Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe dos guerreiros

rabiscado pela Gaffe, em 24.08.17

kilt14.jpg

Salvaguardando o meu direito de escrever tolices, suponho que o latim se preservou mais facilmente e sem grandes solavancos nas regiões limítrofes do Império. Roma, a capital do gigante, promoveu, aceitou e modelou as alterações à língua de modo natural, dinâmico e acelerado, enquanto os seus longínquos destacamentos se mantinham fiéis à velha guarda.

A distância possibilitou a preservação.

 

O facto de Edimburgo, ou outro qualquer centro urbano, ficar muito distante dos recônditos lugares das Terras Altas, permitiu, por exemplo, que as tradições, os costumes, os conceitos, as lendas e os rituais, permanecessem sem alterações significativas e que se reproduzam hoje bastante próximos da origem.  

 

Admito que de lendas, rituais, costumes e tradições tinha eu estantes preenchidas antes de partir. Admito que, pecaminosa e fútil, desdenhei um conhecimento mais profundo dos meus anfitriões. Reconheço que me estava a borrifar - ou nas tintas, como vos aprouver -, para a carga simbólica de uma determinada narrativa mais rochosa ou de um enunciado mais esotérico eivado de pepitas de paisagens místicas e míticas.

 

Dediquei todo o meu inútil tempo à mais profunda superficialidade, à mais descarada das preguiças - a que nos faz apenas mexer os olhos -, e à mais vergonhosa das actividades lúdicas - fazer de conta que não se existe enquanto se espreita a existência dos outros.    

 

Em consequência, sentava-me num banquinho deselegante e assistia a um torneio.

 

É realmente impossível de o descrever.

As cores - mesmo as que não existem e que se inventam ali, porque hoje é festa -, os gritos fabulosos de incentivos galhofeiros, as malditas gaitas, os tambores a rufar até ficarmos todas a com as maminhas a vibrar, a extraordinária felicidade a estourar por todo o lado, a radiante vontade de viver, um entusiasmo contagiante, as bebedeiras monumentais, o rodopio das gargalhadas, as bandeiras, os estandartes, os porta-estandartes, os postes dos porta-estandartes, os abraços a torto e a direito e até canhoto, as cantigas soltas em sotaques velhos e tudo mais que não se diz, que não sabemos, faz-nos sentir esbardalhadas num tufão de alegria que empurra para ombros vencedores os que caíram depois de lutar com todo o corpo.

 

Maravilhoso!      

 

kilt5.jpg

kilt10.jpg

kilt11.jpg

kilt8.jpg

Voam estafetas; saltam medas de feno; agarram em medas de feno; agarram em barris de madeira, um em cada mão; agarram em lenhos brutos que serram; agarram em bolas de ferro que arremessam depois, em paus, em picaretas, em pás, em tudo o que servir por ser pesado; penduram-se em ferros; baloiçam em cordas; puxam cordas com blocos de pedra amarrados; atiram pedregulhos; lutam uns com outros; correm, correm desalmadamente, correm como se disse dependesse o extinguir do Brexit e fazem tudo isto e mais que se me escapa por ser tão muito, revelando a cada passo e cada salto, a cada pincho, a cada sopro, a cada arremesso, a cada queda e a cada descanso do guerreiro espalhado na relva, os segredos dos Kilts!   

 

 

Os kilts são usados sem cuecas!

 

Do meu banquinho inocente nunca vi tanta pila aos saltos!

 

 Eis que se destrói a dúvida que parece nunca ter pertencido às robustas escocesas que ao meu lado aplaudiam muitíssimo entusiasmadas sempre que uma piloca se esbardalhava à frente dos seus incentivos. Fizeram-me compreender que, ao contrário do que seria de esperar, não interessava um pirolito quem ganhava ou quem perdia - nem sempre o vendedor era o aclamado! -, mas o modo como a pila do guerreiro esvoaçava, o ângulo em que a dita se pespegava nas nossas vidas tão competitivas, na quantidade de rabo mostrado, nas proporções e equilíbrio - ou ausência dele - das que me fizeram divertir ainda mais do que as mocetonas escocesas já causticadas e no tempo que levavam a ser cobertas pelo tartan traiçoeiro.

 

kilt13.jpg

kilt12.jpg

De todos os jogos, o mais popular, o meu favorito, e o que mais alarido provocou, era o que obrigava os homens de um clã a puxar uma corda grossíssima onde na outra extremidade o clã rival dava tudo o que podia para os derrubar. Não era de todo o mais espectacular, mas era ali, com as botas fincados na terra, rabo assente no chão, pernas abertas e braços estendidos de músculos retesados, que os rivais deixavam que o público visse todo o poder, toda a valentia, toda a força e todo o material de que eram feitos.

kilt9.jpg

 

 

Até eu, que sou tão avessa a este tipo de competição, escolhi, bem no meio de todos, o meu maravilhoso perdedor.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe - "The Comeback"

rabiscado pela Gaffe, em 18.08.17

kilts.jpg

 

A Gaffe tinha planeado uma rentrée repleta de paisagens enevoadas, misteriosas, místicas, cheias de árvores tocadas por farrapos de névoa, de abismos rochosos, de ruínas cinza de castelos funestos, de pedras milenares rasgadas por inscrições rúnicas – ou coisa assim parecida, a atirar para o celta, com um travo gaélico e uma pitada de gaita-de-foles das Terras Altas -, mas cansou-se de ouvir bocas abertas a exclamar por tudo e por nada:

 

-  Pas de mots!

