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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe longe de casa

rabiscado pela Gaffe, em 28.08.14

Em Boerum Hill Inn, na esquina de Bergen com a Heyt, sobre o balcão que brilha coberto por um espelho, existe o jazz ouvido pelos homens de Manhattan.

Jazz arrastado e engolido num sorvo pelos solitários das secretarias de Midtown com apartamentos luxuosos com vista para a ausência, rasgada janela do desassossego.  
São homens espalhados pelo chão. De pé, como se estivessem deitados. Com olhos que fervem no escuro e arrepio nos gestos que são tiques. A flor da pele nervosa, à flor da pele e a amargura retesada da impaciência na solidão de gravata solta e dedos presos no turbilhão do jazz.  
Ficam quase sempre sozinhos.  


Mas é em Boerum Hill Inn onde se ouve jazz que eu vejo duas mãos entrelaçadas. As do homem envolvem as da rapariga como se fosse pão e houvesse fome, como se não houvesse mais corpo a recolher na concha do sossego. Deixam-se mesclar como nada houvesse ali a não ser jazz.  
O homem usa uma cadeira de rodas. A rapariga encosta a perna à inutilidade magra do joelho do amante. É poderosamente nova, quase adolescente, e contrasta com a máscula dureza madura do que lhe afoga os dedos. Olham-se como se um fosse um cão e o outro o dono.  


Em Boerum Hill Inn, na esquina de Bergen com a Heyt, eu desejei ser um deles, um qualquer, porque o lugar a que chamo a casa está distante.

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A Gaffe em Times Square

rabiscado pela Gaffe, em 24.08.14

Times Square é um bicho com tentáculos destemidos pronto a lancetar o mais incauto. O seu bafo cheira a sexo e ao indefinido aroma do perigoso. As incontáveis cores de Times Square são aquelas que ostentam os cartazes porno, os olhos dos drogados encardidos e os anéis de fancaria traficada. Há mulheres baças e homens desbotados contra a carnificina colorida do tempo que se afasta da noção do espaço que se encurta, que se afunila, que vai desembocar nas goelas de néon e vidro, de apelo e de asfixia. Morre-se em Times Square, como num rio de ruído e não há mão nenhuma que nos atire a esperança enquanto o nosso corpo vai caindo.

 

Morre-se em Times Square de multidão.  


Morre-se público no centro daquilo que se quis privado, interno, intransmissível, porque a alma está a descoberto, como uma ferida aberta e já sem cura.  
Mas é em Times Square que ouço o que me chega da outra Praça longe. Mistura de saudade e jazz pelo passeio. A cor mansa de um homem que toca saxofone, a pacífica figura que elimina as outras, o som que eu não vejo, mas que é meu, íntimo, privado, como a lonjura que fica na minha alma e esta desolada hora em que me sento no parapeito da janela e vejo o homem que ri a recolher o milho que não deu aos pombos e que armadilha as fotos que eu não quero. A luz serena do homem a deslizar comigo em Times Square. A apagar o néon da maior tristeza. O néon do medo de ficar sozinha, presa nas avenidas a suar de gente.  


Em Times Square existe agora uma outra Praça. Um homem a mendigar, jazz e a melancolia raiada nos meus olhos, rajada nos meus dedos, a escapar nas ruas por entre a melodia morna, amada e mansa, minha, a esconder-me a alma, a proteger-me daqueles que já passam. São cofres de bonança que ouve jazz e faz-se a noite, definitiva agora, húmida de estrelas de saudade, no centro de Times Square iluminado.  


Debruçada no som do saxofone afloro o que de mim é mais privado.

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A Gaffe em NY

rabiscado pela Gaffe, em 20.08.14

A minha irmã apodera-se dos espaços. Move-se de igual forma em todo o lado. A mesma indiferença, o mesmo enfado, a mesma incapacidade de reconhecer as diversas pulsações de cada cidade que rasga e domina como se as tivesse moldado ao batimento do seu próprio coração.  

Espero-a em West Village, entre a 7ª e a 8ª Avenida, no café que reproduz do modo mais fiel um canto e um outro canto e um recanto de Paris e onde acabei por pertencer, como era inevitável. Sei que virá igual em todo o lado. Afastará a madeixa do cabelo que tomba indomado, amansando o olhar, quando me olhar, e avançará para mim como avança nas ruas de Paris, Londres, de Madrid ou Sidney ou mesmo nas ruelas órfãs de nome que rompem e se rasgam sobre o Douro. Todas as artérias partem dela. Nenhuma é exterior ao seu enfado, misto de cansaço e de desprezo como se tudo lhe pertencesse há muito tempo, que tudo é já dela desde sempre. Ignora o latejar do mundo, porque é seu. Igual em toda a parte.  


