro, mais do que às horas dos entardeceres.

 

Envelheceu no meio de lugares que não lhe foram ditos. A consciência do seu declínio derruba as pedras e rompe arrolando os meus instantes.

 Tem sede e água ao mesmo tempo. Tem a mágoa de ter sido poupado a lugares de dor imensa, porque esteve sempre debruçado sobre o maior amor que a alma pode dar. O amor ao que sabemos que ficará depois de nós, inevitavelmente. Tem pena e todo este lamento se escoa na certeza de partir em breve - sou um velho, - de se sarar por dentro e entregar um coração qualquer, que desconhece agora, ao centro de outro lado.

Voltado para mim, ergue a sombra que o envolve. Ergue só para mim, da mesma forma, outros espaços, porque é nele que estes espaços se resumem. É por ele que os vejo, que os sinto, como se não houvesse lugar impune àquele corpo esguio e envelhecido, como se nada houvesse ou tudo fosse nele.

 

- Já nem sei quem sou.

 

Ouvia-o na sala do chá amargo e dos biscoitos de gengibre, voltado só para mim, e já não sei se foi há pouco tempo ou se a voz me chega de outras eras.

 

- Gosto tanto de si! - sou tão banal.

- Ah! Envelheci no dia em que uma mulher, a última que amei, completou essa frase. Acabou-a dizendo que gostava um dia de encontrar um homem como eu.

- Mas é uma lisonja. - espanta-se a tontinha.

- Minha pequenina Petra, eu sou um homem como eu.

 

Foto - Jane Chong

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A Gaffe reencontrada

rabiscado pela Gaffe, em 23.08.16

BoyIsMine.jpgAmar Paris não tem que se lhe diga. Basta encontrar numa outra língua, de repente, declarações de amor numa rua que tem o nome do velho Cardeal.

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Gavetas:

A Gaffe presente

rabiscado pela Gaffe, em 08.08.16

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Provavelmente já não vos sentirei a passear por estas Avenidas.

Esta tontice, que pela primeira vez agendei, não será revista como é meu costume sempre que vos ouço.

A esta hora o voo teve já início e esperam-me palácios e templos cravados na mais extraordinária das miragens, no mais improvável dos imaginários.

Não levo nada nos olhos, não tenho nada nas mãos, a não ser a minha quase sempre tonta capacidade de me deslumbrar, de ficar muda, queda, emocionada com tudo o que ultrapassa o meu parco entendimento.

 

Tenho exactamente dez dias para me render, partindo já rendida, aos enigmáticos rochedos que em conchas surreais escondem os rendilhados com que se esculpem os milagres. Dez dias e depois mais outros cinco para retornar à larga lassidão e à melancólica melodia dos passeios de Paris por onde vaguei, deixando trepidar as ruas num esvoaçar de flâneur.


Já tenho saudades vossas!

Esperem um bocadinho por mim.

Eu volto já.

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Gavetas:

A Gaffe e as sete condenações

rabiscado pela Gaffe, em 04.08.16

 

Uma ruiva no meio de um grupo de veraneantes bronzeados produz o mesmo efeito que as marcas dos fatos de banho no corpo dos ditos. Torna-se facilmente o alvo de todos os olhares. Bastante maçador.

 

É mais do que sabido que as ruivas não se bronzeiam, mas este minúsculo senão tem as suas vantagens. Uma ruiva não precisa de se esbardalhar ao sol, braços estendidos, pernas abertas e boca escancarada até que a melanina cumpra o seu dever ou se entre em coma, aproximando o cérebro da vítima do sargaço apanhado por ancinhos nas praias do Norte, para que se cumpra a promessa dúbia de um corpo tisnado.

 

Uma ruiva é capaz de se manter alerta do cimo das suas esplanadas, de óculos de sol muito Jackie O., de capelina de palha finíssima ou lenços Vuitton e de esvoaçante vestido de seda estampada de fazer inveja a Delaunay.

Se está aborrecida com as páginas que vira ao sabor da brisa e do voo das gaivotas, pode observar o povo de cuecas e de lingerie fabricadas propositadamente para a saison.

