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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe num intervalo

rabiscado pela Gaffe, em 13.08.19

by Valentina Fontanella.jpg

Após longos meses de trepidantes e cansativas tontices, a Gaffe escolhe o destino que a acolherá para que, desapoquentados, os seus magníficos seguidores possam, com a tranquilidade necessária, recuperar dos traumas que esta rapariga tem provocado em cada desprevenida alma que incauta escorrega nestas avenidas.

Volta-se já!

Imagem - Valentina Fontanella

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Gavetas:

A Gaffe do combustível

rabiscado pela Gaffe, em 12.08.19

by Abid Mian Lal Mian Syed.jpg

Perante a ameaça de falta de combustível, seria absolutamente genial que alguns portugueses descobrissem que podiam, para além de jerricans, de jerricãs, de bidons e de bidões, encher também a caixa craniana.

Afinal, para que é que servem as narinas?

 

Fotografia - Abid Mian Lal Mian Syed

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A Gaffe cosmonauta

rabiscado pela Gaffe, em 12.08.19

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Portugal, diz Luís de Freitas Branco, é um país de miniaturistas.

Reportava-se o compositor à proliferação de pequeníssimos acontecimentos culturais que grassavam por todo o lado, mas que não se aglutinavam, nem se agigantavam, servindo desta forma os interesses daqueles que considerava limitados e incapazes de projectar um país a longo prazo.

Ao mesmo tempo, o compositor lamentava a miserável falta de reconhecimento dos homens e dos factos que poderiam, se elevados, alterar esta raquítica forma de arquitectar um país usando-se apenas as folhas de um bloco de apontamentos muito pouco definido e demasiado parco em espaço.

 

A verdade é que Luís de Freitas Branco não nos fornece pistas, não nos indica nomes, nem nos entrega acontecimentos capazes de edificar no país uma ambição de gigante.

Maroto.

 

Há, contudo, pelo menos um facto, relativamente recente, que contraria este dito acutilante, não urgindo recorrer a ilustres navegadores de antanho.

 

Fomos capazes de projectar na História a visita do primeiro cosmonauta a Ourém.

 

O sapientíssimo padre Gonçalo Portocarrero de Almada, num extraordinário artigo, para além de lamentar não ser possível considerarmos a ascenção de Cristo - acontecimento, que os apóstolos observaram atentamente, o que dá a este facto consistência científica e sendo comprovada a evidência do ocorrido por uma quantidade significativa de anjos – a primeira viagem espacial, dado que Cristo é o próprio Criador, com o Pai e o Espírito Santo, informa-nos que, mesmo sem foguetão, a primeira criatura humana a viajar pelo espaço foi, nada menos, nada mais, que Nossa Senhora.

 

Pese embora o esforço de Pio XII que decidiu o que aconteceu – e que ninguém pie -, nem o magistério pontifício, nem as visões dos místicos, nem os ensinamentos dos teólogos lograram explicar como ocorreu o transporte de Nossa Senhora, na sua assunção ao Céu, que também ninguém observou. No entanto, esta questão parece ter sido esclarecida nas aparições em Fátima.

Como se reconhece, Fátima é o Altar do Mundo e uma das pistas de aterragem da nave da ilustríssima cosmonauta.

 

Foram portugueses os que forneceram estes dados ao planeta e deles deram notícia global.

 

Após interessantíssimas considerações, o Padre Gonçalo Portocarrera de Almada termina a sua admirável tese, comprovando que, pelo dito, Maria não foi uma mera espectadora da História, mas uma protagonista e precursora de uma das maiores proezas da humanidade.

E finalmente:

Os santos não são os que, por amor a Deus, se desinteressam do mundo, mas os que, com a sua bem-aventurada vida, mais e melhor contribuem, também em termos científicos e tecnológicos, para a evolução do género humano: os principais obreiros das verdadeiras revoluções civilizacionais.

 

Foram os portugueses que acolheram esta verdadeira revolução civilizacional e dela deram notícia, espalhando ciência pura pelo mundo.

 

Luís de Freitas Branco, pega e embrulha. Vais precisar de muito papel que isto não é, de todo, coisa pequena.  

