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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de granito

rabiscado pela Gaffe, em 12.12.18

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Hoje não chove.

Há frio como granito.

 

Levanto a gola do casaco – longe do mar, marinheiro, de um azul grosso de fazenda em terra – e sento-me na pedra do banco que foi do meu avô, naquelas tardes de gelo em que apenas ficava a ouvir os passos dos fantasmas que o Domingos dizia haver nas pedras.

 

- Ninguém morre aqui. Fica-se nas pedras. Sentimos latejar quando as tocamos.

 

Esta condescendência da morte alonga o tempo da memória e entrega ao inamovível a nitidez da presença do passado.

Olho, ao abrigo de um casaco sem moldura ou tempo, os rostos que vivem nas pedras e acredito no Domingos que é velho, velhíssimo, criança de tão sábio, e me diz que o tiritar das árvores é o som das palavras das pedras que trepam às copas, porque ninguém morre aqui. Fica-se nas pedras e são as pedras que tecem o meu casaco azul de terra audível.    

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Gavetas:

A Gaffe tricolor

rabiscado pela Gaffe, em 11.12.18

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A única Revolução que teve origem única e exclusivamente no povo, foi aquela que fez tombar a cabeça da rainha que comia brioches espantada com os súbditos que, sem pão, não experimentavam o mesmo.

 

Fez oscilar e vacilar as restantes monarquias europeias, alterando substancialmente a visão do massacre em nome de maiores valores erguidos em bandeiras comunitárias e consagrou até hoje o trio LibertéÉgalitéFraternité como divisa da República Francesa, inscrevendo-o na sua Constituição.

Deixou-se contaminar posteriormente pela peçonha de oportunismos e de outras violências mais palacianas, aparentemente menos sangrentas, mais comezinhas, mais caseirinhas, menos idealistas, desvinculadas do querer daqueles que a levaram nos punhos, e nas almas à míngua, para as ruas de Antoinette. É história para contar depois. 

 

Em Paris já não se ouve o grito tricolor, mas a fúria de hoje é parecida com aquela que não se quer rever. É a de um povo que não come brioches e que tem uma Europa que lhe devora o pão.

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O pontometro

rabiscado pela Gaffe, em 07.12.18

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A minha professora é muito inteligente. Mandou-nos fazer em trabalhos manuais um cartão muito bonito assim para o quadrado mas com umas pontas maiores que tínhamos de desenhar com outros quadradinhos lá dentro. Depois mandou guardar ao pé da porta uns em cima dos outros. Estas coisas chamam-se pontometros e servem para a gente ter a certeza que veio à escola. Chegamos de manhã e temos de picar um quadradinho com o bico do nosso lápis que tem de estar muito afiadinho porque se não estiver aquilo não dá e a minha professora diz que é falta e não nos liga que a gente não está lá. Os meus colegas que chegam de camioneta porque são ricos e até nem andam com porte pago podem picar com uma caneta. Os outros que chegam a pé só usam o lápis que isto de gastar tinta é só nas unhas. Eu acho que não funciona muito bem porque como os cartões de papelão estão uns em cima dos outros a gente às vezes pega sem querer noutro que não é o nosso ou então pica dois ao mesmo tempo. A minha professora já avisou que nos apanha assim distraídos nos arranca os dentes mas ninguém se importa porque somos pequenitos e eles crescem outra vez. O Jacinto que é o mais esperto da minha classe diz que aquilo só serve para limpar o cu. É um porco. A minha professora que o ouça que até lhe arranca os olhos à chapada que nesta escola ninguém limpa nada. O Jacinto chega à escola e manda a Cláudia Raquel mexer no monte de pontometros à procura do dele. Depois a Cláudia Raquel manda um furo e pousa direitinho outra vez no monte sem ninguém dar conta. Antes mandar um furo que outra coisa como o Zé Luís faz que até parece que anda uma altercação do clima à volta dele. Só que a gente sabe que o Jacinto foi ao Rodízio Café beber coca-cola que é uma coisa que faz estourar os miolos se a gente misturar aspirina lá dentro. A minha professora diz que se o pontometro está picado é porque o Jacinto está cá dentro e mais nada. A gente fica claudicante que é uma coisa nova que dizemos quando vemos a Cláudia Raquel a picar o que não deve e queremos que ela nos faça o mesmo. Mas a Cláudia Raquel só pica o que quer e como gosta do Jacinto a gente já sabe quem é que tem sorte. Eu acho que não devia haver essa coisas modernas que a gente pica a dizer que estamos cá. A gente já sabe que nas escolas onde há pontometros há muitas cláudias a picar. É como aquela coisa chamada SIDA que vem nas agulhas. Uma pessoa pensa que só aos outros e vai na volta apanha a picadela do vizinho. Não se tratem. Eu gosto muito do pontometro.   

