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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe num teatro antigo

rabiscado pela Gaffe, em 27.03.17

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Lembro-me, já lá vão alguns anos, antes de voarmos pela Rua de Cedofeita todas as tardes em bando tresloucado de pardais, de pararmos no Piolho, café destinado a uma certa boémia quase decadente que atirava bolas de sabão aos muros da vida com a facilidade dos imaturos. Nesses fins de tarde, estalando gargalhadas e tilintando copos, víamos passar uma rapariga que nos intrigava, espalhando no ar os devaneios que se prendiam ao seu sorriso solar.

 

Lembro-me que usava peças desencontradas, oriundos de universos díspares, muitas vezes contraditórios. Tules de palcos barrocos, chapéus de Al Capone, rendas Sevilhanas presas nos dedos, blusas de românticas paragens, fitas de veludo nocturnas de Chopin, sapatos de rapaz que estuda em Oxford e lenços que eram pássaros a passar.

 

A intrigante figura de menina-puzzle provocava os mais diversos dislates nos rapazes e alguns remoques tontos na boca das meninas.

 

Deixei de a ver.

 

Como no tempo já passado do velho café das ilusões banais, vejo-a ainda a esvoaçar com as nuvens frágeis dos enredos que só ela sabia unir com a luminosidade do sorriso transparente.

 

Um belíssimo passar no Dia Mundial do Teatro

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Gavetas:

A Gaffe e um homem banal

rabiscado pela Gaffe, em 13.03.17

 

Da janela do meu gabinete, consigo ver, todas as manhãs demasiado cedo, um homem que vem à rua fumar um cigarro.

É novo e parece arrepiado. Bate com os pés no chão e esfrega os braços com as mãos bonitas. Não usa resguardo ou casaco, talvez para que dentro não se apercebam que se ausentou do serviço.

 

É banal.

 

As hastes dos óculos não são as recomendadas pelos peritos - e sobretudo pelas especialistas, que decidem que hastes devem os homens transportar em determinada época - e não controla o uso de pequenos adereços. Usa-os em excesso.

Vejo-o todas as manhãs e começo a sentir que o quero esperar àquela hora e que lhe sentiria a falta se um dia o cigarro acabasse definitivamente.

 

Às vezes penso que a banalidade é um vício.

 

Às vezes penso que é a banalidade que nos faz falta. Aquela espécie de diário corriqueiro que muitas vezes lamentamos e que nos transforma a consciência da realidade num enorme dissabor ou numa desilusão difícil de carregar.

 

Não sei se alguma vez vou conhecer o homem do cigarro. É provável que não. Sempre suspeitei que andamos constantemente a fugir das pessoas certas e o homem do cigarro matinal não preenche os requisitos que lhe permitiriam pertencer ao meu círculo de amigos. É um círculo que passa o tempo a tentar escapar às pessoas certas, acreditando que as escolhas que faz são as menos comuns.

Não sabem que as pessoas certas, são banais. Que fumam todas as manhãs, à mesma hora, fora dos intervalos do serviço; que sentem frio, porque não querem que se descubra a sua pequenina ilusão de fuga; que usam aquilo que já é fora de moda; que cantarolam para dentro qualquer coisa que ouviram algures pelo caminho e que falam da tijoleira que levantou com a chuva no mesmo tom com que referem o discurso do Trump.

 

São como o homem do cigarro friorento que é a certeza de todas as minhas manhãs, à mesma hora, demasiado cedo, e que me faz tanta falta como a banalidade que mo faz esperar.

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A Gaffe nos mercados

rabiscado pela Gaffe, em 30.12.16
 

Nos mercados - mesmo naqueles que não são financeiros e onde é fácil retornarmos -, há que estar com imensa atenção aos legumes expostos e às frutas que se oferecem luzidias ao nosso desejo de provar, de mordiscar ou beliscar cada cor e sabor.

 

Há sempre o risco de conterem bicha.  

