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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe num slogan

rabiscado pela Gaffe, em 25.04.18

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slogans que são manifestos perfeitos e que resumem de forma exemplar a indignação de quem os assume e os transforma em bandeira.

 

Não falo no Yes, we can, tornado pela desilusão em Yes! weekend! ou pela necessidade  de afirmação e resistência, no Yes, we camp, ou ainda pelo ameaçador America First 

 

Falo, por exemplo, daqueles que funcionaram quase como previsão sinistra do que, não sei se apenas metaforicamente, veio a acontecer, como o on mangera les riches, ouvido durante Maio de 1789 e Novembro de 1799, em Paris.

 

Refiro-me aos mais poéticos, inscritos nas ruas de Maio de 68, como o ouvido e inscrito nos muros parisienses je suis comme un oiseau mort quand toi tu dors, que apelava de forma belíssima à consciencialização política dos estudantes que hesitavam.

 

Nunca gostei de ouvir slogans que não fossem susceptíveis de se transformar em lança espetada num determinado tempo ou acção específica, resumindo e revelando um sentir determinado.

Por isso me apaixonei pelo que li, inscrito num cartaz que vi passar nas mãos de um velho, na brevíssima e contida reportagem sobre a desilusão portuguesa que cavalga ainda, mintam o que quiserem.

 

  DE CRAVOS A ESCRAVOS

 

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A Gaffe paisagista

rabiscado pela Gaffe, em 24.04.18

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Somos por vezes criaturas em que a altivez se foi metamorfoseando, eclodindo e revelando o que de mais escuro existe em nós, sobretudo quando, à nossa frente, temos os que por nós dariam tudo, sabendo que por eles nada trocaríamos.

Desembainhamos a crueldade e tornamos fácil agredir aqueles que nos querem, quando sabemos que esse desejo não tem reflexo em nós.

 

Impomos a sela de Pégaso como condição para aceitarmos que nos transportem as pérolas com que adornamos o pescoço da soberba e obrigamos a que todos os aromas que nos chegam do quotidiano mais comum, sejam submissos reflexos das nossas escolhas autistas.    

 

As janelas do amor que os outros nos dedicam, abrem-se tantas vezes para as nossas vielas putrefactas.

 

Dizemos depois que somos demasiado exigentes, urbanas, sofisticadas e cosmopolitas e que não temos tempo para dedicar à banalidade dos que passam olhando para dentro de nós à procura de chão.

Temos apenas céu.

 

Falamos da indiferença racional e da polida e culta e livre forma de viver e de sentir de mulheres que ultrapassaram as margens da timidez vagarosa que flutua no olhar dos que nos querem, porque a ousadia e a fúria do arrojo dos heróis e dos guerreiros condiz melhor com a velocidade a que nos movemos.

 

Tantas vezes somos mulheres a jacto.

 

Neste percurso de tocadas pelos deuses das avenidas largas e infinitas, de aço, de acrílico, de brilho de navalha, apenas amarfanhamos, comprimimos, sufocamos, o desejo de numa tarde banal e corriqueira, numa rua, numa qualquer ruela abandonada, termos o tempo lento a soprar na cara enquanto alguém nos leva para longe, de mansinho.   

 

Imagem - André Gonçalves

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A Gaffe e uma paixão

rabiscado pela Gaffe, em 23.04.18

 

 

Há homens que atravessam o tempo e se deixam atravessar por ele, sem piedade ou condescendência, mas sem macular a mais ínfima das partículas de que são compostos.

 

São, na sua maioria, homens de génio que rasgam os limites das impossibilidades quotidianas e refazem o universo, vertendo-o num copo com vinho que bebem no entardecer de uma esplanada qualquer, depois de terem restabelecido a ordem e a alma das coisas breves distorcidas pelos outros. 

 

Na foto -Samuel Beckett

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A Gaffe iluminada

rabiscado pela Gaffe, em 20.04.18

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O Gestor Local de Energia e do Carbono (GLEC) é um senhor competente, discreto, de fato preto e camisa branca, de gravata fininha e regimental, baixinho e pio. A primeira impressão que dele temos é a de um senhor que não permite folestrias - decidi recuperar o léxico duriense -, rigoroso, aborrecido e conservador. Dir-se-ia que nos temos de benzer antes de falar. Quando melhor o conhecemos, acabamos repletos de respeito pela sua tarefa e pela sabedoria, eficácia e competência com que a leva a cabo, pese embora as constantes tropelias irresponsáveis de quem o rodeia.