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A Gaffe no último tango

rabiscado pela Gaffe, em 09.08.19

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Quando se abrirem os currais do tango, espera pelo ganir da concertina. Não deixes de prender os olhos no brilho desta sombra. Se o fizeres e se fechares o olhar, apunhalo-te e mancharás de sangue o teu peitilho branco.

Fica-te bem o smoking deste tango.

 

Homem agora preso a mim, a começar.

Crava-me os dedos nos rins e aperta a palma da minha mão estendida. A tua boca a roçar a minha. O teu arfar enclausurado nos meus lábios. Escaldam os meus lábios. A minha perna abrasa por entre as tuas, abertas, a suportar doridas o inclinar do tronco que o teu curva. Podes lamber a gota de suor que desce no meu queixo e esperar a agonia do sussurro que perto de ti, no pavilhão da orelha, no pavilhão da casa, vou espetando no corpo dos violinos.

 

Este tango tem a história de um homem e de uma espera. Amou a amante morta num tempo que é já morto, marcado nas paredes com navalhas e no espaço que durava o amor, não respirou. Dançou sozinho um tango desgraçado.

 

Afasta a tua perna. Empurra os flancos contra a minha carne de modo a que eu te sinta. Rodopia seguro pelas garras que cravo nos teus ombros até sentires a dor que vem de mim, como o gemer do tango, a doer, por entre as tábuas.

 

Queria ser amado, o homem desse tango. Amado como amou num tempo morto em que sem respirar amou amando a amante que morreu e que não vinha dançar nas concertinas das paredes.

 

Faz-me gemer erguendo-me nos braços. Faz-me rodar presa na boca. Escolhe uma palavra que traga o escarlate do obsceno e prende-ma nos olhos e sorri de dor quando esmagar o peito contra o teu nas voltas que tu sabes controlar.

 

Quando beijou outra mulher tinha passado o tempo do homem desse tango que não danço.

 

Não morras já. Há mais suor em mim para te encharcar os braços e tenho mais saliva a arder e dentes para cerrar. Abre a boca, respira compassado. Há mais para dançar dentro de mim.

 

Quando beijou outra mulher, o homem que não dança, quis que ela fosse o amor que tinha à espera. Marcou-lhe o mesmo tempo. O tempo em que ela tinha de gravar um tempo nas paredes com navalhas impolutas como as dele. O mesmo tempo em que ele amou a morta até beijar aquele novo tango.

Se ela dançasse da mesma forma o mesmo tango mudo!

Se ela na espera erguesse esse silêncio entre o latir dos tacões nas tábuas do soalho e o chiar das cordas do violino!

 

Aperta-me. Faz-me doer. Esmaga-me no espaço em que o contrabaixo morde a minha saia e a minha perna que serpenteia a tua. Não morras já. Espera só que eu vire a minha cabeça para dentro do teu corpo. Há mais na tua mão colada à minha palma e nos meus rins vergados pelo teu braço.

 

A outra não o amou como ele queria e no tempo que ele tinha para lhe dar de espera, tangos diferentes cortaram-lhe o espaço e dentro desses tangos ela dançou com outros.

 

O prazo terminou. O tempo acaba. Podes morrer agora nos meus braços.

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Gavetas:

A Gaffe repetitiva

rabiscado pela Gaffe, em 09.08.19

.I.

A Gaffe, a propósito desta cirúrgica Carta Aberta, recorda, com o distanciamento que sempre foi necessário neste caso, o extraordinário registo com que a destinatária da Sarin a mimoseou outrora.

 

A mais sinistra das águas é aquela onde sob a superfície parada e cristalina, se esconde a insalubridade.       

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A Gaffe num esquiço

rabiscado pela Gaffe, em 07.08.19

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Pedi-lhe uma só vez:

- Um dia, descreves-me?

- Às vezes sento-me nas margens do rio, no lugar onde ele estreita como um pesponto de prata numa túnica verde. Sirvo-te vinho doirado. Tu és o reflexo d’oiro que morde os meus dedos.

 

(... e depois - e ainda por cima - usa barba! ...)

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Gavetas:

A Gaffe e a teoria relativa

rabiscado pela Gaffe, em 07.08.19

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Quando os homens se recusam a olhar, a hora das hienas é mais longa.

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A Gaffe trémula

rabiscado pela Gaffe, em 07.08.19

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O dia começa acinzentado, quebradiço.

