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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sem brilhos

rabiscado pela Gaffe, em 28.12.16

 

Segundo os especialistas em neuromarketing - eu sei, há profissões sinistras -, com a concordância de neurocientistas de renome e muito sumariamente dito pela Gaffe, os diamantes são realmente os melhores amigos das mulheres.


Não é necessária a parangona publicitária dos primeiros, nem a comprovação científica dos segundos. Uma rapariga que prefere um deslumbrante ramos de flores a uma gargantilha de brilhos preciosos, ou não é, de todo, esperta, ou está definitiva e irremediavelmente apaixonada - o que em muitos casos é redundância.


O brilho desperta regiões cerebrais que impulsionam o consumo.


Subornamos, traímos, mordemos, sacrificamos e lancetamos o coração de quem quer que se aproxime dos brilhos afiados e ofuscantes que vemos, quase cegas, a cegar-nos.
Compramos mais, se encandeadas.


Creio que o mesmo acontece com os masculinos carros a que a testosterona junta uma parafernália de luzes.

 

Por isso, seguida devidamente pelo neuromarketing e pela neurociência - sou um rapariga de boas companhias -, declaro oficialmente de uma pobreza incomensurável e sério contributo para o agravamento da crise, as ruas do Natal 2016, paupérrimas de brilhos de milhares de luzinhas pirosas e pindéricas a tremeluzir, a cintilar e a luciluzir, em cima da nossa apagada esperança já sem fio nem tomada.   

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Gavetas:

A Gaffe com duas avós

rabiscado pela Gaffe, em 26.12.16

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Tinha olhos que lembravam um País arrancado ao mar e a fragilidade insuspeita da tulipa. Tinha esguios dedos sem anéis e um colar de pérolas eterno que enrolava nos dedos. Tinha a benevolente paciência dos ouvintes ternos e a doçura das palavras certas ditas baixinho para não doer. Tinha cabelos de seda apanhados na nuca por travessões de tartaruga e usava calças cigarette, blusas de gola alta que a alongavam e a transformavam em cisne ou em espiga de trigo. Tinha a voz dos meigos, aquela voz que é bom ouvir quando troveja, e um sorriso de lua a crescer numa noite de Verão. 

A minha avó materna.

 

Tinha olhos avelã e espertos, ladinos, marotos. Usava Chanel à toa, misturando tudo por não ter paciência para combinar. Usava adereços gigantes e tinha um anel com um rubi espalhafatoso como o planeta Marte. Tinha o cabelo branco, com ondas e quebras, sempre em desalinho e blusas com folhos para não contrastar. Era bem mais pequena, mas era mais arisca. Tinha perdido a paciência pelo mundo fora e cortava as conversas sem dó nem piedade, fazendo ficar discursos a meio. Enganava-se em tudo, disfarçava depois espetando farpas em palavras soltas que surgiam incautas na boca dos outros. Tinha um sorriso aberto de lua a pairar nas noites de Verão.

A minha avó paterna.

 

As duas amigas. Cúmplices perfeitas. Chegavam, braços dados, à Ceia de Natal da família toda.

Devagar, as duas disfarçando o tédio, sentavam-me no meio dos perfumes díspares que teimavam usar.

 

- Viemos ter consigo. Aqui a menina é a única coisinha a funcionar.

 

As minhas Avós.

 

Neste Natal, não estiveram comigo. Não me sentaram nos aromas que espalhavam, e no entanto nunca esta casa teve um Natal tão perfumado pela maravilha da memória delas. 

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Gavetas:

A Gaffe acordada

rabiscado pela Gaffe, em 24.12.16

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No Japão velhíssimo diziam que quando não conseguíamos adormecer à noite, era apenas porque estávamos acordados num sonho de alguém.

 

Que hoje o Pai Natal não vos deixe adormecer. 

