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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe bucólica

rabiscado pela Gaffe, em 22.03.15

A Gaffe acaba de acordar com o som dos passarinhos e um ramo colorido de frésias pousadas na almofada em vez do rapagão.

Ainda de olhos mal abertos consegue lamentar não ter à mão uma vuvuzela. A passarada aprendia de vez a não incomodar o sono de uma rapariga cosmopolita. Às vezes é preciso tomar medidas mais robustas, normalmente nada bucólicas, para que se perceba que nem sempre os trinados são a forma mais romântica de se amanhecer. Há buzinas e gaitas que fazem imensa falta.

As frésias soltam um perfume que enjoa a Gaffe que sempre as aliou a cemitérios. Não foi propriamente uma escolha muito viva, mas o que conta é a intenção.

A Gaffe, perante a inevitabilidade campestre de um amanhecer trinado e enjoativo – e porque quando uma manhã começa aos gritos de avezinhas, o resto é o que acontece quando passamos por baixo da árvore onde a orquestra se reune - decide começar a preparar-se. Vai almoçar a um restaurante regional, perdido onde o diabo largou as botas e se recusa a ir buscá-las, onde servem um fenomenal bacalhau com batatas a murro.

A Gaffe pasma perante a voracidade com que o rapagão gosta de bacalhau.

Entre um episódio de Uma Casa na Pradaria e um bacalhoeiro ao largo da Terra Nova, a Gaffe nunca sabe se deve usar o seu Galliano inspirado nas tribos dos Apaches ou se um dos caixotes de papelão que a Dulce Pontes veste.

Há dilemas que nem os mais idílicos cenários conseguem debelar.

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Gavetas:

A Gaffe preocupada

rabiscado pela Gaffe, em 18.03.15

O rapagão tem 38 anos.

Não é suficiente para despertar a gerontofobia vigente, mas permite os alfinetes da praxe que trazem na ponta enferrujada o sacramental conceito do quarentão mulherengo e sacaninha, incapaz de manter uma relação emocional e o aviso que pica de perigo iminente.

 

No entanto, se tivesse de atribuir um determinado papel a este homem, escolheria Heathcliff, sem os demónios e os traumas que Brontë lhe entregou e Heathcliff pode ser sombrio e solitário, mas não é de todo um mulherengo sacana.

O homem dos vendavais é uma das figuras que mais me fascina em toda a Literatura e se o aproximo do rapagão é porque a imagem, sobretudo física, que desta figura criei se lhe reflecte no corpo.

 

O rapagão é grande. É um homem muito grande. As mãos conseguem esconder-me por completo a cara. Fico com o rosto coberto por noites e quando me encosto ao peito dele sinto que desapareço, porque o espaço é grande como o Yorkshire. Não é hirsuto, mas está muito longe de ser um boneco de plástico e tem desenhada uma espinha negra e dócil de pêlos nos músculos da barriga que podem ser contados.

É desleixado. Usa calças de pijama de flanela às riscas apertadas na cinta por um cordel de algodão. Ficam-lhe curtas e os tornozelos nus parecem aumentar ainda mais os pés que são tão grandes. Dorme de t-shirt e quando acorda, às seis da manhã todos os dias, cheira a madeira e a pão quente. Traz vestido este cheiro o dia todo.

Não fala muito. Trabalha imenso e não sei, pobre de mim, o que faz ele por muito que queira conhecer o que ele faz. Chega esgotado e sujo. Enrola no dedo um caracol do meu cabelo e não diz nada. Sorri, como se eu fosse um pássaro que veio sem saber de encontro às suas grades. Faz-me sentir idiota nesta altura. Abraça-me depois. Depois cozinha. Comemos batatas com bacalhau, couves e cenouras cozidas, encharcadas em azeite e temperadas com alho e vinagre caseiro. Gosta muito. Come maças à sobremesa e faz estalar a casca com os dentes.

Faz contas e escrevinha nos papéis sentado a uma secretária de madeira velha e, já noite feia, deita a cabeça no meu colo e adormece.

Chama-me chamazinha e o meu nome é esse.

 

Às vezes sento-me perto da janela quando estou sozinha e tenho muito medo de só estar ali à espera que ele chegue.

Depois pego na Vogue e entretenho-me.

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A Gaffe e ele

rabiscado pela Gaffe, em 16.03.15

tristão & IsoldaNo seu fim-de-semana minhoto, a Gaffe decidiu elaborar uma lista de prós e contra relacionado com o homem que a arrebatou.

Não é que este tipo de rol tenha grande importância, mas acaba por ser útil quando é com ele que limpamos as lágrimas e assoamos a tristeza quando a segunda coluna desaba soterrando a do prós.

É aconselhável tentar preencher primeiro a menos favorável. Ajuda imenso a evitarmos oscilar perante um defeito porque somos sempre encadeadas pelos traços que riscamos benevolentes na coluna dos brilhos.

