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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe calçada

rabiscado pela Gaffe, em 14.11.15

É corrente referir que um homem se distingue pelos sapatos que usa. A verdade não está longe da máxima. Não vos adianta, rapazes, como o recolhido Bento XVI, usar Armani, cortado para vós, em exclusivo, se nos vossos pés não cintila Prada - já que estamos no Vaticano.

Creio que o mesmo se aplica a nós, raparigas. Não há forma de vestir um sumptuoso Valentino calçada com umas miseráveis sabrinas compradas nos saldos da Zara.

Não adianta, minhas queridas, quando queremos transformar o cérebro em papa cor-de-rosa, lermos as revistas onde uma celebridade qualquer, fotografada de pernas tortas e sorriso colado com saliva - sorriso-selo, em consequência -, nos afirma que se o vestido é Dior, os pumps são de um hipermercado chinês e que as coisas combinam.

Não são compatíveis. Por muito desesperado esforço que façamos, não há harmonia possível. Não se caçam tigres com espátulas, nem moscas com qualquer coisa gigantesca e que dispare.

 

Os sapatos são a obsessão feminina mais comum, mais divulgada e tão imerecidamente criticada e, no entanto, há uma certa lógica neste fútil drama intimista. Podemos estar a usar um trapo qualquer, ou até mesmo uma peça do guarda-roupa da Dulce Pontes, mas se nos pés deslumbrarem os sapatos da figura, qualquer candeeiro, por muito rebuscado e sofisticado que seja, nos servirá de apoio.          

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A Gaffe agente dupla

rabiscado pela Gaffe, em 13.11.15

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O que separa, ao primeiro olhar, uma criatura angelical, ingénua, colegial, simpática e benévola, capaz de um voluntariado qualquer, repleto de boas intenções e de sacos de hipermercado, de uma cabra altiva, implacável, carniceira, dominadora, insensível e obstinada?

Num primeiro olhar - que, digam o que disserem, conta muito mais do que se pode imaginar - afirmaria, sem hesitar, os sapatos.

 

Evidentemente que há criaturas medonhas com laçarotes rasos nos pés e santas de salto alto, mas a experiência indica que o contrário é mais usual.

Não é, de modo nenhum, confortável andarmos a calcorrear os becos e as esquinas, com agulhas abissais e abismais nos pés, à procura de quem, normalmente, passa bem sem a nossa insistente caridadezinha e, pelo contrário, não há na Empresa ninguém que nos obedeça se tivermos calçados umas sabrinas amorosamente laçadas.

É escandaloso e triste, mas não podemos negar a evidência.

 

Os homens que iludidos pensam deter algum poder que nos supera, receiam as mulheres que são capazes de fenomenais equilíbrios, seja em que matéria for e ignoram ou, no máximo, sorriem condescendentes, perante a menina que lhes apresenta os dossiers completos e estudadíssimos das futuras aldeias olímpicas, com laços fofinhos a abanar nas extremidades inferiores.

 

Os homens, todas as raparigas espertas o sabem, são previsíveis.

 

Portanto, minhas queridas, deixem-se de tontices e usem estratégias inteligentes de compensação. Não insistam heroicamente no que sabem que não vai resultar perante a mente estereotipada do poder masculino. Usem os dados que eles viciam. Usem-nos a vosso favor.

Se querem ser obedecidas, tornem-se fisicamente maiores do que eles, cresçam com a ajuda de doze centímetros de Louboutin e façam como o cavalo do cortejo: passem, borrem o que há para borrar e sejam aplaudidas.

Se querem o ursinho de peluche com coleira de diamantes que vos servirá de pulseira, lacem os sapatinhos e saltitem.

Posso não ser feminista, minhas caras, mas a verdade - a de alguns deles - usa sempre saltos altos.

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A Gaffe balança os sapatos

rabiscado pela Gaffe, em 11.11.15

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As razões, se encadeadas, que transformam uma rapariga que se preza, razoável e ajuizada, numa psicopata assassina capaz de apunhalar quem interfere na colecção de sapatos que não se cansa de aumentar, tornariam a Muralha da China numa pequena construção em Lego.

