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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de Outono

rabiscado pela Gaffe, em 18.11.16

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A querida Inês, posta em sossego, desafiou-me!

Embora não simpatize muito com inquéritos – sejam de que espécie for, - não podia deixar de responder a uma menina originais que por aqui passeia os seus desenhos.   

 

1 -  Café ou Chocolate - Como preferes o café ou o chocolate no Outono, e que marca bebes com mais frequência?

Uma rapariga esperta sabe que todas as estações obedecem à sua vontade de se sentir confortável e o conforto desta rapariga esperta passa sempre por um café tocado por pepitas de chocolate. É sempre um erro deixarmos escapar dois pássaros, acreditando que mais vale ter um na mão.

 

 2 - Acessórios de Outono - o que optas mais por usar (gorros, cachecóis, luvas, etc.)?

Os meus caracóis escapam sempre pelas malhas dos gorros – tramas que o império tece. Uso sempre camisolas e camisolões de gola alta que evitam o uso de cachecóis. Restam as luvas. Gosto muitíssimo de luvas. Sobretudo de pelica, justas e esguias, com cores queimadas ou densas como um vinho maduro. Uso-as até para trabalhar …

 

3 - Música - Que tipo de música ouves durante o Outono?

Não sou grande ouvinte. Tenho imensa dificuldade em cultivar o meu ouvido. O que ouço – normalmente aconselhado, - é transversal a todas as estações, o que significa que me enlevo o ano todo ao som se música francesa dos anos 40/50 ou debico o que alguém tem a bondade de me fazer ouvir o que realmente me arranca à surdez musical.

 

4 - Perfume - que tipo de perfume usas nesta estação do ano?

Uso sempre o mesmo durante o ano inteiro. Sou uma rapariga fiel, apesar de reconhecer que uma mulher que se torna fiel a um perfume, tem mais dificuldade em permanecer fiel a um homem. Descobre depressa que é um perfume, não um homem, que contribui para a sua identidade.

 

5 - Velas - que cheiro gostas mais durante esta altura do ano?

Não sou fã de velas. Não aprecio nenhum cheiro e tenho sempre medo de provocar um incêndio. Luz romântica, só a de um anel de diamantes.

 

6 - O que gostas mais do Outono?

Das cores dos áceres.

 

7 - A maquilhagem preferida para o Outono.

Aquela que a minha irmã usa. São sempre produtos excelentes!

 

8 - O que esperas fazer mais neste Outono?

Gostava de ler com mais entusiasmo. Ultimamente deixo todos livros a meio. Abandono-os sem remissão e sem remorso, com marcadores tristes a sinalizar as páginas a que não retorno. Livros abandonados desta forma são a desolação dos universos que trazem dentro e que provocam cá fora.

 

Acabou e afinal não sofri muito. O Outono é sempre propício a pequenos sofreres julgados de morte.

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A Gaffe na tempestade

rabiscado pela Gaffe, em 13.11.13
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Os homens podem vestir as tempestades.

Basta que deixem uma rapariga esperta procurar o sítio certo, o abrigo, as telhas, os algerozes, que mesmo nas trovoadas mais cinzentas ela encontrará um Outono mais ameno.

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Gavetas:

A Gaffe ferruginosa

rabiscado pela Gaffe, em 31.10.13
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Rapazes, deixem-se tocar pelos dedos queimados do Outono, pela ferruginosa luz de todas as texturas que não se contradizem e que tombam na voz de Yves Montand nas tardes de folhas mortas nos bancos de jardins antigos.

Nenhuma rapariga esperta vos resiste quando nas vossas mãos existe uma paisagem ruiva a tremer de frio.  

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Gavetas:

A Gaffe aristocrata

rabiscado pela Gaffe, em 22.10.13
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Este Inverno, rapazes, usem e abusem da mistura e sobreposição de padrões discretos. A subtileza do conjunto e os jogos de rapports com traços semelhantes cor das chuvas, aproximam-nos da textura dos muros, das paredes e das pedras de solares antigos e perdidos.

