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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe num mergulho

rabiscado pela Gaffe, em 19.06.19

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Todas as viagens são pequenas colisões com universos distintos do nosso e todas nos provocam o embate com o Outro, o mergulho no Outro.

Olhamos e somos olhados e é nesta simbiose que se adquire a capacidade de operar ou favorecer o crescimento positivo do que somos.

Olhar o Outro e deixar que o Outro nos olhe, consubstancia o âmago da harmonia mais simples e a simplicidade é factor essencial para a evolução sustentada e sustentável dos nossos mais interiores e mais íntimos edifícios.

 

Se estas visões, estas trocas externas e internas de olhares, estes mergulhos bilaterais, se fizerem a partir de uma partilha consensual de uma viagem, o resultado torna-se perene, porque deixa paisagens em retinas díspares abalroadas pela mais pacífica das cumplicidades.

 

Posto isto, meninos, façam-nos um favor: Não usem lentes baças quando nos abraçarem nos lugares tocados pelos olhos dos nossos corações.

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A Gaffe na montanha-russa

rabiscado pela Gaffe, em 19.06.19

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Esvoaçam folhas e pauzinhos. Rodopiam esbaforidas as sebes pelo ar. Abrem-se vendavais no pátio levantando pedras. Correm e voam esgrouviados pássaros depenados e histéricos. Os cães ao longe uivam doridos adivinhando perigo e as portas batem assoladas. Desarranjam-se as simetrias do jardim e as águas turvam-se confusas ensandecendo os peixes que se afogam. Enlouquecem as nuvens, remoinhos, tufões e corrupios, roda-viva, ciclones e tornados e torvelinhos de montanha-russa.

Atira a multidão de caracóis para trás. Sopra naquele que teima em resistir. Perfume a vaguear pelos espaços. Bâton esboroado. Dior esfarrapado. Carteira pelo ar. Pernas trancadas por tacões agulha e olhos cobertos por negros óculos, verdes, negros.

 

- Quero álcool! Quero beber qualquer coisa que mate!

 

Inclina-se e desaba no sofá. Pé nu, sapato projectado no corredor imenso.

 

- Perdi-me outra vez. Apanhei com um camionista a buzinar atrás de mim, como se eu fosse gorda! Demorei quatro horas a chegar aqui aos solavancos! Parei numa tasca para perguntar onde porcaria estava eu e fui quase violada por um homem de bigode! Não fiz xixi porque tive medo de ser atacada por esquilos ou desaparecer num buraco qualquer no meio das ervas! Há árvores por todo o lado! Não há semáforos nem sinalética! As couves batem no tejadilho do carro e aquelas coisas das hortas estão vivas! Fui perseguida por uma galinha aos urros e acabei de calcar bosta de vaca!

- São hortênsias.

- Quem?

- As couves que bateram no carro, são hortênsias. Abriste o portão, calcaste piso enlameado, e entraste por onde não devem, nem podem passar carros. A galinha que te urrou provavelmente foi um ganso. São agressivos e muito territoriais. As coisas das hortas são buchos e não há vacas no meio do jardim.

- Não via aquela galinha há muito tempo. Pensei que podia ter crescido.  E os solavancos, mademoiselle Holmes?! Tive medo de cegar sempre que as mamas me batiam nos olhos quando apanhava poços de ar.

- Não devias ter entrado pelo portão lateral. Sabes tão bem como eu que está vedado aos carros.

- Meu amor, a tua irmã é uma homicida. Teve um surto psicótico quando decidiu bloquear o caminho mais curto para entrar neste mausoléu. Foram quatro horas! Quatro horas até conseguir ver casas ao longe! O Douro aumentou?! Se aqui chegasse e fosse obrigada a andar às voltas mais um minuto, só porque a tua mana acha que sim, que é mais lindo e, ai, que bem que fica, juro-te que não encontravam ninguém vivo. Desesperada, sou como o tarado da Coreia, mas em alto. Engordo ou mato.   

- Oh, tens de admitir que é mais lógica esta organização do espaço. É fácil e habituamo-nos depressa.

-  Também é mais lógico ser sempre eu encarregada pela tua maninha de te arrancar daqui. Jurei-lhe que conseguia, mas descansa. É fácil mandar a tua irmã à merda. Habituamo-nos depressa. Por mim podes apodrecer enfiada no meio do mato.  

