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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e as sete condenações

rabiscado pela Gaffe, em 04.08.16

 

Uma ruiva no meio de um grupo de veraneantes bronzeados produz o mesmo efeito que as marcas dos fatos de banho no corpo dos ditos. Torna-se facilmente o alvo de todos os olhares. Bastante maçador.

 

É mais do que sabido que as ruivas não se bronzeiam, mas este minúsculo senão tem as suas vantagens. Uma ruiva não precisa de se esbardalhar ao sol, braços estendidos, pernas abertas e boca escancarada até que a melanina cumpra o seu dever ou se entre em coma, aproximando o cérebro da vítima do sargaço apanhado por ancinhos nas praias do Norte, para que se cumpra a promessa dúbia de um corpo tisnado.

 

Uma ruiva é capaz de se manter alerta do cimo das suas esplanadas, de óculos de sol muito Jackie O., de capelina de palha finíssima ou lenços Vuitton e de esvoaçante vestido de seda estampada de fazer inveja a Delaunay.

Se está aborrecida com as páginas que vira ao sabor da brisa e do voo das gaivotas, pode observar o povo de cuecas e de lingerie fabricadas propositadamente para a saison.

 

Nestas suas panorâmicas incursões pelo areal, a ruiva é capaz de reconhecer aquilo a que chamará os sete pecados banais que os rapazes cometem sem se aperceberem que cada um deles pode ser letal ou arruinar o Verão inteiro deixando-os com a sombra da debilidade mental agarrada à imagem.

 I

Não biquineis a mulher do próximo nem a rapariga que vem ali ao longe -  Um biquíni que vos entra para o olho, rapazes, é milhares de vezes mais perigoso que um grão de areia. Normalmente infecta e muitas vezes só se consegue retirar enterrando na córnea a pá do baldinho do petiz que nos queima o sossego mesmo ali ao lado, antes, claro, de vos ser enfiado o balde nas trombas.

 II

Abanar a toalha a favor do vento e contra o nosso corpinho tocado pela brisa é tão perigoso como tentar sacudir as velas do Sagres no meio da borrasca.

Acreditem rapazes, não apreciamos um marinheiro de fraldas areadas que receia sentir picada a mimosa pele ou que com a mania das limpezas nos trata como candidatas a panados. Princesas-ervilhas só as ruivas de boas famílias.

 III

São letais os salpicos de água com que tentais provocar-nos um choque térmico, quando procuramos entrar devagarinho no frio do mar com o corpo saído debaixo dos raios que abrasam.

Não é engraçado, rapazes. Só nos apetece bater-vos com uma piranha até que o animal fique com os dentes do Paulo Portas.

 IV

Similar ao anterior, mas ainda mais grave. Consiste em suspender o corpo encharcado, saído do banho ainda a tremelicar, sobre o nosso, quase adormecido à sombra das palmeiras.

Meus queridos, se quiséssemos ter alguém a pingar o que quer que seja nos nossos corpos calientes escolhíamos o George Clooney.

 V

Ficar de boca aberta, babada, de barriga para o ar, de pernas escancaradas e bermudas a dar-a-dar ao vento, não é de todo charmoso. Se a posição for acompanhada por um ressono beatífico que confundimos com o ronco do farol, é caso para vos espetar com o primeiro casco de navio naufragado que der à costa ou  cravar na vossa testa o primeiro mastro valente que passar - e na praia sempre vão passando alguns.

 VI

Arrastar-nos pelos pés ou levar-nos ao colo para dentro do mar. É deselegante. No primeiro caso ficamos com areia enfiada em sítios inconvenientes e com vontade de vos arrancar o fígado com a pá do miúdo que já foi útil em ocasiões anteriores - a pá, porque o miúdo só serve como porta-armas. No segundo caso, ficais com as pernas arqueadas, esbaforidos e a arfar, e nunca, mas nunca, conseguireis recriar uma cena do E tudo o Vento Levou sem que a Scarlett que transportais não sinta que vai ao colo do Woody Allen.