 

Nestas suas panorâmicas incursões pelo areal, a ruiva é capaz de reconhecer aquilo a que chamará os sete pecados banais que os rapazes cometem sem se aperceberem que cada um deles pode ser letal ou arruinar o Verão inteiro deixando-os com a sombra da debilidade mental agarrada à imagem.

 I

Não biquineis a mulher do próximo nem a rapariga que vem ali ao longe -  Um biquíni que vos entra para o olho, rapazes, é milhares de vezes mais perigoso que um grão de areia. Normalmente infecta e muitas vezes só se consegue retirar enterrando na córnea a pá do baldinho do petiz que nos queima o sossego mesmo ali ao lado, antes, claro, de vos ser enfiado o balde nas trombas.

 II

Abanar a toalha a favor do vento e contra o nosso corpinho tocado pela brisa é tão perigoso como tentar sacudir as velas do Sagres no meio da borrasca.

Acreditem rapazes, não apreciamos um marinheiro de fraldas areadas que receia sentir picada a mimosa pele ou que com a mania das limpezas nos trata como candidatas a panados. Princesas-ervilhas só as ruivas de boas famílias.

 III

São letais os salpicos de água com que tentais provocar-nos um choque térmico, quando procuramos entrar devagarinho no frio do mar com o corpo saído debaixo dos raios que abrasam.

Não é engraçado, rapazes. Só nos apetece bater-vos com uma piranha até que o animal fique com os dentes do Paulo Portas.

 IV

Similar ao anterior, mas ainda mais grave. Consiste em suspender o corpo encharcado, saído do banho ainda a tremelicar, sobre o nosso, quase adormecido à sombra das palmeiras.

Meus queridos, se quiséssemos ter alguém a pingar o que quer que seja nos nossos corpos calientes escolhíamos o George Clooney.

 V

Ficar de boca aberta, babada, de barriga para o ar, de pernas escancaradas e bermudas a dar-a-dar ao vento, não é de todo charmoso. Se a posição for acompanhada por um ressono beatífico que confundimos com o ronco do farol, é caso para vos espetar com o primeiro casco de navio naufragado que der à costa ou  cravar na vossa testa o primeiro mastro valente que passar - e na praia sempre vão passando alguns.

 VI

Arrastar-nos pelos pés ou levar-nos ao colo para dentro do mar. É deselegante. No primeiro caso ficamos com areia enfiada em sítios inconvenientes e com vontade de vos arrancar o fígado com a pá do miúdo que já foi útil em ocasiões anteriores - a pá, porque o miúdo só serve como porta-armas. No segundo caso, ficais com as pernas arqueadas, esbaforidos e a arfar, e nunca, mas nunca, conseguireis recriar uma cena do E tudo o Vento Levou sem que a Scarlett que transportais não sinta que vai ao colo do Woody Allen.

 VII

Dizerem-nos que o guarda-sol está bem fixo para, passados instantes, o ver cravado nas maminhas da senhora a cem conservadores e pudicos metros de distância, é irritante. É claro que sabemos como o cravar convenientemente na areia. O salva-vidas deslumbrante passou todo o dia anterior a ensinar-nos o modo mais eficaz de o segurar, mas deixamos para vós as tarefas que exigem um pouco mais de esforço. Se não conseguis seduzir-nos com um sombreado seguro, é certo que nos abrigaremos à sombra dos músculos do professor da véspera.

 

O conhecimento destes sete pecados banais é imprescindível para que não vos torneis, rapazes, um daqueles bonecos insufláveis que o miúdo da pá costuma usar para apoiar o banhinho. 

 

Vá. Decorem. 

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A Gaffe nos rios

rabiscado pela Gaffe, em 14.08.15

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Em Paris, almofado-me nos olhos dos que passam pelas pontes e lanço as penas ao Sena, tão diferente do rio que passa pela minha terra.

O rio que passa pela minha terra não tem as barcas dos risos dos que lá navegam. O rio que passa pela minha terra é um rio que embarca na minha alma e de longe acena com um lenço de prata aos que passam pelas pontes onde há gente com penas no olhar de tanto olhar quem parte com os remos da saudade a ondular o peito.

 

Foto - Anders Hingel

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A Gaffe na esplanada

rabiscado pela Gaffe, em 12.08.15

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A minha irmã bebe champagne numa das esplanadas de Paris.

