Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe alienígena

rabiscado pela Gaffe, em 25.09.15

Quando era muito, muito pequenina, tinha medo do escuro.

Mal se apagavam as luzes, depois do beijinho da praxe dos meus pais, ouvia os monstros subterrâneos que eclodiam rasgando e arrasando o soalho. 

Imaginava então que habitava uma nave espacial sobrecarregada de luz. Era uma menina alienígena que vinha envolta em claridade, não pousar numa oliveira (já nessa altura achava deselegante), mas aniquilar com feixes de luz os mostrengos ameaçadores.

Entretanto cresci.

Abrandou significativamente o medo que tinha das trevas ao mesmo tempo que evoluiu a minha importância dentro da nave. Aos dezoito anos, era já uma Imperatriz capaz de fazer corar de inveja qualquer produção de George Lucas, mas com um problema digno dele: era a soberana de um planeta em vias de extinção. O cromossoma Y tinha sido afectado de modo irreversível por uma epidemia qualquer, provocando um surto demográfico anómalo e uma carência de machos no Império que governava, obrigando-me a ordenar a procura de planetas onde o Y ainda se mantivesse em condições e fosse compatível com a espécie em risco. A Terra preenchia estas exigências e o maldito Freud tem, de certeza, uma explicação para este desvio planetário.

Hoje, vendo o que me é dado, mudava sem hesitar o destino da nave, mesmo correndo o risco de transformar o Império no paraíso de Safo.

O modo como fazia a selecção do macho terráqueo, assim como a forma de extracção e inoculação do cromossoma desejado, era do outro mundo (é fácil de prever). Abstenho-me de o referir, porque já causei desgostos suficientes à minha avó.

A verdade é que, mesmo antes da ameaça de exterminação, sempre me preocupou o facto de nunca ter acertado na fatiota que deveria usar nestas andanças intergalácticas.

Até que a Vogue me fez ver a luz que se reflecte na carteira incómoda, mas resplandecente de glamour, e na blusa com um ligeiro sabor a Vaticano gay. Nada poderia servir tão bem a uma imperatriz com problemas de índole cientificamente sexual como o que é proposto pela imagem e se condenamos a extrema magreza do modelo, tenhamos também a honestidade de reconhecer que sem o Y toda a mulher passa fome.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe beringela

rabiscado pela Gaffe, em 20.11.14

Burberry cashemira.jpgA Gaffe admite que o bege da Burberry se torna maçador escancarado por tudo quanto é peça. A marca não agrada a esta rapariga esperta, mesmo reconhecendo que as carteiras, as gabardinas e os guarda-chuvas são realmente muito bonitos.

Uma ruiva embrulhada em Burberry, toda bege às risquinhas cruzadas, parece sempre uma cenoura anã que se enfiou num cone de um sorvete de baunilha.

No entanto, a proposta maravilhosa da grife para o Inverno 2014 é também beringela!

Linda de morrer!

A amplitude das peças maiores contrasta com a reserva das de pormenores texturados e de cor complementar. O ruído largo dos casacos é atenuado com o silêncio elegante das calças ou das saias e a junção de peças interiores com um allure quase primaveril faz que a proposta conquiste definitivamente uma rapariga esperta.

Depois, no meio destas cores e destas formas, quem se atreve a declarar que destoa uma cabeleira ruiva e aos caracóis?!

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe padronizada

rabiscado pela Gaffe, em 13.05.14

A Half Design tem como seu primeiro projecto uma sacola ecológica onde o usuário se pode expressar personalizando um padrão que já vem impresso. As canetas utilizadas permitem uma lavagem segura e em consequência uma nova aparência.

Uma forma divertida de substituir os tenebrosos sacos dos hipermercados! 

Depois, como todas sabemos, qualquer uma de nós tem imenso tempo para desatar a rabiscar saquetas e saquinhos entre a secção dos legumes e o talho. 

Ver mais )

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe tricotada

rabiscado pela Gaffe, em 03.04.14

De acordo com a minha santa avó, a Primavera é apenas o ensaio de uma nova peça, ainda com os tiques da encenação anterior.

No entanto, tendo em conta as inundações do palco e o frio dos bastidores, dir-se-ia que se justifica que o guarda-roupa tenha em linha de conta as agulhas de tricot e os novelos de lã rodar no cestinho perto da lareira.

 

Meninas! Previnam-se. Preparem-se para um Verão mais agasalhado e desfilem pelas areias do nosso descontentamento dentro de fatos de banho menos convencionais (mas também menos propensos a constipações) envoltas em roupões de praia dignos de St. Moritz.