 VII

Dizerem-nos que o guarda-sol está bem fixo para, passados instantes, o ver cravado nas maminhas da senhora a cem conservadores e pudicos metros de distância, é irritante. É claro que sabemos como o cravar convenientemente na areia. O salva-vidas deslumbrante passou todo o dia anterior a ensinar-nos o modo mais eficaz de o segurar, mas deixamos para vós as tarefas que exigem um pouco mais de esforço. Se não conseguis seduzir-nos com um sombreado seguro, é certo que nos abrigaremos à sombra dos músculos do professor da véspera.

 

O conhecimento destes sete pecados banais é imprescindível para que não vos torneis, rapazes, um daqueles bonecos insufláveis que o miúdo da pá costuma usar para apoiar o banhinho. 

 

Vá. Decorem. 

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A Gaffe inquisitorial

rabiscado pela Gaffe, em 19.07.16

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Este é o calor de Espanha Inquisitorial.

 

Brota do chão o sol como das ânforas. Erguido a pique trepa sequioso à fronteira da água, ao bordo das paredes, para sulcar no curvar do espaço a mais pequena folha do loureiro. 

A poeira extenuada quieta abrasa. A cal escalda branca só de sede e aos degraus das horas trepam cães perdidos.

O lacrau na cal. A carne em carne-viva dos morangos. O lanho das laranjas labaredas.

As agulhas do sol picam os pássaros parados na água extenuada, quente, com peixes apunhalados pela luz de ferro que se espetou no corpo em cicatriz de espera.

O sol de Espanha dos inquisidores uiva à meia-noite.

 

Calor que arrasta mulheres antigas por pátios de laranja quente. Mulheres de Espanha e de veludos negros, veladas por mantilhas, tapadas pelo ouro dos massacres. Mulheres de rendas pretas e pesadas de olhos atados a incêndios. Cegas, lume a lume, lança a lança, atravessadas pela adaga das cruzes de marfim. Mulheres de sevilhana nas asas do cabelo a arder de seda contra a sombra, a entrançar nos dedos orações. Dedos fechados nas crinas do erotismo do sol erguido a prumo.

Mulheres deitadas na pele do Cristo nu. De punhos cerrados e almas sem penumbra a espiar a sombra dos sussurros.  

.
Voy a cerrar los ojos y tapear los oidos
Y verter outro mar sobre mis redes
Y enderezar un pino imaginário
Y desatar un viento que me arrastre 

 

O Calor é sempre inquisitorial.

 

Imagem - Carlo DolciMadonna (detalhe)

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Gavetas:

A Gaffe amanhecida

rabiscado pela Gaffe, em 01.07.16

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O vento impede o voo das gaivotas. Planam paradas no ar que cheira a maresia ainda mais salgada do que a que chega à varanda do meu quarto.

Da linha em que o mar encontra o céu há uma barra cor de salmão, pálida, e depois o azul claro, tão claro que é quase transparente sobre a folha de platina da água mansa.

 

A mesa que escolhi é da cor das laranjas sem sabor. A luz agarra os gomos das cadeiras.

 

Há uma mulher feia de castanho a rabiscar papéis com tinta verde. Duas adolescentes amarelas a pipocar segredos e o rapaz de avental branco e dentes aramados que me serviu o café negro e espesso, encostado ao balcão a olhar as rochas cheias de luz cinza.

 

Estendo as pernas, cruzo os braços e a cabeça tomba para trás.

Fecho os olhos e deixo que a rapariga de sorriso cor-de-rosa me foque finalmente e faça clique no telemóvel vermelho e ansioso.

 

Estou vertiginosamente só. Não tenho medo.

A manhã pousada, cor de opala e luz, a pentear-me.

 

Abro os olhos.

 

Estão sozinhos e são esplendorosamente felizes: o amanhecer e o mar.