 

Se nos sentarmos muito quietos, se tivermos um copo com água por perto, se mantivermos a tranquilidade, a calma e uma atitude bucólica, romântica, cor-de-rosa, repleta de unicórnios e laços de cetim, conseguimos ser absorvidos pela maravilha da descoberta desta mulher estupenda. Nada, rigorosamente nada, é tão genuíno, tão real, tão isento de farsa, tão pouco fantasioso ou disfarçado, como esta histriónica criatura extraordinária. É fascinante olhar o seu poderoso egoísmo, as suas inabaláveis certezas, o seu ego desmesurado e a sua capacidade de embalar estes terrores no maior encanto e sedução que nos deixam rendidos e que nos fazem aceitar o temporal, como se a tempestade ocorresse apenas no copo com água que temos por perto.      

  

- Tragam-me álcool ou cravo o tacão que me resta no meio das vossas pernas.

 

A minha prima chegou, desta vez até muito pacífica, ao meu pobre Douro.

 

Fotografia - Kurt Hutton

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Gavetas:

A Gaffe das papoilas

rabiscado pela Gaffe, em 18.06.19

 

 

Gosto dos instantes em que há papoilas desgrenhadas pelo vento do voo dos insectos e das pequenas gotas de chuva, brevíssimas, que se desprendem dos caules e vão pousar na terra, lentamente, como se houvesse tempo para tudo.  

 

Imagem - Edward Julius Detmold

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Gavetas:

Redacção da semana: As beatas

rabiscado pela Gaffe, em 18.06.19

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Hoje vou falar daquela lei que não deixa atirar beatas para o chão e que deu muita eczeuma que é uma comichão que a gente tem quando apanha carraptos no mato e pega aos outros. A lei foi escrita por uns senhores do parlamento familiar que defendem os animais nossos amigos e que dizem que a gente deve usar coisas naturais para evitar ter filhos que é uma coisa que até se ensina no parlamento familiar não desfazendo. Os senhores chamam-se PAN que significa em pequenino Partido dos Animais Nossos Amigos. Falta um A no fim mas ninguém liga e quem sou eu para os avisar. Ora a lei que não deixa atirar beatas ao chão foi uma alegria para a minha avó que acha muito bem porque como o mundo anda quem é que as levantava depois. A minha avó até se ajoelhou a dar graças a Deus e prometeu ir a Fátima a pé mas de rastos. Assim como assim já ninguém a vai atirar ao chão que ela já lá está mas cada uma é como é e ninguém tem nada com isso. Aquilo ficou em águas de bacalhau todas entupidas porque a minha avó ouviu na rádio o senho Bispo de Fátima a berrar contra a lei que parece que tira muito movimento no dia 13 de Maio na Cova da Iria ali para os lados de Ourém. Uma pessoa nem sabe para que lado se há-de virar. Se é bem feito as pessoas não atirarem as beatas ao chão que hoje em dia ninguém as levanta também não é bonito deixar de dar esmolas aos santinhos que viram o sol andar às voltas para lá e para cá mas em bom e não como o meu primo Zeca que a gente nem sabe o que ele vê às voltas quando o mal do alcoolista o apanha à Sexta-feira à noite que é o dia dos santos populares que cheiram a sardinha assada mas a gente nem nota porque já está habituada à minha prima Idalina quando vem da ginástica e em que anda à roda o demónio na discoteca onde saiu um disco novo da dona Mandona que isto é como a gente sabe quando uma pessoa vai para velha fica a sofrer da coluna. Quem não achou piadinha nenhuma à lei das beatas foi a minha prima que se pôs a berrar que deviam mas era andar a apanhar o lixo que há nos montes e nas bermas das estradas que dão incêndios e picam o cu quando a minha prima está no escritório dela a trabalhar. É que ela diz que nem pode com a caruma dos pinheiros e dos calipos enfiada nos dentes de trás. Eu a bem dizer sou como a Fátima Campos Ferreira não sou nem contra nem a prós das beatas no chão. Acho bem pois que acho. Uma beata também tem direito à vida como os animais nossos amigos mas ao mesmo tempo era bem feito para as putas das velhas aprenderem a não se meterem à frente nas bichas dos hinpermercados ou nas bichas para comer as hóstias que elas apanham sempre as que estão primeiro e a gente mais pequena fica com as que colam no céu da boca e passa o resto da missa a meter lá a língua para ver se sai mas aquilo não descola que não é como as beatas que um empurrão e tumba a gente livra-se delas. Agora não se pode que pagamos multa. É isso é andar a pescar pessoas no mar lá para os lados de Itália. Aquilo é proibido e quem atira nem que seja um balde a ver se apanha uma ou duas pessoas a boiar vai preso que isto não é o tempo de antigamente que tinha o senhor Sousa Mendes muito boa pessoa não desfazendo que também andava a pescar pessoas onde não devia e a brincar a brincar ficou na miséria que até foi menos mal que nem foi preso nem nada que aquilo era uma boa vai ela. Agora pia fino e a gente tem de respeitar as cotas da europa na pesca. Agora vou colar ali em cima uma fotografia da minha família no feriado do 10 de Junho para vocês verem que a gente é muito assim pró moderno. Andamos todos à procura de beatas mas não havia que estavam todas a tirar selfes com a dona Assunção Cristas. Assim como assim e já que lá estávamos apanhamos umas coisas da colecção do Bernardo que vieram a boiar da garagem da Madeira.  