Parte da culpa desta deliciosa anomalia está relacionada com o facto de terem sido os sapatos femininos usados como instrumentos de domínio e de controlo pelos rapazes, sobretudo os medievais e os renascentistas, que tomavam como signo de beleza as plataformas de madeira, gigantescas, apensas à sola dos tamancos disformes das donzelas. Nenhuma das moçoilas em questão conseguia calcorrear as ruelas e vielas tortuosas sem a ajuda de matronas sinistras a soldo do patrão e o sério risco de se partir a anca numa correria esconsa para os braços de um amante, boicotava qualquer deseja de trair.

Como é evidente, as mulheres decidiram agarrar com ambas as mãos os instrumentos de controlo masculino que traziam nos pés e transformaram o que seria opressor num poderoso método de sedução, capaz de fazer mover montanhas sem que fosse necessário dar um passo.

Nesta alteração de poder acabaram por depender da teia que urdiram e, deleitosamente viciadas, voluptuosamente jogadoras, deixaram-se fascinar pelos fios que teceram.

Esta fascinação feminina é estendida, embora com menos visibilidade, aos sapatos do outro sexo.

 

As mulheres gostam de sapatos masculinos com quase o mesmo entusiasmo que dedicam aos seus.

 

Reconhecendo o facto, rapazes, nunca é demais saber que mais vale aparecer descalço do que mal seguro e se nesta operação de indiscutível charme e sedução, o moçoilo bem calçado e pueril balançar os pés, a eficácia do acto duplica a olhos vistos. Raramente uma mulher consegue resistir a uns sapatos perfeitos com um quase infantil patifezinho dentro.

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Gavetas:

A Gaffe de saltos altos

rabiscado pela Gaffe, em 23.09.15

saltos altos.jpg De acordo com alguns peritos na matéria, uma criança nasce com todas as potencialidades de se tornar matemático, arquitecto, músico, pintor, bailarino, físico atómico, escultor, escritor, investigador e toda a panóplia de variantes que quisemos, porque o cérebro contém todas as sinapses certas que favorecem todas as hipóteses. São os primeiros dias de vida que as vão destruindo, restando na maioria dos casos uma normalidade acabrunhante. A teoria sucumbiu rapidamente, embora reconheça que aplicada a mim tem algum fundamento, tendo em conta que o meu desenho, já de adulta, de um cão, foi encaixilhado pelo meu pai que achou maravilhoso ter retratado o extraterrestre que um dos provadores do vinho novo tinha avistado depois de ter permanecido demasiado tempo perto do lagar a fermentar. As ligações que me permitiriam aceder ao universo da expressão gráfica foram decepadas algures na minha mais tenra meninice.

 

As sinapses que ajudam uma mulher a usar tacões agulha como se tivesse com eles nascido, é uma das primeiras a partir. São raríssimas as que sobrevivem à adolescência titubeante e de plataforma de cortiça com tiras enroladas aos tornozelos e, na morte, levam consigo a consciência do deprimente que é parecer que sofremos de gravíssimos problemas ortopédicos ou de dolorosos achaques reumatismais quando nos atrevemos a dar um salto maior que a perna.

 

Os tacões, sobretudo os agulha, os que não suportam o suporte da cunha compensadora, devem ser usados apenas por mulheres que parecem ter sempre caminhado em bicos de pés, que parecem uma prima ballerina assoluta eternamente pronta para iluminar o Lago dos Cisnes e que sabe que os gémeos - os músculos da barriguinha da perna -, não vão, jamais, sugerir que necessitam de soutien.

 

Uma das mais eficazes provas da elegância genética de uma mulher é a naturalidade com que usa tacões agulha. Se o Everest parecer que foi encastrado invertido na base dos seus calcanhares e que a montanha chega sempre perfeita a qualquer Maomet, então a mulher conservou todas as sinapses que permitem escalar o que quer que seja, mesmo que a temperatura não lhe permita um decote Chanel vertiginoso.

 

É evidente que, perdidas estas ligações, uma mulher pode, mesmo assim, ousar encavalitar-se.

Com uma sorte extraordinária, um treino intensivo e aulas no Chapitô, pode eventualmente chegar a ficar apta, se existirem factores muito palpáveis, a parecer um belo rapagão em desequilíbrio.

O povo diz que os olhos também comem e, mesmo quando a carne é mal apresentada, somos mais benevolentes quando há bons legumes.