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A Gaffe e as temperaturas

rabiscado pela Gaffe, em 30.06.16

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O sol aberto, o calor que não suporto, as fitas mortas das palavras que não ouço, o ardor que sinto na pele, o barulho dos risos solares que ainda ecoam nos ouvidos, a confusa lembrança de corpos em corrida, os cães que ladram, os gatos que miam, os meninos a correr e as meninas a saltar, os carros e as buzinas, os patins e as purpurinas, bicicletas e triciclos, os petizes a chorar, as senhoras a cantar com maridos a berrar.  


Eu começo lentamente a desabar. 

 

O calor excessivo é um dos maiores inimigos dos homens.
Obriga uma mulher elegantérrima a esbardalhar-se escaldante nos sofás, de lingerie exígua, mas fá-la desejar colocar a palhinha apenas no refresco.

 

Na foto - Susan Abraham, 1956

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A Gaffe depravada

rabiscado pela Gaffe, em 28.06.16

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Pelos espelhos baços de Julho acabado, vinham buscar-nos.

Tínhamo-nos despedido na véspera dos areais e do mar e numa algazarra de adolescentes esbaforidos e irrequietos, atulhávamos o carro com gargalhadas e ensolarados gestos de alegria. Havia sempre luta para se conquistar o lugar da frente e havia a estalada do riso da minha irmã que nunca se mantinha quieta, erguendo as pernas para as fazer repousar no colo dos outros, e os beliscões idiotas do irmão que nos faziam rir sem qualquer motivo.

 

Havia no entanto, uma altura em que os adolescentes se mantinham fechados, macambúzios e em que o silêncio guinava ao lado.

Quando era ele que nos vinha buscar.

Não tenho fixos os traços do motorista. Nunca o olhei com atenção. Com cerca de quarenta anos magros, rigorosos, agrestes e grosseiros, o homem reprovava as brincadeiras tontas daqueles passageiros que lhe tolhiam o couro dos assentos e bastava o seu olhar fuinha para os calar ou fazer morder risinhos patetas. Nenhum gostava dele e nenhum lutava pelo lugar da frente quando era ele a conduzir.

 

No fim de um dos Julhos, vieram buscar-nos.

O meu atraso valeu-me o lugar do morto.

Lembro-me de me ver descalça e de trazer vestidos uns calções brancos curtos, pequenos, com bolsos laterais, de tecido fino, alinhado, parecidos com os usados pelos tenistas no antigamente das estrelas. Gostava deles, dos calções brancos, masculinos e antiquados, que me permitiam guardar minúsculos segredos colhidos quando a maré baixava nas gavetas velhas e esquecidas.

Ao sentar-me junto do sorumbático senhor, as minhas pernas nuas e longas, melodiosos brilhos doirados com o aveludado de pêssegos solares de adolescente esguia, encaixaram-se perfeitas no lugar.

Lembra-me que o sol queimava e que tocava na pele das coxas para tentar apaziguar o calor que sentia. O homem olhou distraído a mão na perna e nesse instante percebi a maléfica e insidiosa vontade que se agarrava a alma. Quis que me tocasse. A minha vontade era absolutamente consciente. Nada tinha de inocente ou casta ou pura ou desprevenida. Naquele instante sabia que era uma demoníaca mulher que queria ser tocada, pervertida e perversa. Nunca aquela urgência tinha sido minha. Nunca na alma tinha apanhado aquela faca, mas agora que a via, a brilhar ao sol, a vontade de a usar era obsessiva.

 

- Toca-me! Tu não resistes. Toca-me. Tu não consegues ficar sem me tocar a pele  - mastigava em silêncio, sem pudor nenhum.

 

Tocou-me. A mão do homem deslizou sobre as coxas devagar e senti o despertar do medo no tremor despudorado daqueles dedos.

Compreendi, depois de ter transformando com um sorriso limpo o apalpar lascivo das minhas coxas num gesto de ternura, que sabia onde encontrar este mistério que me acompanhava. Aprendi a lapidar, a apurar, a cultivar, a aprimorar, a cinzelar e a polir a capacidade impudica e vertiginosa, que foi sempre minha, de convocar e domar Belzebu, acicatar, a subjugar o poderoso príncipe, mascarando-o depois com véus de luciferina inocência.