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A Gaffe sem brilhos

rabiscado pela Gaffe, em 28.12.16

 

Segundo os especialistas em neuromarketing - eu sei, há profissões sinistras -, com a concordância de neurocientistas de renome e muito sumariamente dito pela Gaffe, os diamantes são realmente os melhores amigos das mulheres.


Não é necessária a parangona publicitária dos primeiros, nem a comprovação científica dos segundos. Uma rapariga que prefere um deslumbrante ramos de flores a uma gargantilha de brilhos preciosos, ou não é, de todo, esperta, ou está definitiva e irremediavelmente apaixonada - o que em muitos casos é redundância.


O brilho desperta regiões cerebrais que impulsionam o consumo.


Subornamos, traímos, mordemos, sacrificamos e lancetamos o coração de quem quer que se aproxime dos brilhos afiados e ofuscantes que vemos, quase cegas, a cegar-nos.
Compramos mais, se encandeadas.


Creio que o mesmo acontece com os masculinos carros a que a testosterona junta uma parafernália de luzes.

 

Por isso, seguida devidamente pelo neuromarketing e pela neurociência - sou um rapariga de boas companhias -, declaro oficialmente de uma pobreza incomensurável e sério contributo para o agravamento da crise, as ruas do Natal 2016, paupérrimas de brilhos de milhares de luzinhas pirosas e pindéricas a tremeluzir, a cintilar e a luciluzir, em cima da nossa apagada esperança já sem fio nem tomada.   

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A Gaffe vitrinista

rabiscado pela Gaffe, em 21.12.16

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O meu casaco é azul-escuro, um marinheiro genuíno, de trespasse, com botões dourados envelhecidos com âncoras gravadas. Visto-o e empurro os rebuços de modo a que me protejam a nuca das navalhas do frio e desço para vaguear pela Avenida deserta. Do lado do mar, que do outro as montras titilam e tilintam com luzinhas frouxas de Natal e neve em spray a desenhar felicitações aos passageiros.

  
Do lado do mar faz frio. Gela-nos o nariz. Faz-nos parecer eternos constipados.  
Uma mulher de cabelo solto e grisalho apanha pedras na praia e guarda-as num saco. Pedras ou conchas, que daqui não vejo.  
Um homem novo corre pelo trilho das bicicletas de calções de Lycra pretos e t-shirt molhada, medindo o tempo no cronómetro.


A praça em frente ao Porto Doce é pequena, quase nua e circular, cinzenta e bege, com bancos pintados de vermelho. Gosto da Praça, mas não gosto do café que fica em frente com aquele nome adocicado. Gosto de ficar ali, parada e sem pensar em nada, a ver os trolhas velhos que descarregam vidros e os seguram com as palmas das mãos abertas e gritos de aviso. Gosto da rapariga que passa por mim e me sorri, aconchegando os rebuços do casaco que não é marinheiro genuíno, mas que vem do mar e é azul também. Tem dois livros na mão e luvas de malha cor-de-rosa. Gosto dos cães que o senhor de bombazina traz pela trela e que urinam nos pneus dos carros depois de os seleccionar criteriosamente. Gosto do meu casaco com rebuços que me recolhem os olhos.  

 

No ano anterior, no oculista caro, o cenário era atroz. Na montra tinham recriado um sem-abrigo usando um boneco deteriorado, com uma barba miserável, pintada a marcador e um gorro na cabeça. Deitado num banco, coberto com uma manta escura com riscas vermelhas, a olhar, morto, para nada, com cascatas de luzinhas e estrelas em redor. No chão os espampanantes Just Cavalli e mais neve em spray.

 

 No ano anterior, na época alta da solidariedade, a olhar esta montra, reconheci a existência de criaturas que amesquinham a própria infelicidade e o desmesurado rancor despeitado com que atacam o sorriso dos outros. Como pietás de pechisbeque, agarram com metáforas e elegias piedosas os sem-abrigo, os míseros, os abandonados à demência, os velhos em farrapos, os mendigos, os exilados, os párias e todos os que encontram nas esquinas mais sombrias da tragédia e como viúvas beatas de Ebenezer Scrooge transformam-nos em macacos, em bonecos atrozes, expostos nas montras das vidas de quem passa, como esconsa vingança infectada por um doentio ciúme das luzes nos olhos dos outros, como se a miséria que macaqueiam desta forma tivesse uma época alta onde a obrigatoriedade de tomarmos consciência da morte e da desumanidade fosse sazonal e, como na época dos saldos, fosse imperiosa a correria desenfreada, de terço ao pescoço e cilício na alma, às catacumbas da infelicidade empática. Só porque é Natal.

