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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no cacilheiro

rabiscado pela Gaffe, em 14.04.16

Dmitry Dmitriev.jpgProvavelmente, depois de se ter lido o aqui naufragado, seria de esperar que após o comovente depoimento de Joana Vasconcelos na encantadora rubrica e se fosse eu, a Gaffe se incluísse na onda escandalizada que os dois AIS - o Iphone e o Ipad – os phones e a parafernália que a mantém a comunicar com a galáxia, provocaram na tripulação.

 

Um erro.

 

A Gaffe considera que Joana Vasconcelos fez as escolhas mais correctas e decide iluminar a turba.

 

O instinto de sobrevivência de Joana Vasconcelos está dotado de uma espécie de previdência. Joana é a única pitonisa a expor em Versailles.

Será aconselhável recordar o cacilheiro com a criadora à proa. É evidente que, correndo-se o risco daquilo inclinar, a restante comunidade artística foi posta à popa. Até nas artes o equilíbrio é necessário. Joana Vasconcelos precaveu-se. Não vai de bote de borracha, assim como não fica sem tachos, sem tampões, sem talheres e sem garrafas de água. Da restante criação alguma coisa há-de flutuar e é suficientemente grande para a aguentar em cima em caso de percalço.

 

Posto isto, provado já que Joana Vasconcelos pode perfeitamente escolher os adereços que quiser, pois que preparada já estava, resta apenas referir que a capacidade de sobrevivência da artista não se resume a este precaver prático, mas pitonisíco. Urge recordar que depois de ser eleita pela defunta coligação governamental como bandeira artística do regime – o que se compreende, tendo em conta a largura e as cores dos panos que vai usando, - surgiu empenhadíssima discursando empolada na campanha de António Costa. Não falhou por uma unha negra, mas a Gaffe desconfia que a rapariga teve um dedo enfiado naquilo que Paulo Portas proclamou golpe de Estado e aposta que foi ela que lhe branqueou os dentes.        

 

Não adianta portanto arrasar Joana Vasconcelos pelas escolhas que fez se fosse ela. A rapariga não é um daqueles pobres horrendos e desprevenidos que nem sequer uma máquina de barbear levam na trouxa quando vão a Fátima a pé e, convenhamos, as jóias portuguesas são imprescindíveis. Uma rapariga nunca sabe quando vai ser condecorada.

 

Ilustração - Dmitry Dmitriev

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A Gaffe refugiada

rabiscado pela Gaffe, em 06.04.16

Richard Avedon, Liz Pringle, Jamaica, 1959.jpg

A Gaffe deu conta que uma enchente de crianças vai levar para a escola, na mochila, o que consideraria absolutamente necessário se pertencesse a uma multidão de refugiados.

 

É uma iniciativa que embora contenha uma acentuada vertente pedagógica, acentua e torna visíveis desigualdades que podem traumatizar os petizes. Os escuteiros, com os seus pauzinhos de gelados com que constroem jangadas, vão fazer um brilharete perante as meninas que escolheram as Barbies – as clássicas, não as gordas, pretas e baixas que neste caso podem contar como solidariedade na desgraça – ou na frente dos meninos que seleccionaram o bollycao e o cachecol de caxemira.

 

Urge definir níveis de assertividade para que os Lobitos sejam de imediato aceites como exilados políticos, subsidiados e elevados ao quadrado que se encontrar disponível e os outros encafuados nas tendas que com certeza os professores terão a originalidade de executar com lençóis velhos e cavacos podres.

 

A par desta iniciativa, uma outra se avista. Várias figuras públicas fazem o mesmo, embora sem a maçada da mochila às costas. Basta que refiram as suas escolhas com um ar quem se vai desfazer em lágrimas a todo o momento.

A Gaffe ouviu apenas três. António Mega Ferreira, Catarina Furtado e Herman José que lhe pareceram flutuar a alguns metros do chão, com algumas nuvens fofas enfiadas nos pés.

 

Comum aos três é a eleição do telemóvel. Uma escolha primorosa, tendo em conta que poderiam publicar no facebook as fotos do afogamento dos colegas que não se agarraram em condições ao bote de borracha ou à pila do nigeriano mesmo ali colado e twittar o instante em que o colete salva-vidas se encheu de mar. Seriam refugiados do WiFi, mas que não deixariam de apelar a MacGyver na procura de buraquinhos para carregar baterias ou a fintar o roaming na Turquia.