A imagem é quase cinematográfica e a mulher consciente do facto apura os detalhes e cuida dos pormenores.

As calças afuniladas, pretas e vincadas, aumentam-lhe as pernas que vai descruzando num exercício de esgrima e a camisa branca de homem, de colarinhos rígidos, é manchada pelo cabelo quase em fúria.

Tem as mãos grandes, dedos finos e unhas ovaladas e perfeitas. Move-as com vagar de modo a que a pulseira de pérolas acompanhe a dança dolente dos gestos compassados. Tem os olhos dourados com pestanas grossas, lânguidos, pausados. Não há relances neste olhar. Olha devagar e o langor do olhar é já matreiro. Espreita, espia, espera como o leopardo.

 

Reuniu o grupo de Paris, ou que dele resta, e permitiu a entrada no círculo quebrado dos iniciados de alguns noviços que mede sem dó nem piedade.

Olho-os e não sei se o tempo é tempo de esplanadas de mulheres e de vadios destes. Não sei se Paris suporta ainda este ruivo bando de palavras, solto no ar, inútil, desenhado no sol entardecido da cidade.

 

Nas esplanadas de Paris as flores trazem Champagne e há néon nas almas, brilhantina e riso e o allure de uma mulher que passa sem perceber que passa sobre vidro.

Paris das esplanadas depois de finda a festa. Nas ruas que são rios e savanas, pradarias, tundras, gelo, vulcânicas passagens para outros lados, cheira a luz e a carne de perfumes raros. Manadas de indefesos animais, restos da humana desventura de viver em grupo em que o deslumbre mata, porque cega.

Rapazes que ficaram pelo caminho nas tardes em que Paris quis usar outros. Manada que atravessa este meu rio na lentidão que desconhece o tigre.

Incautos e imaturos príncipes grifados.

Grandiosa idiotice. Esplendorosa idiotice. Magnífica idiotice que nos traz à boca, sem um mover de um músculo, sem emboscar a vida, a presa que quisermos.

O menino de olhos de gazela e boca a prometer um fruto. Tem um pequeno alfinete preso na braguilha. Brilha a braguilha com o alfinete preso na prega do tecido que lhe molda o sexo. Cintilam os olhos do menino de braguilha alfinetada e borboleteia até pousar na mesa à minha frente.

Purpurina na íris, asa de pólen, menino tonto preso pelos meus olhos.

 

Pode ser este. Podia ser aquele ali, aqui, além. Mais este e aquele, o outro e toda a gente.

Que seja a minha noite uma alvorada, que eles sabem perder-se e eu encontrar.

 

Dentro de mim existe outra esplanada. Deserta, sombria, sem pérolas, sem luzes, sem tectos, sem Dior e mesmo sem Laurent, o rapaz de alfinete na barguilha. 

 

Dentro de mim Paris não tem palavras.

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A Gaffe de anil com ferrugem

rabiscado pela Gaffe, em 05.08.15

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A porta que permite acesso ao quarto da minha irmã abre-se com estrondo.

O barulho estala dentro das miseráveis cinco horas da manhã, depois de uma viagem que apesar de breve me cansou  o corpo e me esgotou por completo a capacidade de me manter acordada. Traz duas caixas cor de creme com o logo da Cerruti. Atira-as para cima da cama de modo a que me atinjam a cabeça e me despertem com a sensação de ter sido alvo de atentado terrorista. Afasta os pesados cortinados de veludo e deixa que uma luzinha enevoada e baça se permita invadir, sorrateira e tímida, o meu sono desfeito. Senta-se depois na poltrona e retira um cigarro que não vai acender porque tenta deixar de fumar.

Usa um vestido azul negrume que a torna mais esguia. A gola laçada valoriza o pescoço quase demasiado alto e o cabelo preso numa arquitectura complexa consente que os olhos pardos descubram os mais subtis cambiantes de cinzas azuladas.

 

- Está na hora de te preparar. Levanta-te. Quero que vistas o que trago.

Sonolento espanto o meu, sentada num despertar de trombeta e de Cerruti.

- É cedo demais!

Arranca-me da cama e empurra o meu corpo extenuado.

