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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe para o fim-de-semana

rabiscado pela Gaffe, em 01.09.17

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Cruzamo-nos nos corredores, partilhamos horários, intervalos, pausas entre tarefas, pequenas banalidades e outras minudências distraídas, sem exigir mais do que uma amizade plana, simples e muito pouco exigente. Uma espécie de ligação de fim-de-semana, em dias úteis.

É uma mulher muito bonita. À elegância quase minimalista aliou o carisma proveniente de uma inteligência activa, muito prática e capaz - sem Mariazinhas -, responsável por uma carreira distinta e mesmo temerosamente respeitada.

Tem cinquenta e quatro anos e no cabelo uma madeixa alvíssima que teima em conservar e apurar, sem rodeios nem subterfúgios, como se fosse marca distintiva, como se fosse um aperto de mão, como se fosse um troféu de guerra, pois que surgiu aquando do fim do seu conturbado divórcio, já lá vão anos.

Recusou, de modo racional, quase obcecadamente científico, qualquer outra aproximação do amor. Um deslize mais comprometedor que indiciasse uma emoção mais envolvente, tinha sempre como resposta um afastamento definitivo, um corte imediato ou um arrefecimento global do planeta onde até o sol era contido.

Os amantes foram escolhidos com parcimónia e nunca lhes foi dada a importância dos grandes gestos amorosos, ou primazia, ou a decência que subjaz ao reconhecimento da partilha, ou ainda a possibilidade de algum, de entre os poucos, se aventurar a mais do que uma dulcíssima, pacífica e superficial ronda por aquela alma que nunca se deitou ao lado dele.

 

O actual é cerca de duas décadas mais jovem. Conheceu-o algures, não precisou.

 

É um homem muitíssimo bonito, moreno, com olhos grandes, negros, pestanudos, sorriso luminoso e sempre aberto, boca carnuda, de lábios desenhados a cinzel. Um homem meigo, tranquilo, quase pachorrento, com uma bonomia da mesma dimensão do corpanzil cuidado.

Apresentou-mo há já algum tempo. Não é inteligente. Nada existe em comum com a mulher que o fascinou. Nada. Nenhum motivo, nenhum projecto, nenhum livro - partindo do princípio que sabe ler -, nenhum som, cor, ou dimensão, nenhuma gente, nenhuma solidão, nenhum deserto ou urbe carregada, nenhum parágrafo, frase ou travessão, nenhum país dentro ou fora dela e - o que é mais trágico - nenhum amigo. 

 

Apesar de me aperceber da cumplicidade mesclada de ternura, quase amorosa, respeito e reconhecimento, visível entre os dois, não compreendi a escolha. Entendi-a absolutamente inesperada, não se coadunando com critérios e exigências antes definidos e honrados com rigor, mas não me atrevi a mover o que quer que seja, incluindo as inconvenientes sobrancelhas.

A relação, confidenciou-me, era muito discreta, muito reservada, sem grandes narrativas, sem poemas e sem qualquer espécie de vulcânicas ocorrências emocionais. Havia uma imensidão de gestos inefáveis e pouco mais e o mais, pouco valia. Não era um homem de fim-de-semana - como a leitura destes rabiscos -, mas tinha os dias contados.

 

O idílio terminou.

 

O homem mentiu.

Provavelmente não com os belíssimos dentes todos. Provavelmente nem sequer mentiu. A justificação que entregou para a falha cometida foi de tamanha simplicidade, de tão grande despojamento e imbecilidade, que é plausível que seja a verdade.

Encontravam-se sempre que existia disponibilidade. Bastava uma mensagem inócua e o encontro era marcado de modo natural, se houvesse resposta condigna.

A réplica foi dada.

A mulher foi ao encontro do amante no lugar habitual. Informaram-na que o homem se encontrava a trabalhar há alguns dias na filial mais próxima. No novo posto, o atrapalhado e espantado mocetão disse-lhe que se tinha esquecido de completar a mensagem com o novo endereço. Pensava que o tinha feito. Pensava mesmo. Que o desculpe.

A mulher não desculpou.

 

Intrigou-me.

Quis muito compreender aquele mecanismo.

O que fazia uma mulher inteligente, lindíssima, sofisticada e perfeitamente capaz de seduzir os maduros potentados que por aqui deslizam, com um bronco, vinte anos mais novo, que por muito atraente que fosse, jamais a complementaria?

