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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe em silêncio

rabiscado pela Gaffe, em 01.03.17
.

A hora em que não ouço este meu Porto.

 

Próxima do alvorecer, a hora do deserto interrompe as ruas e passa como um vadio com o silêncio nos bolsos. Nessa hora, o mar não tem queixume e dele apenas sinto as mudas ondulações das desbotadas ondas. É a hora das palavras por dizer. Chegam nos bolsos do vadio que passa, junto aos silêncios, e ficam presas nos frouxos candeeiros como frutos ou pedaços de gente bêbada, escura, que adormece.

 

Invento o meu ruído nessa hora. O que me faz ouvir o que nas outras horas emudece. Abro a porta da varanda e debruço-me nos bolsos dos vadios, dos que usam o silêncio como frutos ou travos de gente pendurada nos vagos candeeiros, e deixo que as palavras sigam deslumbradas como se tivessem nascido há pouco tempo e pasmadas se infiltrassem nos rochedos.

 

A minha hora muda é o silêncio dentro dos vadios e uma mulher com cabelos soltos, nua, a flutuar no rio.

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Gavetas:


10 rabiscos

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De Fleuma a 01.03.2017 às 12:04

Não gostaria de ser mal interpretado, mas já sentia saudades desta escrita. E sombras.

Saúde.
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De Gaffe a 01.03.2017 às 12:06

Mas acredite, meu querido Fleuma, que me é um bocadinho penosa.
Escolhi ser parva. É muito mais fácil.
:)
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De Fleuma a 01.03.2017 às 12:34

Porquê o espanto? Creio que nestes últimos dias ser parvo também tem sido um atributo meu.

Mas se é assim é bom para que não me sinta aborrecido.
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De Gaffe a 01.03.2017 às 13:17

:)
Tenho acompanhado a sua "demanda".
Procurar discernir um lampejo de dignidade - é curioso! quase que me atrevia a escrever feminilidade - onde ninguém se ergueu, ainda que por instantes, da indigência mental, é como tentar encontrar uma agulha num palheiro sabendo de antemão que ela lá não está.
Admiro-lhe - também - a enormíssima paciência, embora acredite haver limites até para o tempo que dispensamos ao vácuo histriónico.
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De Fleuma a 01.03.2017 às 15:28

Vou apenas desabafar um facto, Gaffe, desisto! Sinceramente.

Creio que só mesmo neste local consigo admitir esta fraqueza: desisto não porque me sinto derrotado, mas porque atingi um pico de frustração. Há muito que eu não testemunhava tamanha incapacidade de compreensão. Fico alarmado porque Gaffe, sinceramente, não existe nada! Zero. Não consigo extrair um pingo de senso comum daquilo. É desesperante o vácuo. É como estar a tentar fazer passar algo mas o tubo é demasiado estreito. Nada se solidifica. Cristo! É aterrador tanto espaço ermo e sem uma chama de lógica.

Desisto e como já disse só mesmo aqui me apeteceria extravasar esta frustração. Acredita que fiquei exausto com tão pouco?

Agradeço a paciência de ler e prometo que também ficará em paz. Pelo menos por mim.

Saúde
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De Gaffe a 01.03.2017 às 16:10

Mas eu não quero ficar "em paz" relativamente a si!
O meu querido Fleuma é inquietante. Isso fascina e é uma antítese da "pasmaceira" pacífica e ruminante.

Em relação ao seu desabafo, meu caro Fleuma, espanta-me apenas que não se tenha apercebido, desde o início, da vacuidade da estupidez - nunca "estupidez" foi tão bem empregue. Acredito no entanto que ficar na frente de um ser brutalmente imbecil e absurdamente vácuo, às vezes nos confunde.
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De Maria Araújo a 01.03.2017 às 15:53

Melancólicas doces palavras.
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De Gaffe a 01.03.2017 às 16:01

Às vezes apagam-me o dia.
:)
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De Kalila a 01.03.2017 às 21:02

Veio-me um arrepio pelo Douro gelado e outro pela delícia do texto.
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De Gaffe a 01.03.2017 às 21:55

:)
Frio em demasia. Temos de nos aquecer perto das palavras.
:)*

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