- Não, minha querida. Paris tem a cor do ocre envelhecido. É laranja e branca, suja e corroída. Só nas primeiras horas, à luz recém-nascida, tem a cor precisa, anilada e cinza. Tens de ver a cor dos príncipes perfeitos.

 

Convence-me. Quero ver às cinco da manhã, as cinzas aniladas da cidade.

Ergo-me no exacto instante em que a minha irmã desata a abrir as caixas. É-me indiferente o que traz lá dentro. Seja o que for, é aquilo que precisa para compor a imagem de mulher que passa pelas ruas de todas as cidades como se todas as ruas de todas as cidades fossem sempre aquela que passa a vida inteira a atravessar.

Volto molhada embrulhada na toalha.

 

- Agora tens de te vestir.

Tento apanhar os jeans. Impede.

- Não. Paris é um lugar subtil. Não se vai deixar morrer de amor por ti, se tu não fores exacta.

Não entendo.

Tapa-me o espelho do meu quarto, fazendo-o rodar contra a parede.

- Paris é uma cidade de reflexos e tu serás como ela quer e te deseja. Nenhuma cidade foi tão igual a ti.

Sorri.

Arranca-me a toalha da cintura. Estou molhada, nua e estupefacta.

Enfia-me uma blusa de seda anil nocturno, justa, de gola masculina, mangas compridas a ocultar as mãos. Empurra-me e obriga-me a vestir umas calças de linho e seda, com de ferrugem com  lanhos de um azul quase imperceptível. São estreitas, tubulares, exemplares, perfeitas. Da segunda caixa retira uns sapatos clássicos, picotados, de couro imaculado, conservadores e preconceituosos.

Deixo-me vestir. Paris é amante de mascarada onírica. Diverte-me a labuta ensandecida da mulher na ansiosa espera do resultado, que será pateta e desconexo, da união de uma tonta a luas de reflexo.

Penteia-me o cabelo ainda molhado. Retoca-me. Diverte-me.

o colar depois. 

Roda no fim o espelho sobre o eixo que o sustenta preso ao tripé doirado de barroco.

 

Na luz difusa da manhã que entra, o que vejo emudece a minha alma pasma. Longa e escura e ruiva e anil esguio, a reflectida, é estranha a mim. Não reconheço a figura emoldurada em ouro. Demorada de enigmas, de subtilezas e de secretos sinais plena e repleta, anil e oiro e ferro, como os caixões das gôndolas de outro lado. Nada sobrou de mim e assombrada deixo-me levar, muda de espanto, ao perceber que no espelho existe uma criatura que pertence à espécie de que a minha irmã é o exemplar mais que perfeito.

 

- Et voilà, ma chérie! Paris à tua frente.

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A Gaffe de férias

rabiscado pela Gaffe, em 01.08.15

A Gaffe decide, no tempo que lhe é permitido repousar das inúmeras tarefas que uma rapariga esperta sempre tem nos braços, retornar à sua cidade e fazer de conta que de lá nunca saiu, retomando as velhas e fiéis amizades doidivanas e percorrendo os caminhos de Montmartre à procura das partículas de alegria que rolaram pelas escadas gastas por vidas e prazeres tão juvenis.

 

Promete passar por aqui para vos ver, mas vai guardar todos os mimos e todos os comentários que lhe deixarem para quando regressar se poder deliciar com tudo ao mesmo tempo.

 

Parte triste, porque tem já imensas saudades deste cantinho onde as palavras tontas permanecem por ler - custe o que custar ao seu narcisismo quase pueril -, mas volta num instante com força renovada e Dom Pérignon para festejar convosco. 

 

Até já!

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A Gaffe com um plano B

rabiscado pela Gaffe, em 28.07.15

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Esta rapariga tem de admitir que atingiu o nível de exaustão que faz com que acordar lhe dê vontade de chorar. Não se espantaria se arrastada pelos corredores largasse o cérebro transformado em baba ou se caminhasses como um macaco drogado apenas porque já não aguenta levantar os braços.

 

Três pesados dias me separam das férias. Três dolorosos dias em que corro o risco de desabar em lágrimas no meio de uma irritação e impaciência injustificadas. Três medonhos dias em que terei de encontrar forças para articular palavras de modo a que ninguém perceba que não foi ouvida.