 

- A velhice - disse-me ela.

 

Aquele homem era o seu último fôlego. Comprovava a sua ainda intacta capacidade de conquistar efebos, antes da derrocada das rugas. Assegurava-lhe a permanência do talento que lhe permitia atrair os deuses gregos no antigamente das estrelas.  Precisou dele para acreditar que as rugas que a vão macerando, não causam qualquer dano na sua segurança ou na sua autoestima - denunciando desta forma a sua imprevista obediência estranha ao paupérrimo conceito de beleza feminina que sempre contrariou, que sempre a indignou e contra o qual lutou a vida toda.    

 

É possível - continua - que o homem não lhe tenha mentido, mas a hipótese de o ter feito, transformou-se em agulha cravada no orgulho. Bastou uma leve brisa que passou ténue e que lhe entregou a dúvida, a insidiosa suposição, o possível facto do homem ter mentido por não querer ser visto ao lado dela no seu novo cargo, para que a falência da ilusão viesse em tornado. Não lhe perdoou ter de admitir que se vai transformando numa velha e que esta condição lhe entrega em simultâneo a consciência de ter ultrapassado um prazo de validade.

 

Obedece nesta última revelação ao estipulado, ao normalizado, ao normatizado, ao preconceito, ou ao estereotipado - tudo o que se queira, que somos capazes disso tudo. Rende-se ao peso do olhar feminino e jovem - desejado -, que tomba dos cartazes colados pela vida fora e descobre que as rugas não contam histórias, não são frases, nem crónicas, nem riscos, nem narrativas épicas dos trechos que vivemos. As rugas são apenas sulcos na pele. Terríveis sulcos. Feios sulcos indeléveis que apenas asseguram a incapacidade de regeneração celular. As rugas são apenas velhice. Ninguém as lê. São cartas de cartomante. Não dizem nada.

Vai agora entreter-se e divertir-se com as paliativas lengalengas que inventaram para iludir a velhice.  

 

- É mentira o que nos dizem. Envelhecer é medonho, digam tudo o que quiserem. Tomamos consciência das cordas que nos atam à morte. Envelhecer é terrível e precisava de alguém que me mostrasse que estou velha. Desde novinha que sei que tinha de ser eu a encarregar-me disso.

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A Gaffe de patins

rabiscado pela Gaffe, em 30.08.17

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 Aos vinte, uma mulher desliza de patins em linha ao encontro da porta seguinte que se abre para que entre nos trinta depois das piruetas, rotações, círculos, diagonais, serpentes e rectas.

 

Aos trinta, os patins adquirem o domínio técnico do Lutz, do Toe Loop, do Axel e Duplo Axel, do Salchow e sobretudo do Avião Base. A mulher aprendeu que patinar é para ela tão fácil como guiar um Jaguar, de saltos altos.

 

Aos quarenta a mulher percebe que o ringue se vai transformando em pista de ski e de snowboard e troca os vaporosos patins pelo equipamento adequado que a fará chegar à casa dos cinquenta.

 

Aos cinquenta, passeia pelos bastidores da competição depois de exibir a mestria de quem ganhou medalhas, olhando da esquina do seu know-how as debutantes que experimentam olear as rodas.

 

Dos sessenta em diante, decide tirar carta de pesados.A estrada é curta daqui para a frente, mas convém que as rodas sejam resistentes, que a direcção já não é às curvas. A partir dos setenta vai em roda livre sem saber para onde, sem saber porquê, sem saber para quê e sem se lembrar para que serve o travão de mão. Se tem de se esbardalhar, que seja com o volante do Vin Diesel.

 

Todo este percurso atribulado mistura em cada lanço o masculino.

É fácil distingui-los. O homem percorre sempre o dele de triciclo.   

 

Ilustação - Fernando Vicente

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A Gaffe num teatro antigo

rabiscado pela Gaffe, em 27.03.17

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Lembro-me, já lá vão alguns anos, antes de voarmos pela Rua de Cedofeita todas as tardes em bando tresloucado de pardais, de pararmos no Piolho, café destinado a uma certa boémia quase decadente que atirava bolas de sabão aos muros da vida com a facilidade dos imaturos. Nesses fins de tarde, estalando gargalhadas e tilintando copos, víamos passar uma rapariga que nos intrigava, espalhando no ar os devaneios que se prendiam ao seu sorriso solar.