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A Gaffe dos desobedientes

rabiscado pela Gaffe, em 17.06.19

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Penso tantas vezes que se torna secundária, mesmo inútil, a imagem de correcção política, de aprumo vincado, de sensatez moderada e isenta de qualquer percalço mais ousado, de rigidez polida e conveniente ou de eventual perfeição consensual que tenta induzir uma desejada aceitação social, primeiro degrau para uma ascensão planeada.

 

Aqueles que são a imagem estereotipada do jovem adulto urbano, integrado, sociável e sociabilizado, detentores de títulos académicos pomposos, colaboradores empenhados de multinacionais, ou nomeados pelos governos como especialistas, possuem, geralmente, uma reputação acima das suas possibilidades morais.

 

Mas obedecem.

 

Obedecer não é erro imediato. Só se torna condenável quando a gravata Cerruti, normativa, aperta e asfixia muito mais do que o colarinho da escolha Lagerfeld - vamos manter dúbia esta pequena frase.

 

A conquista de uma liberdade capaz de se demarcar do jogo que acaba na uniformização e no massificar dos indivíduos, é lenta e, como o ballet, exige que se comece cedo.

 

A prova de que foi solidificada surge, de vez em quando, numa das mais vulgares ruas das cidades, usada por homens que - ao contrário dos que parecem governar as multidões -, jamais conseguirão perder o tempo, porque exibem esta liberdade carismática ao lado da cicatriz que fica da conquista.

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A Gaffe no jardim

rabiscado pela Gaffe, em 14.06.19

 

jardim

E na voragem endoidecida do aroma das tílias, na fome dos fetos e das heras, nas rajadas dos teixos que fazem pender as sombras sobre os lagos, abdicam das cores as hortênsias como no fim de um baile uma orquestra se despe e nua de sons expira sozinha.  

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Gavetas:

A Gaffe abre a época de caça

rabiscado pela Gaffe, em 14.06.19

 

Está a chegar o Verão, meus rapazes, e com ele os sensualíssimos desportos náuticos e, para nós, a abertura oficial da época de caça.

Sejam uns queridos e não usem aquelas coisas larguíssimas, coloridas, floridas, riscadas e repletas de logos, com cordelinho de algodão na cinta e quase a tocar nos tornozelos.

 

Transformem-se nos homens que queremos como bússola. Desgrenhados e barbudos, de blusões de malha azul a ofuscar o mar, sonhadores e solitariamente mentirosos. Sejam flaneurs aquáticos de calções justos no início das coxas e troquem a prancha da piscina por veleiros ou façam com que acreditemos que o conseguem.

 

Quem se importará de vós, depois do Verão?!

 

Sobretudo, meus queridos, arranjem uma luxação num pé! Pode ser mito, estereótipo, léria e ladainha, mas, no fundo de cada rapariga, há sempre uma enfermeira em sentinela, pronta para vos cuidar.

 

No Verão, meus queridos, somos todas tão despreocupadamente inteligentes!

