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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe esforçada

rabiscado pela Gaffe, em 23.04.19

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Um homem devia ter de empurrar um barco através de uma montanha, pelo menos uma vez na vida.

 

Uma mulher também, embora nestes casos metafóricos nos seja mais conveniente ir de avião.

 

Imagem - Zulkarnain Ismail 

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A Gaffe não se esqueceu!

rabiscado pela Gaffe, em 21.04.19

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Páscoa feliz!

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Gavetas:

A Gaffe com matérias perigosas

rabiscado pela Gaffe, em 18.04.19

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A Gaffe está feliz com o anunciado fim da greve dos motoristas de matérias perigosas, pois andava com imenso receio do ultimato de Assunção Cristas, que deu ao governo um prazo apertado para terminar com a brincadeira.

Até Quarta-feira de manhã.

O horror.

Se o imbróglio não estivesse resolvido pelo governo na data estabelecida, Assunção Cristas imolava-se pelo fogo, não era?

 

Imagem - Ewa Cwikla    

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A Gaffe atapetada

rabiscado pela Gaffe, em 18.04.19

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Traz o avental com flores garridas na bainha. Um avental de peitilho branco, laçado nas costas de vestido negro. A luz sorrateira do amanhecer infiltra-se nas frinchas das janelas largas e enchem-na de sombras, prateando-lhe o cabelo preso num nó de trança enrolada.

A cozinha cheira a flores do avental garrido. A especiarias, a condimentos, a ervas aromáticas a enchidos, a fumo, a madeira, a lume, a forno quente, a pão e ao café que na cafeteira borbulha atingido pelo ferver da água.

 

 - Andam à procura dos caixilhos - matreira, a Jacinta. Vai mordendo o pão e bebericando o escaldar da malga de café – aflitinhos com os moldes do tapete de flores para o compasso. Dão cabo das plantas. Que procurem. Primeiro a marinada, depois a consoada – vai roendo, birrenta. - A menina não devia ter autorizado este desmando.

 

Perto da Jacinta há segurança. Há abrigo. Dentro da cozinha da Jacinta há santuário.

 

- Ajude, menina, que já fez asneiras que chegassem.

 

A cebola a cortar em rodelas - grossas, menina, podem ser grossas. Valha-me Deus, que isto não é no hospital -, os gomos intermináveis de alho a picar, as folhas de louro a quebrar estalidos, o pimentão aberto prenhe de perfume, a salsa - qual picar, qual quê! vai em rama que guarda o sabor -, o alecrim aos molhos que choram os meus olhos, o colorau cor quente e os limões cortados em meias-luas ácidas.

 

- A menina despeje o vinho no alguidar e deite-lhe um bocadinho daquele espumante que sobrou. Amolece a carne. Dá-lhe mais sabor. Não tanto, valha-me o Senhor dos Aflitos! Só um cheirinho! Agora deixe, que eu misturo tudo e ponho o anho. Chegue-me o paninho dali do armário para tapar a marinada. Vá, menina, que eu tenho de lhes dizer dos moldes que ainda me partem qualquer coisa.

 

Às vezes, tenho medo que me ralhe.

 

- Depois cortamos as tirinhas de toucinho e fazemos a grelha com os paus do loureiro para a boca do alguidar, está bem?

                                                           

Não estás zangada comigo, Jacinta?

- E como haveria eu de estar zangada? A culpa é da velhice resmungona que aqui anda. Vamos por isto no fresquinho e toca a dar-lhe os moldes para o tapete.

 

Os sacos de sarapilheira com as folhas e as folhas das camélias, as camélias toldadas e escurecidas que ficam bem no meio que disfarça, o jasmim, as campânulas amarelas, os lilases, as pétalas de rosas coloridas, margaridas – serão os malmequeres? -, hortênsias imaturas, e outras que não estão aqui que são precisas, o perfume das mãos que as separam em geometrias prévias de molde de madeira. A seiva, o espargir da água que lhes atrasa o apodrecer e a doçura curva das mulheres a espalhar no chão a Primavera.

 

 - Não entendo porque não usam Kilins - sai a minha prima da nuvem de perfume e o seu espanto é genuíno e espanta. - Não escorregam. Os nómadas fazem as cáfilas passar por cima deles, para os espalmar, suponho. Aqui, é o mesmo.