- No words!

- Keine Worte!

- No comments!

- Indescriptible!

- Unspeakable!

- isto a gente até fica sem dizer nada!

 

Ficou exaurida de tanta ausência de narrativa cuética e acabou por considerar um achado juntar-se ao grupo dos emudecidos. Não dá trabalho de gabinete de escrita criativa e poupa o imenso esforço que seria tentar não ser uma imbecil a juntar palavras como quem faz uma legenda floreada para uma fotografia medíocre.  

Em resumo:

- Le paysage écossais? Pas de mots.

Ficamos assim, abrindo caminho para o que realmente é de considerar descritível.

 

O mistério dos Kilts.

 

A Gaffe assistiu, num lugarejo muito típico - o que por vezes significa que guarda as botas do Demo e que ninguém lá que morar, mas que é maravilhoso pasmar de quando em vez com os seus costumes e com as suas tradições, a sua arquitectura, as suas ovelhas, as suas cabras, as suas particularidades, a sua falta de chuveiro e de net em condições -, a um torneio escocês.

 

Absolutamente colorido! Uma espécie de Benetton para adultos, muito adultos, muito adultos, quase bêbados, enfiados num estádio circular improvisado e repleto de bandeirinhas, brasões a esvoaçar, mastros garridos com cordas que sustentam as tendas de lona com formatos circenses, gaitas-de-foles por todo o lado a azucrinar os ouvidos de gente inocente - ninguém imagina a inferneira medonha que uma colecção de porcarias daquelas debaixo dos braços e sopradas, todas, ao mesmo tempo consegue fazer! Semelhante, apenas no encontro anual das corporações de bombos europeus em Pasmaceiras de Baixo. Deus meu! A Gaffe até ficou com o cabelo frisado e sentiu nela despontar a vontade pérfida de enfiar as gaitas nos olhos - em todos - dos donos e obrigá-los depois a bufar até aquele gaitedo gritar e zoar nos confins do Inferno.    

 

Os banquinhos, muito baixinhos e articulados, disponíveis para alapar rabos e olhos sem cansar os pés assemelhavam-se aos que as senhoras levam para Fátima para regalo traseiro, enquanto esperam de modo mais confortável a procissão das velas ou o adeus à Virgem – e nunca a comparação foi mais certeira, pois que trataremos de uma certas velas e de eventuais despedidas ao estado que desaparece num pestanejar de lenços. Uns minúsculos quadradinhos de pano seguros por quatro pernitas que se podem dobrar, permitindo um transporte fácil e muito leve.

A Gaffe escolheu o de lona azul, abriu-o e sentou-se. Ficou tareca, marreca e tão longe da elegância como um cão que se prepara para obrigar a dono a usar um saquinho de plástico, mas resistiu estoicamente quando ouviu a mana a prevenir:

- Se te sentares aí, vais ter de fazer muito esforço para conter o entusiasmo …

 

Entraram os clãs identificados pelas cores dos Kilts, ao som daquelas coisas sopradas e apertadas que, a Gaffe aposta, também afastam javalis e mataram pela certa os bichos com chifres que nos olham muito sérios com a cabeça colada nas paredes. Bandos de rapagões medonhos, brutais e brutos e bestiais. Manadas de músculos. Muralhas de pregas. Muros de pêlo ruivo por todo o lado e urros de ursos a fazer vibrar os banquinhos pequeninos e abismados onde trememos com o tremor de terra.

 

Os kilts a dardejar testosterona, trazem na frente, seguras por tiras de couro trabalhado, as pochetes - têm nome próprio, mas que se varreu logo ali no meio com o susto -, de trinco de metal, corpo de pele de corça ou potro e rabinhos de felpudos e fofinhos bichinhos mortos à paulada, prontas a impedir o mover do pano quando se erguem ventos mais ousados; os troncos vestidos por t-shirts que deformam de tão justas os brasões estampados e as botifarras duras e puras como toda a verdade, fazem com que a Gaffe se pense de repente esmagada pela rebelião de William Wallace.  

 

Separam-se os clãs.         

O segredo esconso dos kilts está em vias de ser revelado. Várias vezes ...  

 Os jogos vão começar!

 

A Gaffe vai num instantinho engolir um Whisky duplo para os descrever no próximo episódio.  

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe faz um interregno

rabiscado pela Gaffe, em 28.07.17

LK.jpg

 

E é chegada a hora de declarar oficialmente o início das minhas férias.

