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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe sacana

rabiscado pela Gaffe, em 09.06.17

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O bom sacana.

 

Suspira-se quando se atravessa - mordendo o lábio com que nos mente -, na vida que trazemos engolida pela multidão dos bons rapazes.

A inconsciência dos estragos que provoca é encantadora e o sorriso quase infantil que espalha nos corações destroçados, acreditando que a culpa dos estilhaços nos pertence por inteiro, é cativante.

 

Não adianta irritarmo-nos. O bom sacana desarma qualquer indignação com intenções mais bélicas e acaba a mendigar perdão apenas porque acredita mesmo que é nesse aparente arrebatamento, nesse fingido remorso, nessa contrição encenada, que se emendam os males do mundo.  Neste malandro um pedido de desculpa é sempre um acto de altruísmo e a alegria com que o realiza torna-se comovente aos nossos olhos.

 

É irresistível!

 

Irresistível, porque nenhuma mulher consegue por tempo indefinido asfixiar o instinto maternal que este sacana desperta. Salta-nos a enfermeira cá para fora, para fazer companhia a babysitter que entretanto já tinha chegado.  

 

O que fazer então quando no recreio o nosso colinho é implorado por este bom malandro?

 

O mais aconselhado é apalpar-lhe o rabinho, verificar no corpinho todo, com muita vontade e afincadamente, se não tem dói-dói e depois mandá-lo para casa da mãe, já muito habituada a mudar-lhe a fralda.

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A Gaffe e os sete instrumentos

rabiscado pela Gaffe, em 29.12.16

A Gaffe recusa-se a iniciar 2017 sem prestar homenagem ao homem que partilhou com ela o último trimestre de um ano já passado há muito tempo.


Nós, raparigas inconscientes, ignoramos demasiadas vezes a importância de ter por perto um exemplar dos chamados homens de sete instrumentos. São no entanto estes miraculosos espécimes que nos deixam livre, indiferentes aos destinos que lhe damos, o compartimento onde se acumula o nosso arsenal de produtos de beleza.
No manancial dos nossos cremes diurnos e cremes nocturnos; máscaras de variadas dimensões, consistências, formatos, objectivos e aromas, rejuvenescedores de massa capilar e das outras massas que, cedo ou tarde, ameaçarão ceder à gravidade; retardadores de pés-de-galinha e de outras tantas pegadas de bichos mais pesados; unguentos vários que reafirmam a firmeza - que juram duradoira -, do que por enquanto ainda não relaxa e de demasiado mais que agora nos escapa, encontramos, os mínimo, ínfimos, tímidos, quase humilhantes, culpabilizantes, sete instrumentos desta espécie de delicioso troglodita:


1 - A lâmina de barbear;
2 - A espuma de barbear;
3 - A loção para depois da barba,
4 - A pasta dentífrica - invariavelmente sem tampa;
5 - A escova dos dentes;
6 - O sabonete;
7 - O desodorizante.


Sete. Tão mágico! Tão simbólico! Tão cabalístico ou maçónico!


Não são retrossexuais, porque preferem ler o blog do Cláudio Ramos a imaginar um pingo, doce que seja, de cera depilatória a tocar-lhes as axilas e a aflorar-lhes as virilhas - e porque acreditam que a palavra tem um prefixo que lhe dá um sentido dúbio.


Pensam que Kant é apenas uma regra de futebol na boca de Ronaldo - Nã é fôre de jôgue, é Kant! – e ignoram que, por muito que nos seja agradável durante uma ou duas semanas, buzinar-lhes os músculos logo após a chegada do ginásio - cedendo às suas súplicas exibicionistas -, os torna, a eles, previsíveis e a nós muito mais exigentes durante as mais íntimas investidas daquilo que já nos fartamos de apalpar.


São, no entanto, estes homens de sete instrumentos que nos fazem acreditar que somos esplendorosas, brilhantes, educadíssimas, bon chic, bon genre, repletas de glamour, cultas, inteligentes, a roçar o genial, e nos transformam na heroína da canção do Marco Paulo – Uma lady na mesa, uma louca na cama - e louca é a mais decente das palavras que descreve aquilo que nos fazem sentir no amarfanhado dos lençóis.

 

A Gaffe crê, mas não afirma, que o sangue, irrigando de forma exígua o cérebro, se vai concentra em zonas menos dadas ao raciocínio e muito mais vocacionadas para a acção.


Durante um último trimestre de um ano que já passou há séculos, a Gaffe partilhou parte dos seus dias, e as noites completas, com um destes exemplares, lindo de morrer de todas as formas de pequenas mortes. Adorou cada instante e surpreendeu-se - embora estranhasse a ausência daquele ruído bom do virar das páginas de um livro -, com as melodias tranquilas e relaxantes geradas, por vezes, pela privação do pensamento.


O seu primeiro acto de 2017 será este render de homenagem a um homem de sete instrumentos que repartiu consigo o tempo que gastou a montar um puzzle, celebrando ao mesmo tempo a euforia, o êxtase e a exaltação que o dominou por ter conseguido unir correctamente as peças em três meses - quando na tampa da caixa dizia de 3 a 5 anos!


(Um beijo, meu muito, muito querido Rodrigo!)

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A Gaffe sem pedigree

rabiscado pela Gaffe, em 07.10.16

Os homens que já passaram dos 40, mas que teimam em vestir-se de hippies adolescentes são patéticos. Não adianta passarinharem de jeans afunilados e t-shirt justa ou de túnicas de linho e bermudas amarrotadas para mostrar que aquela treta da juventude está no espírito com eles funciona. Não funciona, mesmos com aqueles que fazem yoga, levitação, inalam coisas suspeitas e nos dizem que meditam muito.