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Gavetas:

A Gaffe nas comprinhas de Natal

rabiscado pela Gaffe, em 22.12.16

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Rapazes! Não são, de todo, recomendáveis as vossas críticas mordazes e humilhantes às escolhas femininas, por mais ridículas que estas sejam.

 

É que há sempre a hipótese de serdes uma delas.       

 

Ilustração - Fernando Vicente

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A Gaffe vitrinista

rabiscado pela Gaffe, em 21.12.16

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O meu casaco é azul-escuro, um marinheiro genuíno, de trespasse, com botões dourados envelhecidos com âncoras gravadas. Visto-o e empurro os rebuços de modo a que me protejam a nuca das navalhas do frio e desço para vaguear pela Avenida deserta. Do lado do mar, que do outro as montras titilam e tilintam com luzinhas frouxas de Natal e neve em spray a desenhar felicitações aos passageiros.

  
Do lado do mar faz frio. Gela-nos o nariz. Faz-nos parecer eternos constipados.  
Uma mulher de cabelo solto e grisalho apanha pedras na praia e guarda-as num saco. Pedras ou conchas, que daqui não vejo.  
Um homem novo corre pelo trilho das bicicletas de calções de Lycra pretos e t-shirt molhada, medindo o tempo no cronómetro.


A praça em frente ao Porto Doce é pequena, quase nua e circular, cinzenta e bege, com bancos pintados de vermelho. Gosto da Praça, mas não gosto do café que fica em frente com aquele nome adocicado. Gosto de ficar ali, parada e sem pensar em nada, a ver os trolhas velhos que descarregam vidros e os seguram com as palmas das mãos abertas e gritos de aviso. Gosto da rapariga que passa por mim e me sorri, aconchegando os rebuços do casaco que não é marinheiro genuíno, mas que vem do mar e é azul também. Tem dois livros na mão e luvas de malha cor-de-rosa. Gosto dos cães que o senhor de bombazina traz pela trela e que urinam nos pneus dos carros depois de os seleccionar criteriosamente. Gosto do meu casaco com rebuços que me recolhem os olhos.  

 

No ano anterior, no oculista caro, o cenário era atroz. Na montra tinham recriado um sem-abrigo usando um boneco deteriorado, com uma barba miserável, pintada a marcador e um gorro na cabeça. Deitado num banco, coberto com uma manta escura com riscas vermelhas, a olhar, morto, para nada, com cascatas de luzinhas e estrelas em redor. No chão os espampanantes Just Cavalli e mais neve em spray.

 

 No ano anterior, na época alta da solidariedade, a olhar esta montra, reconheci a existência de criaturas que amesquinham a própria infelicidade e o desmesurado rancor despeitado com que atacam o sorriso dos outros. Como pietás de pechisbeque, agarram com metáforas e elegias piedosas os sem-abrigo, os míseros, os abandonados à demência, os velhos em farrapos, os mendigos, os exilados, os párias e todos os que encontram nas esquinas mais sombrias da tragédia e como viúvas beatas de Ebenezer Scrooge transformam-nos em macacos, em bonecos atrozes, expostos nas montras das vidas de quem passa, como esconsa vingança infectada por um doentio ciúme das luzes nos olhos dos outros, como se a miséria que macaqueiam desta forma tivesse uma época alta onde a obrigatoriedade de tomarmos consciência da morte e da desumanidade fosse sazonal e, como na época dos saldos, fosse imperiosa a correria desenfreada, de terço ao pescoço e cilício na alma, às catacumbas da infelicidade empática. Só porque é Natal.

 

 Fazem da miséria humana um macaco de montra de oculista.


Visto o meu casaco, um marinheiro genuíno, azul-escuro, de trespasse, com botões dourado envelhecido e volto à minha Praça, nua e quase circular.  
Já não existe a mulher de cabelo solto e grisalho. Já apanhou todas as pedras. Pedras ou conchas, que daqui não vejo bem.