Amanhã - porque segundo a minha irmã estou anémica, depauperada, esfarrapada e outros tantos piropos que não convém referir, pois que me reduzem bastante -, aterro num dos locais mais repousantes do planeta, longe do trepidar cosmopolita, das urbes demasiado povoadas, da poluição das multidões e perto do gado e das ervinhas e dos declives bucólicos e românticos e dos desfiladeiros sinistros e das paisagens ligeiramente soturnos e sinistras.

 

Tenho de descansar.

 

Estou proibida de tocar num teclado, de me asfixiar em luminosidades artificiais e de me aproximar de qualquer coisinha que suscite o mais leve apetite de estremecer ou de me entusiasmar.

 

A ameaça de pasmaceira paira sobre a minha cabeça onde até o cabelo - diz a minha irmã -, parece ter disparado na I Grande Guerra, porque a outra é mais moderna.

 

Em Agosto sinto-me sempre um caco.

 

A verdade é que vou ter mais de duas semanas para espairecer, refrescar, recarregar o meu tédio - tão útil quando me aflijo! -, e recuperar o meu cabelo e a minha cor.

 

Tentarei dar notícias da viagem, embora suspeite que não haverá grande coisa digna de registo, já que passarei despercebida tendo em conta que o lugarejo onde vou espreguiçar-me contém a maior percentagem de ruivos do país.

Uma maçada sem distracção ou entretenimento a não ser aqueles a que me dedicarei - pois com certeza -, quando o vento soprar com força nos kilts dos residentes.

 

Volto já.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe quase de férias

rabiscado pela Gaffe, em 26.07.17

M.S.

 

Aproximam-se as minhas férias. Três dias mais e parto.

É assombrosa a quantidade de trabalho que tenho de deixar em ordem. Planear a minha ausência deixa-me nervosa, porque não sei entregar tudo o que é da minha responsabilidade à pobre criatura que me vai substituir.

 

Não sei para onde vou e suspeito que não sei se não vou por aí.  

Os planos de férias foram entregues à minha irmã que sempre cuidou dos pormenores com a minúcia dos obcecados. Saberei o destino apenas no instante de partida.

 

Não tem a mínima importância. É-me indiferente o local para onde me levam. Estou demasiado cansada para implicar com destinos e revoltar-me contra o destino. Aceito pacificamente os traçados de viagem e as inevitáveis exigências da mulher que é capaz de alterar o dispositivo de funcionamento do serviço de quartos de um hotel apenas porque não lhe agradou a forma como lhe foi servido o pequeno-almoço.

Enfurecia-me, há alguns anos, a prepotência quase infantil com que esta criatura se movia e fazia com que os outros se movessem. Irritava-me a sua forma de se sentir em casa, fosse onde fosse, e o modo como agia em consonância, alfinetando ordens, apontando direcções ou aguilhoando críticas com ácido. Invejava a capacidade de se manter ilesa a todas as variações do tempo, como se fosse transportada numa redoma invisível capaz de tornar constante uma determinada temperatura. Temia as suas reacções soberbas, as farpas subtis e as queimaduras infligidas aos incautos que se atreviam a tocar a superfície das escolhas desta mulher, contrariando, levemente, os seus desígnios ou as suas mais incipientes decisões.

 

Agora não.

 

Adapto-me. Talvez tenha aprendido a ser indiferente. Já não me agoniza de vergonha a forma quase desumana com que esta mulher vislumbra o mundo. Já não me choca o facto de parecer que os outros - todos - são para ela elos de um colar que vai crescendo e que é relaxante enrolar nos dedos.   

O meu cansaço atenua a minha culpa. Acomodo-me e entorpeço. Narcotizo a necessidade que sentia de voltar para trás e abraçar as vítimas. Compensar de qualquer modo os danos que foram causados. Anular as distâncias.

Já não quero saber e sinto-me calma. Destrutivamente calma, como se tivesse perdido um órgão e percebesse que não há dor, que não era vital, que sem ele sobrevivo embora mutilada.  

Desisti. Creio que desisti. Sei que por indução, por errada conclusão de similitude, não me vão tocar estranhos e que os mais próximos vão descobrindo que pode ser letal sobrevoar rasando as garras que se estendem ao sopro mais subtil.

A sugestão funciona.

 

Não sei por onde vou e não sei sequer se não vou por aí.

Sei apenas que seja onde for, é mais fácil viver quando ao nosso lado está deitado um tigre.

 

Foto - Melvin Sokolsky (1933)

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe arqueóloga

rabiscado pela Gaffe, em 27.08.16

4_009.jpg

 

A hora do entardecer é a minha preferida.

As portas das varandas da sala principal do hotel estão abertas e aquele homem, voltado para a luz laranja que morre no exterior, deixa que se espalhe pela casa o aroma asfixiante dos desertos que de tarde se tinha tornado abelhas atraídas pelo odor futuro do chá.  

 

Partículas de luz ruiva, roxa, arroxeada, volteiam pela sala.

 

As mulheres rodopiam, decotando sorrisos e sacudindo as saias de linho ou seda fresca e os homens usam camisas com botões que brilham devagar no aprumo devido aos templos que visitam.  
Tilintam perto campainhas e é desfraldado o barulho dos bules e dos copos de vidros lapidados.