A Gaffe de Montblanc mental, conseguiu riscar no seu moleskine interior pelo menos três descalabros de difícil perdão e problemática correcção.

 

A saber:

 

1 - O homem toma duche com as portas escancaradas. Uma rapariga desprevenida enfia as calças de pijama do rapaz, que acabam por lhe servir também de macacão tapando-lhe as maminhas, e sonolenta apanha com a nudez encharcada do matulão descontraído. Mesmo enevoado é perfeitamente visível o D. Sebastião.

Já não haver nada para se esconder não é desculpa! Existe imensa coisa a ser retirada da nossa vista num corpanzil daqueles! Há que pensar na nossa linha. Se os olhos também comem, esta rapariga corre o risco de se tornar obesa.

 

2 - Ao fim do dia, adormece com a cabeça pousada no nosso colo enquanto dissertamos acerca do existencialismo Sartriano. Estamos nós empolgadas a tentar enfiar Simone de Beauvoir no meio do sofá e ouvimos as placa tectónicas a ranger e a roncar prontas a parir vulcões e sismos!

Não adianta, quando lhe perguntamos se está a dormir, abrir um olho e informar que estava a ouvir por dentro. Não convence. O fio de baba desenhado na barba atraiçoa a defesa e não! não estávamos a falar de Woody Allen.

 

3 - Faz uma cara de espanto e de surpresa como se lhe fosse apresentado o Adamastor quando lhe é sugerida uma leve e breve depilação localizada como é uso nos rapazes mais urbanos e, como se tivesse ouvido uma tolice de criança tonta, sorri e encosta-nos a cabeça ao seu peito nu que cheira a madeira e nos faz cócegas no nariz.

 

Uma rapariga tem de estar atenta a estes pormenores de importância capital caso o romance tenha um fim trágico ou a ópera seja apenas bufa.

 

Ilustração - Fernando Vicente

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A Gaffe jardineira

rabiscado pela Gaffe, em 15.03.15

hortênsias.jpgHoje a Gaffe aprendeu que a cor das fabulosas hortênsias que crescem desmesuradas nas alamedas deste recanto do Minho e que este homem trata como se de gente se tratasse, depende da composição química do solo. Ensina-a com um desvelo preocupado e preocupante, como se da sua aprendizagem dependesse a conservação da espécie, que podemos modificar a coloração das flores aduando-as com uma mistura diferente da do chão de origem, alterando desta forma o ph do solo.

 

A Gaffe percebe então que as que rebentam doidas, descontroladas e obsessivas perto da entrada, foram adubadas com o estrume das mulheres do passado deste rapagão. São todas cor-de-rosa.

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A Gaffe ao mossa

rabiscado pela Gaffe, em 12.03.15

 

A senhora tímida entreabriu a porta, espreitou e fez escorregar um fio de voz para não incomodar.

- Chegaram flores para a menina.

Depois entrou um bando de perfumes atados por um cordel. Uma pequena nuvem cor de salmão e branca e pintalgada de rosas.   

Preso às flores um minúsculo cartão que abri com o sorriso tonto das tontas que suspiram.

 

ao mossar?

 

Desabam os museus, as obras de arte, toda a literatura do universo, as telas e as estátuas milenares, papiros e gravuras, torres de marfim e de Babel e mais que não se diz porque ruiu perante o mais pessoano dos bilhetes que de ridículo tem o que é perfeito.

 

Agora o meu pequeno universo conta com o encanto de uma palavra destas.   

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A Gaffe campestre

rabiscado pela Gaffe, em 09.03.15

campestre.jpgOs senhores Presidentes das Câmaras da região do Alto Minho devem com urgência dedicar uma lasca substancial de atenção às suas estradas.

Bem sei que viajar num Mercedes 300D, classe W123, seja lá o que isso for, é como ser transportada às costas de um canguru, mas ter dificuldade em largar o cinto de segurança, porque o apertamos em demasia com receio de fracturar o crânio nos embates contra o tejadilho e dois minutos depois de ter chegado ainda sentirmos as maminhas aos saltos, não se deve apenas à suspensão miserável do trambolho vintage.

 

A casa é belíssima! Em restauro acelerado, o piso térreo, onde no passado eram os aposentos das vacas, foi aberto e transformado num gigantesco open-space onde coexistem sala de jantar, sala de estar, escritório e biblioteca – maioritariamente anglo-saxónica, para meu desgosto -, sem que nenhum destes espaços sem fronteiras nítidas colida com a harmonia e equilíbrio do seguinte.

O andar de cima, com uma maravilhosa varanda a todo o comprimento, é destinado aos quartos e, de novo, a uma pequena biblioteca onde é notória a vocação do proprietário – Agronomia.

Cheira a madeira por todo o lado. Um aroma quente misturado com o perfume do verde.

