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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe de Bordalo

rabiscado pela Gaffe, em 21.02.19

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Sempre me causou algum desconforto a imagem que Bordalo criou para representar o povo. Ao contrário de toda a restante obra do artista, que me encanta ao ponto de a procurar como uma desalmada, o Zé Povinho - tantas vezes grosseiro, finório, saloiamente esperto, crítico mordaz, bebedolas, bobo ácido e disforme, injustiçado e consciente da lama que sabe escondida nos que seguram o poder -, sempre me causou alguma repulsa. Estou longe de simpatizar com a personagem, embora reconheça que acabou, não apenas uma criação de Bordalo, mas propriedade e símbolo de toda uma colectividade.      

 

Ensina-me um amigo que Bordalo foi buscar Mayeux, o francês corcunda, lúbrico, disforme, de aspecto amacacado, criado em 1829 - outros dirão 1832, por Traviés -, que, também ele, encarnou como criação e encarnação de um povo.

 

Reporta-me este mesmo amigo que Mayeux é um bobo acidental, melancólico, bêbado e chorão que gesticula, grita e perora. É um anão atrevido que Musset descreve na perfeição. Um enfant du siècle cuja fisionomia não pode ser alterada, porque defraudaria o público. Serve de exutório colectivo e assume um papel de projecção a todo o imaginário da Monarquia de Julho. É a caricatura do sublime louco, do palhaço grave, do bobo sério que joga com um aspecto simiesco, relacionando o homem com o animal. É próximo de Quasimodo ou da marioneta de Polichinelo. É a caricatura e é o caricaturista. É ridículo e tem o privilégio de dizer a verdade. É a primeira tomada de palavra colectiva que comenta a actualidade tornando-se polissémico, encarnando a figura do rei ou do povo de Paris. É o herói da palavra popular, o único que exprime a inquietação e a perturbação. É aquele que faz troça e de quem se troça, inaugurando a utilização do clown inglês na cultura francesa.

 

Robert Macaire apaga-o do imaginário francês criando Pera, o seu sucessor. Outros provocarão o seu desaparecimento definitivo, até o vermos transformado em Zé Povinho, já adaptado à paisagem portuguesa.

 

Segreda-me ainda este rapaz amigo que quando no pó remexemos, encontramos desilusões que nos reduzem ao pouco que somos e que compramos numa barraquita de praia que traz areia colada, e mesmo alguma da simbologia que acreditamos que nos identifica é apenas um produto do que já foi de outros.

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A Gaffe todas as manhãs

rabiscado pela Gaffe, em 19.02.19

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Ou então apostemos em ser apenas, ou amadas, ou odiadas. Shakesperianamente sabemos que, da primeira forma, ficaremos no coração de alguém e que, da segunda, ocupar-lhe-emos a cabeça. 

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A Gaffe bordada

rabiscado pela Gaffe, em 14.02.19

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A Gaffe com fotografias

rabiscado pela Gaffe, em 13.02.19

WWII

 

Há algum tempo deparei-me com uma imagem extraordinária captada durante a Segunda Grande Guerra. Guardei-a pela beleza textual, literal, daquilo que via.

No meio dos escombros, um grupo de soldados russos ouve tocar piano.

Estranhei a minha apatia, a minha indiferença, perante a narrativa, perante o símbolo expresso no que via. A imagem não me comoveu, não ergueu paliçadas de alvoroços, nem me impressionou a evidência poética do que era retratado.

Era apenas uma fotografia extraordinária. Esteticamente perfeita.

 

Encontrei há dias uma outra, de Joseph Eid, com o mesmo conceito da primeira.

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Em Alepo, um velho no meio dos escombros de que já ninguém se importa ou fala, ouve música.

Mais uma vez, e apesar de não a perceber tão perfeita como a anterior, considerei-a uma bela imagem. Mais uma vez não me comoveu, nem me fez evadir por caminhos mais ou menos filosóficos, de maior ou menor narrativa emocional.

 

Recordei então o que há muito penso.

Humildemente reconheço que os discursos que ambas as fotos me vão provocando acorrentam a minha pobre opinião às tábuas da tolice, mas socorro-me de Geneviève Serreau para entregar alguma racionalidade àquilo que penso acerca do assunto.