Há gritinhos e saltinhos das senhoras e os cavalheiros procuram a formatura que lhe permite cumprir com honra e tino o ritual já velho.

 

O cheiro esbatido do corpo do homem começa a sentir-se enrolado no ar, escondendo-se nas fendas dos móveis. É o aroma de um corpo cansado que já aniquilou o contido no frasco com travo de sândalo. É um perfume com sabor, como se tivéssemos uma chave na boca.  

 

Há um rasgo no braço da camisa e sangue seco, castanho. As pedras de Petra vingam-se, rasgando com punhais os braços daqueles que as tentam entender.

Há um anel de ouro no dedo do homem. Um anel que é a fusão de outras alianças, mortas ou prontas a esquecer, a ser perdidas, mas com o tempo suspenso e sentença adiada.

Há nódoas de terra seca nas calças do homem e o couro do cinto, velho, já manchado, tem uma fivela de metal escurecida e gasta.

Há os pés pousados no chão como se às pedras faltasse o contacto do dono para arrefecer.

Há as rugas que a fúria do sol escavou.
Há sulcos cavados no espaço que existe entre as sobrancelhas, no instante exacto do nascer da cana do nariz recto e perfeito e há riscos sem suavidade na testa larga e ampla. O tempo cravou os dedos de pedra com a crueldade dos dementes na esfacelada pele como se de barro indefeso fosse a carne.  
Há a platina da barba e há o irreparável erro de ficar.  

Há depois o olhar que já pertence todo a esta terra. O olhar que aprendeu a dar as ordens certas durante três décadas e que passou a amar definitivamente as pedras só por saber que vai morrer primeiro.  


É notório o encerrar definitivo das emoções naquela criatura reservada. A mais banal das questões é tida como lança disparada e a mais clara ou pateta das perguntas é olhada com escárnio. A nada se responde e a nada se atenta. No entanto, esta aparente indiferença parece vir mesclada com a argúcia dos adivinhos. Nada surpreende, porque tudo já foi visto.  
O tempo, que abre fendas nos rochedos, simultaneamente fechou templos e permite apenas que se vislumbre uma luz pálida do interior desta alma através das frestas que cavou no corpo deste velho arqueólogo.  
Desses vislumbres, solta-se a impaciência que o tempo de que falo exacerbou. Magoa com as botas o soalho, de lado para lado, mãos cruzadas nas costas, punhos fechados e mudez absurda, alterando o requinte vagamente absurdo das tardes de chá amargo amaciado por pequenos biscoitos de gengibre e canela. Espera que tudo esteja pronto e arrepende-se de ter permitido a invasão da ruiva esbaforida com o calor. Morde as pequenas rodelas adocicadas, mistura-as com travos de chá amargo e quente.

- Incendeia-nos de frescura esta mistela - e morde mais. 

É este o homem que prefiro, mais do que às horas dos entardeceres.

 

Envelheceu no meio de lugares que não lhe foram ditos. A consciência do seu declínio derruba as pedras e rompe arrolando os meus instantes.

 Tem sede e água ao mesmo tempo. Tem a mágoa de ter sido poupado a lugares de dor imensa, porque esteve sempre debruçado sobre o maior amor que a alma pode dar. O amor ao que sabemos que ficará depois de nós, inevitavelmente. Tem pena e todo este lamento se escoa na certeza de partir em breve - sou um velho, - de se sarar por dentro e entregar um coração qualquer, que desconhece agora, ao centro de outro lado.

Voltado para mim, ergue a sombra que o envolve. Ergue só para mim, da mesma forma, outros espaços, porque é nele que estes espaços se resumem. É por ele que os vejo, que os sinto, como se não houvesse lugar impune àquele corpo esguio e envelhecido, como se nada houvesse ou tudo fosse nele.

 

- Já nem sei quem sou.

 

Ouvia-o na sala do chá amargo e dos biscoitos de gengibre, voltado só para mim, e já não sei se foi há pouco tempo ou se a voz me chega de outras eras.

 

- Gosto tanto de si! - sou tão banal.

- Ah! Envelheci no dia em que uma mulher, a última que amei, completou essa frase. Acabou-a dizendo que gostava um dia de encontrar um homem como eu.

- Mas é uma lisonja. - espanta-se a tontinha.

- Minha pequenina Petra, eu sou um homem como eu.

 

Foto - Jane Chong

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe reencontrada

rabiscado pela Gaffe, em 23.08.16

BoyIsMine.jpgAmar Paris não tem que se lhe diga. Basta encontrar numa outra língua, de repente, declarações de amor numa rua que tem o nome do velho Cardeal.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe presente

rabiscado pela Gaffe, em 08.08.16

now.jpg

 

Provavelmente já não vos sentirei a passear por estas Avenidas.

Esta tontice, que pela primeira vez agendei, não será revista como é meu costume sempre que vos ouço.

A esta hora o voo teve já início e esperam-me palácios e templos cravados na mais extraordinária das miragens, no mais improvável dos imaginários.