 

 Fazem da miséria humana um macaco de montra de oculista.


Visto o meu casaco, um marinheiro genuíno, azul-escuro, de trespasse, com botões dourado envelhecido e volto à minha Praça, nua e quase circular.  
Já não existe a mulher de cabelo solto e grisalho. Já apanhou todas as pedras. Pedras ou conchas, que daqui não vejo bem.

Sinto um orgulho desavergonhado em ser feliz.  

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A Gaffe e um monge

rabiscado pela Gaffe, em 20.12.16

 

Esta é uma das imagens que durante esta quadra se torna das mais triviais por estas bandas.

 

Normalmente inicia a época de posts natalícios e faz subentender que debaixo de um rude, quase ameaçador e duro rapagão, pânico de beatas e de monjas, se oculta toda a doçura, que permanece intacta, de um imaginário infantil nunca apagado.

 

Agrada-me pensar que este é também o retrato de um abandono protegido e temporário do chamado espírito do Natal, o fim de festa de uma fantasia sazonal e que constitui uma certa recusa insinuada do irritante O hábito faz o monge.

 

Por muitos hábitos que se tenha ou que se use, há sempre resguardado, no fundo de cada um de nós, aquele que foi nosso, para o bem ou para o mal, durante o tempo em que a maioria das nossas histórias começava por era uma vez e tinha sempre um final feliz.

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A Gaffe com Néstum e mel

rabiscado pela Gaffe, em 20.12.16

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Inês - Os passarinhos foram feitas pelo Pai Natal para mostrar como seriam as flores se voassem.

Branca - Mas se as flores voassem ia ser uma confusão para as borboletas!

 

Inês e Branca (6 e 5 anos, respectivamente)

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A Gaffe de farda

rabiscado pela Gaffe, em 14.12.16

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Temos de assumir, raparigas. Nós babamo-nos.

 

Babamo-nos quando vislumbramos desprevenidas uma farda ou uniforme capaz de nos fazer crer que o rabinho do dono saiu de um expositor do MET; quando adivinhamos dois peitorais de aço a rebentar a camisa; quando deparamos com duas colunas musculadas enfiadas em botas de couro polido; quando sofremos por não poder fazer deslizar os dedos pelo cabelo rente de quem nos faz parar o carro ou de quem nos mostra a arma inacessível e quando imaginamos cenários de guerra e de guerrilha, internas e aconchegadas, protagonizados por um destes rabinhos fardados, que fazem ruborizar Belzebu, já que os outros e celestiais arcanjos tremem de pavor perante estas quedas iminentes.  

Babamo-nos e só não esbugalhamos os olhos porque, em tempo de crise e não sendo o rímel YSL, receamos que as pestanas se nos colem à testa.

 

Dizem as más-línguas que o apelo erótico que nos abrasa quando vislumbramos um uniforme bem vestido, equivale ao que a visão de Irina Shaik em lingerie provoca no masculino olhar.

Não subscrevo.

Uma farda bem vestida inflaciona a reserva erótica do portador e, no caso dos soutiens, é geralmente o seu conteúdo que favorece o rendilhado.

 

O facto de salivarmos perante estas visões enfarpeladas, não pode implicar descuidos no terreno.

O episódio estrelado pela Gaffe ilustra cabalmente o que foi dito.

Perante o deslumbrante polícia de trânsito, a Gaffe decide sair do carro para solicitar a informação, pormenorizada em papel couché, que traz na carteira ao lado do bâton - há estratégias de abordagem que se tornaram clássicas.

Vai babada e não segura.