Neste Inverno, rapazes, não se esquecem de nos contar histórias de fantasmas.  

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A Gaffe no tempo dos colégios

rabiscado pela Gaffe, em 10.10.13
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Era uma menina doce no tempo dos colégios. Uma menina que ainda não tinha descoberto o tigre que solto caça e rasga a presa com veludo e garras de cetim e harpa. Tinha a quietude dos meigos que é a mais segura casa dos que tímidos afloram a superfície das coisas com cautela. Tinha a compostura das senhoras e a mais frágil solidez de alma que me lembre.

No início dos dias dos colégios, havia recital.

Havia um menino e um piano, uma rapariguinha triste no som de um violino, uma bailarina branca como cal, uma canção de ninar que entardecia e um pombo perdido a esvoaçar na sala.
Eu recitava:

 

E veio o Outono com passos de doente

E dedos de penumbra e suavidade

Pôr sobre a Natureza, lentamente,

Pétalas, espargir de uma saudade.

 

E a triste se ficou, serenamente,

Como quem vê perdida a mocidade.

Mas tão linda se fez à luz poente

Que se tornou menina sem idade.

 

E triste me ficava a ver-me ao longe no poema tonto que não compreendia.

Longe, os dias dos colégios são a memória desse Outono que vinha adoentado. Não os tenho a não ser no que me vejo ao longe, a recitar. Pequena como pétala ou como a penumbra que se encosta às portas do que agora sou, a ver-me ao longe.

Dentro desse tempo dos colégios e dentro dos Outonos que vieram, os olhos do meu avô são luz poente a fazer com que a menina tenha idade.

Dentro dos Outonos que vieram, nos outros recitais que eu não entendo, o meu avô debruça ainda o olhar sobre um poema e, mesmo por dizer, di-lo comigo.

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A Gaffe num chuvisco

rabiscado pela Gaffe, em 02.10.13
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Chuvisca e gosto quando a cor do céu é a do mar cinzento. Gosto quando a chuva miudinha empurra os que passam para dentro das casas.

Nessas alturas, o Outono prolonga a tarde deixando as ruas desertas.

Sento-me sozinha na esplanada abrigada do café, rente à marginal. Posso levantar as pernas e estendê-las na cadeira em frente. Deselegante e descuidada. Ninguém passa e o rapaz que me serve não diz nada, não olha sequer para mim reprovador. Pousa-me a água no tampo da mesa e desanda alagado em sonolência. Uma moleza gelatinosa que não se espanta por me ver ali sentada a ver chover.

É quase cedo demais e chuviscam cinzentos frios os minutos.

Na minha frente, a cem metros de mim, vejo surgir do declive de pedra, agora húmido e escorregadio, que nos faz chegar ao areal, um guarda-sol aberto, laranja, com franjas brancas. Absurdo gigante. O homem que o traz vem embrulhado numa toalha azul-marinho e usa chinelos amarelos. Não lhe consigo ver a cabeça.

Fica parado a olhar o mar.

Chove no guarda-sol laranja aberto com franjas brancas do homem coberto pela toalha azul-marinho, de chinelos amarelos, parado contra o céu de chumbo a olhar o mar cinzento.

Apetece-me ficar pela eternidade dentro, naquele silêncio colorido, sentada na esplanada que dá para à marginal, como que a olhar uma canção a cem metros de mim.

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A Gaffe melodiosa

rabiscado pela Gaffe, em 02.10.13

Há, por todo o lado, contrapontos, polifonias, andamentos, trechos, pautas improvisadas de jazz onde se volta sempre à mesma frase. A escolha dos objectos que produzem os sons que cada um escolhe, pertence aqueles que os fazem vibrar, mas o imprevisto que surpreende é perceber que existe às vezes uma quase imperceptível melodia comum aos tocadores de encantos outonais.  

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Gavetas:





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