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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe papisa

rabiscado pela Gaffe, em 17.09.16

Gerhard Haderer.jpg

Os aplausos unânimes ao Papa Francisco deixam a Gaffe muito intrigada.

 

Esta rapariga esperta confessa que não hesita em trocar os seus Jimmy Choo por uns chinelinhos mais simples, substituir os brincos Cartier por uns pechisbeques chineses e abandonar os seus casaquinhos Dior passando a usar umas coisinhas mais em conta, se lhe assegurarem que a elevam ao estatuto de estrela.

A Gaffe promete que passa a fazer uma data de declarações de boas intenções - mesmo sabendo que nos cantos escuros da vida qualquer declaração é parda, - que dá beijinhos aos pobrezinhos, lava os pés uma vez por ano a três ou quatro eleitos devidamente preparados com antecedência pela sua esteticista e que empurra os matulões que lhe protegem os flancos só para poder mostrar as frentes ao populacho, se lhe garantirem a aclamação total e consumada glória.

 

Não garante contudo transformar-se em Santo Pároco por muito amorosa que seja esta condição.

 

O erudito e mal compreendido Bento XVI apoiará a sagração da Gaffe como papisa, porque após a eleição a nova papisa, que adoptará o nome de papisa Pia - soa bem esta espécie degradada de cacofonia! - Pi para os amigos, 3.14 para os seminaristas e P13 para os cépticos e para os pilotos de caças, retomará as tradições vaticanas embora com ligeiras actualizações.  Vai continuar, embora não desdenhe as propostas da Casa Chanel, a vestir Armani depois de lhe pregar dois pares de estalos por ter desenhado as batinas brancas curtas demais.

Vai permitir-se usar um colar de rubis e mandar limpar a tiara papal para usar nas férias em Castelgandolfo.
Quer passar a ostentar óculos Roberto Cavalli, gigantescos para parecer uma mosca anfetamínica, sapatos vermelhos, Prada, mas com laçarote, e declarar o estado de sítio no Vaticano de modo a não ser perturbada enquanto ensina o catecismo aos noviços que terão de ser sempre inspeccionados por si antes de receberem a paróquia.

As suas encíclicas serão em francês e muito curtas porque o papel onde as escreverá será desenhado por Versace. Serão muito informais e muito rápidas de ler - só uns bilhetitos a mandar beijocas, -porque o que interessa é ajoelhar e rezar imenso.
Excomungará os pastorinhos por terem descrito a Virgem - agora da SUA família - empoleirada numa árvore e naqueles preparos. É que nem de tailleur!
Decretará que todos os cardeais deverão usar sinalização luminosa cravado no rabo avisando que libertam gases tóxicos e uma pochette cardinal  ou um nécessaire que incluirá obviamente fixador de dentaduras.

 

E que ninguém se dê à maçada de lhe falar da Inquisição, das Cruzadas e dos outros boatos enfadonhos mais ou menos actuais, sim?

 

O seu primeiro acto oficial será o de excomungar o seu popular e consensual antecessor, porque sempre considerou que quando toda a gente pensa o mesmo, é porque ninguém está a pensar grande coisa. 

 

Ilustração - Gerhard Haderer

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A Gaffe emérita

rabiscado pela Gaffe, em 02.02.15

Bento XVI.jpegNo passado dia 16 de Abril, Joseph Aloiisius Ratzinger comemorou os seus 88 anos de modo muito discreto e em latim.

Apesar do Vaticano não ter produzido calendários que dessem oportunidade às pessoas de emoldurarem a fotografia do papa agora emérito pendurando-a depois toda dourada na parede do hall, a Gaffe recorda com saudade o impacto visual deste seu querido alemão:

Bento XVI.png

Bento XVI.jpgRatzinger foi um papa injustiçado. A verdade é que tinha cara de quem o merece ser, mas compensava com uma erudição principesca, uma timidez incomum e um bom gosto irrepreensível.

Quando, por muito que pareça o contrário, não tencionamos ou não podemos mexer ou fazer mexer uma palha, convém que o façamos pelo menos a perceber que a diferença entre as normas protocolares, as formalidades do nada fazer, e um sequestro, é que apesar de tudo podemos sempre tentar negociar com os sequestradores.