 

Atira e traça a voluptuosidade de pronúncia francesa carregada, arrasta e rola as sílabas que não consegue moldar em português, prende a seda do cabelo com a fita Cartier, depois de proteger as pérolas dos brincos, e descalça, que não tem calçado para pisar tapetes de folhas de camélias, desliza e evapora-se.

 

- Ensinas-me a fazer o arroz, Jacinta?

- Na manhã da Páscoa, menina. Venha ter comigo muito cedo. Depois vamos ajudar aquelas tolas.  

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Gavetas:

A Gaffe na chuva de Paris

rabiscado pela Gaffe, em 17.04.19

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Quando chovia em Paris, abrigava-me nos umbrais dos edifícios e esperava. Mantinha-me quieta e inventava histórias nas nódoas de chuva que alastravam nos passeios.

Às vezes fazia muito frio. Nessas alturas, os momentos de chuva a cair apeteciam-me tanto que me esquecia das horas e era capaz de passar, pasmada, todo o tempo do meu mundo a olhar para o chão que se encharcava. Os sons de Paris acinzentavam-se e as luzes chapinhavam nas poças que alastravam.

 

Creio que era feliz naqueles pedaços de chuva estrelados. Abraçava-me, apertava o casaco, amarfanhava a camisola junto ao pescoço e tentava manter os pés quentes batendo com eles nas pedras abrigadas.

 

Lembro-me que tinha umas luvas grossas de pele, forradas, que me aqueciam demasiado as mãos. Nunca gostei muito de luvas, mas aquelas tinham sido dadas pela minha avó e usava-as como quem usa um talismã ou um golpe de saudade. Mantinha as mãos enluvadas próximas do nariz, porque gostava do cheiro do couro misturado com o cheiro da chuva e da memória da minha avó.

Perdi uma no metro. A outra ainda a tenho na gaveta. Vou, de vez em quando, quando não há chuva, procurar o levíssimo rasto de felicidade que, nos umbrais de Notre-Dame, ficava quieta enquanto me abraçava. Havia sossego, como se não precisasse de nada, como se me bastasse, como se estivesse isolada, à parte, e então sentia a Catedral como coisa minha. Só eu e Notre-Dame, nos umbrais molhados.

 

Fiquei uma tarde, já tarde - tão tarde! - segura pela chuva. Fechei o casaco e calcei as luvas, amarrotei o abraço para não sentir frio e fiquei a ver o sossego pasmado. Veio então de novo aquela morrinha que é ser feliz ou pensar que o somos. Procurei as luvas sem me aperceber que já as tinha calçado e não tinha nada a não ser Notre-Dame à chuva e senti a chuva a cair dentro de mim.

 

Quando eu voltar a Paris, não tenho a Catedral e sei que a chuva vai cair lá fora.

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"Notre Drame"

rabiscado pela Gaffe, em 16.04.19

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O lema de Paris - Fluctuat nec mergitur - sobrepõe-se ao grito la flèche est tombée que arrepia e torna a imagem da queda do archote numa das mais significativas da tragédia. Uma imagem icónica. Uma tocha cai com a dignidade devastadora esperada na queda dos signos.

 

O objecto Notre-Dame é uma construção e reconstrução dos homens.

 

2/3 do telhado desapareceram. Pertenciam ao século XIX.

O arco de pedra sob o telhado não sofreu grandes danos.

As torres e a fachada da Catedral estão a salvo, embora a estrutura necessite de avaliação cuidada.

A esmagadora maioria dos vitrais resistiu. Estão ilesos. Apenas uma das rosáceas se estilhaçou.

A flecha da Catedral datava do século XIX. Não provinha do século XIII. As suas dezasseis estátuas tinham sido retiradas dias antes.

As relíquias foram salvas.

O orgão da Catedral não sofreu danos. 

O Grupe Artemis vai doar 100 milhões de euros para a reconstrução.

O Grupo Kering vai doar 100 milhões de euros para a recosntrução.  

O Grupo LVMH vai doar 200 milhões de euros para a reconstrução. 

 

O signo Notre-Dame há séculos que se havia tornado arquétipo e a raiz da Árvore é de pedra, em cruz como as catedrais, e mantém nas garras a memória colectiva, tornando-a única, mas transmissível, pertença absoluta de cada um que passa, subjectiva, como é de seu paradoxal destino.

Talvez por isso os sinos das mais icásticas Igrejas de Paris tenham tocado juntos a rebate, carpindo o incêndio, avisando os homens como não o faziam há já mais de cem anos. Pranteando a tragédia do signo ameaçado, prevenindo os homens da irremediável fugacidade da existência que acolhe o esquecimento e a indiferença como motor civilizacional, como objecto do progresso, como exclusiva ferramenta do real.