Não levo nada nos olhos, não tenho nada nas mãos, a não ser a minha quase sempre tonta capacidade de me deslumbrar, de ficar muda, queda, emocionada com tudo o que ultrapassa o meu parco entendimento.

 

Tenho exactamente dez dias para me render, partindo já rendida, aos enigmáticos rochedos que em conchas surreais escondem os rendilhados com que se esculpem os milagres. Dez dias e depois mais outros cinco para retornar à larga lassidão e à melancólica melodia dos passeios de Paris por onde vaguei, deixando trepidar as ruas num esvoaçar de flâneur.


Já tenho saudades vossas!

Esperem um bocadinho por mim.

Eu volto já.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe e as sete condenações

rabiscado pela Gaffe, em 04.08.16

 

Uma ruiva no meio de um grupo de veraneantes bronzeados produz o mesmo efeito que as marcas dos fatos de banho no corpo dos ditos. Torna-se facilmente o alvo de todos os olhares. Bastante maçador.

 

É mais do que sabido que as ruivas não se bronzeiam, mas este minúsculo senão tem as suas vantagens. Uma ruiva não precisa de se esbardalhar ao sol, braços estendidos, pernas abertas e boca escancarada até que a melanina cumpra o seu dever ou se entre em coma, aproximando o cérebro da vítima do sargaço apanhado por ancinhos nas praias do Norte, para que se cumpra a promessa dúbia de um corpo tisnado.

 

Uma ruiva é capaz de se manter alerta do cimo das suas esplanadas, de óculos de sol muito Jackie O., de capelina de palha finíssima ou lenços Vuitton e de esvoaçante vestido de seda estampada de fazer inveja a Delaunay.

Se está aborrecida com as páginas que vira ao sabor da brisa e do voo das gaivotas, pode observar o povo de cuecas e de lingerie fabricadas propositadamente para a saison.

 

Nestas suas panorâmicas incursões pelo areal, a ruiva é capaz de reconhecer aquilo a que chamará os sete pecados banais que os rapazes cometem sem se aperceberem que cada um deles pode ser letal ou arruinar o Verão inteiro deixando-os com a sombra da debilidade mental agarrada à imagem.

 I

Não biquineis a mulher do próximo nem a rapariga que vem ali ao longe -  Um biquíni que vos entra para o olho, rapazes, é milhares de vezes mais perigoso que um grão de areia. Normalmente infecta e muitas vezes só se consegue retirar enterrando na córnea a pá do baldinho do petiz que nos queima o sossego mesmo ali ao lado, antes, claro, de vos ser enfiado o balde nas trombas.

 II

Abanar a toalha a favor do vento e contra o nosso corpinho tocado pela brisa é tão perigoso como tentar sacudir as velas do Sagres no meio da borrasca.

Acreditem rapazes, não apreciamos um marinheiro de fraldas areadas que receia sentir picada a mimosa pele ou que com a mania das limpezas nos trata como candidatas a panados. Princesas-ervilhas só as ruivas de boas famílias.

 III

São letais os salpicos de água com que tentais provocar-nos um choque térmico, quando procuramos entrar devagarinho no frio do mar com o corpo saído debaixo dos raios que abrasam.

Não é engraçado, rapazes. Só nos apetece bater-vos com uma piranha até que o animal fique com os dentes do Paulo Portas.

 IV

Similar ao anterior, mas ainda mais grave. Consiste em suspender o corpo encharcado, saído do banho ainda a tremelicar, sobre o nosso, quase adormecido à sombra das palmeiras.

Meus queridos, se quiséssemos ter alguém a pingar o que quer que seja nos nossos corpos calientes escolhíamos o George Clooney.

 V

Ficar de boca aberta, babada, de barriga para o ar, de pernas escancaradas e bermudas a dar-a-dar ao vento, não é de todo charmoso. Se a posição for acompanhada por um ressono beatífico que confundimos com o ronco do farol, é caso para vos espetar com o primeiro casco de navio naufragado que der à costa ou  cravar na vossa testa o primeiro mastro valente que passar - e na praia sempre vão passando alguns.

 VI

Arrastar-nos pelos pés ou levar-nos ao colo para dentro do mar. É deselegante. No primeiro caso ficamos com areia enfiada em sítios inconvenientes e com vontade de vos arrancar o fígado com a pá do miúdo que já foi útil em ocasiões anteriores - a pá, porque o miúdo só serve como porta-armas. No segundo caso, ficais com as pernas arqueadas, esbaforidos e a arfar, e nunca, mas nunca, conseguireis recriar uma cena do E tudo o Vento Levou sem que a Scarlett que transportais não sinta que vai ao colo do Woody Allen.

 VII

Dizerem-nos que o guarda-sol está bem fixo para, passados instantes, o ver cravado nas maminhas da senhora a cem conservadores e pudicos metros de distância, é irritante. É claro que sabemos como o cravar convenientemente na areia. O salva-vidas deslumbrante passou todo o dia anterior a ensinar-nos o modo mais eficaz de o segurar, mas deixamos para vós as tarefas que exigem um pouco mais de esforço. Se não conseguis seduzir-nos com um sombreado seguro, é certo que nos abrigaremos à sombra dos músculos do professor da véspera.