O fabuloso animal fardado de quem se aproxima sorve-lhe toda a atenção e povoa-lhe os mais esconsos pensamentos, toldando-lhe o raciocínio com imagens pouco dignas de uma menina de boas famílias. A Gaffe usa todas as artimanhas que possui - e possui várias -, retiradas do arquivo Seduzir Fardamentos, lamentando, mais uma vez a porcaria da chuva que a impede de ter uma brutal cabeleira estonteante, repleta de caracóis possíveis de espargir pelo espaço e capazes de enredar a resistência.

Vai de sorriso armado e ondulante, pestana a saltitar e pezinho leve.

 

Tropeça.

 

Tropeça miseravelmente.

Esbraceja estropiada de tacão partido, esvoaça deformada, estrebucha já estragada e esbardalha-se toda aos pés da cobiçada figura bem fardada. Nem sequer fica de joelhos, posição mais aceitável e compreensível, dado o contexto de uniforme. Estatela-se com as pestanas cravadas na biqueira da bota do portento, absolutamente humilhada por não ter sido premeditado o tombo - com destino aos braços do rapaz -, mas apenas produto do encontro deplorável com a porcaria de uma pedra solta no meio caminho.

 

É evidente que depois de uma catástrofe destas, uma rapariga deseja somente e com a ardência dos joelhos esfolados, a cela de um convento.

 

Há, como fica demonstrado, a urgência de aliar a baba a uma atenção acrescida às agruras de um pedaço de mau caminho.

 

Nota - O homenzarrão consumiu imenso tempo a apanhar o conteúdo da minha carteira espalhado por todo o lado e perdeu toda a carga erótica quando comparou a dispersão dos meus parcos haveres a um desastre de avião.

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A Gaffe com papoilas

rabiscado pela Gaffe, em 07.12.16

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A Gaffe cruzou-se com o homem que a traiu.

 

Uns escassos metros a separaram do rapagão que só não a viu empalidecer porque, nas ruivas, a palidez súbita é disfarçada pelo tom de pele e já é demasiado tarde para ruborizar. 

Sorriram e numa polida atitude cosmopolita, moderna e sofisticada, o sedutor mentiroso aproximou-se e beijou-a na face perguntando em simultâneo pelos dias que correm.

Um sorrir elegante é uma das formas de fazer explodir em silêncio a lembrança da dor que nos provoca o murro brutal que sentimos no estômago quando somos confrontados com aqueles para quem um nosso beijo nunca foi mais do que nada, sobretudo quando, para nós, significava tudo.

 

A Gaffe tem de admitir que sentia, quando ao longe vislumbrava o sedutor passando como um deus pela brisa da tarde, o doloroso vácuo que a empurrava, lhe apertava a garganta e lhe amordaçava o respirar.

O tempo vagabundo, vagueando, foi atenuando e diluindo este impacto de bola de ferro contra uma parede frágil, em ruínas. Lentamente, a Gaffe foi cosmopolizando a dor. Consegue oferecer a bochecha para o beijinho urbano, polido e elegante do homem por quem daria outrora o seu universo inteiro com um peixe dentro e que a atraiçoou quebrando todos os aquários que existiam.

 

A Gaffe tem na alma o lastro de Paris e, tal como a cidade, sacode os caracóis repletos de ferrugem e descobre que somente resta o lamento, a pena resignada, a piedosa tristeza, que se arrastam vagarosos pela certeza de saber que ninguém amará aquele homem como esta cidade e esta ruiva o souberam fazer.  

 

Depois a Gaffe suspira, depois sorri, depois protege o sorriso com a gola de vison, depois atira a carteira Prada para o ombro e deixa que o sol de Inverno acabe de queimar a cor já morta da papoila do desgosto.        

 

Ilustração - R. Gruau 

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A Gaffe no evento

rabiscado pela Gaffe, em 02.12.16

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Realizou-se, perto do meu apartamento, uma espécie de dinamização cultural toda moderna.

