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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe terrorista

rabiscado pela Gaffe, em 26.07.17

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Toda irritada, a amiga da Gaffe – enquanto as duas vão mordiscando uma porcaria comprada pela Mélinha no café que agora vende pra fora munto barato, pernas cruzadas e sapato a dar-a-dar -, dá conta da aversão que tem aos homens peludos quando por elas passa num doce balanço a caminho do bar, um macho alpha, gingão e marialva, de calções de sarja e t-shirt cava por onde se avista a Amazónia. Negra Amazónia de mistérios densos.

 

- Aquilo tem bichos dentro e a gente não sabe – avisa muito preocupada.

 

A Gaffe não pode solidarizar-se. Nunca apreciou homens que se depilam até à total humilhação do Ken e não entende o actual culto masculino por esteticistas fanáticas, psicopatas e radicais.

 

- Tens de concordar comigo que não é agradável andar à procura do homem no meio daquela mata, correndo o risco de sermos engolidas - pausa meditativa e acrescenta perplexa - lembro-me sempre de areias movediças, nunca soube porquê.

 

A Gaffe tem de concordar num pequeno pormenor. Um homem que decide não se depilar, tem de ter particular cuidado com as suas zonas menos públicas e mais púbicas. É evidente que a piloca não pode parecer, nos seus momentos mais entusiasmados, o Pinóquio que se juntou aos Talibãs.  

 

Imagem - Giovanni Paolo Cavagna

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A Gaffe cro-magnon

rabiscado pela Gaffe, em 17.05.17

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Não é segredo eu gostar de barbas.

 

Os homens deviam usar barba por obrigação e deviam ser encarcerados no vagão do cacilheiro de Joana Vasconcelos, algemados a Joana Vasconcelos e a ouvir Margarida Rebelo Pinto a ler um dos seus cumances, se não cumprissem o estipulado por Lei.

 

Provavelmente esta minha predisposição pilosa está ligada ao facto de todos os homens importantes da minha vida terem usado, ou usarem, barba e daí também haver à minha disposição e apreciação imensos tamanhos de barba que vão desde a lixa número três, até a uma intimidadora barba branca de cavaleiro medieval - embora não tenha memória de ter a presença do exemplar ostentado por Salvador Sobral.

 

É claro como água que usar barba não significa trocar os minutos matinais usados para um escanhoar em condições, por uma escapadela ao Facebook enquanto o pão torra e o café se faz - por norma os homens barbudos não são fãs de pequenos-almoços repletos daquilo a que chamam mariconices.

 

Usar barba é muito mais trabalhoso do que arrastar, todas as manhãs - em tronco nu, de toalha felpuda traçada na cinta, pés descalços sobre o ladrilho frio, axilas por depilar, peitorais retesados, pernas dignas da estatuária grega se o mármore fosse peludo, cabelo desalinhado e ainda a pingar nas costas, umbigo a interromper uma espinha de pelinho penteado e duas covinhas mesmo logo acima do rabiosque - e vamos lá tentar retomar a lucidez e voltar ao assunto -, uma lâmina pelo queixo.

 

Usar barba é assumir que é necessário obter um tempo realmente longo para despender no desenho, na lavagem, na hidratação, no condicionamento, no amaciar, no perfumar, no escovar, no pentear e sobretudo no aparar da dita.

 

Usar barba não é sinónimo de ter apensa ao queixo uma homenagem à Amazónia com bichos raros lá dentro. Nestes casos miseráveis, uma rapariga sente sempre muito a falta de um Centro Comercial bem desbastado onde o único animal visível é a pantera da Cartier e, lembrem-se rapazes, que acordar ao lado de um gigantesco pirilampo mágico electrocutado não povoa as nossas fantasias.   

 

Estas considerações devem-se apenas ao facto do rapagão ter tombado no jantar - depois de um exílio de quase três semanas no meio do Minho -, com uma barba descomunal.

Atrasado, ainda por cima! Se já lá estivesse, sentadinho à mesa, ninguém notava que estava vestido como se tivesse chegado de uma visita aos pobrezinhos, ao lado de Assunção Cristas, e evitava ser picado pela minha irmã:

- Tiveste dificuldade em estacionar a vaca.