 

Nada é tão vazio, tão terrivelmente oco, tão desoladoramente triste, como ilustrar a ardência de Notre-Dame com o quasimodinho da Disney agarrado as lágrimas com que banha as torres. Nada é tão revelador da distância que separa o homem do signo, da desvinculação do homem ao símbolo.

 

O nosso drama é que choramos demasiadas vezes através da Disney.

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A Gaffe "leakable"

rabiscado pela Gaffe, em 12.04.19

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A Gaffe aconselha toda a rapariga esperta a não visitar o Equador. Só a embaixada envelhece imenso. Quem de lá saiu com mais de duzentos anos foi o avô de Julian Assange, ou aquilo cumpre o famoso setenta vezes sete com um rigor excessivo.

 

É evidente que Julian nunca foi o que as nossas irmãs brasileiras - um grande saravá também para vós, minhas queridas! -, chamam àquilo que no post anterior aparece a abrir o Verão – um gato, até porque é sempre um cão que diz à polícia onde é que escondemos a droga, mas é deprimente, quando o moçoilo pede ao engate de uma equatoriana Sexta-feira à noite para escolher alguém para um forrobodó a três, ter a rapariga a escolher dois dos amigos mais chegados ao rapaz.

 

A verdade é que a Gaffe não simpatiza com gurus, chantagistas, lunáticos, oportunistas e prováveis violadores de suecas novinhas.

Assange também é feio.

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A Gaffe no buraco

rabiscado pela Gaffe, em 11.04.19

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A Gaffe não entende o alarido que borbulha em redor do buraco negro.

 

Espanta-se com as lágrimas de comoção vertidas perante a fotografia de um donut encontrado num qualquer local perto de si, com telhado de amianto, quando a cada passo nos cruzamos com Maria Leal - ou com Cavaco Silva, pois que no último clip da boneca as duas coisas não se distinguem, uma da outra, com nitidez.

 

O único buraco negro que ainda consegue abismar a Gaffe é o do governo que vai chupando a família socialista, ou o muito meteorológico com saudações à Primavera, visível em milhares de blogs e de páginas do Facebook.

 

Pelo sim, pelo não, a Gaffe decide plantar nas suas avenidas imagens bem mais aprazíveis de outros buracos que nos sorvem a paciência - e a beatitude zen - e aproveita o ensejo para desejar as amigas - e a alguns dos seus mais queridos amigos - aquele Verão exactamente como deve ser absorvido.

 

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Welcome summer!

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A Gaffe com uma história pequenina

rabiscado pela Gaffe, em 09.04.19

Corremos à procura das nossas histórias e esperamos que a maioria nos deslumbre como brilho das estrelas. Narramos os nossos mais pequenos acontecimentos com uma grandiloquência patega e, ufanos, respiramos fundo quando conseguimos, finalmente, fazer cintilar um pedacinho arrancado à ilusão de termos um diadema de brilhos imperiais a encimar-nos.

No entanto, as nossas histórias mais perfeitas são normalmente frágeis, pequeninas, fáceis de encontrar, fáceis de contar e fáceis de esquecer.

 

Encontrei algures uma destas preciosidades. Não há referência ao autor. Reproduzo-a, traduzindo do inglês todas as legendas, sem qualquer interferência minha e sem macular com minha saracoteante e retorcida escrita o que é cristalino, límpido, e de uma pureza apenas visível no que há de essencial.

 

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Numa noite de temporal a minha namorada viu o que pensávamos ser um pardal morto na nossa varanda. Mal respirava, coberto de formigas e completamente cego.

 

Abrigamo-lo dentro de uma caixa. Depois de passar uma noite no nosso quarto, acordou-nos com um piar agudo.Tentamos alimentá-lo, mas sem sorte. Aproximamo-lo da nossa varanda. Continuou a piar sem parar, durante três horas.

 

Finalmente, o pai veio ao encontro deste piar e começou a alimentar o pobrezinho. Trazia-lhe insectos e pão a cada 10-15 minutos durante todo o dia, durante duas semanas seguidas.

 

O pardal estava a ficar maior a cada dia, mas ainda estava cego. Chamamos um veterinário que experimentou um colírio simples. Funcionou como por encanto! O pardalito até se começou a esconder de nós atrás das flores. O pai começou então a mostrar-lhe como voar pela janela.