Sinto um orgulho desavergonhado em ser feliz.  

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A Gaffe e um monge

rabiscado pela Gaffe, em 20.12.16

 

Esta é uma das imagens que durante esta quadra se torna das mais triviais por estas bandas.

 

Normalmente inicia a época de posts natalícios e faz subentender que debaixo de um rude, quase ameaçador e duro rapagão, pânico de beatas e de monjas, se oculta toda a doçura, que permanece intacta, de um imaginário infantil nunca apagado.

 

Agrada-me pensar que este é também o retrato de um abandono protegido e temporário do chamado espírito do Natal, o fim de festa de uma fantasia sazonal e que constitui uma certa recusa insinuada do irritante O hábito faz o monge.

 

Por muitos hábitos que se tenha ou que se use, há sempre resguardado, no fundo de cada um de nós, aquele que foi nosso, para o bem ou para o mal, durante o tempo em que a maioria das nossas histórias começava por era uma vez e tinha sempre um final feliz.

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A Gaffe com Néstum e mel

rabiscado pela Gaffe, em 20.12.16

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Inês - Os passarinhos foram feitas pelo Pai Natal para mostrar como seriam as flores se voassem.

Branca - Mas se as flores voassem ia ser uma confusão para as borboletas!

 

Inês e Branca (6 e 5 anos, respectivamente)

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A Gaffe com prendinhas de Natal

rabiscado pela Gaffe, em 27.09.16

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Perguntam com pertinência porque é que a Gaffe se atreve a focar este assunto tão absurdamente cedo.

A Gaffe refere que nunca é fora de tempo prevenir a tempo as amiguinhas de meia-idade que preparam com uma antecedência digna de dó as suas prendinhas de Natal, manufacturando os seus miminhos com um carinho tão adequado à época que se adivinha muitíssimo ao longe, quase uma miragem.

Minhas queridas, este ano evitem o mais do mesmo. Há coisinhas que elaboram com ternura infinda que deviam ser exterminadas à nascença, reduzidas a pó e depois enterradas em cocó de rena.

A Gaffe vai mencionar cuidadosamente as três mais medonhas que fazem das peúgas tradicionais uma oferta Cartier.

I

Caixinhas de madeira com decalques

 

As tabuinhas compram-se nos chineses. Por dois ou três euros ficam com o armazém repleto. As tampinhas podem não fechar em condições, mas tal é um detalhe a disfarçar com um laço. Os decalques são vendidos pelas senhoras dos workshops vocacionados e especificamente dirigidos a palonças, a matronas e às minhas queridas que adoram trabalhos manuais e que não são uma coisa nem outra. São só parvas.

Aprende-se a esbardalhar por toda a caixinha macaquinhos, florinhas, princesinhas, bonequinhas, ursinhos e casinhas e, para rematar com chave de ouro, o nome dos destinatários.

Envernizam-se e deixam-se secar. Dão guarda-jóias, biscoiteiras, pequenos baús de recordações, guarda-chaves e tudo o que nos vier à lembrança. Versáteis e mimosos e fáceis de fazer desaparecer.

A única desvantagem que apresentam são as esquinas, os vértices, os cantinhos, que nos rasgam sempre os sacos do lixo e nos deixam constrangidas quando se solta dali o passe-partout que as acompanhava e que com elas fazia pendant.

II

Imagens de gesso pintado

 

Abastecemos nas mesmas superfícies.

Há imenso por onde escolher, mas os presépios são de enorme procura.

Os workshops pululam e facilmente as senhoras ficam aptas a esbardalhar a tinta nos macacos.

Normalmente S. José fica com um ar de toxicodependente, Maria com cara de quem teve um parto brutalmente difícil e o Menino com aspecto de quem é portador de doença rara. O conjunto em tons terra parece que foi achado na sarjeta, mas as minhas queridas acham que é sempre amoroso oferecer o trio sagrado de coloridas vestes, mesmo que tenham hesitado antes em marfinar todas as peças - operação que as faz parecer moldadas em manteiga rançosa solidificada depois de exposta ao sol da Palestina.  