 

Ao contrário do que se espera, se tivermos em consideração o visual muito cool, muito casual, muito descontraído e moderninho, estas criaturas são feitas da mesma massa dos inquisidores e suspeito que têm a mesma idade do último se o último ainda andasse por aqui a esturricar as bruxas. Se os deixassem, e se conseguissem, chegariam ao topo desta carreira e desatavam a mandar os desgraçados que consideram envelhecidos para o churrasco, com justificação apensa.

 

Dão festinhas descontraídas e cultíssimas nas varandas ou nas marquises do andar de cima, com vista para a cidade e para as colegiais, cintilando no centro do círculo de amiguinhos e de amiguinhas que não sentem os canivetes - suíços, claro, - que os patifes lhes espetam nas costas.

 

Reagem mal quando se lhes bate no vidro do frasco onde se enfiaram, porque não conseguem suportar que no mundo haja mais gente para além deles e cospem quase logo um veneno difícil de detectar porque vem misturado com saliva e treta.

 

Fazem lembrar a prostituta-cliché que enquanto o cliente apanhado à toa na esquina toma duche, lhe espiolha os bolsos e lhe fura os olhos à mulher, se lhe encontra a fotografia. Só porque sim. 

 

Porque dou importância a esta coisa?


Porque me apareceu na frente um destes homens que me fez sentir como aqui há uns bons dois anos quando entrei em casa e percebi que tinha sido assaltada. Não levaram nada - não havia, como ainda não há, nada de interessante para levar, - mas remexeram todas as gavetas e desarrumaram as tralhas todas. Porque senti o mesmo que senti quando há seis meses entrei na garagem e vi que tinha o vidro do carro partido. Também nessa altura não roubaram nada. Deixaram no banco o pé-de-cabra com que escacaram a janela. Mandei reforçar a segurança da porta e substituir o vidro, mas nunca perdi a sensação de nojo por saber que alguém tinha estado ali mexericar em tudo. Durante um bom período de tempo não senti a casa e o carro como coisas minhas.


O que este quase cinquentão me disse referindo um dos meus maiores amigos - não é mau rapaz. Só espero que tenha deixado de… caçar cenouras - termina de modo ambíguo, que é quase sempre uma forma sobranceira de desprezar o parceiro que talvez nem saiba que foi agulhado. Uma private jock  que faz pensar que o tipo dá alcunhas às pessoas.

 

É um exercício interessante encontrar alcunhas para desgraçados que nem sonham que são etiquetados dessa forma. Tentei fazer-lhe o mesmo e procurei arranjar uma que se lhe aplicasse. Encontrei: 

 

O pincher

Foto - Andrés Nieto Porras

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A Gaffe loira

rabiscado pela Gaffe, em 21.09.16
 

O estereótipo da loira burra, que terá o seu paradigma nas fantásticas encarnações cinematográficas de Marilyn Monroe, é a origem de imensas anedotas, na esmagadora maioria banais e sem grandes ambições.

 

É lamentável.

 

A loira burra, quando não roça o boçal ou o alarve, encaixada em qualquer casa que se deveria manter definitivamente entaipada e em segredo, é uma das mais encantadoras criaturas de que há memória.

A indiferença abissal com que olha o universo e a sua ingenuidade, terna e desprotegida, aliada à suposta ignorância que faz recair sobre aquilo que os outros, por desígnios divinos, consideram essencial conhecer ou saber, torna-a deliciosa e capaz de enfrentar os olhares engavetados e espartilhados, que a amesquinham e ridicularizam, com a superioridade indiferente e a indiferença superior que são atributos apenas dos sábios e dos loucos.

 

Subestima-se a loira burra.  

 

Não há nada mais delicioso do que a ver, por exemplo, chegar esbaforida e revolta ao hall do hotel, no Nilo, gritando que está a ser perseguida por um Lacoste ou ouvi-la declarar surpreendida que, naquela exótica paragem, viu o guia enfiar-se, durante a tarde escaldante, dentro de um saco cama da mesma marca.

 

Esta perversa inocência é muitas vezes ignorada no comportamento desta adorável figura. Valoriza-se a sua suposta estupidez e a sua abismal ignorância, fazendo-se por esquecer que, nesta inconsciência tão depreciada, existe uma miríade de pequenos mundos onde apenas alguns, dos mais libertos e arejados, conseguem vislumbrar condignamente.

Divertem-se juntos.

 

Para mal dos meus pecados, sou uma ruiva.

 

Ilustração - Redmer Hoekstra

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A Gaffe "apalonçada"

rabiscado pela Gaffe, em 06.09.16

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O palonço é um tipo de homem que facilmente encontramos na praia, ao Deus dará, de speedo e de speed pela areia fora, óculos espelhados e músculos em fase de construção - um work in progress infindável, - posando para as garinas que pasmam quando ele passa a caminho do mar convencido que tritões como ele, inconformados, revoltos e rebeldes, são o mais profundo desejo das sereias da polícia.

É por norma o bronze de eleição, a medalha dos que ficam sempre atrás dos campeões, mas acredita no karma e desconfia que foi tramado pelos pecadilhos marotos que comete, ou sonha cometer, sempre que por ele passa no seu balançado que é mais que um poema a garota mais linda que vem e que passa e o enche de graça a caminho do mar.