 

Lembro-me que usava peças desencontradas, oriundos de universos díspares, muitas vezes contraditórios. Tules de palcos barrocos, chapéus de Al Capone, rendas Sevilhanas presas nos dedos, blusas de românticas paragens, fitas de veludo nocturnas de Chopin, sapatos de rapaz que estuda em Oxford e lenços que eram pássaros a passar.

 

A intrigante figura de menina-puzzle provocava os mais diversos dislates nos rapazes e alguns remoques tontos na boca das meninas.

 

Deixei de a ver.

 

Como no tempo já passado do velho café das ilusões banais, vejo-a ainda a esvoaçar com as nuvens frágeis dos enredos que só ela sabia unir com a luminosidade do sorriso transparente.

 

Um belíssimo passar no Dia Mundial do Teatro

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Gavetas:

A Gaffe e as lolitas

rabiscado pela Gaffe, em 21.03.17

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Todas temos, nas mais matreiras das esquinas da nossa alma, prontas a saltar e a jogar à macaca, lolitas tão ou mais perigosas que a original.
 

Somos pérfidas, perversas, maliciosas e, quase por instinto, reconhecemos que a mais pueril das inocências se pode transformar numa lâmina que não vai apenas escanhoar o esperado. Ignorar as lolitas que espreitam, espertas, picantes, o momento exacto em que podem fazer silvar o chicote de uma das mais implacáveis formas de sedução, é arriscar demais, de olhos vendados.

       

O poder que subjaz a uma consciente inocência, tangente a uma infantilidade controlada, transforma uma mulher num crime. É inodora, incolor e não traz sal à superfície, mas não é seguro, para um rapaz desprevenido, entrar nesta aparente transparência. Mergulha, solto e leve, refrescado e calmo e duas braçadas depois, há sangue na água.

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A Gaffe em narrativa simétrica

rabiscado pela Gaffe, em 14.03.17

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O que torna uma mulher reconhecível no meio de uma multidão de extraordinária beleza?  

 

Os estudiosos declaram que é a simetria. Um rosto absolutamente simétrico possui a capacidade de ser considerado belo em todos os lugares e em todos os tempos. Atravessa as civilizações e nelas deixa marcas indeléveis, consegue aglomerar em seu redor a generalizada opinião que eleva as suas formas à condição de excelência e produz invariavelmente a unanimidade em relação à formosura que possui.

 

Eventualmente será assim.

 

No entanto, um querido amigo tem uma teoria diferente.

 

O que torna impossível uma mulher ser ignorada pode não ser a simetria do rosto, que de perfeita é incontornável, mas a história que o rodeia. A deslumbrante capacidade de prender o olhar, não a forma correcta do nariz ou o langor dos olhos iguais, quase duplicados e reflectidos por milagre, ou a harmonia constante das maçãs do rosto, mas a possibilidade de reter histórias ou a faculdade de despertar enredos no imaginário do mais comum dos mortais.

 

A beleza indestrutível é um misto de narrativas por escrever. Acorda o talento inventivo de cada um de nós e permite-nos a adivinha, o jogo, a fantasia, o devaneio e a ilusão de podermos alcançar a quimera que vamos sem saber construindo a partir do que não lemos.

 

A simetria auxilia a beleza, mas é o poder que a mulher retém de provocar histórias que faz dela única e a torna impossível de ignorar.

 

Imagem - Rachel Ruysch (Séc. XVII)

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A Gaffe a abanar

rabiscado pela Gaffe, em 07.03.17

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Mais cedo ou mais tarde, abanamos e sucumbimos à gravidade.

 

Se numa praia paradisíaca levantamos a mão para protegermos os olhos e existe uma brisa que nos refresca a tez, a idade faz com que o nosso braço pareça a bandeira vermelha desfraldada ao vento.

Se decidirmos escolher uma posição sexual diferente da do missionário, a idade faz com que os preocupemos em seleccionar aquela em que o parceiro nunca fica num ângulo inferior ao nosso, porque arriscamos a que o pobre nos veja tudo a cair.

