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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe poeirenta

rabiscado pela Gaffe, em 21.04.17

A Gaffe poeirenta

 

Foi com Raul Brandão - tão arredado dos cânones literários! - que me apercebi da magnitude do mistério que um texto pode conter.

 

Lia A Morte do Palhaço e em cada página que era lida dava conta, quase sem disso ter consciência, das infinitas arquitecturas das palavras e deixei-me deslumbrar pelos edifícios que se formavam e erguiam incessantemente num jogo polissémico que se multiplicava por frases nunca lidas até ali.

 

Foi com Raul Brandão que entendi que talvez seja a consciência da mutabilidade da frase e da sua capacidade de se unir a outras num encadear eterno, como até ali nunca foi história, que me fez acreditar que não basta soletrar rabiscos, que não basta perceber o mecanismo da língua, que não chega termos a capacidade de colar um vocábulo à frente de um outro, para que um texto nos atordoe.

 

Não basta.

 

Acredito que reconhecer um escritor se faz nas catacumbas da alma, talvez muito antes da obra ser sujeita ao escrutínio do bisturi da análise literária.

 

É esmagador o poder do escriba capaz de - com palavras gastas e velhas como a morte -, construir paisagens originais, absolutamente desconhecidas pelos outros, nunca vistas, nunca lidas, nunca sentidas da forma que nos é oferecida como quem nos entrega a surpreendente simplicidade do movimento eterno, a espantosa floração do único.

 

Talvez seja isto que me faz acreditar que apenas o conhecimento profundíssimo dos livros nos faz perceber que não passamos, quase todos, de pequenos tontos, ingénuos, iludidos, a usar as mesmas pedrinhas de poeira, umas atrás das outras, tentando que os espaços minguados que ocupamos tenham chão. Usamos coisas velhas para acabar como partimos, envelhecidos e de mãos vazias, porque a poeira se esgueirou por entre os dedos.

 

Apenas os que usam o que velho o tempo foi fazendo, fazendo do que o tempo fez velhice o esplendoroso encontro com a surpresa, acabam a escrever.

São escritores.

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Gavetas:

A Gaffe com perguntas

rabiscado pela Gaffe, em 11.03.17

Suponho que quando Lobo Antunes declara que o que se deve esperar de um livro é que nos modifique a vida, não se refere apenas àqueles de cujo abalo temos consciência, mas também aos que de modo imperceptível nos vão moldando a vida.

 

É evidente que sentimos as dores de uma metamorfose íntima quando nos encontramos com o Cavaleiro da Triste Figura, ou quando tocamos os sete andamentos de Proust, ou ainda quando o desassossego nos entra devagar pelo cantos escuros da alma, mas são as mais subtis alterações que se operam aquando do embate com obras mais discretas que alicerçam as que ocorrem quando o encontro se dá com as mais nítidas.  

 

Há uma espécie de fusão entre a maturidade de um homem e a fragilidade titubeante de uma criança no livro que me encontrou e que produz alterações sucessivas de cada vez que o abro.

 

São setenta e quatro pequenas perguntas que permitem que sejam escritas sete vezes setenta e quatro eternidades.   

 

Porque é que não ensinam a tirar
mel do sol aos helicópteros?

Onde é que a lua cheia deixou
o seu saco nocturno de farinha?

 

Diz-me, a rosa está nua,
ou só tem esse vestido?

Porque é que as árvores escondem 
o esplendor das suas raízes?

Haverá algo mais triste no mundo 
que um comboio imóvel na chuva?

 

Porque se suicidam as folhas 
quando se sentem amarelas?


O Livro das Perguntas - Pablo Neruda

 

Ouvi Garcia Márquez dizer que um livro deve conter tudo o que quer dizer no primeiro parágrafo. O primeiro parágrafo tem de render o leitor.

 

No Livro das Perguntas todos os poemas são primeiros parágrafos. 

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A Gaffe neo-realista

rabiscado pela Gaffe, em 09.02.17

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João Miguel Tavares não me inspira qualquer tipo de simpatia, mas esse facto não me impede que esteja disponível para o ouvir e ler com respeito e atenção.

Foi exactamente com esta disposição que o apanhei - a propósito da polémica suscitada pela obra de valter hugo mãe esfrangalhada pela pudicícia -, a tentar ser engraçado recortando uma frase do livro A Vida Mágica da Sementinha de Alves Redol, comprovando o que já sabemos, ou seja, que uma frase decepada e arrancada de um contexto, permite ser guiada para onde a nossa sardinha vai assando ou esturricando.