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A Gaffe na sua vez

rabiscado pela Gaffe, em 05.12.18

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Às vezes, apercebo-me que dentro dos seus olhos azulados existe um espeto. Um prego de saudade de algures, ou de alguém que não nomeia. Às vezes, encontro-lhe no silêncio que desenha com o dedo na superfície dos móveis, a brandura e a ausência de gente dentro do peito. Às vezes, descubro-lhe no cabelo de trigo limpo a trança destroçada da tristeza meiga que sem voz aprende a deslizar pelo chão como um cachorrinho amedrontado. Às vezes, vislumbro-lhe o brilho desmesurado, solto daquele orgulho infantil capaz de trucidar os frágeis, os pequenos, pequeninos. Às vezes, apercebo-me daquela melancolia não sei de onde vem, ou para onde vai.

 

Às vezes, faz lembrar hortênsias.

 

A minha sobrinha chega dentro de dias - o ciclo inicia-se -, para passar as férias do Natal no Douro. Antes dela, eu; antes de mim, a minha mãe; antes da minha mãe, a minha avó; antes da minha avó, o passado que é eterno e o passado antes deste, que assim é construída a casa de que sou reflexo.

 

Sei que fico à espera.

Ficaram à minha espera.

 

Agora é a minha vez de a ensinar a perscrutar a terra, a tocar o caule das hortênsias, a aflorar a água do lago, a deixar que as carpas brinquem com os dedos que ao de leve tocam nas escamas das asas do anjo de pedra debruçada; de lhe ensinar a ouvir o virar das páginas das árvores; de lhe ensinar a podar as sardinheiras – em bisel, meu amor, e sempre rente ao chão, que o chão as reconhece; de a fazer repousar nas almofadas das romãs e das maçãs abertas; de permitir que acaricie com a lentidão das patas dos insectos as black lace ainda em embrião; de a fazer entrar em casa como quem entra num corpo; de lhe contar dos avós, do bisavô, da bisavó e de mansinho tentar que a minha comoção se torne nevoeiro na cisterna.  

 

É a minha vez de lhe dizer que uma japoneira morre se ousarmos o transplante. É como viver dentro de um coração. Para de bater, se o desocupamos. É urgente que saiba que não se podem deslocar as árvores das camélias.

 

Depois, e só depois, deixar que a minha irmã lhe ensine como exigir que as jarras as recolham mortas.

 

Fotografia - orgulhosamente minha

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A Gaffe russa

rabiscado pela Gaffe, em 04.12.18

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A esmagadora percepção da minha absurda leviandade, da minha tonta irresponsabilidade, do meu fútil viver e da minha vazia insignificância, chega de repente e deixa-me sozinha, inútil.

 

Tenho na mão o fino livro que retirei do móvel e a tempestade desabou, sem freio, destelhando a choupana que habito, rainha destronada de mim, senhora exilada de timbre no envelope, princesa imbecil de poentes desenhados.

A implacável certeza da minha incapacidade de me elevar ao patamar destas mulheres. Uma depois de outra, há tanto tempo.