As quebras de protocolo do papa Francisco são amorosas e fofinhas. Não usa aqueles sanitários transparentes em cima do automóvel e dá beijocas aos fiéis, esbardalhando a segurança que se vê grega, antes do Syriza, para o proteger. Não usa os paramentos e os adereços usuais que tanto ajoelharam Armani e Prada e junta-se em amena cavaqueira aos jornalistas a quem se dirige como se os ditos fossem velhos amigos a jogar dominó numa mesinha dos jardins vaticanos, à sombra da passarada chefiada pelo Espírito Santo – que era o dono disto tudo. 

A ausência de formalidade de Francisco é uma espécie de ingenuidade que acredita que o despojamento e a familiaridade cúmplice o tornam mais próximos do cumprimento da sua missão, mas que se esquece que existem José Rodrigues dos Santos por todo o lado, cheios de vontade de transformar num romance histórico uma frase de tonta coloquialidade ou de paralisar todos os gregos, esses trafulhas e corruptos, que passam pela porta de um Ministro da Defesa. 

Ratzinger vivia em latim, o que complicava a vida aos jornalistas que apresentavam dificuldades sérias em experienciar a sua própria gramática, mas que implicava e produzia um distanciamento reverente que é essencial a uma imagem de marca que se quer sagrada, consagrada e capaz de convencer multidões das suas potencialidades e benefícios, mesmo que não possua nenhuns.

Embora acredite que se a Gaffe fosse policia dos narcóticos não deixaria de revistar os ombros do sobretudo de Ratzinger, perfurando-os com um dedo para depois esfregar nos dentes o conteúdo - a Gaffe nunca entendeu como é que esta polícia não anda toda pedrada - a simplicidade franciscana do papa actual não é de todo persuasiva. Nunca se esperou que o Vaticano desatasse a empenhar os anéis para socorrer os pobrezinhos que de gestos simbólicos enchem a despensa desde os primórdios do tempo e não é usando apenas a batina costurada pela irmã Lúcia que Sua Santidade altera vocações, sobretudo a vocação do Vaticano.

papas.jpgÉ sempre mais convincente fazer que se faz alguma coisa, deixando tudo como está, se estivermos bem vestidos, diria Maquiavel se tivesse conhecido a Gaffe.

A bonomia e o despojamento de pároco de aldeia do papa Francisco não é, embora pareça paradoxal, sinónimo de aproximação ao povo que pastoreia. Engana apenas os carneiros que acreditam que na pele daquela ovelha não existe qualquer lobo.

Pelo menos, Ratzinger usava écharpes giras! 

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A Gaffe mais papista que o Papa

rabiscado pela Gaffe, em 14.03.13

Corri desenfreada quando anunciaram que já tinha sido eleito o Papa. É sempre uma ocasião em que uma rapariga pode correr e esbardanhar-se sem contudo perder a dignidade.

Confesso que pensei, tal a quantidade de fumaça branca expelida, que os senhores velhinhos tinham vestido o eleito e, já confusos, o tinham enfiado no incinerador. Mais um bocadinho e tínhamos a Praça inteira a tossir e a ser levada em maca.

Depois, foi uma desilusão constrangedora.

O Papa aparece à varanda franciscanamente despojado.

Maçamo-nos até à exaustão com críticas mordazes e malditas, muito pouco beatificáveis e nada abençoadas, relativas à opulência, ao luxo e ao fausto do representante de Pedro. Se a estola é desenhada por Armani e se os saptinhos, não sendo os de Oz, são Prada, desabamos de indignação e saltamos de revolta pia e de hipócrita repulsa com um sabor ligeiramente populista, mas entristecemos quando nos aparece de braços caídos e barriguita empinada, um papa sem capinha debruada a arminho e sem estola cravejada de jóias e bordada a oiro pelos operários explorados de um costureiro charmoso, caro e consagrado.

Creio que Francisco de Assis ou Xavier (cada um arrasta a sardinha para a sua brasa) e uma ou outro fashion adviser de reconhecida sapiência na área da trapalhada, mesmo a dos trapos santos, aprovam a sobriedade minimal do novo Pontífice, mas eu, que sou imbecil, pecadora e deslumbrada, esperava um Francisco de tipo arquiduque, com capinha de veludo vermelho, encarnado, carmim ou cardinal (cada um escolhe a cor da cereja que remata o bolo) bainhas de arminho assassinado (saio à minha santa avó, pouco ecológica quando há Papas pelo bosque), estola magnífica a curvar-lhe o pescoço com o peso do poder dos ornamentos e báculo de nobre metal na mão que suporta o anel divino.

Resmas de doçaria conventual para se expor e sai-me um jesuíta desbotado!

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