 

Há palonços magrinhos, enfezados, mas não sabem cantar e permanecem colados às toalhas de praia, em poses artísticas que procuram dar ênfase ao que apertado pelos calções se torna óbvio sem nos preencher sequer um soslaio de olhar, mas desses, a história é tão  parca como o que guardam para nos dizer ou declamar.

 

 

Comum aos dois é o cruzar dos braços frente ao mar e o lançar dos olhos na pesca do horizonte. Reconhecemos os palonços, nestes casos, porque os seus perfis, em contraluz cinematográfica, empurram, com o único jogo de cintura que possuem, o centro dos seus mundos para a frente. Identificámos a fita.

 

Os musculados estão tatuados. Tolices tribais e triviais, dragões que lhes queimaram os pêlos das pernas, carpas sem marés ou lugares-comuns de uma literatura naufragada.

Os raquíticos parecem tatuagens.

 

Não representam qualquer perigo. São como as marés. Sobem e descem ao sabor das nossas luas.

 

O único palonço que uma rapariga deve evitar é o que pertence ao terceiro tipo deste grupo popular.

Não tem tatuagens; gosta do calor; não posa nem pesa nos nossos temores; sabe de cor, mesmo não sabendo, palavras de poetas; quer fazer connosco o que a Primavera faz às cerejeiras, porque leu Neruda grafitado; esbardalha-se nas nossas toalhas e preenche-nos cadeiras que nenhuma faculdade nos credita e ronca e é grosseiro e lambe o dedo para virar a página do livro que somos sempre nós, de capa fina e ilustrações magníficas.

 

É o palonço que se não se encontra sempre à luz do sol. Às vezes aprecia as nossas sombras.

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A Gaffe retroparva

rabiscado pela Gaffe, em 29.07.16

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Fui assistir, há tempos, a um concerto ao ar livre dado por uma banda muito interessante. Uma homenagem a Tom Jobim. Esvaiu-se o nome da banda e o da vocalista. Só sei que era brasileira e que tinha uma voz muito bonita que não envergonhava o Jobim. 


O que me esfacela o entendimento é a cambada de homens que serigaita sempre nestes acontecimentos. São quarentões já rançosos, alguns já entrados nos cinquenta, geralmente barrigudos com pernas fininhas, mas muito cool. Muito Willie Nelson. Muito country.

 

Usam pólos deformados, azuis ou pretos ou então t-shirts lisas, gastas e todas mal amanhadas; sapatos moles, com aspecto de nunca terem visto melhores dias ou sapatilhas mais que ressequidas; Jeans descaídos, sem cinto, bastante sujos e com mau aspecto e um inseparável saco de couro muito usado. Trazem o cabelo mal cortado, com umas madeixas na nuca todas oleosas ou usam um rabo-de-cavalo raquítico, embora sejam quase carecas em cima. Fumam sem parar coisas que fabricam com a perícia de um ourives, não percebendo que o que nos mata deve chegar já feito. Vão buscar as cervejas, com uma rapidez fulminante, e bebem-nas quase sempre pela garrafa ou deixam os copos vazios pousados em todo o lado. Não se sentam, mesmo havendo cadeiras à disposição por todo o lado, para se esbardalharem à nossa frente e serigaitam para trás e para diante como se tivessem grandes planos para o resto da noite. Falam alto e bom som acerca do que ouvem para mostrar que estão por dentro; criticam o tom da voz que canta, com ar muito conhecedor, e referem a data em que a canção foi escrita - fiquei a saber que há canções do Jobim com 50 anos que são ouvidas hoje como se tivessem sido escritas ontem. Nestas andanças, as irritantes criaturas não olham para ninguém. Entram e saem para trazer bejecas com os olhos de quem está a cumprir uma missão em África e desatam às gargalhadas vá lá a gente saber porquê, mesmo no meio do refrão. 


Quem os acompanha são normalmente raparigas iguais. Muito modernas, com calções curtinhos e casaquinho de malha fininha e deformada, por cima da t-shirt com logos gigantes ou citações revolucionárias; cabelo desgrenhado e volumoso, espigado, e chinelos do tipo havaianas, mas decorados com umas florecas murchas, todas retro. Bebem brandy que também trazem cá para fora. Há as que empurram carrinhos com crianças dentro que, suspeito, provam as bebidas dos pais antes de sair de casa, porque estão sempre a dormir e com ranho seco no nariz.

 
Comecei por achar que não passavam de representantes do estereotipado intelectual de esquerda gasta, mas sou nova e não penso. Da esquerda só os que são canhotos. O resto é maneta. 


Há-os por todo o lado e desfazem por completo o prazer que há em se ouvir em sossego uma canção de Jobim. 


São os retroparvos.

 

Ilustração - G. Haderer

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A Gaffe sardinheira

rabiscado pela Gaffe, em 21.07.16

Há uma tribo constituída na sua maioria por rapazinhos mais ou menos empertigaitados, com a capacidade de nos humilhar de fininho com espetadelas de alfinetes miudinhos quando aparecemos todas dispostas a mandar a Chanel para as urtigas.

 

São como sardinhas pequeninas. Não servem para conservar e são precisas muitas para acompanhar um arroz com tomates. 

 

São rapazinhos doidos por mostrar que a cadeira onde devíamos alapar o rabinho devia chamar-se Le Corbusier e não ter o aspecto miserável das minhas, que se chamam Nunes - grande português que vive em Carrazeda de Ansiães e tem bigode farto, - e foram compradas baratas na carpintaria com o mesmo nome.