 

Agora, a domar demónios, sou bem melhor do que era na minha adolescência que findava, naquele Julho de calções de ténis.

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A Gaffe ao sol

rabiscado pela Gaffe, em 21.06.16

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É incontestável. As ruivas jamais conseguirão o mais ténue bronzeado. Não há melanina que suba à superfície da pele de uma ruiva e lhe entregue uma amostra, minúscula que seja, da aparente saúde de uma pele tisnada.

Consola-me saber que este tostado que invejo não é mais do que o sintoma de uma pele que tenta defender-se de uma agressão externa, por mais solar que seja.

 

Posto isto, é lógico concluir que sempre atravessei a areia apenas para fazer deslizar o olhar pelos espécimes estirados nas toalhas fatelas depois de mergulhos muito pouco olímpicos nas águas de um mar que de tão manso assusta - o canalha mais sinistro é o mais simpático.

 

É curioso como se pode com relativa facilidade traçar acanhados círculos onde se encaixam os homens de um Verão junto do mar. Reconheci alguns destes pequenos nichos. Sem me maçar muito, destacarei três.

 

I

O círculo insuflável

Inclui homens que parecem ter sido insuflados. Lembram os balões que nas festas infantis os palhaços moldam para gáudio dos petizes. São homens absolutamente gigantescos, autênticos reservatórios de esteróides e anabolizantes  - Anabolic Androgenic Steroids, só para os amigos. Trazem os bíceps tatuados com imagens ranhosas de tigres e dragões, que não serão jamais, de um tamanho oceânico para provar que tudo tem lugar na extensão da musculatura; usam exíguas, e ligeiramente repugnantes, tangas que desafiam a capacidade do elastano em reter as misérias que protegem e são invariavelmente acompanhados por mulheres que sempre me pareceram esticadas por forças estranhas de modo a que a barriga se cole às costas e os mamilos sejam capazes de cegar o nadador-salvador mesmo sem afogamento à vista; trazem carrapitos na cabeça e nails, onde se destacam meias-luas brancas no lugar daquilo que deveria ser cortado e olham sempre em frente, como que hipnotizadas por um ponto qualquer no perdido horizonte, como que à procura de quem as liberte do orgulho patético que sentem por marchar ao lado do insuflável obcecado em transformar todos os banhistas em voyeurs pasmados, presos pelo fio que nos seus corpos hiperbolizados não consegue permanecer à superfície das nádegas.

 

II

O círculo de esperanças

Um nicho em claríssima ascensão composto por jovens rapazes de guelras vermelhas que, de calções com um tamanho lamentável, um misto de bermudas e coloridos saiotes, apresentam uma despreocupada gravidez de quatro meses e que insinuam que nem só o sexo oposto é digno de ostentar umas mamocas Playboy. Jogam uma espécie de badmington gelatinoso e, gordurosamente suados, encharcam as ondas de adiposos mergulhos desconexos. São normalmente vistos com telemóveis com raparigas acopladas.

Apesar de se apresentarem de esperanças são desesperançadas imagens de futuros maduros repletos de inchaços e balofas redundâncias.

 

III

O círculo do abdominal

De parco preenchimento. Os rapazes que se apresentam com um torso - neste caso específico é de evitar referir a palavra tronco, - devidamente modelado, sem exageros insufláveis ou rabiscados de forma irreversível e lamentável, acabam com umas pernas anorécticas e geralmente apresentam tendência para desfilar a patetice que os caracteriza com o à-vontade de quem está seguro da qualidade do produto que tentam vender. Sabemos, por experiência antiga, que estar Seguro nem sempre convence o eleitor. O grupo do abdominal pode desfilar em excelente forma física, mas o vento que se faz sentir constitui um perigo penetrante, provocando zumbidos e assobios no desértico espaço entre as orelhas. Apesar deste contratempo, o pequeno número de elementos que povoa este círculo é o que mais diverte as raparigas espertas que não exigem que se conheça Proust para perder o tempo imprescindível a procuras menos literárias.