 

O livro que se espera - pois que se olhou para os outros -, reflexos do pensado por senhores, perucas brancas empoadas e alma desbravadas de poeiras, varandas debruçadas sobre iluminismos, saltitos de gazela sobre palcos, sonetos de intricados versos ou tão somente a história de algum santo - tudo francês -, é a subliminar mensagem que - estou certa - se destina a mim, que gracejo, zombo e escarneço do que é meu, profundamente meu, sem eu saber, sem eu cuidar, sem eu de joelhos respeitar.

 

La mort de Ivan Ilitch de Lev Tolstói.

A estilhaçar a redoma de certezas do meu mundo.  

 

Imagem - Carolus-Duran

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A Gaffe da trisavó

rabiscado pela Gaffe, em 03.12.18

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A sala está à desamão. Talvez por isso tenha lesmado incólume.

 

A situação não é a mais favorável - como se habitar fosse conjuntura -, cravada num recanto da casa que ninguém pisa, voltada para um jardim que ninguém quer e que se vai matando em castanhos queimados de folhas inúteis. Duas árvores por servilizar arranham os vidros com os pregos dos troncos retorcidos e existe - já ninguém sabe onde - a imagem de pedra de um fauno que por trepadeiro pudor foi resguardado com mantos de silvas.

As portas nunca se fecharam, porque ninguém as quis abertas. Permaneceram todo o tempo numa espécie de limbo, por onde rastejava a pouca luz que emagrecia nas janelas entreabertas.

É uma sala feia que, embora espaçosa, parece mirrada pela quantidade de acicates, manigâncias e minúcias que retém e que nos confundem.    

 

Era a sala da minha trisavó.

 

Existe numa das paredes, condenado, um retrato de meio corpo da senhora, da autoria de um pintor menor, francês, sem história de arte, de provável metro e meio - o quadro, que do pintor não resta medição. O tempo fez estalar na tela arredondadas e distorcidas células, unindo-as num tecido invasor de um exército maldoso de linhas estrategas.

 

A retratada usa um vestido de saia de seda pesada escura esverdeada, corpo de mangas estreitas, com punhos de renda bege que lhe tocam as falanges e gola subida no mesmo entretecido. Uma mantilha azul enegrecido, bordada em tons de cobre, espalha-se no regaço. É uma mulher de cerca de trinta anos, de rosto redondo, olhos cinzentos, plácidos, amortecidos pela inabilidade do artista e cabeleira ruiva, densa, presa por adereços, ganchos e travessas que lhe escravizam os caracóis. Dizem que sou assustadoramente parecida com ela e talvez por isso a mantenham prisioneira na sala que ninguém quer ver ou habitar. Não consigo julgar.

 

Fomos eu e o meu Amigo, invadir - porque o meu gigante descobriu que a pequena biblioteca da sala se mantinha inviolada desde o desaparecimento da dona - a sonolência do espaço eivado de detalhes femininos, que sobrevoam a escolha dos móveis, pequenos, trabalhados, minuciosos, pormenorizados, quase rocambolescos, até ao poiso nos ramos de desbotadas flores que murcham nos padrões das almofadas e estofos de cadeiras.

A senhora olhou-nos e voltei a pasmar perante a clareza com que me atrevo a parecer-me com ela. Se o pobre e esquecido pintor me tivesse como modelo, no presente, ganharia alguns cobres livres de canseira, pois que podia exibir o retrato antigo, clamando ser o meu.  

Estupefacto, o meu bom Amigo petrifica.

- És tu. Até as mãos são as tuas!  

 

A mão esquerda maculada pelos dedos da raiz do envelhecer da tela toca o colo espartilhado e aflora o colar de pérolas que pertence à minha irmã, agora. A direita, pousado no regaço, segura um livro pequeno de capa de couro. A página está marcada por um dedo anelado e por, ao mesmo tempo, um marcador em ouro, punhal pequeno e fino que serviria para rasgar as folhas ainda unidas. Uma dobra da seda do vestido esconde parte do título do que lia. Livro de Horas, uma hagiografia, um romance permitido às senhoras mais letradas?