 

Uma das suas iniciativas mais minúsculas - se comparadas com o trabalho colossal que tem em mãos -, foi, não sei se por orientação superior, colocar autocolantes encimando os interruptores advertindo para a necessidade de se desligar as luzes quando saímos das divisões. São bonitos, com um design agradável e não ferem o contexto onde cumprem o seu dever.

 

O extraordinário é verificar que, após esta diligência, aumentou de forma absurda a quantidade de lâmpadas acesas em compartimentos vazios.

 

Não acredito que o objectivo desta contradição seja a de boicotar os resultados que o GLEC tem de apresentar semestralmente às autoridades competentes. Não quero crer que a vontade de vitória da tacanhez siga por caminhos tão ínvios, tão planeados, desenhados para a atingir a médio prazo. Sempre pensei que a pequenez dos mesquinhos se tornava visível por, num curtíssimo período de tempo, se agigantar e tomar forma aos nossos olhos ao ponto de se tornar doentia, obesa, mas contornável. 

 

Não encontro uma explicação satisfatória.

 

Suponho que existe latente em cada criatura a apetência para se tornar um bichinho maldoso, sem qualquer compensação que não seja a de satisfazer a ânsia de ver fracassar as mais pequenas, as mais irrisórias e as mais corriqueiras acções do outro, mesmo que indiretamente este soçobrar alheio o atinja negativamente depois. 

 

Transportamos um Chucky ridículo de subúrbio ranhoso que a cada passo sai do coma. Contentemo-nos com o facto de se satisfazer com beliscões.     

 

Ilustração - Jean-François Segura

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A Gaffe com um dói-dói

rabiscado pela Gaffe, em 19.04.18

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Desconheço a origem da sábia expressão, tida actualizada no Douro, os homens são uns paridos, mas confesso que neste caso o empirismo é convincente, dispensando em consequência comprovação científica.

 

Os homens são o que na gíria se chama mimelos e que na realidade é apenas uma característica da espécie e do género.

Esta particularidade adquirida pelos rapagões há tempos imemoriais, é vastas vezes usada como ardil de sedução. Nos confins do inconsciente mais oculto, os homens perceberam que um queixume, um ai, um arquear infeliz de sobrancelhas, um chorito, uma lágrima furtiva, um tombar sem forças, ou um golpezito de sorte, faz eclodir a enfermeira que todas temos cá dentro.

 

É evidente que nem todas obedecem de forma literal a este impulso. Perante um gemido masculino não é certo que uma mulher envergue de imediato a bata branca e o chapelinho com a cruz vermelha, despidas outras formas de se ser tarada, e se desatilhe em manobras de reanimação seja do que for.

Não!

Apesar de tudo, resta-nos o senso e a vontade de enfiar o termómetro nos sítios e com os fins a ele originalmente destinados. No entanto, a descoberta desta nossa debilidade, o reconhecimento da nossa propensão maldita, entrega aos meninos choramingões a possibilidade de se servirem da extraordinária disponibilidade feminina, da nossa abnegação, da nossa compaixão, da Madre Teresa que em nós lateja, para fins muito poucos lícitos.

 

Não adianta muito afirmarmos, empoladas pela soberba, com o nariz arrebitado de estoicismos, orgulhosas da nossa capacidade de sofrer em silêncio e com a vertigem da superioridade de quem aguenta - de pé, hirta e fixa -, os tacões agulha na presidência do conselho de administração da nossa vida, que os homens são uns paridos. É inútil, como toda a verdade encanecida e ultrapassada. Ao primeiro choro do nosso menino, espetamo-nos na net a ver se dói, doridas de pesar.

 

Somos compassivas, somos caridosas, somos empáticas, somos caritativas, somos misericordiosas e bondosas. Está dentro de nós estes destinos - embora todos muito selectivos.

Sabemos que os homens são uns paridos, mas, se valerem a pena, corremos a tratar-lhes do dói-dói.

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A Gaffe corrupta

rabiscado pela Gaffe, em 17.04.18

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Assisti ontem a um momento precioso do jornalismo de esgoto, made in Portugal.

Pese a verdade, e porque sou imbecil, considero uma experiência única e extraordinária ver José Sócrates gesticular, esbracejar, mostrar os caninos, salivar e cuspir morcegos. Aconselho - mais uma vez, porque sou imbecil -, toda a gente a assistir ao circo onde a fera é espicaçada tendo, antes de tudo o mais, retirado o som ao televisor.

É uma experiência digna de Attenborough, embora extenuante e claramente anti-democrática.  