        

Fiquemos por aqui, que três é número que Deus fez e que acusado foi pela chorosa Princesa inglesa de ter sido responsável pelo fim de um casamento e porque temo que por esta altura eu própria tenha já perdido os meus três - pacientes leitores. A síntese exigida a recantos como este, não é compatível com divagações e derivações arquivistas, mas uma rapariga esperta às vezes não se entretém com pouco.

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Gavetas:

A Gaffe veraneante

rabiscado pela Gaffe, em 20.06.16

Anita Loos, e Cecil Beaton,1930.jpgO facto de ultimamente ter considerado interessante apenas a equipa encarregada da campanha promocional da Shiseido, não augura nada de bom.

 

É deprimente e anuncia aquilo que se receava: o início do Verão.
Nunca me foi favorável esta estação que entra com passos febris.  
Faz oscilar o meu humor e destabiliza toda a minha estrutura emocional, queimando promessas tolas de Primavera ida.  
Altera-me e provoca largos e penosos conflitos entre a minha lucidez e a minha desgraçada tendência para atenuar, ou mesmo liquidar, a mais tímida forma de pensamento estruturado.


Depois há O aniversário.

 

Em Junho a minha irmã, que só não se transformou ainda numa criatura insuportável, porque é demasiado inteligente e reconhece que ter a alma azeda é apenas uma forma mais de fracassar, comemora o seu feliz aniversário exigindo dos outros as oferendas proporcionais ao seu extenso ego.  

 

Depois há a solidão que aumenta.


Em Junho desaparece a minha prima que retorna a Paris para ocupar o lugar que dela sempre foi no centro da vida.

- Não fiques triste! Eu volto, caso-me e partilhamos todos os amantes.  

 

Em Junho não faz sentido nenhum ser-se inteligente.  

 

Na foto - Anita Loos e Cecil Beaton, 1930

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Gavetas:

A Gaffe de esticão

rabiscado pela Gaffe, em 09.06.16

O calor abrasa!

 

O desejo de mar começa a refrescar os destemidos, mas praia e ruivas são duas entidades incompatíveis.

A pele das segundas é atingida pelo sol da primeira e as sardas, essas pintas amaldiçoadas, afloram à flor da dita pintalgando-a e enferrujando-a.

 

É evidente que a Gaffe jamais conseguirá apresentar o deslumbrante bronzeado de capa de revista. Talvez por isso se dedique, à sombra de uma esplanada qualquer, beberricando o calor e a indolência, à observação dos garbosos rapazes que mergulham nas excelsas ondas do seu tédio.

É curioso vê-los sair do mar, como tritões aflitos, tentando afastar da pilinha - ou da pilona, dependendo a escolha do substantivo do tamanho do tritão - os calções que, de molhados, se colam despudoradamente às suas pudicas reservas.

 

Esta manigância apudorada repete-se com as meninas que, fora da praia e em qualquer estância, usam umas saias microscópicas, normalmente demasiado justas, geralmente inúmeros números abaixo do aconselhável. Levantam-se esplendorosas e, com um movimento de braços pouco subtil, arrastam a bainha para os joelhos correndo o risco, tamanha a força do esticão, de arrancar também o soutien.

 

Não é de todo agradável.

Não é sequer muito feminista.

 

Compreende-se a sensatez e o acanhamento do rapaz que tenta impedir que toda a gente conheça os contornos das suas mais íntimas e ensopadas quinquilharias, mas é irritante o gesto da menina cujo objectivo é o de exibir as suas bugigangas, óbvia e declaradamente.