 III

Arranjos florais

  

As bases encontram-se nas lojas do costume.

Os elementos a alocar variam com o gosto. Há workshops que ensinam a cravar na esponja uma miríade de elementos que abarcam flores secas, raminhos e tronquinhos de madeira apodrecida, bolotas, folhinhas de azevinho, bolinhas de Natal, lacinhos de tafetá, conchinhas, pedrinhas, bichinhos, um bocadinho de hera e as inevitáveis velas perfumadas. Podem ser pequeninos e fofinhos ou do tamanho da roda de um tractor. O efeito é o mesmo.

Estão destinados a esbardalhar a mesa da Consoada. Largam estearina na toalha, deixam o ar saturado, a cheirar a morango ou a baunilha queimada, e correm o risco de desaticulação quando os retiramos muito à pressa e os largamos na varanda para arejar.

 

São três pequenos mimos que as senhoras de meia-idade devem evitar oferecer neste Natal. Para além de já não haver espaço para os armazenar nos blogs da especialidade, ficamos com sempre com uma certa nostalgia das peúgas tradicionais tricotadas à mão de modo tão empírico, antes de aparecerem os workshops.   

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A Gaffe deseja-vos

rabiscado pela Gaffe, em 23.12.15

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A Gaffe mensageira

rabiscado pela Gaffe, em 29.12.14

Grant WoodA Gaffe ainda não se focou na mensagem de Natal do Presidente das República por três razões de peso:

- Porque sempre lhe disseram que tocar num osso enquanto a matilha o vai roendo, aumenta as probabilidades de se ser mordido;

- Porque, digam o que disserem e por muito ecuménico que seja, não é de bom-tom misturar festividades, diminuindo as hipóteses de nos vermos com mais do que um presente;  

- Porque o Halloween é um festejo irlandês que se americanizou em demasia.

A verdade é que as mensagens de Natal presidenciais nunca foram momentos cintilantes. Abre-se uma excepção para a doçura e alegria das da família Clinton que incluíam sorrisos, cães, petizes, relva, saltinhos e estrelinhas, mas desde que Clinton insinuou o encetar de relações com Cuba mostrando o charuto, a coisa descambou. Obama aparece sisudo com a cabeça de Michelle a ocupar todo o cenário, como um incauto aventureiro jurássico que não se apercebe que tem mesmo atrás um Tiranossauro Rex.

As mensagens de Natal monárquicas são mais comedidas. A hereditária experiência mostra aos coroados que basta um membro do casal real para imitar a Miss Universo e desejar paz no mundo. Filipe de Espanha e Isabel de Inglaterra, por exemplo, para além dos alfinetes ao peito – cada um no seu género – revelam ter em comum a noção de parcimónia que impede que o cônjuge faça mais uma vez figura de parvo.

A solução encontrada pelos assessores de imagem do Presidente da República portuguesa não é, de todo, satisfatória.

Colar ao lado de Cavaco Silva um poster de má qualidade com a fotografia em tamanho real de Maria Cavaco Silva, não resulta. Compreende-se que o usem quando em cerimónias oficiais a senhora não tem de andar muito ou não exista uma carteirita de cortiça, um porta-chaves, uns sapatitos, uma caneta ou um outro qualquer presentinho no fim da linha, mas não é aceitável quando se tem de ajudar a convencer um povo que o seu presidente não foi criogenado.  

Tornaria tudo incomparavelmente mais dinâmico se se juntassem todos os presidentes num estúdio a entoar We Wish You a Merry Christmas. Seria interessante tentar distinguir os mortos dos vivos e talvez em polifonia passasse despercebido o facto de todos nos cantarem a mesma coisa em todos os natais da nossa história.      