 

Deixei os planos de férias ao cuidado do rapagão. Vou para onde me levar o coração. Neste caso, o dele. Nunca é boa ideia gerirmo-nos pelas batidas de corações alheios e, apesar de arrasada, consegui engendrar um plano B.

Recuso-me terminantemente a ser enfiada no meio da selva, toda caqui e de chapéu de lona, à procura da tribo Tiruné-tupiraná para estudar os métodos de cultivo do tribibiré ou em busca da raiz do fungagueiré, mesmo que tenha propriedades alucinogénicas. Geralmente estas tribos têm um cabeleireiro miserável e desactualizado, os SPA resumem-se a umas terrinas repletas de argilas alaranjadas que vão secando durante a semana e a maquilhagem é sempre igual à das meninas dos festivais de Verão na Caparica. Depois, as mulheres têm todas as mamas caídas, trazem gente pequena as costas e usam fio dental de folhas de árvores que arranham imenso. Os homens são todos baixinhos, andam aos saltos, têm sempre umas pilas grandes, pintadas ou enfiadas num corno e disparam setas impregnadas em curare. Curare por curare, prefiro o parisiense que é injectado em pequenas doses produzindo imunidade e já ninguém tem pachorra para discutir as vantagens e as desvantagens do tamanho das pilas. Cansada com estou, é-me indiferente que haja espaço para reproduzir Guerra e Paz ou apenas para rubricar o apelido do autor sem riscar os outros papiros.

Não adianta argumentarem com a explosão orgíaca de cores. Em Madrid, no La Chueca, toda a gente é arco-íris e ninguém me assusta com as coisas que se enfiam na boca.

 

O plano B inclui uma brutal e insuspeita alergia ao tirimbimdum e à dança tupiraué, uma passagem para Paris e alojamento no Ritz-Carlton no quarto de onde a Princesa saiu para se esbardalhar contra o muro.  

 

Haja respeito!

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A Gaffe longe de casa

rabiscado pela Gaffe, em 28.08.14

Em Boerum Hill Inn, na esquina de Bergen com a Heyt, sobre o balcão que brilha coberto por um espelho, existe o jazz ouvido pelos homens de Manhattan.

Jazz arrastado e engolido num sorvo pelos solitários das secretarias de Midtown com apartamentos luxuosos com vista para a ausência, rasgada janela do desassossego.  
São homens espalhados pelo chão. De pé, como se estivessem deitados. Com olhos que fervem no escuro e arrepio nos gestos que são tiques. A flor da pele nervosa, à flor da pele e a amargura retesada da impaciência na solidão de gravata solta e dedos presos no turbilhão do jazz.  
Ficam quase sempre sozinhos.  


Mas é em Boerum Hill Inn onde se ouve jazz que eu vejo duas mãos entrelaçadas. As do homem envolvem as da rapariga como se fosse pão e houvesse fome, como se não houvesse mais corpo a recolher na concha do sossego. Deixam-se mesclar como nada houvesse ali a não ser jazz.  
O homem usa uma cadeira de rodas. A rapariga encosta a perna à inutilidade magra do joelho do amante. É poderosamente nova, quase adolescente, e contrasta com a máscula dureza madura do que lhe afoga os dedos. Olham-se como se um fosse um cão e o outro o dono.  


Em Boerum Hill Inn, na esquina de Bergen com a Heyt, eu desejei ser um deles, um qualquer, porque o lugar a que chamo a casa está distante.

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A Gaffe em Times Square

rabiscado pela Gaffe, em 24.08.14

Times Square é um bicho com tentáculos destemidos pronto a lancetar o mais incauto. O seu bafo cheira a sexo e ao indefinido aroma do perigoso. As incontáveis cores de Times Square são aquelas que ostentam os cartazes porno, os olhos dos drogados encardidos e os anéis de fancaria traficada. Há mulheres baças e homens desbotados contra a carnificina colorida do tempo que se afasta da noção do espaço que se encurta, que se afunila, que vai desembocar nas goelas de néon e vidro, de apelo e de asfixia. Morre-se em Times Square, como num rio de ruído e não há mão nenhuma que nos atire a esperança enquanto o nosso corpo vai caindo.

 

Morre-se em Times Square de multidão.  