 

A autora, algures num estudo sobre Bertolt Brecht e a propósito de uma fotografia onde nos é mostrado um massacre de comunistas gualtemaltecos, refere que o horror não está no que vemos, mas porque o vemos a partir da nossa própria liberdade.

 

Admito que é complexo este postulado. No entanto, com a ajuda preciosa do pensamento de quem me está próximo e é anos-luz mais racional do que eu, acabo a entender que não basta ao fotógrafo mostrar-nos a abominação para que a sintamos. Até porque – continua – a dor é fotogénica.

 

A linguagem internacional do horror é documentada de modo a que saibamos interpretar os signos. É elaborada de forma hábil - usando contrastes, aproximações ou reconstruções subliminares -, facilitando-nos uma leitura já preparada, que não nos toca grandemente, porque pensou por nós, sentiu por nós, sofreu por nós e de certa modo indignou-se por nós.

Intelectualmente aquiescemos, mas não nos sentimos realmente ligados a estas imagens. Estão isentas de histórias, impedem que as inventemos porque já estão narradas pelo autor.

 

As imagens, dirão, não obedecem a estes pressupostos. Foram acasos. Dizem-nos ser apenas performances a decorrer no espaço visitado - o que só por si daria um tratado relacionado com a banalização do terror e com a distorção, o esmagamento e amálgama de signos distintos. Se tal fosse verdade, acabava-se por impedir o aparecimento de elementos propositadamente contrastantes e contrastados e, sendo em directo, sem reconstruções ou interpretações prováveis, dar-nos-iam, em consequência, a possibilidade de sentirmos.  No entanto, a captação daqueles instantes surge ainda contaminada pelo construído, tornam-se demasiado intencionais, porque estão imbuídas da vontade de se usar uma linguagem incómoda e acabam por nos merecer apenas o tempo de uma leitura instantânea. As fotos não nos desorganizam, porque se reduzem a uma linguagem específica, isentando-nos do verdadeiro confronto com o escândalo.

 

Nas imagens do terror que nos mostram existem signos claros e nítidos, mas sem a ambiguidade, a textura a espessura que deve caracterizar um signo.

 

Parecem estranhas, paradoxalmente calmas, porque estão privadas da nossa explicação privada, usam a linguagem – que já conhecemos, que já falamos, que já entendemos - internacional do horror, e, custe o que custar, por causa disso estão contaminadas pela presença do fotógrafo.  

 

São literais.

 

Introduzem-nos ao escândalo do horror, mas não ao próprio horror - diria Barthes.  

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A Gaffe pragmática

rabiscado pela Gaffe, em 11.02.19

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A vida não é um conto de fadas.

Se perdeste um sapato à meia-noite, estavas bêbada.  

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A Gaffe nocturna

rabiscado pela Gaffe, em 04.02.19

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Recupero hoje uma memória.

Às vezes parece-me envelhecida, longínqua e atenuada pelo enrugar da espiral do tempo. Erro meu, que o amor é ardente e má é a fortuna.

Queria muito que fosse partilhada com o meu queridíssimo Fleuma, porque raros são os homens que me ensinam a chorar.

19-10-2014

 

Quando o meu avô morreu, a Lua chorou um choro baixo. Um fio fino e transparente de lágrimas que durou dois dias e duas noites só findo quando a minha avó lhe entregou a manta de lã que o meu avô usava para cobrir as pernas nas tardes do jardim mais frio.

A Bórgia foi arrastada para a jaula.

Não mais dormiu aos pés da cama. Deixou de entrar em casa, a não ser para farejar a cozinha à espera que alguém se comovesse com o olhar de súplica do monstro e lhe oferecesse a provar, à revelia de todos os conselhos, ordens e recomendações, um naco de carne que a Jacinta tempera com alho, vinho, cidra e ervas aromáticas.

Facilitou durante bastante tempo a entrada das visitas. Se antes se tornava um perigo tê-la solta quando na casa havia gente alheia aos seus domínios, era fácil depois fechar-lhe a porta e gradear o bicho.