Abro a varanda e deixo que um trémulo frio breve entre e se abrigue.

 

Gosto de todos os sentidos abertos pelo arrepio da manhã na pele, mas sou caseira Caeiro incapaz de segurar as sensações que sinto, porque todas surgem como a tremer de frio na varanda aberta sobre um dia cinza e combalido.

 

Hoje vou sentir-me, só depois do tempo.

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Gavetas:

A Gaffe platinada

rabiscado pela Gaffe, em 06.08.19

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No passado dia 01 de Junho Marilyn faria 93 anos.

Morreu a 5 de Agosto de 1962.

Demorei imenso tempo à procura de uma imagem fulgurante desta inacreditável e quase impossível mulher, mas todas, sem qualquer excepção, me deixaram deslumbrada.

É impraticável escolher uma única fotografia de Monroe, porque todas elas irradiam o magnetismo dos deuses.  

 

Do que dela disseram, escolhi a opinião de outro deslumbre no feminino.

Acabei por me render à evidência. Há muito pouca coisa mais saborosa do que um elogio de uma rival.

She sure registered on that screen. The minute the camera turned on her she became this incredible creature, and she was absolutely dazzling. She was-there’s no question about that. During our scenes she’d look at my forehead instead of my eyes. At the end of a take, she’d look to her coach for approval. If the headshake was no, she’d insist on another take. A scene often went to fifteen or more takes. Despite this I couldn’t dislike Marilyn. She had no meanness in her - no bitchery. She just had to concentrate on herself and the people who were there only for her… Fifty years on, we’re still watching her movies and talking about her. That’s not a dumb woman - trust me. - Lauren Bacall

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A Gaffe repórter

rabiscado pela Gaffe, em 06.08.19

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Pouco tempo depois de Abril de 74 – contava o meu avô, que se divertia sempre que o fazia -, uma jornalista toldada pelas renovadas atmosferas, trepava às montanhas e aos penhascos para mostrar ao país a miséria em que o povo se encontrava. Entusiasmada, eufórica, nervosa, revelava o estado de total analfabetismo que se instalara, durante o tempo das trevas, nos montes e nas serras dos degredos. Uma torrente de escandaloso choque. Na breve entrevista que fez a uma velhíssima senhora de lenço preto a amarrar-lhe as rugas, repetiu afoita as sacramentais perguntas.

Sabe o que é o fascismo? Sabe o que é a Assembleia da República? Sabe o que é um deputado da Nação?    

A senhora não sabia.

Sorria mateira e a meio do difícil questionário, decidiu que era altura de calar a trepidante repórter.

- E a menina, sabe o que é um almude?

 

Cerca de quarenta anos depois - mais coisa, menos coisa, que não sou rigorosa -, a notícia chega nos solavancos fonéticos, nos disparos silábicos de uma histriónica jornalista que ameaça saltar dali e nos pregar dois estalos se não lhe prestamos a devida atenção:

Cerca de vinte crianças foram atendidas nas urgências da Unidade de Saúde com sintomas suspeitos de intoxicação.
A peça corre mostrando a nauseabunda porta da Urgência carcomida onde se amontoam uma dúzia de senhoras desgrenhadas e outros tantos cavalheiros de sorriso alarve e telemóvel em punho.


- As raparigas sentiro uma comichice e depois ficaro com impalas no corpo. (Aluno da Escola atingida).
- Eu tenho três piquenos e ambos os três ficaro comichosos e com falta de ar. (Encarregado de educação).
- Não é nada grave! As crianças chegaram aqui mortas por se ir embora. (Chefe dos serviços de urgência).
- Eu acho que foi porque metem muito alho no comer da cantina. (Encarregada de educação).


Na estação concorrente dá-se novas do incêndio numa fábrica de produtos químicos, que, à semelhança de todos os outros, é dramático e desolador.

O repórter, de microfone em punho e olhar de fanático possuído pelos demónios da adrenalina ou já toldado pelos vapores tóxicos libertados, teima em recolher os depoimentos da população:
- Só se ouvia pum, pum, pum, pum, pum, pum... ... – insiste um senhor de olhar distante e dentes podres.
O jornalista esperava um pum maior ou então que se esgotasse a cadeia dos pequenos.
- Como é que ficou a saber do incêndio? – resolve perguntar à senhora de óculos bifocais e gengivas sem dentes.
- A minha filha telefonou a dizer-me – esclareceu a mulher de olhos fixos na câmara.
- E o que foi que lhe disse a sua filha? - Insiste o repórter, nervoso e expectante.

