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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe emparelhada

rabiscado pela Gaffe, em 17.05.17

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 Está explicado o brutal sucesso e o inesperado impacto de Salvador Sobral!

 

Segundo a imprensa coscuvilheira, Salvador Sobral tem uma soberba paixão e nem sequer precisa de amar pelos dois.  

 

Jenna Thiam, como não podia nunca deixar de ser - dado as badaladas características do namorado que incluem o talento, a sensibilidade, a expressividade, a inteligência e o bom-gosto -, é ...

RUIVA

 

A prova insofismável!

Quer se queira, ou não se queira, atrás de um salvador existe sempre uma ruiva.  

 

na foto - Jenna Thiam

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A Gaffe de Salvador

rabiscado pela Gaffe, em 14.05.17


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Pela primeira vez sinto que devo fazer um esforço para controlar o uso dos adjectivos, tornar-me parca nos avérbios e emegracer a verborreia.

Afinal, este post fala de Salvador Sobral e de Amar Pelos Dois e é um bocadinho tolo desatar a coleccionar o lado pomposo das palavras, quando todos os cromos estão já repetidos.

É inútl também tecer considerações rebuscadas, ou retirar ilações precipitadas, iguais àquela que na ausência de género na letra da canção encontrou uma subliminar indicação de apoio à diversidade de escolhas que o amor tem ao dispor.

 

A letra - convém reter que existe a letra de uma canção, assim como existe um poema que é cantado e que estas duas possibilidades nem sempre coincidem - é lindíssima, estabelece uma cumplicidade cativante com o arranjo musical e está interpretada por uma voz belísssima, comovente e expressiva que atingiu em cheio a sensibilidade de países que não precisaram de a entender para se renderem à união do timbre mágico de Salvador, à harmonia, à inteligência e a sensibilidade da melodia.

 

O less is more foi aqui perfeito.

 

Há no entanto, para além de tudo o que foi já dito - e muito bem dito - por outros que não eu, um dado que me deixa curiosa.

A canção extravasou os territórios bem delimitados do Eurofestival e provocou reacções efusivas, entusiastas e entusiasmadas, quer por parte de gente que tem lugar cativo no patamar maior da música global – Caetano, ou Scott Matthew, por exemplo -, quer por parte de quem não é habitual nestas andanças - J. K. Rowling, ou Meryl Streep que já declararam a sua paixão pela voz de Salvador.

Aposto que Judy Garland também se renderia a esta canção.

 

Estou certa que arrisco rabiscar mais uma teoria tola que se pode unir às tantas outras que aparecem nestes casos, mas apetece-me dizer que Salvador e Amar Pelos Dois sobrevoou alguns dos arquétipos que - como é destino deles -, são comuns a toda a gente. Salvador com a melodia que encarnou aproximou-se dos nossos denominadores comuns e, muito mais do que a letra cantada ou o arranjo que a vestiu, foi a voz de cada palavra, a voz que a voz de Salvador entregou a cada uma das palavras, que fez com que as árvores do cenário se tornassem realmente elemento primordial e coadjuvassem a interpretação.  

Talvez tenha sido este breve voo sobre o ninho de cucos que partilhamos todos sem mesmo saber, que fez com que Salvador Sobral se tenha tornado realmente a celebração da diversidade, unindo tudo.    

 

Mas é evidente que posso apenas estar ainda comovida e tudo se acabar na Quarta-feira, mas se ouvir Nem Eu, ou pasmar com esta extraordinária versão da canção vencedora, penso exactamente o mesmo.

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A Gaffe finalista

rabiscado pela Gaffe, em 10.05.17

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A Gaffe também assistiu ao Festival da Eurovisão e apenas com Salvador Sobral sentiu que havia um espacinho para escapar da festa de arromba dos finalistas do 12º ano em Lloret de Mar, unida à feira da Ladra com salpicos de bacanal de despedida de solteiro estrelada por uma Micas del Vale del Fuego, bailarina de varão. Apenas com Salvador Sobral e com Amar Pelos Dois se conseguiu respirar durante uns minutos sem receio de, logo ali, nos enfiarem na garganta um pé, ou uma perna, ou uma mama, dos sucessivos acrobatas vocais e das respectivas coreografias pirómanas.    