 

Quando a Lua adoeceu, a Bórgia acordou prostrada. Chamaram-na e ela não veio.

Fomos esbaforidas e aflitas de encontro às velhas amigas.

 

- Deus nos valha, menina, que a cadela piorou tanto.

 

Bórgia.

A assassina doida que esfacelava móveis e esfarelava as carnes dos incautos, subitamente velha agora nos meus olhos, que velha é há tanto tempo aos olhos dos que a temem, perto da Lua entristecia. Ninguém a conseguiu retirar do lado da amiga.

 

Trouxemos o veterinário.

 

- Que tossiu sangue, Senhor Doutor. Piorou tanto!

 

O homem entrou para observar a Lua adoecida. Saiu depois inútil, desolado. Acompanhava-o a minha avó que em silêncio ouviu o veredicto. A minha querida Jacinta atrás, a tropeçar nas pedras e a amarfanhar com as mãos o avental e a dor.

 

Lua treme, inquieta. Tosse e cospe sangue.

Abre cavernas na minha garganta e faz o fel golfar enchendo tudo.

 

Eu ali de pé, ali cravada, muda, seca, hirta, ressequida?

Abro a porta e entro e de joelhos abraço a cadelinha, a beijo a soluçar.

A Bórgia a ganir muito de mansinho.  

Deixo de saber se é sangue ou se é o meu cabelo que se espalha na manta que foi do meu avô.

 

Lua morreu de manhãzinha.

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Gavetas:

A Gaffe com uma trilogia

rabiscado pela Gaffe, em 03.02.19

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Recebi um dispositivo que contém a playlist de um amigo que teima em fornecer à minha existência surda um travo de embalo capaz de fazer com que os meus espaços respirem com os sons mais harmoniosos que encontrou.

 

A lista inclui variadíssimas formas de me encantar. Blues, R&B, Motown, clássicos dos anos 40/50, Jazz, smooth jazz e outros cambiantes, na sua esmagadora maioria entregues a vozes femininas, algumas inesperadas, como a de Marlene Dietrich.

São cerca de uma centena de canções.

Aparentemente, não existe qualquer linha que as una, a não ser a da preferência do curador. São escolhas aglomeradas sem visível nexo, se lhe retirarmos este factor.

No entanto, conheço as armadinhas subtis que este homem generoso é capaz de montar e percebo que nada se encontra ali de forma aleatória e que um trecho não se encontra isolado do conjunto. Une-se, complementa, contradiz, completa, finaliza ou dá continuidade ao seguinte, narrando uma espécie de história, de histórias, que podem ser descobertas por quem as ouve com redobrada atenção.     

 

Abre o dispositivo com as três melodias que reproduzo aqui. Apenas hoje percebi que, se unidas, constroem uma narrativa de desolação, de desilusão e de tristeza.   

Creio que é a história mais fácil de encontrar. As outras, ainda as estou a ler.  

 

 

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Gavetas:

A Gaffe inoportuna

rabiscado pela Gaffe, em 01.02.19

Num barzinho perto de si.

Ou aqui:

rasurando

 

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Gavetas:

A Gaffe a desenhar

rabiscado pela Gaffe, em 31.01.19

Princesa

Às vezes, sinto nas mãos a rispidez e a rugosidade que fica quando tocamos líquidos corrosivos.

 

Esta impressão existe desde muito cedo. Desde os dias em que me foram retirados os lápis coloridos com que pintava tudo.

Eram lápis de madeira morna.



Tocava-os. Cheirava-os. Mordia-os, às vezes.



As minhas horas deixaram de ser horas de ficar parada a ver surgir na cabeça universos paralelos e surreais porque com as cores e com os meus dedos - e já quase sem as nuvens que toldam as visões do que nunca foi a não ser em nós -, ficava suspensa nos mundos que surgiam já mais visíveis, já mais memorizáveis, nos papéis planetários, nos papéis galácticos que ia encontrando, guardando e defendendo da avidez de limpeza e arrumação da Jacinta.

 

Nunca desenhei bem.

 

Lembro-me do retrato da Bórgia, a cadela assassina, que tinha rabiscado entufada de orgulho. Todos diziam parecer um porco esquizofrénico. Gostava muito dele, mas reconhecia-lhe os defeitos.