Vai hoje directo - que não se atreva a tomar primeiro o pequeno-almoço -, ao António, jovem e competentíssimo barbeiro, que de armas em punho cuidará de encontrar os olhos deste brutamontes por entre o matagal cerrado e negro e decepará pelo menos metade do seu allure cro-magnon.

 

Rapazes, entreguem os queixos barbudos pelo menos duas vezes por mês a um profissional capaz de vos transformar em valentes príncipes de outras eras, sem pêlos nas orelhas e de nuca rapada. Acreditem, meus queridos, que o self-made man neste caso específico é um fracasso. Um orangotango que ao depilar-se se esqueceu que também deve atacar os pêlos que não vê.

 

Na foto - Marlon Brando

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A Gaffe a apanhar pedra

rabiscado pela Gaffe, em 09.05.17

Os rapazes possuem uma aptidão muito peculiar que me deixa perplexa e me faz repensar as razões da nossa permanência neste mundo pobre e pouco digno de respeito.

Acaba por se tornar uma característica e, em maior ou menor grau, é detectável em todos.

 

Resume-se à extraordinária capacidade de mostrarem ao mundo - e sobretudo à parte ocupada por mulheres -, como são maravilhosos a tentar fazer o que não sabem.

 

Esta tendência é proporcional à sua ineficiência. Quanto mais totós, mais capazes se sentem de realizar o que se transforma num palácio para os bois mirarem. Quando os factos os contradizem, escapam à realidade crua e nua, convencidos que apenas apanharam pedra.

 

O meu irmão, por exemplo, digníssimo representante da espécie, afiança que é capaz de pregar um prego com uma facilidade descontraída e humilhante.

As paredes estão cravadas de buracos que representam todas as tentativas de martelar um inocente ferrito que como por encanto costuma saltar disparado ao primeiro embate. No segundo o prego entorta, no terceiro o prego desaparece no ar, como um OVNI depois de ter avistado o Terço de Joana Vasconcelos.

 

- Apanhei pedra.

 

O homem apanha pedra sempre que tenta espetar a porcaria de um prego na manteiga! Suponho que esta evidência seria de vital utilidade se o pobre um dia se enfiasse em areias movediças. Caso tivesse à cinta um martelo e no bolso um prego, apanhava pedra. Salvava-se.

 

Em decoração não resulta.  

 

Os rapazes permanecem, conscientes ou não, convencidos que a genética lhes forneceu as aptidões dos grandes machos e que nós, recolectoras de corpinho frágil, estamos aptas apenas a realizar tarefas a que elas atribuem um ficheiro feminino.   

O resultado pode ser catastrófico, não só para a decoração, mas também para a imagem que deles temos e que benevolamente vamos mantendo com algum esforço.

 

Seria muito mais proveitoso assumir que são uma perfeita nulidade a trocar um pneu, a dominar uma prancha de surf, a arrastar móveis sem colapsar imóveis, a instalar um circuito eléctrico, a reparar o portão da garagem, ou, no mínimo, a provocar-nos um orgasmo, admitindo em contrapartida que são exímios a tricotar pegas de cozinha, ou a construir arranjos florais mirabolantes.

 

Não!

 

Preferem que assistamos ao descalabro que é ver a sua masculinidade, pura e dura, a exibir-se lampeira e toda competente rumo a um ocaso pousado nas ondas das nazarés desta vida para logo depois sermos obrigadas a cristãmente caminhar sobre as águas para os repescar e ouvir dizer logo a seguir, a abanar a negra madeixa ao vento, que apanharam pedra.

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Uma proposta de discussão feminista a não deixar escapar.

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A Gaffe de preto

rabiscado pela Gaffe, em 24.04.17

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O preto - que como os peritos referem é a soma de todas as cores -, seduzindo existencialistas jamais deixou de fascinar os que não reconhecem Sartre.

 

As mulheres deixam no preto o rasto do perfume de uma intriga ou de um enigma. Os homens dão corpo a esse enigma e intrigantemente deixam num risco desse aroma a atracção que vem do perigo.

