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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no centro de outro lado

rabiscado pela Gaffe, em 29.05.16

Aceitei o convite da minha irmã e parto.

A urgência que sinto de lonjura, de distanciamento mesclado com a mais diferente paisagem que agora existe em mim, obriga-me quase de modo inconsciente a anuir e a afundar-me nas ruas estreitas e nos canais de sombra de Veneza.

 

Somos imperceptivelmente alterados pelos lugares por onde passamos, nada em nós permanece igual ao que cuidávamos ser perene. Tentamos apenas agarrar o que vai ficando no dentro ovalado em cor.

Há lugares, assim como há palavras, que se forem omitidos nos rasgam a alma com a brutalidade dos monstros quando finalmente revelados e nos forçam a morrer e a matar no mesmo instante.

Vamos, porque sabemos que envelhecemos no meio de lugares e de palavras que não nos foram ditos. A nossa velhice é um cadáver adiado que, sem viagens, se torna visível e procria na tristeza. A consciência da nossa imobilidade arromba todas as portas e rompe arrolando todos os instantes.

Ilustração de Daniel Merriam

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A Gaffe na gôndola

rabiscado pela Gaffe, em 08.06.14

Pela 1ª Via, saio do Rialto, labirinto espinhoso, de finas e estreitas ruas quase em penumbra corrompido, esgadanhado em ocre e em laranja enferrujado. Casario encaixado em sombras súbitas onde os riscos de luz parecem prostitutas nos vértices das esquinas.

Saio do Rialto pela 1ª Via e entro no equilíbrio dramático da Piazza di San Marco, diante da boca do Grande Canal.

A luz é doirada e há poalha húmida a pousar nas pedras. A Praça é de murmúrios. A harmonia de fio-de-prumo impede o vozear das gentes.

A minha irmã fala-me da deslumbrante cadência da mescla arquitectónica da Praça. Discute o Simbolismo, o Magmatismo e o Genius Loci e aponta-me as colunas de Nicolo Barattiero, na Piazzetta, erguidas por ordem de Sebastiano Ziani, o Doge de que não sei contar a história e que ela sabe.

Não a ouço.

Vejo-a pela primeira vez a sorrir sem hesitar, dócil numa cidade que a conquista passo a passo. Parece um pássaro na Praça de outra parte e isso agrada-me.

Sentamo-nos numa das pequenas esplanadas da Piazzetta, abrigadas da manhã e do miúdo vento ainda sem corpo, mas que lhe toldaria o cabelo, se não preso. Os olhos pardos engolem a cor das pedras e da água, como se Veneza compulsiva não conseguisse deixar que o seu reflexo ficasse impune no olhar de quem a vê.

Na Piazza di San Marco, numa manhã de cor doirada, a minha irmã sorri, desfaz o lenço que traz ao pescoço e da carteira Kelly, cinzenta quase negra, retira o vermelho sangue do perfume e crava no punho quase o nome dela, Rush. Agora tem Veneza no seu pulso, que a cidade já lhe tomou o resto.

É através desta mulher que eu obedeço à vontade de La Serenissima. Visto Dior em preto, cintado e justo fato de colecção recente e trago gola subida de Cerruti.

Não sofro. É-me indiferente esta vassalagem mansa ao incontornável allure desta cidade. Veneza e a minha irmã, suseranas senhoras da minha vontade.

 

- Ficas muito bonita quando me deixas escolher o que vestes.

- Estou só mascarada. Mas se te agrado, aqui me tens na gôndola do inútil.

Sorri mais uma vez. Mistura os dedos nas pérolas antigas do colar e sussurra demorada:

- As gôndolas inúteis são as que nunca nos atravessam o corpo, minha querida.

Depois afasta-se de mim e aponta com os olhos já de lâmina o homem que deseja e que nos segue desde o início desta manhã na Praça.

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Gavetas:

A Gaffe apaixonada

rabiscado pela Gaffe, em 08.06.14

The only way to care for Venice as she deserves it, is to give her a chance to touch you often – to linger and remain and return.

Henry James

 Em Veneza cresce a pele das folhas recém-nascidas e a candura da água por onde se filtra a luz que vem de fora.

 

A minha vida lateja porque trago o seu coração dentro do peito, intacto, por romper, sem dano ou prejuízo. O seu coração impune em vez do meu, a bater no meu corpo, sem temor.

 

Vou respirar por ti, prometo.

Meu Amor de pele de luz e folhas a nascer.

Fotografia de P. Karie e Chirinos

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Gavetas:

A Gaffe numa frase-feita

rabiscado pela Gaffe, em 07.06.14

A nossa vida é um lugar-comum, uma frase-feita numa praça em Veneza.

A luz do entardecer humedece a cor do meu cabelo e o chão de pedra cinza entra-me nos olhos.

Construímos a vida com os estilhaços da vida dos outros. Sem eles, longe deles, resta uma praça em Veneza e um cliché.

- Posso aiutarla?