Morre-se público no centro daquilo que se quis privado, interno, intransmissível, porque a alma está a descoberto, como uma ferida aberta e já sem cura.  
Mas é em Times Square que ouço o que me chega da outra Praça longe. Mistura de saudade e jazz pelo passeio. A cor mansa de um homem que toca saxofone, a pacífica figura que elimina as outras, o som que eu não vejo, mas que é meu, íntimo, privado, como a lonjura que fica na minha alma e esta desolada hora em que me sento no parapeito da janela e vejo o homem que ri a recolher o milho que não deu aos pombos e que armadilha as fotos que eu não quero. A luz serena do homem a deslizar comigo em Times Square. A apagar o néon da maior tristeza. O néon do medo de ficar sozinha, presa nas avenidas a suar de gente.  


Em Times Square existe agora uma outra Praça. Um homem a mendigar, jazz e a melancolia raiada nos meus olhos, rajada nos meus dedos, a escapar nas ruas por entre a melodia morna, amada e mansa, minha, a esconder-me a alma, a proteger-me daqueles que já passam. São cofres de bonança que ouve jazz e faz-se a noite, definitiva agora, húmida de estrelas de saudade, no centro de Times Square iluminado.  


Debruçada no som do saxofone afloro o que de mim é mais privado.

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A Gaffe em NY

rabiscado pela Gaffe, em 20.08.14

A minha irmã apodera-se dos espaços. Move-se de igual forma em todo o lado. A mesma indiferença, o mesmo enfado, a mesma incapacidade de reconhecer as diversas pulsações de cada cidade que rasga e domina como se as tivesse moldado ao batimento do seu próprio coração.  

Espero-a em West Village, entre a 7ª e a 8ª Avenida, no café que reproduz do modo mais fiel um canto e um outro canto e um recanto de Paris e onde acabei por pertencer, como era inevitável. Sei que virá igual em todo o lado. Afastará a madeixa do cabelo que tomba indomado, amansando o olhar, quando me olhar, e avançará para mim como avança nas ruas de Paris, Londres, de Madrid ou Sidney ou mesmo nas ruelas órfãs de nome que rompem e se rasgam sobre o Douro. Todas as artérias partem dela. Nenhuma é exterior ao seu enfado, misto de cansaço e de desprezo como se tudo lhe pertencesse há muito tempo, que tudo é já dela desde sempre. Ignora o latejar do mundo, porque é seu. Igual em toda a parte.  


Não sou assim.  


Tenho nas ruas que atravesso agora o medo de tombar, de me perder em mim por entre a gente. Deram-me um estranho aparelho que se prende à cabeça e que me tapa os ouvidos com almofadas de som, redondas, grandes e que é normal usar aqui e frequente. Controlo-o através de roldanas minúsculas detectáveis no hemisfério esquerdo. Fazem lembrar o Inverno no Alaska e os protectores de frio para as orelhas. Dentro, tenho Bach, Mozart e Brahms e muitas vezes avança Rachmaninov no meio de mim, separando-me das ruas. A ausência de fios impede que me arranquem e me roubem de ímpeto o som que me protege e que me faz ausente. Dentro dele, suporto as Avenidas, encaixadas no avançar das sinfonias.  


O meu apartamento é exíguo. Tem, no exterior, umas escadas de incêndio com um pequeno espaço acessível através de uma janela. Sento-me ali nas tardes e nas noites que são manhãs eternas e mordo a maçã que me deu a velha ensandecida em Times Square, na 7ª Avenida que intersecta a Broadway. Vejo em frente um dos rapazes que lavam as janelas pendurados e seguros por cordas (são tantos e tantas vidas e vidros encharcados!). Dentro das multidões que atravesso, estes insectos musculados de capacete e camisas ao xadrez, presos por fios a baloiçar no perigo, são os mais belos risos e riscos que eu apanho nas teias do meu inglês que é um sem-abrigo e que descobre que o meu francês, aqui, é aristocrata.  