 

Durante o aborrecido processo de mudar de canal, raspo com a patacoada já audível de um comentador que - não sei se a propósito -, mais uma vez vomitada para nosso encanto e apaziguamento: paga-se demasiado pouco aos políticos e aos governantes e é este o factor principal da não extinção da possibilidade de serem corrompidos.  

   

É delicioso.

 

O contribuinte não paga o suficiente aos seus representantes para que eles não sejam corruptos.

 

Se os corrompesse, pagando o suficiente para retirar à corrupção a possibilidade de lhes fazer uns mimos, a indigitação ou a nomeação - conclui-se que normal - de corruptos não se faria sentir e não existiria colisão com a lisura, a ética, a honestidade, a honra, a Palavra e todas essas manigâncias mais ou menos delineadas e tidas como louváveis - pese embora algumas não tenham definição esclarecedora -, estariam salvaguardadas e o Estado seria liderado por políticos corruptos, mas tornados honestos, pois que servidos de avultados ganhos.   

 

Há que abrir os cordões às bolsas – mas nunca à Bolsa -, para se ser representado pela hibernação, pela anestesia, pela narcotização, pelo coma induzido, da corrupção. Há que corromper, pagando para os que nos representam não sejam corrompidos, antes que outros o façam.

 

É tudo tão sicilianamente  Ford Coppola!

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A Gaffe detox

rabiscado pela Gaffe, em 16.04.18

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É extraordinária a quantidade de gente que corre sem paisagem; que pedala em bicicletas sem rodas; que cola aos braços aparelhos que contabilizam as batidas do coração, que medem a largura, o comprimento, dos passos que são dados, a quantidade de metros percorridos, a quantidade de braçadas, as vezes que se inspira, que se expira e a qualidade de calorias que se gastam na quantidade de suor que é medido por outros aparelhos que se apensam.

 

É extraordinária a quantidade de músculos que se querem ter tonificados - os nossos, mas também os do vizinho de passadeira de ginásio -, o peso das couves que se espremem para unir o sumo a pitadas de gengibre e bagas doidas diluídas num detox fit que nos dá saudades do velho clister, e mordiscam-se pepitas de aveia, de linhaça, de sementes de papoila, ao som de uma batida que nos comanda os saltos.

 

Vigia-se o fígado, perscrutam-se os pulmões, espia-se o coração, indaga-se o baço, espreita-se o estômago e espiolham-se os intestinos, pois há que ser fit, há que permanecer em excelente forma física e mostrar ao mundo que se é saudável, que se está em condições de esquecer o cérebro.

 

É extraordinário tentar perceber como será difícil a esta nobre gente tão detox, lidar com o envelhecer.

 

É tão quase tão extraordinário como reconhecer a tristeza que se sente quando se percebe que que é incomparavelmente mais feliz e mais vivido ter como banda sonora da vida - um só exemplo - a Slave March de Tchaikovsky, comandada por Pletnev, em substituição da batida ensurdecedora da aula onde se envelhece muito fit.

 

Ilustração - FFO Art

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A Gaffe dos velhos amantes

rabiscado pela Gaffe, em 15.04.18

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Vivem como quem pisa uma alameda de vinhas trucidadas, sem esperar o mosto, sem esperar beber, porque o vinho está nas suas bocas. Cresceu como um corpo, ocupando tudo.
As suas terras estão marcadas. Jamais suportarão outros vestígios a não ser os deles.
Só ele sabe dela e só ela sabe que nele as montanhas olham os abismos e espreitam as vertigens sem fazer vibrar o ar que as rodeia.
Têm secretos recantos onde as suas vozes ecoam claramente e os seus olhos volteiam dentro delas.
Sabem ao sabor do pólen espalhado nos lençóis.

 

São velhos como só os amantes sabem ser.

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Gavetas:

A Gaffe feminilizada

rabiscado pela Gaffe, em 11.04.18

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Não imaginaria que, por ter aqui sobrevoado o assunto, fosse levada à letra por imensos criadores de significativo calibre e nome a respeitar que em 2018 passam a usurpar todas as minúcias, manigâncias e particularidades femininas e a doar esse acervo aos seus desfiles masculinos, fazendo rodopiar os seus fabulosos rapagões em trajos que facilmente os ridicularizariam, não fosse a testosterona espalhada pelas bainhas.

 

Não se trata de androginia, esse fenómeno que quando perfeito nos consegue cegar de fascínio, rendidas à sedução implícita na hesitação, com indubitável travo sexual, e no mistério da insinuação ambivalente – pois que se de grosseira imperfeição, desemboca nas matrafonas -, mas sim de fazer assumir uma quantidade inesgotável de peças claramente femininas por corpos de homens.