 

Um dia acabou por sair. Sabíamos que esse dia chegaria eventualmente. Ficamos realmente preocupados porque naquela mesma noite, e nos dias que se seguiram, houve tempestade. No entanto, três dias depois, o pardal voltou e adormeceu num dos nossos vasos, ao abrigo das flores.

 

Brilha tanto, não brilha?!

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A Gaffe alheia

rabiscado pela Gaffe, em 08.04.19

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Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Em relação ao universo, ainda não tenho certeza.

Einstein

 

Apetecia-me imenso fazer rodear esta citação de florinhas, de coisinhas ou de outras minudências amorosas. Suponho que ficaria mimoso neste espaço - ou no facebook, pois então -, se, é claro, Einstein tivesse sido realmente o seu autor.

 

A responsável pelo dito foi, por acaso, a sua digníssima esposa, Mileva Marić, que, só por um acaso também, foi minimizada, ou mesmo apagada, da Teoria da Relatividade que ajudou a empurrar.

 

Estes tropeços na atribuição de autoria destas pagelas faceboquianas são tão imbecis que levam sempre uma criatura menos exigente a esbardalhar-se no alheio e, como diz Almada:

 

Não te metas na vida alheia, se não queres ficar lá dentro.  

 

Ilustração - Marina Dieul

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A Gaffe de Saussure

rabiscado pela Gaffe, em 05.04.19

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Entre muitos - e entre os mais perceptíveis -, factores que acabam por nos aproximar do estrume sobre o qual germina a coesão de determinado aglomerado de gente e que consolida uma identidade nacional, encaixam os símbolos e signos identificativos da especificidade de um povo.

O hino, a bandeira, um monumento, ou mesmo uma paisagem, são signos em que o significante e o significado obedecem na perfeição às referências e aos parâmetros enunciados por Saussure.

 

Indignamo-nos com alguém a balbuciar o hino do país que representa, trocando as palavras do refrão ou tropeçando na melodia, porque este desconhecimento fere a consciência de identidade de grupo e de identificação com determinado conjunto de valores, comportamentos, cultura e mais uma quantidade de outras histórias que não se dizem para não prolongar a paciência até à exaustão.

 

Queimar uma bandeira é, pelas mesmas razões, um insulto e uma desonra. A necessidade de reconhecer com clareza as ligações saussureanas existentes nestas situações é, mais do que habitual - e o habitual é imprescindível para que exista comunicação, mesmo a mais básica.

Hastear uma bandeira invertida para além de ser expressão de terra ocupada - conclusão já saussureana - é, simultaneamente, um lapso sausssureano.

 

Um país, um Estado, um povo, uma criatura, exprime-se também através destes signos e destes símbolos - diz-me um amigo que destas coisas sabe. 

 

Destruída a aliança entre significado e significante, através do não reconhecimento de uma destas faces da moeda - o que implica a quebra da identificação da outra -, o terreno que se abre é o da conjectura que permite todas as divagações, que incluem interpretações renovadas, mas que não deixam de estar coladas ao que atrás se diz em relação à dupla significante-significado, tocando mesmo as quase mitológicas - no sentido que Roland Barthes atribuiu ao mito.

 

Não interessa saber se é propositado ou se é lapso o hastear de uma bandeira invertida. O que se torna interessante é perceber que o símbolo - o signo -, alterado o significante, origina uma colecção razoável de congeminações que reproduzem significados diversos, nem todos apetecíveis.

Diz-me um amigo que sabe destas coisas.

 

É neste pressuposto - provavelmente errado -, que é fácil não me aperceber do lugar a que pertenço.

 

Há signos que foram lentamente desconstruídos e destruídos, provocando avalanches de novas e múltiplas interpretações que me constrangem.  

 

Paris alterou-se, quebrou a cumplicidade entre significante e significado que eu reconhecia.  

A Torre Eiffel - retiremos à sorte -, invadida por pastilha elástica e por Macron a tentar ser líder de coisa nenhuma, é o signo que já não corresponde à minha cidade.