A primeira impressão foi de receio. Havia galinhas soltas. Nunca sei quando estas criaturas desatam a correr para nos ferrar. Senti-me mais segura no interior da casa, embora tenha tinha a sensação de ter visto, a um canto mais sombrio, o Mário Soares vestido de senhora idosa. Fui apresentada àquela que, não fosse o bigode, poderia perfeitamente ir visitar Évora e desatar aos gritos que a TVI não perceberia o engano. Todos os dias trata da casa e das refeições do meu anfitrião. Não vai demorar, que é Domingo e tem a família à espera. Demos graças.

 

O homem guiou-me até ao meu quarto, porque o meu quarto não seria o dele.

Felizmente a surpresa que tive de engolir foi tamanha que esmagou a galdéria que há dentro de mim sempre aos pinotes.

 

Almoçamos sobre uma mesa de madeira envelhecida. Rojões à moda do Minho e vinho maduro alentejano – o único que me agrada. Não é o meu prato favorito, porque existe a farinheira. Aproximar-me de uma farinheira é como sentir a crueldade fisiológica de todos os perfumistas do universo, mas Lena Horne ambientou o momento.

 

A tarde foi destinada às vacas e a dois bois do tamanho da Cordilheira dos Andes. Insisti em acompanhar o homem nos seus afazeres bucólicos. Calcei as galochas que me ofereceu ao mesmo tempo que calçava a perplexidade. Intrigante o facto deste matulão ter umas galochinhas pequeninas de reserva, mesmo ali ao lado dos brutamontes que usa nos pés!   

Enfiar-me na lama e demais resíduos não é propriamente o sonho de Paris, mas como diria a população sofre Rita se queres se bonita. Esta Rita sofreu imenso e ao fim do dia estava esbardalhada de cansaço e a rogar por uma cama. Não necessariamente a dele, o que é a prova cabal da minha exaustão.

 

Do alto das escadas espreitei aquele gigante magnífico, sentado à secretária, misturado com papéis, debruçado sobre o abismo dos números e entendi de imediato porque é que as horas que passei com ele tinham o perfume das especiarias.

 

Hoje de manhãzinha havia compotas sobre a mesa. Queijo e leite frescos, manteiga, um ramo de alecrim, açúcar, doce de laranja e pão que ele tinha acabado de fazer.  

 

Hoje, beijei-o.

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A Gaffe na chuva

rabiscado pela Gaffe, em 04.03.15

Só as mulheres sabem a angústia que é escolher o que vão usar para jantar com um homem lindo de as matar que conheceram na véspera.  

Não querem ter de lhe arrancar com diluente os olhos do decote, mas também não podem parecer a irmã Lúcia. Há que encontrar o equilíbrio do trapezista e não esquecer que nunca existe rede.

Depois de mais de uma hora de hesitação, a Gaffe escolheu o vestido azul-escuro, com decote em barco, sem qualquer ornamento imbecil, cintado e de mangas compridas, Um clássico Jackie O. que pode perfeitamente ser apoiado pelo colar de pérolas rente ao pescoço que esta rapariga esperta pediu emprestado à avó. Um casaco vintage curto, de malha fina, o chamado casaquinho, ajuda a compor a imagem.

As pantufas foram espancadas e nos pés o compromisso entre a elegância e o conforto, não vá o agricultor pensar que tem na frente uma tesoura de poda.

A Gaffe decidiu não se socorrer da parafernália de tolices com que cuida do cabelo e deixou-o solto, provocando o incêndio de caracóis habitual.

 

Ele aprovou.

Uma mulher sabe quando acerta.

 

Para quebrar a finíssima camada de gelo, no início do jantar, a Gaffe decidiu levantar uma bigorna e esbardalhar a ténue superfície da conversa.

- Não entendo como consegue viver tão longe de tout Paris. – Lindo! Mais uma tirada destas e a Gaffe espeta o garfo nos olhos.

- Não estou assim tão isolado. Sei por exemplo que tout Paris não usa pérolas a não ser nas capitais.

A Gaffe sente que o alvo do garfo se alterou de súbito. Tem de telefonar à avó para confirmar se cometeu um deslize.

- Perto de si, todas as aldeias são capitais. – Nenhuma ruiva se deixa abater com facilidade e a polissemia da última palavra foi acentuada com um sorriso aberto.

 

Medidas as lâminas, o jantar foi agradabilíssimo. O homem fez com que a Gaffe se risse. Por muito que se pense o contrário, uma mulher bem-humorada é muito difícil de fazer rir. O humor com que vê o universo torna-a demasiado exigente no que diz respeito ao humor dos outros.

 

Saíram tarde.

Chuviscava. O cabelo da Gaffe odeia humidade. Os caracóis multiplicam-se e há um que invariavelmente lhe tomba para os olhos. O homem enrolou-o no dedo.

A Gaffe sentiu que o tempo devia parar e o tempo parou.

A Gaffe ainda está no meio da chuva presa por um caracol a um dedo de um homem.   

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