A encorpada e gloriosa águia que tatuamos na coxa da nossa juventude, parece agora um frango encarquilhado pelas estrias e depenado pela casca de laranja que nos resta depois de sugado o sumo e mesmo os gomos aparentam desidratação.

 

Já não cruzamos a perna com a desenvoltura de outrora, chicoteando o ar e matando de inveja as acrobatas do Cirque du Soleil. A idade permite apenas que encostemos uma coxa à outra, a perninha esquerda a sustentar a amiga periclitante, com o rabo enfiado na poltrona e o joelho que tentamos levantar encostado às mamas.

Já não flutuamos pelas avenidas, de vestido quadrinho Vichy, muito Bardot, a fazer esvoaçar a nossa agilidade e silhueta. A idade faz-nos abanar por todo o lado. Faz com que pensemos que estamos cravadas numa daquelas cadeiras vibratórias ligadas a uma velocidade relaxada ou que temos incrustado e avariado o único sexo que ainda vamos tendo e que funciona a pilhas.     

 

Por muito que afirmemos que é mentira, a idade transforma, quer o nosso lazer, quer a nossa vida sexual, em preocupação.

 

As preocupações envelhecem.

 

Raparigas entradotas, ergam-se e libertem-se!

 

Retirem do baú os vossos biquínis exíguos, repletos de lantejoulas e, mesmo que desapareçam metidos nas estrias, ousem enfrentar as ondas com eles encaixados, porque o Verão, até o nosso, não pára de se repetir.

Desfilem de Vichy pelas avenidas. Afinal é vossa a glória de ter feito do padrão a coqueluche e ninguém como vos sabe vesti-lo.

Arrasem guarda-fatos e usem o que de mais estranho lá se encontra. A vossa vida é uma extraordinária colecção de cores, um inacreditável jogo de texturas, um impressionante acervo de formatos. A história de quem sóis conta-se toda assim, ao mesmo tempo.

Seduzi todos os homens que quiserdes! Afinal, a vossa experiência é uma mais-valia e sabeis perfeitamente que é uma monumental perda de tempo esperar que seja o romance a estender-nos na cama. Os percalços que porventura encontrará a vossa sedução podem ser minimizados se escolherdes um seminarista de província, ingénuo e angelical. Mrs. Robinson sempre foi uma das mulheres mais desejadas por todos os adolescentes espigados.

 

Podemos abanar no fim da refeição, mas é na mesa do jantar que foi servido que devemos saborear comme il faut a sobremesa.

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A Gaffe usa calças

rabiscado pela Gaffe, em 02.03.17
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A perspectiva misógina, machista e beata é sempre suportada pelo estereótipo e contém inevitáveis preconceitos.

Sendo a mais básica e sintética formulação do pensamento, o estereótipo - em consequência falso e enganador -, é também a mais fácil forma de comunicação de massas. Propaga-se com facilidade, endurece facilmente e permanece como um gato morto tombado na mesa do jantar. Ninguém o remove porque toda a gente espera pela chegada do messiânico mordomo que servia D. Sebastião.

 

A ligação que é feita entre o comprimento da saia de uma mulher e a sua personalidade é das mais enraizadas tolices de que há memória - uma memória de passado longo e com um futuro promissor -, mas é também e ainda o mais rápido modo de formular um julgamento acerca do mistério feminino.

 

Apanham-se as migalhas quando o banquete cobiçado é interdito.

 

Para uma mulher inteligente esta idiotice é divertida e aumenta-lhe as hipóteses de brincar com toda a espécie de tolos bem-parecidos. Permite-lhe ser, em cada saia, a mulher que um palerma qualquer deseja no escurinho dos seus estereótipos. 

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A Gaffe fisgada

rabiscado pela Gaffe, em 22.02.17

 

Se resta alguém que pense que somos feitas de rendas, folhos, organza e tule, de esvoaçante poesia imaculada e virgem, de asas diáfanas envoltas em alvas madrugadas, que tire o cavalinho da chuva.

 

Podemos ser tudo o que se pensa e mais do que isso, mas jamais nos esquecemos de trazer, junto à alvura da inocência e do cristalino esbracejar das nossas asas, a arma que fez tombar Golias.      

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A Gaffe labial

rabiscado pela Gaffe, em 10.02.17

A Gaffe traz-vos uma novidade!