 

Raparigas, a única peça que devemos puxar como se viesse o demo atrás de nós, é aquela que se solta, destruindo-nos a pose por completo, quando tentamos imitar a sereia dos cânticos mais quentes. É aquela que a Gaffe sentiu nos tornozelos a esbardanhar-lhe os passos sobre a areia breve, depois de um mergulho arriscado na maré mais brava: a parte de cima do biquíni, o famigerado soutien.

Quando este maldito se descai, não adianta disfarçar o embaraço. Ou trazemos do mar umas algas coladas às maminhas ou apanharemos um cavalheiro qualquer a separar os calções do seu sargaço comprometedor.

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A Gaffe paradisíaca

rabiscado pela Gaffe, em 05.03.16

 

Chega até mim, pela mão daquele que em segredo me agrada ousar pensar ser o meu secreto admirador, uma espécie de fim-de-semana repleto de paraísos.
Tenho de verificar se todos usam as jóias certas, que não sendo as britânicas, me ficam bem se as colocar no corpo.


Não é fácil pesquisar nos relances destes corpos, pecados comprometidos com o paraíso, mas há sempre indícios e pistas e rastos de um suor estranho, de um discreto arranhão, de um olhar suspeito e de um perfume a pousar no corpo errado.
Sou perspicaz e muito atenta a todos os sinais de brilhos escondidos e, confesso, agradam-me sempre estas procuras, porque são morosas, meticulosas, lentas e sobretudo porque me dão prazer. Um prazer medonho que alaga as velas e desfaz as ondas.
Procuro. Merece sempre a pena sermos aprendizes.
Há ensinamentos que são como a maçã: trazem a serpente como cúmplice e um paraíso que se oferece ao nosso.

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A Gaffe de férias

rabiscado pela Gaffe, em 01.08.15

A Gaffe decide, no tempo que lhe é permitido repousar das inúmeras tarefas que uma rapariga esperta sempre tem nos braços, retornar à sua cidade e fazer de conta que de lá nunca saiu, retomando as velhas e fiéis amizades doidivanas e percorrendo os caminhos de Montmartre à procura das partículas de alegria que rolaram pelas escadas gastas por vidas e prazeres tão juvenis.

 

Promete passar por aqui para vos ver, mas vai guardar todos os mimos e todos os comentários que lhe deixarem para quando regressar se poder deliciar com tudo ao mesmo tempo.

 

Parte triste, porque tem já imensas saudades deste cantinho onde as palavras tontas permanecem por ler - custe o que custar ao seu narcisismo quase pueril -, mas volta num instante com força renovada e Dom Pérignon para festejar convosco. 

 

Até já!

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A Gaffe acalorada

rabiscado pela Gaffe, em 20.06.15

c.jpg- A menina janta cozido ou prefere arroz de pato? – O Domingos pergunta à minha irmã que tinha desabado na poltrona no início tarde de preguiça e de calor em brasa.
A minha irmã ergueu a sobrancelha.
Procurava na pergunta um laivo de troça escondida, um rasto de gozo miúdo, que os homens do Douro usam de modo tão discretamente certeiro. Nada! O Domingos queria mesmo saber as preferências culinárias da menina.
- Oh! Domingos! – Espanta-se a minha irmã, depois de ter vazado a alma do homem com os punhais desconfiados do olhar. – Ninguém come essas coisas hoje em dia! Eu só quero uma salada. Daquelas que o Domingos sabe fazer, muito ecológicas e verdes, com alface de folha lisa. Mas, por favor, retire-lhe as fêmeas dos caracóis.

 

- Diga, menina?! – Insiste, mas já de sorriso discreto à tiracolo.
- As coisas sem casca. As mulheres dos caracóis. – Explica sobranceira.
- As lesmas. – Procura esclarecer o senhor.
- Não me faça isso, Domingos! Eu não quero saber como se chamam as senhoras.


É do calor. Esgana-nos o cérebro.


Depois há a ausência de piscinas.
Em todos os cantos onde fico, há uma escandalosa falta de piscinas.
Há repuxos, copos, tanques, esguichos, torneiras, lavatórios, bidés, lagos, bicas, fontes, poças, garrafas e alguidares, mas piscinas nem pingo.

