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Ilustração - Fernando Vicente


A Gaffe no tempo dos colégios

rabiscado pela Gaffe, em 10.10.13
.

Era uma menina doce no tempo dos colégios. Uma menina que ainda não tinha descoberto o tigre que solto caça e rasga a presa com veludo e garras de cetim e harpa. Tinha a quietude dos meigos que é a mais segura casa dos que tímidos afloram a superfície das coisas com cautela. Tinha a compostura das senhoras e a mais frágil solidez de alma que me lembre.

No início dos dias dos colégios, havia recital.

Havia um menino e um piano, uma rapariguinha triste no som de um violino, uma bailarina branca como cal, uma canção de ninar que entardecia e um pombo perdido a esvoaçar na sala.
Eu recitava:

 

E veio o Outono com passos de doente

E dedos de penumbra e suavidade

Pôr sobre a Natureza, lentamente,

Pétalas, espargir de uma saudade.

 

E a triste se ficou, serenamente,

Como quem vê perdida a mocidade.

Mas tão linda se fez à luz poente

Que se tornou menina sem idade.

 

E triste me ficava a ver-me ao longe no poema tonto que não compreendia.

Longe, os dias dos colégios são a memória desse Outono que vinha adoentado. Não os tenho a não ser no que me vejo ao longe, a recitar. Pequena como pétala ou como a penumbra que se encosta às portas do que agora sou, a ver-me ao longe.

Dentro desse tempo dos colégios e dentro dos Outonos que vieram, os olhos do meu avô são luz poente a fazer com que a menina tenha idade.

Dentro dos Outonos que vieram, nos outros recitais que eu não entendo, o meu avô debruça ainda o olhar sobre um poema e, mesmo por dizer, di-lo comigo.

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