- MÃE, ANDA CÁ DEPRESSA QU’A FÁBRICA ESTÁ A ARDER!  – brada, monocórdica, a senhora de gengivas rosa e óculos bifocais.

 

O manquejar jornalístico tem, como se lê, tradições que vão perdurando.

O analfabetismo - em todos os seus versículos - também, mas tal se tornará uma outra história.

 

Lembrei-me destes pícaros episódios quando, há cerca de dois dias, cinco canais de televisão acompanhavam em directo um autocarro que transportava jogadores de futebol do hotel para o estádio - e com recurso a drones, não se vá perder o topo do veículo.

Sendo que, agudizando a gravidade do ocorrido, me dizem todos – sobretudo os que o perderam -, o jogo não era significativo, valendo um pechisbeque nas agendas apopléticas dos campeonatos, a transmissão torna-se então a indigência bacoca do jornalismo televiso em todo o seu esplendor.

 

Dir-se-ia de interesse público acompanhar o Sporting no seu trajecto rumo a uma humilhante derrota – Deuses! Os rapagões foram cilindrados por cindo golos! Mesmo para uma leiga como eu, digam o que quiserem, esta quantidade de desastres sofridos num só joguito é sinal evidente e confrangedor de mediocridade. Numa inversão da clássica arena romana, os leões são trucidados e comidos pelos gladiadores.

Dir-se-ia que tem repercussões nacionais observar a saída dos jogadores do Benfica do autocarro do amor, pé ante pé, olhares de soslaio à conta das divas, sobrancelhas cuidadas e depiladas as pernas, não vá o país perder as gravatas timbradas e os passarinhos de raminhos de louro nos biquinhos, ou o chispar charmoso das primeiras entrevistas do Sporting que nos informam que este vai ser um jogo difícil, a equipa adversária é boa, mas vamos lutar pela vitória.    

 

Podemos dizer o que quer que seja, que tudo se consegue mergulhar na plácida superfície da penúria analfabeta - e desonesta - que perdura há várias décadas no jornalismo - português em particular, pois que é dele que se fala.  

 

É evidente que se pode recusar este pindérico - e perigoso - modo de se mostrar o mundo. É evidente que existem abertos outros canais de informação absolutamente dignos.

 

Mas sejamos honestas, minhas queridas, sem esta espécie de estupro televisivo e telegénico, não conseguiríamos avaliar condignamente a envergadura e a potência anímica de atletas como o da imagem – não interessa nada saber quem é, a quem pertence, ou se equipa é unida e vai lutar pela vitória, pois que já sabemos de antemão que sim -, nem seríamos capazes de prometer uma sacrificada ida a Fátima, de rastos, se os rapazes cumprirem dentro do campo o que repetem até à eternidade aos microfones, mesmo não sabendo o que é um almude, ou desconhecendo se o comer quer alho.

 

Curioso! Nunca mais ouvi Mariza! O que será feito do fado?    

 

Na fotografia - Ruben Loftus-Cheek do Chelsea

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A Gaffe a caminho dos noventa

rabiscado pela Gaffe, em 05.08.19

Reflexão de uma futura cinquentona após desafio da imsilva.

A Gaffe a caminho dos 90

Há imensas maneiras de uma mulher ultrapassar os cinquenta e chegar aos noventa exactamente comme il faut, ou seja, como a extraordinária Senhora que se diverte aqui.  

 

A Gaffe, embora tenha escolhido a forma mais ácida de o fazer, descontrolando a vida e esfacelando os nervos aos incautos que ainda a conseguem tratar com desvelo e sem receio de se verem trucidados pelo seu mau humor, sabe que pelo menos duas delas são divertidas: a mediterrânica e a nórdica.

 

A primeira faz de nós pragmáticas cinquentonas espertas, vestidas com inenarráveis peças coloridas encontradas nos mais díspares bazares do Norte de África por onde viajamos à procura de calor e de aventuras absolutamente indignas de uma senhora madura.