 

O conhecimento destes sete pecados banais é imprescindível para que não vos torneis, rapazes, um daqueles bonecos insufláveis que o miúdo da pá costuma usar para apoiar o banhinho. 

 

Vá. Decorem. 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe nos rios

rabiscado pela Gaffe, em 14.08.15

Anders Hingel.jpg

Em Paris, almofado-me nos olhos dos que passam pelas pontes e lanço as penas ao Sena, tão diferente do rio que passa pela minha terra.

O rio que passa pela minha terra não tem as barcas dos risos dos que lá navegam. O rio que passa pela minha terra é um rio que embarca na minha alma e de longe acena com um lenço de prata aos que passam pelas pontes onde há gente com penas no olhar de tanto olhar quem parte com os remos da saudade a ondular o peito.

 

Foto - Anders Hingel

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe na esplanada

rabiscado pela Gaffe, em 12.08.15

Paris.jpg

A minha irmã bebe champagne numa das esplanadas de Paris.

A imagem é quase cinematográfica e a mulher consciente do facto apura os detalhes e cuida dos pormenores.

As calças afuniladas, pretas e vincadas, aumentam-lhe as pernas que vai descruzando num exercício de esgrima e a camisa branca de homem, de colarinhos rígidos, é manchada pelo cabelo quase em fúria.

Tem as mãos grandes, dedos finos e unhas ovaladas e perfeitas. Move-as com vagar de modo a que a pulseira de pérolas acompanhe a dança dolente dos gestos compassados. Tem os olhos dourados com pestanas grossas, lânguidos, pausados. Não há relances neste olhar. Olha devagar e o langor do olhar é já matreiro. Espreita, espia, espera como o leopardo.

 

Reuniu o grupo de Paris, ou que dele resta, e permitiu a entrada no círculo quebrado dos iniciados de alguns noviços que mede sem dó nem piedade.

Olho-os e não sei se o tempo é tempo de esplanadas de mulheres e de vadios destes. Não sei se Paris suporta ainda este ruivo bando de palavras, solto no ar, inútil, desenhado no sol entardecido da cidade.

 

Nas esplanadas de Paris as flores trazem Champagne e há néon nas almas, brilhantina e riso e o allure de uma mulher que passa sem perceber que passa sobre vidro.

Paris das esplanadas depois de finda a festa. Nas ruas que são rios e savanas, pradarias, tundras, gelo, vulcânicas passagens para outros lados, cheira a luz e a carne de perfumes raros. Manadas de indefesos animais, restos da humana desventura de viver em grupo em que o deslumbre mata, porque cega.

Rapazes que ficaram pelo caminho nas tardes em que Paris quis usar outros. Manada que atravessa este meu rio na lentidão que desconhece o tigre.

Incautos e imaturos príncipes grifados.

Grandiosa idiotice. Esplendorosa idiotice. Magnífica idiotice que nos traz à boca, sem um mover de um músculo, sem emboscar a vida, a presa que quisermos.

O menino de olhos de gazela e boca a prometer um fruto. Tem um pequeno alfinete preso na braguilha. Brilha a braguilha com o alfinete preso na prega do tecido que lhe molda o sexo. Cintilam os olhos do menino de braguilha alfinetada e borboleteia até pousar na mesa à minha frente.

Purpurina na íris, asa de pólen, menino tonto preso pelos meus olhos.

 

Pode ser este. Podia ser aquele ali, aqui, além. Mais este e aquele, o outro e toda a gente.

Que seja a minha noite uma alvorada, que eles sabem perder-se e eu encontrar.

 

Dentro de mim existe outra esplanada. Deserta, sombria, sem pérolas, sem luzes, sem tectos, sem Dior e mesmo sem Laurent, o rapaz de alfinete na barguilha. 

 

Dentro de mim Paris não tem palavras.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe de anil com ferrugem

rabiscado pela Gaffe, em 05.08.15

Paris.jpg

A porta que permite acesso ao quarto da minha irmã abre-se com estrondo.

O barulho estala dentro das miseráveis cinco horas da manhã, depois de uma viagem que apesar de breve me cansou  o corpo e me esgotou por completo a capacidade de me manter acordada. Traz duas caixas cor de creme com o logo da Cerruti. Atira-as para cima da cama de modo a que me atinjam a cabeça e me despertem com a sensação de ter sido alvo de atentado terrorista. Afasta os pesados cortinados de veludo e deixa que uma luzinha enevoada e baça se permita invadir, sorrateira e tímida, o meu sono desfeito. Senta-se depois na poltrona e retira um cigarro que não vai acender porque tenta deixar de fumar.

Usa um vestido azul negrume que a torna mais esguia. A gola laçada valoriza o pescoço quase demasiado alto e o cabelo preso numa arquitectura complexa consente que os olhos pardos descubram os mais subtis cambiantes de cinzas azuladas.

 

- Está na hora de te preparar. Levanta-te. Quero que vistas o que trago.