O colunista finaliza a intervenção suplicando que a obra de Alves Redol seja retirada por ofensa ao pudor do programa dos alunos do 5º ano. A pretensa ironia é regada com um sorriso galhofeiro e não passaria por mais se não fosse a adenda que João Miguel Tavares decide colar ao já demonstrado. O jornalista acrescenta que há uma razão, bem mais séria, para o seu rogo. A obra é horrível. Repete horrível já na risota.

 

É improvável que João Miguel Tavares, com filhos que a estão a estudar, não tenha lido a obra em causa, mas é mais do que evidente que o colunista desconhece o que é ensinado no grau de instrução que os petizes frequentam.

 

A obra de Redol que o jornalista condena é a escolha perfeita para a faixa etária eleita para a estudar.

 

Existe no pequeno livro uma miríade de possibilidades de intertextualidade e de interdisciplinaridade. A obra permite uma cumplicidade notável, sobretudo com as Ciências e com a História - havendo mesmo trechos que deviam ser lidos pelos professores destas disciplinas, usando-os depois como impulso para a descoberta e conhecimento do que querem transmitir -,  e as personagens que a povoam estão impregnadas de uma poeira poética com um sabor a paisagem alentejana tantas vezes dorida que permite um encontro com uma realidade menos amena e menos acolchoada.

 

Os pássaros que se espalham nas folhas da obra, os seus pequenos conflitos, as suas emoções, os seus amores, permitem que o pequeno leitor se veja ao espelho e contribui para uma mais suave entrada num estádio que antecede a perturbação da adolescência; a clareza com que é revelado o esplendor da diversidade e a importância que esta deve ter; a permeabilidade da obra a outros dados oriundos da história, da ecologia ou da biologia e a poética que se encarrega de acordar a fantasia e povoar o imaginário das nossas infâncias, fazem da escolha do livro um exemplo maior de séria pedagogia e de João Miguel Tavares, que o considera horrível, - assim, à toa, só porque assim é engraçado -, um rapaz muito propenso a comportar-se como os encarregados de educação que censuraram valter hugo mãe.

 

Ilustração - Mirko Hanák         

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A Gaffe lê Balzac

rabiscado pela Gaffe, em 06.02.17

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Leio Balzac, Le Père Goriot, pelas razões óbvias - não há traduções condignas -, mas sobretudo por me recusar a deixar de o fazer na língua de origem.

Deitada na cama, encostada às almofadas, repleta de spleen como convém a quem lê Balzac por motivos muito pouco literários.A minha mão segura o livro que vou desfiando folha a folha sem entusiasmo, sem mergulho denso e mais do que perfeito no pulsar do romance.

 

O braço esquerdo erguido, pousado na cabeça, esquecido, à toa, vadio e indiferente, deixa que a mão vagueie pelo rosto. A mão esquerda, que não ajuda em nada, tonta e liberta da minha atenção, porta-se como elemento exterior a mim. Passeia no meu rosto, pelo meu rosto, na face direita desenhando rumos e caminhos. Esqueço-me que é minha e sinto-a a descobrir as órbitas, os maxilares, o queixo descarnado, as maçãs do rosto ósseas, os ossos por inteiro.

 

A minha caveira.

 

A finitude palpada pelos meus dedos, a brutal consciência da mortalidade.

A Morte cá dentro a ler Balzac.

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A Gaffe anciã

rabiscado pela Gaffe, em 11.01.17

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Escondia-me no minúsculo compartimento, mandado construir por ordem da minha avó, no vão das escadas. Ouvia as mulheres de lá para cá, à minha procura sem muita vontade, cada vez mais lentas, até desistirem e se sentarem a um canto onde mastigavam o silêncio.

Era ali, apertada e abafada, que sentia poder viver naquele sítio para sempre. Subdividia o chão e destinava espaços para os meus brinquedos mais importantes. A luz que escorria das frinchas da madeira traçava no chão do cubículo compartimentos onde seria possível construir histórias independentes. Quase imóvel, movia-me. Os meus olhos corriam desenfreados procurando não perder nada do que se passava no chão. Durante horas brincava sem me mover, sentada no chão, de cabeça pousada nos joelhos.