 

Há, como seria de esperar, particularidades. Mega Ferreira escolhe, por exemplo, D. Quixote de Cervantes - há sempre tempo para ler, mesmo nestes instante, não é? Um livro é sempre uma fuga, uma libertação e ajuda imenso! -, um pacote de leite, uma muda de roupa. Não é um refugiado. É um amante de uma noite de motel, nerd e com insónias. Seria preferível trocar o pesado Cervantes - nada aconselhável em barquinhos de papel - por Margarida Rebelo Pinto. Habituada a meter água, Rebelo Pinto aprendeu a funcionar como um balão de hidrogénio numa festa de crianças.

 

Catarina Furtado escolhe, entre outras coisas que a Gaffe já esqueceu, um bloco e qualquer coisa que escreva. Com lágrimas nos olhos, Catarina arrasta consigo a vontade de registar o balanço do oceano de forma diferente da do seu antecessor. Há no entanto duas referências dignas de nota. Uma aos papéis do Panamá - recordando que é filha de jornalista - e outra mais literária, se imaginarmos Catarina a salvar das vagas o seu Moleskine tão bem escrito. Não conseguimos deixar de a comparar a Camões salvando Os Lusíadas.

 

Herman José, o queridíssimo Herman José, refere querer na sua mochila Louis Vuitton imaginária uma lâmpada mágica cujo habitante permitisse o único desejo de não haver, nunca mais, refugiados. A Gaffe quase que o vê a abanar a faixa de Miss Simpatia e - muito pouco civilizada, é bom que se diga - lembra-se da anedota ordinária que ouviu um dia e que falava do homem que libertou o Génio da Lâmpada a quem pediu para ter uma pila que lhe tocasse nos joelhos. O Génio concedeu-lhe o ansiado e as coxas do homem desapareceram.

 

A Gaffe acha moderníssimas e muito originais estas iniciativas. Ficamos todos a saber o que os nossos famosos consideram ser um refugiado sem ser pelas revistas cor-de-rosa e por alguns instantes acode-nos à lembrança o que no nosso caso recolhíamos.

 

A Gaffe já decidiu:

- Uma passagem em executiva para a Jamaica;

- O número de uma conta offshore;

- A Vogue, que uma rapariga tem de se entreter durante a viagem.

 

O resto virá no porão.

 

Foto - Liz Pringle por Richard Avedon, Jamaica, 1959

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A Gaffe com gatinhos

rabiscado pela Gaffe, em 17.09.15

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É tão aborrecida a facilidade com que os meios de comunicação social manipulam as opiniões de gente de bem que a Gaffe decidiu beliscar este assunto.

 

Todos estão recordados da fotografia comovente de uma rapariga que no meio dos escombros da Faixa de Gaza tentava salvar livros. As redes social encharcaram-se de lágrimas e a imagem roçou o icónico. O mundo foi abalado pelo tocante heroísmo daquela adolescente que no centro do inferno procurava a redenção.

Ninguém provou à Gaffe que a miúda não estava apenas a procurar um papel que substituísse o higiénico que naquela confusão é natural que se perca.

 

Similar acontece com a foto do sírio que nos chega com um gato dos confins do terror.

Subitamente, assistimos a uma inversão de marcha da opinião que dele muita gente fazia. O refugiado passa a ser uma criatura em busca do sonho, em demanda de uma vida, a negação do terror, o panegírico da vontade e da coragem com raiz na mais profunda dignidade humana, o que, despojado e esmagado, não perde a capacidade de amar os mais pequenos, os mais indefesos, os mais inocentes e que, num acto de esplendorosa humanidade, salva o seu bichano. Tudo a contrastar com o que aqui se vê. Há gente que vai de férias para a Caparica e faz um desvio por Coimbra para atirar o gato ao Mondego.  

 

A Gaffe lembra a todos os que subitamente alteraram a sua opinião em relação aos refugiados após publicação da foto, o punhado de razões que embandeiravam e que sustentavam os seus juízos anteriores.

 

Meus caros, há absoluta necessidade de sermos coerentes.