- Usamos e abusamos da nossa condição de futuro fóssil vivo para usarmos tudo o que à nossa volta reluz, é confortável, caro e sobretudo dos outros.

- Jamais fingimos que somos simpáticas e amorosas apenas para que não nos risquem o carro, porque o carro que usamos é o do hotel, ou o do cavalheiro que se esqueceu das chaves na mesa onde tomou connosco o chá das cinco.

- Nunca ouvimos os conselhos que nos dão, porque sabemos que não passam de confissões encapotadas. Repletas de confidências parvas estão as nossas Memórias que prometemos escrever, jamais tendo intenção de as começar.

- Deixamos de temer os violadores, porque sabemos que depois dos cinquenta, se houver uma vaga tentativa, muito provavelmente é o paspalho que deixa de saber onde perdeu a pila, ou quem foi que lha arrancou. 

- Esquecemo-nos sempre que a porta do balneário masculino não é a mesma que dá para a capela e não é com a mesma devoção que nos benzemos quando naqueles banhos entramos sem bater.

- Já lemos quase tudo o que valia a pena ler e agora agarramos com unhas e alguns dentes postiços as obras de Margarida Rebelo Pinto para termos a certeza que, apesar de tudo, há gente muitíssimo mais parva do que nós.

- Recusamos o convite do primeiro aniversário do sobrinho-neto, porque receamos encontrar o seu avô, por quem já ardemos nas areias de um Verão passado, e que acabou por nos mostrar que tinha um pavio curto. 

- Não morremos. Abandonamos o Hotel sem pagar a conta.

 

O envelhecer nórdico é ligeiramente diferente. O calor vai aumentando com a idade, percorrendo um caminho inverso ao esperado.

- Aparecemos, fleumáticas, de biquíni exíguo em Saint-Tropez - único lugar em condições de que nos lembramos -, ameaçando a vitalidade do turismo com um topless onde a gravidade fez das suas e que nos confirma que a idade nos impede de fazer sexo numa posição que implique ficarmos num ângulo superior ao do homem, porque arriscamos que ele nos veja tudo a desabar.

- Não nos preocupamos com o facto de ninguém nos entender, porque recusamos entender quem quer que seja.

- Consideramos que o nosso Chihuahua imbecil é bem mais capaz de encriptar o seu desejo de se enroscar numa doberman do que o Marcelo a sua ambição de se recandidatar.

- Comemos tudo o que nos vier à mão, desde que a mão que nos traz o prato seja a de um culturista, porque os nosso olhos já não são o que eram e é preciso que nos ampliem as coisas e porque já preferimos que nos avivem a memória de um modo convincente e insuflado. Uma coisa em grande, porque pode não haver amanhã.

- Odiamos os radicais, sobretudo os livres, e bebemos toda a espécie de mistelas detox desde que venham misturadas com gin tónico ou vodka num copo decorado com um raminho muito ecológico de cannabis.

- Tornamo-nos fiéis a um perfume e infiéis ao Regimento de Infantaria n.º 9 a quem prometemos a exclusividade das nossas noites mais ardentes, mas que trocamos pela corporação de bombeiros de Setúbal muitíssimo mais habituada a lidar com fogos, mesmo os das lamparinas em que nos tornaremos dentro em breve.

- Continuamos a usar as mesmas bugigangas que se baloiçaram em Woodstock, mas com o ar vintage que lhes deu o uso e abuso das suas propriedades.

- Não morremos. Abandonamos o Hotel a reclamar do serviço de quartos.

 

Os cinquenta anos da Gaffe encontrarão esta rapariga de cabelo cor de ferrugem - que deixou de ser ruivo para acompanhar o tempo -, talvez mais rezingona e capaz de destruir a paciência aos santos e a vontade de reincidir nas amostras de carinho aos recepcionistas, bagageiros, motoristas, copeiros, jardineiros e paquetes, mas com a irresistível mistura de mediterrâneo e nórdico capaz de esmagar qualquer arrojo, afronta e sombra daquelas que no Hotel das nossas vidas conhecerão apenas o porteiro.

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A Gaffe longínqua

rabiscado pela Gaffe, em 05.08.19

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Talvez os lugares não mudem. Talvez mude apenas a forma como os esquecemos. 