Não sou assim.  


Tenho nas ruas que atravesso agora o medo de tombar, de me perder em mim por entre a gente. Deram-me um estranho aparelho que se prende à cabeça e que me tapa os ouvidos com almofadas de som, redondas, grandes e que é normal usar aqui e frequente. Controlo-o através de roldanas minúsculas detectáveis no hemisfério esquerdo. Fazem lembrar o Inverno no Alaska e os protectores de frio para as orelhas. Dentro, tenho Bach, Mozart e Brahms e muitas vezes avança Rachmaninov no meio de mim, separando-me das ruas. A ausência de fios impede que me arranquem e me roubem de ímpeto o som que me protege e que me faz ausente. Dentro dele, suporto as Avenidas, encaixadas no avançar das sinfonias.  


O meu apartamento é exíguo. Tem, no exterior, umas escadas de incêndio com um pequeno espaço acessível através de uma janela. Sento-me ali nas tardes e nas noites que são manhãs eternas e mordo a maçã que me deu a velha ensandecida em Times Square, na 7ª Avenida que intersecta a Broadway. Vejo em frente um dos rapazes que lavam as janelas pendurados e seguros por cordas (são tantos e tantas vidas e vidros encharcados!). Dentro das multidões que atravesso, estes insectos musculados de capacete e camisas ao xadrez, presos por fios a baloiçar no perigo, são os mais belos risos e riscos que eu apanho nas teias do meu inglês que é um sem-abrigo e que descobre que o meu francês, aqui, é aristocrata.  


Sinto Saudade da nobre velhice das cidades.  
NY é um jovem estilhaço. Um vidro que explodiu e que pulverizado cintila, cega, apunhala, desmesuradamente esboroado, um paradoxo absurdo a esbracejar na lama e na poesia. Não tenho a Renascença a esmagar as pedras com os olhos e falta-me a lonjura gelada das catedrais do medo, inquisidoras negras de veludo roxo e ouro a derrubar de peso, a rastejar fogueiras. Falta-me a velhice das cidades. Falta-me o Tempo.  
Se existisse a noite em NY, seria a noite do mais desgostoso dos sozinhos. Mas a manhã é aberta como a janela de acesso à escada de incêndio. Sento-me nas manhãs e vejo insectos pendurados pelos fios, com patas de camurça e água e perigo. Nas manhãs me deito e nunca durmo e nunca sonho porque no céu há insectos e no chão de NY há excrementos. Há obesos que trituram embrulhos com nódoas que os tornam transparentes e deixam ver os obscenos conteúdos gordurosos. Há mulheres esquálidas e loucas que empurram a vida em carros de alumínio com a ferocidade que está no medo de perder o que não existe. Há a densidade absurda do ruído que serve de humidade, o congestionamento das almas desmanchadas. Há cadáveres de beijos em Central Park e corpos que se estendem à procura deles para os velar ou incendiar com eles as luzes dos barcos a passar sob Bow Bridge. Há o meu corpo, depois, a atravessar desejos dos que erguem outras pontes sobre o lume de fósforos a arder dentro dos dedos.  
A sedução é inútil. NY entrega em cada vão de escada, em cada umbral, em cada pedaço da rua mais estreita, em cada olhar ou gesto, em cada riso aberto ou por fazer e só adivinhado, em cada pedra, fonte, pedaço de corrida em Central Park, em cada elevador, em cada arranha o céu pousado a ondular na relva, o corpo que quisermos. Basta sorrir. Basta que o olhar não se desvie. A sedução não é feita de inteligência. Não tem os labirintos que sempre me atraíram. Seduzir, aqui, não faz sentido, porque só há um sentido a ter em conta. O que se encontra a cada passo dado, o que aponta o nosso corpo desejado, o que nos chega disparado à toa. Sentir à toa.  


Não sou desta cidade. Não a ignoro. Se dela fosse, não tinha a consciência do espaço que me dá, por entre os outros. Não havia a angústia de a ver em mim, a empurrar para dentro as luzes e os ruídos que se cravam nos tijolos de ferrugem e nas almas de metal e de néon. Não sentia, externo a mim, este pulsante vórtice, o turbilhão de rostos, as ondas dos gestos recortados mudos, em orquestra no meu cérebro murado por andamentos escritos por rotas de colcheias. Não esperava a minha irmã no Tartine - et voilà Paris! - e não me deslumbrava por não entender a despaixão, o desenfadado andar desta mulher que afasta a madeixa do cabelo, porque não quer o olhar mais manso e que desconhece o nome da alma das cidades, mas que as ilumina a cada espaço com a labareda insidiosa de um isqueiro. 

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