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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe gaseada

rabiscado pela Gaffe, em 28.06.17

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Admito que vi apenas pedaços breves do concerto de ontem, solidário com as vítimas do incêndio de Pedrogão, e que não fiz a chamada de valor acrescentado porque sou uma cabra insensível – é uma explicação que dura menos tempo a fornecer.

 

Tenho de encontrar modo de ajudar de outra forma.

                 

Apanhei com Ana Moura aos saltos e de saltos, com Raquel Tavares esbardalhada e ligeiramente sinistra, com os D.A.M.A. cheios de madeixas, calças rasgadas nos joelhos, óculos brancos de sol e colar com bolinhas gordas, com ar de quem vai vomitar, mas que não quer que se saiba, e com uma comandita de apresentadores e de jornalistas a fazer que o eram, digladiando-se pelo seus canais e pelos pavilhões auditivos de quem se confundia a tentar perceber a que canal pertencia o grito do amarelo Ferrero Rocher de Fátima Lopes.   

 

Não fui grande espectadora, como se prova, mas fiquei feliz por se ter recolhido a quantia anunciada. Sou uma optimista e vou tentar acreditar que suprirá, de alguma forma, parte das necessidades materias provocadas pela tragédia. 

 

Assisti ao final.

 

Ouvi Salvador Sobral, maravilhada como sempre. Não retiro uma palavra ao que disse aqui.

 

Até ficar gelada com a intervenção do herói de Portugal - vamos abster-nos de a reproduzir, visto ser por demais conhecida - que achou ser engraçado, irreverente, descontraído e oportuno, demonstrar que sentia que estava a cantar ao vivo para 14.000 parolos, idiotas, ignorantes, papalvos e pavlovianos que apenas conseguem acarinhá-lo, aplaudi-lo e mimá-lo, enchendo-o de benesses, de carinho e de dinheiro, desconhecendo por completo que está em causa e em palco um génio musical que paira sobre a película de mediocridade dos seus pares. Os parvos. Os burros. Como se atrevem a aclamá-lo só agora, quando ele tinha uma colecção de coisas lindas e boas antes de amar pelos dois?! Grandes cocós!

 

Salvador Sobral tinha já anunciado, embora com mais suavidade e com perdão anunciado, que se considera uma criatura eleita pelos deuses - sobretudo se cantarem Jazz e Bossa Nova - e que despreza o voto de milhares de paspalhos que lhe entregaram a vitória no Eurofestival, valorizando, isso sim, o apoio de Caetano Veloso que, só por acaso e à laia de exemplo, se comporta como Chet Baker. Nenhum destes dois magníficos interpretes tão venerados por Salvador Sobral se atreveu a sonhar gasear o público.

 

Salvador Sobral, naquele instante de humor - o benefício da dúvida nunca fez mal a ninguém - revelou que ao lado da sua voz e das suas interpretações de alta qualidade, tem um pedante malcriado, sentado ao piano com ele, que é capaz de nos fazer ver de repente que no palco actua apenas um cachopo egocêntrico, convencido e mimado, com um belíssima voz apensa.

 

É mais engraçado o Daffy Duck.

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A Gaffe noticía

rabiscado pela Gaffe, em 23.05.17

Mariana Mortágua, ontem, evitando trincar os microfones, declarou num tom de voz sussurrado para reforçar a ameaça, que o Bloco de Esquerda não vai tolerar uma nova usurpação de fotografias icónicas por parte da Juventude Centrista. Bastou o abjecto uso da foto de Salgueiro Maia sem que o autor desse autorização para se recortar e colorir o militar de Abril, esbardalhando-o num cartaz foleiro.