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A Gaffe intérprete

rabiscado pela Gaffe, em 12.04.17

A Gaffe descobriu há um tempo - tem andado sem ele - que existem cavalheiros pagos regiamente que afirmam dominar a leitura da linguagem corporal das gentes que vão observando, sendo capazes em consequência de interpretar o que realmente as vítimas incautas querem dizer ou fazer. São peritos na ciência dos maneirismos e tiques de todos os que tentam esquivar-se do escrutínio das massas, manipulando o que declaram, esquecendo que são atraiçoados pelo cotovelo mal colocado, pelo erguer da sobrancelha esquerda, pelo cruzar dos braços, ou pelo espreitar o parceiro através do erguer da pupila acima das lentes.

Uns mágicos capazes de afirmar que o sisudo gestor do potentado está a fugir ao fisco, porque olha com placidez as unhas quando nega o facto e - porque arranha os pecadilhos com muita subtileza -, tem escondida uma fortuna nas Caimão.

 

A Gaffe decidiu experimentar este tão interessante universo e concluiu que a verdade é como Deus. Está nos detalhes.

 

Após registos vários em Excel e cálculo estatístico demoníaco, a Gaffe encontra-se apta a fornecer, através da leitura de duas expressões faciais dos rapagões, o modo como desvendar as masculinas asneiras que pretendem ocultar da nossa linha de acção correctiva.

 

I

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Partiu a jarra da dinastia Ming que nos ofereceram no aniversário e tentou colá-la com UHU, ou Super Cola 3; escondeu-nos o comando da televisão, porque vai ser transmitido o jogo Benfica-Sporting e sabe que escolhemos sempre a Paula Moura Pinheiro e as séries escandinavas do canal 2; usou todo o nosso creme depilatório nas axilas e deixou-o sem tampinha, tombado ao fundo do armário com o bocadinho que sobrou a manchar a superfície, e espera que acreditemos que foi lapso nosso colocá-lo ali sem estar fechado, ou esbardalhou a cerveja no sofá e sentou ali o gato para que pensemos que a culpa é nossa por não abrimos a porta ao bicho - eu bem dizia que um gato não era boa ideia - para o bicho fazer xixi.  

 

II

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Foi descoberto.

E temos sempre razão.

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A Gaffe capilar

rabiscado pela Gaffe, em 24.02.17

Claro que há alternativas interessantes às jubas estudadamente desgrenhadas, ao fabuloso emaranhado de caracóis em desleixo premeditado, ao risco do volume ondeado que faz dos homens promessas de aventura.

 

Claro que estas alternativas, que não incluem os esquadrados penteados dos senhores do mundo, devem ser pensadas com rigor acrescido.

 

Se não cuidadas e coadjuvadas por uma imagem requintada, vagamente extravagante, inteligente e apurada, o cabelo masculino por onde deslizou uma camada substancial de gel fixante - brilhantina para os rapazes vintage -, parecerá que foi lambido por uma manada de gnus dispostos a ser triturados pelos crocodilos - imagem tenebrosa, mas inevitável nos documentários televisivos, logo após o canto das baleias.

 

Neste caso, o ideal, meus caros, é a adopção de uma solução drástica e muito eficaz: gel e nudez.

Fica sempre apetitoso.

 

 

Claro que existem alternativas menos convencionais.

Reservo-as para os mais aborrecidos.

 

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A Gaffe e os quarentões

rabiscado pela Gaffe, em 23.02.17

 

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O que destrói irremediavelmente a imagem de um quarentão - ou cinquentão -, é a condenada frase iniciada pelo no meu tempo eu era, seguida da descrição pormenorizada da apelativa excelente forma física e dos encantos saudosos perdidos para sempre.

Nada melhor para nos fazer acreditar que a memória do cavalheiro é um facto e que, no momento em que o ouvimos, existe apenas a carcaça do passado glorioso. Nada melhor para nos fazer crer que o presente é uma múmia daquilo que se foi no passado.

 

Não é necessariamente verdade e irrita.

 

Um quarentão - ou um cinquentão -, devia ser obrigado por Decreto-Lei a manter silenciada a patética saudade do passado jovial e juvenil.

 

É medíocre o lamento daquele que se proclama envelhecido e podre, sem qualquer hipótese encantatória, incapaz de sedução e isento de charme.