 

Por vezes espreito o despovoado que ficou depois do abandono. As tardes da memória voltam outra vez. Aproximam-se voando como minúsculas folhas de papel desenhado que vou colando à toa, sem qualquer critério. Nunca fui uma boa coleccionadora. As estampas da minha infância foram todas amealhadas em parceria com outros que acabavam por ficar com as colecções completas e com a minha anuência. Não sei catalogar tudo o que encontro cá dentro, mas apuro todos os sentidos quando procuro aquela em que o meu avô me encontrou.

 

Era franzina. Magricela. Tinha olhos transparentes de espanto e timidez e labaredas corajosas no cabelo. Segurou-me no colo e prometeu que me daria um lugar melhor para eu ficar e que seria meu para todo o sempre.

 

Deu-me a biblioteca.

 

Sem que eu percebesse, o meu avô iniciava naquele instante a minha aprendizagem literária.  

 - Lê primeiro os velhos. Não conseguirás crescer se não souberes por onde começar. Ao contrário do que te dizem, os velhos são sempre o lugar de onde partimos. São sempre o início de qualquer coisa tua.  

 

Depois, já mais crescida, envelhecíamos juntos nas alamedas do jardim.

Encostava a cabeça ao braço dele, depois - primeiro o pé esquerdo, depois o outro, depois os olhos, depois os dedos, depois cada palavra pisada no caminho -, íamos envelhecendo o coração.

 

Mostrou-me Fernão Lopes que mais não disse por ser a verdade, fez-me ouvir os sons das batalhas nos Lusíadas, ouvi o Padre e fui também um peixe, ri-me com Eça dentro do riso que me ia guiando, atravessei países, conheci Cervantes e corri ao lado das irmãs Brontë.  

 

Dante. Shakespeare. Balzac. Proust. Mann. Elliot. Joyce. Auden. Musil. O maldito Celine. Mallarmé. Baudelaire. Shelley. Withman. Keats. Byron. Os Gregos. Os russos.

Os outros velhos todos por onde me perco por não saber dizê-los.   

Assim. Misturados. Como se surgissem à toa e sem critério nos lanhos de luz do esconderijo para que os ouvisse a contar histórias.

 

Era frágil e franzina. Tinha olhos transparentes de espanto e pequenez e labaredas tontas no cabelo. Ele segurou-me no colo e deu-me o melhor lugar para eu ficar.

Agora é meu e sei envelhecer.

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Gavetas:

A Gaffe livresca

rabiscado pela Gaffe, em 05.12.16
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Sinto sempre uma certa tristeza quando olho para aquilo que outrora foi acarinhado por mim como relíquia a conservar pela vida fora e que agora, embalado e atado, é apenas importante porque o foi no passado.
 
Vou levar comigo livros velhos de histórias menores, com capa de couro, lombadas com letras douradas e rebuscadas, folhas carcomidas e cheiro a mofo.

Pertenciam à minha gente. Gente que nunca poderia conhecer. Pessoas que morreram antes do meu avô ter nascido.

Há uma imensidão deles, colocados nos pesados armários do sótão, exactamente como os tinha guardado quando os descobri, já lá vão dez anos. Na altura, pensei que tinha encontrado, não um acervo valioso, mas belíssimos pedaços de memórias que se inscreviam nas margens das folhas pelos donos destes livros. Lembro-me das anotações a tinta, numa letra tombada e toda floreada, num livro de receitas de alguém que me parece ter dominado a cozinha em tempos idos.

Esse não vai.

Vão os que trazem pequenas anotações acerca de Voltaire, de Diderot, de Balzac e um ou outro de autores menores, mas que mereceram apontamentos extraordinários, mais outro que sublinha e comenta os soneto de Camões - tão mal amado e tão mal interpretado por Voltaire.

 

Isto de ter de escolher pedaços de memória é doloroso.

 

Sei que os livros que ficarem se vão deteriorar irreversivelmente. Custa-me deixar para trás os volumes que foram importantes e acarinhados por alguém, um dia, no passado. Parece-me que os desrespeito, aos livros e aos antigos donos, mas há memórias que devemos embalar e levar connosco e outras que, por muito que lamentemos, devemos deixar ficar ao abandono.

 

Até nestas decisões derradeiras as bibliotecas são parecidas com a vida.