 

Gostam de referir as viagens que fazem à Patagónia, apesar do tempo, e mostrar-nos que não dá, de todo, um bom ar esbardanhar o corpinho na areia mais próxima de casa, no pino do Verão.

 

Gostam de visitar museus e arranjam modo de verificar se a Mona Lisa dava com a chaise-longue que há no hall dos apartamentos pipis que arranjam com o dedo mindinho no ar.

 

Criticam todas as nossas expressões mais banais e acreditam que a Princesa Diana foi assassinada.

 

Costumam dizer-nos sem qualquer tipo de pudor que leram Shakespeare aos cinco anos, Tolstoi aos dez e com onze andavam enfronhados em Dostoiévski e, quando se referem à pintura, pasmam-nos declarando que foi aos sete aninhos que descobriram as subtilezas do expressionismo e as nuances todas curvas do barroco. Não percebem que não somos parvas e que reconhecemos que uma criança de cinco anos dedicada a Shakespeare ou à talha dourada dos séculos passados sofre de graves perturbações que num futuro por tratar a transformarão numa psicopata.  

 

São, para espanto meu, quase todos magrinhos e na sua maioria até são girinhos. Usam jeans apertaditos, camisolas de malhinha com decote em V para deixar que se veja a t-shirt branca, rentinha ao pescoço, uns ténis aguçados muito D&G e trazem umas pulseiras ranhosas e podres, de tecido colorido, apertadas com um nó que se tem de desfazer para dar sorte.

 

Raramente andam sozinhos. Arranjam sempre um compincha meio débil e com um QI vagamente numerável que lhes apara o pião e lhes vai dando razão, imitando-o nas farpas e nas opiniões. Dizem umas coisinhas com ar de quem decorou os resumos dos manuais escolares e gostam imenso de arranjos florais.

 

São pios e vão à missa, mas nunca rezam ajoelhados para não dar azo a ditos maldosos. Não são gays, são, quando muito, gente moderna e solta, sem teias de aranha, nem vestígios de preconceito e podem, eventualmente, dar uma ou outra escapadela com o mecânico que lhes arranja o mini, mas é tudo por uma questão higiénica: já que o rapagão tem a mão na agulheta, pode muito bem desentupir-lhes os canos. Nada de misturar sexo com isto, porque com estes moços, sexo é só entre iguais.  E são muito iguais estes rapazes.

 

Andam a passear o rabinho por todo o lado e depois, como quem não quer a coisa, vão informando que são os filhos mais novos de qualquer Direcção.

 

Frente a um rapazinho filho mais novo de qualquer Direcção que se permite produzir o rebento descrito, logo se percebe que o rapaz tem a mãe entrevada. Há que ter o dobro da paciência e arranjar maneira de o mandar apanhar sardinhas sem despertar muita atenção.

 

Já não se fazem homens como dantes! - diria a minha avó olhando de soslaio os moldes das molas de rapazes mais peludos.   

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A Gaffe dos fofinhos

rabiscado pela Gaffe, em 12.07.16

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Dentro das polémicas, divertidas e muitas vezes pouco seguras classificações antropológicas, sociais ou culturais, que os estudiosos costumam referir e que descrevem tribos urbanas, subculturas ou subsociedades, que vão desde o punks, o headbangers, o neo-punk, o rockabilly, o nerd, o emo, o skatista, passando pelos ligeiramente insossos peper e pelos assustadores skinheads, perdendo-se numa panóplia de denominações que custa memorizar, mas que reúne grupos ou agregações com características comuns e identitárias que apresentam uma conformidade de pensamentos, hábitos e maneiras de se vestir, de agir e de pensar, não existe o que a Gaffe considera um dos mais queridos. Os ... 

 

Fofinhos.

 

São esmagadoramente muito jovens e com um allure feérico que perfuma de ingenuidade as nossas artimanhas maquiavélicas destinadas a catrapiscar-lhes a inocência. Gostam de cardigans com jacquards tradicionais, ou t-shirts vintage, e usam uma espécie de ceroulas de malha lassa e bamboleante que nunca deixa de estar sintonizada com a imagem simultaneamente estudada e descuidada que se complementa com adereços em pele ou pêlo. A rudeza e agressividade das botifarras que usam quando descalçam as all-star, são atenuadas pelos quebradiços atacadores soltos e sem nó, que nos fazem imaginar o tropeçar do fofinho e a queda subsequente nos nossos braços que o esperam.

 

Apesar de revelarem algumas preocupações ecológicas, estão vocacionados para a defesa dos animais mais amorosos, coalas, golfinhos e pandas, deixando os monstros de Chila e os demónios da Tasmânia para depois do jantar, quando chega a hora de deitar, que é o momento em que demónios e lagartixas venenosas são frequentes debaixo das camas dos meninos. Apesar de desportistas com um elevadíssimo fair-play, não gostam de competir com os pares e preferem as braçadas solitárias em piscinas de cristal. Um onanismo atlético de que não resulta perdedor.

 

Conseguem ler romances com menos de trezentas páginas, mas esquecem facilmente os autores com que se cruzam passando os dedos pelas lombadas das estantes das bibliotecas onde fazem esvoaçar os seus olhares tristonhos e distraídos.