 

Meus caros quarentões - e cinquentões -, o charme é também a inteligência amadurecida que trespassa e flui pelos poros - mais abertos, é certo -, e capaz de fazer pasmar e render a mais renitente das resistências femininas.

A partir deste momento esbofeteio o primeiro rapagão com mais de quarenta anos que choramingue os idos tempos em que era capaz de saltar à vara, sem a vara ou sem se preocupar com a altura em que a dita é colocada.

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A Gaffe de quatro

rabiscado pela Gaffe, em 15.02.17

1.102.jpgÉ cansativo a Gaffe ter de repetir o quanto gosta de rapagões com barba.

No entanto, já é novo fazer notar que para ostentar uma pilosidade facial que comove de tão atraente e nos deixa de joelhos e a agradecer aos deuses a possibilidade de enlouquecermos sem qualquer réstia de pudor, urge obedecer a determinadas condições que, contrariadas, nos plantam na frente um troglodita macabro ou, na melhor das hipóteses, o Professor Pinto da Costa.

 

A nuca peluda

Nenhuma barba resiste ao nosso escrutínio quando parece dar a volta ao pescoço. A barba tem se impor, solitária e nobre, anulando a adversidade. Não pode parecer que tem um armazém de pêlos logo atrás da montra.

 

Pêlos nas orelhas

Permitidos aos senhores que ficam muito irritados nas noites de lua cheia e interditos aos restantes que nas noites da dita nos levam a ver o mar ou a jantar em Paris com vista para o Sena. A barba não começa nos pavilhões auriculares. Nada começa aí, a não ser a vontade de nos obedecer.

 

Pêlos no nariz

Uma barba que traz apenso um bigode que se introduz nas asas do nariz, apenas nos lembra a brisa dos Verões mais amenos porque nos faz ficar sempre à espera de ver por ali sair os grilos que ali se escondem.

 

Sobrancelhas Álvaro Cunhal.

Não é de todo aconselhável usar umas idênticas às do Cristiano Ronaldo ou a do travesti do quinto esquerdo, mas é simpático que não as consigam pentear até ao infeliz encontro com os pêlos que enfeitam a nuca.

 

São algumas das mais básicas premissas que um qualquer barbeiro que se preze se encarregará de cumprir.

Ignorá-las é facilitar o coreografo dos desfiles de Carnaval de uma mimosa aldeia portuguesa e inundar de luar o tal homenzinho que se irrita.  

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A Gaffe num instantinho

rabiscado pela Gaffe, em 05.01.17

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Um homem, por muito que nos custe admitir, conhece apenas três frases que usa quando é solicitado para tarefas que normalmente lhe são adversas.

 

- Vou já.

- Só um minuto.

- Espera aí.

 

Se não somos geólogas, não vamos perceber que os rochedos na banca da cozinha resultaram da mineralização dos restos de pizza do jantar do rapaz que nos prometeu que vinha enfiar a louça na máquina. Se não somos arqueólogas jamais daremos valor ao fóssil que encontramos no fundo da gaveta masculina que data do tempo em que lhe pedimos para se descartar da conchinha - linda, linda, linda -, que encontrou nas Caraíbas há milénios e que seria corrida porta fora num minuto. Se não somos a Madre Teresa acabamos com o seu glamour se esperarmos aqui que o Sporting vença o desafio que só dura mais um minuto. Se estamos num dia mais chuvoso - e todas temos os nossos dias difíceis, menos Christine Lagarde que tem os dos outros -, é aconselhável criarmos o hábito de fazer repousar a nossa paciência nos lençóis encharcados que o rapagão estenderia ao sol se esperássemos uns instantinhos. Se temos tendência para uma reserva compostinha, vagamente puritana e não queremos insinuar que uma orgia é sempre bem acolhida no aconchego do lar, é conveniente furarmos os olhos às tias velhas que nos visitam, porque o rapaz continua de cuecas, perna alçada e meias arco-íris, enquanto esperamos aí um minuto que vá já trocar de preparos, que as velhas prometeram na véspera uma visitinha de cortesia.

 

Estas manigâncias não são forçosamente desvantagens.