 

Mais do que esperado, foi o livro pintado o foco de toda a atenção do meu Gigante. Que livro seria? O que lia aquela mulher? Que obra escolheu para ser incluída no retrato? Foi escolha aleatória, ou teve propósito?

 

A lombada do livro estava escondida por uma onda de seda do vestido e a tela tinha estalado no lugar que provavelmente nos indicaria a pista mais certa, mas se o realismo do retrato tivesse sido completo, como assim se fez com o cenário que identifica a sala, a exígua biblioteca privada da senhora guardaria ainda a obra retratada.

O móvel vidrado contém um número de obras limitado, mas muito heterogéneo. Os livros foram claramente eleitos usando-se o critério traçado pelo coração.   

Os sonetos de Petrarca, os de Camões. Os de Shakespeare. Os sermões do Padre António Vieira. A Odisseia. Ovídio. Virgílio. Madame de Staël. Molière, Racine e Diderot ao lado de vários romances franceses sem qualquer valor e pouco mais, que ler era para homens.

A obra retratada estava ali. Minúscula e sufocada entre Encyclopédie de d’Alembert e Voltaire, Rousseau, e Montesquieu que deitados se sobrepunham.

 

O punhal, apenas de lata, sinaliza ainda a página que marcava no quadro.  

 

Eis a escolha da minha trisavó, com a lombada voltada para a madeira.

 

Durante todo o fim-de-semana procuramos a chave que abre a pequena biblioteca.

Encontramo-la ontem, já noite cerrada, numa das gavetas da secretária da biblioteca do meu avô, presa a uma etiqueta em papel amarelecido onde está escrito, em letra velha e gasta, apenas um nome: Claire.

 

Hoje, vamos abrir o que foi escurecido.

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Gavetas:

A Gaffe à descoberta

rabiscado pela Gaffe, em 02.12.18

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A Gaffe descobriu que a uma mulher importa muitíssimo pouco, ou nada, se um homem pensa nela - e o que pensa, quando nela pensa - quando está sozinho, à noite, fechado no escuro de um quarto.

 

O que é importante é se nela pensa - e o que pensa, quando nela pensa - quando em pleno dia está rodeado de gente.  

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A Gaffe engraçada

rabiscado pela Gaffe, em 29.11.18

Abner Dean. The New Yorker. Published March 10, 19

Graça Fonseca tem um cabelo muitíssimo bonito.

 

A saturada humidade mexicana levanta-lhe as pontas - do cabelo - entregando-lhe um penteado engraçado, como que se abrisse um guarda-chuva, e, questiona Afonso Cruz, para onde vão os ditos, pois que a feira é literária -, sublinhando o interesse que a Ministra indiscutivelmente possui.

Graça Fonseca é uma mulher muito estimulante e percebe-se que a inteligência que detém colocou um dedo neste facto.

 

Em Guadalajara, Graça Fonseca não lê jornais portugueses, diz-nos com uma placidez invejável e com a tranquilidade de quem está segura das decisões que toma.

 

É suposto que as virgens ofendidas se imolem nas escadarias dos templos; é suposto que haja escândalo nos meios de comunicação social; é esperado que fiquem torcidos de nojo os arautos da democracia, da literacia, da liberdade, do livre arbítrio, da elevação do acto jornalístico - sobretudo o português -, à condição de vate - o poético e o vidente; é expectável que se exija a demissão da afoiteza; é mais do que visível que a Ministra é de uma snobeira sobranceira que permite apenas que leia os escritos em grego antigo ou em latim finado. 

 

Entretanto, o IVA das touradas desceu, colhido por quem melhor lida nestas praças.