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A Gaffe sôfrega

rabiscado pela Gaffe, em 25.12.14

Natal.gifA melhor forma de sentirmos que durante todo o ano há estrelas que brilham presas nas árvores das pestanas de quem se quiser é aproveitarmos todos os pedacinhos do Natal.

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A Gaffe habitual

rabiscado pela Gaffe, em 24.12.14

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A Gaffe com arroz doce

rabiscado pela Gaffe, em 22.12.14

Al Brule..jpgO desafio partiu do Francisco e sendo ele um rapaz distraído vou tentar fornecer-lhe os links para não me repetir de forma maçadora e tentar escapar às nomeações obrigatórias.  

 

Árvore de Natal artificial ou natural?

Enfim, faz-se o que se deve. Quem não tem cão, caça com o gato.

Natal com neve ou sol?

Já só peço um frio de fazer congelar o Pai Natal sobre a minha chaminé.

Esperar pela manhã ou abrir os presentes à meia-noite?

Abrir presentes à meia-noite. É uma meia-noite absolutamente mágica que faz com que qualquer presente brilhe nos olhos de quem o ofereceu.

Qual o filme que adora ver nesta altura?

Mas há televisão nesta noite?! Se houver, quero estes.

Cânticos de Natal no Shopping. Sim ou não?

Se falamos do coro de Santo Amaro de Oeiras, nem nos elevadores.

Qual o uniforme que usa no dia de Natal? Pijama ou veste-se toda bonita?

Visto-me muito melhor porque uso a tradicional camisola de Natal que herdei do meu avô.  

Qual a sua comida de Natal favorita?

Batatas cozidas com bacalhau, ovo, cenouras, couves e alho esmagado, tudo regado com uma dose descomunal de azeite, comme il faut!

O que quer receber este Natal?

O que está dentro do coração de quem tenho dentro do meu e a notícia de que não é o meu irmão a decorar a árvore.

Planeia antecipadamente os presentes de Natal ou é à últmia hora?

Deixo tudo nas mãos do espírito de Natal e convenço-me sempre que vou encontrar o presente ideal para toda a gente mesmo ouvindo já os guizos do trenó natalício.  

Veste-se de Pai Natal?

Não. Sou uma menina de uma família muito conservadora que não aprecia fatos de fibra e pêlos artificiais à mesa da consoada.

Qual a sua música favorita de Natal?

Frank Sinatra e I’ll be home for Christmas e todas as outras que me lembram um Natal antigo.

Onde vai passar o Natal este ano?

No Douro, como sempre, ao lado de mais de duas dezenas de paixões espalhadas pela família.

 

Ilustração - Al Brule

 

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A Gaffe no lado sinistro do Natal

rabiscado pela Gaffe, em 22.12.14

Natal.jpgO mais assustador da época de Natal não é a visita dos vizinhos que custe o que custar acham por bem vir desejar-nos Boas Festas, mesmo quando não sabiamos que o pecado morava ao lado. São uns queridos, embora nos façam duvidar se é aconselhável trazer com eles o cão e as crianças. O que arrepia é a quantidade vezes que a Gaffe lê e ouve:

- Um desfile de Pais Natal nus em solidariedade com a TAP;

- Concentração de Pais Natal junto à cadeia de Évora;

- Manifestação de Pais Natal em protesto contra a exploração das renas;

- … Pais Natal por todo o lado.

Meus queridos, Pais Natal não existe, pese embora o que nos é dado deles ler na televisão.

O único Pai Natal admissível é o velhote simpático e bonacheirão que pertence ao imaginário infantil com a bênção da Coca-Cola. Pais Natal é apenas o que se poderá chamar uma calinada do arco-da-velha. Se nos referimos aos aglomerados de rapazes enfiados numa fatiota vermelha de fibra ranhosa, comprada numa loja chinesa, com pedaços de algodão a descolar na cara e barrete de forcado, convém chamar-lhes pais natais e sobretudo não esbardalhar cópias nas janelas.    