 

Passemos a revista às tropas:

 

Azerbeijão

Uma Lady Gaga de quintal urbano que não sabe onde enfiar o gado, mantendo o cavalo quieto com a gritaria pretensamente dark.

Suécia

O Ken na passadeira com uma canção banal a lembrar os idos 80.

Grécia

Dois belos bailarinos de tronco nu e de pila apertada para desviar as atenções da porcaria da canção. Conseguiram.

Polónia

Não me lembro, mas sei que tive receio de ver entrar por ali dentro as cooperações de bombeiros de serviço.

Arménia

Também não, só sei que também gritou até vir o Chico – não o da Sobral, mas o da expressão portuense - segura que era Kali que desabou ali por engano. 

Austrália

A mãe devia ter tentado impedir o menino de fazer figuras tristes imitando o Bieber aos berros. Os adolescentes sozinhos são por norma parvos. 

Moldávia

Um bando de bacanos com uma canção toda bacana. É fácil esquecer o quanto se divertiram a cansar-nos.

Chipre

O Robbie Williams de pacotilha a esganar uma versão menor de Party Like a Russian.

Bélgica

Uma voz grave e bonita numa canção interessante. Estou ansiosa por a ver na final a desabar em lágrimas e a chamar pela mãe.

 

E depois Portugal com Salvador Sobral a provar que uma melodia que vai buscar aromas aos anos 50, à Bossa Nova e ao Jazz, pode ser interpretada apenas com o coração todo inteiro em cada palavra.  

 

Tão lindo, Salvador! Gostei tanto da tua camisola!

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A Gaffe a "Amar Pelo Dois"

rabiscado pela Gaffe, em 08.05.17

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A véspera dos acontecimentos é a derradeira oportunidade que temos de falar deles correndo o risco de nos enganarmos.

 

Neste pressuposto, mas sabendo que não haverá engano posterior, chegou o momento de falar de Salvador Sobral.

 

Li e ouvi elogios rasgados à canção – incluída na área do Jazz-pop, segundo os especialistas - que irá representar Portugal no festival da Eurovisão, ao mesmo tempo que ouvia e lia imensas patetices maldosas que incluíam a condenação da letra por se revelar apologista da anulação, por amor, de alguém a favor de outro alguém e de certa forma publicitar este revoltante estado ou predisposição. É inútil fazer com que estes exigentes críticos reconheçam que o Fado ficaria sem uma fatia substancial do seu repertório se abolíssemos todas as estrofes que assumem a escolha desta desistência em favor do outro, ou com que ouçam uma das mais extraordinárias canções de amor jamais escritas, porque suspeito que o …

 

Laisse-moi devenir 
L'ombre de ton ombre 
L'ombre de ta main 
L'ombre de ton chien 
mais, ne me quitte pas.

 … Seria retirado do poema por apelar à bestialidade.

 

É uma argumentação paupérrima, parola e medíocre e não pode ser tida em consideração.

 

Ao lado, mesmo ao lado, está a censura à forma com que Salvador Sobral se coloca em palco e interpreta a canção, aliada a uma revoltada denúncia de sobrevalorização da sua voz.

Concordamos todos. Salvador Sobral não é Ricky Martin. Felizmente.

 

Seria muitíssimo proveitoso rever o concerto de Salvador Sobral transmitido pela RTP1 no passado Sábado, porque ali descobrimos a inutilidade de todos estes beliscões daninhos.

 

Seria muitíssimo interessante que neste exacto concerto ouvíssemos a versão de Nem Eu de Dorival Caymmi, porque é nesta reinterpretação que Salvador Sobral prova uma extraordinária sensibilidade, mesclada com um humor requintadíssimo, entregue em diálogo inteligente e sapiente com o piano que reconhece a dádiva total do intérprete a cada palavra dita - e sentida - sem equacionar qualquer manuseio mais consentâneo com o bambolear de ancas de Ricky Martin e atingindo com uma facilidade deslumbrante as notas mais agudas, sem sequer danificar por breves segundos a suavidade e o veludo da voz.

 

Salvador Sobral é ele todo inconfundível. Nada de tonto se sobrepõe a sua capacidade vocal e interpretativa.

 

No eterno festival de gritedo desalmado, de ruído de coxas e de plumas a voar em crises epilépticas, defendendo uma canção que dignifica aquele lantejoular repetitivo, finalmente actuará um cantor de excepção.  

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