Há cada vez mais lixo amontoado nos Champs-Élysées. Há migrantes desprezados e rotos e esfomeados, há refugiados em completo abandono, há cada vez mais sem-abrigo, há miséria, há degradação humana e indiferença total perante o facto, nas ruas e avenidas da cidade-luz que se apagou. O Louvre é cada vez mais visto como depósito de roubos, de pilhagem, de prepotência francesa sobre culturas esmagadas e o paternalismo que usa para justificar e perpetuar a retenção de obras-de-arte que não lhe pertencem, deixa de fazer sentido - sabemos, por exemplo, do culto, o respeito e o cuidado quase obsessivos que os gregos dedicam desde há muito ao seu património cultural, embora se reconheça que o iraquiano se perdeu em grande escala, por não haver tutor. As escadas de Montmartre deixaram de ter poetas e boémios e pintores, não há mansardas há muito, há corrimãos de seringas e os bouquinistes atiram livros ao Sena embrulhados em plástico, juntamente com o crack perseguido pela polícia que não está ocupada a varrer das ruas os coletes amarelos.

É correcto afirmar ter lido e sentido erradamente o signo Paris. A aliança que fiz entre significado e significante não resulta agora, partida em duas metades visíveis e tornadas antagónicas, incongruentes, quase ilegíveis.    

 

Mea culpa, pois que sou tontinha.     

 

O Douro é, por sua vez, outro signo que perco com os tiros das luzes dos paquetes turísticos.  

O rio em agonia. Desvirtuado o seu correr pelas pacóvias instâncias de turistas deslumbrados com as selfies que o arrancam do sessego. As margens violadas pelas pisadas das gordas matronas que urinam agachadas longe dos barcos de recreio. Os ossos de frango assado, os restos de churrasco, de gordura despejada nos papéis atirados para as árvores que pingam plástico. Os socalcos que não aguentam o peso dos velhos obesos, de chapéus de palha e pena alemã ao lado, ébrios pelas provas que provam a indignidade dos assaltos que executam com a ganância de palatos não cuidados, emproados e arrogantes, fellianianos, cobardes, com um medo ainda discreto do povo, arrastando, atrapalhados e toscos, as mochilas da degradação.

A minha casa, retirada há muito dos roteiros dos flash, tornada inacessível por uma arquitectura que obriga a paisagem a fechar o cerco sobre os muros, sofre a ameaça de se tornar alvo desabrido de americanos bêbados, de ingleses que acreditam que a podem calcar, de chineses e de japoneses que lhe roubam raízes para fazer chá.  

 

Mea culpa, pois que sou parvinha.     

 

Os meus signos quebrados, largam-me nua, sem saber onde fica a minha casa, próxima da criação de um outro mito.

Tenho de reler Saussure enquanto choro.

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A Gaffe só com um beijo

rabiscado pela Gaffe, em 04.04.19

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Ao contrário do que parece ser habitual nos ouvintes que pela insistência acabam por reconhecer que determinada melodia lhes agrada, depois de a terem considerado atentado aos seus mimosos ouvidos, repetir Conan Osíris e os seus partidos telemóveis, tem um efeito contrário em mim. A surpresa muito positiva que foi a estranheza levada ao um extremo inusual da canção que defende, passa, em cada vez que o ouço, a uma irritabilidade muito pouco simpática.

 

 O rapaz cansa-me.

 

Conan Osíris vai esgotando a sua capacidade de seduzir com a imagem de excêntrico, muito street/trash/chic - ya, ‘tás a ver? -, e muito pouco mainstream; com a sua voz que invoca outras ainda mais potentes e com a mescla um bocadinho suspeita de ritmos e de frases melódicas oriundas de outros carnavais.

 

É constrangedor referir o bailarino que o acompanha, pois que se da primeira vez que o vi senti uma ligeira vergonha alheia que disfarcei, pois que era fruto dos meus mais negros preconceitos, agora reconheço-lhe um amadorismo, que a alegada improvisação acentua, que me deixa perplexa e assumidamente envergonhada.   

 

É evidente que o intérprete reúne todas as características que lhe dão a hipótese de se tornar campeão do Eurofestival - as que se referem, contabilizam -, mas, por estranho que possa parecer, dada a consagração de que é alvo e a aclamação das suas qualidades, quer vocais, quer de compositor, não acredito que dure muito mais tempo a minha paciência para o voltar a ouvir.

 

Esta minha sensação é fortalecida com o facto de existir Só Um Beijo de Luísa e Salvador Sobral.

 

A propósito, ou talvez nem por isso, levanto-me e aplaudo Salvador Sobral e a elegantíssima lição de jornalismo que este rapaz entrega de bandeja a Judite de Sousa que termina a entrevista relacionada  em exclusivo com o novo trabalho do intérprete com a ronhosa e ranhosa pergunta:

- E a sua saúde como vai?

que recebe esta brilhante resposta:

- Bem. E a sua?