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 Mariana Mortágua previne que se a Juventude Centrista usar a foto apensa como argumento contra a adopção por casais do mesmo sexo, - que dá nisto, refere Isilda Pegado -, apresenta uma moção de censura ao Governo - que permite o escândalo consubstanciado na exploração de crianças que são transformadas em macacos de voodoo envernizados e disfarçados de pompom de chinelinho num quarto manhoso, apenas para desviar a atenção da ausência de meias nos adultos que as controlam - e por arrasto pede a demissão do presidente da CPCJ que não se apercebeu do evidente. A criança devia - há que entregar o boneco ao pantomineiro da tribo - ter chegado acompanhada por isto:

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Mariana Mortágua, em nota de rodapé, declarou também ser frontalmente contra as calças de apanhar amêijoas que de tão apertadas esmagam as amêijoas de quem as usa, porque dão a curto prazo um esticão ao SNS que se vê obrigado a tratar, mesmo sendo genéricas, imensas pilas comprimidas.

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Terminando a sua intervenção Mariana Mortágua envia uma dura mensagem ao Governo, alertando-a para sangria de talentos que continua sem travão, como ilustra o caso emigrado de Sara Sampaio - que entra em red carpet com um pára-brisas incorporado, muito à frente -, e avisa que o Bloco de Esquerda já sabe, por exemplo, que Madonna só está em Portugal para adoptar o Salvador Sobral.

 

 

Nota da redacção - Não é notícia falsa. São factos alternativos.

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Gavetas:

A Gaffe nos Globos de Ouro

rabiscado pela Gaffe, em 22.05.17

Perdoa-lhes, Senhora! Elas não sabem o que fazem.

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Gavetas:

A Gaffe a "Amar Pelo Dois"

rabiscado pela Gaffe, em 08.05.17

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A véspera dos acontecimentos é a derradeira oportunidade que temos de falar deles correndo o risco de nos enganarmos.

 

Neste pressuposto, mas sabendo que não haverá engano posterior, chegou o momento de falar de Salvador Sobral.

 

Li e ouvi elogios rasgados à canção – incluída na área do Jazz-pop, segundo os especialistas - que irá representar Portugal no festival da Eurovisão, ao mesmo tempo que ouvia e lia imensas patetices maldosas que incluíam a condenação da letra por se revelar apologista da anulação, por amor, de alguém a favor de outro alguém e de certa forma publicitar este revoltante estado ou predisposição. É inútil fazer com que estes exigentes críticos reconheçam que o Fado ficaria sem uma fatia substancial do seu repertório se abolíssemos todas as estrofes que assumem a escolha desta desistência em favor do outro, ou com que ouçam uma das mais extraordinárias canções de amor jamais escritas, porque suspeito que o …

 

Laisse-moi devenir 
L'ombre de ton ombre 
L'ombre de ta main 
L'ombre de ton chien 
mais, ne me quitte pas.

 … Seria retirado do poema por apelar à bestialidade.

 

É uma argumentação paupérrima, parola e medíocre e não pode ser tida em consideração.

 

Ao lado, mesmo ao lado, está a censura à forma com que Salvador Sobral se coloca em palco e interpreta a canção, aliada a uma revoltada denúncia de sobrevalorização da sua voz.

Concordamos todos. Salvador Sobral não é Ricky Martin. Felizmente.

 

Seria muitíssimo proveitoso rever o concerto de Salvador Sobral transmitido pela RTP1 no passado Sábado, porque ali descobrimos a inutilidade de todos estes beliscões daninhos.

 

Seria muitíssimo interessante que neste exacto concerto ouvíssemos a versão de Nem Eu de Dorival Caymmi, porque é nesta reinterpretação que Salvador Sobral prova uma extraordinária sensibilidade, mesclada com um humor requintadíssimo, entregue em diálogo inteligente e sapiente com o piano que reconhece a dádiva total do intérprete a cada palavra dita - e sentida - sem equacionar qualquer manuseio mais consentâneo com o bambolear de ancas de Ricky Martin e atingindo com uma facilidade deslumbrante as notas mais agudas, sem sequer danificar por breves segundos a suavidade e o veludo da voz.

 

Salvador Sobral é ele todo inconfundível. Nada de tonto se sobrepõe a sua capacidade vocal e interpretativa.