 

Enquanto o rapagão nos brinda com o vou já, o só um minuto ou o espera aí, podemos perfeitamente vestir a nossa lingerie mais etérea, retocar a nossa imagem de diva esvoaçante e sair ao encontro do nosso amante furtivo que nos proporcionará o chamado sexo mágico - fazemos e desaparecemos.

Voltamos já, demoramos só um minuto e ele espera ali.  

 

A louça do jantar que fossilize.

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A Gaffe Marlboro

rabiscado pela Gaffe, em 11.12.16

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 Não há nada como o homem Marlboro dos catálogos antigos.

Bem sei que o público-alvo era constituído por rapagões deste calibre ou que dele se tentavam aproximar, mas valha a verdade, os publicitários da Marlboro sabiam o que faziam. Os antigos catálogos estão cheios de homens que parecem a sério. Nada de frágeis andróginos e hermafroditas. Era só passar os olhos pelas páginas para que nos sentíssemos satisfeitas e prontas a correr para uma loja onde, quem sabe, talvez encontrássemos à porta um exemplar encostado ao carrito de calças amarrotadas, casaco de couro com um ar vintage e com uma alma de lenhador toda bonita que adivinhávamos com facilidade. Não era provável, as hipóteses eram quase nulas, mas havia uma esperança secreta e sempre alimentada por quem era bom a fazer publicidade.


Neste momento, os meninos que fazem as delícias das passerelles não são mais do que bonecos de plástico depenado, com olhinhos de cão ou de gatinho e corpo reluzente, sem um pêlo. Não alimentam. Não são capazes de povoar um sonho mais encorpado. Uma pobreza toda igual. Não adubam ninguém.


Sou uma rapariga muito sensível a estas nuances publicitárias.

 

A velha Marlboro, pelo menos, cheirava a macho. Podiam perfeitamente estar todos a usar - no interior oculto do nosso desejo -, lingerie de renda vermelha com ligueiros cor-de-rosa que uma rapariga perdoava e agradecia o exterior.

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A Gaffe térmica

rabiscado pela Gaffe, em 25.11.16

A Gaffe quentinha.jpgA Gaffe admite que não é atractivo surpreender um rapaz a usar roupa interior térmica. Uma rapariga fica a pensar que o homenzinho, à noite, antes de deitar, tem de ser brindado com beijinho da mamã que lhe faz um chá e lhe leva bolachas, aconchegando-lhe os cobertores não se vá constipar e que tem de obter a aprovação da matriarca para poder levar a miúda ao cinema, desde que prometa chegar cedo, que a senhora não dorme sabendo-o a correr riscos.   

 

Depois, os formatos das ceroulas fazem com que uma rapariga perca o tino, enlouquecida pelo apelo erótico que delas emana, apenas se vestidas por um cowboy sacana num western vintage ou por um GNR que não tira as botas.

 

Há contudo uma marca - A Gaffe não a refere, não por razões éticas, mas por não se lembrar, - que faz da roupa térmica interior uma autêntica lareira perto dos nossos sonhos mais inconfessáveis.

Similar aos fatos inteiriços de pele de tubarão dos nadadores olímpicos, é este pecado que dá razão à mãe do petiz: Nós somos o perigo.   

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A Gaffe sem pressa

rabiscado pela Gaffe, em 11.11.16

Uma rapariga esperta e cosmopolita odeia correr.

 

A Gaffe não se refere a atletas, como é evidente. Fala das urbanas elegâncias dispostas a sacrificar pontualidades se estas implicam distorcidas corridas pelas avenidas das cidades usando uns deslumbrantes Jimmy Choo.

 

Os rapazes estão libertos desta aversão.

 

Há, no entanto, alguns requisitos a ter em consideração.

Um homem pode sentir-se desesperado com o atraso que traz, esbaforido, esguedelhado, suado e de calcanhares a atingir o rabo, pode ficar arroxeado de tanto apertar o que só ele, exclusivamente ele, pode fazer, pode bater recordes de salto em comprimento para conseguir alcançar o avanço dos ponteiros do relógio, MAS não deve fazer transparecer e fazer-nos perceber o que se está a passar.

 

A pressa, a velocidade com que se luta contra o atraso, devem ser minimalistas.

 

Não se admite sobrecarga de peças inúteis. A viagem é sempre deslocação do essencial, nunca do acumulado.