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A Gaffe de vela

rabiscado pela Gaffe, em 09.03.15

vela.jpgÉ evidente que a Gaffe não é apologista de sapatos de vela. Normalmente trazem acoplados um rapazinho com dentes branqueados, muito preppy, e com um discurso repleto de amendoins, falando como se os tivesse na boca ou um cinquentão de cabelo ao vento, calças vermelhas e camisa ao xadrez miudinho de preferência em tons de azul, encaixado num descapotável que esvoaça em redor das colegiais. Ambos nos prometem aventuras, mas nenhum deles consegue mais do que uma descarga ligeira de adrenalina ao reconhecer Isabel Alçada no elevador.

 

Os sapatos de vela são, apesar de aparentemente confortáveis, um Verão sem ilusões ou uma desilusão que não bronzeia.

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A Gaffe trintona

rabiscado pela Gaffe, em 26.01.15

Trintona.jpgEm Abril próximo, a Gaffe atinge os trinta e dois anos, iniciando o seu percurso balzaquiano.

Não que a preocupe o génio com que o francês de eterno roupão descreve as mulheres que vão observando a subtileza com que se riscam as rugas, mas confessa que a intriga a distância e os pedregulhos que vão crescendo e surgindo entre ela e as que há uma década antes dela viram a luz do dia.

Esta distância é pedestre. Pode atingir todas as superfícies, mas começa indubitavelmente pelos pés.

A Gaffe não consegue deixar de sentir uma aversão descomunal em relação aos brutais penedos que as meninas jovens decidiram calçar e tornar o denominador comum das suas andanças. Um must, o pico do Everest, o orgasmo. A textura, o aspecto do plástico e as cores primárias aliadas ao preto e ao branco luzidios que acentuam as trombas grossas que fornecem aos pés, deixam a Gaffe próxima da revolta e pronta a enfrentar ataques terroristas. Passada a indignação, a Gaffe desiste de sentir o cérebro quando apanha com os monumentais tacões, grossos troncos com uma base ondulada, que são compensados por uma plataforma igualmente embondeiro e com uma base também às ondinhas. A Gaffe não entende como é que estas raparigas não se apercebem que ao contrário do que se pensa, aquilo lhes aproxima os pés das ancas, fazendo-as parecer um dos carrinhos anões com pneus gigantescos que divertem imenso os americanos trepando e esmagando uma fila de sucata. Presos a eles, as leggings que deixam os tornozelos desnudos e quase obscenos a surgir daquele amontoado de plástico e os calções de couro que soltam a barriga apertada por lycras zebradas, fazem a Gaffe acreditar que o Apocalipse já anda à solta pelas avenidas. Esta imagem feminina dá razão àquele que diz que uma jovem mulher é como a salcicha: pode ser boa, mas é preferível nunca saber como se arranja.

Outro sinal, este mais agradável, que os trinta e dois anos da Gaffe estão no activo é o facto de já conseguir cruzar as pernas!

Não é de todo fácil. Cruzar as pernas é das operações mais complexas que uma mulher realiza e a perfeição é atingida apenas com o tempo. Uma perna é colocada em cima da outra que, inclinada, constrói um ângulo agudo com o chão, e o pezinho da perna que se eleva vai prender-se na barriga da perna em sossego enquanto o tronco permanece numa vertical inatacável e se beberrica o chá. As tentativas imaturas da Gaffe fizeram-na tombar, Torre de Pisa, e esbardalhar-se no sofá, suplicando auxílio para desencravar o pé e com a bebida derramada no colo dos brocados. Hoje, trintona, consegue contorcer-se na perfeição e acrescenta a este notável número de equilibrismo a bolacha de chocolate, duas gotas de leite no chá e um sorriso Charlene de Mónaco.

 

Ter trinta e dois anos deve ser isto! Perceber finalmente que a idade também não está na cabeça, mas nos pés.

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A Gaffe de memória calçada

rabiscado pela Gaffe, em 31.12.13

Hesitantes em relação ao que calçar na noite de festejos de Ano Novo, todas as raparigas espertas se podem socorrer, tal como o fez Sebastian Errazuriz, das memórias que os amantes lhes deixaram, calçando as experiências que tiveram sob a forma que a criatividade lhes fornece.

As peças, acompanhadas de brevíssimas histórias de relações partidas, apesar de divertidas, podem parecer ligeiramente absurdas e vagamente idiotas, mas aproveitam o que de mais interessante sobra destas caminhadas: a capacidade de olharmos com humor o que nos resta quando ao falarmos em pares nos referimos apenas aos sapatos.