 

No eterno festival de gritedo desalmado, de ruído de coxas e de plumas a voar em crises epilépticas, defendendo uma canção que dignifica aquele lantejoular repetitivo, finalmente actuará um cantor de excepção.  

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A Gaffe num futuro composto

rabiscado pela Gaffe, em 26.04.17

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Depois de ter verificado, nos instantes anteriores à piscadela de olho de José Rodrigues dos Santos, se estou compostinha, com um pijama inócuo, de perninhas fechadas e botão apertadito, sem qualquer expressão que permita supor intenções mais marotas e ter confirmado que não estava prostrada no sofá numa pose susceptível de despertar a libido do cavalheiro ou parecer que no fim do telejornal nos encontramos para ardentes trocas de informações de carácter mais manual, deparo-me com uma certeza que me deixa perplexa.

 

A comunicação social vai procedendo à substituição do alegadamente pelo uso do futuro composto, abolindo o presente, o passado, ou mesmo o imperfeito, dos tempos verbais que se esperam numa notícia dada depois de confirmada até à exaustão.

 

A baleia que terá dado à costa e que vemos esbardalhada no areal, poderá não ser a baleia que terá dado à costa, mas poderá dar-se o caso de ser o senhor deputado Carlos Abreu Amorim que terá decidido passar uns dias na praia. O assassino ensanguentado, com a cabeça da vítima debaixo do braço e a reivindicar a autoria do crime como um desalmado do Daesh, poderá ter sido o mesmo que a Patrícia Vanessa terá filmado a esquartejar o cadáver - que terá sido morto antes de ser supostamente cadáver -, alegadamente com o telemóvel, da suposta varanda que terá vista privilegiada para o ocorrido. O senhor com o equipamento que poderá estar em uso na GNR - chama-se especial atenção para o modo como a farda lhe assenta lindamente -, banhado em lágrimas a jurar que o carro esfrangalhado que ali está foi o que se estampou contra um poste - num alegado acidente que poderá ter causado uma vítima supostamente sem gravidade que pode ter sido levada para o Hospital -, poderá ser a Princesa Diana que terá muita experiência nestas ocorrências.  

 

Esta feira de probabilidades entregues ao público que as consome sem apelo nem agravo, este arraial noticioso pejado de incertezas e de hesitações, comprovativo da incompetência - e do medinho do processo em cima -, dos jornalistas que escolhem o balancé do poderá ser assim, mas poderá ser que não, é transversal a toda a comunicação social e faz pairar sobre a cabeça do alegado profissional que oscila desta forma o halo dos inocentes sem compromisso assumido, sem certezas incontestáveis, isentando-o da responsabilidade e da obrigação de se confirmar o que é noticiado, revelando ao mundo que poderá ter estado ali, mas que poderá não ter estado. Nestes casos, é a mesma coisa.

 

Seguindo esta linha de prática jornalística tão em voga, decido ilustrar estes rabiscos com uma imagem que alegadamente não tem nada a ver com o que está escrito. Poderá ter sido por não ter encontrado outra melhor, poderá ser por supostamente ter havido um desencontro com a mais adequada e poderá ser que não, podendo ter sido por considerar que se piscar um olho no final deste fraseado, o que escrevo se torne confirmado.

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A Gaffe "comentadeira"

rabiscado pela Gaffe, em 23.01.17

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Milhares de comentadores saídos dos confins do Inferno, do rabinho do mundo, do lugar onde o demo perdeu as botas e não as foi procurar porque era longe e das esquinas do céu, comentaram a tomada de posse de Trump.

 

A Gaffe depois de ouvir um jornalista a reproduzir o discurso de Trump, logo após o ter ouvido em directo e com tradução simultânea, assistiu ao desfile de toda a espécie de criaturas, desde sociólogos, politólogos, actores e actrizes, declamadores, figurantes dos programas da manhã, eremitas, representantes de partidos políticos, activistas dos direitos dos bichos, donas de casa desesperadas, stripers, maquinistas de pesados, marinheiros, motoristas de ligeiros com reboque, a apresentadora esverdeada dos sorteios dos jogos da Santa Casa, populares colhidos pelo touro do microfone das touradas de serviço e um nunca mais acabar de outras gentes que opinavam sem fim à vista, mar adentro, como se existisse nos clichés repetidos até à exaustão uma migalha de singularidade que se destacasse no aterro de inutilidades que se foi erguendo.