 

Também cá temos gatos sem-abrigo. Gatos que sofrem imenso em gatis abjectos. Gatos abandonados. Gatos mutilados - ninguém referem o suplício do gato a quem cortam os berloques como se fossem os dos sapatos do tio. Gatos vadios. Gatos à chuva e ao frio. Gatos esfomeados. Gatos subnutridos. Gatos espancados. Gatos assassinados. Gatos violados – há gente para tudo. Gatos portugueses na miséria enquanto se bajulam gatos persas e siameses. Gatos sem amor e até gatas em telhado de zinco quente.   

 

Não podemos toldar com a nossa natural sensibilidade e com o nosso sempre activo espírito de luz, a necessária objectividade com que olhamos o Zaytouna. Apesar do nome do pequeno felino nos invocar heranças linguísticas, é imprescindível ter presente a saga dos nossos reis que se viram gregos para varrer os árabes dos nossos territórios.

 

Fica, à laia de suplemento ou achega, um apelo a Nuno Crato. Urge fazer regressar ao programa de História as nobres facetas e os heróicos actos do povo português.

 

Tal como no caso da rapariga de Gaza, que carece de mais cuidado esmiuçar, não podemos de imediato concluir que o Azeitona foi salvo porque o amor se sobrepõe à maior desumanidade, até porque não conhecemos os hábitos gastronómicos desta gente.  

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A Gaffe no meio da crise

rabiscado pela Gaffe, em 16.09.15

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A Gaffe ficou muito incomodada quando viu o Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados muito nervoso a revelar ao mundo a desunião da Europa e a clamar por corredores humanitários que permitam que Angelina Jolie vá visitar os pobrezinhos.

A Gaffe confessa que a sua primeira e maldosa suposição foi a de Guterres se irritou por ver o final do seu mandato encharcado por uma caterva infindável de gente. Temos de concordar que seria muito mais agradável que as pessoas viessem em tranches supervisionadas ou em pacotes controlados, com despacho mensal do expedidor. Urge perceber que as exportações não se fazem à força. Há que se estar atento aos mercados e, sobretudo, há que referir também que é bom que se aprenda a não dar hipóteses aos imbecis que defendem que as guerras devem ser travadas exclusivamente pelos nelas interessados, enfiando-os sozinhos numa arena até um deles cair inanimado. Não resulta, como fica provado. Já praticamente toda a gente saiu das regiões beligerantes - a Gaffe estava ansiosa por imitar Felipe Pathé Duarte -, e não se augura para breve o fim do tiroteio. Imensa poeira. Há tradições que convém manter, sob pena de colapso civilizacional, como é de concluir.

 

A Gaffe, seria de prever, está contra esta maré cheia de gente e lamenta que apenas as pessoas de bem percebam as razões que lhe parecem óbvias.

 

- É trágico o modo como se assiste à perda de identidade cultural destes enxames de pessoas pobres que chegam em barcos de borracha, esquecendo por completo os materiais naturais usados pelos antepassados - camelos, tapetes, cordas e paus, não era?

 

- Verifica-se a aniquilação das suas línguas de origem. Falam inglês os que são entrevistados pelos jornalistas que os cravam de perguntas no intervalo das rasteiras. Absolutamente indesejável, porque retira imenso trabalho aos intérpretes de língua gestual.  

 

- É patente a ausência dos trajes das regiões de origem. O que é feito dos maravilhosos turbantes?! Onde estão as pasheminas de cachemira?! As écharpes coloridas de linho do Egipto?! Os cachecóis transparentes da cor do sol poente?! Os adereços em lata lapidada?! As túnicas fantásticas?! As sobreposições de tecidos?! Tudo muito Lacroix, tudo muito Galliano nas suas estações mais étnicas?! Por onde ficaram as sarswat, os anarkali, os saris, as kafia, os kameez, os salwar kameez?! – a Gaffe sabe que misturou tudo, mas é tudo artesanato.

Esta gente parece que chega toda de um bairro social! Tudo muito hip-hop.

                                             

Depois, não se avista um livro. Ninguém lê. São viagens infindáveis sem um vislumbre de leitura.

Toda a gente sabe que um livro é uma evasão; que um livro nos rasga os horizontes; que um livro nos transporta para longe; que um livro nos abre as portas e as janelas de outros mundos; que um livro é uma forma de viajar sem se sair do sítio!  

Esta gente só traz o gato na bagagem de mão?!

É evidente que este povo concorda com a tonta que disse que um livro produz multidões.