 

Nunca desenhei uma princesa!

 

Nunca me foi importante desenhar bem, assim como nunca me foi importante escrever. São-me indiferentes os riscos que vou deixando soltos. É o silêncio em redor das palavras e dos traços que me deslumbra. Uma ausência de som, parecida com a impotência da morte, como se envolvendo o bater do coração de cada grafismo existisse o vácuo, o nulo, o nada, impossibilitados de parar o batimento.    

 

Lentamente, tornava-me de alabastro.

Sem sol, sem jogos, sem risos, sem ruído.    



Foram estes silêncios de desenho que ia construindo cada vez com mais frequência, os responsáveis pela desertificação dos meus planetas.

Com a ameaça de uma mudez e imobilidade incompreendidas, ficou decidido que me seriam arrancadas as naves de madeira com que viajava.

Tornava-se necessária a minha voz depois de detectado o meu silêncio.

 

Sempre desejei ser o que sou. O que faço hoje, o meu trabalho, a minha profissão, é de certa forma prolongar os meus pobres desenhos infantis. O silêncio é o mesmo. Só as telas são diferentes e o traço de um bisturi é sempre mais perfeito por não ter retrocesso.

Às vezes, volto ao retrato da Bórgia, mas retoco-o de modo a ficar mais realista.  



Nunca mais os vi. Os meus lápis. Acordei e já lá não estavam. Nunca perguntei por eles. Nunca soube quem os tinha retirado.

Creio que fiquei muda.

O que escrevo é a minha mudez sem lápis de cor. O que desenho, é uma memória dos meus silêncios pacificos da infância.


Às vezes, sinto as palmas das mãos a ficar secas.

Hoje queria muito desenhar uma princesa.

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Gavetas:

A Gaffe sem lixívia e sem limonada

rabiscado pela Gaffe, em 31.01.19

Sarin

O necessário equilíbrio - pois que nem lixívia, nem limonada -, encontrado com o auxílio da fotografa Erika Zolli que permitiu criar o contraste, o bailado, a ideia que reflectida se descobre, se redescobre, se reconstrói, na oposição racional exposta pelo Outro. O desenho sempre inacabado da geometria do pensamento em que é nítido o cuidado de se olhar de modo igual todos os lados.     

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A Gaffe cardinal

rabiscado pela Gaffe, em 30.01.19

Cardeais

As próximas Jornadas Mundiais da Juventude Católica realizar-se-ão em Portugal, segundo informação que a Gaffe não se importa que não seja fidedigna, porque é cristã.

 

A Gaffe está radiante, pese embora reconheça que esta será a razão usada para disparar a recandidatura de Marcelo à Presidência. Ninguém como ele consegue beijocar a mão do Papa e toda a gente de bem sabe que uma genuflexão é o horror quando mal executada.   

 

A Gaffe adora excentricidades e o Vaticano é uma galáxia no que diz respeito a estes pequenos desvios à rotina sensaborona.

Lamenta, ontem como hoje, que o chefe de Estado amarelo e branco seja uma espécie de pároco bonacheirão, que não se cansa de dizer coisas óptimas de bondosas que a Gaffe diria com facilidade, desde que lhe cedessem o palácio a título vitalício, lhe entregassem uma honra qualquer vagamente renascentista e lhe chamassem Sumo - magríssimo, não aquele japonês de penteado giríssimo, que anda de fio dental todo decorado a empurrar o parceiro de modo um bocadinho teimoso e inútil -, mas admite que as extravagâncias que brotam dos mármores de Carrara - e sabe Deus mais donde - que forram as assoalhadas do Vaticano, são maravilhosas.

 

A Gaffe considera, por exemplo, uma ternura ser uma dúzia e meia de velhinhos a eleger outro velhinho para se alapar no trono de Pedro e usar a tiara papal que - dizem as más línguas -, não faz pendant com o colar e os brincos. A Gaffe julga divinal o velhinho eleito ter competência para repensar as figuras do presépio, escrever encíclicas imensas numa língua defunta, visitar os pobrezinhos sem galochas, emanar coisas em latim dirigidas a milhões de súbditos que as não sabem ler e conseguir ir a casamentos vestido de branco sem afrontar a noiva e quebrar o protocolo.