 

Depois de tudo dito e repetido até ao infinito do aborrecimento - e percorreram-se todos os canais, chegando mesmo a passar pela CNN - A Gaffe teve uma epifania.

 

Martim Cabral, jornalista habituado ao ir, que é o melhor remédio, desta vez assentou praça como comentador - já que a senhora da limpeza que ganhou o primeiro prémio com a sua esfregona e balde esquecidos e encostados à parede, atribuído por um júri de críticos de arte que desconhecia o autor da obra de acentuado valor artístico, numa performance do Museu de Arte Moderna em NY, e o curador da exposição de Miró que o expos de cabeça para baixo durante vários meses, estavam ocupados a comentar num canal rival -, e referiu um sinal que estava a passar despercebido a nível mundial.

Não era o desaparecimento do site da Casa Branca, horas depois da tomada de posse, dos separadores que se reportavam aos Direitos Humanos, aos direitos LGBT e do que documentava as alterações climáticas do planeta ou mesmo a assinatura do Despacho que retrai o Obamacare, ou ainda à declaração de David Duke eufórico por saber que finalmente conseguiu.

 Não!

O sinal encriptado que Martim Cabral detecta e para o qual nos alerta, vai muito além da superfície, mergulha na nossa condição de invisuais perante o que de subtil se vai desenrolando, deixando-nos em perplexidade profunda por não haver uma descodificação capaz de nos sossegar, é o que está patente na cor usada pelas filhas de Trump igual a escolhida por Hillary!

Um enigma que consubstancia um aviso subliminado que Martim Cabral - perante o desconforto da moderadora que leva mais de trinta segundos a retomar o fio da meada já todo enredado e a recuperar a compostura - não explica, mas assinala como altamente significativo.

A Gaffe atribui enormíssima importância a este dado, a este sinal referido por Martim Cabral.

As três de branco, provavelmente sinalizando três virgens! Que sabemos nós?!

Esta rapariga siderada aguardou que o jornalista desvendasse tão suspeita e enigmática coincidência, mas o mistério adensou-se e permanece para ser desconstruído pela história.

 

A Gaffe dobra o seu estado de intricada dúvida quando Martim Cabral deixa escapar Melania sem nos fazer notar que a nervosíssima primeira-dama, essa mais dos que as três virgens, é também portadora de uma enviesada mensagem de Trump que não quer deixar escapar o modo como traça os destinos das mulheres. Melania Trump usa luvas de cozinha, sinal - evidentemente subliminar - de que é no meio dos tachos ou a limpar sanitas que uma mulher deve cumprir o seu fado.   

 

Não sabemos como Martim Cabral se absteve de tocar neste pormenor de repercussões tão freudianas, desconhecemos também se Martim Cabral reparou no look total azul-cueca da primeira-dama que induz um sub-reptício convite a saltar para esta tonalidade de cor, mas reconhecemos que para comentar uma cerimónia destas, mais vale um jornalista imbecil do que uma multidão de rústicos arrancados à toa e onde se consegue, a fingir que têm e que são imprescindíveis as opiniões que debitam num loop infinito.

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A Gaffe "arrebentada"

rabiscado pela Gaffe, em 27.07.16

read.gifA comunicação social - sobretudo a televisiva - tem sido um manancial de petardos jornaleiros e de atentados à língua portuguesa. Um conjunto jornalístico de meninos e de meninas que parecem saídos da geração que protagonizou a primeira edição de Morangos com Açúcar, correndo desenfreado, com batido dos ditos na gramática, de microfone em punho, à procura do nós fazemos a notícia.  

