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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe e um blog

rabiscado pela Gaffe, em 26.12.12

Conta a minha santa avó que conheceu um cão, trôpego e lazarento, que todas as manhãs se aproximava do mar, esperava a onda mais suave, alçava a pata e cumpria o que normalmente se espera de todos os cães que alçam a pata, lazarentos ou não.
- Porque tudo acrescenta. – Concluía a minha santa o pensamento do bicho.
Numa versão que se coaduna muito mais com a neta, temos uma ondulante e esguia investigadora, do tipo CSI, cabelo ruivo a esvoaçar, blusa dois números abaixo do permitido pelos pneumologistas, de saia travada até esfolar os joelhos e estropiar as virilhas, a enterrar na areia os tacões agulha, transportando com cuidados desvelados a lamela onde uma gota de água treme ao ser depositada no azul espumado da onda mais suave.
- Porque tudo acrescenta.
A Gaffe, muito dada a oceânicas metáforas, descobre que as duas imagens ilustram de forma singular a evidência dos blogs que são somados às ondas.
- Todos acrescentam.
É evidente que alguns são os da pata alçada. Não falemos destes, porque tenho um gato. É evidente que a investigadora alça a pata (as duas? com certeza) mas em situações diferentes das que me trazem aqui. Ignoremos as que se vão evaporando de forma irreversível, interrompendo o ciclo da água sem dano nem agravo.
Gosto das que me encharcam nua na gota que acrescentam.
Admito, no entanto, frívola que sou, tonta de tão à superfície, que, de todas as gotículas, as minhas favoritas são as mais banais, porque é da banalidade a autoria de todos os argumentos, guiões e enredos da vida. Somos da banalidade, de corpo inteiro e alma aberta, apenas a disfarçamos com a pompa do que brilha e com a circunstância que permite o artifício e a ilusão.
Temos apenas de ter a certeza que não nos entramos, nem de pata alçada ou de tacão agulha, num workshoop de escrita criativa, coisa que sempre me intrigou, por me ser doloroso ter de admitir a existência de treinadores de criatividade, que nos aparecem a vender um book gift, depois de laurear, a preço substancial, as pevides da escrita dos tolos.
Em 2013, alguém devia criar um blog sobre o que acredita ser banal, para reconhecer depois o engano fascinante e descrever a viagem que ondula nos barcos que chegam no seguimento da coisa revelada.


Em alternativa, se é maçador este devaneio, há sempre a possibilidade, mais prosaica e simples, mas que é, sem a mais microscópica das dúvidas, única, genuinamente original:
Em 2013, alguém devia criar um blog sobre mim.

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