 

É suposto que as as virgens ofendidas se imolem nas escadarias dos templos; é suposto que haja reboliço vingativo nos corredores da comunicação social; é esperado que fiquem torcidos de nojo os arautos do velcro; é expectável que artigos vários e de severa pena exijam a demissão da lesbiana, agora corrigida; é mais do que visível que a Ministra é de uma snobeira derrotada que merece apenas uma bandarilha destas no lombo; é claríssimo que o governo sofreu uma colhida e que, na arena política, não passa de um rabejador.

 

É tudo constrangedoramente previsível.   

 

Entretanto, a Gaffe continua a não entender como se consegue manter um guarda-chuva aberto e ler ao mesmo tempo a maior parte dos jornais portugueses em qualquer lugar do mundo, incluindo Portugal. Não fica tudo encharcado?!  

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A Gaffe à entrada da casa

rabiscado pela Gaffe, em 28.11.18

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Sei que a vi à entrada da casa, junto ao portão de ferro forjado. Havia uma alameda de vinhas despidas e um caminho de pedra calcada que teria de percorrer até chegar. Ao longe, e o longe era profundo, a minha avó parecia mais pequena do que realmente era. De casaco cinzento, comprido e tubular e lenço enrolado no pescoço. Um lenço amarelo tostado, de seda, liso e limpo, que, emergindo do antracite do conjunto, a fazia parecer um archote. Permaneci quieta por momentos e depois comecei a andar com passinhos decididos.

 

Aproximava-se. Aproximava-me. 

 

Primeiro foram os seus olhos. Cinzentos, agudos e aguçados, pareciam andar mais depressa do que eu. Chegaram de repente e apanharam-me desprevenida. O olhar da minha avó tinha dentro a minúcia de um exame que sabia que reprovaria. Era quase um olhar predador e eu julguei ser a caça. Antes da minha avó ter chegado completa - e era eu que andava -, já me tinha escondido dentro de mim.

 

No entanto, o seu amor absoluto foi-me entregue todo.

 

A sua capacidade para domar ou dominar todas as situações tornaram-na imprescindível e as suas certezas, os seus aforismos, as suas certeiras observações e as provas irrefutáveis da sua competência, fizeram com que a idolatrasse. Deslizava pela casa fora, muitas vezes dura, pronunciando apenas as palavras necessárias que inevitavelmente traduziam ordens, quase sempre meiga como a alvura do seu cabelo de ondas presas por travessões de tartaruga.  

 

Há dois dias, no lugar da minha avó, à entrada da casa, ao fundo da alameda agora abafada por mimosas, eu, de antracite e lenço de seda liso e limpo, amarelo queimado, vi-o chegar.

 

Aproximava-se o meu Amigo.

 

Primeiro os seus olhos, negros, densos, maciços e aguados, pesados de uma tristeza infinda que ninguém explica, como se sentissem sempre saudade dos archotes de outrora, de um tempo findo numa outra Era. Um olhar de sombras que nunca sabemos se são das pestanas ou das árvores que lhe crescem nas palavras.

Um olhar que o esconde dentro.

 

A sua capacidade para domar ou dominar é ínfima. Fragiliza-o, entrega-lhe uma ternura que advém da mais profunda compreensão do mundo e da pureza indiscritível dos eleitos, dos que deslizam pelo mundo com a alvura impossível dos cabelos negros como corvos.

 

À entrada da casa, existimos suspensos no tempo que passa a pensar. 

Eu, lá longe. Ele, agora. 

 

Heathcliff is me!    

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A Gaffe graxista

rabiscado pela Gaffe, em 23.11.18

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Sem qualquer tipo de rede e levado até ao fim apenas por dois absolutamente doidos aventureiros, a Magda e o David, o Sapos do Ano deve ser aplaudido de pé, porque, para além de divertido, saudável, bem-disposto, isento, inócuo e repleto de festa, luzes e palavras, é a prova sólida que há realmente Gente dentro desta plataforma.