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A Gaffe hereje

rabiscado pela Gaffe, em 13.10.16

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Não mexe um músculo, não pestaneja, não boceja e não desata aos pulos musicais. É-lhe absolutamente indiferente, embora não deixe de ser agradável  - somos todas um bocadinho esquizofrénicas quando se trata de galardões, - que o Nobel da Literatura 2016 tenha sido atribuído a Bob Dylan - nomeado já em 2015.

A Gaffe gosta mais de Chico Buarque. 

Poderia ter sido Haruki Murakami, Philip Roth, Ngugi wa Thiong’o, Joyce Carol Oates, ou até mesmo Elena Ferrante via e-mail, que a reacção - ou a ausência dela - teria sido a mesma.

 

A Gaffe folheia o seu livrinho, de autor mais comedido - mas escolhido por ela, - e pensa que o Nobel da Química poderia ter sido atribuído ao Brad Pitt. Afinal, minhas queridas, todas sabemos das reacções que o rapagão provoca em nós.

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A Gaffe e uma biblioteca

rabiscado pela Gaffe, em 30.09.16

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Fajã de Ovelha fica na Calheta, na Ilha da Madeira. A freguesia tem se cerca de 700 pessoas, 80% idosas. No Inverno o grupo de leitura tem cerca de 8 ou 9 participantes e no Verão não aparecem mais do que 3, chegados pelo anoitecer.

A minha querida Magda decidiu apelar às vossas asas para que nelas voem toneladas de livros e cheguem à Calheta povoando-a de universos.

 

Faz o favor de ser feliz e entrega a este voo os livros que merece.    

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A Gaffe engasgada

rabiscado pela Gaffe, em 13.09.16
 
Raparigas, este mocetão que entra sem contarmos no eléctrico do nosso desejo, capaz de nos fazer perder a cabeça e de nos fazer perder, em abono da verdade, tudo o que quiser, é Thomas Lanier Williams III, cujo pseudónimo é nada menos nada mais do que Tennessee Williams, fotografado por George Platt Lynes em Março de 1944.
 
Olhando muito rapidamente para a fotografia, antes de tombarmos desiludidas ao descobrir que uma rapariga por muito esperta que fosse não lhe escaldaria o zinco, suspeitamos que os títulos que deu às suas obras - que agora, muito mais do que antes, nos vai apetecer ler, - não se afastam muito daquilo que lhe sussurraríamos ao ouvido - e sejamos comedidas:   
  • Beauty Is the Word
  • Summer at the Lake
  • Candles to the Sun
  • The Eccentricities of a Nightingale
  • Talk to me like the rain and let me listen
  • Suddenly, last summer
  • You Touched Me
  • Something Unspoken
  • Sweet bird of youth
  • Clothes for a Summer Hotel

Tennessee Williams morreu, aparentemente após se ter engasgado com uma tampa de garrafa no quarto no Hotel Elysee, em Nova York.

 

Uma tragédia tendo em conta que qualquer rapariga desenvolta conhece e pratica a manobra de Heimlich, mesmo numa noite sem iguanas. 

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A Gaffe cronista

rabiscado pela Gaffe, em 08.09.16

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Um dos primeiros livros que me foi dado a ler pelo meu avô chegou a estar incluído no rol de obras de leitura obrigatória nas Escolas Secundárias, implicando desta forma um estudo que apesar de quase sempre tacanho, redutor e confinado a aspectos linguísticos, semânticos e sintácticos que asfixiavam a dimensão literária dos textos, tinha pelo menos a vantagem de posteriormente evitar que confundíssemos o autor com um qualquer obscuro treinador de futebol.

 

A obra foi-me entregue numa transcrição que cuidadosa, rigorosa e responsável, nos poupava os anacronismos da linguagem que nos fazia sempre tropeçar e tantas vezes perder o sentido e a paixão com que a folheávamos. Creio que esta cautela foi de Oliveira Martins, mas posso estar a cometer um erro, tendo em conta que esta versão se encontrava na estante encostada às obras deste autor e o tempo que passou sobre a biblioteca da minha adolescência.

 

Falo de Crónicas de Fernão Lopes.

 

Descobri aqui dentro algumas das mais extraordinárias figuras que protagonizaram parte da História portuguesa, descritas com a perícia e o talento de um génio literário capaz de insinuar a intriga, o escuro, a perfídia e a traição com a mesma eficácia com que nos mostra o heroísmo, a abnegação e o sentido de honra.