 

Ouço uma esgazeada moça aos gritos a perguntar sucessivamente a uma mulher que se manifesta nas ruas, se aquela é a primeira vez que participa nesta manifestação. Vejo outra a empolar as coisas com um sonoro arrebentou um petardo na avenida. Pasmo quando o Presidente entrou dentro do carro e saiu. Fico sem saber se Marcelo saiu para fora do carro porque se esqueceu da pochete ou se foi o carro que saiu para fora do palácio com o presidente que entrou lá dentro. Há alguns que conseguem ter uma certeza absoluta, outros que dão conta do acabamento final e ainda os que se estreiam pela primeira vez, embora já tenham viajado pelos países do mundo há muitos anos atrás, mas que comparecem pessoalmente no evento, encarando de frente o pequeno pormenor que é a climatologia geográfica.

 

Já não falo dos mais velhos sacrefícios que temos de fazer para desculpar o treuze e a pessoa humana de Miguel Sousa Tavares; já não falo dos resumos totós depois de termos ouvido todo o paleio debitado; já não falo das pormenorizadas descrições do que estamos a ver - agora o presidente entrou para dentro da sala, a tentar que ninguém perceba que traz uma ventoinha no rabo, e dirige-se neste momento ao palanque  com muitos papéis na mão; já não falo do escândalo que é ouvir e ver sem reagir um encadeamento noticioso que faz seguir à reportagem que esmiúça, até nausear, qualquer tragédia - com uma banda sonora de filme de 5ª categoria, - o apontamento que refere com glamour a visita de Angelina Jolie aos pobrezinhos ou nos mostra o rabo do príncipe Harry ou o chapéu da duquesa de York; já não falo dos atletas que venceram medalhas e nem quero saber da presidenta do FMI.  

 

Já não falo disto.

 

Desligo ou arrebento.

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A Gaffe questiona

rabiscado pela Gaffe, em 09.05.16

"E se fosse consigo?"

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Imagem - Caravaggio

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Gavetas:

A Gaffe no terapeuta

rabiscado pela Gaffe, em 07.01.16

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Vi Terapia, a nova série da RTP1 e tenho de admitir que fiquei surpreendida.

Com uma excelente direcção de actores, bons textos, bela fotografia e cenário convincente, os episódios mostram-nos a personagem de Vergílio Castelo a rivalizar - e a ganhar - a Júlio Machado Vaz, não só porque não traz apenso o relaxamento cansativo dos anos 60, colada irreversivelmente à pele e a pose deste psiquiatra, mas também porque se limita a ser o incitador subtil de revelações ou reconhecimentos, evitando um certo exibicionismo maçador que caracteriza o profissional que se lhe assemelha vagamente. Virgílio Castelo está perfeito. Apetece trocar o professor Machado Vaz por este psicoterapeuta.

As consultas a que assistimos permitem que entremos no mistério que é sempre o covil destes senhores, transformando-nos em pequenos voyeurs despudorados, escondidos pela cortina do ecrã, a assistir aos quase monólogos das personagens que vão desfiando os seus pesadelos escondidos, tombando nas armadilhas das perguntas breves e concisas do terapeuta e nas suas próprias.  

No elenco conta-se Nuno Lopes. Uma garantia de absoluta qualidade. Um actor magnífico que constrói de modo exemplar um homem escondido em trincheiras sociais. Catarina Rebelo, a agarrar na perfeição uma adolescente imprevista e suicida e mesmo Soraia Chaves vai perdendo ao longo da derrocada das suas palavras os tiques de diva que a perseguem em todos os papéis que desempenha, acabando por se tornar convincente.

É curiosa a forma como está planeada, pois possibilita a escolha da personagem que queremos seguir, já que sabemos em que dia é que ela está sentada no sofá.

Terapia é uma série a seguir com toda a atenção. Tem todos os ingredientes para se tornar um vício.

 

É sempre um fascínio poder assistir ao desnudar das almas, mesmo daquelas que não passam de papel.  

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A Gaffe relembra

rabiscado pela Gaffe, em 17.03.15

Não esqueçam!