 

A canção dos manos, com uma letra muito bonita, é de uma originalidade tão limpa e tão completa que chega a parecer fácil, frágil e evidente, esperada e pronta desde o início - quase desde a infância, porque há de certa forma um evocar dos ritmos que a povoam.

A canção vai fluindo devagar, quase contida, e sempre com a cristalina e fascinante surpresa, da descoberta do único, do novo, do nunca ouvido que não se escapa por fendas da excentricidade histriónica e menos inteligente.

É sobretudo belíssima e encantatória a mescla de frases diferentes que se enlaçam, sem atropelos, cantadas pelas duas vozes que se vão aproximando até desaguarem num mesmo verso. Nada é deixado solto, a não ser a perfeição das duas vozes juntas.

 

A diferença e a originalidade - não são sinónimos - estão bem presas.

 

Este facto, reporta-me finalmente aos adereços de Conan Osíris.

Se o rapaz usa uma lata na cara, sendo a lata mal moldada, mal colada, mal segura, mal desenhada, é apenas por não saber que Alexander McQueen já fez melhor.   

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A Gaffe dos 95 anos

rabiscado pela Gaffe, em 03.04.19

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Hoje, 03 de Abril, é o dia de aniversário de um dos mais belos animais do planeta.

Todos os superlativos se adequam a este bicho incrível e absurdamente completo.

Depois dele, nada mais se criou para figurar na capa do catálogo onde os Deuses revelam as suas obras mais perfeitas.     

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A Gaffe simbiótica

rabiscado pela Gaffe, em 03.04.19

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Sei que a minha vida depende da agenda dos outros.
Trata-se de uma relação mais simbiótica do que parasitária. Forneço a possibilidade de me controlarem a banalidade e, em troca, oferecem-me a capacidade de os manipular devagarinho, quando as questões me parecem vitais para o meu equilíbrio interior naturalmente instável.


Pode parecer cínico, mas é muito cómodo.


É-me indiferente o facto de, ontem ao fim da tarde, me terem arrancado do Porto, com uma mala desordenada e aborrecida, me terem enfiado no carro e me terem informado, finalmente, que iria passar uns repousantes dias no Douro, antes de partir para sempre.

 

- Desta vez não haverá mais florinhas para regar aqui. A priminha garantirá que restarão apenas as da tua cabeça.

 

Aprendi que se torna muito mais saudável se me deixar levar em vez de espernear e me debater em nome de causas que não afectam o que realmente desejo.


A maior parte das vezes, o controlo que pensamos exercer sobre a vida dos outros, não passa de uma forma subtil de sermos manipulados por eles.


Acordei hoje com os latidos furibundos da sucessora de Bórgia, a cadela Cartier, e com o chilrear de umas coisas com penas e com bicos, a minha Jacinta trouxe-me o pequeno-almoço e na bandeja havia beijos e ternura para barrar o pão quente e a minha prima, futura agente dupla, está no jardim a cantar desenfreada Singing in the rain.


Tudo está correcto. Tenho apenas de verificar a consistência dos fios dos fantoches.     

 

Ilustração - Catrin Welz-Stein

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A Gaffe do especialista

rabiscado pela Gaffe, em 02.04.19

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A Gaffe acaba de ouvir na SICN um especialista em transportes públicos a declarar que a diminuição do preço dos passes sociais é:

 

(…) uma coisa boa, porque as pessoas ficam com mais dinheiro para leite, tabaco e droga.

 

A Gaffe já desconfiava que as criaturas que utilizam os transportes públicos são todas imensamente estranhas, desde que as ouviu bradar contra a mudança de hora, naquelas coisas onde se encaixam os mais pobrezinhos enquanto esperam, desde as cinco da manhã, a fumar uns atrás dos outros - tabaco e pobres - e a beber leites gordíssimos - ninguém sabe bem porquê, pois que podem consumir em casa, ao pequeno-almoço, desde que se levantem um bocadinho mais cedo -, pelos autocarros que os levam aos mercados onde compram cocaína e heroína com o dinheiro destes descontos. Toda a gente que viaja de avião - que também é transporte público para as pessoas que ainda não compraram a TAP - sabe que esta pindérica mudança de hora é o jet lag dos pobres.      

 

Quem diz a verdade, não merece castigo, não é?

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