Foi através das Crónicas, que encontrei senhores e súbditos, condenados e incensados, poder e servidão, guerra e não guerra, doença e cura e homens e mulheres que fizeram pulsar uma época e uma época que deles se serviu para adubar futuros.

Foi ali que me encontrei com uma das mulheres mais interessantes da História portuguesa. Leonor, mulher e rainha barregã de D. Fernando e que percebi que a ambição sem medida e a capacidade de nos movermos sobre a superfície dos gumes das facas e a de invadir territórios marcados pelo macho, exige muito mais do que uma beleza estonteante, uma inteligência dominadora ou do que a habilidade consciente de manobrar o pensamento, a emoção e o destino. Exige egoísmo. Um desmesurado e ofuscante egoísmo.

Foi ali que encontrei uma das minhas tiradas favoritas que ainda hoje não me canso de repetir e que descreve de forma genial a relação de Pedro o Cru, o primeiro de Portugal, com Afonso Madeira, o jovem de alaúde, por quem o rei nutria uma amizade inusual e mais que não se diz por ser verdade e que acaba castrado, castigo que infelizmente foi posto de parte, por ter traído com uma mulher o que a frase insinua.

 

Não encontro na estante a versão que o meu avô me deu a ler, aquela que não me fez colidir com os anacronismos, mas acabo por sentir bem perto algumas das figuras que povoam as Crónicas. Para escolher o nome dos netos, privilégio que o meu avô chamou seu sem qualquer hipótese de contraditório, abria as páginas de Fernão Lopes e fazia com que as novas mulheres e os novos homens desta casa tomassem a graça que primeiro encontrasse.     

 

Infelizmente, a página que abriu quando nasci, nomeava exclusivamente D. Fernando. O meu avô hesitou, abdicou, fechou o livro e decidiu-se pela graça da Princesa Santa, irmã de D. João II, porque era mais teimosa do que o poder do Rei.

 

Foto - Ellen McDermott

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Gavetas:

A Gaffe shakespeariana

rabiscado pela Gaffe, em 05.08.16

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Acabei de reler Hamlet.

 

Confesso que Shakespeare sempre me assusta um bocadinho e este macabro príncipe dinamarquês é uma das suas figuras mais ínvias, mais esconsas e mais complexas, sem nunca deixar de ser uma das mais perfeitas criações literárias de toda a Literatura universal.

 

Ninguém como Hamlet, em página conhecida, atravessa a loucura, real e imaginária, tocando aquilo que é opressivo, sofrido ou em fúria. Ninguém é tão angustiantemente vingativo, amoral e imoral, retendo nas mãos em simultâneo uma espécie de ética individualizada arrasadora e muitas vezes mórbida.

 

Sempre me incomodou imaginar este príncipe que acaba por entregar, de acordo com a crítica, a coroa da perfeição literária à peça mais longa de Shakespeare. Sempre tive algum receio de o visualizar. Esperava sempre que me entregassem as visões que encenadores e realizadores dele tinham, até que de repente me esbardalho contra o único Hamlet que acolheria sem sombras e sem peias no meu principado. Não é propriamente muito soturno, mas tem a caveira para balançar.

 

Depois disto, nenhuma rapariga esperta é capaz de dizer que ler não é sexy.  

 

Foto - Carmelo Blazquez Jimenez

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A Gaffe sexualmente livresca

rabiscado pela Gaffe, em 10.05.16

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São cansativos, porque de inutilidade extrema, os debates que versam a rivalidade entre o livro impresso e o ebook. Cheiram a suor e têm mau hálito.

 

A Gaffe sempre considerou que a existência destas duas variantes da leitura se aproxima, sem que ninguém dê grande importância, ou se desunhe em defesa de uma das damas, com a presença do sexo nas nossas viditas.

 

Salvo raríssimas excepções, toda a gente reconhece que existe o sexo virtual e aquele que fazemos no aconchego do lar - convém, neste caso, entregar a lar um perfume polissémico. A Gaffe suspeita que apenas uma minoria do planeta se dedica em exclusivo à primeira modalidade - por norma são assustadores e  usam óculos bifocais, - mas que a maioria do mesmo globo já espreitou, pelo menos, as maminhas - ou a pilita - do manequim apanhado por um paparazzi a praticar com alguém o que os eremitas costumam fazer sozinhos - A Gaffe, por exemplo, admite que já espiou a pila do Brad Pitt.  O argumento da falta de qualidade virtual, não dá dividendos. A imagem do Brad Pitt nu é abençoada. 