 

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Reconhecido, pelas instâncias do mais superior que há, o seu irrepreensível gosto, a Gaffe surge na Baton palrando comme d’habitude acerca do amor.

  

Não há nada como trazer na carteira uma boa revista.

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A Gaffe adornada

rabiscado pela Gaffe, em 07.11.16

As mulheres adornam-se desde tempos imemoriais. Os objectivos são inúmeros e as razões variadíssimas. Ciclos de fertilidade, etapas de crescimento e de maturidade, ritos iniciáticos ou ondas de sedução, religiosa ou pagã, tornaram o corpo, preferencialmente o feminino, num palco de excelência.

 

Neste metamorfosear de fascínios, a arrogância masculina chamou a si a possibilidade de o adorno ser a homenagem da mulher que se objectifica através do somatório de atavios, marcas, signos, enfeites ou adereços, submetendo-se à capacidade de domínio do macho, contrariando a mais habitual forma de seduzir das outras espécies em que é o macho que se enfeita.

 

Na esmagadora maioria das vezes, esta certeza é um dos masculinos momentos de ilusão, porque não tem em conta que se nós, raparigas, sobre o corpo colocamos os mais extraordinários signos de beleza, fazemo-lo sobretudo porque a nossa pele exige que nela sejam depostas todas as jóias que inventamos.

 

Adornamo-nos sobretudo para nós. O resto são despojos. 

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A Gaffe dos Recursos Humanos

rabiscado pela Gaffe, em 26.10.16

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Quando ouço falar da Guerra dos Sexos encontro sempre aliada a esta questão o problema da beleza feminina como adversária ou auxiliar importante no campo de batalha. Embora, na realidade, não considere existir um conflito incontornável, assumo que a inteligência é quase sempre indirectamente maculada pelo facto de, por estereótipo, se considerar que uma mulher bonita tem o cérebro mirrado, talvez porque o sangue não o irrigue convenientemente, tão disperso está pelo comprimento das pernas deslumbrantes.

 

A beleza, sobretudo a feminina, é não raras vezes um entrave ao sucesso muitas vezes garantido ao homem sem que este dê provas de qualquer capacidade para o merecer, porque impulsiona e eleva as expectativas depositadas no feminino, colocando a fasquia de tal forma alta que a falha pode ser inevitável.

 

De uma mulher bonita espera-se que prove, com maior grau de exigência, a sua competência, eficácia e inteligência. Parte-se vulgarmente do princípio que a loira platinada, de corpo digno de figurar no catálogo da Vogue, vertiginosamente atraente e ondulante, não pode ter o cérebro povoado a não ser por futilidades e métodos de fisgar um milionário. A loira burra, com todo o seu esplendor e perfeição anatómica, é quase sempre objectificada, considerada um troféu ganho pelo macho ou, na melhor das hipóteses, a protegida do Presidente. Terá de dobrar o seu esforço para solidificar o lugar que ocupa e provar que pensa.

Parte deficitária.

 

Para ilustrar o dito - e reconhecendo que a juventude/velhice são premissas de importância capital  no conceito actual, e ocidental, de beleza - recorramos a duas ilustres senhoras de um tempo já ido para não melindrar ninguém:

De Carla Bruni não se esperava nada, a não ser que subisse os degraus do jacto privado com os rasos sapatinhos Prada, que miasse de quando em vez e que cruzasse os pezinhos como bailarina bem comportada na presença de Sua Majestade Isabel a segunda. Embora seja evidente a inteligência astuta e poderosa da modelo, terá de se esfolar dolorosamente ou apresentar ao mundo um renovador tratado de filosofia política para se tornar credível. De Manuela Ferreira Leite não nos espantamos que tropece na subida, sapatos pelo ar e saiote desfraldado, com todos os tratados comunitários e estudos económicos agarrados aos dentes, porque a inteligência não colide com a beleza e portanto não nos permitimos duvidar da sapiência da ilustríssima senhora.

 

Evidentemente que se pode e deve contornar este percalço estereotipado.

Uma mulher inteligente jamais abdicará do facto de ser considerada bonita. Usa-o.