Daí ser permitido a um rapaz esperto e digno de nos provocar, a nós, raparigas desprevenidas, atrasos incomensuráveis, apenas o uso de peças básicas, minimais, desprovidas de complexos dispositivos que amordaçam quem se quer olimpicamente apressado, fáceis de despir se a aceleração aquece e de apertar se no rosto bate a neve em Nova York.

 

Correr a favor da pontualidade não é o mesmo que sofrer as agruras do náufrago que tenta em desespero salvar manuscritos épicos. É um acto absolutamente racional e, como tal, meus caros, apresentem-se, se não for a horas, capazes de fazer com que se ignore o atraso.     

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A Gaffe furada

rabiscado pela Gaffe, em 10.11.16

É bom saber que já o Levítico (19:28) proibia a tatuagem e a perfuração dos corpos, mas é também curioso verificar, por exemplo, que em 2000 A.C. os sacerdotes núbios apareciam preenchidos por escarificações, ou que os acólitos do culto de Cibele, na Roma Antiga, se tatuavam lindamente e que mesmo hoje os Mokos, Maoris, não se esquecem de rasurar na perfeição e furar com eficácia as suas carrancas e afins, domínios ligeiramente assustadores.

 

O Levítico, como se constata, não foi levado muito a sério.

 

Alterar o corpo, perfurando-o ou tatuando-o, não é caso para fazer tombar as armas e os brasões que desta forma se assinalam.

 

Lembro-me que senti uma paixão arrasadora, nova e noviça numa Faculdade que pesava de tão conservadora, por um rapaz que me conquistou a vida e mais alguns trocados de somenos importância, porque o vi, como um deus a passear pela brisa da tarde, de argola gigantesca presa na orelha. Brilhava o aro de ouro e brilhavam os meus olhos de menina e moça, levada tão cedo de casa de meus pais.

 

O fascinante objecto deixou de exercer o seu poder de enfeitiçar, quando vi o portador aos lúbricos beijos com o meu primo - afastado, demos Graças, - que não usava brinco e era míope. Continuei a adorar o priminho, mas deixei pelo caminho a dor que mal se sente.

 

Portanto, meus queridos, saibam que não somos, de forma nenhuma, contra piercings e afins - os aros nas orelhas deste deslumbre devem ter nome específico, - mas neste preciso caso sugerimos moderação.

 

Uma rapariga, ao contrário do que parece ser dito corrente, não aprecia grandemente um homem demasiado tatuado. Perde-se sempre a decifrar o olho do dragão ou a analisar a cauda do tigre. Torna-se confuso, e até embaraçoso, vermo-nos abraçadas e beijadas por uma multidão de desenhos, muitos deles a olhar, ameaçadores e fixos, para nós. Depois, meus caros, já não vão para novos. É confrangedor ver uma sereia encarquilhada.

 

Aplica-se a mesma recomendação em relação aos piercings. Se não forem, ainda que vagamente parecidos - não peço milagres - com o rapazinho perfurado que vos mostro, evitem as argolinhas nos lábios que nos sugerem, maldosamente, que podemos ficar com o bâton preso - desagradável se o estivermos a usar, - ou que estamos na presença de um fã de uma série de vampiros de qualidade logicamente suspeita.

 

No meu caso, perdoo o uso das argolas. Fiquei sempre a pensar, depois da visão catastrófica do meu primeiro amor pendurado na boca do meu primo, se não seria má ideia prender-lhe, ao aro, as correntes de ferro de Alcatraz.

Só para o consolar.

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A Gaffe ao volante

rabiscado pela Gaffe, em 08.11.16

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É conta-corrente que os homens compensam o que a natureza lhes negou, com objectos que nos confundem, não só como o tamanho, mas também com o brilho.

 

Sabendo nós que há demasiadas vezes mais fumo do que fogo, podermos esperar diamantes dos rapazes que necessitam de boxers do tamanho S, mas com contas bancárias inversamente proporcionais aos seus atributos, e percorrer as capitais europeias - as que valem a pena ser percorridas, - de cabelo solto e Hermès a esvoaçar - sempre com o cuidado extremo para não imitarmos desagradavelmente Isadora Ducan, - num bólide de outro mundo.