 

Os fofinhos, óptimos companheiros de uma tarde de ócio ou de um entardecer de ópio, possuem uma das mais atraentes características de que há memória: uma aparente candura e desamparo que nos desperta o instinto protector e nos leva a cometer os maiores dislates, as maiores marotices e as mais inconfessáveis das asneiras.

 

São como os grandes diplomatas: tiram, parecendo que nos dão.     

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A Gaffe e a "ecomommy"

rabiscado pela Gaffe, em 29.01.16

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Não sou grande fã de bebés. Não é uma coisa bonita de se dizer, mas é a verdade.

Deitadinhos de costas, com os bracinhos no ar e a gemer de vez em quando, confesso que os prefiro passados uns bons 20/30 anos. Fazem praticamente a mesma coisa, com mais alguns extras que surpreendem, com a vantagem de não usarem fraldas nem nos vomitarem com tanta frequência.

 

Mas o que eu não suporto são as mamãs dos bebés! Sobretudo as modernaças.

Ontem estive com uma dessas. Casou com um rapagão podre de rico. Tão podre que já se nota no hálito. É muito ecológica. Aquilo é muito yoga, muita meditação, muito artesanato, muito Tibete, muito concerto para relaxamento do bebé, muita massagem pueril, muito contacto, muita apalpação, muita beringela.

Anda com umas porcarias ao peito feitas por ela, todas mal acabadas, quando podia perfeitamente furar-nos os olhos com um valente alfinete Dior. Toda artesanato, compra trapos nas lojas alternativas que cosem os tecidos com cordel e rematam as costuras com os dentes. Toda esguedelhada, com folhas secas, mortas, putrefactas, no cabelo, muito outonal, muito tom terra, muito planeta, muito budismo. Toda defensora dos golfinhos, dos mais giros e que até dão saltos, porque dos morcegos e das osgas haverá quem trate. Toda desbotada, toda esbardalhada, a debicar sementes importadas que sabem a papel e a papagaio, compradas numa loja muito vegan, mas que se alcança a pé e sempre a pé, não vão os gases destruir o vento.

 

Massajadora compulsiva das carnes do bebé ao som de sinos e demais sininhos, a criatura verde seco e terra, azul planeta, mostra o rebento amassado e triste.

- Quando é que te decides a escrever ao Pai-Natal a pedir um igual?! - Questão pertinente, tendo em conta que não os posso ter. 

- Só quando tiver o envelope que tu tens e for o teu marido a lamber o selo. - Respondo com pouco critério.

Meteu o miúdo na enrolada tira de tecido em batik tribal e, botas de couro com tiras atadas, desandou trombuda.

 

Sorrio ao seu amuo, colado no rabo roliço como um post-it amarelo, e suspiro de alegria só por saber que uso o Gmail.  

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A Gaffe e as lambe-montras

rabiscado pela Gaffe, em 05.11.15

Embora avessa a classificações, odiar ficheiros e arquivos, não me custa etiquetar as minúcias do quotidiano. Confesso que não resisto a, no mínimo, caracterizar, ainda que de forma breve, os brócolos que me acontecem pelos caminhos que percorro distraída.

 

A elegância, minhas queridas, não se colhe nos pomares, nem se encontra em promoção no Pingo-Doce, não resulta do uso do último grito, ou do último guincho, dado pelos responsáveis pelas Casas que nos fazem pensar, de quando em vez, que, por alguma razão, usamos uns trapos nauseabundos, ultrapassados e corroídos pela estação que já passou. A elegância é como um dente do siso que não podemos extrair. Pode existir no recôndito das nossas gengivas, sem jamais eclodir, com a diferença de que, quando dói, é sempre porque irrompeu nos maxilares das outras.

 

Há mulheres que confundem o estado inato de elegância com a capacidade que possuem de estar a par do que se usa.

Estar a par é das expressões mais ilusórias e patéticas que conheço, sobretudo quando se refere à serpente a que se convencionou chamar moda. Ninguém deve estar a par do que quer que seja. É falta de imaginação. É similar à raquítica ambição de algumas mulheres que desejam ser como os homens. O importante é estar sem par, ser-se única.

 

Existem pelas ruas desta amargura as chamadas lambe-montras.

 

 

São criaturas que plagiam tudo aquilo que serve às mulheres que se deixam photoshopar nas revistas da especialidade e que acreditam desgraçadamente que o resultado impresso é a reprodução fiel daquilo que projectam no espelho e nos olhos dos seus pequenos mundos.

Esta espécie usa normalmente sacos gigantescos com alças do mesmo calibre, que batem nos tornozelos e onde dispersam uma gama inútil de tralha que vai desde o arsenal completo de make-up, passando pelos dossiers cor-de-rosa que chegaram apensos às revistas e acabando naqueles inúmeros apetrechos inimagináveis que vão dar um substancial volume ao, de contrário, úbere vazio e deprimente.

Embora exista, dentro das goelas deste monstro, um pequeno aconchego para o telemóvel, a lambe-montras jamais o larga da mão. Colorido ou com pequenos focos de luz intermitente, o aparelho é transportado como se estivéssemos na eminência de uma catástrofe ou a ameaça de ataque terrorista fosse concreta e um SMS de velocidade estonteante nos livrasse da morte.                    

Usam quase sempre pumps, normalmente de plástico envernizado, com cores apelativas e irritantes. Deixam de rastos a reputação destes maravilhosos acessórios que, em determinadas situações - sobretudo aquelas que nos fazem estar paradas ou sentadas, com pernas até ao pescoço, cruzadas discretamente - e bem acompanhados pela discrição de peças sumptuosas, quase invariavelmente de corte retro, são um fascínio, mas que arrasam e arrastam para a lama toda a réstia de bom senso quando são o fim de umas calças que de tão justas e de tão apertadas nos causam a sensação de asfixia.