 

Ilustração - Naoto Hattori  

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A Gaffe a magicar

rabiscado pela Gaffe, em 22.11.18

A Gaffe esteve a magicar forma de contribuir para aligeirar o trabalho da sua querida Magda e do David que estão ocupadíssimos a contar os votos de todos aqueles que decidiram participar nos Sapos do Ano, mesmo os daqueles que acreditam que o formulário não foi submetido quando o clicaram pela milionésima vez.

Depois de uma noite bem dormida sobre o assunto, a Gaffe decidiu oferecer, para a realização da Gala de entrega dos prémios, o anexo da casa. Um coisa simples, muito dentro do simbólico.

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Vai precisar que alguém sacuda os cortinados, mas não vão com certeza esperar que a Gaffe faça tudo, até porque vai estar ausente, pois a Gaffe - embora demonstrando com o gesto todo o seu fair-play -, jamais se sujeitará a humilhações…

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A Gaffe escreve a Manuel Alegre

rabiscado pela Gaffe, em 21.11.18

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Caríssimo Manel,

 

Devo, antes de tudo, apresentar o meu pedido de desculpa por esta ser uma carta aberta. A culpa, meu querido, também é sua, pois que defende aquelas concentrações maçadoras de gente com imensos cartazes ruidosos. Ficamos sem empregadas para lamber os envelopes. Desde já lhe digo, meu caro, que não volto a corrigir os erros ortográficos que se vão lendo nos papéis que aquela gente leva aos gritos para as manifestações. Nunca mais lhes digo que AQUI NÃO Á TACHOS tem mais um h – até porque ambos sabemos que não é verdade o que lá se diz. As nossas cozinhas são imensas e dizem-me que bem apetrechadas.

 

Depois, tenho de assumir que nunca compreendi a poesia ou a literatura. São nuances de uma rapariga simples. Este dado, meu caro, faz com que o entenda muitíssimo bem. É um silogismo tão acessível, não é?

 

Apreendo que a si ninguém o cala e depreendo que os amigos escasseiam. É o chamado já não há cu p’ra ti - como diria o resignado Rei de Espanha se não fosse de boas famílias -, mas sou obrigada a concordar consigo quando chama à lide Picasso, Goya, Hemingway ou Joana Vasconcelos, nas arenas que defende.

 

É evidentemente secundário reconhecer que a única vez que Picasso não foi um escroque para as mulheres - mulheres de carne e osso - foi quando pintou A Primeira Comunhão, ou mesmo ignorar que o genial artista não virava os cúbicos costados ao estalinismo; é um absurdo pensar em Goya no El Tres de Mayo en Madrid e convém esquecer a forma como Hemingway se finou, porque se referirmos estes pormenores, baralhamos imensa coisa que deixa então de servir para figurar na moldura humana das arenas que lhe são caras. Eu sei, meu querido poeta, que não referiu Joana Vasconcelos, mas apeteceu-me muito falar nela, assim como não quer era coisa - e as coisas que ela faz - e porque talvez assim alguém se lembre de lhe espetar uma ou duas bandarilhas.

 

Estou consigo, meu querido, quando faz por esquecer D. Maria II que proibiu as touradas em Portugal por as considerar um retrocesso civilizacional.

A real senhora já morreu, era um camafeu – o que não interessa nada, pois que era rainha e nós, lindíssimos, só temos o subsídio de férias - e  com certeza nunca viu, mais ao perto, aqueles machos corajosos, viris, testoteronos, testosteronados, enfiados em fatos de spandex, de latex, de lycra - seja o que for, estica - repletos de lanteloujas, berloques, vidrilhos e galões dourados e polidos que lhes moldam os rabos redondinhos e lhes desenham as pilas, para humilhação dos bichos e alegria das fêmeas – não digo bichas para não ser mal entendida - e de sabrinas a fazer pendant com o bolero.

Se tivessem forçado Sua Majestade – que nunca se pôs a jeito, que se saiba -  a enfiar um, pelo olho dentro, para além de poder exigir indemnização, com certeza que não manteria a sua posição.