Sonolento espanto o meu, sentada num despertar de trombeta e de Cerruti.

- É cedo demais!

Arranca-me da cama e empurra o meu corpo extenuado.

- Não, minha querida. Paris tem a cor do ocre envelhecido. É laranja e branca, suja e corroída. Só nas primeiras horas, à luz recém-nascida, tem a cor precisa, anilada e cinza. Tens de ver a cor dos príncipes perfeitos.

 

Convence-me. Quero ver às cinco da manhã, as cinzas aniladas da cidade.

Ergo-me no exacto instante em que a minha irmã desata a abrir as caixas. É-me indiferente o que traz lá dentro. Seja o que for, é aquilo que precisa para compor a imagem de mulher que passa pelas ruas de todas as cidades como se todas as ruas de todas as cidades fossem sempre aquela que passa a vida inteira a atravessar.

Volto molhada embrulhada na toalha.

 

- Agora tens de te vestir.

Tento apanhar os jeans. Impede.

- Não. Paris é um lugar subtil. Não se vai deixar morrer de amor por ti, se tu não fores exacta.

Não entendo.

Tapa-me o espelho do meu quarto, fazendo-o rodar contra a parede.

- Paris é uma cidade de reflexos e tu serás como ela quer e te deseja. Nenhuma cidade foi tão igual a ti.

Sorri.

Arranca-me a toalha da cintura. Estou molhada, nua e estupefacta.

Enfia-me uma blusa de seda anil nocturno, justa, de gola masculina, mangas compridas a ocultar as mãos. Empurra-me e obriga-me a vestir umas calças de linho e seda, com de ferrugem com  lanhos de um azul quase imperceptível. São estreitas, tubulares, exemplares, perfeitas. Da segunda caixa retira uns sapatos clássicos, picotados, de couro imaculado, conservadores e preconceituosos.

Deixo-me vestir. Paris é amante de mascarada onírica. Diverte-me a labuta ensandecida da mulher na ansiosa espera do resultado, que será pateta e desconexo, da união de uma tonta a luas de reflexo.

Penteia-me o cabelo ainda molhado. Retoca-me. Diverte-me.

o colar depois. 

Roda no fim o espelho sobre o eixo que o sustenta preso ao tripé doirado de barroco.

 

Na luz difusa da manhã que entra, o que vejo emudece a minha alma pasma. Longa e escura e ruiva e anil esguio, a reflectida, é estranha a mim. Não reconheço a figura emoldurada em ouro. Demorada de enigmas, de subtilezas e de secretos sinais plena e repleta, anil e oiro e ferro, como os caixões das gôndolas de outro lado. Nada sobrou de mim e assombrada deixo-me levar, muda de espanto, ao perceber que no espelho existe uma criatura que pertence à espécie de que a minha irmã é o exemplar mais que perfeito.

 

- Et voilà, ma chérie! Paris à tua frente.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe de férias

rabiscado pela Gaffe, em 01.08.15

A Gaffe decide, no tempo que lhe é permitido repousar das inúmeras tarefas que uma rapariga esperta sempre tem nos braços, retornar à sua cidade e fazer de conta que de lá nunca saiu, retomando as velhas e fiéis amizades doidivanas e percorrendo os caminhos de Montmartre à procura das partículas de alegria que rolaram pelas escadas gastas por vidas e prazeres tão juvenis.

 

Promete passar por aqui para vos ver, mas vai guardar todos os mimos e todos os comentários que lhe deixarem para quando regressar se poder deliciar com tudo ao mesmo tempo.

 

Parte triste, porque tem já imensas saudades deste cantinho onde as palavras tontas permanecem por ler - custe o que custar ao seu narcisismo quase pueril -, mas volta num instante com força renovada e Dom Pérignon para festejar convosco. 

 

Até já!

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe com um plano B

rabiscado pela Gaffe, em 28.07.15

FERREZ.jpg

Esta rapariga tem de admitir que atingiu o nível de exaustão que faz com que acordar lhe dê vontade de chorar. Não se espantaria se arrastada pelos corredores largasse o cérebro transformado em baba ou se caminhasses como um macaco drogado apenas porque já não aguenta levantar os braços.

 

Três pesados dias me separam das férias. Três dolorosos dias em que corro o risco de desabar em lágrimas no meio de uma irritação e impaciência injustificadas. Três medonhos dias em que terei de encontrar forças para articular palavras de modo a que ninguém perceba que não foi ouvida.

 

Deixei os planos de férias ao cuidado do rapagão. Vou para onde me levar o coração. Neste caso, o dele. Nunca é boa ideia gerirmo-nos pelas batidas de corações alheios e, apesar de arrasada, consegui engendrar um plano B.