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Sei que me alterei.

Já não é Saudade o que Paris me entrega. É outro som parecido. Uma outra voz que chega das ruas e vielas, das pontes, das esquinas e das casas, dos muros, dos cantos e ruelas, das arcadas.

Uma outra voz a percorrer-me a alma a dizer que me alterei, que não sou mais a rapariguinha que noutra voz ouvia a alma toda de Paris e que a desfez de encontro à luz que vinha nas tardes em que o som era só seu.
Paris já não terá a voz que vinha e eu não terei a mesma luz que ouvia.

 

Olho agora Paris como a mulher que descobre que o lugar imenso nos olhos da criança não passa de uma pequena esfera de poeira.

 

A memória é agora um lamento prolongado e manso, um suave entardecer inócuo, a manta na cadeira do café, uma tristeza que passa como se tivesse um corpo esmaecido e atravessasse a rua devagar, para o outro lado.

Paris, a que perdi, guardada no meu peito, esmoreceu na perda. Não distingo os traços dessa dor, já não a reconheço e trago um alfinete a picotar-me a alma por ter abandonado o espanto que foi sentir-me longe.

 

Sei que Paris é mais pequena agora do que dantes e que eu cresci no espaço desta míngua.

E no entanto, Paris paciente espera por mim, para me mostrar, mal chegada, a melancólica procissão de outra saudade composta só por mim, porque é de mim que a tenho, que a dor maior não se partilha e o andor que levo não tem peso ou tem o peso que os meus ombros dizem.

Sou menina despida que passa nua pelas avenidas sem ter o rapazinho que anuncia a ausência das capas de veludo.

 

Paris? Paris envelheceu à espera das vadias.

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A Gaffe da infusão matinal

rabiscado pela Gaffe, em 05.08.19

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- Hoje o chá sabe a xixi de hamster.

- Como é que sabe?! Seja como for, chá não quero.

- A sôtora não olhe para mim que eu só agora é que entrei ó serviço.

 

 A manhã promete.

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Gavetas:

A Gaffe e um conforto

rabiscado pela Gaffe, em 03.08.19

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Às vezes penso no que será o conforto aquecido por um travo antigo preso no elástico lasso de um velho moleskine onde se riscam pedaços curtos de nada, porque há cadernos onde o nada é quase toda a vida.

 

Não encontro este conforto separado de uma maturidade ganha com a força dos punhos e da consciência da simplicidade e da segurança de uma cor de nevoeiro, unidas a texturas macias de fazendas de lã que forram as almas.

 

Há gente que nos povoa a ambição de termos um lugar de abrigo, um santuário quase medievo, onde podemos desfolhar as páginas de um velho moleskine e percebermos que é nosso, inteiramente nosso, os riscos lá traçados.

 

Rara esta gente. Geralmente imperceptível, porque simples. Traz no rosto a invisibilidade daquilo que é, só para nós, o essencial.

 

Imagem - Joe Coffey

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A Gaffe elementar

rabiscado pela Gaffe, em 02.08.19

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Ocultamo-nos como conseguimos no meio das chamas. O desequilíbrio faz-nos tombar sobre a lâmina e o interior do lume corrói as pedras que amontoamos em castelos de cartas.

Todo o abismo deve ser atravessado com um salto apenas. Não há lugar para dois passos pequenos, mas existe a lâmina, a falha das sandálias de Mercúrio ou o calcanhar do herói que ninguém é.

Protegemo-nos, ou com o corpo, erguendo dele e nele a fortaleza que suplicamos no interior de nós que seja inabalável, ou escudamo-nos com o Pensamento erguido pelos Sábios, construindo nele o pensamento nosso, como se nele e dele houvesse salvação.

Podemos encontrar o poço mais fresco do deserto e mesmo assim a sua água não nos matar a sede.

 

Mas quando um peixe se move, turvam-se as águas. Quando um pássaro voa, uma pena. A erva cresce e não damos por isso. Colhemos flores e as nossas mãos ficam perfumadas.

Mas basta a nossa mão de terra em concha recolhendo a água para que a lua nos tombe nos dedos.

 

Porque somos a água, o ar e a terra sobre o fio de uma espada.

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