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A Gaffe fora de tempo

rabiscado pela Gaffe, em 13.06.19

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Num tempo perdido, o meu avô ensinou-me a cuidar dos livros.

A biblioteca continua a exalar um aroma a couro antigo. As sombras espalhadas de renda no chão, depois da luz ter atravessado as partículas de pólen doirado que as janelas autorizam, acabam longas lâminas, línguas, de silêncio. O lago baila no tecto, vindo lá de fora.

É a minha vez de abrir a caixa de madeira de cedro.

É a minha vez de lhe ensinar o modo de catalogar os livros, de lhe ensinar a manusear as fichas que lhe permitirão encontrar a obra desejada.

 

Entra esguia como o caule de um lírio.

Aproxima-se da adolescência, mas a proporcionalidade do seu corpo não sofreu dano. Talvez porque desliza. Talvez porque o tempo ainda breve e leve tema tocar tenaz na fragilidade presa nos fios loiros do cabelo, na densidade efémera do azul dos olhos, no quase imperceptível mover dos dedos finos como facas, na intangibilidade das ancas púberes, nos seios a aflorar dentro do segredo, no silêncio que a persegue com lábios de sombra triste, na ausência de sorriso, no sussurro de secura que parece já a ter envelhecido sem a ajuda dos dedos dos dias a passar.

Senta-se na cadeira do meu avô. Cruza as mãos indiferentes. Suspira. Espera.

 

- São teus, os livros? Leste-os todos?

- Não os li todos.

- Tens de assinalar os que já leste. Quero ler os outros, os que tia leu. Não fizeram um bom trabalho aqueles que escolheste. A outra tia leu os certos.

 

Era a minha vez de abrir a caixa de madeira de cedro. Não lhe toquei.

Fechei a biblioteca e pedi que cobrissem com panos brancos todos os espelhos. Não quero que a menina veja neles reflectido um monstro. Ainda é cedo.

 

Talvez haja tempo.

 

Imagem - Titti Garelli

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Gavetas:

A Gaffe à descoberta

rabiscado pela Gaffe, em 13.06.19

 

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Uma das mais eficazes formas de se descobrir um herói, é surpreendê-lo quando julga que ninguém o observa.

Com um cobarde, o método é idêntico.  

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A Gaffe de bicicleta

rabiscado pela Gaffe, em 12.06.19

Bike Azores

Foi muitíssimo motivador tentar apresentar ao Rui uma proposta que teria de ser obviamente sóbria, masculina, cavalheiresca, correcta, depurada e incluir a sua paixão: a bicicleta.
Para complicar o que já de si era muito pouco simples, teria de ter em conta a sua escrita sempre limpa, irrepreensível, expurgada e recta, sem artifícios, cativante, concisa e reveladora de uma outra paixão: o rigor com que usa a língua portuguesa.

Foi um desafio que teve a sorte de contar com o apoio do azul das suas ilhas.

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A Gaffe da renda

rabiscado pela Gaffe, em 07.06.19

Já arrendamos um T2 em Lisboa, porque somos RIIICOOOS.

Mary

Estudassem!

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Gavetas:

A Gaffe de tempo roubado

rabiscado pela Gaffe, em 06.06.19

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Ficamos depois esquecidos, como um casaco pousado num banco de uma gare qualquer que não traz destinos, por onde não passam passageiros, por onde o repentino restolhar do tempo deixa de fazer sentido, por já não nos pertencer, por já não ser o nosso.

 

Ficamos de tempo roubado, sentados à espera de Godot, de bagagem parada inútil como a eternidade.  

 

Roubam-nos o tempo.

Somos inconscientes operários casuais sem que ninguém assuma o pagamento de salário, sem que ninguém se importe com as nossas faltas, com as nossas férias, com as nossas quedas.

Somos episódicos funcionários de multinacionais e manuseamos sozinhos o leitor de códigos de barras; e apresentemos o cartão à frincha do banco; e montamos a mobília que vem em peças soltas que tivemos de transportar sem rede; e escolhemos no écran o hamburger certo; e trocamos anúncios, e publicitamos o que não sabemos trocando e partilhando slogans; e pagamos o serviço prestado com dados faceboquianos; e registamos os nossos consumos no Portal das Finanças; e enchemos depósitos, sozinhos; e contamos a água e contamos a luz e contamos o gás e informamos depois os donos de tudo; e não temos horários e não temos salário, e não temos férias.