 

São desta forma impressionantes as colecções masculinas que em 2018 foram apresentadas em Paris, Londres, Milão, Tóquio, NY ou Madrid e embora nem todos os nomes dos criadores se ajustem aos que a nossa memória conserva ano após ano, acaba-se por perceber que são as recentes estrelas as que mais burburinho conseguiram fazer estalar.

 

Não sendo uma fashion blogger, não tenho qualquer intenção de comentar cores, texturas, linhas, geometrias, silhuetas e tretas. É-me indiferente que se refira o que se vê como futura e literal paisagem urbana. Não me aflige que se acredite que na próxima estação o nosso menino vai usar o vestidinho de alças que levamos ao casamento da prima, ou que use os tacões agulha que soçobrarão passados instantes com o peso da musculatura que os encima. Não me incomoda que se leia de forma literal o que é proposto, sem que se tenha o discernimento de separar imagens caracterizadoras de cada criador, da posterior produção evidentemente mais cúmplice da realidade.

 

O que é me desperta a curiosidade é a possibilidade de se colocar a hipótese de estarmos a assistir a reacções próximas das que foram observadas quando, por exemplo, Dietrich surge na tela absolutamente fatal, de smoking desafiador, a beijar na boca uma pateta que assiste a uma interpretação rouca, arrastada, masculina, soberba e superior, de uma canção vagamente perversa. Como choveu saliva envenenada nessa altura!

 

É maravilhoso ler as cómicas crónicas de comentadores de serviço que se servem do apresentado - e visto de modo absolutamente restrito ao que conseguem absorver -, para tentar dar largas a uma patética ironia, a uma mesquinha e medíocre forma de entendimento dos signos e dos símbolos que estão implícitos naquilo que não é mais do que uma apropriação, consciente - ou não -, de um universo transgressor e de um outro até aqui proibido, o feminino, com a vantagem de se perceber que sempre coincidiram.  

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Creio que está longe de ser ridícula a opção patente nestes estranhos desfiles masculinos. Pode ser controversa, pode ser desagradável, pode ainda ser eventualmente inestética, pode ser demasiado agressiva e muitíssimo pouco macho, mas é também a assumpção do risco, a ousadia da infracção, da desobediência, da quase irresponsabilidade e sobretudo a ruptura com o que de simbólico pertencia a espaços diferenciados com um rigor desmesurado.

 

Pese embora o facto de considerar ligeiramente parvo o que foi visto - porque sou parva e projecto-me no que vejo -, não posso negar que o biquíni de brilhantes de Fátima Lopes - mesmo se executado em pedraria falsa e usado por um peito verdadeiro - é muitíssimo mais agradável a brilhar num corpo masculino.

 

 

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Gavetas:

A Gaffe "décadente"

rabiscado pela Gaffe, em 10.04.18

Caminhar

No dia oito deste mês estas Avenidas fizeram dez anos.

 

É realmente demasiado tempo.

Já não me lembro da rapariga que escolheu a primeira palavra solta, num texto solto de um livro aberto, para encabeçar o blog. É evidente que não vou fazer retrospectivas ou balanços. Acho-os deprimentes.

Caíram países, morreram governos, tombaram ilusões, esqueceram-se tragédias, continuaram os assassínios, ergueram-se pontes para que as armas chegassem aos outros lados, morreram-nos, morrermo-nos. Também fomos felizes. Também esperamos Godot. Também cuidamos das roseiras.

Talvez por isso - e pelo que não se diz por ser moroso - acabe apenas espantada por ter conseguido manter milhares de palavras presas por fios que nunca tive a coragem de cortar e que me deixaram sossegada com alguma facilidade – e antes isso, que andar na droga.

 

Dizer que cresci durante este tempo aqui passado, é uma forma suave de disfarçar a palavra envelhecer. Crescer é sempre um distanciar, um apurar de limites e fronteiras, o desenhar de espaços íntegros e nossa pertença, um aprimorar dos sentidos e uma admissão do que valemos em consciência. Crescer, diz um Amigo, é educar a violência. Crescer é portanto envelhecer. Só envelhecendo nos tornamos pacíficos. A violência é sempre consequência de tenebrosa imaturidade.

Pasmo perante este processo de inversão Kafkiana que molda uma mulher a partir de uma barata.

 

Suponho que ainda não sei para onde vou. Aprendi há pouco tempo a caminhar.