Hoje, pelas 00.30h, na RTP2, Gabriela Moita no seu Elogio da Paixão conversa com o meu queridíssimo Miguel, o único homem capaz de controlar e domar o incêndio de caracóis que trago na cabeça. Ao lado estará Nuno Baltazar que, apesar de tudo, não deixa de ser um bom menino.

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A Gaffe do principezinho

rabiscado pela Gaffe, em 19.02.15


ruben-cortada-cubano-el-principe-telecinco-9.jpgA RTP2 substituiu a magnífica série Borgen por El Príncipe.

Não possuindo a inteligência da primeira, a actual, para além de acção, Marrocos, Ceuta, terroristas, traficantes, tiros, marginais, corrupção e cores torradas, tem no seu elenco um dos mais inacreditáveis homens que Deus e Alá abençoaram com uma beleza de nos matar asfixiadas com própria baba.

Meninas! Rubén Cortada é um animal único! Absolutamente perfeito!

A Gaffe mal o vislumbra, deixa de ouvir castelhano porque passa a ouvir sininhos, esquece o argumento, os tiros, a trama, o colorido e o cenário um bocadinho forçado e fica especada de queixo caído, completamente esbardalhada perante a beleza brutal deste rapaz.

Podemos defender-nos afirmando que não faz o nosso género, mas a verdade é que Rubén Cortada faz-nos tudo o que quiser.  

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A Gaffe da RTP2

rabiscado pela Gaffe, em 14.01.15

RTP2.jpgTenho perdido os episódios da minha série favorita,  How to Get Away with Murder, porque a renovada programação do canal 2 da RTP me surpreende positivamente.

O Jornal 2, liderado por João Fernando Ramos, Daniel Catalão e Fátima Araújo é conciso, rigoroso, com um alinhamento seguro e importante e sobretudo sem piscadelas de olho desagradáveis ao telespectador.   

Assumo com agrado que fico presa a Borgen. De origem dinamarquesa, a série narra as peripécias políticas dos bastidores esconsos do poder, as suas manipulações, desvios, intrigas, lutas enviesadas, rupturas, compromissos escuros e relações com a comunicação social, sem descurar, embora sem importante incidência, as repercussões das situações na vida privada dos protagonistas. Permite uma visão calma, inteligente e arguta dos corredores que fabricam a forma de viver social de cada um de nós. Excelente!

 

Logo depois, temos Agora. Renovado e mais atraente. Literatura e Palcos.

Continuo com a mesma opinião que tinha acerca de Filomena Cautela, mas Pedro Lamares compensa o facto da parceira ainda não me convencer. Embora mais dinâmico e muito mais completo Palcos Agora, talvez porque não consiga encontrar interesse na apresentadora, é menos acolhido por mim do que Literatura Agora, onde, e cito, a palavra escrita está em primeiríssimo lugar. Cada episódio tem dois momentos de elogio à obra literária, com excertos de poesia e de prosa escolhidos e ditos por Pedro Lamares e Filipa Leal. A eles se juntam reportagens com a ambiciosa pretensão de abarcar o vasto universo da literatura: quem a escreve, quem a diz, quem a serve, quem a traduz e quem a guarda. A literatura na música, no cinema, no quotidiano e como inspiração para os mais variados criadores. Ao longo de cada emissão, tempo ainda para abordar alguns dos grandes temas da literatura, bem como a história e as estórias de livrarias, bibliotecas e outros tantos espaços com livros dentro.

Está conseguido.

 

O povo que ainda canta de Tiago Pereira é um documentário magnífico que não se resume a um desenrolar de testemunhos cantados de música popular portuguesa, porque consegue em simultâneo ser um belíssimo trabalho cinematográfico.

 

Cosmos desiludiu-me um pouco, mas não deixa de ser um óptimo trabalho. Seguindo as pisadas de Carl Sagan, Neil deGrasse Tyson, famoso astrofísico norte-americano, é o novo protagonista desta odisseia no espaço. É excelente sobretudo porque atinge todos os públicos, incluindo o infantil.  