Acendem-se os primeiros candeeiros. Se me levantar, caminharei para o centro da Praça e serei previsível. Há vento no azul da Praça e é previsto que o tempo não melhore.

- Posso aiutarla, signorina?

A nossa vida mora dentro das horas dos outros. Sem esse tempo, ficam as garras e a magnitude do perigo que provocamos com a indiferença dos bichos que matam por ser deles a sina de matar.

- Posso aiutarla? - Insiste no vento do azul da Praça que o tempo não melhora. Gostava que se calasse ou ter a minha vida aqui, comigo feita, mas são pedaços que tenho e é dos outros o que comigo trago. Eu tenho dentro apenas o instinto de os unir.

- Posso aiutarla?

Não vale a pena olhar. Aceno com a cabeça e ele vai embora. A mesma Praça, o mesmo hotel e eu sem vida.

 

É previsto que o tempo não melhore.

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Gavetas:

A Gaffe e a cidade

rabiscado pela Gaffe, em 06.06.14

A mulher de cabelo preto e mamas fartas abre a janela e vomita a colcha vermelha com flores bordadas a laranja. Tem lábios escarlate e o peitilho do avental cor de açafrão. Sorri. Vejo-lhe os dentes brancos e a luz dos olhos derrubada no parapeito de pedra.  
Esta é a cidade que traz mulheres fartas, roliças, avultadas, de cabelos negros e lábios ferozes, à solta nas ruas. Exibe-as, como se exibem rosas ou rezas vendidas ou como se delas dependesse o pão que passa quente nas mãos dos rapazes de branco em frente do Palazzo.

Esta é a cidade em que abro os braços. Em que um rapaz me persegue pela tarde e que sorri quando eu o olho e que me foge sempre que sorrio e que me surge depois numa outra rua, de mãos nos bolsos a exibir o impudico olhar esverdeado.

Esta é a cidade onde palmilho ruas e onde em cada rua sou perdida e onde em cada esquina o meu corpo é lavado com a água do olhar garrido das mulheres e a alfazema que é o cheiro dos rapazes, presos por pestanas ao meu dardejar.

Esta é a cidade onde desço a noite pela luz soturna que se beija à toa no vão duma porta.

Esta é a cidade onde uma mulher de cabelo preto, de lábios carmim bordado a laranja e um rapaz que morre abandonado no vão duma porta, vermelho por dentro, nos atiram as colchas das frases dos olhos e nos falam do deslumbramento e da ferida que é saberem-se belos.

 

Mascaramo-nos para ter Veneza aos pés. Somos pequenos príncipes e tímidas princesas e o nosso perfume de rastos pelas ruas engana esta cidade que não sabe que até os vagabundos usam o perfume subtil da ilusão.

Ilustração de Daniel Merriam

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Gavetas:

A Gaffe siderada

rabiscado pela Gaffe, em 06.06.14

A porta que permite acesso ao quarto da minha irmã abre-se com estrondo.

A mulher estala no meu quarto dentro das miseráveis cinco horas da manhã, depois de uma noite que me arrasou o corpo e me esgotou por completo a capacidade de me manter acordada. Traz duas caixas cor de creme com o logo da Cerruti. Atira-as para cima da cama de modo a que me atinjam a cabeça e me despertem com a sensação de ter sido alvo de atentado terrorista. Afasta os pesados cortinados de veludo e deixa que uma luzinha enevoada e baça se permita invadir, sorrateira e tímida, o meu sono desfeito. Senta-se depois na poltrona. Usa um vestido azul negrume que a torna mais esguia. A gola alta laçada valoriza o pescoço quase demasiado alto e o cabelo preso numa arquitectura complexa consente que os olhos pardos descubram os mais subtis cambiantes de cinzas azuladas.

- Está na hora de te preparar. Levanta-te. Quero que vistas o que trago.

Sonolento espanto o meu, sentada num despertar de trombeta e de farrapos.

É cedo demais!

Arranca-me da cama e empurra o meu corpo extenuado.

- Não, minha querida. Veneza tem a cor do ocre envelhecido. É laranja e branca, suja e corroída. Só nas primeiras horas, à luz recém-nascida, tem a cor precisa, anilada e cinza. Tens de ver a cor dos príncipes perfeitos.

Convence-me. Quero ver às cinco da manhã as cinzas aniladas da cidade.

Ergo-me no exacto instante em que a minha irmã desata a abrir as caixas. É-me indiferente o que trás lá dentro. Seja o que for, é aquilo que precisa para compor a imagem de mulher que passa pelas ruas de todas as cidades como se todas as ruas de todas as cidades fossem sempre aquela que passa a vida inteira a atravessar.

Volto molhada com a toalha na cabeça.

- Agora tens de te vestir.

Tento apanhar os jeans. Impede.

Não! Veneza é o lugar mais subtil do mundo. Não é como Paris que nos deixa esvoaçar à toa. Veneza é protegida por leões. Não se vai deixar morrer de amor por ti se tu não fores exacta.

