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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de mau pêlo

rabiscado pela Gaffe, em 22.07.16

A Gaffe é invadida pela melosa melodia de Francisco José, cavernoso e romântico, morno e enrouquecido.

 

Olhos azuis são ciúme
E nada valem para mim,
Olhos negros são queixume
De uma tristeza sem fim,
Olhos verdes são traição
São cruéis como punhais,
Olhos bons com coração
Os teus, castanhos leais.

 

Embalada pelo cantado, a Gaffe descobre que para além de uma parafernália de defeitos que lhe são atribuídos, é também uma ciumenta, com chispas de traidora, sem qualquer valor para o rapaz que continua a amornar a atmosfera que respira.

Não que sofra atrocidades com esta revelação melodiosa, até porque o artista não lhe preenche a pauta, mas começa a irritar ligeiramente perceber que as ruivas, geralmente com olhos claros, são sempre um caso digno de figurar no rol das figuras pérfidas que assombraram - pelo menos desde o início da Idade Média até ao falecimento da Santa Inquisição - e que assombram - não é à toa que se continua o ouvir a pindérica expressão ruiva de mau pêlo - a plácida vida dos vizinhos.

 

À Gaffe já é suficiente não bronzear, pensando com as suas sardas que talvez a facilidade com que apanha escaldões provenha das fogueiras inquisitoriais.

À Gaffe já bastam as suspeitas de infantilidade suspensas nos seus caracóis, como enfeites de Natal ranhosos, que os néscios e aparvalhados misturam com piadolas raquíticas.

À Gaffe já bastam as alusões à libido que nas ruivas se descontrola facilmente, tornando-a uma devoradora de homens, uma predadora sexual - vulgo tarada.

 

A Gaffe decide sem apelo nem agravo que se voltar a ser brindada com o clássico olhos azuis são ciúme e nada valem para mim ou com o tradicional mimo com sabor paternalista és uma ruiva de mau pêlo, vai referir, mesmo ignorando os factos, o tamanho exíguo, mesquinho, irrisório e caricato da pilinha do rapaz.

 

Mesmo que o rapaz seja uma rapariga.

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A Gaffe massacrada

rabiscado pela Gaffe, em 02.09.15

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A Gaffe afirma que ser ruiva é quase tão doloroso como conviver com o penteado de Donald Trump e lembra às feministas que uma cabeleira da cor do fogo é tão limitadora como qualquer soutien digno de fogueira.

Entre inúmeros percalços, a Gaffe escolhe aqueles que tem sofrido estoicamente e prontifica-se a acolher nos seus braços solidários a barba ruiva de três dias de Michael Fassbender.

 

Anotemos alguns pontos:

 

- Há sempre gente que sente necessidade de nos avisar que estamos em extinção;

 

- Há sempre alguém que comenta a cor do nosso cabelo, seja onde for, estejamos onde quer que seja;

 

- Há sempre um estranho que nos aconselha o melhor protector solar que conhece;

 

- Há sempre alguém que diz:  – Olha! A tua futura prole! – quando por nós passa uma criança ruiva;

 

- Há sempre alguém que nos pergunta se a cor do nosso cabelo é natural, mesmo que isso seja tão óbvio que até doa;

 

- Há sempre alguém que nos tenta impingir um outro ruivo;

 

- Há sempre alguém que nos tenta convencer que o nosso cabelo não é vermelho, é alaranjado;

 

- Há sempre alguém que num dia de frio tenta ser engraçado e finge aquecer as mãos no nosso cabelo;

 

- Há sempre alguém que nos pergunta se somos parentes de um outro ruivo que passa;

 

- Quando coramos, perguntam-nos se nos estamos a sentir bem e tentam medir-nos a febre;

 

- Quando sentimos que não vamos longe, porque a cor do nosso cabelo nos prende;

 

- Somos marcadas no facebook em fotografias onde existem objectos avermelhados ou cenouras e laranjas;

 

- Somos, mais tarde ou mais cedo, as ruivas honorárias de qualquer sociedade ou filarmónica;

 

- Deixamos de acreditar que haja alguém a desejar ter um filho ruivo;

 

- Identificamo-nos mais depressa com personagem ruivas da BD, mesmo as mais horríveis, e de imediato com todas as personagens ruivas no cinema;

 

- Provamos que somos ruivas verdadeiras quando apanhamos um escaldão dois minutos depois de termos chegado à praia, enquanto os outros estendem as toalhas;

 

- Apanhamos um escaldão no Outono, mesmo à sombra;

 

- Ficamos demasiado alegres quando nos cruzamos com um rapagão ruivo lindo de morrer;

 

- Respondemos sempre que alguém grita RUIVA! Reagimos sempre, porque pensamos que nos estão a chamar;

 

- Não somos bem, bem ruivas, porque um dos nossos amigos acha que o nosso cabelo é mais cor de ferrugem;

 

- Agarram-nos por um braço e aproximam o rosto do nosso para que se veja como é branca a nossa pele;

 

- O número de pessoas que nos identifica por a ruiva, cresce à medida que crescemos;

 

- Chega sempre o momento em que os velhotes nos acariciam o cabelo com ar de pena;

 

- Quando o nosso blog tem referências, ainda que gráficas, aos ruivos;

 

- Descobrimos surpreendidas que ruiva também pode ser dito com uma ternura imensa e que nessa altura não somos nós as criaturas em vias de extinção. O resto do universo já desapareceu. Apenas fica a voz de quem nos chama. Talvez seja por isso que, se fosse permitido escolher o tom da nossa pele, a cor do cabelo ou a quantidade de sardas que nos povoam o corpo, a Gaffe não hesitaria em permancer tal como é. 

Há vozes com um timbre que nos faz sentir que somos raras, mesmo quando a banalidade também é ruiva.  

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A Gaffe genética

rabiscado pela Gaffe, em 31.08.15

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Roma Antiga comercializava por mais altos preços, dada a raridade, os escravos ruivos, enquanto os egípcios ateavam fogo às cabeleiras ruivas para lhes destruir a cor.

Para alguns, em tempos que não se apagaram de todo, ser-se ruivo seria padecer de uma mutação genética. Talvez seja por isso que as abelhas picam mais estas criaturas. Os insectos são muitas vezes aliados a tolices humanas e, por sua vez, todas as tolices humanas nos vão transformando em rastos de insectos. 

 

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