 

A noite vai entradota para uma rapariga que já tomba de sono, mas o Contentor 13 não deixa de ser um incentivo ao despertar do ouvido tendo em conta os seus interiores literários.

 

Surpreendente a RTP2 ao revelar que pelo menos um canal compreendeu o que é ser serviço público.

 

Não vale a pena fazer zapping. Afinal já temos televisão. 

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Gavetas:

A Gaffe de Reininho

rabiscado pela Gaffe, em 15.07.14

Tenho o prazer de conhecer Rui Reininho há já alguns anos, talvez por isso seja suspeita quando me levanto e o aplaudo, mesmo perante as atitudes que se reprovam e que Reininho eleva a um patamar de provocação muitas vezes inútil. Gosto de Reininho mesmo condenável.

Reininho é um dos homens mais fascinantes que conheço, porque a sua inteligência está misturada com um humor ousado que tem faltado àquela verdade que nos é atirada pelos dias que passam. É um corajoso patife, um anacrónico enfant terrible que não consegue deixar de nos fazer sonhar com o que poderíamos viver se lhe roubássemos os olhos e que nos desarma sempre, porque o seu spleen quase queirosiano nos chega mesclado de um optimismo que sabe que pode chorar depois.

Rui Reininho sabe manobrar audiências assim como sempre conseguiu manipular a sua imagem. Ultrapassa com facilidade os riscos com que é limitada a normalidade e permite, e autoriza tacitamente, que esta transgressão seja visível, usando-a para apoiar a construção da lenda (ia escrever mito!) em que se quer tornar.   

Reininho é um sacana fabuloso. Delicado como um cavalheiro vitoriano, cínico como um dandy de outras eras, meigo como um ursinho de peluche e incontrolável como a tempestade.

 

Só depois de muita hesitação se pode responsabilizar a RTP por nos ter permitido ver Rui Reininho a trocar as botas pelas perdigotas – ou coisa que o valha. Há sempre a possibilidade de cumplicidades esconsas entre as câmaras e o GNR. Também não me convence o tão proclamado desrespeito pelos concorrentes ou pelos espectadores que são processados de forma esbardalhada. Caso nos preocupássemos com tal acabavam todos os concursos.

 

Depois, ter Micael Carreira por perto justifica a bebedeira.

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A Gaffe detective

rabiscado pela Gaffe, em 04.07.14

Uma das minhas séries favoritas passa na FOX e não é significativamente diferente de todas as outras. A fórmula que a torna atraente é mais que conhecida, porque é a usada em todas as séries com argumentos similares ou dentro do género em que esta se inclui.

Elementary traz-nos uma versão de Sherlock Holmes que, agora em NY, é coadjuvado por um Watson no feminino, muitíssimo bem encarnado por Lucy Liu que percebe de forma inteligente a primazia do elemento masculino da parelha, embora use umas pestanas que parecem dois toldos de esplanadas góticas que poderiam fazer sombra no seu discernimento.

Jonny Lee Miller é um Holmes tatuado e de barba de três dias que nos faz perder parte do argumento quando aparece em tronco nu. Um belíssimo, nervoso, agitado, angustiado, ressacado Holmes que arrasta um allure desleixado acentuado pelo contraste com a elegância e o cuidado com que as restantes personagens se vestem. É um dos poucos homens em que as tatuagens dispersas pelo corpo não desviam a atenção do torso nem transformam o resto (e que resto!) apenas num suporte, num expositor, de marcas de tinta.  

Percebe-se porque vicia qualquer rapariga esperta e a faz ficar presa à dose cavalar de episódios que são injectados à Quinta-feira.

Numa dessas tranches, Holmes divaga sobre a evolução da linguagem elogiando a capacidade dos adolescentes para minimizarem, minimalizarem, às vezes de modo ininteligível, as SMS e todas as outras frases que vão deixando quase cifradas em suportes digitais. Não perdendo apesar de tudo a capacidade de comunicar, a rapidez aumenta, a síntese é um facto e a eficácia torna-se evidente.