 

Infelizmente, poeta, não faço parte da moldura humana do que defende de modo tão viril. Não é, de todo, por pirraça, mas, se reparar, o caixilho feminino em que figuraria se a tal pertencesse, é sempre composto por todas as versões de cinhas jardim e lilis caneças, nas suas centenas de etapas e metamorfoses, e  não me diga, meu querido, que este facto não é um retrocesso civilizacional que desta vez fico mesmo zangada consigo.  

 

Devo dizer-lhe, caríssimo, para o tranquilizar - apesar de achar que existem outras formas dos meninos compararem os tamanhos das pilas -, que os bichos também não me interessam. Sabe como odeio padrões tigresse e estampados a picar leopardos. Fiquei mesmo traumatizada quando vi a minha massagista com umas nails zebradas. Senti, estarrecida, que iria ser apunhalada, numa selva qualquer, sem assistência religiosa. Sabe que odeio as vacas que não se cansam de me acusar de sobranceria - são amorosas, eu sei, mas não lhes pedi opinião -, e que não simpatizo grandemente com os cavalos dos empregados que fazem manifestações e me deixam as coisas por tratar - sobretudo o puro-sangue que me limpa a piscina e que usa uns calções tão exíguos que lhe deixam a bandarilha toda a notar-se.    

 

Finalmente, meu caro, para me sentir digna de a si me dirigir, cito Voltaire à laia de desculpa:

 

Escrevo-vos uma longa carta, porque não tenho tempo de a escrever breve.

 

Então vá. Olé

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A Gaffe nomeia

rabiscado pela Gaffe, em 20.11.18

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Em breve irá ser lido o meu apelo ao voto no âmbito do jogo que a Magda e o David se propuseram levar a cabo, o Sapos do Ano. Deve ser lido exactamente como merece e incluído no espaço dedicado ao lúdico, a que pertence sem dúvida.

 

É mais do que evidente que a liberdade de escolha, quer dos nomeados, quer dos finalistas, foi total. Não se colocaram fronteiras, não foram erguidos parâmetros ou limites, não se desenharam condições. As escolhas tiverem como base a empatia que um blog causa nos leitores. Os like que desperta nos nossos pequeninos corações.

 

Foi, e é, agradável perceber que causo alguma em alguns.

Fico igualmente agradada pelas companhias que tenho.

 

É evidente que, nestes casos em que um desafio não tem especificidades que o condicionam ou reduzem, os alhos e os bugalhos são sempre subjectivos e altamente díspares. Os que escolhi, podem não figurar na listagem dos eleitos e os eleitos podem não ser os que sigo.

Este facto, não cria atritos. A única regra que se vislumbra neste jogo relaciona-o com a capacidade que cada blog possui de se aproximar dos leitores, seja porque razão for, e são tão copiosas, como dissemelhantes. Creio que é esta uma das características mais importantes do jogo em causa.

 

No entanto, todo este saudável movimento provocou-me algumas inseguranças.

 

Há milhares de blogs. Milhões de palavras dentro deles. Cada um destes compartimentos acredita ser único, exprimindo o que deve ser considerado letra imutável e irrepreensível, provavelmente capaz de alterar ou deslocar as pedras da montanha. Não nos apercebermos sequer que é do Everest que falamos. Opinamos, contamos histórias, escrevemos simulacros de poesia, textos cadavéricos, odes primaveris, luminárias, trovões e víboras, nadas, pequenas quedas, rasgões na paisagem, macambúzios resmungos, emplastros digitais, e tudo o que se quer, porque é possível.

 

O que importa então? O que é realmente um blog importante? O que importa realmente num blog? O que o faz transversal, o que o torna indispensável, necessário ou mesmo urgente?