 

Coexistem as modalidades, sem que por isso venha mal ou bem ao mundo, embora o verbo vir adquira também neste caso um valor polissémico. Há quem goste de snifar as páginas dos livros, há quem aprecie lamber o monitor. Como diria o isabelino, tudo está bem, quando acaba bem.

 

A discussão ebook versus livro impresso, não vale mais do que isto.

 

Já escrever - digamos que de modo lúdico - sobre sexo é um problema gravíssimo.

Ninguém escreve bem sobre sexo e é horripilante quando o tentam fazer, descrevendo minuciosamente cada posição, cada gemido, cada movimento, cada alçar de perna, cada mamilo, cada coisa que arrepia, cada poema escrito com a pila, cada melodia erguida com as mamocas, cada sinfonia a quatro mãos, a quatro pés e ao que depois vier, ou o foguetório do orgasmo. O caso agudiza-se quando recorrem ao vernáculo e a expressões mais duras e cruas, convencidos que dali lhes virá força.

 

Ninguém.

 

Se Maria Teresa Horta ou David Mourão-Ferreira correm belíssimos riscos, a esmagadora maioria dos escritores de eleição evita descrever o que sabe que resvala com uma facilidade inacreditável para o patético com um rasto de pornografia disfarçada. Quando é o comum dos mortais, quase analfabeto, a tentar escalar este Everest, é-nos oferecido um rato morto. A montanha nunca se desloca ao facebook.

 

A Gaffe suspeita que, em matéria de livros e de sexo, o ideal é manter tudo no lugar devido e cuidadosamente separado.

 

Imagem - Luis Quiles   

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A Gaffe enciclopédica

rabiscado pela Gaffe, em 12.02.16

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Não consigo falar de um fôlego só dos meus dois amores que surgem à frente da novíssima e pobre vaga de escritores portugueses.

A obra Matteo perdeu o emprego de Gonçalo M. Tavares, é aquela que escolho para depois, apenas porque soa ainda na sala o som aquático de Afonso Cruz.

Da série Enciclopédia da Estória Universal, Mar recolhe breves pedaços de água em sal entrelaçados, intrinsecamente ligados por uma inevitabilidade que agarra de forma terrível a infância e à maturidade, atravessada, a primeira, por uma rapariga que colhe cartas de amor presas em garrafas por um músico que escreve a perdição da esperança, e, a segunda, por homens tresmalhados, como aquele que traz tatuado o céu na pele.

 

Um livro que abre com a inquietude presa a uma estupenda e crua imagem de invernia:

 

1 Um recado: “Estou lá fora, morta, não tragas a miuda”.

2 Prevaleci agarrada à mão do meu pai.

3 Ficámos os dois parados.

4 A olhar a porta.

5 O pai saiu, o bilhete caiu no chão. Senti aflição e ranger de dentes.

6 Do outro lado via-se a mãe a baloiçar no plátano.

7 O plátano não tinha folhas porque era Inverno e o Inverno extermina as folhas dos plátanos.

 

Depois, cada letra, frase, cada passo no aforismo, cada escolha de trecho a citar, enche-nos de sal e de reflexos de humanas emoções de náufragos que somos - e não ilhas.  

 

Uma obra imperdível.

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A Gaffe na apresentação

rabiscado pela Gaffe, em 11.10.15

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No caso do seu Cadillac não chegar a tempo, vindo dos confins do Douro, ansioso por chegar ao Porto, a Gaffe quer que a Magda e a MJ saibam que se sentirem um perfume ruivo reconheçam que esta rapariga desesperadamente atrasada, vai mesmo assim tentar estar convosco na apresentação das vossas obras e que sabe que a Lello nesta tarde não vai ter filas de espera. Só moscas e os costumeiros empregados mal dispostos.

 

Parabéns às duas.  

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A Gaffe de Chico Buarque

rabiscado pela Gaffe, em 22.09.15

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Há lugares onde não entramos sem que lentamente nos ocupem. São lugares feitos de palavras que sabem emudecer todas as nossas.

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