Não entendo.

Tapa-me o espelho do meu quarto, fazendo-o rodar contra a parede.

- Veneza é uma cidade de reflexos e tu serás como ela quer e te deseja. Nenhuma cidade foi tão igual a ti.

 Arranca-me a toalha. Estou molhada, tonta e espantada.  

Enfia-me uma blusa de malha fina azul nocturno, canelada, de gola subida, justa, mangas compridas a ocultar-me as mãos. Empurra-me e obriga-me a vestir uma saia escura, antracite e lanhos de um azul quase imperceptível. É estreita, tubular, exemplar, perfeita. Da segunda caixa retira uns sapatos clássicos, picotados, de couro imaculado, conservadores e preconceituosos. Masculinos.

Deixo-me vestir. Veneza é amante de mascarada onírica. Diverte-me a labuta ensandecida da mulher na ansiosa espera do resultado, que será tonto e desconexo, da união de uma vagabunda a luas de reflexo.

Penteia-me o cabelo ainda molhado. Retoca-me. Maquilha-me. Diverte-me.

Roda depois o espelho sobre o eixo que o sustenta preso ao tripé doirado de barroco.

Na luz difusa da manhã que entra, o que vejo emudece a minha alma pasma. Escura e ruiva e anil esguia, a reflectida é estranha a mim. Não reconheço a figura emoldurada em ouro, demorada de enigmas, de subtilezas e de secretos sinais plena e repleta, anil e preta e ruiva como os caixões das gôndolas. Nada sobrou de mim e assombrada deixo-me levar, muda de espanto, ao perceber que no espelho existe uma criatura que pertence à espécie de que a minha irmã é o exemplar perfeito.

 

Ora, mia cara principessa, La Serenissima... è la nostra.

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Gavetas:

A Gaffe numa canção

rabiscado pela Gaffe, em 05.06.14

Não amo estes amantes de Veneza. Não sei de noivas brancas no rendilhado dos bicos que se arrastam ao som de melodias pagas de antemão. Mas sei dos gondoleiros maliciosos, de fácil compra e troca de favores ou sei de apenas um, que se curvou em vénia desenhada ao meu passar na ponte onde passava a gôndola.


- Bella principessa, non vi piace questo povero uomo?

 

Depois sorri à espera de não ser percebido. Um sorriso à venda já sem venda que sei trocar palavras.

Não amo os amantes de mãos dadas a Veneza.

Percorro as ruelas da cidade e vejo em que em cada vértice de luz as promessas de corpos encostados, mas há a densidade dos azuis das sombras e entra-me na alma a humidade do interior das pedras desoladas.

 

Que c´est triste Venise
Au temps des amours morts
Que c´est triste Venise
Quand on ne s´aime plus

On cherche encore des mots
Mais l´ennui les emporte
On voudrais bien pleurer
Mais on ne le peut plus

Que c´est triste Venise
Lorsque les barcarolles
Ne viennent souligner
Que des silences creux

Et que le cœur se serre
En voyant les gondoles
Abriter le bonheur
Des couples amoureux

 

Não gosto dos casais enamorados que vejo a flutuar nas praças nupciais. Parecem-me saídos de caixas coloridas de cartão. Não entendem a subtil presença da cidade e o esconso perigo das ruas moribundas. Amam-se e basta, como se esse amor afugentasse os sinistros murmúrios das esquinas, os lanhos de luz por entre as pedras ou as retalhadas e frias manhãs dos pátios sem abrigos. Amam-se como se a cidade os protegesse, quando Veneza é uma mulher apenas a trair ou um rapaz com olhos de vitral quebrado. Amam-se como se não houvesse nenhum tiro no escuro, nenhum velho a passar seguido pela morte, nenhuma ponte podre, nenhuma janela aberta como ferida, nenhum tempo passado a corroer as vigas de um Palazzo.

 

Veneza é arma branca, corroída, e não o idílio de um lençol estendido.

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Gavetas:

A Gaffe corroída

rabiscado pela Gaffe, em 05.06.14

Veneza é uma cidade corroída.

A corrupção é muitas vezes obra de um deus cansado ou enfurecido e, quando assim o é, a corrupção seduz as pobres gentes.

La Serenissima invade o imaginário dos ausentes, mas incute também naqueles que a povoam a sanha do sonhado.

Veneza espera que pertençamos ao devaneio das pontes, dos canais, dos ângulos escuros das vielas por onde lâminas de luz são projectadas e das gôndolas negras como caixões de fado.

Veneza é triste como dois amantes que nunca se encontraram, mas que se deitam juntos e que não sabem que o amor é muito mais que o ocre da cidade.

Seduz-se Veneza pelo enigma. Não basta ser um homem nas escadas do Palazzo, é preciso que o homem traga histórias por contar, raras e densas, presas nos olhos ou percebidas no modo como alonga a alma pelas pedras. Veneza exige aos homens narrativas.

Veneza gosta apenas das mulheres.

Foto do meu querido Biskamp

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