 

Diz-me um Amigo que é fácil escrevermos sobre as nossas emoções, basta um conhecimento razoável da língua e relativo talento para erguer paredes de frases com os andaimes das palavras bem seguras. O genial é fazer com que as nossas escritas emoções se transformem nas dos outros, sejam as dos outros, se tornem comuns.  

 

Não sei.

 

Li ontem, apesar desta minha medíocre ignorância, Mulheres da minha vida. Li depois Uma história, duas histórias.

 

No fim da cada um destes textos, compreendi que a dimensão dos meus motins estava ali contida. Os escritos tornavam-se traduções de emoções, que não sendo minhas, me pertencem.

 

Acredito piamente que esta é com certeza uma das pouquíssimas razões que tornam um blog essencial, fundamental, imprescindível.  

 

Eu só vou continuar a brincar.

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A Gaffe violadora

rabiscado pela Gaffe, em 16.11.18

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Na Irlanda, pedaço de bela terra que - em simultâneo com a Escócia -, apaixonou a Gaffe irremediavelmente, coexiste ao lado das mulheres uma quantidade assustadora de australopitecus.

 

Alguns deles são mulheres.

 

Em cada pub de esquina, urbana ou nem por isso, bolsar misoginia, machismos tacanhos e preconceitos bolorentos eivados de testosterona, não é de todo raro. Os irlandeses são, ao contrário do que se possa acreditar, genuinamente imbecis e raquíticos no que concerne à mais ténue e diáfana manifestação de feminismos, quaisquer que sejam, sérios ou parvos, sóbrios ou ébrios, reais ou escanifrados, respeitáveis ou desvairados.

 

A sentença que iliba um homem do crime de violação, alegando, entre outras barbaridades, que a vítima estava na altura do sucedido a usar cuecas fio-dental – uma coisa horrível que se mete nos dentes de trás e que incentiva ataques de trogloditas -, não é chocante numa Irlanda repleta de charutos mentais fumados nos grosseiros quintais dos preconceitos medievos. Não é de arrancar cabelos saber que o ronco escrito em letra oficial foi emanado por uma Meritíssima. A Irlanda é, neste aspecto, muito amiga da Relação do Porto e das suas sentenças em casos similares.

 

A Gaffe começa a amortecer a indignação relativamente a estes casos. Sabe - porque lhe disseram, que esta rapariga é de boas famílias e não pisa estrume - que uma pocilga só  medra - ou merda - se os porcos forem alimentados com detritos alimentares, restos, coisas velhas quase podres, tudo mesmo fora do prazo de validade. Parece que depois, isto tudo digerido, dá toucinho, presuntos, rojões e coisas imensamente salgadas que provocam hipertensão e matam imenso.

 

A Gaffe propõe a todas as meninas um desafio.

 

Cada uma de nós vai poder escolher aqui o menino que vai violar, tendo em conta o pacote - de roupa, ou outro qualquer - com que tenta esconder o que nos deixa dementes.

 

A Gaffe exclui da lista o educadinho, pois que já o marcou como seu.

 

Não se preocupem, minhas queridas, estamos a salvo, desde que arguamos que o rapaz, na altura do alegado acontecimento, estava a usar arames nos dentes, que é coisa para nos levar a uma loucura sadomasoquista.

 

 

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A Gaffe e os quatro magníficos

rabiscado pela Gaffe, em 15.11.18

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A Gaffe acredita que deixou de ser necessário repetir o agradecimento aos dois alucinados que se propuseram encetar e levar a cabo um trabalho que os endoidecerá de vez, mais cedo ou mais tarde.

A Gaffe sabe também que o prazer de lhes entregar os parabéns é comum a todos os que assistiram ao desenrolar do processo.

 

É agora, isso sim, necessário continuar a apoiar a iniciativa, votando nos que foram selecionados para a fase final.

 

A Gaffe está ali, nua, desprotegida, na categoria Opinião, ao lado de quatro potentados.

Como toda a gente sabe, é muito bonito - e fica sempre bem -, vestir os nus e abrigar os desvalidos.

 

Então vá.

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