Os casaquinhos - o diminutivo é importante - são complementares à imagem arruinada e procuram, debalde, a já irremediavelmente perdida inocência perversa de Lolita. 

Procuram actualizar de modo compulsivo os seus conhecimentos acerca do que se está a usar e encontramo-las a lamber montras admirando quase sempre os objectos que jamais se enquadrarão na imagem plagiada ou decalcada de qualquer estrela pop de segunda categoria.

 

A elegância está a anos-luz da reprodução literalmente pindérica do que é idolatrado por estas mulheres.

Como diria o velho senhor, sejamos únicas, porque todos os outros lugares estão já ocupados.

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A Gaffe dos dandies

rabiscado pela Gaffe, em 04.05.15

lenhador.jpgPor inépcia absolutamente irritante, ou maldição dos referidos, consegui a façanha de apagar o post que me deu algum trabalho a compor.

Porque sou ma rapariga de ideias fixas, volto à carga e tento reproduzir o que foi extinto inadvertidamente.

Falava-se da tendência das urbes para amalgamar as suas tribos, reunindo características de outras, dispersas, e apresentando o resultado como original e sucedâneo de uma evolução diferente da que se adivinha.

O pulular de homens com idades que abandonaram há muito as inconsciências e os sonhos adolescentes, que apresentam uma imagem com laivos de tribos que se vão esbatendo, acaba por tornar curiosa uma análise ainda que breve deste fenómeno.

1.jpgHerdeiros do Lenhador (atraentemente ilustrado na primeira imagem) que por sua vez tem inúmeros pontos de contacto com o retrossexual, os rapagões que agora são alvo desta rapariga adaptam ou sublimam características oriundas do prepy, acreditando que um acréscimo de exagero e a excentricidade podem afastá-los da tribo já institucionalizada e protegida pelas classes dominantes que se passeiam por Cambridge. O cuidado minucioso com o corpo, já patente nos hipster que envelheceram entretanto, agora apoiado pela atenção desmesurada ao pormenor e ao detalhe, não é novidade e continua a ser elemento identificador de grupo e factor de reconhecimento dos pares.

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São misóginos. A barba longa, desenhada e cuidada, esconde um subtil desprezo pela mulher e mesmo o cavalheirismo que alardeiam tem colado uma subvalorização paternal do elemento feminino que não possui um reflexo na imagem que criaram e que os faz acreditar que podem ser incluídos num qualquer clube de gentleman ingleses do século XIX, restrito, anacrónico e irrecuperável.

9.jpgApesar de ser constituída por homens adultos que ultrapassaram há algum tempo a idade dos trinta, a tribo parece ser a ilustração de um adiamento da maturidade. Não se espera que rapagões já muito crescidinho passem parte do dia preocupados em coordenar a cor do laço com a cor das peúgas, ou a tentar criar a ligação mais excêntrica entre a cor dos suspensórios e a cor do elástico das cuecas.

tumblr_nmc0wo2t7Z1sn35i0o1_500.jpgA imagem que se afirma poder ser construída sem gastos excessivos, usando umas calças da Zara devidamente adaptadas, uma camisa retro encontrada numa velha loja esquecida pela inflação e um blazer vintage com sabor a riscas que ninguém já quer, mas que o alfaiate controla com o peso das tesouras e das linhas da experiência, faz esquecer que para que se reconheça a elegância de um homem basta que lhe olhemos para os pés e que Gucci, Zegna ou Valentino, apesar de imprescindíveis no cozinhar desta imagética, serão sempre os ovos ausentes das suas omeletas.

tumblr_nl8wuyGlT41sn35i0o1_500.jpgO estertor de todas as correntes estéticas que surgem no emaranhado das cidades, faz esquecer que uma identidade que se quer única é incompatível com a facilidade com que se opera a reprodução massificada e que por muito esforço que se faça para que os elementos desta tribo se aproximem do dandy já perdido, a derradeira coisa que dele ouvem é um entediado juízo que conclui que é uma tolice ver rapagões desta idade a fazer de conta

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A Gaffe das mariposas

rabiscado pela Gaffe, em 20.03.15

Sigurdur Gudmundsson.jpgExiste uma criatura que deixa a Gaffe muito irritada. É claro que não se restringe ao masculino, mas é mais comum ter de a enfrentar neste género.

 

O limpinho.

 

É um rapazinho delicado e educadíssimo e embora seja difícil reconhecê-lo pela imagem, é habitual ter como suporte um ar minimalista, mesmo despojado e sem grandes ambições.

É correcto. Nada nele é vulcânico. Chega a ser a encarnação do Buda, mas em magro. Numa discussão é capaz de afirmar com a calma das superfícies desertas que se levantarmos a voz, perdemos a razão, desconhecendo que a razão não depende do volume do som com que a expressamos e que permanece nossa, se for nossa, quer expressa aos gritos, quer toldada por um Lexotan. Existem formas desagradáveis de a defender, é tudo.

Tem alma de pequenino censor e como a censura só se ergue como monstro quando atinge revoltantes proporções, o rapazinho vai cortando ali e acolá, deixando no frio dos seus dedos manipuladores pedaços decepados do que ouviu ou leu e que lhe servem para polir tiradas de pacificadora índole.