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Gavetas:

A Gaffe de rainhas

rabiscado pela Gaffe, em 09.04.18

Letízia

 

Tive o mais embaraçoso dos pesadelos de que há memória.

 

Descontraída e etérea, no aconchego das minhas mais íntimas e prosaicas tarefas, leio a revistinha onde é fotografada a aventura de Letízia de Espanha por terras onde falta o chá e abunda o chinelo e descubro de súbito que estou sentada a fazer xixi numa sanita daquelas casinhas da IKEA.

 

Duas rainhas.

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A Gaffe a concurso

rabiscado pela Gaffe, em 06.04.18

Roberto Bolle and Francesco Mascia - Teatro alla S

 

A Gaffe sente-se arrasada, estropiada, expropriada e muito maçada, pois que a realidade a obriga a admitir que há ditos populares, muito suados e a cheirar a pobre, que acabam por acrescentar - assim como quem cala o bicho feio que perturba a bela imagem do dono -, dois milhões de euros a uma maquia que seria distribuída por quem provasse ter um projecto cultural digno, rigoroso e sobretudo sério, sujeito a um processo que elege os melhores entre os mais distintos.

 

Quem não chora, não mama.

 

Choraram todos e todos mamaram.

A Gaffe não entende como se consegue uma chupeta sem se mostrar um bebé amoroso num blog, ou num concurso qualquer, tresloucados que sejam - bebé, blog e concurso, ou ambos os três, como se queira.

 

Lamentável é a Gaffe não ter levado a concurso o seu belíssimo projecto experimental que consistia em ser apresentada a Roberto Bolle e realizar uma data de bailados na sua Companhia num cenário de lençóis.

 

Na foto - Roberto BolleFrancesco Mascia - Teatro alla Scala

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A Gaffe de bicicleta

rabiscado pela Gaffe, em 05.04.18

Mladen Blagojevic

 

A Gaffe acha um exagero a vozearia, a algazarra, o alarido e todos os outros sinónimos que quisermos, em relação à bicicleta de Ronaldo. É expectável, é admissível, é compreensível - tendo em conta que a maioria dos homens normalmente chuta de triciclo -, mas há que reconhecer que outros bem melhores pontapés de bicicleta ficam sem história, entalados nas paredes, à espera que uma de nós lhes investigue o estado das rodinhas.

 

Foto de Mladen Blagojevic

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A Gaffe inundada

rabiscado pela Gaffe, em 03.04.18

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O meu tio-avô, franciscano, antiquíssimo, teólogo, filósofo, Provincial da Ordem durante décadas e um dos grandes latinistas da Península, dizia que o conhecimento etimológico de uma palavra era essencial a quem a quisesse usar de forma certa. Sem esse saber, podemos rasgar as frases que quisermos, mas escapa-se-nos demasiadas vezes a nobreza do escrito e o sentido mais profundo daquilo que urge dizer.

 

Fica provado por estas avenidas que não prestei atenção ao sábio encanecido.

 

Recordo que uma das suas palavras favoritas tinha como iniciáticas raízes cum panis que desaguou companheiro, ou seja, aquele com quem dividimos o pão.

 

É evidente que as cãs deste sábio não tiveram origem no trabalho minucioso de partilhar o pão nas redes sociais. Aqui, a mesa é sustentada por likes e a intimidade de cada um é servida em travessas de posts, não a companheiros, mas a amigos.

O interior, ou que em nós é interno, extravasa como se algures houvesse uma fissura por onde escorre o que nem sempre é aquilo que queremos, ou apenas aquilo que decidimos deixar que se saiba. Existe uma componente exibicionista neste derramar do íntimo, neste inundar do externo a nós pelo que em nós devia permanecer, que – digam o que disserem -, não é sempre eficazmente controlada e neste encharcar do externo pelo que é nosso, até mesmo a dor - mesmo aquela que exige o maior silêncio - é capaz de penacho e de lantejoula e de abrir o desfile arrastando figurantes e cartazes numa sucessão de comentários e de imojis.

Somos demasiado selfies para segurar o narcisismo da exibição e nesse irreversível destapar, nesta atracção pelo nude, acabamos com centenas de amigos indiferentes ao étimo das palavras, desde que consigam chapinhar na mesa líquida que vamos compondo até que se perceba que afinal somos a única criatura que ficou sem pão.

Só temos água.

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A Gaffe fofinha

rabiscado pela Gaffe, em 02.04.18

A Gaffe fofinha

 

A Gaffe sabe que aqueles que teimam em vestir a pele de cordeiro, acabam sempre no prato dos lobos.

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