 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe anacrónica

rabiscado pela Gaffe, em 05.02.14

Não é de todo recente, mas a linha RRL de Raph Lauren, porposta para a Primavera/Verão de 2012, acaba por se tornar uma referência perene.

Não há nenhuma rapariga esperta capaz de resistir ao travo vintage recriado próximo do trabalho de Disfarmer.

Há momentos encantatórios que ficam presos na memória do bom gosto e que marcam qualquer estação, próxima ou longínqua, fazendo com que as nossas escolhas se pautem por uma intemporal qualidade.

(mais!) )

 

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe de choque

rabiscado pela Gaffe, em 26.11.13

(Demy Matzen para Migjen Rama)

A proposta de Migjen Rama é uma interessante mescla de polícia de choque e de diáfana odalisca.

A Gaffe não sabe se é dirigida aos valentões que fazem frente a multidões furibundas, mas considera a hipótese bastante proveitosa. A imagem de brutamontes repressores é atenuada pela transparência esvoaçante e frágil das camisas, convidando não só as meninas a beijar os uniformizados, mas também os jovens menos másculos atraídos pela musculatura vislumbrada e, em simultâneo, consegue paralisar de espanto e de perplexidade os mais enfurecidos portadores de cartazes mais reivindicativos.

Um conceito a ter em conta quando se trepa as escadarias de qualquer parlamento a lamentar sem as botas da revolta armada, mas com a ousadia e a coragem que reúne várias cores.       

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe ao encontro do tempo perdido

rabiscado pela Gaffe, em 24.10.13
(Panos Emporio - Verão 2014)

Num rapidíssimo vislumbre do que se avizinha no próximo Verão, a Gaffe percebe que irá encontrar a sombra de um tempo já perdido num Caminho de Swann que se descobre algures e que não sendo, de todo, um trompe l’oeil a deixa confusa e prisioneira de uma imprevisível memória de mar.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe reprimida

rabiscado pela Gaffe, em 15.09.13
.

Gant - Primavera, 2014 - Glencheck Peak Lapel Suit

A Gant propõe para 2014 a aliança entre tecidos aristocratas, clássicos e notáveis que produzem fatos em que a tradição já não é o que era, mas ainda faz as curvas, e a eventual surpresa da sobreposta presença de peças oriundas de indumentárias mais aventureiras e de ténis descontraídos e sem dossiers para calcorrear.

Esta união não é de todo inovadora. A particularidade do uso de fragmentos menos rígidos sobre um conjunto mais tradicional, não é de nos atirar para a rua com cartazes onde se grita GANT faz-me um filho, mas não deixa de ser curioso o modo como está implícita a vontade de trepar pelas ravinas da testosterona, com as cordas da adrenalina à cinta, mesmo quando as únicas escarpas que temos para escalar são as riscadas nos gráficos do Excel.              

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe revivalista

rabiscado pela Gaffe, em 28.07.13

Prada já tinha proposto uma imagem geometrizada, retrocedendo aos anos 60 através de um vago minimalismo contido nas peças de desenho puro, linear e básico, usado nos Verões dos miúdos dos colégios caros.

Os casacos zipados unidos a uma limpidez de forma e a calções justos a acabar no início das coxas, fazem a alegria do recreio e de nós, raparigas espertas, meninas de fitas largas no cabelo, mini-saias de rodelas de Rabanne e camisolas justas apertadas no desejo.   

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe fascinada

rabiscado pela Gaffe, em 15.07.13

.
.

Belíssima a proposta para o Verão de 2014 de Kazuki Nagayama!

Uma imagem de seda e de linho, de cores densas e queimadas, para a perdição de qualquer rapariga que se deixa invadir pela promessa de enigma contida nestes homens envolvidos por uma aura de incontido mistério amarrotado oriundo de lugares onde os desertos se expandem pelas cidades.    

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe rendilhada

rabiscado pela Gaffe, em 20.06.13

Astrid Andersen não é aquilo a que possamos chamar uma criativa de génio.

Muito antes da sua colecção Primavera/Verão 2014 ser apresentada, já Joana Vasconcelos encadernava cães de loiça usando croché e rendas de bilros.

Apesar da transparência do modelo nos fazer adivinhar uma data de noites mal dormidas, a proposta não é para ser seguida, meninos.