Recuso-me terminantemente a ser enfiada no meio da selva, toda caqui e de chapéu de lona, à procura da tribo Tiruné-tupiraná para estudar os métodos de cultivo do tribibiré ou em busca da raiz do fungagueiré, mesmo que tenha propriedades alucinogénicas. Geralmente estas tribos têm um cabeleireiro miserável e desactualizado, os SPA resumem-se a umas terrinas repletas de argilas alaranjadas que vão secando durante a semana e a maquilhagem é sempre igual à das meninas dos festivais de Verão na Caparica. Depois, as mulheres têm todas as mamas caídas, trazem gente pequena as costas e usam fio dental de folhas de árvores que arranham imenso. Os homens são todos baixinhos, andam aos saltos, têm sempre umas pilas grandes, pintadas ou enfiadas num corno e disparam setas impregnadas em curare. Curare por curare, prefiro o parisiense que é injectado em pequenas doses produzindo imunidade e já ninguém tem pachorra para discutir as vantagens e as desvantagens do tamanho das pilas. Cansada com estou, é-me indiferente que haja espaço para reproduzir Guerra e Paz ou apenas para rubricar o apelido do autor sem riscar os outros papiros.

Não adianta argumentarem com a explosão orgíaca de cores. Em Madrid, no La Chueca, toda a gente é arco-íris e ninguém me assusta com as coisas que se enfiam na boca.

 

O plano B inclui uma brutal e insuspeita alergia ao tirimbimdum e à dança tupiraué, uma passagem para Paris e alojamento no Ritz-Carlton no quarto de onde a Princesa saiu para se esbardalhar contra o muro.  

 

Haja respeito!

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe longe de casa

rabiscado pela Gaffe, em 28.08.14

Em Boerum Hill Inn, na esquina de Bergen com a Heyt, sobre o balcão que brilha coberto por um espelho, existe o jazz ouvido pelos homens de Manhattan.

Jazz arrastado e engolido num sorvo pelos solitários das secretarias de Midtown com apartamentos luxuosos com vista para a ausência, rasgada janela do desassossego.  
São homens espalhados pelo chão. De pé, como se estivessem deitados. Com olhos que fervem no escuro e arrepio nos gestos que são tiques. A flor da pele nervosa, à flor da pele e a amargura retesada da impaciência na solidão de gravata solta e dedos presos no turbilhão do jazz.  
Ficam quase sempre sozinhos.  


Mas é em Boerum Hill Inn onde se ouve jazz que eu vejo duas mãos entrelaçadas. As do homem envolvem as da rapariga como se fosse pão e houvesse fome, como se não houvesse mais corpo a recolher na concha do sossego. Deixam-se mesclar como nada houvesse ali a não ser jazz.  
O homem usa uma cadeira de rodas. A rapariga encosta a perna à inutilidade magra do joelho do amante. É poderosamente nova, quase adolescente, e contrasta com a máscula dureza madura do que lhe afoga os dedos. Olham-se como se um fosse um cão e o outro o dono.  


Em Boerum Hill Inn, na esquina de Bergen com a Heyt, eu desejei ser um deles, um qualquer, porque o lugar a que chamo a casa está distante.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:

A Gaffe em Times Square

rabiscado pela Gaffe, em 24.08.14

Times Square é um bicho com tentáculos destemidos pronto a lancetar o mais incauto. O seu bafo cheira a sexo e ao indefinido aroma do perigoso. As incontáveis cores de Times Square são aquelas que ostentam os cartazes porno, os olhos dos drogados encardidos e os anéis de fancaria traficada. Há mulheres baças e homens desbotados contra a carnificina colorida do tempo que se afasta da noção do espaço que se encurta, que se afunila, que vai desembocar nas goelas de néon e vidro, de apelo e de asfixia. Morre-se em Times Square, como num rio de ruído e não há mão nenhuma que nos atire a esperança enquanto o nosso corpo vai caindo.

 

Morre-se em Times Square de multidão.  


Morre-se público no centro daquilo que se quis privado, interno, intransmissível, porque a alma está a descoberto, como uma ferida aberta e já sem cura.  
Mas é em Times Square que ouço o que me chega da outra Praça longe. Mistura de saudade e jazz pelo passeio. A cor mansa de um homem que toca saxofone, a pacífica figura que elimina as outras, o som que eu não vejo, mas que é meu, íntimo, privado, como a lonjura que fica na minha alma e esta desolada hora em que me sento no parapeito da janela e vejo o homem que ri a recolher o milho que não deu aos pombos e que armadilha as fotos que eu não quero. A luz serena do homem a deslizar comigo em Times Square. A apagar o néon da maior tristeza. O néon do medo de ficar sozinha, presa nas avenidas a suar de gente.  


Em Times Square existe agora uma outra Praça. Um homem a mendigar, jazz e a melancolia raiada nos meus olhos, rajada nos meus dedos, a escapar nas ruas por entre a melodia morna, amada e mansa, minha, a esconder-me a alma, a proteger-me daqueles que já passam. São cofres de bonança que ouve jazz e faz-se a noite, definitiva agora, húmida de estrelas de saudade, no centro de Times Square iluminado.  


Debruçada no som do saxofone afloro o que de mim é mais privado.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gavetas:


foto do autor




  Pesquisar no Blog






Copyrighted.com Registered & Protected 
JIFR-J5MR-Y1XR-YACD