 

A Gaffe pensa que é um mimo de chic ir de vez em quando à varanda acenar às multidões embevecidas e lamentar tristonho e muito circunspecto aquelas coisas desagradáveis que os mortais sofrem de quando em vez.

 

A Gaffe acha um milagre conseguir fazer desaparecer numa paróquia mais esconsa um companheiro de aventura cardinal que se empolgou em excesso na sacristia, catequisando, com punho hirto e duro como barra de ferro, aquelas coisas mais pequenas que não querem rezar condignamente.     

 

A Gaffe considera obra do Espírito Santo ser-se capaz de governar um banco apenas com esmolas dos tão crentes e transformá-lo sacramente num dos mais poderosos e influentes manipuladores das finanças mundiais – com inclusão das finanças dos mafiosos, dos tios das offshores e de outras ainda mais armadas.   

 

A Gaffe considera um must andar empoleirado numa cabine telefónica com rodas, transparente e à prova de bala, com dezenas de matulões a correr ao lado, para não deixar cair a chamada. 

 

Seja como for, a quantidade de mocetões acalorados - mais este e aquele, o outro e toda a gente … - que vão estar juntinhos nas Jornadas Mundiais da Juventude Católica, augura rezas muito proveitosas, névoas de sacrifícios, despidas penitências e uma ou outra aparição em qualquer gruta mais recôndita.

 

Convém, no entanto, afastar os cardeais das orações, pois que se por perto, uma rapariga corre o risco de ter de fazer jejum.

Há sempre um certo cardinal que só se abstém quando os ventos sopram nas batinas, opas, báculos e mitras, revelando a quantidade de hóstias que foi compilando e papando nas mais escuras capelinhas.

 

Mas em Portugal há sol e quando há sol, há Jornadas, e se há uma Jornada em cada vida, é preciso cantá-la assim despida, pois se Deus nos deu hóstias, foi p’ra as papar, e se um dia se há-de ser pó, cinza e nada, que seja o paraíso uma noitada que se deixa perder para pecar.

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A Gaffe num pregão

rabiscado pela Gaffe, em 29.01.19

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A mulher passa no passeio da Avenida e vejo-a passar de canastra à cabeça. Sem mãos, como eu mais pequena passava na Avenida de bicicleta, também sem mãos no fio do equilíbrio.

Peixeira de coturnos pretos sem pregão, que levas à cabeça a tua sina como se andasses de bicicleta, ensina-me a passar na Avenida com um pedaço de mar à cabeça sobre a alma enrodilhada.

Diz-me como se atravessam as ruas de coturnos pretos nos pés, ruas de canastra sem mãos a oscilar e meia dúzia de ondas cobertas com telas de navios.

Diz-me como entras no meu quarto a gingar a alma de canastra e atravessas os vidros da janela no fio do equilíbrio como se andasses de bicicleta e eu fosse ainda menina.

Diz-me com se passa na Avenida com ondas na cabeça cobertas por um lenço preto por onde passa a bicicleta com rodas de meia dúzia de peixes sem mãos.

Diz-me como se torce o farrapo de navio que equilibra a canastra na tua cabeça e ensina-me a atravessar as ruas como se fosse menina outra vez, porque a minha alma sem mãos é a tua rodilha.

 

Imagem - Fabien Delaube

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A Gaffe em liberdade

rabiscado pela Gaffe, em 29.01.19

(...) e a morte cresce no esvair da origem. 

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A Gaffe (in)sensata

rabiscado pela Gaffe, em 29.01.19

(in)sensato

A insensatez pode ser apenas a opção de quem, sensato, olha o quotidiano com todas as idiossincrasias que tantas vezes o preenchem e enformam. O demo está nos pormenores, nos traços inconstantes das gentes que os habitam e que raspam a cidade, produzindo as paisagens urbanas mais riscadas que existem dentro de cada um de nós.   

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A Gaffe muito básica

rabiscado pela Gaffe, em 26.01.19

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Sejamos práticas, às vezes ter uma pila ajuda imenso.

 

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