 

Não a podemos confundir com uma acção de produção cultural. É louvável e acredito que evoluirá de forma considerável, expandindo o seu alcance, libertando-se, se caso for esse o seu objectivo, da habitual feirinha de artesanato urbano, banal em qualquer estação e apeadeiro de Verão.

Há, no entanto, uma condição comum a um dinamizador cultural e a um produtor de cultura. Ambas as situações terão de obedecer a um parâmetro implícito na própria definição, noção ou em qualquer conceito de Cultura que seleccionemos. Se o que se realizou reivindica um destes estatutos e se pretende afirmar-se como elemento activo na projecção e enriquecimento de uma determinada comunidade, por muito restrita que seja, terá sempre de orientar as suas acções sob a alçada de um denominador comum: o respeito pelo outro.

 

A capacidade daquilo que foi dinamizado por um grupo de jovens de alterar, tornando mais dinâmica e evolutiva a pacatez possivelmente exagerada de determinada rua, provocando ou apenas possibilitando uma faceta lúdica até aqui inactiva, obrigando-a, dentro das limitações compreensíveis, a ouvir, ver e sentir o que até ao momento ignorava ou esquecia, quebra-se e torna-se medíocre e estreita, quando este objectivo se confunde com uma demonstração de irresponsabilidade cultural, consequência dos actos de desrespeito pelo outro, consubstanciados no abandono desleixado e porco de final de festa adolescente que ignora por completo que um indivíduo pode ser até completamente indiferente ao que se passa no local onde habita  - isto sou eu, dizem eles, - não perdendo por isso o direito a ser respeitado, a emitir opinião ou a reivindicar sossego, civismo, silêncio e a não ser insultado com uma data imensa de lixo que não foi recolhido pelos catraios que o produziram.

 

dinamização cultural, esta e qualquer outra, tem obrigação de se preocupar com a porcaria que larga no fim da sua actividade, incorrendo, se não o fizer, naquela espécie de iniciativas que visam apenas fazer sorrir a sobranceria muito pouco cultural dos miúdos que se divertem numa ilusão de cultura e que acreditam, de forma enganadoramente ousada e bastante adolescente, que trazem ao povo o Santo Graal, entregando as consequências menos dignas ou nocivas desta iluminação a outras entidades.

 

Não há, em nenhuma circunstância, qualquer justificação para o desrespeito. Dinamizar determinado espaço não iliba o actor da acção de cuidar da pegada que fica posteriormente ao acto.

 

O lixo abandonado no final desta treta com sabor a hippie é, sem sombra de dúvida, o menosprezo por aqueles que, em princípio, são os destinatários deste mesmo evento e torna uma atitude cultural numa medíocre demonstração de uma espécie de estreita consciência cívica, de eufórico caos adolescente que, em nome de uma pretensa dinamização cultural, escondem um deleite egoísta e exibicionista que incorre no erro de se considerar ilibado das responsabilidades geradas pelas suas manifestações.

O lixo, desconsideração, desatenção, desdém e desprezo que ficam depois do palco encerrar, apodrece mesmo em cima deste tipo de iniciativa.

 

Resumindo:

Este é um post lixado que me faz apetecer desatar à estalada a qualquer coisa que dinamize desta forma seja o que for.

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A Gaffe bazófia

rabiscado pela Gaffe, em 29.11.16

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É habitual a Gaffe estampar fotos de rapazes que passam o tempo a humilhar o comum dos mortais, atirando-lhe à cara a esplendorosa forma física em que se encontram e despertando a esplendorosa inveja dos mostrengos mais desfavorecidos.

 

Apesar destes portentos não passarem por nós ao virar da esquina - são criaturas parecidas com os unicórnios, - a Gaffe apanha demasiadas vezes umas cornadas destes bichos, vindas das paredes e dos muros, das páginas das revistas e do armário do vizinho de gabinete que tem posters destes colados ao fundo - do armário.

 

A Gaffe não fica nem excitada, nem incomodada. Isto funciona como o acordo ortográfico. Embora não simpatizemos com ele, vamo-nos habituando à grafia até deixarmos de sentir que estamos perante um erro. Acabamos vacinados e, de certa forma, imunes. Aquilo marcha sem que lhe prestemos uma atenção especial.