É óbvia a utilidade de um livro em alto-mar. Lembremo-nos de Camões que só não morreu afogado por causa da papelada. Seria bom que recordássemos os nossos heróis nestas ocasiões.

 

A Gaffe está cansada de bater com a colherinha no cristal para se fazer ouvir.

A maldição das raparigas espertas é que tendo a solução, são demasiado discretas e reservadas para a alardear.

 

- É necessário que se deixe de ver séries americanas sinistras e assustadoras, com um guarda-roupa miserável e maquilhador incompetente.

Os refugiados não são os Walking Dead. Vestem-se tão mal como eles, assume-se, mas alguns parecem estar vivos e, por muito que suspeitemos, não nos querem todos trincar o cérebro, até porque este vício tão inconveniente é dos protagonistas das campanhas eleitorais, dos responsáveis pela programação das televisões e da Teresa Guilherme.

 

- É preciso que esta gente se concentre toda em Portugal – os que trazem aqueles tapetes lindos de morre, podem ficar nos jardins da Gaffe. Esta rapariga já espalhou sal na porta de entrada e portanto não há qualquer risco de contaminação ou ataque. Matou os gladíolos, mas não se pode ter tudo.    

Dispersam-se pelos recintos onde se realizam os festivais de Verão, já habituados ao lixo que fica, e pela herdade da Comporta, já acostumada a Ricardo Salgado. Num curtíssimo espaço de tempo – uma legislatura - tê-los-emos todos a emigrar de forma ordeira e através do sistema de tranche mensal, constante e certinha.

 

A derradeira solução é a adopção.

A Gaffe já decidiu que vai esperar que a multidão chegue a Portugal para seleccionar o que mais lhe convém.

Há com certeza pelo menos uma dúzia de rapagões lindos de se cair para o lado - fica sempre bem mostrarmos um movimento de solidariedade -, com mais de dezoito anos, ainda dentro do prazo de validade, em bom estado de conservação, facílimos de separar da família e sem o gato. Se os não conseguirmos encontrar porque sentimos que nos perdemos quando percebemos que aquelas confusões são mais que as mães – que também acampam -, podemos sempre pedir a colaboração e a experiência de Margarida Rebelo Pinto. Só temos que os fazer continuar a acreditar que todas as europeias são capa de revista e ala, que se faz tarde! - uma expressão que fica lindamente neste contexto.

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A Gaffe conspiradora

rabiscado pela Gaffe, em 07.09.15

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Nunca resiste a uma teoria da conspiração bem engendrada e, exactamente por isso, ouço com alguma atenção a torrente de argumentos que provam que o mais recente tsunami que assola a Europa, composto de miséria e desespero, é consequência da estratégia jihadista que cumpre o prometido, invadindo o velho e decadente continente com as armas mais inconscientes e trágicas que encontrou.

 

A proveniência dos migrantes; a simultaneidade da chegada de populações inteiras dos vários locais dominados pelo jihadistas, pelo Estado Islâmico, num aparentemente curto espaço de tempo; as rotas comuns - que incluem a do Árctico, atravessando a Rússia e entrando na Europa pela desprotegida Finlândia - e a supostamente evidente existência de guias devidamente treinados que empurrem, que continuem a empurrar, os rebanhos da desgraça, são disso indícios.

 

Existe, de acordo com a teoria, uma estratégia sinistra nesta brutal migração que vai fazer colapsar mais depressa a Europa revelando a insensatez, a degradação, a falta de humanismo e de humanidade; que explora a epidérmica hipocrisia dos governos e das gentes invadidas; que contribui para o inquebrável individualismo de cada país que tenta escapar ao suplício e para a inenarrável apetência para o voyeurismo ilibado de cada um que de repente descobre o seu próprio e caseiro pobrezinho.

 

Não sei e, desta vez, deixo de ouvir.

 

Considero, no entanto, horrendo que cadeias de televisão, centenas de fotógrafos, centenas de repórteres, centenas de jornalistas, esperem na praia, reduzida a um corpo de uma criança, poder captar e exibir até à exaustão encarniçada a melhor imagem, o melhor ângulo, a melhor onda que empurra o tempo para longe do urgente e imediato choro colectivo recolhido, apenas porque a dor é fotogénica.

 

O tempo que o corpo da criança esperou naquela praia que se saciassem os clicks da informação é a mais evidente prova da ineficácia da Europa perante a avassaladora maré de tragédia que a assola.  