 

Os homens podem desbravar caminho abdicando dos seus princípios ou de irrepreensíveis comportamentos éticos. O Presidente Executivo da Empresa pode ter sido um sacana, um pulha e um patife ou ter bebidos uns copos com as pessoas certas no seu percurso até à liderança e ser reconhecido pelos pares como aquela criatura invulgarmente inteligente que soube atingir o topo à custa de muitas feridas que lhe ensanguentaram as mãos. A Presidente Executiva da Empresa se for ao mesmo tempo um modelo de Dior é, muitas vezes, a cabra que dormiu com toda a gente.

 

Partindo deste pressuposto, a mulher inteligente reconhece que a Beleza não pode ser asfixiada em nome de um estereótipo com origem no entendimento masculino do universo. Usa - e tem obrigação de o fazer - o fascínio que é capaz de produzir com a mesma eficácia com que os homens se esventram com um Power Point elaboradíssimo que aniquila a concorrência.

 

A beleza feminina é uma arma poderosíssima ao serviço da inteligência. Ninguém mentalmente saudável  inutiliza, ou despreza como reprováveis, os dados favoráveis que possui e com que pode jogar na vida.

Se o vislumbre do soutien que protege a beleza insuperável consegue defender aquilo que consideramos justo bem melhor do que a catrefa inútil de gráficos coloridos que serão ignorados por completo, que se prenda então a papelada imprescindível à renda de uma alça.

 

Ganhamos nós, mulheres, e ganha a Empresa.

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A Gaffe dos genes

rabiscado pela Gaffe, em 21.10.16

F. Vicente.jpgGrande parte do poder de sedução de uma mulher, das ciladas que ergue em redor da vítima, do irreversível precipício no seu corpo, não está na importância, mas exactamente na pouca importância que atribui às coisas.

 

Um zoólogo que por aqui passou e deixou na Gaffe tenazes e animalescas recordações falou-lhe - não sei se lhe mentiu, mas se o fez foi por causa forte, - no erro genético que produziu as panteras de cor negra.
Não são de modo nenhum uniformes, da cor da noite por inteiro, e as manchas, essas mais negras ainda do que resto, são visíveis nos seus corpos maleáveis e esguios se lhes dedicarmos atenção e lhes respeitarmos o perigo. 
A genética que lhes apagou erradamente a cor ocre fez do animal um dos mais perigosos do reino.


A Gaffe suspeita que a mesma genética que apagou o ouro dos felinos, dissolveu nas mulheres a capacidade de atribuir demasiada importância aos homens que desejam ou àqueles que querem caçar, transformando-as em gatinhas mornas e preguiçosas que aguardam que a presa fique ao alcance das garras e que esperam que seja impossível deixar de acariciar.


E como gatas que somos damos pouca importância à durabilidade das coisas.

 

Ilustração - F. Vicente

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A Gaffe loira

rabiscado pela Gaffe, em 21.09.16
 

O estereótipo da loira burra, que terá o seu paradigma nas fantásticas encarnações cinematográficas de Marilyn Monroe, é a origem de imensas anedotas, na esmagadora maioria banais e sem grandes ambições.

 

É lamentável.

 

A loira burra, quando não roça o boçal ou o alarve, encaixada em qualquer casa que se deveria manter definitivamente entaipada e em segredo, é uma das mais encantadoras criaturas de que há memória.

A indiferença abissal com que olha o universo e a sua ingenuidade, terna e desprotegida, aliada à suposta ignorância que faz recair sobre aquilo que os outros, por desígnios divinos, consideram essencial conhecer ou saber, torna-a deliciosa e capaz de enfrentar os olhares engavetados e espartilhados, que a amesquinham e ridicularizam, com a superioridade indiferente e a indiferença superior que são atributos apenas dos sábios e dos loucos.

 

Subestima-se a loira burra.  

 

Não há nada mais delicioso do que a ver, por exemplo, chegar esbaforida e revolta ao hall do hotel, no Nilo, gritando que está a ser perseguida por um Lacoste ou ouvi-la declarar surpreendida que, naquela exótica paragem, viu o guia enfiar-se, durante a tarde escaldante, dentro de um saco cama da mesma marca.

 

Esta perversa inocência é muitas vezes ignorada no comportamento desta adorável figura. Valoriza-se a sua suposta estupidez e a sua abismal ignorância, fazendo-se por esquecer que, nesta inconsciência tão depreciada, existe uma miríade de pequenos mundos onde apenas alguns, dos mais libertos e arejados, conseguem vislumbrar condignamente.