Ora, se o que foi escrito agora não passasse exactamente disso, uma banalidade idiota, a coisa até nem pareceria muito mal. Acontece que hoje de manhã a Gaffe cruzou-se com um unicórnio destes e deve dizer, para acalmar, que o bicho que se avistou dentro de um fato  - e de facto - não se inscrevia no conto de fadas tradicional. Era um unicórnio de todo o tamanho!

 

Isto prova, sem lugar para dúvidas, que, por muito que o neguemos, não passamos de umas bazófias com uns trocadilhos todos marotos em relação às excelentes formas físicas chapadas nos cartazes das montras que nos impingem, mas que, perante os factos de fatos justos, perante todos aqueles músculos em carne e osso, até as bainhas das saias se nos eriçam.

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A Gaffe perfumada

rabiscado pela Gaffe, em 23.11.16

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Ela usa agora Le Baiser du Dragon porque soube que contém uma toxina eventualmente perigosa.

- Uma diva tem de ser envenenada por aquilo que ama.

 

Vive-se dentro de uma colecção de clichés, de lugares-comuns, de slogans publicitários, de frases feitas, de fragmentos estropiados de confetis.

 

É assim que quero.

 

O dia banal que se baba pelas ruas, quotidianamente repetido, repetidamente adivinhado, cansa-me de tão previsível. Escolho recortar dos dias a surpresa rara ou a mais ínfima promessa de risco ou desafio. O resto esgota-me de tão igual ao resto e mesmo a arquitectura dos dias que desenho é uma arquitectura obediente por preguiça, por desprezo, por incapacidade de reagir ao logicamente óbvio, ao previsivelmente enunciado. Está longe de ser a arquitectura do desconforto, defendida com alma pela minha irmã.

 

Querem um minarete no jardim da casa no reino dos morcegos de uma aldeia velha em Trás-os-Montes? Que saia um minarete.

 

Adapto a ideia, reduzo-a a ninharia, contorno e atraiçoo, mas não escapo ou luto, ou entro em guerra num campo de batalha já exaurido. É cansativo. Inútil. Não me excita.

 

Depois a existência dos outros é previsível. Adivinho gestos, pensamentos, reacções alérgicas, toxinas, brilhos de pedras falsas nos colares, horas nos relógios de platina, valium e imunodepressores, cantigas entre dentes e palavras nos sentidos, danças macabras e concertinas doidas, eróticas pantominas e fantasmas, equilibrismos e redes de cabelo, odores e tintas pretas mascaradas, correrias de gare ou aeroporto, encontros desastrados, corredores, mãos e profetas, notas, sinfonias, dinheiro e miseráveis dentes cariados e a vida inteira nua e choca, podre, fácil, nojenta e asquerosa em todas as esquinas.

 

Sento-me na esplanada como um cliché com charme. Sei o que fazer para acicatar o lugar-comum que sou e quero ser.

Se olhar duas vezes para o homem da outra mesa, num perfil que ainda não me viu, vou tê-lo num instante a recompor lugares. Arranco-lhe os olhos num momento. Uma vez. Uma outra vez e vai mudar a cadeira de lugar. Uma outra vez e basta. Levantou-se? È previsível. Muda de sítio e fica frente a mim, para banhar os olhos na minha indiferença agora já desperta. Não passa de um pateta. Fácil, como um objecto que se atira e parte só por tédio.

O outro, na mesa ao lado, aquele ainda menino que palra sem parar, sem tino ou viço ou calma, atrapalhando as frases e os ouvintes. Tem um corpo que me agrada e olhos desatentos. É fácil arrancar-lhe o tempo de atenção que quero ter. Basta que no olhar que o prende haja um sorriso breve preso ao anzol dos olhos e aqui o tenho já calado e mudo, a suar de súbito, a sorrir e a olhar, a olhar e a sorrir, sem o pudor dos peixes moribundos que no estertor final apenas movem o leque asfixiado das guelras impotentes.