Tem algures um aparelho estranho com que mede a vida dos outros. Normalmente todas são pequeninas segundo as avaliações que faz e que acabam por empolar aquilo que vive. É uma forma subtil de se ser um ditador minúsculo e caseirnho.

É um conciliador primaveril. Procura tanto o ponto de vista dos outros, que acaba sem paisagem sua, saltitando de flor em flor, de cacto em cacto, recolhendo o orvalho para moldar a sua própria nuvem – de algodão doce, já se vê.

É tão corridinho, tão direitinho e tão perfeitinho que deixa de ser homem para ser apenas uma forma de apertar o que os outros escrevem com a vida.

 

A Gaffe encontrou um. Gostou do chapelinho de abas levantadas, da camisa larga de fralda desfraldada e perdoou-lhe o muco incolor do seu voar tremeluzente e lavadinho.  

 

Foto de Sigurdur Gudmundsson

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A Gaffe e os troncossexuais

rabiscado pela Gaffe, em 19.01.15

Marco Ovando.jpgDe acordo com a pesquisa efectuada pela Gaffe, existe um grupo de homens que ainda não foi devidamente caracterizado.

Os troncossexuais.

É um nicho abrangente e nele estão representadas todas as camadas sociais.

Para que se possa considerar pertença desta tribo, um homem deverá possuir alguns traços muito básicos que a Gaffe tem todo o prazer em referir.

 

  • Aparece de singlet e de cuecas brancas com abertura frontal em Y invertido (que podem ser bastante atractivas se usadas pelo homem certo) quando tomamos chá com a amiga que nos veio visitar. Justifica a assombração apelando à noção tradicional de família, ou seja, cravando o já és cá de casa, embora lá em casa não seja habitual tomar chá como se estivéssemos nos balneários do Benfica;
  • Ignora o sorriso Charlene de Mónaco, no intervalo do parto dos gémeos, que se estampa no rosto da rapariga e senta-se no sofá munido do comando enquanto vai aumentando o volume do televisor. Acelera o zapping porque acha muito engraçado o idioma que se ouve dessa forma;
  • Coça o peito e afaga os pêlos das axilas enquanto se baba com os reality shows onde membros do seu grupo se digladiam transformados em garnizés musculados e onde as membras lhe fazem comichão. Se arranhar outras manigâncias é porque está a ver um filme com Sylvester Stallone e se quer certificar que também tem coisas para coçar;
  • Discute ao telemóvel com o amigo do peito – coçando-o outra vez – a superioridade de Ronaldo. Se o amigo o contradiz e prefere Messi, deixa de ser necessário o aparelho, porque o volume da voz torna a ligação directa e transforma-a num chat onde podem participar os vizinhos;
  • O único elogia que consegue fazer a uma mulher passa invariavelmente pelo sexo, porque é freudiano e 90% daquilo que pensa é transformado cedo ou tarde em sexo. O restante é sexo que transforma em ideia;
  • Quando desprevenido é de uma ternura inesperada e é capaz das maiores atrocidades, como a de desatar num pranto embaraçoso perante a tragédia do ET ou com o idílio da Lagoa Azul que não chegou a ver na altura devida;
  • É capaz de fazer desabar um rato morto na mesa do jantar com as mais inconvenientes das tiradas:

- Então quem era a boazona que vinha toda encaixada em si, no autocarro?! Com essa idade pensava que o bilhete era só de ida.

- Foi ele que me disse que eras uma cabra! Se anda contigo é por causa das mamas.

- Tens razão. A tua tia é como a Dulce Pontes. Também parece que traz um saco de batatas vestido.

  • Lambe as tampas do iogurte, enrola-as e faz delas colher. Depois da embalagem rapada, transforma-a em cinzeiro. A sua preocupação não é a reciclagem, mas o medo de perder o resumo do episódio anterior da sua série favorita que habitualmente tem mortos-vivos a sugar o cérebro aos telespectadores;
  • Elege Quintino Aires o absoluto da Psicologia. Não considera as suas intervenções um atentado a todas as normas e regras da sua profissão, um acto terrorista consubstanciado numa desavergonhada falta de ética, e não o acha nada mariquinhas pé-de-salsa;
  • É fã do Portugal em Festa e do Canal Parlamento sem perceber que são coisas muito parecidas.

 

Ao contrário das outras categorias que é engraçado encontrar – e nada mais do que isso – em que é exigido que um homem possua a esmagadora maioria dos requisitos que as distinguem para se tornar membro de pleno direito, ao troncossexual só é imposto que cumpra apenas uma das que foram referidas. Daí ser um grupo abrangente e muito povoado, possibilitando ao candidato acumular presença em dois grupos diferentes.    

 

Uma rapariga esperta sabe que estes rapagões não são criaturas para ter aos pés, mas reconhece, marota, que normalmente dão óptimas fogueiras.

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A Gaffe com prestígio

rabiscado pela Gaffe, em 14.11.14

 

Apesar de ser muito arriscado - porque é um senhor de importância significativa, muito prestigiado, normalmente amigo da nossa chefe -, e correndo o risco de levar um pontapé no rabinho se for descoberta a mostrar-vos as miudezas do cavalheiro, a Gaffe vai fazer luz sobre um dos mais prestigiados membros das suas avenidas.