 

É curiosa esta apologia de um comportamento tipicamente adolescente, sobretudo quando a adolescência, conceito que surge apenas nos finais do século XIX, se vai estendendo cada vez mais no tempo, arrastando e invadindo o espaço temporal que convencionalmente dá início ao estado adulto.

 

As minhas fontes fidedignas insinuam o aparecimento em 2015 – Primavera/Verão – do conceito de teen-adult regido pelo lema boyest for the boys. O homem vai adquirindo alguns tiques adolescentes que vão contaminar a sua imagem. Os cortes de cabelo tornam-se menos duros e menos militaristas, dando lugar a caracóis domados e estrategicamente colocados de forma a entregar ao dono um tom colegial, as barbas desaparecem dando lugar a rostos escanhoados, quanto mais imberbes melhor, eivados de olhares mansos de timidez ruborizada, e a mistura de peças do agrado dos jovens rebeldes com a agrura e secura do guarda-roupa dos executivos torna-se um must .

Esta prevista miscelânea contraria a linha dura e agreste do actual barbudo másculo e indomável e vai tornar as nossas avenidas numa espécie de recreio de escola secundária repleta de homens grandinhos que ainda não entenderam a disciplina do bom-gosto.  

 

Talvez por isso compreenda Holmes quando aclama a evolução da linguagem sagrando a adolescência como uma nova e definitiva espécie de estado adulto.

Holmes percebe que quanto mais moços ficarem os homens, mais raros se tornam os exemplares que atraem as Watson deste mundo.

Mais fica para ele!

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A Gaffe felliniana

rabiscado pela Gaffe, em 14.05.14

António Damásio deve ser lido com calma e de preferência espaçada e espapaçadamente. Não adianta a Gaffe querer abarcar a multidão com uma rede de caçar borboletas.

 

Largou portanto o Livro da Consciência e dedicou-se a actividades mais lúdicas, como ver televisão (não há melhor actividade para se perder a consciência).

Entra o Jornal da Noite e bate-lhe na testa aquilo a que se poderia chamar a realidade surreal, caso não se goste do surrealismo e caso a realidade conseguisse ser inteligível no interior do pesadelo.

Apanha o retorno da pensão de aposentação de Cavaco Silva no valor de 2.200€ e o de Assunção Esteves que vê o regresso de mais 860€ à sua velhice. Verifica que a senhora continua na mesma, de cabelo à la garçonne bastante esgrouviada, com problemas de dicção que a fazem soltar umas frases suspeitas e que o senhor continua igual, com problemas de dicção que o fazem soltar umas frases suspeitas. 

 

A Gaffe vê depois aparecer o advogado de Duarte Lima. Um senhor a esbracejar de indignação, todo convincente e convencido da inocência do amigo de há trinta anos. O seu cliente finalmente livre! Bonito de se ver. Enquanto se ouve o rol das vigarices, trafulhices, crimes, aldrabices, trapaças, burlas, intrujices e fraudes que alegadamente terá cometido, Duarte Lima  aparece a tocar piano ou órgão (que é um piano bipolar), embalado nos braços da melodia, com um sorriso seráfico e de olhos fechados, todo comovido.

 

Logo a seguir surge um sindicalista de pulôver (pull-over para secretários de Estado) de malha com borboto, dentes podres e com uma madeixa de cabelo que começa numa orelha e vai por ali adiante a tapar-lhe a careca, com um sorriso da cor dos dentes (roxo, portanto) a avisar a malta, porque já faz falta, que o retrocesso civilizacional vai ser de cerca de quarenta anos. A Gaffe fica a pensar que se a figura do tipo não estará a tentar mostrar-lhe o futuro.

Desliga tudo. Prefere ficar às escuras.

 

A Gaffe não sabe se está enfiada numa fita de Fellini, mas que deixa de ter uma percepção nítida do que se está a passar, isso é ponto assente.

 

Não há nada como um chá de tília e uma almofada de penas para a ajudar a adormecer mergulhada na irreflexão e na falta de paciência para a Consciência do António. 

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