O homem já maduro a beber sumo de laranja com limão? Aquele de camisa de seda e boca de cetim? Um aceno meu, um subtil aceno com a cabeça, a rede dos olhos presa nos rochedos e ei-lo já de pé, à espera.

 

O amor?

Eu sinto apenas cheiros. Cheiros espalhados, esmagados, pelas ruas. Agradam-me os cheiros dos corpos que passam distraídos. Aproximo-me das nucas e abro as narinas e sorvo o quente odor dos corpos acabados de banhar.

Farejo.

O meu amor é olfactivo. Não tenho outro a dar.

O resto é náusea ou tédio, desprezo ou indiferença.

O Resto é morte, a entediante morte ou a solidão, que é uma espécie de morte distraída que nos deixa o corpo a apodrecer ainda vivo e foge desgraçada com o coração e a alma a sangrar nos dentes.

 

La Mort...

Je la chante et, dès lors, miracle des voyelles

Il semble que la Mort est la soeur de l'amour

La Mort qui nous attend, l'amour que l'on appelle

Et si lui ne vient pas, elle viendra toujours

La Mort.

 

Odeio a sujidade dos dias espalhados pelas ruas. A vida sem-abrigo. A inércia torpe dos que acreditam que no mais ínfimo pormenor está a diferença. Não existe pormenor que não seja um estilhaço perdido na ruína, que lhe pertence, que é parte integrante do desastre, inútil como um facto. Recuso o lamento na vida dos outros com o nojo de me sentir igual às pedras das esquinas, aos lugares descritos medíocres, mas com a pretensão da alma de Zola.

 

Escolho a inclusão no lugar-comum, no cliché que monto, no fotograma que construo sem pudor, troco o meu cavalo por um reino até que a minha vida inteira se reduza a pontos que cintilam.

 

Le Baiser du Dragon. Efémero e fatal.

 

Na foto -  Eleanor Parker, 1952

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A Gaffe a divagar

rabiscado pela Gaffe, em 18.10.16

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A sombra das árvores encharca-se de pássaros como quem veste uma camisa branca.

Pousa no silêncio a cor das fontes e a crina das raízes rasas de água.

Chove nos vidros de cetim dos olhos dos lagartos, no sono dos sapos, no risco dos insectos sobre a cal cega de frio.

A chuva é uma rosa branca aberta nos meus braços. Nua escorre rumo ao rio.

 

Ilustração - Christo Dagorov

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A Gaffe pluvial

rabiscado pela Gaffe, em 17.10.16

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Outra vez a chuva. Sílaba a sílaba, pálpebra a pálpebra. Chove e durmo no minúsculo coração das gotas de asa.

Sílaba a sílaba, pálpebra a pálpebra, chove na terra sem cavalos e sem juncos.
Chove e durmo no minúsculo coração das uvas.
Nos meus lábios há o voo raso do pássaro das águas. Nos meus dedos a nuvem que começa presa no coração das gotas de asa.

A luz de linho antigo desfaz o nó das sombras sob as árvores e no coração estrídulo de um pássaro.  
Chove e adormeço.

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A Gaffe na chuva da avenida

rabiscado pela Gaffe, em 12.10.16

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 Há chuva na avenida.

 

Dentro da chuva há gente. Um cão que ladra e uma folha de papel sem mais nem menos.

Ninguém se vê. Ninguém confunde ou olha ou pasma, deslumbra ou desfalece. Passo por gente que rompe pela chuva já sem tempo de olhar e de sorrir, de se voltar para trás para tornar a ver.

 

Nos dias de tempos idos, mesmo rasando a luz do entardecer, sentava-me no banco do jardim da avenida e havia apenas névoa e cães e folhas de papel presas ao chão e sempre me sentia alguém que eu não sabia, diferente e igual a mim, mas nunca eu.

Agora há chuva e sinto-me cansada de me sentir sentida. Sinto-me e penso que o sentido chega daquela que é pensada por mim, que não sou eu. Sinto-me a pensar e estou cansada.

 

Há chuva e sinto-a como um cão que ladra dentro do que penso.

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