Divertem-se juntos.

 

Para mal dos meus pecados, sou uma ruiva.

 

Ilustração - Redmer Hoekstra

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A Gaffe garbosa

rabiscado pela Gaffe, em 22.07.16

There are many things in your heart you can never tell another person. They are you, your private joys and sorrows, and you can never tell them. You cheapen yourself, the inside of yourself, when you tell them.

Greta Garbo

 

Li há muito pouco tempo uma espécie de biografia de Greta Garbo.

Digo espécie porque é idiota pensar que alguém pode entender o que foi esta mulher e descrever com alguma exactidão o seu percurso, as suas vivências e aquela modalidade de Fado distante e gelado que sempre a acompanhou.

 

O interessante é que a dada altura é narrado o episódio em que a actriz revela um dos seus segredos. Em Ninotchka, de 1939, dirigida por Ernst Lubitsch, Garbo não consegue a expressão que o realizador exige para determinada cena. Repete-se até à exaustão o take e a actriz reconhece que não é capaz de reproduzir no rosto aquilo que Lubitsch acha necessário. Nenhuma expressão é a exacta.

Garbo desiste e decide não fazer qualquer expressão. Nenhum músculo se move. O rosto permanece imóvel, impávido, isento de qualquer poeira de emoção ou reprodução de sentimento e é então encontrado o registo certo. Parece que Lubitsch teve um orgasmo - não documentado.

 

Isto é fascinante. O rosto impávido de Garbo torna-se máscara onde é possível inscrever todas as emoções que transportamos e serve, como um espelho, cada uma das miríades de partículas de ausência, falha, perda, privação ou carência latente em cada um de nós.

Garbo é um Mito também por isto. Por se ter tornado o rosto que a alma que cada um de nós quer ver ao espelho.

 

Olho para Garbo e lembro-me da história que contavam.

 

O segredo do rosto de Garbo é - talvez seja, - simplesmente o facto dele, rosto, residir na plataforma das máscaras e como tal poder ser lido através de projecções.

 

Olhar para o seu rosto, sobretudo quando silencioso, é desbravar as infinitas possibilidades da dignidade e da dimensão humana.

 

A tentação da máscara - a máscara antiga, por exemplo - implica talvez não tanto o tema do oculto - caso das mascarilhas italianas, - como o de um arquétipo do rosto humano. Garbo dava a ver uma espécie de ideia platónica da criatura e é isso que explica que o seu rosto seja quase assexuado, sem todavia ser ambíguo.

 

O rosto de Garbo é a encarnação da Ideia.

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A Gaffe inquisitorial

rabiscado pela Gaffe, em 19.07.16

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Este é o calor de Espanha Inquisitorial.

 

Brota do chão o sol como das ânforas. Erguido a pique trepa sequioso à fronteira da água, ao bordo das paredes, para sulcar no curvar do espaço a mais pequena folha do loureiro. 

A poeira extenuada quieta abrasa. A cal escalda branca só de sede e aos degraus das horas trepam cães perdidos.

O lacrau na cal. A carne em carne-viva dos morangos. O lanho das laranjas labaredas.

As agulhas do sol picam os pássaros parados na água extenuada, quente, com peixes apunhalados pela luz de ferro que se espetou no corpo em cicatriz de espera.

O sol de Espanha dos inquisidores uiva à meia-noite.

 

Calor que arrasta mulheres antigas por pátios de laranja quente. Mulheres de Espanha e de veludos negros, veladas por mantilhas, tapadas pelo ouro dos massacres. Mulheres de rendas pretas e pesadas de olhos atados a incêndios. Cegas, lume a lume, lança a lança, atravessadas pela adaga das cruzes de marfim. Mulheres de sevilhana nas asas do cabelo a arder de seda contra a sombra, a entrançar nos dedos orações. Dedos fechados nas crinas do erotismo do sol erguido a prumo.

Mulheres deitadas na pele do Cristo nu. De punhos cerrados e almas sem penumbra a espiar a sombra dos sussurros.  

.
Voy a cerrar los ojos y tapear los oidos
Y verter outro mar sobre mis redes
Y enderezar un pino imaginário
Y desatar un viento que me arrastre 

 

O Calor é sempre inquisitorial.

 

Imagem - Carlo DolciMadonna (detalhe)

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