Usa sempre fato aprumado e gravata impecável, de bom gosto irrepreensível. Sapatos de couro e meias discretas. Tem umas brancas nas têmporas que lhe dariam um certo charme se não fossem as ventas fedorentas. É nariz torcido para ligar com a personalidade e não gosta de brincadeiras nem de raparigas espertas ou armadas em tal. Come uma maçã ao almoço e bebe uma garrafa com um litro de água - a Gaffe pensa que é mesmo por isso que anda todo rijo. Má digestão. Aquilo misturado rochifica. Não nos liga um pirolito e trata-nos como se fossemos cocó debaixo do sapato e nunca, mas nunca, dá o braço a torcer. Pode dar a torcer tudo o que sobrar, mas o braço? jamais!


Tem umas namoradas alguns séculos mais novas do que ele e com a inteligência dum capachinho. Nesta área tem o apoio da Gaffe. Mais vale uma loira com o cérebro aquoso do que a esposa com ele noutro estado, pois é casado com uma mulher gorda e pedante cheia de jóias, com o Topo Giggio morto ao pescoço e que acha que as loiras insinuantes são as alunas que ficaram aprovadas na cadeira do marido, embora tenha percebido que o homem não é o professor de anatomia e que, se o fosse, apenas saberia descrever os corpos cavernosos da sua pilita e mesmo assim só depois de a encontrar.


Muito discreto e reservado passa por nós todo empertigadito, mas não deixa de nos mirar o traseiro que sentimos a arder e que tentamos fazer desaparecer virando-nos e caminhando de marcha-atrás. Este nosso modo de locomoção dá-lhe uma sensação de realeza o que lhe permite levantar o queixo e tentar olhar para o nosso decote sem nenhum pudor.

 

A Gaffe tem um destes senhores a pavonear-se todos os dias pelo seu departamento. Vem almoçar com a chefe de serviço e esta rapariga esperta desconfia que depois da sobremesa se debicam um ao outro, isto apesar de ninguém mentalmente activo ter estofo para ir para a cama com um javali pálido.

 

É evidente que não devia personalizar. É imperdoável - a Gaffe sabe -, mas não pode de maneira nenhuma deixar de vos dizer o nome impagável do prestigiado cavalheiro que vos está a apresentar: M. de Tesont.

Agora, ó gente da minha terra - agora é que eu percebi, esta tristeza que trago, foi de vós que a recebi -, é fácil imaginar as caras de extâse muito pouco católico da Gaffe e das suas companheiras de infortúnios laboratoriais quando fazem questão de serem elas a informar a chefe de serviço que tem de esperar no átrio que o Tesont chegue.

 

Nota - Creio ser conveniente começar a censurar-me, porque suspeito que dei início a um esbardalhanço muito pouco reservado...

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A Gaffe florista

rabiscado pela Gaffe, em 16.07.14

Todas as correntes estéticas quando duram mais do que três ou quatro Primaveras, geralmente aproximam-se do fim de modo apoteótico. Os eventuais exageros são visíveis e anunciam de forma inequívoca o estrebuchar final daquilo que invadiu e dominou e caracterizou um determinado lifestyle.

A linha que guiou o hipster pelas nossas avenidas e que perdura, resistindo muitíssimo mais do que seria de esperar, é agora contaminada por uma espécie de redesenho que tenta anular o cansaço da reprodução de imagens.

O hipster aproxima o seu allure inesperadamente andrógino da fragilidade dos pormenores que surpreendem. A barba, cuidada e aparada com a perícia de um escultor experiente, imprescindível porque é suporte da sua imagem de marca, é agora sublinhada e tornada vedeta incontestável. Presas na sua densidade, seguras no seu corpo espesso, surgem pequenas flores que Victoria Vrublevska ou Peter Yankowsky fotografam.

É evidente que as nossas avenidas não se vão transformar em canteiros ambulantes. A imagem do hipster florido não é susceptível de se espalhar por estes ângulos, mas tudo se tornaria bem mais divertido se presas nas duras pilosidades destes machos enganadores cintilassem as cores das florações.

Há no entanto que separar os jardineiros. O hipster é o exemplar de uma corrente estética, logo um aglomerado de similitudes, um grupo, uma tribo, uma colecção de semelhanças que divergem pouco dentro de um mesmo espaço circular, e não propriamente a definição de uma personalidade única, indiscutivelmente original e sem contaminação daquilo que se convenciona chamar in.

Se olhar, por exemplo, para o meu querido amigo vejo-o neste instante a brincar com as folhas do livro pousado nos joelhos e descubro-lhe o perfil estranho:

Nariz demasiado recto, quase inimigo, quase agressivo, como se a testa larga, grande, belíssima, não fosse nada mais do que o anúncio e o sustentáculo daquele declive acentuado.

A barba rasa de ónix, carrega-lhe a rudeza e a cerrada cisma.

Subitamente sei: Florentino!

Imagino-o na cidade mais masculina da Europa.
Florença, construída por homens para homens, onde David branco e nu, com a lendária pedra por lapidar na cabeça pesada, demasiado jovem, desengonçado colosso a crescer, à procura do equilíbrio anatómico distorcido ainda pelo contraste da volumetria do tórax e da curvatura do abdómen e o tamanho desmesurado dos seus pés e mãos, espera contra a pedra escura a dor que terá de sentir pelo tempo fora e que lhe foi causada pelo demente que lhe partiu o segundo dedo do seu pé esquerdo.

 

Por muitas flores que se cravem nos espaços, nenhum hipster me faz suspeitar que já o vi outrora, numa vida anterior a esta, onde num Quarto com Vista sobre a Cidade eu tinha um nome Toscano e ele era Príncipe.

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