Sinto Saudade da nobre velhice das cidades.  
NY é um jovem estilhaço. Um vidro que explodiu e que pulverizado cintila, cega, apunhala, desmesuradamente esboroado, um paradoxo absurdo a esbracejar na lama e na poesia. Não tenho a Renascença a esmagar as pedras com os olhos e falta-me a lonjura gelada das catedrais do medo, inquisidoras negras de veludo roxo e ouro a derrubar de peso, a rastejar fogueiras. Falta-me a velhice das cidades. Falta-me o Tempo.  
Se existisse a noite em NY, seria a noite do mais desgostoso dos sozinhos. Mas a manhã é aberta como a janela de acesso à escada de incêndio. Sento-me nas manhãs e vejo insectos pendurados pelos fios, com patas de camurça e água e perigo. Nas manhãs me deito e nunca durmo e nunca sonho porque no céu há insectos e no chão de NY há excrementos. Há obesos que trituram embrulhos com nódoas que os tornam transparentes e deixam ver os obscenos conteúdos gordurosos. Há mulheres esquálidas e loucas que empurram a vida em carros de alumínio com a ferocidade que está no medo de perder o que não existe. Há a densidade absurda do ruído que serve de humidade, o congestionamento das almas desmanchadas. Há cadáveres de beijos em Central Park e corpos que se estendem à procura deles para os velar ou incendiar com eles as luzes dos barcos a passar sob Bow Bridge. Há o meu corpo, depois, a atravessar desejos dos que erguem outras pontes sobre o lume de fósforos a arder dentro dos dedos.  
A sedução é inútil. NY entrega em cada vão de escada, em cada umbral, em cada pedaço da rua mais estreita, em cada olhar ou gesto, em cada riso aberto ou por fazer e só adivinhado, em cada pedra, fonte, pedaço de corrida em Central Park, em cada elevador, em cada arranha o céu pousado a ondular na relva, o corpo que quisermos. Basta sorrir. Basta que o olhar não se desvie. A sedução não é feita de inteligência. Não tem os labirintos que sempre me atraíram. Seduzir, aqui, não faz sentido, porque só há um sentido a ter em conta. O que se encontra a cada passo dado, o que aponta o nosso corpo desejado, o que nos chega disparado à toa. Sentir à toa.  


Não sou desta cidade. Não a ignoro. Se dela fosse, não tinha a consciência do espaço que me dá, por entre os outros. Não havia a angústia de a ver em mim, a empurrar para dentro as luzes e os ruídos que se cravam nos tijolos de ferrugem e nas almas de metal e de néon. Não sentia, externo a mim, este pulsante vórtice, o turbilhão de rostos, as ondas dos gestos recortados mudos, em orquestra no meu cérebro murado por andamentos escritos por rotas de colcheias. Não esperava a minha irmã no Tartine - et voilà Paris! - e não me deslumbrava por não entender a despaixão, o desenfadado andar desta mulher que afasta a madeixa do cabelo, porque não quer o olhar mais manso e que desconhece o nome da alma das cidades, mas que as ilumina a cada espaço com a labareda insidiosa de um isqueiro. 

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A Gaffe faz um intervalo

rabiscado pela Gaffe, em 15.08.14

Hoje é dia de partir.

É dia de embalar palavras, de as embrulhar, de as guardar em caixas de papel amarrotado ou de as soltar no ar como se fossem pássaros.

Hoje há um até já pousado no meu ombro a espreitar o fim do que eu escrevo e no entanto suspeito que estou tão habituada a não chegar a nada que parto a toda a hora.

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A Gaffe a ver navios

rabiscado pela Gaffe, em 05.08.14

O Creoula é um velho bacalhoeiro que já com a sua missão cumprida e pronto para gozar a reforma, foi adoptado pela Marinha Portuguesa e transformado num belíssima embarcação para treino de civis.

Foram assinados protocolos com Instituições de ensino, nomeadamente as universidades portuguesa e espanhola, permitindo que estudantes realizem cursos de Verão com duração variável.

O Creoula, com um priminho a bordo, está atracado desde ontem na Ribeira do Porto.

Um cenário agradabilíssimo, repleto de sol e de sabor a férias. Vale a pena entrar no Creoula e namoriscar com os garbosos marinheiros tisnados e marotos.

Ainda vão a tempo de o ver zarpar, hoje ao fim da manhã!

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A Gaffe a pensar em férias

rabiscado pela Gaffe, em 02.08.14

 

NY, 1958 - Paul Slade

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