Uma das mais arrepiantes imagens do Natal é esta última. Pais natais que se cravam nas varandas como se tivessem sido cuspidos do trenó numa curva mais apertada e estatelado contra os ferros forjados das nossas noites de Inverno, ou então versões do Chucky que procuram assolar os nossos sonhos natalícios durante semanas a fio. São pais natais secos, mirrados, desossados e torcidos, anões que oscilam ao vento e pingam encharcados numa eterna incapacidade de dobrar o parapeito. Não são bonitos, arrepiam e assustam. São substituídos, às vezes, por quadrados de pano vermelho com o Menino Jesus estampado. É igualmente sinistro, mas pelo menos deixamos de nos sentir assustadas sabendo que há uma coisa antropomórfica a tentar entrar no nosso quarto.

Pendurar na varanda um bacalhau seria igualmente imbecil, mas preferível. Teríamos um demolhar mais ecológico.

Outro apontamento a repensar nesta época é a mania de se atirar com um único fio raquítico de luzinhas de Natal para cima de uma árvore digna e frondosa e pensar que ficou gira. A pobre acaba a parecer que usa fio dental comprado numa qualquer sex-shop manhosa. O crime só tem compincha quando se preenche o arbusto da entrada com a colecção completa de luzinhas dos OVNIS que o dono da casa costuma avistar. É um piscar incessante e nervoso capaz de provocar ataques epilépticos a qualquer transeunte menos prevenido e absolutamente stressante para a ramagem que não vê chegar o fim da tortura, porque existem ainda os escuteiros.

Os presépios dos escuteiros crescem desalmadamente. Qualquer jardinzito público viçoso é pasto para estas criaturas capazes de transformar nesta época um relvado bem tratado numa pasta empapada e enlameada onde enterram muitos paus, com muitos nós e muita tela, muitos troncos, muita palha e muita corda. O presépio fica sempre parecido com uma tenda dos Sioux depois de uma carga de pioneiros americanos e o jardim com as hostes de Custer após a tareia de Touro Sentado. É aconselhável que durante o Natal não se permita que estes rapazes saiam dos bosques onde vão acender lareiras e cozinhar coisas simples. Em alternativa poderemos sempre obrigá-los a cantar o Jingle bells enfiados na neve até que os bells deles deixem de tocar.

A estes pequenos contratempos natalícios, a Gaffe acrescenta que, cedo ou tarde, se vai esbardalhar contra os miúdos do coro de Santo Amaro de Oeiras

 

A toooodos um bom NataaaaAAAAALLLL

A toooodos um bom NataaaaaAAAaaaL

 

mas acredita que, depois de ter enfrentado o referido, os encarará com uma atitude já muito Lexotan.

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Gavetas:

A Gaffe acredita

rabiscado pela Gaffe, em 18.12.14

today.jpgPorque o dia começa a tremer de frio; porque o nosso pijama tem laços de miosótis bordados na gola; porque há pão com manteiga e chá quente na mesa do pequeno-almoço; porque podemos ouvir Frank Sinatra e I’ll be home for Christmas; porque o cão se sentou ao nosso lado e adormeceu encostado às nossas pernas; porque na jarra de vidro fosco há azevinho; porque uma bola de vidro tombou da árvore de Natal e rolou até parar aos nossos pés; porque o ar nos cheira a fresco como se tivesse sido lavado com um sabonete antigo; porque nos apetecia que nevasse, mas sabemos que tomba do céu o silêncio matinal das ruas; porque a manta de lã da Covilhã adormeceu amarrotada no sofá da véspera; porque sentimos que tudo nos fala de azul, enquanto lá fora a rua começa a misturar as cores; porque o gato na janela da frente nos olha sonolento com a placidez dos monarcas; porque as coisas mais pequenas são aquelas que nos tornam gente grande.

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