Esqueçam o coleante rendilhado e visitem a obra escultórica da artista plástica (ou visual, como se queira). É menos divertida, mas não nos faz ter de procurar debaixo dos móveis o queixo caído de espanto. Espanto silencioso, porque convém não revelar que somos leigas, retrógradas, pindéricas, parolas, limitadas e que não entendemos um pirolito de arte contemporânea.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe conquistada

rabiscado pela Gaffe, em 30.05.13

A Gaffe encontra Gabriele Pasini com a sua proposta para o Outono/Inverno 2013-2014 e fica absolutamente conquistada.

Jogar com os aromas da controversa aliança entre padrões clássicos e acessórios que, em princípio, são apanágio de determinadas tribos urbanas, agora actualizados e de reinventados usos, é inovador e constitui um desafio permanente, neste caso obviamente ganho pela criadora.

O recurso a peças quotidianamente urbanas, como os jeans, as cadeias ou correntes, ou ainda o balzer curto e quase desformatado, acentua o travo a gentleman farmer incluso no padrão escolhido, no colete de recorte minimal ou ainda no lenço/cachecol, supostamente de caxemira.

Tudo se conjuga de forma irrepreensível, confirmando e identificando a inteligência do conjunto.

Um homem é fácil de encontrar, mas um cavalheiro tem de ser reconhecido.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe e os cortes

rabiscado pela Gaffe, em 22.03.13

(Baptiste Demay por Karl Simone para GQ Brasil)

Num momento em que parece tudo demasiado constrangido e constrangedor, implicando um limitar do sonho e um corte da ambição, é pertinente olharmos para as peças mais clássicas com projectos de renovação eficazes e que resultam numa actualização sempre interessante.

A tradicional cabana, de espírito lenhador, apertada por pipos, de largos bolsos de chapa e capuz forrado com o mesmo tecido, usada há décadas por valorosos marinheiros, colegiais friorentos e homens de machado em riste, pode ser facilmente transformada de acordo a conjectura actual, ou seja, pode perfeitamente sofrer cortes.

Modificada desta forma, rejuvenesce o dono e entregando-lhe o ar inocente em tons pastel que adorna quase sempre os rapazes tímidos, mas espertos.

Uma proposta a ter em consideração, no momento em que o futuro nos promete apenas carapuços.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe prende os cabelos

rabiscado pela Gaffe, em 26.02.13

 

(Rodarte - ouro e prata)

De todos os adereços que uma mulher pode escolher, há uma exígua minoria que se torna polissémica adquirindo estatuto de símbolo ou de linguagem para além da linguagem.

A proposta de Rodarte para o Outono/Inverno de 2013-2014 é indubitavelmente um dos exemplos mais perfeitos da capacidade que um objecto possui de nos permitir narrativas diversas.

Usados com precaução, recriam um imaginário potencialmente sedutor, fornecendo-lhe fragmentos de histórias que cada um de nós vai construindo, usando os próprios espinhos e as mais subjectivas das defesas ou as mais invisíveis das fragilidades.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)

A Gaffe regressa ao passado

rabiscado pela Gaffe, em 03.01.13

(Levi’s Vintage Clothing – Primavera/Verão, 2013)

Voltar ao perdido, não é por natureza ou obrigação Reviver o Passado em Brideshead, mas deve implicar um olhar atento debruçado sobre as raízes, sobre os inícios ou sobre aquilo que na memória ocupou o lugar mais ténue, susceptível de se escapar por entre os dedos da consciência do que foi vivido.

Raro é o início que origina o caos, a desordem ou a deformação. É o que dele vamos fazendo, refazendo, reformando ou transformando, que pode, ou não, desaguar no inútil, no desfasado, no discordante ou catastrófico.

A Levi’s procura as origens na colecção Vintage Clothing para a Primavera-Verão, 2013.

Um regresso nostálgico, terno e macio àquilo que foi árduo e agreste e que aproveita, já depurada, uma espécie de bucolismo (ou campesino sabor ou um quase ecológico paladar) que se adivinha que outrora foi penoso e duro.

É a imagem que contraria o tecnocrata, aniquilando o aprumo sofisticado de gabinetes, camarins e camarotes, escritórios, repartição ou ministérios, que se vão alastrando pelas ruas, cobrindo as raízes com cimento armado.

Não é fácil o assumir deste regresso, mas suspeito que é imprescindível.

A nudez do desadorno é também a harmonia do equilíbrio.

 photo man_zps989a72a6.png

Autoria e outros dados (tags, etc)


foto do autor




  Pesquisar no Blog






Copyrighted.com Registered & Protected 
JIFR-J5MR-Y1XR-YACD