 

Há aqui, é bem verdade, a gigantesca cisterna, mas ninguém em condições psicológicas ditas razoáveis se atreveria a mergulhar no desmedido e medonho espelho de água gélida, capaz, tenho a certeza, de sinistramente sorver o mais incauto puxando-o para as profundezas negras muito Stephen King.
Contentemo-nos com o chuveiro improvisado de água fria, tomado lá fora, na sombra do início do jardim, de rendas brancas, aos gritinhos e à vista dos homens suados e bravos e fortes e duros que começam a chegar ao fim da tarde.


São uma apetitosa salada, estes rapazes, depois de despejadas as mais atrevidas esposas dos caracóis. 

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Gavetas:

A Gaffe de vela

rabiscado pela Gaffe, em 09.03.15

vela.jpgÉ evidente que a Gaffe não é apologista de sapatos de vela. Normalmente trazem acoplados um rapazinho com dentes branqueados, muito preppy, e com um discurso repleto de amendoins, falando como se os tivesse na boca ou um cinquentão de cabelo ao vento, calças vermelhas e camisa ao xadrez miudinho de preferência em tons de azul, encaixado num descapotável que esvoaça em redor das colegiais. Ambos nos prometem aventuras, mas nenhum deles consegue mais do que uma descarga ligeira de adrenalina ao reconhecer Isabel Alçada no elevador.

 

Os sapatos de vela são, apesar de aparentemente confortáveis, um Verão sem ilusões ou uma desilusão que não bronzeia.

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A Gaffe arrebatada

rabiscado pela Gaffe, em 16.01.15

dolce-gabbana-spring-2015-backstage-makeup.jpgÉ um erro colossal ficarmos desatentas à colecção Primavera/Verão 2015 de D&G.

O deslumbre é imediato. Nada é descurado na perfeição que invade um cenário espanhol.

A cor escarlate trespasse o palco e o calor das terras de Espanha espalha-se pelos corpos quase num desafio de arena e de touros, de flamenco e de flores de carne rubra.

É impossível ficar indiferente, porque a opulência é uma mulher fatal que se apossou do mistério do ondular das capas dos toureiros.

Belíssima! Para render Hemingway.

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Ver mais )

 

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A Gaffe angélica

rabiscado pela Gaffe, em 17.09.14

A Primavera/Verão 2015 de Tom Rebl é surpreende, luminosa e uma coisa para nos fazer desejar depressa o Inverno. 

À alvura dos rapazes une-se a profusão dos acessórios que numa atitude que toca o exagero, que nestes casos está sempre próximo do mau-gosto, fazem peso sobre o tronco límpido do desejo.

Não é, de todo, uma colecção de empatia imediata. Exige o lapidar das formas que se podem considerar incompatíveis com as escolhas masculinas habituais pela amplitude dos desenhos e escolha de tecidos.  

Claramente pertença das grandes metrópoles indiferentes onde é possível ignorar um homem mascarado de anjo ainda com os brilhos das asas perdidas ao pescoço. 

Notinha de rodapé - Não vale olhar para os indícios de irritação nos locais onde o rapazinho se depila. 

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A Gaffe desiludida

rabiscado pela Gaffe, em 01.08.14

A Primavera-Verão 2015 de Saint-Laurent é uma desilusão.

Uma mistura de Midnight Cowboy e de Bee Gees, com um travo a hippie debruado a John Lennon.

Absolutamente deprimente.

Caso Yves Saint-Laurent assistisse ao desfile acabrunhante da sua grife (e espero que não o encontrar no meio dos espectadores, porque tenho algum receio de múmias) creio que se sentiria humilhado e desalentado perante uma colecção pouco inteligente, confusa, de certo modo fácil, vivendo apenas de cores soturnas e de tecidos elaborados e claramente excessivos e pesados.

 

Pelo menos faz com que sintamos saudades da Deneuve.

Ver mais )

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