Só picamos os pontos que nos governam o tempo que nos roubam.

Somos grátis.

 

Ficamos depois esquecidos numa gare qualquer, como um casaco velho que já ninguém quer.

Um dia, mortos, havemos de enterrar a eternidade.  

Fotografia - Gabriel Cualladò, 1957

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A Gaffe de Graça

rabiscado pela Gaffe, em 05.06.19

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A Gaffe gosta de Graça.

Não fosse a aliteração demasiado desengraçada, a Gaffe gabaria Graça pela graça que guarda.

A Gaffe gosta do seu cabelo estrouvinhado que permite divagar acerca do modo como Graça saltou da cama, ou de outra qualquer peça de mobiliário, directamente para o Governo.

A Gaffe gosta do desdém absolutamente divinal com que enfrenta os jornalistas e que nos faz esperar que mande uma cuspidela no microfone no fim das suas cirúrgicas e sobranceiras respostas - na presença da superior secura de Graça, qualquer rapariga de boas famílias se sente uma ordinarona do piorio.  

A Gaffe gosta do desprezo enojado com que Graça olha os piquenos tolos que se atrevem a dirigir palavra ao seu vetusto acervo de excelsas e inalcançáveis competências que, pese embora tenham permitido o afastamento pecaminoso e desavergonhadamente imbecil do responsável pelo Museu de Arte Antiga, lhe entregam um ar de mistério insondável, que fica sempre bem quando acompanhado de um sorriso condescendente e paternal.

A Gaffe gosta do ar denso e eivado de partículas de Absoluto que se respira quando Graça nos abençoa com a brisa da sua dada como certa inteligência - pois que é impossível dar prova da existência da dita sendo-se responsável pelo Ministério da Cultura em Portugal.

A Gaffe gosta da estratosfera semântica onde Graça colhe o que Azeredo Lopes nem sequer sonhou poder existir.

 

A Gaffe gosta da tranquilidade incomparável que enleva o povo quando Graça afirma que cerca de duzentas obras de arte que nos pertencem - mais tela, menos tela -, não estão desaparecidas, pois que apenas delas não se conhece o paradeiro.

Abençoado povo que engraça com estas graçolas, porque é dos nus e dos rotos o reino de Tancos.

... Dos tansos. Perdão.                

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A Gaffe de Agustina

rabiscado pela Gaffe, em 03.06.19

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A Senhora que escreve livros em folhas sem margens, com letra cerrada sem espaço para erros, pede a mantilha de caxemira de um azul nocturno. Debruça-a nos ombros.

A vaidade é vantagem que lhe amansa as rugas.

A Senhora dos aforismos veste-se de escuro.

A Senhora que escreve romances na velha cozinha, perto do jardim, olha para as árvores medonhas de frio. Olha pela janela para dentro das árvores e o jardim inteiro dentro da cozinha à espera das letras que a velha Senhora que olha o jardim se esqueceu lá fora.

A Senhora que escreve romances não risca palavras. Reproduz as frases com outras diferentes em novos papéis cerrados, sem margens, sem espaço para mais.

A velha Senhora não risca palavras. Falta-lhe a coragem para as abolir e por isso um erro, uma escolha falsa, um som que destoa, fica por tocar, a pairar nas árvores que ficam lá fora.

A velha Senhora escreve romances nas folhas das árvores que crescem nos olhos sem fim com que da janela vê uivar o tempo.

O tempo que cresce dentro das janelas, perto de palavras que tem para cuidar.

Agustina. Meu amor amargo, meu amor coberto por mantilha.

Meu amor guarida. Meu amor casulo. Mau amor de malmequer que bem me quer. Meu amor de sol coberto escuro e saturado de palavras. Meu amor infindo. 

 

Ouvem-se cães a uivar por toda a casa.

Os sons da casa são os cães a uivar.  

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A Gaffe da Marquesa

rabiscado pela Gaffe, em 30.05.19

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Uma rapariga herdeira de antiquíssima aristocracia, não pode deixar de ser representada por uma imagem que, embora dita renovada, não deixa os velhos brasões tombarem na lama. Sobretudo quando os ditos não pisam por norma e regra terrenos movediços.  

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