 

Meus queridos, nós, melhor do que ninguém, sabemos que o tamanho conta e, por muito que se diga, a magia não depende só do modo como é, muito embora agilmente, praticada. Por isso, meus caros, encontrem forma de parar à nossa porta com luvas de sonho agarradas ao volante de uma nuvem de metal.

 

Prometemos não reclamar e telefonar às amigas, passando de mão em mão as pequenas mudanças com que nos brindais.

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A Gaffe sensual

rabiscado pela Gaffe, em 29.09.16

G.Haderer.jpgEspapaçada no sofá, a Gaffe debica Sete Pecados Mortais, catrapiscando Brad Pitt, e conclui que o rapagão seria um sério candidato à capa do catálogo se os deuses decidissem criar um dedicado à sensualidade. Rubén Cortada ocuparia as páginas centrais, quer do catálogo, quer da nossa cama, e a Gaffe admira-se perante a discrepância que existe entre o número desmesurado de condições que se devem verificar para que um homem seja considerado sensual e a miséria que basta para que não o seja.

 

Tendo em conta o título da fita que lhe permite a visão de um dos animais mais interessantes do planeta, que alçou a Gaffe à mesma condição de Angelina Jolie - a de solteira, - a Gaffe decide escolher sete pecados que aniquilam de vez a sensualidade masculina.   

 I

Pensar que é cosmopolita se usar um fato muito justo porque o comprou dois números abaixo do correcto, encharcado em Hugo Boss e sapatos aguçados que terminam em bico. Faz com que pareça que saiu da fábrica sem passar pelo controlo de qualidade e corre o risco de levar com o against terrorism nas ventas, porque Hugo Boss é nitidamente uma arma química.

 II 

Ficar com farpas de bacalhau nos dentes. Carne, ainda vá que não vá, porque se pode desculpar declarando que macho que é macho costuma mascar tabaco. Bacalhau nunca. Um dos maiores pesadelos das mulheres é ficar com alface colada aos dentes enquanto sorriem desprevenidas à nobreza. Podemos sempre afirmar que é de cultura biológica, mas a nossa imagem fica comprometida. Farpas de bacalhau enfiadas nos dentes de um homem, são a alface da desgraça da mulher.

III

Persistir com demasiado entusiasmo no estudo que refere que a pilinha mede afinal em média 13,2 cm. O sorriso alarve com que ilustra a insistência, leva uma rapariga a reconhecer que a alegria que demonstra o deixa muito diminuído. Todo o resquício de sensualidade fica mirrado sobretudo quando estamos a almoçar em Mirandela e a sobremesa é banane flambée.

IV

Não fazer descontos para a ADSE e atabalhoar as declarações do IRS, arrasa a sensualidade de um homem, porque o obriga, quando o vento lhe descobre a careca, a declarar que se esqueceu e a choramingar porque os outros meninos são maus. Nem sequer é sexy e faz com que nos apeteça imenso não lhe pagar o ordenado e afirmar a pés juntos que o fizemos, mas que mais uma vez o homem se esqueceu.

V

Jurar com todos os dentes - com imensas farpas - que não passa de um pindérico a armar aos cucus e que o apartamento onde vive à grande e à francesa numa luxuosa capital europeia é afinal emprestado por um amigo com muito mau aspecto. Os amigos feios devem apenas servir para fazer contraste e lhe inflacionarem o charme que acaba assim por ser maior se o apartamento for roubado.  

VI

Achar que é sedutor colar o hálito à nossa cara quando nos querem sussurrar um elogio sem que a mulher - a legítima, - perceba. Faz com que acreditemos que até mesmo Ricardo Salgado - um homem com tão fraca memória! - se recordaria da imagem dos pontos negros infectados no nariz do infractor e humilha o Fantasporto.

VII

Dizer treuze e escrever um romance com o título Madrugada Suja. Não é sensual insultar toxicodependentes nas capas dos livros.

 

Não é preciso que estes sete pecados se detectem em simultâneo. Basta que se cumpra apenas um para sentirmos que estamos tão longe da sensualidade masculina como a Merkel da mini-saia.  

 

Ilustração - G. Haderer

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