A vantagem desta opção é que, se o quisermos, podemos ter uma colecção de sapatos que fazem a de Imelda Marcos parecer raquítica. E não adianta tentar arrasar a nossa falta de tino ou juizinho com as moralidades costumeiras. Por norma quem nos considera promíscuas tem assustadoramente menos e pior sexo do que nós.  

Ver mais )

 

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A Gaffe caminhando

rabiscado pela Gaffe, em 04.12.13

Se as vossas pernas não chegam ao pescoço, raparigas, evitem o uso de sapatos que de imediato se tornam o epicentro de todas as atenções.

Os tec shoes são peças interessantes, mas, se demasiado próximos do busto, facilmente produzem o que uma rapariga esperta deseja apenas à sua pior inimiga: transformam a elegância genuína e inata de uma mulher sofisticada, numa migalha de exibicionismo exuberante de uma histriónica histérica.

O caminho faz-se caminhando, mas é conveniente saber escolher os sapatos certos para cada uma das nossas digressões.  

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A Gaffe em pezinhos de lã

rabiscado pela Gaffe, em 09.10.13
(J.Crew - men's shoes)

De todos os passos escutados pela Gaffe, os que mais a atraem são os mais difíceis de incendiar, os que sente descuidados, pertença de inocências a queimar.

Mas embora a Gaffe reconheça que nem sempre o demónio calça Prada, sempre soube desfazer os nós de todos os cordões por desatar.

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A Gaffe das botas

rabiscado pela Gaffe, em 28.09.13
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Quando o travo inconformado da aventura é picotado pela rigidez da contenção, todas os caminhos são promessas de viagens sem horários de chegada.

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A Gaffe sem estrelas

rabiscado pela Gaffe, em 27.09.13
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Rapazes, se tiverem já ultrapassado os trinta, não ousem atravessar os nossos trilhos com ténis All Star Converse nos pés!

Um homem bem amadurecido não anda aos pulinhos no recreio de um adolescente e, sábio, reconhece que os nossos mais atraentes demónios podem não calçar Prada, mas nunca enfiam os cascos em terreno movediço, mesmo que para tal tenham de perder as botas.      

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Gavetas:

A Gaffe reflectora

rabiscado pela Gaffe, em 16.07.13

 

 

Havendo já a bota de ouro e as prateadas sapatilhas de desporto de Ronaldo, não vale a pena, rapazes, cobiçarem os resplandecentes sapatos da imagem, a não ser que se preparem para peregrinar durante a noite, na berma da auto-estrada, receando o trânsito nocturno que desta forma passará a ser ofuscado pelo reflexo do vosso pedestre vaguear.  

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A Gaffe na marina

rabiscado pela Gaffe, em 24.06.13

 

Chegadas as temperaturas que esperávamos com alguma sofreguidão e embora a Gaffe não consiga delas tirar grande partido (as ruivas jamais bronzeiam), é sempre agradável deparar com o eterno allure de marinheiro, riscado e azul com linhos brancos.

A harmonia é perfeita!

Ao contrário do que um primeiro vislumbre poderia fazer supor, o colorido dos conservadores e yuppies sapatos de vela não cria uma desconstrução capaz de impelir os nossos regozijados olhos apenas para o contraste que provocam no conjunto.

São um excelente complemento que coadjuva, elabora e renova com eficácia e inteligência a tradicional imagem que veremos sempre perto das marinas onde pairam os barcos do nosso mais acalorado contentamento.

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A Gaffe no sapato

rabiscado pela Gaffe, em 06.06.13

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A Gaffe e os monkstraps

rabiscado pela Gaffe, em 27.05.13

Dificílimos de encontrar no mercado português, os monkstraps são por excelência os mais elegantes sapatos que um homem pode calçar.

As duas fivelas podem ser apertadas, como é habitual no mais clássico e reservado usurário, embora a descontracção de uma delas desapertada forneça ao dono uma subtil rebeldia que, apesar de continuar dentro dos parâmetros exigidos pela regras de um óptimo gosto, não deixa de ser uma pequena e interessantíssima rebelião, uma minúscula transgressão que torna o homem mais curioso e apelativo. Aconselháveis a todas as espécies de rapagões.

(Miyagi Kogyo - double monks)

(double monks)

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