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A Gaffe migrante

rabiscado pela Gaffe, em 26.08.15

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A Gaffe sabe, como é evidente, que existe diferenciação entre refugiado e migrante. São razões sociológicas, antropológicas, demográficas, económicas, geográficas, sociais e societais, políticas e outras que tais, que se tornam maçadoras e confundem uma pobre rapariga.

A Gaffe considera muito mais simples seguir as suas descobertas nesta área. As premissas que estabeleceu permitem com imensa facilidade distinguir as duas situações.

 

A invasão da Europa por gente que não tem noção que viajar exige algumas precauções e pelo menos um nécessaire no colo, assemelha-se, diria Cameron, a uma das pragas do Egipto: a dos gafanhotos – embora ainda não haja notícia de esfíngicos habitantes do delta do Nilo entre a multidão destruidora. Felizmente que, tal como na altura faraónica, temos hoje alguém para separar as águas. Angela Merkel exige seleccionar quem terá de ser recambiado e quem poderá solicitar o estatuto de refugiado.

 

A primeira distinção é vislumbrada. O refugiado vem com um estatuto apenso, o migrante terá de preencher a papelada e entregar no guichet alemão - e toda a gente sabe que não convém entregar aos alemães a tarefa de seleccionar quem fica e que tem de partir. 

Embora esta seja uma diferença básica, existem para nosso descanso outras mais simples.

 

Ora vejamos:

 

O refugiado normalmente chega chamuscado e com estilhaços cravados na família. Fugiu de lugares para onde não é conveniente viajar, porque o demónio perdeu lá as botas e tem medo de as ir procurar. Convém que esteja desnutrido, desidratado, traga gente às costas – podem ser crianças amarradas por uns tecidos coloridos -, e com colchões, cadeiras, fogareiros, cobertores e toda uma tralha sem fim e sem qualquer design, na cabeça. Tem à sua espera umas tendas giríssimas, umas ONG de fazer inveja à Jonet e pode, com alguma sorte, ser visitado pelo casal Guterres/Angelina Jolie.

 

O migrante não é forçosamente um espoliado crestado pelas granadas da desumanidade. A Gaffe ouviu na RTP1 um respeitável e sábio comentador anunciar que existe uma percentagem significativa de representantes da classe média na multidão que invade e conspurca o sossego europeu. A Gaffe já desconfiava da marosca, porque achou alguns parecidos com muitos portugueses medianos. Já o refugiado é paupérrimo e chega de buracos inclassificáveis onde não há média sejam do que for.

 

Ao contrário dos refugiados, há migrantes giros. O allure trash-chic fica sempre bem num sírio ou num afegão e o vintage nunca é démodé, assumindo a poesia da aventura náutica aliado ao brilho dos olhos dos desertos e das explosões. Os refugiados não têm qualquer noção de estilo e desconhecem que uns bons sapatos podem salvar uma imagem. O look descalço e com um pano estampado, muito tribal, enrolado no corpo, não favorece o tom de pele.

 

Os refugiados estão circunscritos a territórios bem delimitados. Facilita a distribuição de garrafinhas de água para entreter o estômago, farinha para os bebés e cereais para o pequeno-almoço. Podiam perfeitamente funcionar como parques temáticos. Compensava a despesa. Os migrantes são o caos! Encarnam a desordem e personificam o descalabro de qualquer estratégia organizacional. Não admira que não tenham visitas das ONG. Estão sempre a mexer-se!

 

Para os refugiados as pessoas civilizadas constroem reservas devidamente limitadas - método semelhante ao usado quando a civilização chegou aos Índios americanos e aos daquela parte mais abaixo. Em relação aos migrantes é a civilização que se barrica erguendo muros de arame farpado. A Gaffe acha uma pobreza! Seria de todo muito mais interessante o revivalismo das muralhas de pedra, de inspiração medieval, onde se poderia atirar ainda a ferver o óleo de fritar batatas no McDonald’s aos que tentassem escalar a fortificação. Reciclava-se.

 

A Gaffe não entende o alarido em redor quer dos refugiados, quer dos migrantes. A preocupação europeia seria muito atenuada, ou mesmo extinta, se os considerássemos turistas - de pé-descalço, vá! Dinamizava-se o comércio local e não se falava mais disso.

 

Ilustração - Evgeny Viitman

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